quinta-feira, novembro 23, 2017

Guiné - A Marinha do PAIGC de 1963 a 1974


Guiné - A Marinha do PAIGC de 1963 a 1974

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Agosto de 2010)

No início da guerra na Guiné, em 1963, o PAIGC, ambicionava dispor de meios que lhe permitissem efectuar cambanças, transportando pessoal, material de guerra e abastecimentos, a partir das suas bases na Guiné Conakry - Kadigné, por exemplo - para o interior do território daquele tarritório.




Para isso, apoderou-se de algumas embarcações comerciais, umas com motor e outras não, aproveitando o trânsito destas embarcações ou as escalas em portos habituais, sobretudo no sul do território, quando ali aportavam para os normais abastecimentos logísticos.



Este tipo de acções foi-lhes rapidamente vedado a partir do momento em que as embarcações comerciais e toda a navegação de cabotagem passou a ser controlada e escoltada pela Marinha.

Em diversas acções de pirataria, sem qualquer intervenção da Marinha, foram desviadas ou capturadas ao longo do tempo as seguintes embarcações que passaram a constituir como que uma Marinha do PAIGC:

"Mensageira"
Lancha à vela, casco de madeira, 1 mastro, 11,6 m de comprimento, 16,7 t de carga.

"Persistente"
Lancha à vela, 1 mastro, 14 m de comprimento e 24,9 t de carga.




A «Persistente»

"Mirandela"
Motor de 95/105 HP, casco de ferro, alojamento com 6 beliches, 2 escotilhas, porão de carga com 2 coberturas de ferro movediças, mastro de ferro com duas faces de carga, 24 m de comprimento e 65 t de carga.



A «Mirandela»

"Arouca"
Lancha a motor, casco de aço, 1 mastro, casa de motor, porão e escotilhas, motor diesel de 3 cil, 66 HP, 15,4m de comprimento, 4,1 m de boca e 19,7 t de carga.

"Bandim"
Casco de ferro, 3 escotilhas grandes, 17 m de comprimento, 4,6 m de largura, 33,5 t de carga.

"Bissau"
Lancha à vela, casco de ferro, mastro armado cop latine e uma vela de proa, bomba para esgoto dos porões, 17 m de comprimento, 32,0 t de carga.

Ainda:

«Três de Agosto» e «Defesa» de características desconhecidas.

Nota:
Estas informações foram divulgadas pelo Estado-Maior do Comando de Defesa Marítima da Guiné em Março de 1973 e, em baixo, resumem-se as principais acções havidas pela Marinha, tendentes a capturar, inutilizar ou até destruir, a tal potencial Marinha do PAIGC:




1964


A operação “Hitler”, sob o comando do 1TEN Alpoim Calvão, comandante do DFE 8, representou a primeira acção da Marinha contra os movimentos de cambança do PAIGC no sul da Guiné, rio Camexibó, visando a intersecção e captura de quaisquer embarcações ao serviço do inimigo.




1968


Em Agosto de 1968, já com o Brigadeiro Spínola como Comandante-Chefe, a Marinha, com o conhecimento de que as embarcações «Bandim», «Arouca» e «Mirandela» estavam a ser utilizadas no transporte de pessoal e armamento para o interior da Guiné, levou a cabo nova acção na área do Quitafine, ilhas de Canefaque e Cambon, confinadas pelos rios Inxanxe e Nhafuane, sob o comando do CTEN Alpoim Calvão em operação com o nome de código «Nebulosa».

Depois de ignorarem uma ordem de paragem e após violentos combates com elementos do PAIGC, foram abatidos alguns elementos inimigos e feitos prisioneiros outros, tendo sido capturada a própria embarcação em que se faziam transportar, o «Patrice Lumumba» que, devido aos estragos sofridos, depois de rebocado para longe da área, foi afundado na foz do rio Cacine.


Nota:
Patrice Émery Lumumba, nascido como Élias Okit'Asombo (Onalua, Congo Belga, 2 de Julho de 1925 – Katanga, 17 de Janeiro de 1961), foi um líder anti-colonial e político congolês.
Na sua curta e tumultuada carreira política, optou por se alinhar com os valores anti-imperialistas e do pan-africanismo, defendendo consistentemente a solidariedade entre os povos da África para além dos limites de nação, etnia, cultura, classe e género, encorajando a luta não-violenta contra o colonialismo e convidando ao diálogo os países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento.
Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), ele foi a principal liderança na luta contra o domínio colonial belga no Congo, tendo participação decisiva na libertação do seu país do jugo imperialista europeu.
Foi eleito primeiro-ministro do seu país em 1960, mas ocupou o cargo apenas por 12 semanas, pois o governo foi derrubado por um golpe de estado liderado pelo coronel Joseph Mobutu em plena crise política do Congo.
Ao tentar fugir para o leste do país, Lumumba seria capturado algumas semanas mais tarde e assassinado em Janeiro de 1961, com a participação dos Estados Unidos e da Bélgica que viam o líder congolês como alinhado com a União Soviética.
In Wikipédia




1970 - Março


O seguimento das embarcações capturadas manteve-se e, em Março de 1970, depois de um longo processo de tratamento de informações e preparação, a Marinha voltou à carga na mesma área numa operação com o nome de código "Gata Brava”, ainda sob o comando do CTEN Alpoim Calvão.

Assim, em 27 de Março, no seguimento de uma bem planeada e estruturada emboscada, travaram-se violentos combates com o «Bandim» que deixava a base de Kadigné. Ignorando qualquer tipo de instruções de paragem e ripostando com fogo de armamento automático, foi atingido várias vezes com fogo de bazooka e armamento ligeiro. Abordada e assaltada com granadas de mão, a embarcação encalhou com vários mortos e graves avarias.

Na impossibilidade de a rebocar para local conveniente optou o comandante da operação por ordenar a sua destruição. Foi regada com gasolina e incendiada por meio de uma granada lançada para dentro da embarcação, não sem que antes se tenha verificado não haver sobreviventes no interior.



1970 - Novembro


Em Novembro de 1970 no decorrer da operação “Mar Verde”, o grupo Victor, constituído por 14 fuzileiros especiais comandados pelo 2TEN FZE Rebordão de Brito com um guia nativo da República da Guiné, largam da LFG «Orion» em três botes Zebro armados com pistolas-metralhadoras Kalashnikov, granadas ofensivas, defensivas e incendiárias.

À ordem de ataque, partiram na máxima velocidade em direcção aos navios atracados no cais bananeiro do porto de Conakry: sete lanchas torpedeiras (P6 e Komar) e uma lancha de desembarque pertencentes umas ao ao PAIGC e outras à República da Guiné. Os navios são abordados, uma sentinela do PAIGC é eliminada e são lançadas várias granadas para o interior das embarcações.

Três dos navios afundam-se rapidamente e os restantes incendeiam-se. Ainda que apanhadas de surpresa, as guarnições reagem com fogo de armamento ligeiro, mas os fuzileiros colocados em pontos estratégicos neutralizaram a resistência causando cerca de 20 baixas e sofrendo um ferido ligeiro. O ataque durou cerca de 45 minutos eliminando o que poderia vir a tornar-se um sério risco para a navegação no sul da Guiné.



Como já foi afirmado, e repetimos, as acções do PAIGC limitaram-se, até 1964, a capturar batelões e embarcações comerciais em trânsito para os seus habituais destinos, ainda sem qualquer defesa ou escolta militar, algumas vezes com a cumplicidade participante de elementos das tripulações.

Quanto às fantasias tecidas à volta de hipotéticos afundamentos ou apresamentos de unidades navais da Marinha de Guerra Portuguesa – Lanchas ou outras Unidades - pelos guerrilheiros do PAIGC, só podem ser interpretadas como histórias de caserna vividas num imaginário de ficção.

Nunca nenhuma unidade naval da Marinha de Guerra Portuguesa foi capturada pelo PAIGC ou correu sequer o risco de o ser, independentemente de algumas situações mais complexas, decorrentes de algumas operações em tempo de guerra terem passado por combates frontais com o inimigo.

Referimos como exemplo histórico, a mítica e massacrada LDM 302 que, atingida gravemente no rio Cacheu por duas vezes, com baixas pesadas entre mortos e feridos, alagada e semi-afundada, foi reposta a flutuar quase imediatamente, também de ambas as vezes. Aqui a honramos mais uma vez, lembrando as suas heróicas guarnições que impediram qualquer sucesso de concretização possível dessa criativa banda desenhada do PAIGC.




Fontes:
Pesquisa e compilação de texto do autor a partir do relatório de documentação do Arquivo da Marinha, Núcleo 236-A; Operação Mar Verde, António Luis Marinho, Temas e Debates, 2006; De Conakry ao MDLP, Alpoim Calvão, Intervenção, 1976; fotos do Arquivo da Marinha digitalizadas e tratadas pelo autor;


mls

1 comentário:

Carlos Silva disse...

Amigo Lema

Para complementar o teu excelente trabalho sempre bem documentado, acresce dizer que O PAIGC em 25-12-63 capturou no porto de Cafine [rio Cumbijã] os barcos a motor "Mirandela" da Casa Gouveia e o "Arouca" da Casa Brandão, tendo-os levado para a República da Guiné com a conivência de parte da tripulação.
In Hélio Fegas - Guerra na Guiné, Lisboa 1967, pág 68