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14 setembro 2020

Guine - Cabedú, 1966 - Um Reserva Naval na LDM 307 e CCaç 1487






Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

Fontes:
Texto do autor do blogue com fotos da LDM 307 cedidas por Carlos Nascimento; foto da LFG «Orion» do Museu de Marinha; imagens de extractos da carta da Guiné, cortesia IICT; imagem da foz dos rios Cacine/Cumbijã, cortesia do Instituro Hidrográfico; resumo histórico da CCaç 1487 do Arquivo Histórico Militar;

11 junho 2020

São Turras, Sr. Tenente, são Turras!...




Rio Cacheu ao pôr-do-sol (Abel Melo e Sousa -CFR Ref)


Havia já dois dias que as Lanchas fundeavam a meio do rio a jusante da Passagem de S. Vicente, concluído o Comboio de Farim. Aguardavam os batelões para Bissun, que chegavam e amarravam ao Tarrafo à espera da trasfega da carga para as LDM.

Dois dias sem mais preocupações que as que decorriam das tarefas diárias agendadas, as escutas do telegrafista, os banhos divertidos da marujada, a confecção das refeições e os momentos passados com as letras dirigidas às namoradas.

O dia, esse, esvaía-se com os últimos fulgores do sol a perderem-se por entre os galhos do arvoredo e as risadas do pessoal, as LDM à espera do momento para se abrigarem, furtivamente, já a coberto da noite, nos “amarradouros” conhecidos e reconhecidos da margem direita, a montante da Passagem de S. Vicente. E tudo sossegava.

À medida que a noite avançava sobravam as palmadas nos moscos – nome carinhoso com que se designavam os mosquitos – e, à medida que a noite avançava, os sussurros do sentinela e dos mais resistentes ao sono e aos sonhos, como que conversando com a gritaria da passarada noctívaga.

Nada faria crer que aquela noite iria ser diferente. O Tenente acendera atempadamente a malcheirosa espira verde “anti-mosquitagem” em cima do rádio e enchera os canudos do colchão pneumático que fazia de cama no chão da cabine de pilotagem.

Imaginava que, sendo ainda periquito, sempre era melhor respirar o ar impregnado dos cheiros oleosos do que o ar puro ao relento no tombadilho da lancha. Estava mais protegido…

Mas não era verdade, que ainda não tinha pregado olho quando, lá pelas 3 horas da madrugada, uma vozearia ensurdecedora lhe pôs no coração um sufoco e nas pernas um terramoto. Era a voz do Xixas a mais exaltada, estaria no seu turno de guarda, a gritar “são turras, são turras, trás a MG, vão já com uma rajada!!!”…

O Tenente, entretanto, perguntava a si próprio “o que é que se passa ali?”, todo num abanico. Recuperado o sangue frio concordou, ainda consigo próprio “porra!, eu sou o comandante, tenho de ir ver do que se trata”, sempre com a vozearia a crescer, a crescer por entre rajadas à espera.




LDM abicada no porto de Bissum - Rio Armada
Abastecimento e transporte de militares e populações


Fez das tripas coração e subiu ao convés com um enérgico:

– O que é que se passa aqui?

Respondeu o Xixas, já com uma G3 quase engatilhada:

– São turras, Sr Tenente, são Turras, vão já numa rajada!

– Onde é que estão os Turras?

– Ali, na canoa.

Era verdade; encostada ao tanque da água de estibordo encontrava-se uma canoa com cinco homens, pretos, tão pretos como a noite, vergados, completamente vergados ao sabor da sua sorte, dobrados pela cintura sobre as suas pernas.

O Tenente avaliou a situação, ou não avaliou, mas ocorreu-lhe, a ele sim, numa rajada, acalmar os ânimos com uma ordem:

– Ninguém dispara nada. O comandante sou eu. Tudo o que se fizer só pode ser feito com minha autorização! E não faremos nada com jeito se não nos acalmarmos todos!

Toda a gente estremeceu, porque a resposta foi um longo silêncio de poucos segundos que soprou ao Tenente “estás a tomar o pulso aos acontecimentos” e, com isto, saltou para o tanque da água. Percorreu o comprimento da canoa espiolhando o seu interior.

Apenas cinco homens ajoujados, cobertos por um fraco pano da mesma cor, preta, que talvez os abrigasse da esbatida frescura da madrugada. Nada de armas, que fosse de seus vestígios,
nada de nada, apenas medo, porventura, e silêncio. Falou aos homens ainda do tanque da água, também flutuador, acha o Tenente:

–Podem ser turras, sim, podem ser turras, mas nada o denuncia, que na canoa apenas estas cinco pobres criaturas!

– Mas... são turras, Sr Tenente, são Turras!,… insistia o Xixas

– Podem ser, sim, mas não há evidências nenhumas.




Refeição partilhada a bordo duma Lancha de Desembarque Média

Silêncio. Novamente a resposta foi o silêncio. Então o Tenente, sentado nos calcanhares, à proa da canoa, atreveu-se a perguntar:

– Alguém fala português? Silêncio, silêncio quebrado pelo Xixas:

– São Turras, Sr. Tenente, são Turras!

Uma rajada...

O Tenente subiu ao tombadilho e falou

– Podem ser turras, sim, mas do que me estou a lembrar agora, neste momento, é da minha terra, lá longe, do outro lado; e das laranjeiras e das parreiras; e de amigos…

O silêncio, o silêncio tinha tomado definitivamente conta dos acontecimentos.

O Tenente voltou a saltar para o depósito da água, cada vez mais confiante, e novamente sentado nos calcanhares, perguntou

– De onde vêm vocês?

Aconteceu, então, inesperadamente, um:

– De Bissum…




2 LDM abicadas
Abastecimento de combustível e víveres


Soltado pelo homem sentado a meio da canoa, que se desdobrou, lentamente, talvez com o pressentimento de “já me lixei, já nos lixámos” e, por uns segundos que foram uma eternidade, em silêncio, permitiu que os olhares, dele e do Tenente, se fixassem. E voltou a dobrar-se sobre si. O Tenente, como que impulsionado por uma mola, de pé, atirou:

– Ah! Afinal sempre há alguém que fala português!... E vão para onde?

– Para Bula!, respondeu, dobrado, o mesmo homem…

Com calma e uma paz imensa, juntou-se aos seus homens, junto da Oerlikon, – que todos se tinham levantado, todos sem excepção –, e voltou a falar ao pessoal:

– Eu não vos dizia?! Estes homens vão à cidade como também eu, nas segundas-feiras. Um vai renovar o BI, aquele vai tirar uma certidão de nascimento, o terceiro vai à Praça, o…

Lembrou-se de que, com Spínola, tinha havido uma inflexão na política de aproximação às populações designada, oficialmente, por “A PSICO”. Toda a gente aproveitava e reduzia, às tantas, tudo à “PSICO” – olh’á Psico!…

E voltou a saltar para o tanque da água para, num gesto inesperado para todos, – ou talvez não –, com um toque no ombro do homem a vante, ordenar:

– Sigam, amigos, vão à vossa vida…

E ficou só o silêncio, um longo silêncio, a morrer nos olhos ao ritmo lento das remadas, a canoa a cruzar o Cacheu para a curva à esquerda, lá longe, no vagar de quem espera, a todo o instante, o troar de uma rajada.
Ah! Como eu gostaria de saber o que se terão dito ao mergulharem na imensidão da noite, sós, na companhia fagueira do seu rio…


Marinheiro E*
*O Marinheiro “E”, de todos já conhecido, é o Sócio Originário n.º 1542, Oficial FZ RN que integrou os efectivos da CF 11 e que cumpriu uma comissão de serviço na Guiné nos anos 1971/1972.


Fontes:
Com a devida vénia, texto compilado a partir de artigo já publicado na Revista "O Desembarque" n.º 30 da Associação de Fuzileiros em http://www.associacaofuzileiros.pt/


mls

25 maio 2020

O Combóio de Bissum


Guiné, rio Cacheu - Os combóios navais para Bissum





As LDM repousavam há já dois dias nas paragens da Passagem de S. Vicente. Era aqui que morria o Combóio a Farim. De dia a juzante da dita, fundeadas, braço dado, e à noite a montante, abrigadas na sombra acolhedora do tarrafo que bordejava a bolanha do outro lado, um nadita acima do ponto em que nascia a estrada que ligava a Ingoré, ao tempo desactivada.

Nesse interim, enquanto os batelões iam chegando ao ritmo rançoso dos seus barulhentos motores, que os anunciavam a milhas, a marujada, sem excepção, o que quer dizer que o comando também bastas vezes se associava, passava o dia entretido em brincadeiras que a água suscitava, os mergulhos, mas também a preparação das refeições, o correio para a família e amadas que ajudavam a preencher o santo dia.

A noite, essa era acordada, de quando em quando, pela voz em surdina das rendições das sentinelas, os gritos da passarada nocturnal e as palmadas disparadas na direcção da insuportável mosquitada que nos rondava ao som insistente dos seus apelos “precisas de mim, precisas de mim…”.

Reunida toda a esquadra havia que sacar do ORDMOVE e dar-lhe seguimento: passar a carga, batelão a batelão, para as LDM, manobra acompanhada pelo Cabo do exército responsável e, uma vez carregadas, zarpar pelo estreito e sinuoso «Rio Armada», tão sinuoso que as LDM não se protegiam uma à outra na maior parte dos "esses" do rio, tudo a postos para o que desse e viesse, o Patrão ao leme, um artilheiro na peça e o outro numa das MG42, um fogueiro atento ao roncar dos notores e o outro na MG42 do outro bordo, o telegrafista sentado à frente do rádio, ao lado do Patrão, no tejadilho da cabine de pilotagem o "basookeiro" e o ajudante com a arma respectiva, a basooka, todos cientes de que a atenção era a regra mestra até à rampa de abicagem na perpendicular ao aquartelamento do Exército, ali mãos dadas com a Tabanca. O Exército assegurava, nas imediações, por terra, a segurança do Combóio.

Na preparação para a abicagem, o Calado que por sinal nem falava muito, o que condizia com o apelido, questionou o Tenente com um respeitoso “Sr. Tenente, como quer que abique?”, que deixou o oficial um pouco desconcertado, a coçar a cabeça e a cogitar no “como quer que abique?”, reagindo instantes depois com um “ó homem, disso sabe você, faça o melhor que souber, que se alguma coisa correr menos bem cá estaremos para assumir”.




Bissum – Tabanca
Fotos em http://guine-bissum.blogspot.pt/ - Alf Mil Aníbal Magalhães


Realmente, aquilo foi como quem diz, ”limpar o cu a um menino”. Mas as coisas ainda não estavam sossegadas, porque logo que a LDM se calou, um novo apelo veio do Patrão: “Sr. Tenente, sabe, o Popeye”, – era a alcunha do outro Patrão, que fazia jus na sua imponente figura, espadaúdo, barba a condizer, cachimbo à maneira, cópia quase perfeita da entusiasmante figura da Banda Desenhada, ao epíteto com que o mimosearam –, “é novo nestas andanças, vem pela primeira vez e ainda não domina bem estas correntes e marés, digamos assim, que as havia mesmo, pelo que agradeço, então, que seja o senhor a indicar-lhe que abique a juzante da nossa Lancha, bem ditas a coisas «do lado de baixo», que não terá dificuldades na manobra”.

Silenciosamente o Tenente deslocou-se à ré e com uma sinalética simples e adequada às circunstâncias, usando mais o braço e a mão em vez da voz, que se perderia no meio do ronronar dos motores, indicou ao Popeye onde abicar, que fez saber que tinha entendido com uma espaçada abanadela de cabeça, com um sim três vezes acima e abaixo, perceptível pelas descontinuadas fumigações das cachimbadas. Concluída a manobra sem incidentes o Tenente veio sentar-se na mesa situada entre a Cabine de Pilotagem e a Peça, atento às tarefas de descarga da carga das LDM, na companhia do Patrão.

Permaneceram uns instantes calados até que o Calado, nova¬mente, resolveu falar:

– Sr. Tenente, desculpe ter perguntado, há bocado, como queria que abicasse…

– Ó Calado, fiquei surprendido, sim, aqueles instantes, mas é que não sabia mesmo o que devia de mandar fazer. Por isso, olhe, foi assim, saiu aquele “faça o melhor que souber”…

– Sabe, Sr. Tenente, já tem havido camaradas seus que se põem a dizer-nos como devemos de fazer, e às vezes andamos para aqui a rapar até acertar, e é porque acertamos nós… Mais uma vez, desculpe…

E voltou o silêncio, com o Tenente atento ao movimento humano, novidade para ele, dos homens da população de Bissum, num vai e vem entre as lanchas e as viaturas do aquartelamento, transbordando a carga que as LDM prestimosamente tinham levado. Concluída a operação, máquinas a funcionar, duas businadelas de despedida, gratos os militares pelos mantimentos, ala que se faz tarde, que havia que aproveitar ao máximo a força da corrente para mais depressa dizer adeus ao Armada.

Que, diga-se de passagem, tinha o seu encanto, o tarrafo que bordejava a água calcinado de combates anteriores, lá ao fundo, nas clareiras, a orla verdejante da mata, um crocodilo que, incomodado no seu solário, se levanta no seu vagar para mergulhar no seu ambiente, curva e contracurva num não despegar até ao abraço ao Cacheu.

E novamente S. Vicente, um abrandar de todas as tensões, e um hurraaa! de missão cumprida. Desceram os fuzileiros e a basooka do tejadilho da Cabine, abandonadas as MG42 dos bordos a vante, a Oerlikon em posição de descanso apontando a um inimigo imaginário no alto dos céus, o rádio sossegado nos bip bip bip, máquinas a todo o “vapor”, era assim que se dizia, que o único com trabalho garantido era mesmo o Patrão. Todos, tripulação e escoltas já só viam e sonhavam com Bissau, ainda tão longe.




Bissum – Transporte de tropas em LDM no rio Cacheu

Todos,… bem,… todos menos o Patrão por força das suas funções e o Tenente. Como? Pois, é que por alturas de Jolmete o bom do Calado resolveu falar para desinquietar outra vez o Oficial:

– Sr. Tenente, desculpe, pode chegar aqui à Cabine?

O Tenente deixou os restantes navegantes e aproximou-se da janela de pilotagem.

– Não, Senhor Tenente, é aqui, aqui mesmo junto a mim…

Com um ar circunspecto, bem visível nas rugas da testa, lá foi o bom do Tenente com ar de quem pergunta “mas o que é que vem aí agora?”.

Então foi assim:

– Senhor Tenente, o Senhor pôs-me à vontade em Bissum. Uns melhor e outros pior, na verdade quem sabe destas manobras somos nós. Maaass,… suspensão para encher o peito – sabe, nunca se sabe, mas pode acontecer um dia ter o Senhor de dizer mesmo como se faz, por virem todos, como o Popeye, pela primeira vez. E poderá um dia, oxalá nunca aconteça, ter de ser o senhor a deitar mão ao leme…

O Tenente escutava, longe de imaginar o que estava para chegar...

– Está a ver aquela mancha meio arenosa no meio do tarrafo? Ora agarre aqui no volante, – o leme, claro – eu vou aqui, não tenha medo, e experimente abicar lá. Vamos fazê-lo com a ajuda das máquinas, que se controlam, como sabe, com estes dois manípulos. Vá, afrouxe, vamos devagar, a corrente ainda está a descer, deixe descair a Lancha um pouco abaixo do ponto, isso, assim, vá, dê um pouco de máquina de bombordo, a da esquerda, isso…

E o Tenente abicou, com ajuda, mas abicou. Repetiram a manobra, perante o espanto dos tripulantes da outra Lancha, a do Popeye, que reduziu a velocidade intrigado com a agitação.

– Está a ver, nem é difícil…

O Tenente não dizia nada, e ainda não tinha acordado bem da lição quando de rajada vem novo ataque.

– Então e imaginemos que é atacado e tem de manobrar rapidamente, sair da linha de fogo e tem de fazer um pião? Ora deixe-me mostrar como é…

E mostrou.

– Viu? Então agora faça lá o Senhor…


Marinheiro E*
*O Marinheiro “E”, de todos já conhecido, é o Sócio Originário n.º 1542, Oficial FZ RN que integrou os efectivos da CF 11 e que cumpriu uma comissão de serviço na Guiné nos anos 1971/1972.





Curso do rio Cacheu entre a foz e o rio Armada (a laranja) com a localização de Bissum


Fontes:
Com a devida vénia, texto compilado a partir de artigo já publicado na Revista "O Desembarque" n.º 29 da Associação de Fuzileiros em http://www.associacaofuzileiros.pt/


mls

22 maio 2020

Guiné 1970/72, Fuzileiros e LDM - Lanchas de Desembarque Médias – Parte II


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 24 de Novembro de 2010)

Intimidades entre uma Companhia de Fuzileiros (CF 11) e as Lanchas de Desembarque Médias no teatro operacional da Guiné

Parte II

Os combóios de Catió

Exigiam cuidados redobrados. Recebido o ORDMOVE era certo e sabido que, vinte minutos depois de estudado, lá estava na sala do Estado-Maior a solicitar meia dúzia de botes e outros tantos motores na ponte-cais de Bissau.

Por uma vez, aconteceu que vinte minutos depois estava de novo a exigir mais seis botes e seis motores.

Os primeiros botes estavam todos furados e, quanto aos motores, não funcionou nenhum. Da segunda remessa alguns ainda foram devolvidos. Resultado final de seis botes novinhos em folha e também o mesmo número de motores novos. Funcionavam todos! Ainda hoje persiste a pergunta de porquê tão pouco cuidado nos meios essenciais para o cumprimento destas missões? No caso de surgirem problemas quem assumiria a responsabilidade?

É que aconteceu, num dos combóios, quando nos aprontávamos para carregar os nossos materiais logísticos, armas e mantimentos, encontrar cada LDM com uma BERLIET no “Poço”. Era impossível acomodarmo-nos e, pior ainda, defendermo-nos. Um salto ao Estado-Maior e uma explicação: “Tinha de as levar, porque tinha sido assumido o compromisso de as transportar até Catió, onde faziam muita falta”.

– “Ah, e quem assumiu o compromisso?”, depois de informado, solicitei apenas que fosse redigida uma declaração na qual quem tinha assumido o frete se responsabilizasse pela segurança do combóio. Como era evidente, aconteceu uma recusa.

– “Está a gozar comigo?”, informei que esperava, no Cais, que a situação fosse solucionada e retirei-me com o “Determina mais alguma coisa?” da praxe.




Guiné - Mapa da região de Catió

As BERLIET seguiram para Catió, realmente, mas a bordo de batelões. Para gáudio dos oficiais do Batalhão de Catió, informados de que o oficial do combóio se tinha recusado a levar as viaturas…

Que fé dá o relatório destes acontecimentos? “NIL” (nada ou zero). Ao quarto relatório devolvido, igual aos anteriores, informei que tinha percebido, finalmente, o que se desejava e inscrevi, em todos os items, a célebre “NIL”.

Mas os trabalhos não terminaram aqui. Dado que a partida foi atrasada cinco horas – às 16:00, soube depois, ainda no Estado-Maior alguém perguntava se sempre tinha saído ou não... - tivemos de fundear na Ponta dos Escravos, e fazermo-nos ao caminho, de manhã, duas horas mais cedo para o encontro com os meios aéreos de apoio, na foz do Cobade.




A Oerlikon, (para a fotografia), podendo distinguir-se, ao fundo, um dos T6 do apoio aos Comboios do Sul, a Catió e a Bedanda – mas a fotografia pretendia, mesmo, era apanhar o mosquito.

Mal habituados, poupava-lhes três quartos de hora no tempo de apoio, - por ser largo no seu curso inferior, o Cobade oferecia boas condiçoes de defesa e eu adiantava caminho -, os T6 questionaram o Estado-Maior sobre a razão de, desta vez, o apoio ter demorado o dobro do tempo do costume.




Em cima, escolta de botes aos combóios do sul, no rio Cagopere, afluente do Cobade que dá acesso ao porto interior de Catió, e, em baixo, aquele porto na baixa-mar



E lá vem nova chamada ao Estado-Maior:

“Porquê?”

– “Ah, estão equivocados, porque prestaram o apoio que tinham de prestar.”

– “Como?”

– “Muito fácil, a que horas o iniciaram e a que horas o ORDMOVE o previa?”

– “Olha…?!”

Mas, é claro, no relatório nada consta… Como podem os investigadores tirar conclusões correctas? Ficarão, sempre, pela aproximação...




Em cima, chegada a Catió. Podem também distinguir-se ainda o artilheiro e o "basookeiro", cada um no seu posto e, em baixo, descomprimindo




Rendição do Rendição do Batalhão de Catió

Neste combóio para sul participaram três LDM, houve um “rendez-vous” (encontro) com a LDG “Montante” na foz do rio Cumbijã, idas com escala e descarga de pessoal e material a Cabedú e, para montante, em Cufar.

Era especialmente impressionante a viagem ao aquartelamento de Cabedú localidade no rio Lade, afluente da margem esquerda do Cumbijã, quase junto à foz no extremo sul do Cantanhês, onde estava estacionado um pelotão do Batalhão, com um mais do que exíguo porto onde, na preia-mar, não era nítido o curso do braço de água.

Uma semana depois, novo rendez-vous com a LDG “Bombarda” na foz do Cobade. Em virtude da noite tempestuosa o encontro com aquela unidade naval foi atrasado duas horas.

Com o tempo de maré limitado, subi ao tombadilho da LDG "Bombarda". Dei, para grande surpresa minha, com um Tenente-Coronel e um Major, ambos ajoelhados a enrolar um dos clássicos colchões pneumáticos em uso na época.

Toquei no ombro do Senhor Coronel, que olhou para mim – ainda mais surpreendido, porquanto o meu uniforme, (passe a redundância, já passaram 37 anos e posso confessá-lo) resumia-se ao dólmen do camuflado, sem galões, um panamá de praia aos quadradinhos pretos e brancos, um calção preto de ginástica usado nas futeboladas de 5 e as botas de lona.

Comuniquei-lhe: – Sr. Coronel, estamos atrasados 2 horas em relação à partida, por isso temos três quartos de hora para passar as bagagens para cada uma das LDM – abeirámo-nos do “Poço” da LDG e concretizei o quê e as lanchas respectivas. O homem, totalmente confundido, lá se resolveu à terceira insistência e sem hesitar, a dar as suas indicações, sem saber quem era o interlocutor a dar-lhe instruções. Acrescentei que, antes de o pessoal embarcar, teria de dar algumas indicações que tinham de ser escrupulosamente cumpridas.

Em meia hora estava todo o material dentro das LDM, o que revelou uma grande eficácia. Determinei então, depois de o referido senhor, acompanhado de um Major sorridente, ter anunciado que eu próprio iria falar, o seguinte:

1. Se houvesse guerra ela seria travada apenas por nós.

2. Por isso, toda a gente tinha de ir abrigada no “Poço” das LDM.

3. Para evitar surpresas e acidentes, culatras atrás, carregador fora da G3 e câmara sem qualquer munição.

Largou a primeira LDM, largou a segunda e pedi então aos Senhores Tenente-Coronel e Major que descessem para a terceira. Desci então para o bote que me aguardava e segui para me juntar à primeira. Como o tempo entretanto já aquecera, o dólmen já se tinha tornado num empecilho e já tinha sido despedido. Belo fardamento, não acham?…

À chegada a Catió já me tinha composto, mais ou menos, porque tinha vestido o calção azul da ordem e tinha colocado o respectivo boné. Esqueci-me, todavia, da camisa e dos respectivos galões.

O bom do homem passou a viagem a perguntar ao Patrão da LDM e aos restantes elementos da Marinha quem era eu. Sem que tivessem ordem para isso, levaram o tempo todo a responder, simplesmente, “é o comandante”.
Quando a LDM que o transportava abicou, com o cais cheio dos velhos e dos novos que já se lhes tinham juntado em festa, o Senhor Coronel, empoleirado na porta da LDM, travava com os braços alguém que se lhe pudesse adiantar.

Uma vez pés em terra, apenas se preocupou em encontrar-me no meio da multidão para me agradecer a belíssima viagem até ao seu destino, sem ligar a qualquer dos surpreendidos camaradas presentes.

Nota final: aos que aguardavam no cais dei um quarto de hora para descarregarem os respectivos materiais. Descarregaram os deles e os nossos. E obrigaram-nos a voltar atrás, já o combóio se aproximava da foz do rio Cagopere…




Em Abril de 1967, um avião Harvard T6 sobrevoa o rio Cumbijã, no decorrer da protecção a um combóio da lanchas e batelões


A vida a bordo das LDM

Não era de hotel de primeira classe, mas naquelas idades…

Bem, instalávamos as arcas congeladoras, atacadas com os mantimentos, normalmente carne de vaca e de frango, os fogões Hipólito a petróleo, que davam para fazer bons petiscos, os tachos, claro, de alumínio, - agora há tachos bem melhores...-, os nossos sacos, os nossos colchões e as nossas redes mosquiteiras, no “Poço”.

As redes mosquiteiras eram relativamente eficazes e protegiam-nos das três variedades de mosquitos existentes: Uma primeira vaga de batedores (davam connosco), a segunda de sapadores que descobriam as entradas mal tapadas e a terceira vaga, lá pela meia-noite, era constituída pelos sugadores. Com estes travávamos boas batalhas durante a noite, por vezes durante a noite inteira.

No regresso de todos estes combóios, para norte ou para sul, baixada a guarda, os botes lançavam-se às ostras presas no tarrafo, quer no rio Cobade, quer no Rio Grande de S. Domingos, afluente do Cacheu. E acontecia uma festa de forte camaradagem entre a escolta de Fuzileiros e as guarnições das LDM...




Elísio Pires Carmona
2TEN FZ RN
15.º CFORN


(final)

Fontes:
Texto compilado a partir de artigo e imagens cedidos pelo 2TEN FZ RN Elísio Pires Carmona, 15.º CFORN; restantes imagens de arquivo do autor ou cedidas pela Revista da Armada, Arquivo da Marinha, CAlm Joel Pascoal e CFR Abel de Melo e Sousa.


mls

15 outubro 2018

Guiné, 1969 – Rio Cacine (I)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 17 de Outubro de 2011)


Condições de navegabilidade do rio Cacine


(clique na imagem para ampliar)



Aspecto geral do rio Cacine e a região sul da Guiné; a noroeste, os rios Cumbijã, Tombali e ainda o Cobade que liga os dois primeiros


O rio Cacine encontrava-se todo hidrografado e era demandado por todas as unidades navais e embarcações civis da Guiné. As LDG - Lanchas de Desembarque Grande, normalmente não passavam para montante da foz do rio Meldabom, um dos principais afluentes da margem direita do Cacine.

Ali foi instalada a marca “Lira” que, assinalando um assoreamento rochoso, representava o limite de navegação possível a montante.

Gadamael

Fica situado no rio Queruano ou rio Axe, afluente da margem esquerda do Cacine, e o seu acesso só era possível a cerca de duas horas antes do estofo da preia-mar, devendo as unidades navais sair naquele momento, para evitar ficar em seco, situação não aconselhável pela situação militar vivida na zona.

Só era praticável por LDM - Lanchas de Desembarque Médias e por embarcações civis de pequena tonelagem, normalmente estacionadas em Cacine que efectuassem transportes de viaturas, artilharia e pessoal militar ou reabastecimento das Forças de Terra a partir do cais daquela povoação.

Perto da entrada do rio Queruano, num emaranhado de confluências dos rios Cafungaqui, Diderigabi e Cacondo, um pouco a juzante, existia uma rocha no fundo que exigia precauções especiais à navegação que demandava Gadamael.

Aquele porto era de dimensões muito restritas e a sua entrada também se encontrava ameaçada por pronunciado assoreamento. Era dotado de um bom cais, onde atracavam as LDM e as embarcações civis, existindo ainda a montante daquele local, um declive natural na própria margem onde as lanchas abicavam.

Era no entanto um aterro pouco consistente ficando o lôdo a descoberto com a vazante. Todo o interior do porto junto ao cais se encontrava assoreado e, no baixa-mar, ficava em seco uma grande extensão do rio.

(clique na imagem para ampliar)



Barras dos rios Cumbijã e Cacine

Cacine

Situado na margem esquerda do rio com o mesmo nome, entre as Pontas Bachao e Camassanhe, era demandado por embarcações civis com escolta e por unidades navais de todos os tipos que se encontravam naquele teatro, constituindo um terminal de cargas para as FTs estacionadas em Gadamael e de escoamento de alguns produtos para Bissau, sobretudo coconote.

Possuía uma ponte-cais que permitia a atracação de LDM ou embarcações civis, para carga e descargas, mas que fica totalmente a seco no baixa-mar.

As LDM abicavam mais a juzante da ponte-cais, a cerca de 300 jardas, num local onde a margem fazia uma pequena saliência arredondada, havendo uma estrada que, ao longo da margem, dava acesso à povoação. Para melhorar as condições de abicagem, teria sido necessário proceder à colocação de quatro cabeços em terra, convenientemente dispostos, para a amarração destas unidades navais quando abicadas.

Por outro lado, logo a juzante do local de abicagem existia uma zona de fundos mais baixos que poderia ter sido mais dragada, evitando quaisquer encalhes com pequeno abatimentos, sempre fácil de se verificarem. O tempo de permanência na abicagem, era de cerca de duas horas e meia para as LDG, devendo sair com o preia-mar, nunca ficando junto a Cacine por não ser indicado militarmente.

Eram frequentes as flagelações da margem contrária, a partir da zona conhecida como Ponta Canabém, junto à foz do rio Chaquebante, com morteiro e metralhadora pesada.

Outras unidades navais como as – LFG - Lanchas de Ficalização Grandes ou as – LFP - Lanchas de Fiscalização pequenas , utilizavam com frequência a foz do rio Imberem como fundeadouro, por considerarem o local mais seguro contra eventuais flagelações, o que faria supor a possibilidade de tentar arranjar um local de abicagem com mais segurança e maiores fundos, situação que se adivinhava simples de implementar na Ponta Camassanhe, pelo desenho da própria carta.

Essa alternativa implicava considerar um acesso àquela ponta, a partir da povoação, e que nunca chegou a existir.


Fontes:
Carta 220 da Missão Geo-Hidrográfica da Guiné, Barra dos rios Cumbijã e Cacine, 1959-1964, por cortesia do Instituto Hidrográfico; Carta da província da Guiné, Ministério do Ultramar, 1961; Arquivo de Marinha.


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