domingo, maio 06, 2018

Guiné, Canchungo - Memória de João de Teixeira Pinto


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 27 de Março de 2011)

Memória de João de Teixeira Pinto




João Teixeira Pinto
(1876-1917)



Nascido em Moçâmedes, Angola, a 22 de Março de 1876 era filho e neto de oficiais que, em África, se haviam já distinguido pela sua valentia, sendo o seu pai, do mesmo nome, João Teixeira Pinto, ali conhecido pelos indígenas pelo sobrenome de Kurica (leão), que igualmente veio a ser aplicado ao filho.

A sua larga e honrosa folha de serviços pantenteia as altas qualidades do homem de armas e do organizador colonial. Depois de completados os seus estudos no Continente e promovido a alferes para o Regimento de Infantaria nº 5, em 1899, foi deslocado em comissão para Angola, no posto imediato, na 2ª Companhia Mista de Artilharia de Montanha e Infantaria. Terminada a comissão de serviço regressou ao Ministério da Guerra, sendo colocado em Infantaria nº 7.

De novo colocado em Angola, desembarca em Luanda em 1 de Janeiro de 1905, assumindo o cargo de secretário do Governo de Moçâmedes, sendo depois transferido, a seu pedido, para o Batalhão Disciplinar, de onde transita, em 6 de Setembro para o comando militar de Dongoena onde se distingui pela sua bravura em combate. Regressado ao Continente no final desta comissão, em 29 de Janeiro de 1907, foi colocado no Batalhão de Caçadores nº 4.




Guiné (1961) - A Vila de Teixeira Pinto com acesso pelo rio Mansoa

Com nova comissão atribuída em Angola, a ela regressa em 1 de Junho, indo integrar a 16ª Companhia Indígena de Infantaria. Foi depois nomeado, sucessivamente, chefe do Concelho de Humbe, comandante interino da 18ª Companhia Indígena (Março de 1908) e, de novo, voltou a administrar a Circunscrição de Humbe e ainda a capitania-mor dos Luchazes, de onde regressou a Portugal, por parecer da Junta de Saúde, sempre com serviços distintos pelos quais foi louvado.

Promovido a capitão em 5 de Agosto de 1909, volta a ser colocado em Angola em 7 de Setembro, sendo colocado na 10ª Companhia Indígena de Infantaria, transitando para o cargo de Administrador do Bailundo em 2 de Janeiro de 1910 e, depois, para o corpo da Polícia de Luanda, em 22 de Março. Depois de também ter desempenhado o cargo de administrador do concelho, desistiu da comissão militar e regressou a Portugal onde ainda passou pelos Regimentos de Ingantaria, 21, 15 e 11.

Em 14 Setembro de 1912 rumou para a Guiné onde desembarcou em Bolama em 23 de Dezembro, nomeado, para o cargo de chefe do Estado-Maior da Província. Nessa altura, a administração desta colónia encontrava-se totalmente negligenciada e alvo da cobiça e ambições de outras potências coloniais.




Guiné (anos '60) - A Praça Teixeira Pinto vendo-se, ao fundo da avenida, a Praça do Governador



Teixeira Pinto resolve por cobro a tão desprimorosa situação, após cuidado estudo das condições precárias em que a colónia se encontrava, para tal fim lançando mão dos exíguos elementos locais, únicos de que podia dispor. «Um grande chefe e um punhado de oficiais portugueses que dificilmente passarão de uma dúzia – e os auxiliares indígenas, fanatizados de glória e de adoração pelo chefe, que neles incutiu confiança, que os preparou para a acção necessária e os levou sempre à vitória. Eis tudo. E bastou para uma das mais rápidas e eficazes ocupações militares nas colónias e para a integral pacificação da Guiné».

Desde o início de 1913 e até meados do ano seguinte sucederam-se inúmeras operações e combates por todo o território e, em 2 de Julho de 1914 Teixeira Pinto embarcou para Bolama, deixando definitivamente pacificada toda a região acabada de ocupar, tendo submetido os manjacos e balantas.

Aproveita para vir à Metrópole retemperar a saúde e as forças e para remover a oposição dos que se manifestavam contra a ocupação da ilha de Bissau. Por portaria de 13 de Maio de 1915, foi mandada organizar a coluna de operações contra os papéis e os grumetes de Bissau, que haveria de ultimar a ocupação e a pacificação da Guiné.

Chefiada por Teixeira Pinto, esta coluna trava duros combates em Bissau; durante a marcha para Safim, em Junho de 1915, foi gravamente ferido, mas manteve-se imperturbável à testa da coluna até se ver forçado a confiar o comando a outro oficial (tenente Sousa Guerra) e a recolher a Bissau. Mas a 1 de Julho, e ainda mal restabelecido, reassume o comando das operações da coluna até chegar triunfante a Bissau.

Quando a gloriosa coluna foi dissolvida, a ocupação da Guiné, firmada nos postos de Bór, Safim, Bejemita e Biombo, podia considerar-se completa. Chamado à Metrópole, ao Ministério das Colónias, foi dispensado das condições exigidas para a promoção a major, em consideração dos serviços prestados na ocupação da Guiné, sendo colocado em Infantaria nº 16. Promovido em 10 de Março de 1916, embarcou desta feita para a província de Moçambique para fazer parte das Companhias Indígenas Expedicionárias àquela província, para sua defesa contra os alemães.

Em 25 de Novembro de 1917, após inúmeros combates na tentativa de rechaçar o invasor, os alemães deram início à invasão da província de Moçambique, destroçando um destacamento das nossas forças em Negomano, em cuja defesa o seu heróico comandante, major João Teixeira Pinto, encontrou a morte.
Assim terminou a brilhante e meritória carreira do bravo oficial, toda nobremente dedicada ao serviço da Pátria que lhe conferiu numerosos louvores , destacando honrosamente a sua valentia, heroísmo e espírito de sacrifício.






Um exemplar da nota de 50 escudos (pesos) emitida pelo Banco Nacional Ultramarino, em 1964,
com a efigie de Teixeira Pinto






Após o final da guerra, a República da Guiné-Bissau sofreu das normais vicissitudes resultantes da alteração de regimes políticos por via dos conflitos armados, e foram vários, com adaptação da sociedade civil a transformações sociais profundas, marcadas pela necessidade de eliminar quaisquer vestígios físicos, históricos ou arquitectónicos, nascidos durante a vigência ou pela mão de outro regime anterior considerado hostil.

Lá, também como cá, ou em qualquer outro local de convulsões sociais, a memória histórica não é susceptível de ser apagada por mera vontade de momento, mesmo que compreensivelmente alicerçada em recentes feridas de guerra, abertas de ambos os lados e ainda por sarar.

Sobreviveram pessoas, relatos, documentação e registos que darão, em devido tempo, lugar a pesquisa e investigação, cabendo a sociólogos e historiadores a construção de uma História dinâmica, sem hermetismos autocráticos





Cacheu - Em 2008 e 2007, o Monumento a Teixeira Pinto, desmantelado, dentro do forte e na área exterior que o circunda



Fontes:
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira – Volume XXXI – Agosto 1978; fotos e Bilhetes Postais, Colecção «Guiné Portuguesa - Foto-Serra, Bissau, cedidas pelo Dr. Carlos Silva (ex-Furriel Mil, CCaç 2548); Carta da Província da Guiné (pormenor), Ministério do Ultramar, 1961;


mls

3 comentários:

Emídio disse...

A seguir à independencia,Canchungo foi durante muitos anos uma ilha de esperança na Guiné.
De facto foi aí construido e mantido a funcionar pela Rep.Popular da China, um hospital exemplar que contrastava com os montes de ruina que eram os de Bissau.
Uma vez que lá dei entrada nos anos 90, perguntaram-me se queria ser tratado pelos métodos ocidentais ou pelos tradicionias chineses.
Mais tarde, e numa qualquer democrática mudança de governo, alguém se zangou com aqueles chineses e entregou o hospital aos outros, os de Taiwan...
Não sei se aínda existe hospital.

Carlos Silva disse...

Meu Caro Amigo Emídio

O Hospital em Cantchungo [Teixeira Pinto] ainda existe e em óptimas condições. Pois os chineses voltaram a renovar aquela unidade hospitalar.
Visitante quase anual da Guiné-Bissau
Carlos Silva
Ex-Fur Ccaç2548/BCaç 2879

Margarida disse...

Como Bisnetos de João Teixeira Pinto, meu Primo João Maria da Cruz Teixeira Pinto e eu Maria Margarida Teixeira Pinto Restani Pinto, muito agradeciamos a quem nos possa ajudar/contactos a fazer para trazer a estátua para Portugal.
Se alguém nos puder ajudar ficariamos muito reconhecidos

Maria Margarida e João.