domingo, abril 02, 2017

Cancioneiro do Niassa (1)


Edição de Metangula, 1968/69

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Agosto de 2009)




Adaptação de uma artística interpretação do «Cancioneiro do Niassa».


Largo período de tempo decorreu entre o pensamento e o acto equivalente de publicar o «Cancioneiro do Niassa» – Edição de Metangula, ainda que dispondo de originais cedidos por antigos camaradas de Marinha que entenderam, numa inequívoca manifestação de confiança, disponibilizarem-nos sem restrições quanto à sua publicação.

Algumas discrepâncias encontradas em diferentes versões, várias delas já por mim ouvidas, a minha não participação na génese do tema e alguma controvérsia relativamente à autoria de algumas letras e melodias, suscitaram em mim um resguardo alargado de prudência, retardando a sua publicação.

Com a vinda a lume desta interessante versão documental, apenas pode ficar enriquecida a memória histórica da Marinha, do Exército, dos Militares dos Quadros Permanentes ou da Reserva Naval que lhe deram corpo e dos próprios leitores que se identificam com a história recente do país da segunda metade do século passado, neste caso a vivida na Base Naval de Metangula, Lago Niassa, em Moçambique.

Trata-se de uma versão "Edição de Metangula" como originalmente foi cantada e gravada em 1968/69 e à qual entendemos nada acrescentar, publicando-a sem comentários.

(citação:) "...

O “Cancioneiro do Niassa”, é uma colectânea de vinte e oito fados e canções, que tem como assunto central a vida dos militares em serviço no Niassa no final da década de 60 e a forma nostálgica, humorística e de crítica, por vezes azeda, como olhavam o mundo exterior.

À excepção do Hino do Lunho, que foi escrito por um oficial miliciano do Exército, e porventura um ou outro de sabor menos naval, todos os restantes “nasceram” na Marinha, em Metangula, em sessões de paródia musical, muito apoiadas pelo Comandante Adriano Chuquere e pelo Comandante Conceição e Silva.

Algumas das letras, adaptadas às melodias em voga nessa época, eram como que de autoria colectiva em que um dava ideia de um assunto a tratar, outro de um verso e ainda outro de uma rima e assim se divertiam e partiam “muita pedra” até se chegar à versão final que depois o Major Correia, vizinho dum Batalhão do Exército, que também participava nestas reuniões, tratava de dactilografar.

Esta diversidade de origens faz contudo realçar uma variedade temática facilmente detectada através de todas as letras e é nessa variedade que reside precisamente o maior interesse folclórico e documental do Cancioneiro como testemunho duma época e como tradução do sentir daqueles que a viveram.

Da cassete do Cancioneiro do Niassa é narrador o saudoso Comandante Chuquere Gonçalves da Cunha, sendo do 2TEN RN FZ Rodeia Peneque a voz que canta, ele próprio acompanhando-se à viola. Esta cassete é cópia de uma pertencente ao Comandante Caxaria que a trouxe quando terminou a Comissão em Metangula.

Nas sessões de fados era figura essencial o “Bettencourt das partituras”, o 2TEN FZ RN Bettencourt Dias, que organizava o material necessário para as sessões em que, a partir de certa altura, passou também a colaborar o Sargento Ribeiro que tocava guitarra.


..." (final de citação)

Dada a extensão da documentação que totaliza vinte e nove temas, publicaremos nesta primeira abordagem as seguintes sete composições com a identificação das versões originais de que foram adaptadas:

“Fado do Checa”, “Fado do Turra das Minas”, “Fado do Turra”, “Hino do Lunho”, “Fado do Destacamento Veterano”, “Fado das Comparações” e o “Fado do Estado-Maior”.

Em próxima publicação traremos a lume outras sete composições, a saber: o “Fado da Escuridão”, “Fado do Buldozer”, “Fado da Júlia Golpista”, “Fado a Metangula”, “Fado da Despedida”, “Fado das Partituras” e o “Fado do Render da Guarda”.

As “locuções” que antecedem cada interpretação são efectuadas pelo Comandante Adriano Augusto de Chuquere Gonçalves da Cunha, à data Chefe do Estado-Maior do Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa e as interpretações são do 2TEN FZ RN João António Rodeia Peneque, do 10.º CFORN, que integrava a Companhia de Fuzileiros n.º 4 ali estacionada.

Numa derradeira fase pretendemos, depois de um mais aprofundado estudo da documentação existente, dar a conhecer a situação de outras composições menos conhecidas: “Fado do Desertor”, “Fado da Reserva Naval”, “Fado dos Cabeças de Oiro”, “Fado por Escolha”, Povo que C…. no Lago”, “Lamento do Niassa”, “Fado Cristina”, “Fado João Peneque”, “Fado a Um Autor Desconhecido”, “Fado Alferes Machado”, “Fado Major Correia”, “Fado das Promessas”, “Fado da Rendição” e “Fado da Bronca”.

Este trabalho está especialmente alicerçado num CD-ROM distribuído em 24 de Maio de 2003, por ocasião de um almoço de «Gente de Metangula», em Azeitão, em casa do Prof. Doutor Ricardo Manuel Migães de Campos, o nosso saudoso 2TEN MN RN Ricado de Campos do 11.º CFORN que, há quase meio século atrás, «tratava da saúde» do pessoal em Metangula, no Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa.

Até ao seu recente desaparecimento do nosso convívio, dinamizou sempre um alargado “Núcleo de Metangula”, conjuntamente com o Almirante Joaquim Espadinha Galo, cedendo ambos também a necessária documentação.

No decorrer do trabalho e reportando à data, são ainda referidos o CFR João da Fonseca Caxaria, Comandante da Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, o CTEN Guilherme George Conceição e Silva, Chefe do Serviço do Pessoal do Comando Naval de Moçambique, o 2TEN FZ RN João Alberto de Bettencourt Dias, do 11.º CFORN que integrava igualmente a Companhia de Fuzileiros n.º 4, o Major José Correia e o Sargento Ribeiro.

A todos os que directamente participaram mas também a todos os que o tendo feito não estão mencionados, e aqui os lembramos, fica a dever-se uma importante e criativa sátira humorística, enriquecida pelas achegas que cada militar que ali deixou parte do seu tempo de vida, interpretou, modificou ou até acrescentou, de forma mais ou menos acutilante.

Aqui deixamos o link para o mp3 playlist das primeiras sete interpretações:



Fontes:
Apontamentos cedidos pelo Almirante Joaquim Espadinha Galo e pelo 2TEN RN MN Ricardo Manuel Migães de Campos, do 11.º CFORN; Arquivo de Marinha;

mls

2 comentários:

Antides disse...

O fado, canção portuguesa com raízes árabes, esteve conosco (desculpem a supressão de um N) no Niassa. Aos poetas tudo é permitido, ou quase. Julgo que mesmo os nossos "inimigos" de então desculparão o termo turras...
Eles e nós temos feridas a sarar e várias décadas já passaram.

Antides disse...

"Este CONOSCO" o fado... O triste fado da falta de diálogo, de tentar o acordo, que só pode partir de cedências bilaterais. O resultado foram 13 anos de guerra, e os mais que se seguiram.
Quanto à língua, hoje, não é, para tantos lúcidos utentes dela, "assunto encerrado"; a prova é que, só na minha terra adoptiva, dois respeitáveis semanários seguem vias diferente...