domingo, janeiro 15, 2017

NRP "Bérrio"...mas «bérrio» porquê?


NRP «Bérrio», o que poucas pessoas provavelmente sobre ele sabem

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 16 de Abril de 2012)




Dois registos do NRP «Bérrio», atracado e a navegar




Em tempo não muito recuado, 1993, a Armada Portuguesa baptizou de NRP «Bérrio» um navio reabastecedor de esquadra com 11.485 toneladas, construído no Reino Unido em 1970 e pertencente à classe Rover, navios conhecidos pela sua solidez e capacidade de operar nas condições de mar mais desfavoráveis. Tornou-se conhecido por ter acompanhado a fragata NRP «Vasco da Gama» durante o conflito na Guiné-Bissau em 1998.

Quando ouvi pela primeira vez dizer «Bérrio», como referindo a um navio da Marinha de Guerra Portuguesa, não liguei muito ao vocábulo embora tenha pensado que raio de nome para um navio.

A maior proximidade que encontrei para a aplicação do nome foi na utilização humorística da expressão corrente de que alguma coisa deu o bérriu. Mas, confirmadamente, é mesmo assim que se lê e pronuncia, «bérriu».

Academicamente sempre houve por aqui alguma rejeição ao aprendizado de História e o respectivo compêndio aprovado, da autoria de António Gonçalves Mattoso, «História de Portugal» - Editora Sá da Costa, 1949, não disponibilizou grande ajuda a esta minha necessidade genética de ensino apoiado naquela disciplina.

Em opinião pessoal muito minha, foi aborrecido e denso, nas notas sempre o esforço doseado, pelo mínimo indispensável, por forma não constituir problema, quase humilhante em relação à Matemática, Física e Desenho, áreas em que sempre naveguei com especial entusiasmo e resultados a corresponderem. Não ficou qualquer registo especial das aulas e tão pouco dos dois mestres que, em vão, fizeram esforço na transferência de algum conhecimento para a minha biblioteca cultural.

Nem a passagem pela Reserva Naval, algo alargada no tempo quando comparada com a normalidade dos camaradas, terá melhorado aquela predisposição ficando-me, à época, pelo conhecimento reduzido quer do NA «Sam Brás» (1942-1980) e, mais tarde, do NA «S. Gabriel» (1963-1995). Nunca pisei o convés de qualquer deles e também posso juntar ao meu ramalhete de desconhecimento quer o NA «S. Miguel» (1985-1993), quer o NA «S. Rafael» (1965-1976).

Três deles, «S. Miguel», «S. Gabriel» e «S. Rafael», ostentaram os nomes dos mais famosos arcanjos da história do catolicismo e das religiões. Representam, respectivamente, ninguém é como Deus, Deus é meu protector e Deus te cura. Simbolizam a alta hierarquia dos anjos-chefes e são celebrados a 29 de Setembro.

Em meados daquele ano findo, no «Dia da AORN» , comemorado a bordo do NTM «Creoula» em 24 de Setembro, lá tropecei outra vez no perfil imponente navio de reabastecimento de esquadra, NRP «Bérrio», atracado num dos cais da Base Naval de Lisboa. Captei alguns registos fotográficos e resolvi espreitar uma ocasião propícia à abordagem do tema.

Em lugar de me abalançar a efectuar textos descritivos de características técnicas, equipamentos, armamento, capacidade, missões, já detalhadamente publicados por diversas entidades e instituições, optei pela origem histórica do nome de baptismo daquela unidade naval, até porque naquele navio não terá navegado qualquer oficial da Reserva Naval.




«São Gabriel», «São Rafael» e «Bérrio» c. de 1558. Ilustração do "Roteiro da viagem" de Álvaro Velho

«Bérrio» era o nome de uma das embarcações da expedição de Vasco da Gama que descobriu o caminho marítimo para a Índia.

Chamou-se assim por ter sido vendida ao Rei D. Manuel I, para fazer parte da frota da Índia, pelo seu proprietário, D. Manuel de Bérrio, natural de Lagos, que a aparelhou por ser conceituado piloto na época.

Era uma caravela latina - envergava velas triangulares que lhe permitiam bolinar melhor - robusta e veloz, com 30 metros de comprimento, três mastros e 50 toneis de porte (1 tonel igual a cerca de 1.000 litros), equivalente a cerca de 50 toneladas.




Partida das naus «São Gabriel», «São Rafael» e «Bérrio» da Torre da Belém

A «Bérrio» partiu de Lisboa a 8 de Julho de 1497, juntamente com as naus - embarcações que utilizavam pano redondo - «São Gabriel» e «São Rafael», cada uma com 90 tonéis, bem como uma carraca de mantimentos com 110 tonéis, sem nome ou «São Miguel», segundo alguns historiadores.

Sendo a mais leve e rápida da frota, a «Bérrio» foi a primeira embarcação a regressar a Lisboa a 10 de Julho de 1499, sob o comando de Nicolau Coelho e tendo como piloto Pêro Escobar, que mais tarde acompanhariam a frota de Pedro Álvares Cabral na sua viagem de descoberta do Brasil em 1500.




1996 - Nota de 2.000$00, anverso com a efígie de Bartolomeu Dias e visível a nau Bérrio no verso



Figura esta caravela «Bérrio» nas notas de 2.000$00 e de 10.000$00 da República Portuguesa em série evocativa do 5º Centenário dos Descobrimentos Portugueses, bem como numa colecção da Fosforeira Portuguesa; consta também de uma colecção de 3 medalhas comemorativas da Grande Regata Vasco da Gama 98, Lisboa Sail ’98, editadas pela APORVELA em colaboração com o Banco Português de Investimentos. Existe ainda um modelo à escala 1:500 na Sala dos Descobrimentos do Museu de Marinha em Lisboa.




1997 - Nota de 10.000$00, anverso com a efígie de Infante D. Henrique e visível a nau Bérrio no verso



Há dúvidas sobre se o navio "Bérrio" seria uma caravela latina, ou uma caravela redonda (utilizada pelos navegadores portugueses desde, pelo menos, 1470) conforme parece desenhada no «Livro das Armadas», ou mesmo uma nau conforme se poderá deduzir do relato da viagem de Álvaro Velho no livro «Roteiro».

O nome de «Bérrio» já tinha sido usado num navio com 400 toneladas da Marinha Portuguesa, mandado construir em França durante o reinado de D. Carlos (1897-1930) e, posteriormente (1930-1947) transformado em navio-hidrográfico, tendo sido utilizado no levantamento da costa de Moçambique e entretanto abatido ao efectivo.

A caravela «Bérrio» aparece também no Vitral da Capela do Palácio da Pena por cima do ombro direito de D.Manuel I, navegando no horizonte com as velas cheias ao vento, numa tipologia identificável pelo formato das velas nos três mastros que será precisamente a «Bérrio».







Fontes:
Texto e imagens de arquivo do autor do blogue com recurso a:
- «Dicionário de Navios», Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006;
- https://pt.wikipedia.org/wiki/NRP_B%C3%A9rrio_(1993);
- http://www.flickr.com/photos/emoitas/2290123010/sizes/o/in/photostream/;
- http://www.comshalom.org/; http://zescudo.blogspot.pt/;
- http://www.slideshare.net/BisMarques/notas-de-escudo;
- http://parquedapena.no.sapo.pt/berrio_vitral.htm.


mls

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