quinta-feira, dezembro 22, 2016

Reserva Naval nas LDG - Lanchas de Desembarque Grandes (5)


LDG «Bombarda»


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 24 de Janeiro de 2009)

A LDG «Bombarda» (LDG 201), Lancha de Desembarque Grande foi a primeira a ser construída e deu o nome àquela classe. Vieram a acrescentar-se-lhe mais tarde as LDG «Alabarda» (LDG 201) e «Bacamarte» (LDG 203), aumentadas ao efectivo respectivamente em 7 de Abril de 1971 e 2 de Agosto de 1985.

Tal como as suas antecessoras da classe «Alfange», basearam-se nas LCT (Landing Craft Tank) americanas e tratava-se de lanchas de assalto anfíbio destinadas a transportar tanques em desembarques nas «testas de praia» durante a segunda guerra mundial. Em relação às primeiras, algumas das principais características, armamento, equipamentos, máquinas e energia eléctrica foram significativamente alteradas.

Estas diferenças, que poderiam ter justificado a criação de uma nova classe logo na fase de construção deste navio, apenas bastante mais tarde se veio a concretizar, motivo pelo qual o número de costado da LDG «Bombarda», inicialmente como LDG 105, número de costado na continuação da LDG «Montante» (LDG 104), veio a ser alterada para LDG 201, em data não se conseguiu precisar.




A LDG «Bombarda» ainda com o número de costado "105"

Resumo geral das características principais:




Por explicar, ficou o numero de costado LDG 105 com que iniciou a vida operacional. Manteve esse número de costado ainda durante algum tempo e, mesmo já na Guiné, onde foi atribuída ao Comando de Defesa Marítima daquele território, terá efectuado um número indeterminado de missões antes de passar a constituir uma classe própria «Bombarda» a que deu o nome e que iniciou como LDG 201.

A procura e pesquisa de elementos informativos sobre esta situação que tentámos esclarecer, aquando da primeira publicação não resultou. Na altura apelidou-se a questão de «Enigma da LDG 105...» e, por oportuno, suscitou curiosidade e algum humor. Claro que a guarnição da LDG 105, teve existência virtual, ou não, dado que ostentou, ainda que temporariamente, aquele número de costado, mais tarde modificado para LDG 201.

Meses antes, um antigo oficial da Reserva Naval que mais tarde ingressou nos QP´s, a pedido, cedeu para reprodução e digitalização algumas fotos e slides de diversas Lanchas. A escassez de imagens, documentação e episódios referentes ao historial conjunto das 10 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes da classe "Argos", LFP - Lanchas de Fiscalização Pequenas, LDG - Lanchas de Desembarque grandes, LDM - Lanchas de Desembarque Médias ou LDP- Lanchas de Desembarque Pequenas, activas participantes nos diversos teatros da guerra em África, justificaram diligências para se conseguir uma disponibilidade adicional de material de ilustração.




Guiné, 1969 - A LDG »Bombarda» atracada em Bissau

Para surpresa, foi cedido um conjunto de slides que incluiu dois da LDG 105 a que, mais tarde, se juntou um outro efectuado na Guiné, desta feita disponibilizado por um antigo camarada do Exército. Na altura, veio ao de cima a inexistência oficial da LDG 105 e, numa normal atitude de curiosidade pela descoberta, foi confirmado que a unidade naval referida não constava no descritivo de qualquer Dicionário de Navios, nem figurava como construída ou aumentada ao efectivo em documentação institucional.

Então, como seria possível a existência de mais que um slide daquela mesma unidade, a LDG 105, com um look totalmente operacional, a navegar ou até atracada na ponte-cais em Bissau? De lado podiam colocar-se de lado possíveis e fantasiosas utilizações de trabalho de imagem com softwares apropriados, porque a simples observação complementada com a irrefutável existência de mais que um slide, a cores e no clássico formato 24x36 mm deixava, à partida, inviabilizado qualquer demonstrativo de montagem fotográfica.

Aqui se deixa o registo deste tão invulgar quanto insólito pormenor, não sem que tenha havido o cuidado de encontrar uma explicação plausível para aquele pormenor da LDG 105. Certamente existirá documentação oficial arquivada, explicativa para o facto.




Em 1969, na Guiné - Xime , a LDG «Bombarda» prepara-se para abicar com um contingente de tropas

Depois de vários ensaios e provas largou para Bissau em Julho onde atracou no dia 30 desse mês depois de ter escalado Cabo Verde.

Comandada pelo 1TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus teve como oficial imediato o STEN RN Luis Manuel Ferreira Marques do 13.º CFORN – Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval.

Transportava ainda os STEN RN João Manuel Nunes Vaz e STEN RN Alfredo Manuel de Paiva Pacheco, ambos oficiais da Reserva Naval igualmente do 13.º CFORN, que iriam assumir as funções de oficiais imediatos das LFG «Sagitário» e «Cassiopeia» respectivamente, ambas estacionadas na Guiné.




A caminho da Guiné, da esquerda para a direita:
STEN RN Luis Manuel Marques, STEN RN João Manuel Vaz e STEN RN Alfredo Paiva Pacheco


O segundo viria a estar presente mais tarde na operação «Mar Verde», como imediato da LFG «Dragão», em substituição do oficial da Reserva Naval que desempenhava as funções naquela unidade.

Apesar da boa cobertura cartográfica das bacias hidrográficas guineenses, o navio depressa foi solicitado para missões logísticas, em áreas situadas fora dos limites das áreas hidrografadas, o que, em associação com as difícies condições de manobrabilidade e de correntes ou marés, a situação de guerra que então se vivia, tornavam a sua condução num permanente acto de perícia marinheira e a sua segurança numa constante preocupação.




Momento de confraternização em Bissau, da esquerda para a direita:
STEN RN Alfredo Paiva Pacheco (LFG «Cassiopeia»), STEN RN João Manuel Vaz (LFG «Sagitário»), 1TEN Arnaldo Aguiar de Jesus (LDG «Bombarda»), STEN RN José Guerreiro Banza (LFP «Arcturus»), STEN FZ RN Sebastião Tavares Coutinho (CF 2), o Capelão do CDMG e dois oficiais não identificados


A LDG «Bombarda» navegou em todos os rios da Guiné, apoiou operações, sofreu algumas emboscadas armadas pelo PAIGC e transportou milhares de soldados, toneladas de abastecimentos, centenas de viaturas e outros materiais militares ou civis. Apesar do progressivo agravamento da situação militar, aquela LDG cumpriu sempre as missões que lhe foram atribuídas, abicando nos locais mais inacessíveis e de maior risco.

Em Novembro de 1970, entre os dias 17 e 27, participou na Operação «Mar Verde», juntamente com a LFG «Orion», LFG «Hidra», LFG «Cassiopeia», LFG «Dragão» e a LDG «Montante».

A 14 de Outubro de 1974, em conjunto com as LDG «Alfange», LDG «Ariete» e fragata «Roberto Ivens» – depois substituída pela corveta «Augusto Castilho» - rumou a Cabo Verde onde permaneceu até Junho de 1975, no apoio ao processo de descolonização em curso. Depois de efectuar diversas reparações, dirigiu-se a Las Palmas mas, com algumas avarias numa fase final da viagem, foi rebocada pela mesma corveta até àquele porto, onde atracou uma semana depois.

Novamente rebocada, desta feita pela FF «Almirante Pereira da Silva» rumou até ao porto do Funchal e finalmente para a Base Naval de Lisboa, onde chegou em 27 de Junho de 1975. Ali, veio a permanecer inoperativa até final de Maio de 1977*.




A LDG «Bombarda» abicada, agora já como LDG 201, em exercícios conjuntos com veículos anfíbios e fuzileiros

Até 1985 foram comandantes da LDG «Bombarda» os seguintes oficiais do QP:

1TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus, 24Abr69 a 18Abr71;
1TEN João Pedro Rodrigues da Conceição, 18Abr71 a 17Mar73;
1TEN Luís Gonçalves Marques Ribeiro, 17Mar73 a 28DEz74;
1TEN Norberto Saturnino Cordeiro Ventura, 28DEz74 a 06Ago75;
1TEN Luís Gonçalves Marques Bilreiro, 06Ago75 a 11Mai77;
1TEN Mário Ceriaco Dores Sousa, 11Mai77 a 29Set77;
1TEN Álvaro Sabino Guerreiro, 29Set77 a 17Set80 (a);
1TEN Joaquim Filipe Figueiredo Alves Gaspar, 21Jan82 a 23Abr82;
1TEN Lucíçio Francisco Branco Toscano, 23Abr82 a 15Set83;
1TEN Álvaro José da Cunha Lopes, 15Set83 a 17Set85;
1TEN Carlos Manuel Mina Henriques, 17Set85 a n/id;

Anota-se como curiosidade que o então 1TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus, mais tarde Contra-Almirante, já em 1963 tinha sido comandante da LFG «Argos», a primeira da classe e igualmente na viagem inaugural para a Guiné.

Até 1975, oficiais imediatos da LDG «Bombarda» os seguintes oficiais da Reserva Naval:

2TEN RN Luis Manuel Ferreira Marques, 13.º CFORN, 24Abr69 a 04Mai71;
2TEN RN Sebastião de Campos Salgado, 17.º CFORN, 04Mai71 a 03Fev73;
2TEN RN António José Geraldo Taborda, 20.º CFORN, 03Fev73 a 12Out74:
2TEN TE RN José Augusto de Freitas Carneiro, 24.º CFORN, 12Out74 a n/id;

No período de 17Set80 até 21Jan82 o navio teve dois encarregados de comando, sendo um o 2TEN António Rosário Rodrigues, não tendo sido possível, apesar das pesquisas efectuadas, determinar o nome do outro oficial encarregado de comando.

Naturalmente que, em períodos seguintes, terá havido outros oficiais imediatos quer dos Quadros Permanentes (depois de 1985) quer da Reserva Naval (depois de 1975) mas não foi efectuada qualquer pesquisa para lá dos registos efectuados até então.

Esteve durante cerca de dois meses numa missão de cooperação na República de Cabo Verde em 1979, participou em exercícios navais na costa continental portuguesa e em missões logísticas incluindo uma comissão no Arquipélago dos Açores.




Outro aspecto da LDG «Bombarda», veículos anfíbios e Fuzileiros em exercícios

Sofreu nova e prolongada imobilização de Julho de 1980, todo o ano de 1981 e até ao final de Abril de 1982, após o que voltou a estar operacionalmente integrada no dispositivo naval.

Em 5 de Outubro de 1985 encontrava-se atracada na Base Naval de Lisboa e mantinha-se ao efectivo dos navios da Armada.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 31 de Outubro de 1997.


*Passou ao estado de desarmamento com lotação especial, conforme OA 1.ª série, n.º 16 - anexo E, de 24 de Março de 1976 e voltou ao estado de armamento normal de acordo com a OA 1.ª série, n.º 17 – anexo L, de 20 de Abril de 1977.:

Fontes:
Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir de «Setenta e Cinco Anos no Mar - Lanchas», Comissão Cultural de Marinha, 2006; Revista da Armada; Lista da Armada; Anuário da Reserva Naval dos Comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado 1958-1975, 1992; fotos cedidas pelo 2TEN RN João Manuel Nunes Vaz (LFG «Sagitário») e Fur Mil Humberto Reis, Guiné-Xime, 1969;

mls

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