quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Fragata "Pero Escobar" (3)


Como foi oficializado o nome Gina da Fragata «Pero Escobar»?

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 10 de Agosto de 2009)




A FF «Pero Escobar» - a Gina, em mudança de formatura


Quem conta um conto acrescenta um ponto. Também será assim, mesmo em documentação histórica?

Factos vividos pelas mesmas personagens, quando narrados por cada um dos participantes, assumem rostos diversos, fruto de matrizes interpretativas diferentes, transferidas para um texto.

Desde 1957 que o heterónimo Gina, com que a rapaziada da Briosa baptizou a Fragata «Pero Escobar», marcou a imaginação de sucessivas gerações de marinheiros. No meu caso, possivelmente como no de muitos outros, ainda que

Contudo, na minha matriz de conhecimentos adquiridos sobre o tema, figuravam até agora as ideias de madrinha, retrato autografado e viagem a Itália, podendo facilmente traduzirem-se num convite, na aceitação da actriz e na oferta de uma fotografia autografada em simples visita ao navio.

Nada se passou desta maneira e a citação integral, a seguir feita, de um artigo publicado na Revista da Armada nº 364, de Maio de 2003, sob o título “Património Cultural de Marinha – Peças para Recordar”, mostra bem a importância fulcral da pesquisa e recolha em memória histórica.


Citação:

A «Pero Escobar» era uma fragata ligeira (1250 ton), cedida pela NATO a Portugal. Foi construída nos Estaleiros de Castellamar di Stábia em Itália e aumentada ao Efectivo dos Navios da Armada em 30 de Junho de 1957.

Era um navio sob o ponto de vista bélico deficientemente equipado, mas possuía uma instalação propulsora poderosa constituída por 2 turbinas «Ansaldo» de 2x12000 shp e 2 caldeiras aquitubulares de alta pressão «Fosterwheeler» que lhe proporcionavam uma velocidade máxima muito significativa de 33 nós.

Face às suas características era utilizada normalmente em missões de fiscalização e controlo do mar, viagens de instrução e soberania.

Talvez por ser um navio muito bonito designadamente na convergência das linhas de proa e do convés, assim como na forma da chaminé e sua inserção nas superestruturas, desde muito cedo, na gíria naval a fragata passou a ser conhecida por Gina, e era muito vulgar nas conversas entre marinheiros quando se abordava a fragata, esta ser tratada apenas por aquela designação.

Obviamente que a comparação tinha a sua lógica na harmonia entre as linhas do navio e as da artista de cinema Gina Lollobrigida e ainda porque ambos eram originários de Itália. Efectivamente Lollobrigida era na época uma actriz italiana de grande popularidade, muito conhecida pela sua beleza. Interpretou diversos filmes tendo ficado célebre a sua actuação na película «O Trapézio».

Certo dia em Março de 1962, o navio depois de escalar o Porto Grande de S. Vicente de Cabo Verde e Bissau, em viagem de instrução de cadetes, chega ao Funchal, porto onde é oferecida uma recepção às autoridades locais.

Entre os convidados encontrava-se o Consul Geral da Itália, Senhor Emanuele Valle, pessoa muito popular no meio local, que em conversa amena com os oficiais e cadetes ficou a saber que a fragata era conhecida por Gina e das razões que a tal levaram.

Apesar de não conhecer pessoalmente a célebre actriz, talvez por razões de nacionalidade ou até pelas funções que desempenhava, mas principalmente pela sua maneira de ser, o Sr. Emanuele Valle escreveu a Gina Lollobrigida contando-lhe o caso.

O tempo foi passando e um dia em Agosto com o navio atracado na Base Naval de Lisboa, o Comandante entra a bordo trazendo um grande envelope, devidamente cartonado e dirigindo-se para a Câmara de Oficiais, estava-se perto da hora do almoço, abre a encomenda, e qual não foi o nosso espanto quando com uma carta do Consul surge uma enorme fotografia da actriz italiana com a seguinte dedicatória:


Al Comandante e agli Ufficiali della NRP «Pero Escobar» con l’augurio sincero che la loro bella nave esca sempre vittoriosa da qualunque cimento.
Roma, 1962 - Gina Lollobrigida


Ao Comandante e Oficiais do NRP «Pero Escobar» com o voto sincero de que o seu belo navio saia sempre vitorioso de todos os perigos.
Roma, 1962 - Gina Lollobrigida






Tratava-se de um belíssimo retrato de Gina, de perfil, ostentando um lindissímo diadema de brilhantes.

Surgiu então uma questão complicada. A Câmara de Oficiais da «Pero Escobar» era relativamente pequena, estando as anteparas quase completamente ocupadas com armários e vigias, excepto num local onde já se encontrava a fotografia do Presidente da República.

A colocação da fotografia de Gina na Câmara como era vontade de todos constituía o problema. Mas eis que um dos oficiais presentes teve um vislumbre e em tom muito respeitador dirigiu-se ao Comandante afirmando que – uma vez que o Comandante tinha na sua Camarinha o estandarte nacional e era ali que tratava dos assuntos oficiais, seria natural que também lá tivesse a fotografia do Presidente da República. A ideia a todos convenceu, incluindo o Comandante e assim a fotografia de Gina Lollobrigida pôde ser colocada na Câmara de Oficiais.

Mais tarde o Comandante e os Oficiais num gesto de reconhecimento e agradecimento, enviaram para Gina Lollobrigida uma grande fotografia do navio com as seguintes palavras:


À grande actriz Gina Lollobrigida, o Comandante e Oficiais do NRP «Pero Escobar» na homenagem à eterna beleza e harmonia de linhas, Lisboa – 1962.

Na Câmara de Oficiais da «Pero Escobar» o retrato era o orgulho da sua guarnição e motivo de visita de muitas pessoas que o queriam admirar. Quando o navio foi abatido em 1976, a sua última guarnição, num gesto digno de louvor, não se esqueceu de remeter a já famosa fotografia para o Museu de Marinha.

E, é pois no Museu de Marinha, que se encontra o retrato de Gina Lollobrigida, que perpetua não só a famosa actriz, mas recorda também a fragata «Pero Escobar» e as suas guarnições, no terceiro quartel do século XX.


Museu de Marinha
(Texto de Luís Roque Martins, CALM EMQ
Director da Revista da Armada)


Fim de citação;



Outras publicações da Fragata «Pero Escobar»:


Fontes:
Museu de Marinha; Revista da Armada 25 - Outubro 1973; Revista da Armada 364 - Maio 2003;

mls

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