segunda-feira, agosto 07, 2017

Reserva Naval na LFP «Bellatrix», P 363 - Parte II


Guiné, 1970 - Minha Querida «Bellatrix» = NRP 363 - Parte II

(continuação)

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 18 de Fevereiro de 2010)




Na foto da esquerda, ainda nos estaleiros onde foi construída, a LFP «Bellatrix» efectua provas de mar e, na foto da direita, procede-se ao seu carregamento no transporte que a traria para Portugal


A Apollo XIII

Um dia, estava eu muito no quentinho no Cacheu, quando me apareceu o radiotelegrafista com cara de caso.

– “Oh! Homem, o que é que se passa?” pergunto­-lhe eu, ao que me responde meio acabrunhado – “Senhor Comandante, chegou agora uma mensagem que eu não percebo e que parece que não é de Bissau...”.

O Comando de Defesa Marítima da Guiné, em Bissau, era como já se calcula a única entidade que se correspondia connosco diariamente em código.

– “Então descodifica lá isso!”

– “Não sou capaz...”

– “Mau, mostra lá isso, então?” atiro­-lhe eu já curioso.

E à fria análise do meu olhar arguto, revelou­-se a dura realidade: a mensagem era cifrada!

– “Eh! pá, atão tu não vês qu’isso é uma mensagem cifrada? Decifra já isso, homem!”

Aí começa-­me ele a gaguejar: – “É qu’ê cá... ê cá nan sei, nan sei decifrar mensagens...”

– “Mau, então não te ensinaram isso em Vila Franca?” digo-­lhe eu, já com ar severo.

–“Ensinaram, sô comandante, mas é que ... é qu’eu já me esqueci, nunca mais pratiquei...”

Estou feito, pensei eu, que também nunca mais tinha praticado! E lá fomos à procura da máquina da cifra e mais dos dossiers adequados à resolução do problema.




Panorama de Vila Cacheu vista do meio do rio

Ao fim de algumas três horas, ou mais, de porfiados esforços, lá tínhamos a máquina actualizada e pronta a começar o serviço. E começaram a aparecer as primeiras indicações: FLASH!!! SECRETO!!! E, pânico, a mensagem vinha directamente para o comandante da «Bellatrix», de Sexa, o CEMA, o autêntico, o verdadeiro e genuíno, o do Terreiro do Paço!!!

E no final de mais de duas horas, finalmente a mensagem foi decifrada.

Para encurtar razões, tratava-­se do seguinte: a cápsula Apollo XIII, a do programa espacial da NASA (e do filme), a cumprir missão no espaço, tinha tido uma avaria nos sistemas de navegação e mostrava­-se incapaz de tornar à Terra automaticamente, como estava previsto, tendo de regressar “em manual”, isto é, sob manobra directa dos astronautas.

Isso determinou que a NATO lançasse um alerta geral e atribuísse, a cada navio dos seus parceiros, uma determinada área de responsabilidade, na eventualidade da cápsula não amarar, como estava previsto no plano de voo inicial, numa zona do Pacífico.

E à «Bellatrix» calhou, e era isso que dizia a mensagem, um quadradinho no Atlântico, entre a Guiné e Cabo Verde, para onde eu, já em estado de prontidão, me deveria deslocar tão rápido quanto me fosse ordenado, e lá assegurar a devida protecção aos astronautas até à chegada de quem de direito.

O curioso é que, com os consumos de combustível e as performances de que a lancha então era capaz, se eu atestasse os depósitos à partida, a minha autonomia só me permitia chegar ao ponto de encontro. Para o regresso teria de vir a reboque, já se vê...

Mas enfim, tudo está bem quando acaba bem e, graças a Deus, a Apollo XIII amarou exactamente onde devia, no Pacífico.

O Buba

O Rio Grande do Buba, assim chamado, não tinha nada a ver com o Cacheu. Era uma ria grande e larga, espraiada, de águas limpas e claras, com a savana a chegar às margens.




Vista aérea de Bolama, no rio Grande de Buba

Riquíssimo em peixe (em quantidade e qualidade), de tal modo que atrás já foquei, se pescava diariamente o almoço e o jantar. Na minha estreia no Buba, e na primeira maré que lá passámos, fui ver a faina da pesca.
As linhas eram cordéis e os anzóis, alfinetes revirados. Isco, quando o punham, era uma côdea de pão.

E mesmo assim, mal a primeira linha tocou a água, logo um pargo, um belo pargo aí de vinte e cinco ou trinta centímetros, começou a ser recolhido. Mas esse não o provámos, que vinha ele já metade fora de água quando, vinda lá de baixo, uma bicuda com um metro, levou pargo, anzol, ponta da linha e tudo o mais. Por estas e por outras é que, no Buba, só se pescava com estopro de aço.

E era assim que, com vinte ou trinta minutos de pesca diária, assegurávamos o peixe fresco (e que peixe!) para as refeições.

No Buba, o calor exterior e a temperatura e limpidez da água convidavam ao mergulho. Mas aí o receio eram os tubarões, que os havia naquelas águas. E então, no pressuposto de que os tubarões fogem do ruído, inventou­-se a piscina oceânica de águas permanentemente correntes e com limites definidos, com cintura flexível de segurança sonora, a saber: um voluntário, normalmente um dos fogueiros, saltava para o zebro - entretanto já com os paneiros reparados e um motor espectacular de 50 hp em vez dos habituais 35 hp das outras lanchas – e começava a desenhar círculos centrados na "Bellatrix" e um raio de aproximadamente seis metros, enquanto os banhistas evolucionavam graciosamente que nem Esther Williams, na zona de segurança.

E assim se passava o tempo.

Apesar de tudo foi no Buba que, um dia, apanhei um susto. Estava no meio de um cruzeiro, quando fui mandado levar um combóio de batelões à foz do Cumbijã, no sul.

Não era habitual interromper um cruzeiro, mas qualquer conjunto de circunstâncias determinou a inoperacionalidade simultânea de várias lanchas e não houve outra alternativa senão mandarem­-me a mim na missão.

Lá fui eu e correu tudo sem problemas. Mas como tinha de regressar imediatamente ao Buba, em vez de passar a noite no Cumbijã, voltei sem parar.

Isso determinou que tenha estado trinta e tal horas sem dormir. Por isso, quando me apanhei de novo no Buba, já passada Bolama e porque, aquelas águas nessa altura, para além de calmas já nos eram familiares, entreguei a Ponte ao Mestre que me assegurou que eu podia ir descansar um pouco. E assim fiz.

Mas ainda não estava a dormir há uma hora quando acordei em sobressalto, com um pressentimento e, ao subir à Ponte, fiquei estarrecido: o Mestre confundira alguma referência e, na grande bifurcação do Buba, quando ele se dividia em duas braças aparentemente iguais, em vez de inflectir para leste, como devia, inflectiu para norte, para um local temível onde, em tempos, fora apoiar uma LDM num abastecimento a Fulacunda, mas isso com cobertura aérea. Mas, enfim, lá fizémos 180 graus e nada de anormal aconteceu, graças a Deus.

A Operação quase Nino

Foi dos episódios mais emocionantes vividos na Guiné, enquanto Comandante da «Bellatrix».

Um fim de tarde, no Buba, estávamos já fundeados para o período da noite, a cerca de uma milha da última curva antes do troço final que levava ao aquartelamento, e eu a tomar um copo, a ler e à espera da hora de jantar, quando fui abordado por três zebros dos fuzileiros do Buba, numa operação habitual ao fim de tarde – um saque ao meu Gin!

Às 19:45 - o quarto rendia às 20:00 - aparentemente satisfeitos, os “assaltantes” retiraram.

E eu, que costumava render a praça de quarto para que pudessem jantar todos juntos, continuei no convés com ar contemplativo, observando os zebros que se afastavam. E quando começavam a desaparecer na curva do rio, reparei com espanto num estralejar por cima deles.

Fiquei perplexo: não era hábito na Guiné, e muito menos tinha eu notícia de algum fogo de artifício na zona. De repente, caí em mim. Aquilo era um ataque e os botes estavam a ser atacados.Dei o alarme na lancha e via rádio. Avançámos para o local. Mas, entre levantar ferro, arrancar com o navio e chegar ao local à velocidade “vertiginosa” da «Bellatrix», passou pelo menos meia hora.

Fazendo fogo para onde me parecia que provinham os morteiros, continuei durante algum tempo nesta acção. E soubera já, entretanto, que ninguém tinha sido atingido nos botes, embora houvesse a registar um furo numa das secções de uma das embarcações.

E fui ficando por ali a ver no que é que aquilo dava, até que ao fim p’raí duma hora, apareceu a todo o vapor uma LFG - Lancha de Fiscalização Grande, disparando afanosamente. A cena passou­-se, acabei o cruzeiro e voltei para Bissau onde cheguei ao fim da tarde e, cumprindo a rotina, fui ao Estado-Maior apresentar-­me.




1974 - Porto de Bissau visto do Quartel da Amura; no horizonte a Corveta »Honório Barreto»

Era 5ª feira. Aí fui às minhas premissas, lavei-­me, vesti­-me em função do dia e fui para a Messe para o jantar do ronco. Entro e vejo o Segundo Comandante na outra ponta da sala, junto ao Bar, acenando na minha direcção.

Olho para trás e, como não vejo ninguém, pergunto gestualmente:

– É comigo?, ao que o senhor Segundo Comandante acenou afirmativamente. Estranho e vou ter com ele. Quando chego à sua beira ele, entusiasmadíssimo, diz­-me de chofre:

–”Parabéns, você matou o Nino!” Nem mais nem menos, o Nino, o Vieira propriamente dito. Eu estranhei aquilo e perguntei, timidamente:

–”Como senhor Comandante?” E expliquei­-lhe o que se tinha passado.

–”Sim, o Nino”, insistiu ele. E, chamando o Oficial de Informações:

– “Oh! Comandante, não é verdade?”

– “É verdade, está confirmado.”

– “Vê (?), está confirmado!”

E eu, nada convencido, voltei a contar a história, fundamentei-­a com um cálculo de probabilidades e, finalmente, usei o argumento final:

– “E é que além disso, senhor Comandante, os meus Pais ensinaram­-me em pequenino que as armas de fogo são muito perigosas e que nunca se apontam para ninguém, e eu não me canso de repetir isso aos meus homens. Por isso, está a ver, senhor Comandante, não pode ter acontecido na minha lancha...”

Como se constata pela História recente, eu tinha razão...

De quando a «Bellatrix» ia às Ostras

Fui duas ou três vezes à foz do Cumbijã. O abastecimento de Bedanda e de outros aquartelamentos para aqueles lados era feito por combóios de batelões – às vezes mais de dez – através do Cumbijã, apoiados por uma LDM.

Competia, no entanto, às LFP o apoio de navegação a esses combóios até à foz do referido rio, ziguezagueando pelos bancos de areia, em animada ronda de bóias inexistentes, entre os Bijagós e terra firme.

As missões começavam, normalmente, em Bissau com o "briefing" dos comandantes onde, para além de se apresentar o plano de viagem, se recomendava expressamente aos «skippers» dos batelões que marcassem cuidadosamente os pontos de viragem da LFP, para só aí virarem por sua vez e, desse modo, evitarem os baixios e os inconvenientes encalhanços.

Trabalho inglório!...

Os batelões avariavam a uma média de dois cada três horas.

Que é como quem diz: ainda Bissau estava à vista e já o combóio se estendia por algumas três ou quatro vezes o seu comprimento à partida, inciando-­se a partir daí, a inevitável prática do atalhanço.

Que, por sua vez, determinava o início dos encalhanços...

Que praticamente duplicava o número de paragens imprevistas... – uma vez até a LDM se avariou!...

E assim sucessivamente até ao seu destino, dentro do Cumbijã, entre a ilha de Como e um areal, onde normalmente se pernoitava. No dia seguinte, regressávamos à Base e o restante combóio continuava rio acima, sob o comando da LDM.

Mas, como em tudo, também havia coisas boas – as ostras!

As ostras do Tombali.

Na Guiné, havia duas qualidades de ostras: as do tarrafo e as da rocha. As da rocha, em mar aberto, eram naturalmente as melhores, mais limpas, mais frescas, melhor depuradas, batidas que eram pelas ondas. E dessas, as de maior fama eram as dos baixios do Tombali.

E posso testemunhá-­lo, graças a Deus! Graças a Deus e a cuidadosos planeamentos que faziam coincidir a passagem da «Bellatrix» no local com as horas da marés vazas. Parava­-se (normalmente para reparar uma avaria ligeira), arriava-­se o bote e lá se iam encher os baldes com as afrodisíacas bivalves.

E depois era fartar das ditas, com um branquinho que nunca nos faltou.

Até tenho saudades...

Epílogo

E foi assim a minha passagem de seis meses pela «Bellatrix»: curta, mas marcante.

Depois, ainda fiquei mais um ano na Guiné (que eu já fora para lá com licenciatura), mas agora em comissão civil.

Estávamos em plena acção psico-­social, Congresso dos Povos de Guiné, etc., e o General Spínola, ao tempo Governador, requisitou­-me à Marinha e colocou-­me como Agrónomo nos serviços de Veterinária, onde um dos meus principais entretenimentos era andar de tabanca em tabanca a inaugurar bebedouros para vacas.

E a brincar, a brincar, foi aí que andei de Chaimite, de pica em coluna no mato, e tive outras experiências bem mais desagradáveis.

E saudades da Bellatrix...

Mas isso são outras histórias.





José Manuel da Costa Bual
14.º CFORN


(final)

Fontes:
Texto de artigo publicado na Revista n.º 12 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abril 2000; fotos de arquivo do autor do blogue, Arquivo da Marinha e 2TEN RN Abel Melo e Sousa, do 20.º CFORN;

mls

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