quinta-feira, maio 25, 2017

Guiné, 1964 - Operação «Hitler» no rio Camexibó


STEN RN Abel Fernando Machado de Oliveira - 5.º CEORN, ferido em combate na Operação «Hitler»

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Fevereiro de 2010)


Esta operação foi antecedida de um cuidadoso planeamento por parte do Comando de Defesa Marítima da Guiné com base em alguns pressupostos importantes.

O PAIGC, no decorrer do ano de 1963 tinha-se apoderado de várias embarcações comerciais de que, com algum significado, podem referir-se a «Mensageira» e a «Persistente», ambas à vela e semelhantes nas dimensões ou na capacidade de carga, a «Mirandela», a «Arouca» e o «Bandim» todas com motor e casco de ferro, com características restantes variadas e ainda a «Bissau», também com casco de ferro mas à vela, como as primeiras.

Havia o propósito claro de o PAIGC vir a utilizá-las no transporte de armas, munições, pessoal e abastecimentos a partir das bases de Kadigné, Sansalé e Kandiafara, instaladas na Guiné Conakry, na região de Boké, para lá da fronteira sul do nosso território.

Kandiafara representava como que uma testa de ponte para o início do apelidado "Corredor de Guileje".



Em cima: O curso do rio Cacine, para montante da povoação com o mesmo nome, sendo visíveis, a noroeste, os aquartelamentos de Gadamael(Porto) e Guileje, e a norte, no rio Cumbijã, as povoações de Bedanda e Cufar, ambas com pistas de aviação.
Em baixo: A barra do rio Cacine, a povoação onde existiu um aquartelamento com um grupo em Cameconde, a cerca de oito quilómetros, as povoações de Cabedú e Cacoca e as ilhas da Canefaque e Cambom cortornadas pelos rios, Camexibó, Nhafuane e Inxanche, este último fronteira natural com a Guiné Conakry.




À época, a ainda não existência de cartas hidrográficas dos rios Cacine e Cumbijã dificultava qualquer tipo de acção naquela zona pelo que decidiu o Comando de Defesa Marítima da Guiné efectuar o reconhecimento prévio.

Para isso socorreu-se da presença do NH «Pedro Nunes» na área que se encontrava a efectuar trabalhos hidrográficos na barra do rio Cacine e que, com apoio do radar, conduziu a navegação da LDM 305 na entrada do rio Camexibó, com a guarnição reforçada com elementos da Companhia de Fuzileiros n.º 3.

A 26 de Fevereiro de 1964, praticamente na preia-mar e sem bandeira, a lancha entrou naquele rio surpreendendo, quase de seguida, nas margens, um grupo inimigo a curta distâcia. Depois de breve troca de vozes à distância, e antecipando-se, a lancha abriu fogo sobre a margem. O grupo abandonou o local deixando várias baixas no terreno.

Depois de continuar a progressão para montante, já de bandeira içada, verificou-se ser possível contornar as ilhas de Canefaque e Cambom com uma embarcação do tipo LDM, utilizando os rios Camexibó, Nhafuane e Inxanche.

No dia seguinte, aquando do regresso, na aproximação à foz, com a maré próxima do estofo da baixa-mar, foi a lancha defrontada com a existência de uma saliência rochosa impeditiva da saída. A necessidade de aguardar pela enchente com melhores condições de maré, deu tempo a que fosse montada violenta emboscada das duas margens a que a guarnição respondeu com todo o armamento, rechaçando o ataque.

Após mais alguns confrontos e a destruição de várias canoas foi efectuado o regresso a Bissau, em 1 de Março, com a certeza de que o inimigo estava muito bem armado na zona e que podia progredir para Cassumba, Cassantene e Campeane sem ter de utilizar o rio Cacine. Podia efectuar todo o tipo de abastecimentos a partir do interior da Guiné Conakry utilizando, para o transporte, aquele curso de água fronteiriço, o rio Inxanche.

Depois de análise detalhada das informações disponíveis, de fotografia aérea da zona e dos levantamentos hidrográficos efectuados até à data, foi decidido pelo CDMG lançar a operação de nome de código «Hitler», comandada pelo 1TEN Alpoim Calvão do DFE 8.

Numa primeira tentativa, a 30 de Abril de 1964 largaram de Bissau para a marca Samba, na foz do rio Cacine, a LFG “Dragão” e as LDM’s 304 e 306. Foram montar emboscadas no rio Nhafuane, com pessoal num ilhéu, complementadas com botes junto á base de Kadigné.

Era objectivo a intercepção de qualquer embarcação que demandasse aquele rio para montante, visando o transporte de armas e pessoal para, através das ilhas de Cambom e Canefaque, cambarem para as zonas de Campeane, Cassumba, Cassebeche e Cassantene sem recorrerem ao rio Cacine.

O grupo era comandado pelo STEN FZE RN Abel Machado de Oliveira, do 5.º CEORN que ficaria emboscado no ilhéu. Em 1 de Maio, já noite fechada, foi ali desembarcado pela LDM 306 que, além de material de combate, levava também material de distracção diverso, livros e revistas.Com uma espera a adivinhar-se longa era necessário passar o tempo.

Na ida para montante a lancha foi flagelada e, depois de largar pessoal e material, inverteu rumo com dificuldade devido à escassa largura do rio, já no regresso, foi novamente atacada, de ambas as vezes sem consequências.

As condições de permanência ali eram, só por si, extremamente agrestes. A amplitude de marés e o início da estação das chuvas obrigavam a que o pessoal se mantivesse empoleirado na vegetação com metro meio de altura de água na preia-mar.

No dia 5, a impossibilidade de posicionar botes na proximidade de Kadigné e as informações negativas recolhidas de um prisioneiro sobre eventual tráfego do PAIGC na zona levaram, no conjunto, a cancelar a operação e adiá-la para dia 15, montando o mesmo dispositivo.

Desta feita, com tornados eminentes, as condições tornaram-se ainda piores e o navio de apoio, a LFP “Canopus”, via-se em palpos de aranha para aguentar a mareta sem garrar. Alpoim Calvão decidiu-se pela retirada.

A LDM 306 recolheu o exausto pessoal confinado ao ilhéu do rio Nhafuane e, depois de uma difícil manobra de inversão, iniciou o percurso ascendente. Ainda bem longe da foz, com tempo e bem preparado, o inimigo tinha posicionado em ambas as margens um corredor de fogo superior a duas milhas, com armamento ligeiro, metralhadoras pesadas e morteiro.

A guarnição da LDM e reforços, reagiram prontamente com todo o armamento disponível conseguindo ultrapasssar com êxito a zona de morte mas sofrendo a lancha 58 impates.




STEN RN Abel Fernando Machado de Oliveira - 5.º CEORN
Medalha da Cruz de Guerra de 3.ª classe


O STEN FZE RN Abel Fernando Machado de Oliveira foi atingido por um estilhaço, ficando gravemente ferido na cabeça o que obrigou à sua evacuação. Veio a ser agraciado com a Medalha da Cruz de Guerra de 3.ª classe.


As operações naquela zona foram suspensas e, apenas cinco anos depois, se regressou operacionalmente àquela área.


Foi Comandante do DFE 8 o 1TEN Guilherme Almor de Alpoim Calvão, seu Imediato o 2TEN José Manuel Malhão Pereira e 3.º Oficial o STEN FZE RN Abel Machado de Oliveira. Este último, ferido em combate, veio a ser substituído pelo 2TEN RN FZE José Luis Couceiro;

Comandava a CF3 o 1TEN Alexandre de Carvalho Wandschneider, era seu Imediato o 1TEN Fernando Bernardino Pinto, ambos dos QP's e os restantes oficiais, os 2TEN FZ RN Manuel Hernâni Barros Gomes de Vallera, 2TEN FZ RN António Fernando Salgado Soares e 2TEN FZ RN Bernardino António Dias de Oliveira, todos do 5.º CEORN, além do STEN MN Fernando Benedito Andres;

Comandava a LFG «Dragão» a 1TEN José Alberto Lopes Carvalheira e era seu Imediato o 2TEN RN Godofredo dos Santos Marques dos Reis;

Comandava a LFP «Canopus» o 2TEN RN Luis Pinto Fernandes Sequeira do 4º CEORN;

Fontes:
Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África 1961/74 - Guiné, Luis Sanches de Baêna, 2006; texto compilado de "De Conakry ao M.D.L.P.", Alpoim Calvão, 1976; fotos de arquivo do autor do blogue; pormenores da Carta da Província da Guiné, Ministério do Ultramar, 1961; Arquivo da Marinha; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Ordem da Armada 1.ª Série n.º 33 de 17.7.1964;


mls

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