sábado, março 25, 2017

Galeria Reserva Naval (1)


Comandante Adriano Chuquere e Reserva Naval

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Agosto de 2009)


No espaço afectivo de cada oficial da Reserva Naval, ficou certamente alocada uma área reservada para avaliações pessoais e institucionais que cada um daqueles oficiais foi registando ao longo do seu percurso dentro da Marinha.

Apreciação e avaliação de Unidades e Serviços onde estiveram integrados, mas também de Comandos em que serviram ou de Guarnições que comandaram, ao serviço Marinha por que optaram no cumprimento de um dever cívico, onde também só lhes foi dado ingressar por escolha selectiva daquela mesma Instituição.

Muito mais do que avaliar militares no cumprimento de funções e missões – disso se encarregarão a própria Instituição e a História – cada qual registou memórias de locais, encontros, acontecimentos, episódios, vivências com camaradas, populações, pessoas e até rotinas.

Em muitos casos, esse diário da caminhada, nem sempre isenta de escolhos, foi suavizada por gratificantes convivências com personalidades de notável dimensão cultural e humana, pela forma competente, cordial, afável e bem humorada com que lideravam uma equipa sob o seu comando ou como nela se integravam.




O CMG Adriano Augusto Loureiro de Chuquere Gonçalves da Cunha.

Ainda que a subjectividade da selecção implique sempre o risco de alguma injustiça colateral, afirmaria que o Comandante Adriano Augusto Loureiro de Chuquere Gonçalves da Cunha corresponderia a um escrutínio alargado de possíveis escolhas dentro do universo Reserva Naval, escolha que eu próprio subscrevo, ainda que não alicerçada em alargada convivência pessoal.

Não se trata de efectuar qualquer biografia do Comandante Chuquere, objectivo que excederia saber e competência pessoais, mas antes alinhavar uma manta de retalhos de vivências havidas por uma mão cheia de oficiais da Reserva Naval que passaram sob o seu Comando, de Unidades Navais até ao Estado-Maior da Armada e da Madeira a Metangula, no Lago Niassa.

Depois de ter sido Director da Escola A/S de 1956/58 e Ajudante de Campo do Ministro da Defesa Nacional, de 1959/61, o Comandante Chuquere desempenhou, na Guiné, então como primeiro-tenente, as funções de Oficial Imediato do NRP «Tejo», de meados de 1961 até ao início de 1962 mas, ainda que nessa altura estivessem já preparadas as primeiras levas de oficiais da Reserva Naval que iriam desempenhar missões além-mar, a nenhum coube ser oficial da guarnição daquela unidade naval.




O navio-patrulha «Maio» nos Açores

Mais tarde, enquanto comandante do Patrulha «Maio», de 1962 a 1965, foram seus oficiais imediatos o 2TEN RN Gabriel Ângelo Silos de Medeiros, do 1º CEORN, de 13 de Março a 20 de Agosto de 1963 e, seguidamente, o 2TEN RN Mário Alberto Duarte Donas, igualmente do 1º CEORN, até 27 de Novembro de 1964 (passou seguidamente ao NRP «Santa Luzia» até 16 de Fevereiro de 1965 e, nessa altura, passou ao NRP «Porto Santo».

Sobre essa passagem pelos navios-patrulhas, em artigo da Revista da Armada nº 18 - Março 1973, subordinado ao título “Reserva Naval – Retalhos da vida do mar” e referindo-se ao 2TEN RN Mário Alberto Duarte Donas relatava o Comandante Chuquere:

"...Serviu como imediato do patrulha que eu então comandava, na última fase da sua longa permanência na Marinha, pois a sua passagem por cá prolongou-se por cinco anos, o que, para um oficial da Reserva Naval, não é comum.
Estive com ele há pouco tempo quando veio a Lisboa, ainda antes do último Natal e, demonstrando-me muita amizade e certa saudade me visitou, acompanhado da sua mulher e de dois filhos que eu ainda não conhecia.
Durante essa curta visita, a Marinha foi tema!
Verifiquei que no meu ex-imediato – hoje senhor engenheiro esplendidamente colocado numa grande empresa do Norte – o gosto e o entusiasmo que contraiu pela Armada se mantinham intactos.
Recordámos nessa noite cenas das comissões feitas no navio, especialmente da última, com 10 meses passados nos Açores, episódios vários da rotina de bordo, momentos agradáveis e situações de “rascada”, expectativas em manobras havidas, mas sobretudo, e sem disso especialmente falarmos, transpareceu na sua conversa, no modo como mostrava aos filhos as fotos do nosso ex-navio e outras dos meus álbuns navais, a satisfação que tivera em ter sido “destas casas”, na vida que passámos juntos, em que ele fora, ainda que episodicamente, um homem do mar.
Depois, naturalmente, veio uma troca de palavras sobre a sua actual situação, a sua vida de agora, como estava satisfeito, como vivia com gosto, dedicado à profissão que escolhera ditada pela sua vocação.
Dizia ele: De facto, comandante, estou muito satisfeito, mas quero-lhe dizer que não me importo nada, antes gosto e tenho muita honra em que o senhor, quando se distrai, me continue a tratar por imediato.
Julgo que não foi só episódica a passagem do senhor engenheiro pelo Mar!..."


No período de 1965 a 1968, já como oficial superior, desempenhou as funções de Comandante da Defesa Marítima do Porto de Caminha e veio a ser nomeado para a Chefia do Estado-Maior do Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, em Metangula, no início do ano de 1969.

Durante quase dois anos, no âmbito das funções que assumiu, com cunho muito pessoal, dinamizou empenhadamente as vertentes cultural e social da vida naquela base naval, de que se destacam, como exemplos, o «Tchifuli» e o «Cancioneiro do Niassa»*.




O monte «Tchifuli»

O «Tchifuli», nome da montanha sobranceira à Base Naval de Metangula, era também o nome atribuído ao jornal do Comando da Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, com um “corpo de redactores e jornalistas” constituído por pessoal da guarnição, impresso a copiador, com anedotas, textos, poemas e entrevistas.

Destacam-se, por exemplo, uma entrevista com o escultor de arte indígena "Mustaphá Makuindja" e outra com a Directora da Escola Primária de Metangula, em que a professora, Dona Ana Maria, descreve as actividades da Escola e a vivência dos seus 146 alunos, apenas dois dos quais eram brancos.




Também um postal alusivo a Metangula, desenhado e colorido pela Sra. Dª Rosa Gallego Fraxenet Gonçalves da Cunha – para todos a Sra. Dª Rosita e mulher do Comandante Chuquere - que deixou uma imagem marcante num apelo turístico à zona, em que os motivos incluíam a silhueta de uma vamp e de uma «infra-estrutura hoteleira» com as encorajadoras head-lines de «Passe as Férias em Metangula»*, "Descubra um Paraíso Secreto" e «Ténis - Desportos náuticos - Piscina - Praia».

Foram muitos os oficiais dos Quadros Permanentes ou da Reserva Naval, já referidos em anteriores publicações, que com o Comandante Chuquere colaboraram e conviveram em Metangula, enquanto Chefe de Estado-Maior do Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, mística memória histórica da Marinha que ainda hoje é recreada e mantida viva.


Depois de regressar o Comandante Chuquere desempenhou as seguintes funções:

• Chefe do Serviço de Publicações do Estado-Maior da Armada e integrou, desde o seu início, a Redacção da Revista da Armada, 1971/73;

• Nomeado para desempenhar funções em Norfolk, no SACLANT, até 1976;

• Chefe do Estado-Maior do Comando Naval do Continente, 1976/77, tendo sido promovido a Capitão-de-Mar-e-Guerra;

• Comandante do NRP «S. Gabriel», 1977/79;

• Comandante Naval da Madeira e Capitão do Porto do Funchal, 1979/84;





O NRP «S. Gabriel"» a navegar

O facto de o Comandante Chuquere ter dirigido o último serviço em que prestei serviço na Marinha e onde dele fui adjunto, no Estado-Maior da Armada – Serviço de Publicações, em 1971/72, incentivou-me a deixar aqui mais este testemunho pessoal.

* Do «Cancioneiro do Niassa» efectuaremos um post específico;

Fontes:

Arquivo de Marinha; Revistas da Armada números 18 (Março 1973) e 26 (Novembro 1873); Apontamentos cedidos pelo Almirante Joaquim Espadinha Galo enquanto Comandante da Esquadrilha de Lanchas do Niassa; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha - Lanchas, 2006;

mls

1 comentário:

José Botelho Leal disse...

Muito merecida esta evocação do Comandante Chuquere de quem guardo sentimentos de respeito e de saudade. Aquando do Comando do NRP Maio, por razões conjunturais, fiz nos Açores um Cruzeiro BT (batitermógrafo) naquele navio onde curiosamente todos os ofciais eram tenentes: 1ºTenente Chuquere, 2ºtenente RN Medeiros, 2º tenente RN Donas e Subten RN Lucas.
Mais tarde trabalhei sob as suas ordens em Metangula. Gratas e indeléveis recordações. Rendo homenagem à sua memória.
VALM (ref) J.M. Botelho Leal.