domingo, agosto 13, 2017

Guiné, anos 60/70 - Marinha e Logística


As LDG - Lanchas de Desembarque Grandes na estratégia logística da Guiné

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Julho de 2009)




Em termos simplificados de caracterização de território, salvo a parte leste do interior, seria correcto afirmar que a Guiné era um enorme somatório de ilhas e penínsulas. Cada pequena parcela de terreno encontrava-se rodeado de água por todos os lados e, frequentemente, nem era muito fácil ou possível distinguir, para quem lá navegasse, entre ilha e península se não estivessem disponíveis os instrumentos de navegação indispensáveis.

As marés marcavam a diferença e o ritmo, com desníveis próximos de quatro metros, entre estofo de preia e baixa-mar, consoante o local e época do ano, diminuindo ou aumentando, neste fluxo e refluxo, a área continental em quase vinte por cento da superfície do território.




Bela imagem da LDG «Alfange» com tornado eminente

Na planificação efectuada, em todos os exercícios e operações que envolvessem meios navais, era uma das principais variáveis a ter em conta como precioso auxiliar. Os tempos dispendidos nas deslocações poderiam ser substancialmente reduzidos e, para as unidades navais com mais baixas velocidades de cruzeiro, caso das LDG, LDM e LFP, era incontornável a consideração de tal mais valia.

Naturalmente que, aquelas características de teatro militar exigiram à Marinha, desde muito cedo, uma bem sustentada rede de transportes marítimos e fluviais, ampliada no tempo e na capacidade, de forma a suprir as necessidades logísticas crescentes dos três ramos das Forças Armadas.




LDG «Alfange» no rio Cacheu, uma moldura humana habitual na chegada ou regresso de contingentes de tropas; em primeiro plano, uma metralhadora MG42 da asa da ponte da LFG - Lancha de Fiscalização Grande que procede à escolta

Os transportes de tropas fizeram chegar a Bissau, por via marítima, milhares de militares em sucessivas vagas de contingentes chegadas de Portugal Continental e muitos outros milhares de toneladas de abastecimentos ou material, parte de toda uma logística de abastecimento da população e das unidades militares estacionadas no território.

De acordo com a estratégia definida e as directivas emanadas do Comandante-Chefe, essa gigantesca tarefa foi sempre atribuição da Marinha garantindo, a partir de e para Bissau, ou de outro qualquer local, a gestão dos meios navais disponíveis no transporte de militares, populações, abastecimentos, equipamentos e todo o tipo de carga.




Guiné, 1971 - LDG «Alfange» largando da Ponte-Cais em Bissau para mais uma missão de transporte de pessoal e material

Este crescendo de necessidades condicionou o necessário reequipamento da Marinha com as LDG – Lanchas de Desembarque Grandes, que desempenharam um papel fulcral em toda a logística da Guiné, a partir de 10 de Outubro de 1965 com a LDG «Alfange», posteriormente em 21 de Maio de 1966 com a LDG «Montante» e finalmente em 30 de Julho de 1969 com a LDG «Bombarda».

Efectuaram múltiplas missões, no rio Cacheu escalando e/ou abicando em Vila Cacheu, S. Vicente, Ingoré, Antotinha, Ganturé, Binta ou Farim; no rio Mansoa em Teixeira Pinto; no rio Geba, além de Bissau, Porto Gole, Enxudé, Gampará, Xime e Bambadinca; no rio Grande de Buba em Bolama, Fulacunda e Buba; no rio Cumbijã em Cafine, Cadique, Cufar, Impungueda e Chugué; no rio Cacine em Cacine e Gadamael; nos Bijagós em variados locais.



Guiné, 1971 - A LDG «Alfange» abicada em Bolama

Os numerosos transportes de militares e abastecimentos, aliados a manobras lentas e difíceis, tornaram-nos sempre apetecidos alvos para embocadas e flagelações. Ripostaram sempre prontamente, repelindo-as e cumprindo sempre as missões, ainda que registando algumas baixas ao longo do tempo.

Uma verdadeira multidão de militares, veículos e todo o tipo de mercadorias inundava o convés e o poço, numa amálgama indescritível, enquanto a algazarra dos militares embarcados aumentava o risco geral, pela atenção despertada nos locais de passagem.




Guiné, 1971 - A LDG «Alfange» abicada em Farim, na parte final da faina de descarga de material

Foram sempre solicitados para missões logísticas, dentro ou fora dos limites das áreas hidrografadas, o que, em associação com a sua lentidão e difíceis condições de manobrabilidade, as especiais condições de correntes e marés, e ainda a situação de guerra então vivida, tornavam as suas missões verdadeiras epopeias e a sua segurança numa constante preocupação, obrigando frequentemente à escolta por outras unidades navais, as LFG – Lanchas de Fiscalização Grandes ou as LFP – Lanchas de Fiscalização Pequenas, apoiadas por grupos de combate de Fuzileiros e também com a FAP – Força Aérea Portuguesa, em alerta solo, consoante os percursos efectuados.

O armamento original da LDG «Bombarda», com peças Bofors de 40 mm e lança-foguetes de 37 mm, também já instalados na altura nas LDG «Alfange» e LDG «Montante», melhorou consideravelmente a resposta nesse capítulo.




Guiné, 1971 - LDG «Alfange» no rio Cacine, inicia uma faina de descarga

Deve-se-lhes, em conjunto com as LDM, o escrupuloso cumprimento de uma gigantesca tarefa da Marinha que nunca foi suficientemente enaltecida, nem da qual está iniciada a memória histórica.

LDG - Lancha de Desembarque Grande
LFG - Lancha de Fiscalização Grande
LFP - Lancha de Fiscalização Pequena
LDM - Lancha de Desembarque Média
FAP - Força Aérea Portuguesa


Fontes:
Fotos do Arquivo de Marinha e do autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha - Lanchas, 2006;


mls

Sem comentários: