14 outubro 2016

Galeria Reserva Naval - Comandante Artur Manuel Coral Costa




Comandante Artur Manuel Coral Costa
(1924-2003)


O Comandante Artur Manuel Coral Costa, nasceu em 9 de Julho de 1924, e alistou-se na Armada em 6 de Setembro de 1943.

Frequentou a Faculdade de Ciências de Lisboa (1942/1943), pertenceu ao curso “D. João I” da Escola Naval que completou em 1946 e, em 1948/1949, tirou o curso de especialização em Artilharia (A), na Escola de Artilharia Naval.

Continuou a sua formação, frequentando o curso de Defesa Atómica, Biológica, Química e Limitação de Avarias (ABCD), em Inglaterra, no ano de 1954. Cursou ainda, nos Estados Unidos da América, em 1955/56, o aperfeiçoamento em Artilharia Antiaérea (AA).

Em 1962/63, frequentou o Curso Geral Naval de Guerra (CGNG), voltando a Inglaterra em 1974 para a frequência do Naval Tactical Course (TN/CI).

Foi Oficial de guarnição e Oficial Imediato de várias Unidades Navais, Instrutor da Escola de Artilharia Naval (1954/56), integrou a Missão de Recepção das Fragatas da “Classe Diogo Cão”, nos Estados Unidos da América (1956/57), organizou e foi Director dos Cursos de Formação dos Oficiais da Reserva Naval (1958/1960), pertenceu ao Estado Maior da Armada (1963/67) e esteve na Embaixada de Portugal em Madrid, como Adido Naval (1970/73).

Foi Comandante dos seguintes Navios e Unidades: LFP “Altair” (1948), navio-patrulha “Santo Antão” (1960/63), corveta “Cacheu” (1967/69), fragata “Magalhães Corrêa” (1973/75), Instalações Navais de Alcântara (1976/80).

Promovido ao posto de Capitão de Mar-e-Guerra em 2 de Setembro de 1974.

O Comandante Artur Manuel Coral Costa foi condecorado com a Medalha Militar de Prata de Serviços Distintos, Medalha Militar de Mérito Militar de 2ª classe, Medalha Militar de Ouro de Comportamento Exemplar, Comenda da Ordem Militar de Aviz, Medalha Comemorativa das Expedições das Forças Armadas (legenda Cabo Verde 1967/69), Medalha de Prata Comemorativa de V Centenário da Morte do Infante D. Henrique e Medalha de Mérito Naval de Espanha, de 1ª Classe, com Distintivo Branco.

A evocação do comandante Artur Manuel Coral Costa, nesta “Galeria”, não é um mero acto de retórica por nele se corporizar a História da Reserva Naval. Como Director de Instrução do 1.º CEORN, em 1958 e, no ano seguinte, do 2.º, foi vigilante atento das matérias ministradas nos cursos, na sequência da tarefa de que fora incumbido superiormente. Foi ainda o comandante Coral Costa que acompanhou o 5.º CEORN na sua viagem de instrução, substituindo o Director de instrução daquele curso, entretanto destacado para outra missão.

Foi o próprio Comandante Coral Costa que, em entrevista recolhida para a Revista da AORN, em 1997, relatou a forma como recebeu essa missão revelando dados históricos a propósito do início da Reserva Naval:


“Na altura, os Quadros normais da Marinha não previam operações de guerra nas Províncias Ultramarinas. Isto quer dizer que qualquer oficial que destacava para Angola, Moçambique ou Guiné, era desligado do Quadro. Desta forma, dava-se uma consequente redução dos efectivos no Continente, com as evidentes dificuldades de preencher os lugares e posições que ficavam vagas.
O único pessoal que não desligava era o dos navios e dos Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros, Todos os outros, pertencendo a Governos de Província, Comandos Navais, Comandos de Defesa Marítima, Capitanias de Portos, entre outros, eram desligados do Quadro.

Como se depreende, não havia Quadros de Oficiais para as necessidades exigidas por três frentes de combate. Esta situação veio a verificar-se alguns anos mais tarde, mais precisamente três anos após a entrada, em 1958, do 1.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, podendo considerar-se a decisão de iniciar estes cursos como uma antecipação, ou previsão, de situações e cenários que vieram a ser realidade.

Estava eu a bordo da fragata “Diogo Gomes”, como oficial Imediato; recebi, através do respectivo Comandante Basílio de Sousa Pinto, a indicação de que o Almirante Quintanilha me queria falar. Conhecia o Almirante Fernando Quintanilha desde a viagem do aviso “Bartolomeu Dias” às comemorações da coroação da Raínha Isabel II de Inglaterra. Ele era então o comandante desse navio e eu o oficial chefe do Serviço de Artilharia.




No decorrer da entrevista, o Comandante Coral Costa, explica a Manuel Torres do 8.º CEORN as diferentes fases de criação da Reserva Naval.


Mas não fazia a mais pequena ideia de qual seria o assunto sobre o qual ele me quereria falar. Dirigi-me ao Gabinete do Almirante Quintanilha, apresentei os normais cumprimentos e, com o feitio que se lhe conhecia, não perdeu tempo com grandes explicações. Deu um murro na mesa e disse-me:

– Coral, vamos começar com a Reserva Naval!

Percebi então que qualquer pergunta que fizesse seria absolutamente extemporânea. E disse:

– Pois sim, senhor Almirante. E terminou ali a conversa.

Quando cheguei ao corredor, disse para comigo: O que será isto? Onde é que hei-de ir? E dirigi-me, penso, ao sítio certo. Na 1.ª Divisão do Estado-Maior da Armada estava então o Comandante Manuel Pereira Crespo, futuro Ministro, que uma pessoa que remodelou a Marinha em muitos aspectos, grande valor, CMG na altura e muito meu amigo. Expliquei-lhe a situação e recebi algumas preciosas directivas.

Passaram-me para a Escola Naval, mas era em casa que trabalhava no assunto, dia e noite. Tinha um mês para fazer o trabalho.

Eu já tinha estado no estrangeiro, sabia mais ou menos os planos de um curso desta natureza, o tempo que se leva a falar de certas matérias, de alguns pormenores importantes e acabei por fazer o Plano de Curso.

Evidentemente que tive de recorrer a camaradas que me ajudaram em períodos muito especiais, como foi o caso da Navegação, em que foi fundamental o apoio do Comandante Pinheiro de Azevedo. Era, aliás, uma matéria que ninguém acreditava fosse possível ensinar em tão pouco tempo. Refiro aqui outras colaborações que me foram dadas. Para as matérias de Máquinas recorri ao Engenheiro Vila Real, também formado pelo Instituto Superior Técnico. Nas matérias de Luta Anti-Submarina, ao Tenente Virgílio de Carvalho; para as Comunicações, ao Tenente Paulo Manuel Guerra Corujo; para as Informações de Combate, ao Tenente João Encarnação Simões e para Administração Naval, aos Tenentes Alfredo de Oliveira e Carlos Pereira de Oliveira.

Feito este estudo, extrapolei para seis meses, nem mais um dia. No total um ano e meio de serviço. Toda a gente concordou e começámos.


Na mesma entrevista, foram expostas também as razões porque o Comandante Coral Costa decidiu oferecer à Associação dos Oficiais da Reserva Naval o seu valioso espólio, constituído por uma biblioteca de várias centenas de livros, nos quais se incluem, encadernados, todos os números da Revista de Marinha, as suas fardas de gala e a número três e ainda todas as condecorações descritas na sua biografia, tal como a sua espada pessoal.




A espada, medalhas e condecorações do Comandante Coral Costa, cedidas para guarda da Associação dos Oficiais da Reserva Naval.

“Ao longo da minha vida e pelo curriculum que vos mostrei, conclui-se que mais de metade do tempo passei-o a bordo. Mais do que em casa. Penso que as minhas coisas, relacionadas com a vida de Marinha, não irão ter continuidade.

Os livros que fui comprando, para os ler mais tarde quando houvesse mais tempo, terão possivelmente o destino da Feira da Ladra. Tudo são bocadinhos meus. Pensar que tudo iria, talvez, ser vendido a peso, era de facto um desgosto enorme. Numa Biblioteca Nacional de Marinha iria passar despercebido. Num Museu, igual.

Eu tenho esperança que na vossa Associação, serão de facto apreciados. Com outra curiosidade, até porque de entre estes livros há alguns que são realmente bastante bons”.



Estas confissões do comandante Coral Costa, na sequência da sua decisão de tornar depositária do seu espólio a Associação dos Oficiais da Reserva Naval, representada pela AORN, conhecedor do projecto de instauração de um Museu materializando a sua História, foram prova da máxima simpatia e amizade que a ela dedicou desde sempre, e que deveriam conciencializar a Associação para a responsabilidade que o acto representou.

O Capitão de Mar-e-Guerra Artur Manuel Coral Costa, em 15 de Janeiro de 1998 teve oportunidade de se reunir num almoço, no Clube Militar Naval, com oficiais da Reserva Naval que pertenceram ao 1.º e 2.º CEORN.




Andrade Neves - 2º CEORN, J. de Almeida Rezende, M. Andrade Neves,
J. Cavalleri Martinho e M. Paiva Pinto, todos do 1º CEORN, com o Comandante Coral Costa.



Director de Instrução destes dois cursos, decorridos 40 anos desde o seu primeiro encontro, foi nesta data reactivada a ligação ao passado através de João de Almeida Resende, Manuel Andrade Neves, José Cavalleri Martinho e Manuel Paiva Pinto do 1.º CEOEN e António Andrade Neves do 2.º CEORN, num acto de extrema simpatia e amizade.

Quem teve o privilégio de conhecer o Comandante Artur Manuel Coral Costa, ao longo da sua vida activa de Marinha ou, já retirado, mantendo as suas ligações em religiosas deslocações ao Clube Militar Naval para almoços com amigos, guarda a imagem de um grande Senhor, não só como profundo conhecedor da História da Reserva Naval, mas também no orgulho que deixava transparecer por ter deixado o seu nome pessoal ligado ao êxito que da sua criação e implementação, na Armada, resultou.


Fontes:
Publicado na Revista n.º 5 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval - Jul/Set 1997; fotos de arquivo do autor do blogue.


mls

07 outubro 2016

1.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval,1958






Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 5 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Julho/Setembro 1997; Fotos de Arquivo do autor do blogue;


mls

07 setembro 2016

Reserva Naval - "Os perigos de uma única História"






Há tempos atrás, deparei na caixa de correio com um texto da conferencista Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana de nacionalidade, reconhecida como uma das mais importantes jovens autoras anglófonas que está a atrair, com sucesso, uma nova geração de leitores de literatura africana e que aconselho vivamente a ler. Não satisfeito com uma primeira leitura transversal menos atenta, voltei a ler, reli novamente e repeti ainda uma última vez.



Fixando-me apenas na analogia, vou deixar de lado quer o tema visado que a conferencista aborda de forma tão simples como acutilante, quer a forma e espírito com que o fez. Confinar-me-ei a uma marcada identificação com a ali tão bem reafirmada aversão cultural à construção estereotipada de modelos de uma única história.

Uma única história, repetida e divulgada sistematicamente sempre da mesma forma, retira a possibilidade de lhe acrescentar outras mais-valias, suportadas num contraditório dinâmico de uma possível segunda versão. Versão que complete uma história que se deseja de consenso alargado, alicerçada em testemunhos de factos e acontecimentos relatados pelos que a viveram e nela participaram.

Mas afinal que tem a ver este meu deambular sobre o perigo de uma única história com Reserva Naval vs AORN? A Reserva Naval compreende um universo constituído por uma classe de oficiais que pertenceram à Marinha de Guerra Portuguesa, naquela qualidade e enquadrados na e sob a responsabilidade da casa-mãe, a Armada.

A AORN–Associação dos Oficiais da Reserva Naval foi e será apenas uma associação constituída por sócios que terão sido ou não oficiais da Reserva Naval, de acordo com os estatutos daquela e que a ela tenham aderido mediante o pagamento de uma quotização numa das diversas classificações estatutárias de "admissibilidade de sócio" previstas.

Será obrigatório acrescentar que a condição sócio originário apenas poderá ser atribuída a um antigo Oficial da Reserva Naval de acordo com o estabelecido no "...Artigo Quinto dos Estatutos - Dos Associados , UM, alínea a): Todos os que tenham servido como Oficiais, na Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa, criada pelo Dec.-Lei nº 41399 de 26 de Novembro de 1957..."

Pode afirmar-se com propriedade que houve 3.598 oficiais da Reserva Naval da Marinha de Guerra. Entre 1958 e 1975 a Escola Naval formou 1.712 oficiais em 25 cursos das mais variadas classes. Entre 1976 e 1992 esse número foi acrescentado de mais 1.886 novos oficiais, correspondentes a 943 cadetes integrados em 41 cursos realizados da Escola Naval e a outros tantos 943 cadetes, em 37 cursos levados a cabo na Escola de Fuzileiros.

Dos 1.712 oficiais dos primeiros 25 cursos, cerca de 50% terão sido mobilizados para as mais diversas funções e missões na então Guerra do Ultramar/Guerra Colonial, nos teatros de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe. Como notas curiosas, em Macau também prestou serviço um oficial e até mesmo em Timor desempenharam missões outros 2 oficiais da Reserva Naval.

Foram missões e serviços de complexidade variável, alguns deles de elevado risco, onde tiveram cabimento a nomeação para comandos e outras missões em unidades navais ou de fuzileiros, desde simples acções de fiscalização e patrulha até ao combate, em transportes, apoios, escoltas e também ainda servindo em unidades ou serviços em terra, ombreando com oficiais dos Quadros Permanentes e dos outros Ramos das Forças Armadas.

A AORN é a única associação existente que, desde 1995, ano da sua fundação, representa aquele conjunto de oficiais, enquanto sócios. No decorrer do tempo de vida da associação, ao longo de vários mandatos directivos têm sido diversos os "avisos à navegação", relativos a um percurso que parece estar a revelar-se escasso na prossecução dos princípios estatutários por que se deveria reger a colectividade e os objectivos a atingir.

Poderá a história da Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa e dos seus 3.598 oficiais que por ela desfilaram vir um dia a ser devidamente salvaguardada, no espaço e no tempo, por espólios diversos constituídos por documentos, imagens, relatos e testemunhos, deixados à guarda da AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval, na qualidade de sua fiel depositária?

Terá a AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval ganho a confiança da Instituição Marinha - Armada - e de um conjunto significativo de antigos oficiais da Reserva Naval, sócios e outros associados, para que lhe venha a ser conferido o pleno direito de exercer essa qualidade de representante única e fiel depositária de tão importante memória histórica?

Pessoalmente, julgo que não! Parece-me razoável que pairem muitas dúvidas por esclarecer. O inexorável relógio do tempo, estreitando cada vez mais o horizonte de sobrevivência da AORN ao último Reserva Naval vivo ditará, ou não, da veracidade desta minha inqualificável profecia de Velho do Restelo.

Assumo que, integrado no conjunto das responsabilidades partilhadas, não terei tido a capacidade, eu próprio, de “levar a carta a Garcia” enquanto sócio e colaborador até meados do ano de 2004. Também depois, apenas como colaborador externo até ao final do ano de 2014, com o espírito Reserva Naval de que me orgulho de estar permanentemente imbuído.

Ter-me-á faltado certamente engenho e arte para debater objectivos e temas com os meus pares ou terei aceite demasiadas vezes a condição de remetido ao silêncio nas reuniões de trabalho e acções em que participei e foram muitas.


Em qualquer caso, continuarei a ser detentor da inalienável qualidade adquirida de antigo oficial da Reserva Naval da classe de Marinha do 8.º CEORN. Foi um privilégio pessoal e uma mais-valia académica, profissional e humana a que, orgulhosamente, posso acrescentar a invulgar situação de ter sido licenciado no posto de 1.º tenente, em 1972, por efeito do prolongamento voluntário do tempo de serviço prestado na Marinha.

Ao longo destes últimos anos terei ganho motivação suficiente para me manter a rabiscar num modesto blogue pessoal iniciado em 2006, a título meramente pessoal, farrapos de memórias Reserva Naval, expressando livremente opiniões, publicando relatos, imagens e documentos ou simplesmente divulgando notícias que considerei de interesse cultural.

Para esta dimensão, sem pretensões, ultrapassada a encorajadora fasquia de 311.000 visitas, ainda que no decorrer do tempo o silêncio nos comentários tenha sido maioritariamente ensurdecedor, os aspectos positivos foram suficientes para que mantenha afastada a ideia de abandono, no sentido de desistência da minha visão escrita de retalhos das memórias Reserva Naval.

Em consciência, profissionalmente distante de um perfil de historiador ou sociólogo, creio ter atingido um tempo de balanço neste meu exercício pessoal, forçado pela minha própria participação Reserva Naval e vontade de concluir um projecto idealizado já há alguns anos. Pelo caminho, foi muito o tempo dispendido ao sabor de algum mau tempo, vagas alterosas e diversas correntes, a que aliei uma tendência desmedida para alargar o âmbito do projecto inicial e também muita inexperiência da forma como lidar com temas de tal complexidade.

Existe uma subtil tendência para avaliar de forma grosseira, com leveza e ausência de conhecimento, a disponibilidade, meios necessários e tempo dedicado a pesquisa, recolha, compilação, tratamento e publicação de documentação de memórias históricas. É frequente a classificação do trabalho de quem mete mãos à obra como efectuado em tempo de lazer ou ainda como possível devido à disponibilidade de tempo de quem o faz.

Em vez de valorizar, motivando quem constrói, subalterniza-se diminuindo a qualidade da construção ou, bem pior, ignorando a construção. Terá o caminho percorrido desde 1997 sido feito no respeito por instituições e pessoas? Certamente que houve da minha parte esse cuidado que procurarei continuar a trilhar, mas tal não será impeditivo de manifestar desacordos pontuais sempre que se justificarem.

É tempo de não se correr também o perigo de uma única história da Reserva Naval e o articulado neste texto, sob aquele título, será por mim futuramente abordado com diferentes perspectivas, como que regressando a uma anterior rota, temporariamente abandonada devido a “marés e ventos desfavoráveis”.

Na qualidade de não sócio, encerro estes comentários com estas reflexões:

A Reserva Naval com génese num projecto de dimensão nacional na casa-mãe Marinha de Guerra Portuguesa completa este ano de 2016 o 59.º Aniversário;

O 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval que integrou 68 cadetes e a que eu próprio pertenci, foi alistado na Escola Naval em 9 de Outubro de 1965, completando no mesmo ano de 2015, meio século de ingresso na Instituição. Terá havido da parte da AORN a preocupação de organizar e/ou apoiar qualquer tipo de encontro/convívio, habitual em iniciativas relativas a efemérides de cursos Reserva Naval? Se teve lugar alguma realização, em que qualidade e dimensão foi levada a cabo com a Escola Naval, a Instituição que acolheu aquele curso da Reserva Naval?

A Associação dos Oficiais da Reserva Naval comemorou no ano transacto o seu "20.º aniversário AORN", optando por abandonar um anterior percurso de vários anos de comemoração do "Dia da Reserva Naval" em que se apelava ao universo de Oficiais Reserva Naval, em vez de apenas "Sócios da AORN e convidados".

Porque me parecem invertidos valores e prioridades?

Da mesma forma que acima se critica o inexplicável, também se cumprimenta a Direcção da AORN pelo regresso este ano, ainda que parcialmente, a um anterior figurino expresso na comunicação prévia efectuada:

"...As Comemorações estarão abertas a todos os Camaradas que prestaram serviço na Marinha e respectivos acompanhantes, estendendo-se, deste modo, a toda a Reserva Naval...".

Manuel Lema Santos, 8.º CEORN;
1TEN RN 1965-1972 (lic)

Guiné-LFG "Orion", 1966-68;
CNC-Ajudante de Ordens do Comandante Naval, 1968-70;
EMA-Oficial adjunto, 1970-72;

Fontes:
Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa 1992; Anuário da Reserva Naval 1976-1992, Manuel Lema Santos, Lisboa, 2011; Foto do arquivo pessoal do autor, gentil cedência da Escola Naval;



mls

01 março 2016

Reserva Naval 1958-1992






A Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa encarnou, para todos os Oficiais que por lá desfilaram, muito mais do que uma forma, dita civilizada, de cumprimento do serviço militar obrigatório.

Ao tempo, uma opção pessoal possível num percurso universitário completo ou em vias de o ser, passagem obrigatória no rumo de vida traçado, ao serviço da cidadania e do país onde nasceram.

Diria melhor e mais correctamente, da Pátria.

A evasão temporária ao amplexo paternalista, algum inconformismo e a necessidade inadiável de transpor aquela linha no horizonte terão sido algumas das motivações.

Outras tantas, eventualmente condicionadas por aspectos pessoais, profissionais, familiares e também económicos.

De um lado, incertezas, anseios, dúvidas tumultuosas, sentimentos contraditórios e algumas perspectivas goradas, mas também natural confiança e esperança.

Do outro, o salto no desconhecido, arrojado mas sonhador, a aventura e o desejo de bem cumprir.

Se para muitos configurou uma escolha alternativa enquanto no desempenho de um dever cívico, para outros terá representado uma ponte provisória para a vida profissional.

Ainda para alguns, em menor número mas mais tarde, a própria carreira profissional.

Escola Naval, viagem de instrução e juramento de bandeira marcaram, em sucessão, formação académica e humana, camaradagem e também crescimento.

Em cenários de guerra como Moçambique, Angola e Guiné, mas igualmente em S. Tomé, Cabo Verde e no Continente, quase quatro mil Oficiais da Reserva Naval desempenharam funções ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa.

A navegar ou em terra, como oficiais de guarnição ou nos fuzileiros, todos fazendo parte do transbordante testemunho de solidariedade, generosidade e convívio partilhado com as Unidades e Serviços onde permaneceram.

Ombreando com militares e camaradas de outros ramos das Forças Armadas.

Ganhando acrescido sentido de responsabilidade e maturidade.

Grangeando pelo cumprimento, pelo exemplo e pela dedicação, a amizade, admiração, respeito e camaradagem de superiores, subordinados e também das populações com que contactaram.

Na memória que o tempo não apaga, esfumam-se relatos, acontecimentos, documentos, registos, afinal História.

História da Reserva Naval e da Marinha de Guerra que lhe deu origem.

No espírito Reserva Naval, um passado comum a preservar.

Uma palavra para todos aqueles que nos deixaram prematuramente, chamados para a última viagem.

Estarão sempre connosco!




mls