sexta-feira, janeiro 12, 2018

Reserva Naval e Cães da Armada


Nota do autor do blogue:

João Marcelino Machado Bravo Queiroz foi Oficial da Reserva Naval do 4.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, da classe de Fuzileiros. Foi alistado e admitido na Escola Naval em 6 de Outubro de 1961 e promovido a Aspirante a Oficial em 1 de Maio de 1962. Licenciado pelo ISEF, prestou serviço no CEFA-Centro de Educação Física da Armada durante dois anos, tendo desempenhado diversas missões naquele Serviço.
É de sua autoria o artigo que abaixo se transcreve.








Eu e os Cães da Armada


Assentei praça na Marinha em 16 de Outubro de 1961, como cadete fuzileiro do 4.º CEORN – Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, o 1º Curso que incluiu a classe de Fuzileiros, Curso Nuno Tristão.

Chamo-me João Marcelino Machado Bravo Queiroz, sou Professor de Educação Física, já o era quando cheguei à Marinha e, vivo e trabalho no Porto.

Naquele tempo os Cadetes da RN de todas as classes faziamo 1º ciclo na Escola Naval,passando pela Escola de Artilharia, Limitação de Avarias e um mês em Vila Franca, para aprender a “comunicar”.

Só depois do Natal de 1961 eu e os meus camaradas de então nos apresentámos na Escola de Fuzileiros. Desde já digo que tivemos tratamento de “Príncipes”.

Porquê?

Eu e os meus colegas de curso do Instituto Nacional de Educação Física - INEF - Fonseca e Costa e Melo de Carvalho, conhecíamos os então Primeiros- Tenentes Patrício e Metzner que tinham sido nossos colegas no 1º ano do INEF quando aqueles oficiais lá estiveram a tirar a especialidade de Educação Física.

Embora os tratássemos por tu, nunca deixámos de realizar com disciplina e respeito “o que aquelas cabecinhas inventavam para nos torturar”.

Os crosses no lôdo, as idas à Serra da Arrábida, os “trotes” depois do jantar à volta da mata da Escola, para além dos “sustos” nas pistas, com as subidas a um eucalipto como ponto de partida para a descida em slide. Eram muitos e muitos metros sempre sem pôr os pés no chão.

Lembro com saudade o Comandante da Escola o Cap. Ten. Maxfredo da Costa Campos, o 1º Tenente Santos Patrício e ainda os Segundos-Tenentes Vasconcelos Caeiro, Pascoal Rodrigues e outros cujos nomes a minha memória já não recorda. De todos guardo gratas recordações.

Já vai longo o intróito e não estou a escrever para falar de mim e de tão belos tempos, mas sim para vos dizer algo de «Cães».




Dogue Alemão

Exactamente, de «Cães»!. Desde que me conheço, há 63 anos, que em minha casa conheci os cães, a “Fly” e o “Pinóquio” - Terrier - os meus primeiros companheiros. Depois dois Boxer, o “Alcalá”, comprado em Espanha na minha viagem do 7º ano do Liceu, baptizado com sal e vinho em Madrid na avenida de Alcalá e a “Narucha” que comprei, em Lisboa, a um Oficial de Marinha de que não recordo o nome.

Por último, dois Doberman - o “Doverak” e a “Gigi”, a qual tive de mandar abater, pois sofria de uma grave crise cardíaca que a levaria a uma agonia que eu não teria coragem para presenciar. Foi a minha companheira e da Família nos últimos 11 anos. Um desgosto!

E agora aqui vão seis Pastores Alemães que tive durante uns tempos, naquele que considero a minha segunda casa - a Base Naval do Alfeite e o Centro de Educação Física da Armada, onde fui colocado como Aspirante RN com o meu colega Fonseca e Costa.

Dirigia então a 6ª Repartição e CEFA, o Comandante António da Costa Pereira, no qual reconhecíamos qualidades de “marinheiro”, mas que sempre nos tratou com amizade e deferência.

Trabalhámos muito pelo CEFA, que praticamente foi organizado por nós. Todos juntos numa sala da Escola Naval que era o antigo gabinete de Oficial de Serviço. Passámos depois para umas pequenas instalações na Base Naval de Lisboa, junto à rampa que dá acesso à Escola Naval.




“Leonberg”

E foi na qualidade de oficial - Aspirante e depois promovido a Sub-Tenente que, na altura, o Comandante da Base Naval de Lisboa me chamou e me disse sem rodeios: “Vai ficar responsável pelo Canil da Base! Fale com os tratadores.”

Fiquei siderado! Gosto e já naquela altura gostava muito de cães mas não percebia nada de treino nem do seu tratamento.

Era na altura Comandante da Base o Almirante Paulo Viana totalmente careca (peço perdão) e que infundia um respeito enorme - alguns tinham um certo “medo” - especialmente o Oficial de Serviço da Base, quando o Almirante resolvia pernoitar no palácio aos fins de semana.

Bom, para além do meu serviço normal no CEFA, lá fui ver os canis, um pequeno espaço, melhor, umas gaiolas. Sujas, uma ração de carne que era só gordura, e os tratadores lá me foram elucidando como faziam os treinos.

Eu percebia alguma coisa de treino, mas para homens. Pensei e disse cá para mim: Como aplicar alguns princípios do treino relacionados com a resistência e a velocidade ao treino dos cães?
E assim, introduzi algumas melhorias. A higiene e limpeza das gaiolas foram melhoradas. Havia “baldeação do convés” duas vezes por dia. A comida melhorou. Uma conversa com o Despenseiro da Messe e tanto bastou para que os cães comessem “à Marinha”.

O treino de obediência e obstáculos continuou conforme os tratadores já faziam, só tendo sido melhorada a postura dos tratadores, dos quais infelizmente já não lembro os nomes.

Quanto ao treino físico, a mata do Alfeite servia às mil maravilhas. Não vou ser fastidioso, mas até “interval training” os cães fizeram.

Um dia, o Almirante Paulo Viana chamou-me e disse: ”Inscrevi os cães na Exposição Canina Internacional de Lisboa. Trate dos transportes, leve os cães e os tratadores. É já no Sábado e Domingo próximos.”

E lá fomos. Fardas lavadas e passadas dos tratadores, eu de farda azul, cães escovados, trelas limpas... enfim, os preparativos para as grandes ocasiões.




“Alga de Vale do Zebro”

Na FIL, local de Exposição Canina, os cães fizeram um sucesso. “Olha a Marinha já tem cães!”. “São para ir para o Ultramar?”. “Posso pôr-lhe a mão?”. “Vão embarcar em navios?”. “São dóceis?”. “Atacam?”.

E quando desfilámos... muitas palmas, fotografias, e até filmados para as Actualidades Portuguesas, documentário que era sempre exibido antes dos filmes que passavam na altura nos cinemas do país. Prémios, taças, mas o melhor prémio foi quando me vi no documentário cinematográfico, duas semanas depois, quando fui ver um filme ao S. Jorge.

O Subtenente FZ Bravo Queiroz com um cão pela trela e com os cinco tratadores atrás com os seus cães e eu a fazer uma continência cheio de orgulho.

O Almirante Paulo Viana apareceu na FIL, assistiu à entrega dos prémios e veio falar comigo e com os tratadores. Com um sorriso deu-nos os parabéns pelos resultados obtidos e disse: “Vão lá para o Alfeite pois estão nisto há 48 horas!”

Era já meia-noite. Eu, com um sorriso e um pouco irreverente, disse: “Muito obrigado, Sr. Almirante, vamos para o Alfeite pois nós já não sabemos “se falamos ou se ladramos”.

“O Sr. Almirante determina mais alguma coisa?”

Tudo acabou com sorrisos.


João Bravo Queiroz
2TEN FZ – 4º CEORN




Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue, cedidas pelo autor do artigo e já publicadas, ao tempo, na Revista n.º 10 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Outubro 1999; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992;


mls

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