sábado, fevereiro 03, 2018

Cartas trocadas - Reserva Naval, 8.º CEORN


Paulo Henrique Lowndes Marques e Augusto de Athayde Soares de Albergaria, foram dois integrantes do 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval que, em condições e cenários diversos, no longínquo ano de 1967, cumpriram o seu tempo de serviço militar na Marinha.
Ingressaram na Escola Naval em 9.10.1965 e foram promovidos a Aspirante a Oficial em 29.4.1966. Licenciados no posto de 2.º Tenente em 1968, regressaram à vida civil.




Em Angola, o primeiro e, em Lisboa, o segundo, foram os autores de uma troca de correspondência que reflecte estados de espírito bem diferentes, um e outro com curiosas observações que, sem qualquer comentário, a Revista da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, deu a conhecer passados que foram 33 anos.




Paulo Lowndes Marques (8º CEORN)
(21.8.1941 - 1.1.2011)


Angola, 1 de Março de 1967

Meu Caro Augusto,

Eis-me em pleno Rio Zaire, a uns 70 Km da foz deste grande rio. Comando um Posto denominado Macala, numa zona do rio onde este estreita. Não só vejo perfeitamente a outra margem, como distingo uma pequena aldeia e, indistintamente, as pessoas que nela se movimentam.

Contam-me os meus libidinosos fuzileiros que lá se encontra uma albina, o que algo excita os latinos deste lado, embora, francamente, a distância não o justifique. Mas no centro de África como em Pigalle, a imaginação é tudo!

O rio embora aqui estreito, como disse, parece ser mais profundo do que o Mediterrâneo! O Zaire é rio internacional até penetrar no Congo Kinshasa e o porto de Matadi é pois servido por este "canal" meu vizinho.

Tenho cerca de 35 homens (e não, helas, mulheres – quanto tempo demorará para o bom exemplo de Israel chegar aqui?) sob o meu comando. Tenho ordens por escrito segundo as quais este posto não se pode render.

Se for atacado, tenho a obrigação de morrer gloriosamente com tudo e todos. Medito muitas vezes (até porque há muito tempo para meditar) no dilema de um militar jovem e subalterno há seis anos (1961) na fronteira de Gôa.

Durante semanas o inimigo aumentou a pressão psicológica através da rádio e de óbvia concentração de tropas em frente do equivalente deste posto com o vai-vem de camionetas, a chegada de artilharia, o treino diário de cada vez mais homens, a prática dos morteiros. E eu com os meus trinta homens, por certo com armamento muito inferior.

Vem a madrugada do ataque – na última escuridão da noite ouviria (mantendo o paralelo com a minha situação) o barulho das Lanchas arrancando os seus motores, os primeiros morteiros caindo, tentando calcular o alcance certo.




Posto de Fuzileiros da Quissanga em 1967

Eu enviaria uma mensagem com prioridade para a minha chefia hierárquica e descobriria que eles, os meus chefes, já lá não estavam! Já tinham decampado, ou se rendido, ou sei lá?

E ali estava eu com as minhas ordens escritas, irredutíveis e patrióticas e os meus chefes desaparecidos! Julgo, sinceramente, que este abandono dos subordinados constitui a acusação mais grave aos comandos militares em Gôa quando da invasão.

Há bons e honrados precedentes históricos para ignorar e desobedecer ao poder político. O almirante russo que desobedecendo a ordens, ordenou a rendição geral na batalha de Tsuchima, por exemplo.

Enfim, estou a divagar. O rio corre com enorme força. Na época das chuvas chega a fazer sete milhas por hora. Se se sobrevoar a foz, o Zaire entra como um grande soco castanho no estômago do Atlântico Sul. Tenho cerca de 20 Km de rio à minha guarda.

Por vezes aparece uma mensagem alarmista – vem um corpo de um branco morto levado pelo rio. Além do desagradável que me escuso de te descrever (o que faz, por vezes, só darmos o alarme quando o dito já está no território do posto vizinho) o "branco" é invariavelmente um negro, pois a pigmentação escura descolora com a imersão prolongada – (para a tua sabedoria anatómica).

De resto muitas, algo rotineiras patrulhas. Por vezes (não nesta zona), há incidentes com pescadores furtivos que vêem a este lado. Nada mais. Não há guerra. Os crocodilos são bem mais perigosos, embora tenham muito mais medo de nós, que nós deles.

É claro que esta guerra mole e algo podre tem os seus perigos. A complacência e a rotina levam ao descuido e é então que um ataque ocorre. Em Nóqui, a montante de onde estou, o aeroporto fica distanciado uns quilómetros do quartel da tropa. Passaram os meses e sempre nada, as medidas prudentes de escolta e cuidados dos primeiros tempos foram-se diluindo no calor, na rotina e no abandalhamento. Depois veio o ataque e emboscada cuidadosamente preparados, deixando sete mortos!

Enfim!...O Posto da Macala é bonito, com flores trepadeiras cuidadas, buganvílias e vistas panorâmicas. Há muito tempo nas mãos. Leio muito. Finalmente li a "Guerra e Paz" de capa a capa.

É da lógica militar que um pelotão de trinta homens só tem dez para, de facto, ocupar em patrulhas. Sentinelas, cozinhas, reparação de botes, etc., etc., consomem a mão-de-obra. É de questionar se a "fixação" de militares, afinal treinados para actividades de maior intervenção, será a melhor forma de os aproveitar. Porque não trazer navios patrulha e lanchas a navegar neste rio como "postos flutuantes", usando assim todos os fuzileiros para patrulhar?

Recordo com saudade a nossa viagem a Cabo Verde, Açores e Madeira. Do pó e areia em São Vicente (os dois clubes de golf – um português, outro inglês – os "greens" algo castanhos!), do cenário lunar de Santo Antão, dum lado e do outro do verde tropical no fundo dos vales, da perdida fotografia do Raul Ventura numa repartição esquecida e do magnifico Café Mussolini. Não sei se visitaste o famoso Tarrafal. O Luandino Vieira que se recusava, com dignidade, diga-se em abono da verdade, a encontrar o "olhar" dos visitantes.




Escola Naval - Paulo Marques assina o Livro de Honra no decorrer de um encontro
entre elementos do 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval,
a convite do Comando daquela Instituição


E após o mau tempo e embates do mar à saída de Cabo Verde, a súbita e quase mágica visão do verde dos Açores. Bem se percebe a psicologia do Canto IX dos Lusíadas, embora, mais uma vez, helas, sem a substância do Canto tão querido dos escolares portugueses. E as nossas deambulações na Madeira, culminando com o civilizado chá no Reeds.

É curioso como uma farda nos solidariza. Enfim, percebi a lógica de uma farda de colégio. A farda e, em verdade, a proximidade de perigo que, na prática, só me recordo dos exames na Faculdade, período onde todos éramos amigos e nos conhecíamos de perto. Tu, bom aluno, decerto nunca experimentaste o receio do chumbo, mas acredita que, como dizia o Dr. Johnson sobre alguém que vai ser enforcado no dia seguinte, que "concentra a mente por forma admirável". Mas novamente divago.

Li algures e em tempos, que "a guerra é uma experiência de grandes períodos de ócio e maçada, intercalados por súbitos momentos de medo intenso, sem nada pelo meio". Confesso, conforme disse, que até agora tive bem mais medo de exames do que propriamente experiências de guerra.

Em verdade te diz este fuzileiro distante que te abraça com amizade.

«Paulo»




Uma patrulha de Fuzileiros no Rio Zaire






Augusto Athayde (8º CEORN)
(4.4.1941 - 25.2.2014)



Lisboa, 15 de Março de 1967

Caríssimo Paulo,

Muito obrigado pela tua carta de 1 deste mês, como sempre cheia de interesse pelos factos narrados e reflexões feitas. Ainda bem que os teus riscos de guerra não são os piores! Adiro por inteiro ao que dizes sobre o inconcebível abandono dos subordinados pelos chefes. Espero veementemente que tal nunca te venha a suceder!

De qualquer forma pergunto-me sempre: como irá tudo isto acabar? Mal, muito provavelmente… A paz celestial dos nossos primeiros anos, vividos nestes palmos de terra esquecidos e intactos durante a pior convulsão que a humanidade conheceu e de todos os seus horrores… vai bem longe.

Afinal os males das guerras só viriam a atingir a nossa geração mais tarde (sem, reconheça-se, as dimensões apocalípticas de Hiroshima e outros desastres indiscritíveis...) Mesmo assim, todos teríamos desejado entrar na idade adulta de outra forma… E eu estou-me a queixar "de barriga cheia".

A "minha guerra" na "nau de pedra" é...de papel e lápis. A Repartição de Justiça (é certo esmagada de trabalho) inclui: um Capitão de Mar-e-Guerra, um Tenente do Serviço Geral, um Sargento e três Marinheiros. E, é claro, os dois juristas da Reserva Naval: o Rui Machete e eu.

O serviço corresponde, como saberás, em receber Autos (toneladas de Autos), levantados pelas Unidades, estudá-los e, num bonito papel amarelo, emitir uma informação distinguindo entre o que é infracção disciplinar, (faltas que serão punidas pelo Almirante Superintendente, ao abrigo do RDM) e o que é crime, caso em que os Autos seguem para o tribunal de Marinha. Sem esquecer que há situações nas quais se acumulam infracções disciplinares com crimes e outros – mais raros – em que, depois do Auto bem examinado, se tem de concluir não haver nem uma coisa nem outra.

Já somos todos amigos, dentro desta sala pombalina, dividida por tabique e com janela para um pátio. Por baixo dessa janela existe um aparelho de "ar condicionado" que, – fazendo enorme ruído sem produzir nem calor nem frio – se considera que terá a função de nos impedir de esquecer o das máquinas dos navios...

O tema a que bem aludes da "ausência feminina" em Macala… leva-me, por associação de ideias, a contar que aqui, na Repartição de Justiça há, por vezes, visitas extremamente pitorescas e que eu, como "o mais novo" devo atender. Invariavelmente uma megera "à la portugaise", obesa, perna gorda, hálito pestilento e pêlo na venta, vem acompanhar uma mulherona nova (que receio já tenha dormido com metade da Armada...) para reclamar contra a lentidão do processo em que o grumete ou marinheiro X é acusado de ter estuprado a segunda.

A megera faz as despesas da gritaria, "Vocês estão é todos feitos uns com os outros! E olhe que a mim homens nunca me meteram medo, óviu! Nem fardas!!" (etc., etc.) Isto acompanhado de grandes punhadas no tórax (dela!). Eu tento fazê-la falar mais baixo: “olhe que está ali o senhor Comandante”

- “Pois que esteja. Quero lá saberi! O que vocês querem todos sei eu! (etc.,)!”

Finalmente invoca o testemunho da estuprada."Oh filha conta lá como é que aquele filho de puta te levou ao engano!” E a matulona: "Olhe, eu ia pr'a casa com uma pequena amiga e ali do outro lado (do Terreiro do Paço), vem ele por trás, encosta-se a nós, e vai logo pondo as mãos. Bem..., o senhor está a entender... E diz: Oh filhas: vocês são bem boas. Se se lavassem bem – (censurado) – todas!“ Etc., etc. Mantenho uma cara digna (com dificuldade) e asseguro que podem confiar na Justiça. A Repartição toda abafa (mal) o riso. Lá as vou acompanhando para fora. Penso, sinceramente, que qualquer dia quem leva uns socos sou eu! O que ainda não terá ocorrido devido à minha visível corpulência... Enfim, nota para a vasta temática "a mulher e a Armada"...

Uma curiosidade jurídica: descobri, no Código de Justiça Militar que, ao contrário do que nos tinham ensinado na Faculdade, a pena de morte ainda está em vigor neste país, para certos crimes militares, especialmente graves. Perguntarás: mas quando se aplica? Resposta: nunca! Como só poderia ser aplicada a autores de crimes cometidos em teatro de guerra, a "brandura dos nossos costumes" e, penso eu – principalmente razões políticas, levaram o Governo a considerar que as operações no Ultramar...são de polícia!...e não de guerra! logo...não há teatro de guerra...

Antes assim! Por esta vez, ao menos, houve o bom senso de não agravar um descontentamento que (as gerações mais velhas não se dão conta) vai crescendo imparavelmente. Que efeitos provocará esse descontentamento? Os mais variados, de certo. Bons, ou muitos bons, se ele for a alavanca, no futuro, de um grande espírito de reforma, justa, tolerante, feita em liberdade e equilíbrio. Maus, ou muito maus, se se desembocar nalguma grande ruptura revolucionária, ideológica e arrasadora.




Escola Naval - Augusto de Athaide assina o Livro de Honra no decorrer de um encontro
entre elementos do 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval,
a convite do Comando daquela Instituição


Enfim, não divaguemos…

Mas o menos que se pode dizer é que o futuro, para a nossa geração, é incerto. Só me parece evidente que o "modelo" actual não pode subsistir indefinidamente: ou evolui ou acaba...

Mas, passemos a coisas "menos pesadas". A longa batalha para pagar as dívidas dos meus pais, continua. Felizmente, aos poucos, e através dos episódios mais variados, vou avançando para o grande objectivo de se pagar tudo mesmo ficando sem nada mas de "cara lavada".

Agora, Paulo caríssimo: este é que é o verdadeiro curso de Direito!! Acho que até devia pagar por um mergulho assim nas realidades do Direito sobre as quais a Faculdade pouco ou nada nos disse! (Pagar? Mais ainda? Livra!!)
Afinal este é um "assunto pesado". Pesado também e, cada vez mais, está o meu filho Augusto. Parece alegre e esperto… (Olhos de Pai...) Oxalá "as fadas" tenham visitado o seu berço...

Em que mundo viverá quando tiver a nossa idade? Espero que faça a Marinha! (Cada vez mais aprecio esta instituição de rigor, seriedade, trabalho, ambiente civilizado. Penso que representa algo de, infelizmente, raro em Portugal).

(Ou, quando tiver a idade que hoje temos, o Augusto já só poderá optar pela...Marinha soviética?) Não posso ficar a escrever o resto da tarde...em cima destes Autos...porque acabo por chamar a atenção do senhor Tenente!!

Mas apetecia-me recordar também a nossa inesquecível viagem. Tocas nos pontos fundamentais. Lembras-te do momento em que, do convés da lancha que nos levou do Mindelo a Santo Antão, entre risos e solavancos, avistámos à chegada, pintada no exterior da pequena doca, em grandes letras, a célebre frase "havemos de chorar os mortos se os vivos o não merecerem"...

Nada mais dissonante naqueles confins do mundo, na paisagem desértica daquela ilha, ainda por cima em paz absoluta, do que aqueles dizeres "épicos"… inutilmente virados para um imenso mar vazio...

Recordámos, como recordarás, a célebre tirada mussoloniana pintada nos mais remotos recantos dos desertos da Líbia e da Abissinia - "Molti n'mici molto onore"...(Não sei se se escrevia assim). E o "Café Mussolini", na Costa Oeste de Santo Antão? Dizes bem: é um nome… inesperado... Alguma vez se conseguirá descobrir a sua origem?

Termino no terraço do "Reid's" e no grande momento, que evocas tão bem, daquele "chá" civilizado, com o grande fim de dia sobre o Funchal. Uma grande recordação, de certo vitalícia. Entre tantas outras boas que essa viagem deixou!

Voltando ao presente: cuidado com a "paz podre"!! Não te "descuides"!! Mas escreve sempre!

O maior abraço do Augusto

PS - Não conseguirás filar a pele de uns crocodilos, para uma pasta para ti e uma carteira que alguma menina certamente apreciaria muitíssimo? Umas caçadas bem se integrariam na insólita (e, para mim, falsa...), frase de Malraux: " Les guerres sont les vacances de la vie".




Fontes:
Fotos de arquivo e compilação do autor do blogue a partir de artigo publicado no n.º 12 da revista da AORN- Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Dezembro 2000;


mls

2 comentários:

jose manuel dionisio disse...

Li com atenção, esta troca de correspondência entre estes dois jovens camaradas (oficiais) da Marinha de Guerra Portuguesa. deliciei-me, a ler linha a linha, tudo aquilo que partilharam entre ambos! E revivi situações por mim vividas (como marinheiro), aquando da minha comissão de serviço em 'SAZaire' a bordo da 'LFP Altair'. Talvez até me tivesse cruzado alguma vez com o camarada oficial no posto da 'Macala' na margem esquerda desse grande rio africano (Zaire).
Segundo me apercebi, estes dois jovens ex.militares, nos deram deram uma grande lição de humanidade,realismo e visão para o futuro. Grande exemplo!!!

mls disse...

Grato pelo comentário efectuado.
Saudações navais,
MLS