quinta-feira, dezembro 01, 2016

LDM - Lanchas de Desembarque Médias no dispositivo naval da Guiné



Reserva Naval e LDM - Lanchas de Desembarque Médias


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 11 de Novembro de 2008)

Falar do dispositivo da Marinha de Guerra na Guiné sem mencionar as LDM – Lanchas de Desembarque Médias, significaria omitir a participação e actuação do mais representativo e empenhado tipo de unidades que ali permaneceram ao longo de uma dúzia de anos de conflito.

Num dispositivo progressivamente crescente, a partir de 1963 e tendo como referência o ano de 1971, chegaram a estar estacionadas na Guiné, atribuídas à Esquadrilha de Lanchas do CDMG, 31 LDM das classes 100, 200, 300 e 400, algumas delas com limitações operacionais ou imobilizadas. Apareceriam ainda as LDM classe 500, com as «LDM 501» a «LDM 506», renumerada na continuação da classe 300, das LDM 308 a LDM 313.



Grave injustiça seria ainda o não reconhecimento da dedicação, abnegação e estoicismo daquelas pequenas guarnições de seis homens que asseguravam permanentemente, as indispensáveis ligações fluviais no transporte de bens, populações civis, forças militares, abastecimento de víveres e água, quer a aldeamentos quer a aquartelamentos.

Efectuavam a fiscalização e patrulha dos rios, a sós ou com grupos de combate de fuzileiros embarcados, integravam o transporte e segurança de combóios logísticos e eram ainda parte fundamental da acção dos fuzileiros no transporte e desembarque em operações militares. Participavam também, ocasionalmente, em operações de busca e salvamento ou sempre que solicitadas.

Os longos períodos de permanência em cruzeiro a que por vezes estavam sujeitas, marcavam mais vincadamente as precárias condições de habitabilidade e a limitada capacidade de conservação de frescos para a alimentação, tendo muitas vezes de recorrer ao apoio suplementar de populações e aquartelamentos locais, por onde transitavam, até serem reabastecidos.

De norte a sul da Guiné, nas bacias hidrográficas e nos rios, foram sempre suporte básico e insubstituível apoio de todo o dispositivo operacional montado, coadjuvando e complementando LFG, LDG, LFP, DFE e CF em toda a actividade operacional.

Frequentemente emboscadas e flageladas em locais de passagem nos rios mais propícios a ataques desferidos das margens com todo o tipo de armamento, reagiram sempre com prontidão e eficácia. Em algumas situações, poucas no balanço geral de uma dúzia de anos, foram mesmo visadas com a montagem de minas aquáticas.

Na maioria dos casos, as consequências dos ataques quedaram-se na pronta resposta das guarnições que, corajosa e determinadamente, enfrentavam um inimigo invisível, dissimulado nas margens, calando-o ainda que com alguns impates ou pequenos danos nas lanchas; em alguns casos as consequências foram bem mais graves, havendo a registar pesados danos materiais com baixas em combate, feridos e mesmo mortos.

Foram incontáveis os exemplos de oficiais do QP e da Reserva Naval, fuzileiros ou sem o ser, de serviços em terra ou de outras unidades navais que embarcaram em LDM - Lanchas de Desembarque Médias, no desempenho de missões de comando para que foram nomeados em combóios logísticos, escoltas a navegação comercial, operações com forças de terra e ainda outras missões.

Vivi essa experiência pessoal quando, em 13 de Setembro de 1966, enquanto oficial imediato da LFG «Orion», na altura em cruzeiro no rio Cacine, fui nomeado para, na função de comando, embarcar na LDM 307, ali igualmente em serviço e participar na «Operação Sol» levada a cabo por forças de terra.

Navegámos até ao aquartelamento de Cabedú, no limite sul do Cantanhês, embarcámos a CCAÇ 1427 ali estacionada e, na madrugada seguinte, procedemos ao seu desembarque a sul da Ilha de Melo. Depois de realizada e concluída a acção prevista, efectuou-se o reembarque da companhia transportando-a novamente a Cabedú, após o que regressámos ao rio Cacine e à LFG «Orion», com o retomar das minhas habituais funções.

Foi para mim uma honra operar com tão experiente guarnição, a quem deixo aqui público e agradecido testemunho de apreço.


Fontes:
Texto do autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar da Comissão Cultural de Marinha; Arquivo de Marinha; Foto cedida pela Escola de Fuzileiros



Comentários:

Lucas disse...

Cordiais saudações!
Estou feliz pelo autor do texto e pela sua leitura, que muito agradeço.
Ao ler o texto, por sinal muito bem elaborado, recuei no tempo e no espaço e recordei com enorme tristeza e um forte peso no peito os longos, dias, semanas, meses e anos que passei na LDM 202, no período de 1968-1970. Realmente, tal como texto refere, não foi fácil ser tripulante de uma LDM por todas as razões associadas a uma guerra terrível.
Sem dúvida que todas as guarnições prestaram ao país um serviço exemplar, dedicado, empenhado e com elevado sentido de responsabilidade.
A minha mágoa, que ainda persiste, lamentavelmente, é que pouco ou nada se falou ou se escreveu sobre o serviço que as LDM e as suas tripulações prestaram, em especial na Guiné.
Valha-nos a feliz iniciativa do autor do texto, que não tenho o prazer de conhecer para lhe dar um afectuoso abraço de admiração e de reconhecimento pelas suas palavras escritas que tocaram fundo no meu coração.
Bem haja em meu nome e do nome de tantos camaradas que navegaram nos mares de sofrimento da linda e querida Guiné.
Com amizade, sou,
Luís Lucas DaSilva
segunda nov 17, 10:32:00 da tarde WET



mls disse...
Não fiz mais do que exprimir o meu sentir e o de muitos "marinheiros" que pela Guiné passaram.
Como noutros teatros...
Independentemente de ano, unidade e posto, hoje ainda camaradas ou ex-camaradas, apelo à partilha de vivências, relatos e imagens.
Em remada conjunta para o correcto registo de um "diário histórico" escrito por náuticas mãos.
A quem o desejar pode deixar o endereço radiotelegráfico pessoal em mlemasantos@gmail.com
Saudações navais,
mls
terça nov 18, 03:31:00 da tarde WET



NO BLOG disse...
Parabéns pelo excelente artigo sobre as LDM, com que deparei por acaso quando percorria a net em busca de dados para fazer uma réplica em miniatura. Por coincidência, na altura referida no artigo, era o meu pai (na época com a patente de Cabo M. José luis Nascimento) o "Patrão" da LDM 307, cargo que desempenhou entre 25/10/65 e 31/10/67. Ele tem para cá algumas velhas fotos da lancha, que me disponho a digitalizar e colocar à sua disposição, se tiver interesse. Em contrapartida, agradeço se me conseguir também disponibilizar fotos da LDM 307 em especial ou esquemas desta classe de lanchas, para poder continuar o meu projecto.
O meu e-mail é charlien666@gmail.com.
Os meus agradecimentos antecipados e sinceros cumprimentos,
Carlos Nascimento
quarta jul 15, 04:56:00 da tarde WEST



reservanaval disse...
Sensibilizam-me as suas palavras...
Recordo perfeitamente a Operação Sol a Cabedú e a LDM 307, bem como o Cabo Nascimento, Patrão da lancha, ainda que o nome se tivesse diluído no tempo.
Grande aventura na Guiné, essa com os meus três magros meses de comissão numa tão pesada tarefa para quem não era fuzileiro.
Não fora a já sólida experiência do seu pai e da guarnição que ele comandava, a angústia no desempenho da missão teria sido bem maior.
Excelente apoio da guarnição que virou formação intensiva para mim.
Reitero o meu cumprimento e saudação à guarnição dessa LDM e de todas as outras em geral!
mls
quarta jul 15, 09:51:00 da tarde WEST



Carlos disse...
Apesar de não ser "filho da escola", servi no Exército, na Guiné durante mais de 25 meses. Nas funções que desempenhava sempre ouvi histórias, dos mais operacionais dos vários ramos, que havia muito para contar acerca de determinadas forças especiais, a Marinha e a FAP, no desenvolvimento e no envolvimento da guerra da Guiné. Todos sabemos que as LDM's e a outro nivel as LDG's, foram os transportes mais frequentes nas condições dificeis. Por isso, ainda bem que alguém que sabe do assunto relembra um pouco da história destes meios e dos seus excepcionais operadores. Continue porque muito deve ter para contar. E é sempre bom dar a conhecer o que por ali se passou e relembrar aqueles que por lá passaram que há gente que não esquece.
segunda mar 08, 10:12:00 da tarde WET


mls

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