Mostrar mensagens com a etiqueta LFP «Deneb». Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta LFP «Deneb». Mostrar todas as mensagens

12 abril 2021

1967, SCUT's na Guiné?....nem por isso!


"Guiné, 1967 - Humor puro, sem custos para o utilizador!"

Post reformulado a partir de outro já publicado em 2011.09.04/2018.08,30





Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

Fontes:
Texto do autor do blogue com foto amavelmente cedida por Victor Silva, pertencente à guarnição da LFP «Deneb»;

05 abril 2021

Guiné, 1967 – LFP «Deneb», P 365


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Dezembro de 2011/7 de Dezembro de 2018)


Retalhos fotográficos da vida na LFP «Deneb», P 365




Em cima, a LFP «Deneb» amarrada ao tarrafo e, em baixo, foto de família à proa, junto do conjunto da peça Oerlikon 20 mmm e do lança-foguetes de 37 mm




No decorrer da vida operacional das Lanchas de Fiscalização Pequenas – LFP, tal como na das outras unidades navais, competia-lhes o cumprimento de missões pré-estabelecidas que incluiam, no início dos anos 60', operações ou cruzeiros de vários dias, mais marcadamente no sul do território.

Alternavam entre momentos de pacífica fiscalização e patrulha, sem grandes sobressaltos e com tempos de laser ou convívio possíveis, com momentos de grande tensão em que, rapidamente, se tinha de trocar a cana de pesca pela MG 42, a guitarra pelo lança-foguetes de 37 mm e a descontracção pelo eficaz desempenho no posto que a cada um competia.




Na LFP «Deneb», tempo de laser com crocodilos e tubarões com recurso ao turco de uma
LFG - Lancha de Fiscalização Grande, a que está atracada, para suspender o "peixe".



Dependia muito dos locais onde estavam destinadas as missões e a disposição peculiar de um inimigo que procurava sempre a surpresa como grande auxiliar nos ataques ou emboscadas, muitas vezes ardilosamente montados.

Ainda que em alguns locais dos rios Cacheu, Cobade, Cumbijã e Cacine as condições proporcionassem situações de vantagem aparentes para este tipo de acções de emboscada, as unidades navais reagiam quase sempre de imediato, com a experiência adquirida e no estado de prontidão aconselhado para cada situação.




Tempo musical, mascotes, caixas de batata portuguesa e mais tarrafo



Ao longo dos 12 anos de conflito naquele território, a LFP «Deneb» foi apenas uma das oito lanchas da classe «Bellatrix» atribuídas ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.

Neste caso específico, foi sempre comandada por oficiais da Reserva Naval em todo o tempo de vida em que se manteve ao serviço da Marinha. Todas estas unidades navais já aqui foram descritas pormenorizadamente ao longo do tempo.

Sem qualquer preocupação de encadeamento de factos ou acontecimentos e na ausência de enquadramento adequado aqui se inserem interessantes registos fotográficos supostamente referentes ao ano de 1967, cedidos amavelmente por um dos elementos da guarnição da lancha cuja atenção aqui agradecemos.





Em cima, atracadas na asa esquerda da ponte-cais de Bissau: LFP «Deneb» - P 365,
LFP «Canopus» - P 364, LFG «Sagitário» - P 1131, LFG «Cassiopeia» - P373 e uma outra LFG.
Em baixo, o NM «Uíge» fundeado ao largo de Bissau






Fontes:
Texto do autor do blogue; imagens cedidas gentilmente por Victor Silva, elemento da guarnição da LFP «Deneb» em 1967;


mls

20 abril 2020

As Alcunhas dos Navios


Post reformulado a partir de outro já publicado em 2010.05.08





Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

Fontes:
Por este nome se conhecem (As alcunhas dos navios) - Carlos Alberto da Encarnação Gomes, Edições Culturais da Marinha, 2010; Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha, Vols 15.º e 16.º, 2004/2005; Imagens de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;

29 março 2020

Guiné, LFP «Deneb» - P 365


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Deneb» - P 365

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Fevereiro de 2011)


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 15 de Junho de 1961, na Guiné, depois de ter sido transportada por um navio mercante para Bissau, onde chegou no dia 8 daquele mês.




Guiné, 1967 - A LFP «Deneb» a navegar no rio Cacine

Foi integrada na Esquadrilha de Lanchas da Guiné e a terceira de um conjunto de 13 unidades que constituíram a classe «Bellatrix» e com as mesmas características gerais. Ainda que algumas delas reflectissem alterações estruturais profundas entre si, resultantes da necessidade de as adaptar aos cenários de operações, foi decidida a sua classificação na mesma classe, para simplificação de tipologias diferenciadas que poderiam implicar uma reclassificação em, pelo menos, duas classes distintas.

Fez parte do planeamento inicial do Estado-Maior da Armada este tipo de unidades navais serem comandadas por um Sargento M (manobra). Mais tarde, por proposta do Comando de Defesa Marítima da Guiné, a ideia foi abandonada. Na sequência da resolução de alguns problemas de navegação surgidos pelo tipo da complexa hidrografia daquele território, foi decidido que o comando passasse a ser efectuado por um Oficial subalterno.




Guiné, 1964 - A participação na Operação "Tridente" com apoio ao desembarque de forças na «Ilha de Como». Em primeiro plano a LFP «Canopus", sendo visível o lançador de foguetes de 37 mm e, a curta distância, a LFP «Deneb» - que a acompanhava na mesma missão




No dia 23 largou do porto de Bissau e, no dia seguinte, depois de patrulhar o rio Geba regressou ao cais. Entre Junho e o final de Setembro, realizou exercícios de tiro no canal do Geba, efectuou diversas escoltas e patrulhas, escoltou o TT «Conceição Maria», comboiou o NH «Pedro Nunes» até Bissau e patrulhou também o rio Cacheu.

Em 12 de Outubro navegou com um grupo de Aspirantes a Oficial da Reserva Naval que depois deixou naquele navio hidrográfico, tendo regressado a Bissau em 16 de Outubro.

No dia 18 assumiu o comando da LFP «Deneb» o STEN RN Armando Fernandes Peres do 3.º CEORN, o primeiro oficial a exercer aquelas funções.

Tendo iniciado no rio Geba a sua vida operacional, teve mais destacada participação no sul da Guiné, ainda que com acções pontuais no rio Cacheu no decorrer dos anos de 1962 e 1963. Apoiou operações e combóios logísticos, sobretudo nos rios Tombali, Cobade, Cumbijã e Cacine, onde foi alvo de frequentes emboscadas, mantendo combates com grupos armados instalados nas margens.

De 13 de Janeiro a 22 de Março de 1964, participou na Operação «Tridente», tendo regressado por breves intervalos a Bissau para descanso da guarnição. A partir de meados de 1968 passou a integrar também o dispositivo naval no rio Cacheu – Operação «Via Láctea» - onde participou em múltiplas missões operacionais que incluiram flagelações ao inimigo da sequência de ataques e emboscadas das margens.




Armando Fernandes Peres, José Manuel Burnay e Mário Sá Couto

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Deneb» os seguintes oficiais da Reserva Naval:

2TEN RN Armando Fernandes Peres, 3.º CEORN, 18Out61/09Abr63;
2TEN RN José Manuel Burnay, 4.º CEORN, 09Abr63/23Jun64;
2TEN RN Mário Luis Neves Sá Couto, 6.º CEORN, 23Jun64/02Jun66;
2TEN RN Emídio Guilherme Mendes de Aragão Teixeira, 8.º CEORN, 02Jun66/23Mar68;
2TEN RN Manual Maria Pereira da Silva, 10.º CFORN, 23Mar68/20Nov69;
2TEN RN José Luis Ferreira da Silva Dias, 14.º CFORN, 20Nov69/17Jul70;
2TEN RN Ilídio José Prazeres de Assunção, 15.º CFORN, 17Jul70/03Fev72;




Emídio Aragão Teixeira, Manuel Pereira da Silva, José Luis Dias e Ilídio Prazeres de Assunção

Foi-lhe atribuída a alcunha «Branca de Neve», suportada num claro trocadilho do nome quando, após uma reparação, a pintura exterior, usualmente verde acastanhado escuro, surgiu bem mais clara que a das outras lanchas.

Em 1 de Julho de 1971 subiu o plano inclinado do SAO - Serviço de Assistência Oficinal onde foi vistoriada. No relatório, considerou a Comissão de vistoria que, a extensão e dimensão das corrosões, deformações, bem como o notável enfraquecimento de todos os elementos da estrutura em geral, por implicar uma grande reparação geral, tornava anti-económica a recuperação daquela unidade naval. Assim, com cerca de 7800 horas de navegação foi proposto o desarmamento total do navio e o seu abate, o que veio a suceder em 3 de Fevereiro de 1972.

Navios da mesma classe:

«Bellatrix», «Canopus», «Deneb», «Espiga», «Fomalhaut», «Pollux», «Rigel», «Altair», «Arcturus», «Aldebaran», «Procion», «Sirius» e «Vega».




Fontes:
"Por este nome se conhecem (As alcunhas dos navios)" - Carlos Alberto da Encarnação Gomes, Edições Culturais da Marinha, 2010; "Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; "Setenta e Cinco Anos no Mar", Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto e imagem do autor do blogue;


mls

07 julho 2018

Reserva Naval, Guiné - Talvez por me sentir ainda puto...


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Abril de 2011)


Resposta a Emídio Aragão Teixeira do 8.º CEORN, também o meu curso...



Rio Cacheu, Guiné - LFP «Canopus» vs LFG »Orion»




Meu Caro Aragão Teixeira,


Talvez por me sentir ainda puto, partilho muitas das tuas convicções e irreverências. De forma idêntica, respeito diferenças de filosofia marcadas por percursos de vida diferenciados. Nas nossas amarras, e cada navio tem uma ou duas, partilhamos ser «Filhos da Escola» como um indissociável elo comum.

Talvez por me sentir ainda puto, gosto de pensar que nascemos, crescemos em mundos diferentes e fomos talhados à medida de uma geração de valores sedimentados pela educação e cultura, em que nunca se confundiu educação com formação académica nem cultura com bens materiais.

Talvez por me sentir ainda puto, acho que a educação se ministrava num berço, digno ainda que modesto, preferencialmente em casa dos pais. A formação académica adquiria-se em estabelecimentos de ensino adequados, muitas vezes com sacrifícios familiares, dando sentido objectivo a uma futura vida profissional com naturais anseios e sonhos, ficado muitos deles pelo caminho e concretizando outros, estes últimos normalmente poucos.

Talvez por me sentir ainda puto, sonho que a cultura, assenta num equilibrado crescimento de formação e conhecimento, nunca alienando a educação pelo caminho, no respeito por valores, pessoas, sociedade e País onde os nossos pais envelheceram e nos deixaram um dia, então melhor preparados para enfrentar a vida.

Talvez por me sentir ainda puto penso que, de forma oposta, a ambição material, arrogante e cega, em si mesma como objectivo, ignora educação, despreza valores e julga poder adquirir cultura ou conhecimento sem esforço, a troco de favores, influências, interesses de grupo ou simples envelopes «adaptados às circunstâncias».

Talvez por me sentir ainda puto, habituei-me a respeitar e agradecer a enorme energia motivadora de gente simples de antanho que, tratando-me por «vossemecê» e trabalhando se sol a sol, beata no canto da boca, de enxada nas mãos calejadas pelo tempo, não compreendiam porque se sentiam cansados aos setenta e muitos. De quando em vez, emborcavam um copo de tinto com a bucha, para retemperar forças e o trabalho seguia. Muitos, por essa idade, lá iam ao médico sem nunca terem posto os pés numa consulta.

Talvez por me sentir ainda puto, agradeço ter recebido, a troco de nada, grandes lições de sabedoria dessa «gente grande». Cresciam em berços de palha, paredes meias com o gado e arrumavam uns trocos dentro de uma meia velha, guardada dentro de uma panela esmaltada. Lá na aldeia, em tempo de férias de estudante, nas noites de cozidela de forno, partilhavam comigo a bôla de cevada ainda quente. Ensinaram-me a fazer fisgas de uma vara de freixo e a usá-la para atirar aos pássaros ou para as mais variadas aventuras, algumas delas tropelias de garotada.

Talvez por me sentir ainda puto, sonho com arcabuzes fabricados com as varas de salgueiro e rolhas talhadas com os pequenos canivetes que usava como formão, plaina, enxó e lixadeira, num quatro em um bem aproveitado. Sonho ainda com os custilos comprados na loja do correio para armar aos pardais ou às megengras (chapim-azul). Também ali se podiam comprar mercearias ou beber um copo de tinto avulso. Ao lado, a eira do povoado onde se jogava futebol, a malha do cereal, joeirar o centeio, a medição final nos alqueires para as arcas, as podas, as enxertias, as mondas, as corridas de leiras na arranca da batata e as vindimas, rodopia tudo isto nas lembranças de tempos idos.

Talvez por me sentir ainda puto, julgava ser possível estar presente numa manifestação de estudantes universitários de forma livre e espontânea. Em 1962, assim pensei no Campo de Santana e tive de fugir da polícia de choque e, no dia 11 de Maio desse mesmo ano, alta noite, juntamente com um irmão meu, fomos detidos com mais de milhar e meio de estudantes no convívio da Cidade Universitária, «apenas» por um dia. Num momento fortuito, descobri não ser possível a cidadania de corpo inteiro.

Talvez por me sentir ainda puto, em 1965, sonhei ser possível concorrer e ingressar na Escola Naval ombreando com futuros camaradas, em condições de igualdade, sem me ser lembrado aquele pequeno estigma registado numa reunião estudantil anos antes. Ingresso sim, foi possível por mérito próprio mas, no dia da admissão, a Direcção do Curso entendeu alertar para aquele «perigoso» registo de presença acrescentando o «sábio conselho» de evitar outras incursões naquele domínio.

Talvez por me sentir ainda puto, em 1966, depois de concluído o curso da Escola Naval, sonhei poder servir o País como tantos cidadãos o fizeram e entendi escolher livre e voluntariamente África para o fazer. Ainda que a classificação do final de curso, boa, pudesse fazer antever, por direito de classificação, outro teatro para o desempenho das funções atribuídas, foi entendido «superiormente» que a Guiné era o local mais adequado para o meu perfil.

Talvez por me sentir ainda puto, julgava de todo impossível, de acordo com a legislação vigente ao tempo, que outro familiar próximo, irmão mais velho, nove meses mais tarde, viesse a ter o mesmo teatro como destino de desempenho do serviço militar, neste caso como médico, integrado num batalhão. Sonhei ainda ser possível estar presente no funeral do meu pai, falecido quinze escassos dias antes do final do meu regresso da comissão de serviço. Acordar doloroso o meu, porque nem eu nem o meu irmão fomos bem sucedidos nessa normal ambição!

Talvez por me sentir ainda puto, nunca me incomodou a ideia de operações com fuzileiros, baptismo de fogo, emboscadas, flagelações e até, integrado na guarnição, servirmos de isco para provocar o combate com o inimigo. Era normal suceder. Tensão, juventude e alguma leveza na avaliação do risco eram catalisadores importantes. Sempre me preocupou a segurança daqueles que das minhas funções e do meu comportamento dependiam.

Talvez por me sentir ainda puto, recordo aqueles dois anos plenos de inesquecíveis e ricas vivências fruto do comportamento, camaradagem e solidariedade de uma guarnição de que muito me honro ter sido Oficial Imediato. Lembro-os a todos e à LFG «Orion» com grande saudade e amizade, sobretudo aos que já não se contam entre nós.

Talvez por me sentir ainda puto, gostaria que fosse possível visitar uma daquelas unidades navais que tanto prestigiaram a Marinha nos mais de doze anos de implacável e ininterrupta guerra. Quem sabe, talvez pudessem ter sido preservadas uma LDM (escolheria a LDM 302), uma LDG (escolheria a LDG «Alfange»), uma LFP (escolheria a LFP «Bellatrix») ou uma LFG (escolheria a LFG «Lira»). Afinal foram dezenas de unidades navais e alguns milhares de homens que se bateram pelo País. Mas não, ficaram por lá todas sem excepção, cascos apodrecidos num rasto pouco de acordo com uma cultura histórica digna.

Talvez por me sentir ainda puto, gosto de recordar os heróis da Marinha que se distinguiram em acções especiais. Bastará lembrar os elementos das guarnições da LDM 302 que em três dos vários ataques sofridos (1967, 1968 e 1969), tiveram 3 mortos em combate e 1 ferido grave (todos no rio Cacheu) e um outro grave (no rio Uajá).

Talvez por me sentir ainda puto, lembro também a LFG «Lira» que, no mesmo local do rio Cacheu (Tancroal), no princípio de 1968, já noite a fechar, atacada com diverso armamento, foi atingida com 2 granadas de RPG7 que lhe provocaram 1 morto (DFE 10), 4 feridos graves e 3 ligeiros. Dos feridos ligeiros, um foi o nosso camarada 2TEN RN Calado Marques que, mesmo ferido, assumiu durante 5 horas a navegação até Vila Cacheu, complementando o comando de um navio sem comunicações, sem giro e com avarias diversas. Apenas ali foi possível a evacuação do elemento da guarnição morto em combate e dos feridos.

Talvez por me sentir ainda puto, sonho que um dia poderá vir a ser possível levar a cabo um projecto sério de País em que os nosso filhos e netos se orgulhem de viver, alicerçado numa cultura idónea de cidadania e sociedade. Nele, as Instituições responsáveis defenderão intransigentemente a preservação da identidade de um Estado democrático com maior justiça e bem estar social.

Talvez por me sentir ainda puto, continuarei determinadamente a registar, no nosso caso particular, o orgulho de termos sido o último curso «Especial» de muitos outros da Reserva Naval e, enquanto pudermos utilizar pena ou teclado, reescrever as memórias do que entendermos importante.

Talvez por me sentir ainda puto lembro que, do nosso convívio Guiné, já partiram para a última comissão dos »Magníficos» os camaradas e amigos Jorge Manuel Calado Marques (Galã), José Carlos Pereira Marques (Lotus Flower), Manuel Sousa Torres (Manecas) e ainda o José Manuel Matos Moniz. Do nosso curso, não apenas Guiné, também o José Tereno Valente, Alexandre Ferreira Borrego, António Palma Fernandes, Augusto Soares de Albergaria, António Marinho de Castro, Frederico da Luz Rebelo, José Matos Moniz, Manuel Monteiro Coutinho, Paulo Lowndes Marques e Rui Sousa Eiró já não se encontram entre nós. Certamente escolheram o rumo certo para um reencontro do nosso curso para breve, o 8.º CEORN.

Abraço amigo,



Manuel Lema Santos
8.º CEORN




Fontes:
Comentário de Manuel Lema Santos, 8.º CEORN, compilado e editado por mls; texto e fotos de arquivo do autor do blogue com cedência do Museu de Marinha e Henrique Oliveira Pires, 11.º CFORN;


mls

05 julho 2018

Reserva Naval - Talvez por ser puto! Talvez...


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Abril de 2011)

Talvez por ser puto! Talvez...




Rio Cacheu, Guiné - A LFP «Canopus" (Lancha de Fiscalização Pequena) vs LFG "Orion" (Lancha de Fiscalização Grande)

Emídio Aragão Teixeira, amigo pessoal e antigo camarada do mesmo curso, o 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval que, com mais de uma dezena de camaradas, eu incluído, fomos destacados para o cumprimento de diferentes missões na Guiné no ano da graça de 1966.

Sobre a viagem efectuada num DC6 da FAP já aqui publiquei um resumo possível:

Mal recordado diga-se, que a memória de acontecimentos idos e menos festivos refugia-se e trai-nos, dificultando a lembrança fácil e instantãnea. Emídio Aragão Teixeira, o "Mio" para familiares e amigos próximos e também para mim, foi nomeado para comandar a LFP «Deneb», Lancha de Fiscalização Pequena da classe «Bellatrix» enquanto que, a mim, me tocou na nomeação ser oficial imediato da LFG «Orion», Lancha de Fiscalização Grande da classe «Argos».

Diferenças? Em quase tudo quanto é possível em unidades navais, muito dissemelhantes nas dimensões e tipo de construção, passando pela guarnição, equipamentos e armamento, até à capacidade das missões a desempenhar.

Diferenças que se esbateram pelas condições específicas do teatro Guiné em que, operacionalmente, ombrearam lado a lado num dia-a-dia denso, diversificado e muitas vezes imprevisível, ao longo de dois anos com que foi premiada cada uma das guarnições que nelas foram desfilando - Oficiais, Sargentos e Praças - rumo a uma História ainda pouco divulgada por insuficientemente relatada. As LFP com guarnições de 7 e as LFG com guarnições de 27 homens.

Trata-se de contas simples para 13 anos de conflito na Guiné, das quais 8 LFP-Lanchas de Fiscalização Pequenas que ali ficaram atribuídas operacionalmente a adicionar a 7 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes. As primeiras ali foram abatidas ao efectivo e, das segundas, foram afundadas 140 milhas a oeste de Bissau as LFG «Cassiopeia» e LFG «Sagitário», por não terem condições de navegabilidade. As restantes 5 LFG juntaram-se em Angola às 3 que ali mantiveram a vida operacional, desempenhando missões até ao seu abate.

Acrescentem-se-lhe ainda 3 LDG - Lanchas de Desembarque Grandes (20 elementos de guarnição), 44 LDM - Lanchas de Desembarque Médias (6 homens de guarnição), 9 LDP - Lanchas Desembarque Pequenas (3/4 elementos de guarnição) e ainda to da uma panóplia de navios diversos que incluiu fragatas, corvetas, navios-patrulha, navios-auxiliares, navios-hidrográficos e ainda Unidades e Serviços em terra.

Obrigatório deixar igualmente aqui um espaço para assinalar os 27 DFE - Destacamentos de Fuzileiros Especiais e as 11 CF - Companhias de Fuzileiros além de diversos Pelotões de Reforço que completaram o dispositivo naval.

Sobre a nossa ínclita viagem até à Guiné Aragão Teixeira rubricou um comentário que aqui volto a transcrever integralmente:




Meu muito caro Lema,

Lembro-me de alguma coisa a propósito da memorável viagem, ruidosa e fria, que 13 magníficos, tal onze mais dois do oceano por cima dele passando, tratámos de fazer.

Dois meses antes antes do nascimento da Karen...

Puto que eu era!

Feliz na facilidade da vida e das coisas, sem nunca se me ter apresentado a hipótese de não estar a fazer a coisa certa.

E isso talvez tenha ajudado a que, política e imagem incorrectas à parte, ainda hoje considere que foram os dois menos complicados anos da minha vida!

Talvez por ser puto! Talvez...

Talvez por ser inconsciente, o grande antídoto para o medo. Talvez...

Mas porque me lembro de quem e como era na altura, não hesito em afirmar que se voltasse atrás tudo voltaria a ser igual.

Normalmente as mesmas causas, no mesmo enquadramento, determinam as mesmas consequências.

Dizem que o verdadeiro estúpido é aquele que espera coisa diversa da já verificada!

Não me sinto pior ou melhor por ter andado por lá aos tiros do que se sentiria o Persa depois de ter perdido a guerra contra o Grande.

Mesmo que os jornais do Irão de hoje considerassem, e não consideram, o Dário como um criminoso. Vencido.

Já percebeste que estas linhas são apenas o prefácio de outras que espero escrever a este respeito.

A Pátria honrae? Talvez.

Mas cega,ninguém contempla ninguém.

Um forte abraço!

Quantos restamos dos treze?




Emídio Aragão Teixeira
8.º CEORN




Fontes:
Comentário de Emídio Aragão Teixeira, 8.º CEORN, compilado e editado pelo autor do blogue, mls; fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de Museu de Marinha e Henrique Oliveira Pires, 11.º CFORN;


mls