segunda-feira, abril 22, 2019

Guiné, 1965/1974 - LDG - Lanchas de Desembarque Grandes e o "granel" nos transportes logísticos


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Maio de 2012)

Guiné, 1965/1974 - Granel e LDG - Lanchas de Desembarque Grandes




"...Chegado a Bissau, novo pelotão e novo destino me esperavam, Piche, e em Setembro de 1968 embarquei numa Lancha de Desembarque Grande, uma LDG, com um pelotão constituído por três peças de Artilharia 11,4 cm...João Alves Martins, Alf Mil ArtBAC1, 1967/69 (Bissum, Piche, Bedanda e Guileje)"




De quando em vez apetece-me voltar atrás, ao tempo de permanência na Guiné e olhar irreverentemente para tudo o que nos cercava à época, misturando na mesma panela acontecimentos sérios e marcantes com a humorística filosofia subjacente à leitura dos flagrantes da vida real que certamente muitos da nós lembramos constituir uma obrigatória passagem no manuseamento das “Selecções do Reader’s Digest”.

Ocorreu-me o vocábulo granel com múltiplos significados consoante o texto onde está inserido. Será um substantivo com origem na língua catalã graner e pode ser utilizado como designando depósito para cereais (celeiro, manancial, tulha), mistura desordenada (solto, em montão), uma porção de composição tipográfica não paginada ou ainda, correntemente, em linguagem informal na Marinha, associada a confusão, desordem, indisciplina, rebaldaria, etc.

Cá para mim, simplificando, em linguagem LFG - Lancha de Fiscalização Grande que alguma companhia e escoltas lhes proporcionaram, quando carregadas até à medula com Companhias do Exército, armamento e veículos, bagagens pessoais, populações e até gado eram tudo aquilo mas, fundamentalmente, uma enorme dor de cabeça para todos, especialmente para as próprias guarnições das LDG - Lanchas de Desembarque Grandes.

Claro que dependia dos locais para onde se deslocavam nas missões e alguns havia de "alto risco", quer pela reduzida manobrabilidade quer pela elevada vulnerabilidade, associada à baixa velocidade de deslocamento daquelas unidades navais.

Para lá de toda esta panóplia de significados e no respeito que a Instituição certamente merece a todos os que desempenharam missões na Guiné, era um verdadeiro espectáculo de organizada confusão assistir e/ou participar na carga/descarga de uma LDG - Lancha de Desembarque Grande, em qualquer dos vários portos da Guiné onde tinham possibilidade de abicagem.

Também deixava antever muitas das necessidades de apoio logístico que só a Marinha tinha capacidade para suportar, no apoio e abastecimento a forças militares ou populações, revelando uma notável capacidade de planeamento, e organização, concretizando os objectivos com o esforço e sacrifício das guarnições, mas também das forças militares - Exército e Força Aérea que colaboravam neste objectivo comum.



1971 - A LDG «Alfange» abicada em Cacine, procede a descarga



Frequentemente, uma imagem substitui com vantagem mil palavras, acentuando pela visão uma óbvia e correcta aplicação de um termo.

Na antiga província da Guiné, ao tempo da Guerra do Ultramar, a imagem que melhor espelharia o que acima digo seria uma LDG – Lancha de Desembarque Grande quando carregada para levar a bom porto mais um transporte logístico.

Para norte ou para o sul, para leste ou para oeste, qualquer que fosse o rumo, as LDG «Alfange» - LDG 101, LDG «Montante» - LDG 104 e LDG «Bombarda» - LDG 201, asa duas primeiras a partir de 1965 e a última a partir de 1969, eram retratos vivos de granel organizado, por força da complexidade dos movimentos, da difícil manobrabilidade e das marés que tantas limitações impunham.



Em cima: 1971 - A LDG «Alfange» embarca logística especial e, em baixo, a mesma LDG abicada na testa da ponte-cais de Bolama



A partir de 1969 a chegada à Guiné da LDG «Bombarda», reforçou o dispositivo naval da Guiné, vindo já equipada com 2 peças anti-aéreas Bofors de 40 mm, armamento que, no decorrer desse ano, veio a ser igualmente montado nas LDG «Alfange» e LDG «Montante». Tal melhoria aumentou substancialmente a segurança dos movimentos efectuados pelas LDG que passaram a ter condições de defesa suficientes para procederem, em circunstâncias normais, à maioria das missões de forma autónoma.

Noutros casos de acordo com os locais de destino e os riscos corridos no transporte que efectuavam, a guarnição era reforçada com fuzileiros, ou eram escoltadas adicionalmente por LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes e, em locais de prováveis emboscadas ou ataques, parelhas de aviões da FAP apoiavam o percurso.

Melhor que delas falar aqui ficam algumas imagens elucidativas que podem também ser vistas em:





Fontes:
Texto e fotos do arquivo pessoal do autor do blogue com cedência do Arquivo de Marinha sendo as duas primeiras por amável cedência de João Alves Martins, Alf Mil ArtBAC1, 1967/69 (Bissum, Piche, Bedanda e Guileje)


mls

segunda-feira, abril 15, 2019

Guiné, 1968 - Visita Presidencial à Guiné no paquete N/M «Funchal»


(Post reformulado a partir de outros já publicados em 29 de Agosto e 7 de Novembro de 2006)

N/M «Funchal» em "Visita Presidencial" à Guiné de 2 a 7 de Fevereiro




Em cima, o N/M «Funchal» atracado na ponte-cais, com iluminação de gala e, em baixo,
fotografado a partir da LFG «Orion» sendo igualmente visível a FF »Almirante Pereira da Silva»





Em 2 de Fevereiro de 1968, visível para trás, já atracado na ponte-cais em Bissau, o N/M «Funchal» que transportou o Presidente da República de então, Almirante Américo Tomás, bem como toda a sua comitiva, na viagem que efectuou a Cabo Verde e à Guiné, tendo permanecido neste último território de 2 a 7 daquele mês.

Participaram em escoltas diversas as LFG «Lira» e LFG «Orion», além de outras unidades navais que, quer na chegada a 2 de Fevereiro quer na partida a 7 do mesmo mês, acompanharam o navio presidencial entre a bóia do Caió-Bissau e vice-versa.

Durante o périplo presidencial fez igualmente parte da comitiva a fragata «Almirante Pereira da Silva», navio que escoltou o N/M «Funchal» durante toda a viagem, sob o comando do CFR Mário Esteves Brinca.




Em cima, o N/M «Funchal» atracado na ponte-cais, sempre engalanado,
e, em baixo, fotografado da LFG «Lira» quando era sobrevoado por uma esquadrilhas de helicópteros




Nos cinco dias que o N/M «Funchal» permaneceu em Bissau, foram levadas a cabo múltiplas realizações destinadas a comemorar a efeméride que incluiu no programa oficial, além de outros cerimónias e espectáculos, desfiles militares e exibição de grupos oriundos de várias etnias, nos arruamentos e praças da cidade.

Mais tarde, a 7 do mesmo mês e na largada do N/M «Funchal», entre Bissau e a bóia do Caió, repetir-se-ia o cenário, desta vez também com a LFG «Cassiopeia».

Alguns oficiais imediatos das LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes, nesses dias estacionadas em Bissau e outros oficiais à margem da participação nos festejos, para lá de funções permanentemente desempenhadas por inerência do cargo, foram chamados a prestar serviços adicionais como oficial de serviço à ponte-cais de Bissau, garantindo a segurança em conjunto com uma equipa de mergulhadores-sapadores.




Em cima, o N/M «Funchal» numa interessante perspectiva obtida da LFG «Sagitário» e,
em baixo, anverso e verso da medalha comemorativa da vista presidencial




Dispunham para o efeito, além da habitual guarda à ponte-cais de uma esquadra de de fuzileiros comandada por um Sargento.

No final, pelo desempenho da missão a contento, como tantos outros militares, foram agraciados com uma medalha comemorativa profusamente distribuída.




N/M «Funchal» - Resenha Histórica

Foi construído pelo estaleiro Helsingør Skipsværft A/S, na Dinamarca, por encomenda da Empresa Insulana de Navegação, com projecto de Rogério de Oliveira. Foi o maior navio de passageiros construído na Dinamarca à data da sua entrega em Outubro de 1961, tendo sido lançado ao mar a 10 de Fevereiro de 1961. Tinha então como função a ligação marítima regular entre Lisboa e as ilhas dos Açores, da Madeira e das Canárias, efectuando mensalmente duas viagens consecutivas com o itinerário Lisboa-Funchal-Tenerife-Funchal-Lisboa seguidas de uma viagem aos Açores via Funchal.

Integrava na década de 1960 uma importante frota de navios e passageiros portugueses constituída à época por mais de vinte navios, com destaque para os navios "N/T Infante Dom Henrique","N/T Santa Maria", "N/T Vera Cruz" e "N/T Príncipe Perfeito", os quatro maiores paquetes portugueses, abatidos em 2004, 1973 e 2001, respectivamente.

Foi nele que, à época do presidente Américo Tomás, foram transportados os restos mortais de Pedro IV de Portugal para o Brasil, sob escolta militar (1972).

No início da década de 1970 tendo o tráfego aéreo superado as viagens marítimas, em 1972 decidiu-se remotorizar o navio, substituindo as turbinas a vapor de origem por dois motores Diesel, e alterando os alojamentos e espaços públicos para classe única para utilização em cruzeiros turísticos internacionais. Pouco se alterou então o seu desenho exterior, mas após 1985 foram sendo efectuadas alterações graduais nomeadamente o prolongamento do convés "Promenade", então estendido até à popa. Internamente, as suas duas turbinas a vapor foram substituídas por motores a diesel.

No ano seguinte, 1974, a Insulana fundiu-se com a Companhia Colonial de Navegação, dando origem à CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos, de Lisboa, passando o "Funchal" ser propriedade da Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos. Em 1975 encontrava-se desactivado em Lisboa, tendo sido identificado pelo empresário grego George Potamianos, que o apresentou a uma empresa sueca de navegação que o fretou e explorou por dez anos, até que a Arcalia Shipping - The Great Warwick Co. Inc, do Panamá, daquele empresário, o adquiriu, em hasta pública, da massa falida da CTM (1985).

Após aquisição pelo armador Potamianos foi registado no Panamá, em 1985, sofrendo sucessivos melhoramentos e modernizações, tendo voltado ao serviço em Dezembro de 1985.

O FUNCHAL terminou o seu último cruzeiro em Lisboa a 16 de Setembro de 2010 e foi retirado do serviço para modernização a efectuar no cais da Matinha em Lisboa, mas devido à conjuntura económica adversa, em Julho de 2011, esses trabalhos estimados em 15 milhões de Euros foram suspensos.

A entrada em vigor, a partir de 1 de outubro de 2010, de novas exigências da Convenção SOLAS 2010 para a salvaguarda da vida humana no mar obrigou a algumas alterações de natureza técnica a bordo do "Funchal", nomeadamente a substituição de materiais combustíveis. Aproveitando essa intervenção o armador decidiu proceder a uma completa actualização dos alojamentos e espaços para passageiros, por forma a torná-lo ainda mais apetecível.

Estava previsto para Julho de 2011 o regresso do navio ao mercado dos cruzeiros com duas viagens a partir de Lisboa que iriam comemorar os 50 anos da viagem inaugural em 1961.

Constituiu até essa altura o navio mais famoso da companhia Classic International Cruises, que contava ainda com os navios Princess Danae, Arion, Princess Daphne e Athena, todos a navegar sob bandeira portuguesa (registo da Madeira).

No entanto, por dificuldades económicas a Classic International Cruises de Lisboa foi encerrada em Novembro de 2012, passando o navio para a posse da principal entidade credora, o Montepio Geral. O "Funchal" permaneceu imobilizado em Lisboa desde 16 de Setembro de 2010 até Fevereiro de 2013.

Em Fevereiro de 2013, juntamente com mais 3 navios, foi adquirido por um investidor português, a "Portuscale Cruises". Depois de sofrer profundas remodelações voltou poder navegar em Agosto de 2013.

A 1 de Agosto de 2013 foi apresentado, após remodelação profunda, que incluiu uma pintura inspirada na original da Empresa Insulana.

A 22 de Agosto de 2013 o navio voltou a navegar, como propriedade da Portuscale Cruises, mas ficou retido no porto de Gotemburgo, Suécia devido a deficiências técnicas detectadas aquando de uma inspecção pelas autoridades, antes do que seria a sua viagem re-inaugural.[1] Efectuou o último cruzeiro ao serviço da PORTUSCALE CRUISES de 28 de Dezembro de 2014 a 2 de Janeiro de 2015 e encontra-se desde essa data imobilizado em Lisboa, tendo o programa de cruzeiros previsto para 2015 sido cancelado a 12 de Fevereiro de 2015.

Foi vendido em 5 de Dezembro de 2018 por £3,9 milhões, um décimo do valor gasto na renovação do navio, para ser hotel de festa flutuante entre Liverpool e as Ilhas Baleares.


Fontes:
Texto e imagens de N/M «Funchal» em http://pt.wikipedia.org/wiki/Funchal_%28paquete%29; texto e imagens do "post" de arquivo do autor do blogue com cedências parciais dos comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Carlos Dias Souto;


mls

sexta-feira, abril 12, 2019

Guiné, 1970 - Operação Mar Verde, a maior e mais complexa acção na Guerra do Ultramar


Operação Mar Verde - Um artigo de opinião pelo 2TEN FZ RN Serafim Lobato


A 22 de Novembro de 1970, uma esquadra da Marinha de Guerra Portuguesa realizou a maior e mais complexa operação de toda a guerra do Ultramar de 1961 a 1975, que teve a sua génese na ilha de Soga, no arquipélago guineense dos Bijagós e terminou em Conacri.

Depois de um período preparatório, que incluiu surtidas várias de uma Lancha de Fiscalização Grande (LFG) a águas territoriais do Senegal e Gâmbia para recolher oposicionistas da Guiné-Conacri e uma missão de reconhecimento ao porto de Conacri, antes da efectivação da missão. Naturalmente, além de vários meses de preparação militar aos oposicionistas envolvidos que decorreu na recatada ilha de Soga.

Toda a operação foi montada e organizada na Guiné- Bissau, sob a orientação do seu governador e Comandante-Chefe General António de Spínola e como Comandante executivo o então Capitão-tenente Alpoim Calvão, que liderava as Operações Especiais do Comando-Chefe.

A operação, de que não existem documentos oficiais que a possam factualizar, mas que o Marechal António de Spínola, em 1989, “autenticou”, em carta enviada ao CECA (Centro de Estudos das Campanhas de África), então dirigido pelo falecido general Themudo Barata, teve, como missão central e principal, realizar um golpe de Estado na Guiné-Conacri.




Vista de Conacri, numa das fotos tirada de uma das lanchas ao largo da baía

Segundo a carta do falecido marechal, os objectivos da missão eram dois: “a operação visava atingir dois objectivos. O primeiro de alta estratégia e de natureza externa com vista a apoiar a realização de um golpe de Estado na República da Guiné. O segundo de natureza interna visava o desmantelamento das instalações do PAIGC em Conacri, aprisionando Amílcar Cabral e a libertação de militares portugueses detidos nas prisões do PAIGC”.

Spínola assinala, ainda, na carta, que “o processo oficial sobre a Operação Mar Verde foi destruído”, acrescentando, todavia, que a escrita, em citações, da autoria do comandante Alpoim Calvão, no seu livro “De Conacri ao MDLP”, é “o único documento válido existente sobre a operação, reproduzindo fielmente o relatório que me foi entregue e que fazia parte integrante do processo destruído”.




Os indigitados Primeiro-Ministro (ferido) e Presidente da República da FNLG, no final da operação,
a bordo da LDG «Montante», tendo ao lado o sargento enfermeiro


Será, pois, este trecho do comandante Calvão, do seu livro supracitado, que nos dará as principais informações para este artigo.

Assim, quatro Lanchas de Fiscalização Grandes, as LFG «Orion», LFG «Cassiopeia», LFG «Dragão» e LFG «Hidra» e ainda duas Lanchas de Desembarque Grandes, as LDG «Bombarda» e LDG «Montante» um Destacamento de Fuzileiros Especiais, o DFE 21, e uma Companhia de Comandos, ambos constituídos por africanos, várias dezenas de elementos “brancos” de outras unidades de elite bem como cerca de duas centenas de elementos da oposição a Seku Turé, saíram da ilha de Soga ao princípio da noite de 20 de Novembro, rumando para Conacri. Constituiram o Task Group 27.2.

No total, com as guarnições dos navios, devem ter estado envolvidos cerca de 600 elementos. Deste modo, uma parte substancial dos principais navios, com as suas guarnições, bem como de uma fatia significativa de quadros e tropas especiais da Armada, foram empenhados nesta operação que adquiriu, na altura, a de maior estruturação em complexidade e impacto internacional.

Nesta operação, participaram vários oficiais que provieram ou, simplesmente, pertenceram aos quadros da Reserva Naval.




Parte do grupo invasor (Portugueses e FNLG) a bordo da LDG «Montante»

Assim, o comandante do DFE 21 era o então primeiro-tenente fuzileiro especial dos Quadros Permanentes Raul Cunha e Silva, 7º CEORN, o seu oficial imediato era o então 2TEN FZE RN José Carlos Falcão Lucas, 13º CFORN, já falecido (na ocasião, este DFE apenas tinha estes dois oficiais operacionais, já que o imediato e o quatro oficiais, estavam em fase de substituição, após o primeiro ter sido ferido, gravemente, em combate e o outro sofrido um acidente em serviço).

No grupo operacional de oficiais fuzileiros participou ainda o 2TEN FZE RN Benjamim Lopes de Abreu, 10º CFORN, que seria o futuro imediato do DFE 22, que estava então em fase de constituição.

Como oficiais das guarnições dos navios participantes na operação, registe-se, ainda, a presença, como imediatos, os oficiais da Reserva Naval, 2TEN RN Paiva Pacheco, NRP «Cassiopeia»; 2TEN RN Nuno Vaz, NRP «Dragão» e 2TEN RN Ferreira Marques, NRP «Bombarda», todos do 13º CFORN.




Da esquerda para a direita: 2TEN RN Ferreira Marques, 2TEN RN Nuno Vaz e 2TEN RN Paiva Pacheco, durante a viagem inaugural da LDG «Bombarda» para a Guiné

Participou ainda, como oficial operacional um outro FZE, proveniente de uma outra Reserva, a Marítima, o então jovem oficial da Reserva Naval 2TEN FZE RN Alberto Rebordão de Brito, que viria a ser o futuro comandante do DFE 22 depois de integrar os Quadros Permanentes no posto de 1.º Tenente. Foi um dos quatro membros da Armada Portuguesa condecorados com a medalha de Torre e Espada por feitos em combate na guerra ultramarina (já falecido).

A operação, propriamente dita começou cerca da 01:30 de 22 de Novembro de 1970. Já no porto de Conacri, os navios da Armada largaram botes, com destino a terra, com as forças especiais de comandos e fuzileiros negros e os oposicionistas ao regime da Guiné-Conacri.




Foto tirada a bordo da LDG «Montante», antes da operação ser iniciada, vendo-se da esquerda para a direita: Vieira Pita (Oficial Imediato), o PM indigitado, Costa Correia (Comandante) e os indigitados Presidente da República e Ministro da Informação e um Oficial Médico do Exército

O navio-almirante da operação era a LFG «Orion», onde estava embarcado o comandante operacional da “Mar Verde” Alpoim Calvão.

As primeiras acções do desembarque viraram-se para as lanchas rápidas do PAIGC, atracadas no porto, que, segundo os relatórios entregues ao comandante Alpoim Calvão, teriam sido destruídas. Após movimentações dentro da capital guineense, com alguns combates e muitos mortos: teriam sido abatidos entre 400 a 600 soldados e habitantes de Conacri, o comandante operacional ordenou a retirada cerca das 04:30.

Na prática, todos os grupos destacados regressaram a bordo, com excepção de um pelotão da companhia de comandos africanos, chefiado por um oficial experiente, Tenente Januário, que se teria entregue ou perdido, e, posteriormente, capturado.

Foram eles que, em entrevista, confessaram – e, deste modo, deram a conhecer ao Mundo – que o ataque a Conacri fora uma operação mandada executar pelo governador e comandante-chefe da Guiné António de Spínola.

A informação que até agora foi referida é que todo o pelotão foi mandado fuzilar, mais tarde, pelo Presidente Seku Turé.




Prisioneiros portugueses na cadeia “La Montaigne”em Conacri, em foto tirada antes da invasão

Na operação Mar Verde, as tropas portuguesas sofreram três mortos , entre eles um alferes do Continente, de apelido Ferreira e, pelo menos, três feridos graves. A grande maioria dos oposicionistas guineenses, que ficaram no terreno, foi, mais parte, capturada ou morta. Os seus principais líderes foram reembarcados.

O objectivo central estratégico da operação, o derrube de Turé, não foi conseguido. Embora o grupo destacado para atingir o palácio presidencial, e residência de Turé, Villa Sally, tivesse conseguido entrar e tomarem os imóveis, não encontraram, todavia, o Chefe de Estado da Guiné-Conacri.

Alguns dos locais de apoio do PAIGC, igualmente, foram atingidos, mas nenhum dirigente de topo foi capturado. O seu secretário-geral Amilcar Cabral estava, aliás, ausente de Conacri, em visitas no estrangeiro e isso era do conhecimento da imprensa internacional.

Também foi tomado o aeroporto de Conacri, mas o objectivo desta missão, a destruição dos aviões MIG, não foi alcançado, pois as aeronaves não se encontravam no local.

Os grupos destacados para atacar a central eléctrica, que abastecia a cidade, conseguiram efectuar a sua missão, mas colocaram a cidade às escuras, o que provocou desorientação em certas movimentações, já que foram efectuadas já noite cerrada. Finalmente, os membros do comando que deveriam tomar a principal emissora-rádio fracassaram na sua missão.

De entre os objectivos secundários, a libertação dos prisioneiros portugueses, em número de 26, todos do contingente continental europeu, que estavam na prisão La Montaigne, do PAIGC, foi o único sucesso, plenamente conseguido.




Já de regresso à ilha de Soga, na proa da LFG "Dragão", em franco convívio, prisioneiros recém-libertados e elementos da guarnição daquele navio

O desfecho da operação Mar Verde, que teve um planeamento considerado excepcional para a sua complexidade, e, do ponto de vista estrito de missão interna, pode ser apelidada de “rigorosamente executada” teve, no entanto, repercussões gravosas para o Estado português, que se viu condenado nas instâncias supremas da ONU, incluindo os próprios Estados Unidos da América.

Alpoim Calvão assinala, no seu livro, que “o insucesso do Golpe de Estado se ficou a dever à manifesta carência de informação que falhou completamente no que toca à presença da aviação de caça em Conacri e aos apoios activos internos que não existiam ou, se existiam, não se concretizaram”.

Na realidade, hoje, existem informações, de várias fontes, que apontam que Ahmed Seku Turé teria sido “avisado” antecipadamente de que Portugal estaria a preparar, para aquela data, um ataque à Conacri. E estas fontes tanto teriam sido provenientes da antiga União Soviética, que vendeu as armas utilizadas na invasão, como de serviços secretos ocidentais, que não gostavam da “concorrência” portuguesa em áreas de influência de antiga potência colonial.

Na lógica do secretismo interno, a “Mar Verde” foi bem executada. Na realidade, quer as guarnições dos navios, quer as unidades das tropas especiais portuguesas nela envolvidas, nada souberam da missão a não ser no dia anterior à sua efectivação. E isto, apesar dos inícios preparatórios da operação terem começado em Janeiro de 1970.

Mas, foi, precisamente, na véspera da partida, quando o comandante operacional dá a conhecer o objectivo aos principais oficiais nela participantes, que começaram a surgir problemas. Ora, a “Mar Verde” esteve para ser abortada então. Alguns oficiais contestaram o facto de realizar uma operação “clandestina” para derrubar o Chefe de Estado de um país, com quem Portugal não estava em guerra.

No seu livro, Alpoim Calvão descreve o sucedido em três parágrafos, mas o que se passou a bordo, naquele momento, atingiu as proporções de motim. Quando Calvão efectuava o briefing final, o então supervisor da Companhia de Comandos Africanos major de cavalaria Leal de Almeida considerou ser “contra a ética militar” a efectivação de ataque a um país que não estava em guerra contra o Estado português.




Conacri, ao longe. Uma foto tirada já no final da operação

Foi-lhe dada voz de prisão e mandado apresentar ao comandante-chefe. Ora, esta posição teve eco em grande parte do corpo de oficiais da companhia de comandos. Assim, o capitão do recrutamento da província João Bacar Djaló, que comandava, operacionalmente, a companhia de comandos africanos, também questionou a razão da missão, bem como os principais oficiais, incluindo o tenente Januário.

Após uma reunião com o general Spínola, o major Leal Almeida esteve, no entanto, presente no desembarque em Conacri, mas não acompanhou os seus homens no terreno. Ameaças de conselho de guerra forçaram os comandos africanos a seguir para Conacri e o facto de Djaló se prontificar a continuar na operação “neutralizou um pouco a desmoralização incipiente”, reconheceu Calvão.

Este não foi caso único. O comandante da LDG «Montante» primeiro-tenente Costa Correia no “briefing” com os comandantes dos navios, igualmente, questionou o facto de preparar numa acção a um país estrangeiro, com o qual não havia estado de guerra.

Participou na acção, mas emitiu a sua posição, oficialmente, no “Diário Náutico”, que ainda hoje não é de acesso público. Actualmente, são conhecidos dados e factos mais amplos da montagem e planeamento de operação Mar Verde.

Principalmente, as suas consequências políticas e a clivagem que existiu no próprio governo de Marcelo Caetano face à sua efectivação. Para os investigadores e analistas históricos, a operação “Mar Verde” foi um insucesso, pois, em vez de enfraquecer a capacidade de apoio logístico ao PAIGC por parte da Guiné-Conacri, este impulsionou-se, até porque, em grande medida, a resistência castrense, minimamente organizada que surgiu aos atacantes portugueses partiram de guerrilheiros, que assim contribuíram para manter Turé no poder.

Claro que tal facto trouxe desconfianças grandes entre Amílcar Cabral e o Chefe de Estado guineense, pois o Exército deste último, praticamente, não funcionou. Sob o ponto de vista restrito, minimamente militar, a operação foi relativamente bem sucedida. Verificou-se que era possível “projectar” forças até uma distância relativamente grande, com base na surpresa e na eficácia da acção naval, com forças especiais bem treinadas.

E retirar em relativa acalmia.

Ora, este aspecto não teve continuidade, nem conseguiu inverter a relação de forças no terreno. Além do mais, internacionalmente, cresceu o apoio castrense e diplomático ao PAIGC, mesmo em países ocidentais. Com o consequente isolamento internacional de Portugal.


Serafim Lobato
2TEN FZ RN
14º CFORN




Fontes:
Texto adaptado e publicado na revista n.º 18 da AORN-Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Outubro de 2010; fotos cedidas por cortesia do CMG Luis Costa Correia, então 1.º Tenente e comandante da LDG «Montante» e do 2TEN RN João Manuel Nuno Vaz, então oficial imediato da LFG «Dragão», 13.º CFORN;


mls

quinta-feira, abril 04, 2019

Guiné, 1973 - Os Destacamentos de Fuzileiros Especiais Africanos DFE 21, DFE 22, DFE 23 (Parte V)


Resumo da Actividade Operacional 1970/1974 - V

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 13 de Maio de 2012)




Guiné, DFE 1, 1973 - Em cima, no mês de Fevereiro, operação nas Cachambas com embarque nos helicópteros e, em baixo, no mês de Novembro,
na placa da pista de Cufar, dia de grande movimento com operação heli-transportada





1974

Em Fevereiro o DFE 21 permanecia em Vila Cacheu e o DFE 22 em Cacine. Mantinham-se as acções de patrulhamento ofensivo, patrulhamento em botes, emboscadas e nomadizações, tendo mesmo sido realizadas alguma operações de grande envergadura no Sul, envolvendo DFE, como a “Galáxia Vermelha” e a “Estrela Telúrica I e II”.

O DFE 22 em Cacine, sob o Comando Operacional do CAOP1, e o DFE 1 em Ganturé eram as únicas Unidades de Fuzileiros que, nessa data, estavam a ser utilizadas explorando razoavelmente as suas possibilidades como forças especiais (Comodoro Almeida Brandão, nota 079EM74 de 15 de Abril).

Em Abril os conflitos travam-se com violência em quase todo o território, recorrendo o inimigo a métodos cada vez mais imaginativos e letais. Logo no dia 2 daquele mês, uma clássica operação de intervenção de Fuzileiros provoca algumas baixas no DFE 22 sem que se tenham conseguido inflingir quaisquer danos ao inimigo:

«Pelas 02:00, 65 elementos do DFE 22 embarcaram em Cacine numa LDM que, de braço dado com a LFG «Argos», seguiu até à foz do rio Diderigabi, tendo os botes, apenas com os operadores, acompanhado de perto as lanchas. A partir deste ponto, a LDM seguiu com os botes, com o eficiente apoio de radar da LFG «Argos». Junto à foz do rio Catobe efectuou-se o transbordo do pessoal, tendo a LDM aguardado aí pelos botes. Iniciou-se a progressão para nordeste e, cerca das 05:45, o 1Gr 010/72/G Seidi accionou uma mina antipessoal, ficando gravemente ferido.
Cerca das 11:00, o Mar FZE 140/70/G Sandem Dabó accionou uma mina reforçada, tendo tido morte imediata. Foi o último fuzileiro africano a morrer em combate na província da Guiné. De referir que uma perna do sinistrado, cortada pelo fémur, foi atirada a alguns metros do corpo, ficando os órgão genitais dependurados numa árvore.
[...] Os boticas revelaram muito sangue-frio e eficiência, conseguindo rapidamente preparar o corpo para evacuação.»


DFE 22, Acção “Batuque”, 02ABR74




Guiné, DFE 1, no rio Cacheu, em cima (Nov1972), a navegar numa LDM, depois do reembarque de uma operação no Sambuiá e, em baixo, uma LFG navega no mesmo rio,
depois de apoiar uma operação local (Dez1973)




Prevendo-se ainda a continuação da guerra, em 16 de Maio, o Estado-Maior da Armada informa que vai ser criado o DFE 23, a terceira Unidade de Fuzileiros Especiais Aficanos e destinada a render o DFE 1.

O DFE 4 é então enviado para Vila Cacheu, substituindo assim metade do DFE 1 que se encontrava naquela localidade para onde fora enviado a fim de possibilitar a partida do DFE 21 para Bolama, para se juntar aos DFE 22 e DFE 23 (que iria ser activado a 15 de Julho de 1974, rendendo o DFE1 que terminara a comissão, encontrando-se já naquela cidade o 1TEN FZ António João Carreiro e Silva nomeado seu Comandante.

1TEN FZE António João Carreiro e Silva pertenceu ao 9.º CFORN – Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, foi alistado na Escola Naval em 3.9.66 e promovido a Aspirante a Oficial em 15.3.1967. De 1967 a 1969 integrou o DFE 2 em Angola como 2TEN FZE RN e 3.º Oficial daquele Destacamento. Veio a ingressar posteriormente nos Quadros Permanentes, regressando em 1970 à Guiné já naquele posto.

Ainda no início de Agosto, com os DFE africanos estacionados em Bolama e os DFE 4 e DFE 5, os únicos Destacamentos de Fuzileiros Metropolitanos a permanecer na Província, em Bissau, o DFE 4 recebe instruções para regressar ao Cacheu “a fim de coordenar movimentos LDM evacuações Ganturé, São Domingos, Susana e Bissum”. Já se encontrava nessa vila quando, dias depois, através de mensagem, recebeu as últimas ordens do CDMG:

"...Efectuar partir 14 AGO PM recolha material VCacheu para Bissau via Rodo. Manter VCacheu secção até completada retirada material DFE 4 e do material CF 5 que transportado LDM Ganturé/Vila Cacheu será escoltado via rodo Bissau. Instalações e material não retirado deverá ser entregue administração civil..."

No dia 25 de Agosto foram desactivados os DFE 21, DFE 22 e DFE 23, as três Unidades de Fuzileiros Especiais Africanos estacionadas em Bolama. A desmobilização daqueles militares criava uma situação delicada e melindrosa, já que era uma tropa muito leal e dedicada, que se empenhara esforçadamente na guerra nos últimos anos e não conseguia entender o que se estava a passar.




Guiné, DFE 1, 1973
Em cima, no mês de Fevereiro, preparação de um golpe de mão na estrada Cafine/Calaque – Minagem de ponte e, em baixo, a ponte já destruída.




No entanto, o espírito de disciplina daqueles homens e a confiança que depositavam nos seus oficiais tudo superaram. Inicialmente, comparecera em Bolama uma delegação do PAIGC a fim de estabelecer contacto com os fuzileiros africanos. Chefiada por um tal Humberto Gomes, com um discurso de mentalização muito pouco feliz, não teve qualquer aceitação nem alcançou quaisquer resultados.

Foi então dada ordem ao pessoal dos 3 DFE para formar completamente equipado, o que cumpriram de imediato. De seguida, foram-lhes dados 30 minutos para entregar na LDM todo o armamento distribuído, o que de novo cumpriram sem hesitação. Era uma situação explosiva que poderia ser problemática, apenas ultrapassada graças à extraordinária disciplina daquelas Unidades de eleição.

Do armamento entregue apenas ficaram retidas 10 espingardas automáticas G3 e algumas pistolas por cada DFE, que se destinavam à segurança das instalações, material e pessoal metropolitano.

Sendo-lhes oferecida a hipótese de regressar a casa com as famílias e haveres - os fuzileiros africanos faziam-se acompanhar nas suas deslocações pelos familiares mais próximos e muitos dos seus haveres - e receber a totalidade dos vencimentos até ao mês de Dezembro, inclusivé, ou em alternativa, de poderem ser integrados na Marinha do PAIGC, a totalidade dos homens optou pela desmobilização.

Após terem sido integralmente pagos do que se lhes havia prometido, a maioria do pessoal embarcou numa LDG que largou com destino a Cacheu e Bissau, onde também embarcou o 1TEN Carreiro da Silva que tinha por missão assegurar a boa ordem a bordo daquela unidade naval durante o trajecto; a embarcação Corubal seguiu com destino a Empada, fazendo novamente escala em Bolama, no regresso, a fim de transportar para Bissau o restante pessoal.

Em 10 de Setembro de 1974, Portugal reconhece, de jure, a Guiné-Bissau como Estado soberano.


Ver também:




Fontes:
Fotos do arquivo pessoal do autor do blogue com cedências do Arquivo de Marinha e CFR Abel Ivo de Melo e Sousa, 20.º CFORN; texto compilado a partir de "Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974 - Guiné e Crónica dos Feitos da Guiné" de Luis Sanches Baêna, Comissão Cultural da Marinha, 2006; Resenha Histórico_Militar das Campanhas de África, 1961-1974, 7.º Vol, Fichas das Unidades, Guiné, Estado-Maior do Exército, 2002.


mls

terça-feira, abril 02, 2019

Guiné, 1973 - Os Destacamentos de Fuzileiros Especiais Africanos DFE 21, DFE 22, DFE 23 (Parte IV)


Resumo da Actividade Operacional 1970/1974 - IV

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 10 de Maio de 2012)




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1973

Pelas 22:30 do dia 20 de Janeiro, Amílcar Cabral é assassinado à porta da sua residência em Conakry, num crime atribuído à PIDE/DGS por uma opinião pública internacional acicatada pelos países africanos. Aristides Pereira assume então as funções de chefe interino do PAIGC.

O inimigo denotava uma organização militar perfeita, como referem alguns relatórios das Unidades. Sobre uma acção realizada pelo DFE 22 em Cacine, o Comandante relata:

"...O acampamento foi atacado e tomado de imediato. Quando o grupo de assalto chegou à extremidade do acampamento foi emboscado por um grupo de cerca de 10 elementos, armados com lança-granadas foguete e armas ligeiras que foram postos em debandada.
O acampamento era formado por cerca de 30 casas, em que a dispersão era a nota dominante. Ocupava uma área grande, tendo uma forma de quadrado, encontrando-se as camas dispersas pelas quatro linhas, bem afastadas umas das outras, todas com colchão, mosquiteiro e junto a cada uma delas os apetrechos pessoais.
Encontraram-se vários abrigos enormes em forma de “Z”, com degraus de entrada, e cobertos com duas filas sobrepostas de troncos de palmeira, tendo por cima grandes quantidades de terra. Estes abrigos eram recentes porque a terra que os cobria ainda não tinha perdido a cor. O acampamento tinha um trilho de acesso e outro de saída e, junto à linha que o delimitava, existia um trilho muito batido que se assemelhava a um circuito de vigilância a efectuar pelo pessoal de serviço..."


DFE 22, Operação “Escorpião”, 04Jan73

No dia 12 de Janeiro, o DFE 12 regressa a Ganturé juntando-se aí ao DFE 8, enquanto o DFE 22 já se encontrava instalado em Cacine, participando em operações na região, e o DFE 1 aquartelado em Cafine desde o dia 24.




Dezembro 1972, em cima a pista da Vila de Cufar, sendo visíveis aeronaves Nord Atlas, DO-27, Héli Alouette III e Harvard T-6 e, em baixo, no rio Cumbijã, frente a Cadique Nalú, uma LDG abicada e a descarregar



No dia 1 de Fevereiro, em Vila Cacheu, o DFE 21 passa a estar atribuído operacionalmente ao Batalhão de Caçadores 3863, visto o Comando do Agrupamento Operacional Permanente, CAOP, ter sido transferido da zona, mantendo-se a actividade habitual.



O BCaç 3863, integrando as CCaç 3459, CCaç 3460 e CCaç 3461 foi comandado pelo TCor Inf António Joaquim Correia sob a divisa “Honra e Glória”, na Guiné desde Setembro de 1971, passou a integrar os sub-sectores de Bachile e Cacheu a partir de 1.2.1973 onde a responsabilidade foi atribuída à CCaç 3460, sob o comando do Cap Mil Inf Fernando Manuel de Araújo Lacerda Morgado, por transferência do CAOP 1 para outra área.



A 20 de Março, o 1TEN Matos Moniz, comandante do DFE 21, termina a sua missão e é rendido pelo 1TEN José Maria da Silva Horta.

A 26 de Março, o DFE 22 é atribuído ao COP4 (Directiva 10/73 do COMCHEFE), destinado à ocupação de Jemberém. Este Destacamento já se encontrava sob as suas ordens em Cacine. O DFE 21 mantinha-se em Vila Cacheu.

O DFE 22 sai de Cacine, em 19 de Abril, numa operação com o nome de código “Caminho Aberto”, destinada a ocupar a tabanca de Jemberém. Após terem pernoitado no mato, chega à tabanca no dia seguinte e instala-se muito precariamente, sem qualquer espécie de condições, à semelhança do que acontecia com o DFE 12 no Chugué, passando a fazer patrulhamentos com a finalidade principal de assegurar as obras da estrada de ligação de Jemberém a Cadique, no rio Cumbijã, e a protecção das colunas de reabastecimento.

Em Junho, no Sul, o DFE 22 em Jemberém e o DFE 12 no Chugué vão realizando operações na área, continuando a debater-se com grandes dificuldades provocadas pela falta de infra-estruturas.




Novembro 1972, em cima, no rio Cacheu, ponte-cais de Ganturé, a LFG «Orion», P 362, atracada de braço dado com a LDG «Bombarda», LDG 105, e em baixo, no mesmo local, em primeiro plano o edifício da cantina, cozinha e dormitórios dos oficiais e sargentos; em segundo plano a messe de oficiais e sargentos



Prolongando-se essa situação para além dos limites do razoável, em que as inadequadas instalações acentuavam grandemente a penosidade de prolongadas permanências, começaram a surgir problemas de natureza disciplinar no DFE 22.

No dia 29 de Julho, aquele Destacamento desocupa parte do estacionamento que lhe estava atribuído em Jemberém, onde mantinha dois Grupos de Assalto reforçados, e regressa a Cacine passando ao comando operacional CAOP1, como força de intervenção.

No mês de Setembro, o dispositivo de Fuzileiros na Guiné conta, no Norte, com o DFE 1 em Ganturé e o DFE 21 em Vila Cacheu e, no Sul, com o DFE 4 no Chugué e o DFE 22 em Cacine.

Em meados de 1973, a Directiva Operacional “Tarefa Indómita” cria o CAOP1 em substituição do COP4 de Cufar. São-lhe atribuídos o DFE 12, o DFE 4 e o DFE 22, sendo que, este último, como unidade de intervenção


Ver também:




Fontes:
Fotos do arquivo pessoal do autor do blogue com cedência do Arquivo de Marinha e CFR Abel Ivo de Melo e Sousa, 20.º CFORN; texto compilado a partir de "Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974 - Guiné e Crónica dos Feitos da Guiné" de Luis Sanches Baêna, Comissão Cultural da Marinha, 2006; Resenha Histórico_Militar das Campanhas de África, 1961-1974, 7.º Vol, Fichas das Unidades, Guiné, Estado-Maior do Exército, 2002.


mls

segunda-feira, abril 01, 2019

Guiné, 1972 - Os Destacamentos de Fuzileiros Especiais Africanos DFE 21, DFE 22, DFE 23 (Parte III)


Resumo da Actividade Operacional 1970/1974 - III

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 7 de Maio de 2012)




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1972

Em Janeiro de 1972, o DFE 21 segue para Gampará para se juntar ao DFE 8 que já ali se encontrava sob o Comando Operacional do COP 7, nessa altura o Major de Cavalaria Correia de Campos. Por sua vez o DFE 13 foi rendê-lo em Vila Cacheu, ficando o DFE 4 em Ganturé.

As condições de vida em Gampará eram extremamente precárias, com barracas feitas de folhagens e ramos, valas à frente, ocupando uma das alas do estacionamento.

Faltava a água, as condições de higiene eram deficientes, a alimentação fornecida pelo Exército de muito fraca qualidade e em reduzida quantidade. Aliando a isto um ritmo operacional intensíssimo, o estado físico e moral da Unidade foi-se degradando progressivamente.

O DFE 22 continua com um grupo de assalto em Bolama e outro em Buba, mantendo-se em acção, quer com os grupos de assalto actuando isoladamente, quer reunindo-se todo o Destacamento, sempre que necessário. No dia 15 de Janeiro, o 1TEN AN Amadeu Cardoso Anaia assume o comando daquela Unidade.

Em Gampará, os DFE 21 e DFE 8 têm atribuídas missões exclusivamente terrestres consistindo em patrulhamentos ofensivos nas áreas circundantes do estacionamento de Guanjuará. Em meados de Janeiro, aquele estacionamento é visitado pelo Comandante-Chefe, acompanhado por jornalistas estrangeiros.

No mês de Fevereiro os dois DFE de Gampará estiveram empenhados 24 horas por dia na protecção à construção da estrada Ganquecuta-Ganjuará, continuando com os patrulhamentos ofensivos. Aquele aquartelamento continua a receber visitantes ilustres, nomeadamente o CDMG, comodoro Carlos Alberto Magro Lopes e, de novo, o Comandante-Chefe com jornalistas estrangeiros.




A 5 de Março os Comodoros Magro Lopes e Moura da Fonseca que se encontravam em fase de rendição de funções no CDMG visitam Buba e Bolama, onde assistem à entrega de comando do DFE 22, pelo 1TEN FZE Rebordão de Brito ao 1TEN AN Cardoso Anaia.

Este Destacamento de Fuzileiros Africanos encontrava-se a operar com os oficiais e parte do pessoal armado com espingardas "Kalashnikov", chegando mesmo os elementos da secção que seguiam à frente da coluna a usar fardas capturadas ao PAIGC. Este ardil, por serem negros, poderia lançar alguma confusão entre os inimigos logo nos primeiros momentos, criando indecisões susceptíveis de serem aproveitadas com vantagem pelos Fuzileiros.

As dificuldades levantadas pelas condições geográficas de uma natureza hostil aliadas por vezes às fatalidades da guerra não impediam, no entanto, que as missões fossem integralmente executadas.

A operação que os dois Destacamento de Fuzileiros foram incumbidos de realizar na região de Pobreza de 10 a 16 de Março de 1972, é disso um bom exemplo:

«...Pelas 18.30 passou o pessoal da LFG para 10 botes que seriam guiados pelo radar para o ponto de desembarque. Como os botes iam bastante carregados, não conseguiam acompanhar a lancha, pelo que foi ordenado que fossem recolhidos para bordo da LFG. Pelas 20:00 chegou-se defronte ao ponto de desembarque. Aqui, aquando da passagem da LFG para os botes o 2Gr FZE 180/70/G do DFE 22 inadvertidamente descavilhou uma granada de mão que lhe causou a morte, bem como ferimentos ligeiros num sargento e mais três praças do DFE 21. Passados os primeiros momentos de desorientação que se seguiram ao rebentamento da granada, seguiu a primeira leva de botes para terra, tendo sido guiadas por radar para o ponto de desembarque. Várias tentativas em vão foram feitas para procurar uma abertura no tarrafo. Inclusivamente, houve pessoal que se lançou à água tentando rebocar os botes, mas o lodo chegava quase até ao pescoço, o que estava a provocar a incapacidade de utilização do armamento. (...) Cerca das 09:30, e sem protecção aérea, reembarcaram os dois DFE nas LDM (...) de braço dado com a LFG «Cassiopeia». Nesta formação chegaram a Bolama cerca das 14:00.

DFE 22, Operação “Rubi Vigoroso”, Março de 1972




No final do mês o DFE 22 foi destacado para Gampará de onde já saira o DFE 21 para render o DFE 4 em Ganturé. Mais tarde, cerca de mês e meio depois, conjuntamente com o DFE 13 e DFE 4 reforçou aquelas forças na operação “Vicking Furioso” a sul, no Cantanhês.

Em Abril, o PAIGC flagelou a cidade de Bolama durante cerca de dez minutos com seis foguetões de 122 mm. No dia do mesmo mês, tendo saído de Gampará numa acção que tinha por objectivo uma arrecadação de material inimigo referenciada na Pedra Agulha, foi o DFE 22 fortemente emboscado, reagindo de acordo com a clássica táctica dos Fuzileiros que tão bem provou em África:

“...Iniciada a progressão, atravessando a lala com o grupo aberto e com a primeira secção a deslocar-se com a segunda, emboscada, a dar-lhe protecção. Quando esta chegou ao ponto determinado montou a segurança necessária para que a segunda secção atravessasse a lala e se unisse à primeira. Quando esta secção se encontrava a meio do percurso foi fortemente emboscada à retaguarda. (...) O grupo de assalto reagiu pelo fogo avançando a peito descoberto para cima do inimigo, de tal modo, que estes debandaram precipitadamente deixando no terreno quatro mortos e rastos de vários feridos...”

DFE 22, Acção na “Pedra Agulha”, ABR72





“A SUPERIORIDADE DE FOGO E O MOVIMENTO ANDAM DE BRAÇO DADO.”
(Manuel de Táctica do Fuzileiro Especial)





Ainda durante o mês de Maio foi o DFE 22 substituído em Gampará pelo DFE 21. No decorrer do mês de Junho foi o aquartelamento violentamente atacado durante cerca de meia hora por um grupo inimigo com cerca de 20 guerrilheiros, bem equipados com armamento ligeiro, lança-granadas foguete RPG2, lança-granadas foguete RPG7 e morteiros de 60 e 82 mm provocando notáveis baixas. Foram contabilizados 1 fuzileiro morto, 10 feridos, bem como baixas causadas às forças terrestres e população.

No dia seguinte voltou a repetir-se o ataque durante duas horas mas com artilharia que incluiu foguetões de 122 mm, canhão sem recuo de 4.5/7.5 e ainda morteiro de 82 mm, desta feita sem consequências porque as nossa forças já tinham sido alertadas pela população das tabancas vizinhas com alguns elementos raptados pelo IN que, ao escaparem, forneceram preciosas informações.

Durante os cinco dias seguintes o pessoal permaneceu em postos de combate já que os indícios de forte actividade inimiga e as baixas sofridas nos ataques anteriores deixavam antever outras acções eminentes.

Entretanto, a situação no sul da Província tornava-se alvo de preocupação do Comando-Chefe, pois a actividade inimiga na área aumentara à medida que o esforço de guerra se deslocava para a fronteira norte. Em Julho de 1972 (Directiva 10/72 do Comando-Chefe) são atribuídos ao CDMG dois DFE para assalto e conquista da parte sul da península do Cubisseco. Esta seria uma tarefa típica de forças terrestres cuja finalidade primordial consistia em recuperar psicologicamente a população. É assim que a instrução de operações emanada pela Comando de Defesa Marítima da Guiné em 21 de Julho determina:

Âmbito da manobra militar socio-económica determinada instalação permanência forças região Cubisseco objectivo primordial recuperação psicológica POP (populações) permita construção próxima época seca reordenamento área. Ocupar tabanca região Cubisseco estabelecendo uma posição da qual possam ser conduzidas acções a fim de aniquilar IN exercendo interna acção psicológica sobre POP/IN com vista à sua recuperação e desequilíbrio de forças.




Para esse efeito foi constituída a CTG5 e, a 24 de Julho, é lançada uma grande operação que se iria arrastar por quatro meses e meio com a finalidade de implantar, numa zona controlada pelo inimigo, uma base de onde seriam desencadeadas operações em todo o Cubisseco de Baixo e Pobreza. Era a Operação “Verga Latina”, onde se encontraram empenhados os dois Destacamentos de Fuzileiros Especiais Africanos.

O DFE 21, transportado pela LFG «Hidra», desembarcou às 07:30 na Ponta Nalu, e o DFE 22 que se encontrava a bordo da LDG «Bombarda», desembarcou às 06:30 junto às tabancas de Mansabá, reunindo-se os dois destacamentos no dia seguinte próximo da Tabanca Nova, onde foi montado estacionamento; continuando no local com trabalhos de desmatação e instalação, montaram de maneira expedita um aquartelamento que passou a ser designado por "Tabanca Nova da Armada".

Enquanto os Destacamentos Africanos se encontravam no Cubisseco entregues à Operação “Verga Latina”, os três DFE metropolitanos mantinham-se em patrulhas e emboscadas ao rio Cacheu e seus afluentes, sendo que um em Vila Cacheu e os outros dois em Ganturé.

Em Agosto já o inimigo entendera que a intenção da Marinha era permanecer no Cubisseco, pelo que passaram a ser aguardados fortes ataques à Tabanca Nova da Armada. Havia então necessidade de se preparar a defesa, pelo que se cavaram trincheiras com valas e foram montados redutos de armas pesadas um com dois morteiros 120 mm; um com cinco morteiros 81 mm; um com três morteiros 81 mm; outro com dois morteiros 81 mm e um de 60 mm, possuindo mesmo um canhão sem recuo 7.5 capturado ao inimigo.




A 26 de Agosto o estacionamento foi flagelado pela primeira vez em ataques que se repetiriam, com maior ou menor violência, por seis vezes durante o mês de Setembro, mantendo-se os dois Destacamentos em intensa actividade na área, com excelentes resultados.

No dia 27 de Setembro, durante uma acção no Cauto, por heliassalto, o DFE 21 entra de novo em combate, ficando gravemente ferido o STEN FZE RN Carvalho Meneses, recém-chegado à Província.

Embora com meios cada vez mais sofisticados, o inimigo continua a adoptar a táctica pura de guerrilha.

"...Pareceu-me que o IN não se encontra em força na área. Conhecedor do terreno, sabe escolher os sítios onde pode fazer emboscadas com certo êxito e com elevada margem de segurança. Utiliza grupos pequenos para poder estar em vários lados ao mesmo tempo, cobrindo assim a quase totalidade da área. Mostram-se aguerridos mas cautelosos, pois ao mínimo movimento para manobra cortam o contacto e fogem..."

DFE 21, Operação “Verga Latina”, SET72

"...Após flagelação a aquartelamento, as nossas tropas (NT) detectaram 9 munições de lança-granadas (LG 8.9) metidas dentro dos respectivos tubos, os quais estavam enterrados até metade e com uma inclinação de 45º na direcção do aquartelamento. Os fios de ignição estavam ligados em paralelo para um possível disparo em simultâneo..."

I.O.M.G. n.º 9/72




Durante o mês de Outubro os dois Destacamentos Africanos que integravam a TG5 continuavam empenhados na Operação “Verga Latina”, acantonados na Tabanca Nova da Armada, durante esse período flagelada por quatro vezes, enquanto os DFE metropolitanos se mantinham em acção na fronteira norte, entregues a nomadizações, patrulhas e emboscadas terrestres ou aquáticas no rio Cacheu e afluentes.

"...Pelas 08:50 um grupo de assalto com elementos dos dois Destacamentos desembarcou [...], regressando ao estacionamento onde chegou pelas 18:15, tendo capturado uma espingarda Mauser, munições diversas, material diverso, três homens, onze mulheres e nove crianças. Pelas 18:20 foi este flagelado com fogo de morteiro 82 mm e canhão sem recuo, sem consequências..."

Durante o mês de Novembro, o estacionamento de Tabanca Nova da Armada foi flagelado por onze vezes, algumas mesmo junto ao “arame” (perímetro defensivo), permanecendo os DFE 21 e 22 naquele estacionamento de onde efectuavam permanentemente patrulhamentos ofensivos na área.

Porém, foi entendido pelo Comando de Defesa Marítima da Guiné que os objectivos que presidiam ao lançamento da Operação “Verga Latina”, que consistiam em “...recuperar psicologicamente a população do Cubisseco...”, não surtiam os efeitos desejados, já que a pouco numerosa população que vivia na área se encontrava perfeitamente enquadrada e mentalizada pelo inimigo. Foi por isso decidido retirar os dois Destacamentos, dasactivando o aquartelamento.




No dia 17, ambas as Unidades iniciaram os preparativos para o abandono da Tabanca Nova e a 24, o DFE 21 saiu do estacionamento onde ainda regressou no princípio de Dezembro para participar como agrupamento de reforço e reserva na Operação “Oliva Castores”. A 9 de Dezembro é dissolvida a CTG5 com a partida definitiva dos DFE 21 e DFE 22 da Tabanca Nova da Armada.

Durante este mesmo mês, o dispositivo das Forças Navais foi alterado. Com o abandono da Tabanca Nova da Armada, o DFE 21 transitou para Vila Cacheu, ficando responsável por patrulhas e emboscadas terrestres e aquáticas naquele rio e afluentes enquanto o DFE 22, ao sair do Cubisseco, seguiu para Bolama, onde permaneceu até dia 26, data em que transitou para Cacine. Desde a saída da Tabanca Nova cessou toda a actividades operacional, ocupando o seu tempo nos trânsitos, descanso e preparação das novas instalações em Cacine.

Nos finais de 1972, teve início o esforço para reocupar a região sul da Guiné, nomeadamente o Cantanhês, área onde o inimigo se movimentava à vontade, apenas com a oposição esporádica das Forças Nacionais, tendo-se este tornado o objectivo prioritário do Comandante-Chefe. É então constituído o COP4 (Directiva 19/72 de 28 de Novembro do Comando-Chefe), ao qual são atribuídos os DFE 21 e DFE 22. A missão dos Destacamentos de Fuzileiros Especiais, como se pode inferir pelo teor daquela Directiva é, basicamente, a tropa de quadrícula.

Com esse objectivo, o DFE 22 havia sido enviado para Cacine onde o DFE 21 já se encontrava, saído de Ganturé, com activa participação nas operações do rio Cumbijã.





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Ver também:





Fontes:
Fotos do arquivo pessoal do autor do blogue com cedências do Arquivo de Marinha; texto compilado a partir de "Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974 - Guiné e Crónica dos Feitos da Guiné" de Luis Sanches Baêna, Comissão Cultural da Marinha, 2006; Resenha Histórico_Militar das Campanhas de África, 1961-1974, 7.º Vol, Fichas das Unidades, Guiné, Estado-Maior do Exército, 2002.


mls

domingo, março 31, 2019

Guiné, 1971 - Os Destacamentos de Fuzileiros Especiais Africanos DFE 21, DFE 22, DFE 23 (Parte II)


Resumo da Actividade Operacional 1970/1974 - II

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 2 de Maio de 2012)




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1971

De 16 para 17 de Fevereiro, no rasto de notícias que davam o inimigo como como estando a preparar-se para atacar Empada, é enviado o DFE 21 à península da Pobreza juntamente com a Companhia de Artilharia 2673.



A CArt 2673, na Guiné desde Fevereiro de 1970 sob a divisa “Leões de Empada”, foi comandada pelo Cap Art Adolfo Pereira Marques, mais tarde substituído pelo Cap Mil José Vieira Pedro.
A partir de Abril de 1970 o sub-sector de Empada passou a incluir na sua zona de acção as áreas das penínsulas do Cubisseco e Pobreza, tendo obtido excelentes resultados nas regiões de Caúr, Buduco, Cancumba e Satecuta, entre outras.





Os riscos e perigos acrescidos durante os estacionamentos nocturnos são bem evidentes no relato que o comandante da operação faz sobre os acontecimentos ocorridos com o DFE21:

“...Ao cair da noite o Destacamento montou o estacionamento. Precisamente às 21:30 começaram a ser batidos por granadas de morteiro 82 mm e apesar de duas granadas terem rebentado muito perto, não responderam ao fogo, para não denunciarem a sua posição. Pouco depois da meia noite foi o DFE 21 violentamente flagelado, por 50 a 60 elementos armados com lança-granadas foguete (RPG2), metralhadora ligeira, armamento ligeiro e lança-granadas foguete 8.9, disposto-se o inimigo em semi-círculo em relação à linha da frente do Destacamento.

O DFE 21 reagiu pelo fogo, mas sofreu um morto, três feridos graves e vários feridos ligeiros. A Unidade alterou a posição para sul, deslocando os feridos às costas. Duas horas passadas foram novamente flagelados com as mesmas armas já de uma outra posição, tentando encerrar o Destacamento pela rectaguarda. Este respondeu pelo fogo tendo o inimigo retirado, notando-se que havia elementos que choravam na bolanha.”






Ainda no mesmo mês, no decorrer da Operação “Boa Festa” e apesar de se registarem baixas no inimigo, o saldo foi francamente negativo para o DFE 21 com três mortos, quatro feridos graves e dez feridos ligeiros.

Durante o mês de Julho, enquanto estacionado em Buba, o 1TEN FZE José Manuel Matos Moniz rende o anterior Comandante do DFE 21. Pertenceu ao 8.º CEORN – Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, foi alistado na Escola Naval em 9,10.1965 e promovido a Aspirante a Oficial em 29.4.1966. De 1967 a 1969 integrou o DFE1 em Moçambique como 2TEN FZE RN e 3.º Oficial daquele Destacamento. Veio a ingressar posteriormente nos Quadros Permanentes, regressando em 1971 àquele território e já naquele posto.

O Centro de Operações Especiais (COE) é então reestruturado sendo-lhe atribuído, a título temporário e mediante proposta do Comando-Chefe, para além de outras forças, os DFE 21 e DFE 22, este último em fase de aprontamento, vindo a ser activado em Novembro como o segundo Destacamento de Fuzileiros Especiais Africanos da Guiné.





Os militares que o integravam, oriundos daquela Província, tinham prestado juramento de bandeira a 5 de Outubro, no final do curso do Centro de Preparação de Bolama. Foi nomeado para seu comandante o 1TEN FZE Rebordão de Brito, oriundo da Reserva Marítima (o curso da Escola Naval era efectuado em conjunto com o da Reserva Naval/Marítima).

Esta unidade foi inicialmente dividida em dois grupos de assalto, um sedeado no aquartelamento de Buba e outro no de Bolama, com a missão de fiscalizar e patrulhar o rio Grande de Buba, o canal de Bolama e seus afluentes, dispondo de uma faixa ribeirinha para intervenção. Estava atribuído “temporariamente e a título experimental” ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.

Em 2 de Novembro, o DFE 21 que se encontrava em Plano de Treino Operacional, é rendido em Buba, por troca, pelo DFE 22 embarcando para Vila Cacheu onde ficou sob o comando operacional do CAOP 1, substituindo o DFE 4 naquela vila. O DFE 21, em virtude das baixas sofridas estava nesta ocasião bastante desfalcado, contando com um efectivo total de apenas cerca de 60 homens, entre metropolitanos e africanos.






Ver também:




Fontes:
Fotos do arquivo pessoal do autor do blogue, cedências do Arquivo de Marinha; texto compilado a partir de "Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974 - Guiné e Crónica dos Feitos da Guiné" de Luis Sanches Baêna, Comissão Cultural da Marinha, 2006; Resenha Histórico_Militar das Campanhas de África, 1961-1974, 7.º Vol, Fichas das Unidades, Guiné, Estado-Maior do Exército, 2002.


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sábado, março 30, 2019

Guiné, 1970 - Os Destacamentos de Fuzileiros Especiais Africanos DFE 21, DFE 22, DFE 23 (Parte I)


Resumo da Actividade Operacional 1970/1974 - I

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Maio de 2012)





1970

O CCFAG – Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, implementou determinadamente a formação de outro tipo de Unidades, constituídas essencialmente por militares guineenses, numa tentativa de construir uma organização militar de elite, com recrutamento local, aproveitamento do melhor conhecimento do meio, da interacção com as populações e também da forma de actuação do inimigo.




O resultado seria a formação de militares melhor e mais rapidamente preparados, redução do esforço metropolitano e a incentivação do interesse das populações na definição e condução de destinos próprios. Enquadrando-se nessa política do CCFAG, a Marinha activou o DFE 21, o primeiro Destacamento de Fuzileiros Africanos, em 21 de Abril.

Para ingressar nos quadros de Fuzileiros Especiais Africanos do Comando de Defesa Marítima da Guiné foram seleccionados 150 dos 900 voluntários que se apresentaram para servir nas forças especiais da Marinha. A adesão maciça de pessoal foi facilmente compreensível já que era «ronco»* ser Fuzileiro Especial e ganhava-se «manga de patacão»**.






Na selecção de pessoal foi dada preferência aos assalariados do Comando de Defesa Marítima da Guiné, dos Serviços de Marinha, guias das Unidades de Fuzileiros, impedidos nativos em serviço nas câmaras das unidades navais e das messes de oficiais já que, na generalidade dos casos, era pessoal bastante familiarizado com a vida na Marinha.

Também foram admitidos estivadores e pessoal que já cumprira o serviço militar em Companhias de Milícias ou de Caçadores Nativos.

Não houve especial preocupação em seleccionar candidatos em conformidade com o seu chão(c) ou etnia(d) o que, mais tarde, se veio a revelar um erro de estratégia que veio a ser corrigido posteriormente, na formação do DFE 22.






Para instalações, foi adaptado um barracão em Bolama que, com algumas alterações e adaptações, passou a servir simultaneamente de coberta de alojamento, sala de aula, cozinha, refeitório, enfim uma unidade polivalente. Baseada nos planos de curso em vigor na Escola de Fuzileiros foi ministrada uma instrução acelerada que, pelo local utilizado e, em função das exigências de momento, teve muito de improviso.

Na constituição do Destacamento e para melhor enquadramento e mais rápida formação, os oficiais, sargentos e alguns cabos ou marinheiros eram maioritariamente do Continente, rendendo-se individualmente no final de cada comissão. A Escola de Formação de Fuzileiros então instalada passou a ser designada por Centro de Instrução.






Para comandar aquela nova unidade formada, o DFE 21, foi nomeado o 1TEN FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva. Pertenceu ao 7.º CEORN – Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, foi alistado na Escola Naval em 15.8.1964 e promovido a Aspirante a Oficial em 29.4.1965. De 1965 a 1967 integrou o DFE4 na Guiné como 2TEN FZE RN e 3.º Oficial daquele Destacamento.

Veio a ingressar posteriormente nos Quadros Permanentes, regressando em 1970 àquele território no comando daquela Unidade. Ascendeu na carreira ao posto de Capitão de Mar-e-Guerra.

Até Junho atribuído ao Comando da Área Operacional de Teixeira Pinto, CAOP 1, em Agosto veio o DFE 21 a trocar com o DFE 3 ficando sedeado em Buba e, mais tarde, já em Outubro, regressou a Brá, na área de Bissau, para se juntar aos preparativos da Operação "Mar Verde”, já em curso na ilha de Soga, nos Bijagós.

De 20 a 27 de Novembro participa na Operação “Mar Verde” e, terminada aquela participação, rendeu o DFE 8 no patrulhamento e emboscadas no rio Grande de Buba.



Ver também:






* ronco: bravata; fanfarronada; exibição;
** manga de patacão: muito dinheiro; muita massa;




Fontes:

Fotos do arquivo pessoal do autor do blogue a partir de cedências do Arquivo de Marinha; texto compilado a partir de "Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974 - Guiné e Crónica dos Feitos da Guiné" de Luis Sanches Baêna, Comissão Cultural da Marinha, 2006;

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