sábado, setembro 09, 2017

As Alcunhas dos Navios


"Por este nome se conhecem"...

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 8 de Maio de 2010)


O Comandante Carlos Alberto da Encarnação Gomes, publicou ao tempo a criativa e inovadora compilação «Por este nome se conhecem – As alcunhas dos navios». Foi resultado de um notável trabalho de investigação, reflexo do senso crítico histórico, fino chiste humorístico, usos e costumes dos homens do mar como refere na sua “Introdução”:




...A ideia para a elaboração da presente compilação ocorreu-me quando, recentemente, ao consultar uns documentos do século XVI, me deparei com a existência de duas naus referenciadas que indubitavelmente, seriam as respectivas alcunhas, na circunstância a nau "Cu de Chumbo" e a "Nau do Surdo"...

Numa edição da Comissão Cultural da Marinha, 2010, é também uma invulgar publicação que inclui alguns “epítetos” de todos conhecidos, em franca consonância com alguns navios Reserva Naval – unidades onde serviram aqueles oficiais – de que transcrevemos alguns exemplos:



Bela Actriz – Alcunha atribuída à Lancha de Ficalização Pequena NRP «Bellatrix» que, desde 1961, prestava serviço na Guiné. A alcunha é um claro trocadilho do nome e resultou da reacção peculiar adoptada na sequência de um ataque sofrido, reacção essa que, alguém ao tomar conhecimento do sucedido, terá dito ter sido uma representação, digna de uma boa actriz.




A LFP «Bellatrix» navegando no rio Cobade, na Guiné



Branca de Neve – Alcunha atribuída à Lancha de Fiscalização Pequena, NRP «Deneb» que, desde 1961, se encontrava na Guiné. A alcunha, claro trocadilho do nome, foi-lhe posta quando, após uma reparação, a pintura exterior, usualmente verde acastanhado escuro, surgiu bem mais clara que a das outras lanchas.




A LFP «Deneb» navegando na Guiné, não ostentando então a brancura que a alcunha sugere



Gina – A Gina é, sem sombra de dúvida, a alcunha mais popular, nos dias de hoje, de qualquer navio português e o seu conhecimento vai muito para além do meio da Marinha de Guerra. A fragata NRP “Pero Escobar”, ao serviço desde 1957, foi construída em Itália e apresentava, quando comparada com os restantes navios da Marinha de Guerra, uma elegância de formas assinalável, facto esse que levou a que o associassem à actriz de cinema Gina Lollobrigida, também ela italiana e igualmente bem elegante de formas, A actriz em causa, quando tomou conhecimento deste facto, fez oferta ao navio de uma fotografia sua com dedicatória, fotografia essa que hoje se encontra no museu da Marinha.



A "Gina", sem dúvida a alcunha mais conhecida de um navio.



"Velha Senhora" – Alcunha, posta na Guiné por volta de 1971, ao NRP “Lira”. O navio era, então, o que se encontrava em piores condições, de propulsão, armamento e até de aspecto exterior, Apesar destas limitações o navio continuou, durante ainda um largo período de tempo, a manter a actividade operacional tal como se estivesse novo.



A "Velha Senhora", navegando na Guiné.



Estas são apenas algumas de entre as mais de 600 alcunhas que figuram na edição publicada.

Como informação adicional e utilizando as alcunhas que ganharam, a Bela Actriz, a Branca de Neve e a Velha Senhora efectuaram todo o seu tempo de vida operacional no teatro da Guiné, na Guerra do Ultramar, entre os anos de 1961 e 1974, tendo a última integrado a “Incrível Armada” para Angola. A Gina, embora pontualmente, também lá aportou com cadetes da Reserva Naval em viagem de instrução.

Sem a pretensão de traçar qualquer perfil pessoal ou militar do Comandante Encarnação Gomes, foi singular o paralelismo entre parte da sua carreira de Oficial dos QP e o de muitos Oficiais da Reserva Naval.

Assim:

Em 1965/66, na Guiné, desempenhou as funções de Oficial Imediato do DFE 10 - Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 10, um tipo de unidades onde sempre desempenharam missões oficiais da Reserva Naval;

Em 1967/69 foi o primeiro Comandante Lancha de Fiscalização «Dom Jeremias», lugar desempenhado posteriormente por vários oficiais da Reserva Naval;

Em 1971/73, ainda na Guiné, foi Comandante da «Velha Senhora», a LFG «Lira», um dos 10 navios com fundamentada memória histórica, em que os oficiais imediatos foram maioritariamente da Reserva Naval;

Aqui deixo expresso o meu público agradecimento pela simpatia e amizade demonstradas bem como a elevada apreciação pelo trabalho realizado.


Fontes:
Por este nome se conhecem (As alcunhas dos navios) - Carlos Alberto da Encarnação Gomes, Edições Culturais da Marinha, 2010; Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha, Vols 15.º e 16.º, 2004/2005; Imagens de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;


mls

4 comentários:

Carlos Alberto disse...

Meu caro Lema Santos
Muito grato pelos comentários às Alcunhas , tão mais grato quanto injustos eles são . Voltando ao CAJU seguindo o que parecia ser uma tradição da Lira também ele andava frequentemente com o verde e o vermelho dos farois de borda à volta dos olhos .
Um abraço do E. Gomes

Bárbara disse...

Boa Tarde, vim aqui ter por acaso quando pesquisava pela NRP Pero Escobar, com base na caderneta militar do meu pai onde consta que esteve embarcado nesse navio entre junho de 1957 e março de 59. Foi pois estrear o navio! Não sabia que a ele se dava a alcunha de Gina, mas a história parece-me maravilhosa. O meu pai era um apaixonado por cinema, na sua juventude e quando tinha dispensas e podia, muitos das uas tardes eram no cinema em Lisboa, gostava ele tb de dar alcunhas a actores de cinema como o Fred às tiras e outros. Não me custava nada a acreditar que ele ou os colegas tenham batizado o navio. Como posso saber mais sobre esta história?
Cumprimentos

Bárbara disse...

Boa Tarde, vim aqui ter por acaso quando pesquisava pela NRP Pero Escobar, com base na caderneta militar do meu pai onde consta que esteve embarcado nesse navio entre junho de 1957 e março de 59. Foi pois estrear o navio! Não sabia que a ele se dava a alcunha de Gina, mas a história parece-me maravilhosa. O meu pai era um apaixonado por cinema, na sua juventude e quando tinha dispensas e podia, muitos das uas tardes eram no cinema em Lisboa, gostava ele tb de dar alcunhas a actores de cinema como o Fred às tiras e outros. Não me custava nada a acreditar que ele ou os colegas tenham batizado o navio. Como posso saber mais sobre esta história?
Cumprimentos

mls disse...

Congratulo-me com a sua visita, acrescentando um cumprimento especial ao familiar de um elemento das diversas guarnições da "Gina".
A fragata “Pero Escobar” tornou-se um símbolo na História da Reserva Naval, por ter sido o primeiro navio onde embarcaram, para a viagem de instrução, em Fevereiro de 1959, os cadetes do 1º CEORN-Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval. Itália seria o destino desta viagem.
Aliás seria, esta uma das unidades que recebeu os Aspirantes da Reserva Naval Sousa Ferreira, Castro Guerra e Paiva Pinto, no primeiro destacamento de Oficiais RN para navios da Armada.
Encontrará informação complementar noutros posts do mesmo blogue em:
http://www.reservanaval.blogspot.pt/2009/07/fragata-pero-escobar-1.html
http://www.reservanaval.blogspot.pt/2009/07/fragata-pero-escobar-2.html
http://www.reservanaval.blogspot.pt/2009/08/fragata-pero-escobar-3.html
Entretanto mantenho a minha disponibilidade para qualquer esclarecimento adicional.
Melhores cumprimentos,