domingo, maio 12, 2019

Bissau, 1964- Imagens que despertam memórias (IV)


Guiné, 1964 - Operação Tridente, Marinha e os Helicópteros Alouette III da FAP


Em Janeiro de 1964, o agravamento da situação militar no sector de Bissau e o aumento de actividade do PAIGC nos sectores oeste e sul da Guiné entendeu-s e militarmente ocupar o conjunto das ilhas de Caiar, Como e Catunco, importante região pelos recursos naturais, controladas pelo inimigo desde 1963. Considerava-se necessário controlar as vias marítimas de reabastecimento da zona sul, proteger populações, conseguir a instalação da autoridade administrativa,aproveitar os recursos económicos e, sobretudo, infringir perda de prestígio ao IN (inimigo).

Foi então iniciada a acção que viria a ser a maior de toda a Guerra do Ultramar, a Operação "Tridente" que se estendeu, por duas fases, de 15 de Janeiro de 1964 a 24 de Março. Envolveu múltiplos meios da Marinha, Exército e Força Aérea e, com baixas alargadas de ambos os lados, veio a revelar-se como uma vitória de «Pirro» com ganhos estratégicos duvidosos no tempo.

A participação da FF «Nuno Tristão» como navio de apoio às forças desembarcadas, mostrou a inovadora montagem de uma plataforma porta-helicópteros que permitiu quer a evacuação de feridos no decorrer da operação quer a presença do Ministro da Defesa de então, General Gomes de Araújo.

São dessas fases da «Operação Tridente» que a seguir se inserem algumas imagens.




1964, Guiné, Operação Tridente - Colocação dos primeiros barrotes em madeira para a montagem de uma plataforma porta-helicópteros na FF «Nuno Tristão»







1964 - Guiné, Operação Tridente
O piloto do helicóptero treina a aproximação à FF «Nuno Tristão»








1964 - Guiné, Operação Tridente
O Ministro da Defesa Nacional, General Gomes de Araújo, chega de helicóptero à FF «Nuno Tristão»








1964 - Guiné, Operação Tridente
Os maqueiros da FF «Nuno Tristão» transportam feridos para helicóptero








1964 - Guiné, Operação Tridente
Helicóptero prestes a poisar na FF «Nuno Tristão» com NH «Pedro Nunes» de braço dado




Numa homenagem à FAP - Força Aérea Portuguesa no que representou o apoio global das diferentes Esquadrilhas de Helicópteros Alouette III na Guerra do Ultramar se partilha abaixo um pequeno vídeo.






Fontes:
Texto e fotos do arquivo pessoal do autor do blogue, com amável cedência de fotos do Arquivo de Marinha; cópia de vídeo por cortesia da FAP - Força Aérea Portuguesa, disponibilizado no Youtube em https://youtu.be/7ld1ntHfnZs


mls

quarta-feira, maio 08, 2019

Guiné, 1967 – Rio Cacine, Gadamael_Porto (III)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Junho de 2012)


Gadamael_Porto e o corredor da morte




Região de Cacine, parte montante do rio com o mesmo nome

(clique na imagem para ampliar)


João José de Lima Alves Martins, foi Alferes Miliciano de Artilharia e, entre 1967/69, foi destacado para a Guiné. Comandou um pelotão do BAC1, tendo desempenhado diversas missões naquele território que o transportaram de Bissau a Bissum, Piche, Bedanda, Gadamael_Porto, Guileje, Bissau, Bigene, Ingoré e, então de regresso, novamente a Bissau.




Em cima, o porto interior de Bedanda no rio Cumbijã e,
em baixo, um combóio de LDM e batelões sobe o rio Cacine rumo a Gadamael_Porto




“...Já estava relativamente bem inserido na comunidade de Bedanda quando recebo a bombástica informação que tinha que rumar a Guileje. Sabia que não podia ser coisa boa pois fica a pouca distância da República da Guiné onde o IN tinha as suas bases e os seus apoios. Embarcámos os obuses em três LDM, descemos o rio Cumbijã e subimos o rio Cacine que achei espectacular com as suas águas estanhadas reflectindo a beleza das margens e desembarcámos em Gadamael_Porto, onde passei a melhor semana em que estive na Guiné...”




Gadamael_Porto, só com acesso a LDM e o cais de atracação

Além da trouxa às costas tinham por companhia de jornada as incómodas e pesadas, mas também imponentes e ameaçadoras peças de artilharia de 11.4 cm, cujo transporte por picadas, instalação e manutenção eram verdadeiras epopeias de resistência às dificuldades de movimentação e utilização.

Notável nomadismo de percurso, algo parecido com os de Marinha, apenas no que de comum tiveram as jornadas efectuadas e apoiadas pelas LDG’s ou LDM’s, Lanchas de Desembarque Grandes ou Médias, e também alguns dos locais, a norte ou a sul. Outros nem tanto já que, daquela relação, Piche e Guileje eram inacessíveis à navegação.

De ambas as povoações se conhecia a fama de locais pouco recomendáveis aos militares em serviço naquela antiga Província, estando o último conotado como uma obrigatória menção de pertencer ao “corredor da morte”, designação por que ficou conhecido o percurso que, na península do Quitafine, corria paralelo à fronteira, a sul e a leste, com a República da Guiné.

A estrada, classificação de luxo para a ligação referida, tinha um último reduto sul em Cameconde, a cerca de oito quilómetros de Cacine, passava por Cacoca, Gadamael_Porto, Guileje, Aldeia Formosa e Mampatá, junto aos rápidos da Saltinho do rio Corubal.

A proximidade da fronteira e da base inimiga de Sansalé eram pontos de permanente tensão e combates para as unidades militares que, na área, se empenhavam em cortar um caminho natural às cambanças logísticas de armamento e pessoal do PAIGC para o interior do território.




Gadamael_Porto na preia e na baixa-mar



A dimensão dos conflitos na Guiné, Angola e Moçambique, bem como a ausência de empenhamento político determinado, reforça a minha convicção de que ainda está por encetar uma verdadeira história conjunta da Guerra do Ultramar, escrita com a participação dos três ramos das Forças Armadas, em que nada seja excluído.

E, portanto, que inclua necessariamente a versão da geração de oficiais dos Quadros Permanentes que a encabeçaram e dirigiram, mas também os contributos de todos os milicianos, sejam eles Oficiais, Sargentos ou Praças dos três ramos das Forças Armadas, incluindo igualmente os Oficiais da Reserva Naval que nela participaram e sem os quais não teria sido sequer possível o início.

Entretanto, ir-se-ão coleccionando retalhos individuais diversos, tecidos por soldados, marinheiros e aviadores a que falta todo um complexo encadeado de explicações que os interliguem culturalmente, para que a História possa ser construída a partir dos alicerces com perspectiva social, política e económica estruturadas.

Historiadores e sociólogos cumprirão futuramente a tarefa. Há que corrigir distorções militares de conveniência que, por vezes sem as competências devidas, se afadigam a escrever provisoriamente, com um certo ar de definitivo. Muitas vezes sem cuidar de ouvir testemunhos de participantes.




Em cima, no cais de Bedanda o denominado "matador" para carregar os obuses e,
em baixo, aspecto de uma coluna militar de artilharia.




João José Alves Martins, com elevado sentido de amizade e camaradagem disponibilizou-me pessoalmente textos e imagens de que, modestamente, me limito a reproduzir alguns trechos ilustrados deixando, a quem melhor que eu, saiba fazer relatos históricos de outra guerra, a que se vivia em terra.

“...Mais, o sentimento mais profundo que trago como recordação, é que, na Guiné, eu não estava no estrangeiro, mas em Portugal, e quando estou com alguém de lá, não posso deixar de lhe dar o meu abraço de “irmão”, porque vejo nele um português que vive no estrangeiro...”

“...Parte de mim ficou na Guiné, para sempre, não só pelo sentimento do dever cumprido que é independente do regime que vigorava na altura, mas sobretudo, pela experiência e pelo reconhecimento de cerca de 500 anos de convivência e de pertença à mesma Nação, e esta realidade não se esquece, não se apaga e não está à venda…”

Revelou-me nutrir grande paixão pela Marinha a que, certamente, não é alheia a genética paterna por ele herdada e alimentada na qualidade de filho de oficial dos Quadros Permanentes.

Aqui lhes dedico, a ambos, estes rabiscos de alguém empenhado na impossível tarefa de não deixar ninguém para trás no registo de memórias Reserva Naval.


Mais informação em:




Fontes:
Texto do autor do blogue; extractos assinalados e fotos cedidas gentilmente por João Alves Martins, Alferes Miliciano de Artilharia, BAC1, Bissum, Piche, Bedanda e Guileje, 1967/69;


mls

terça-feira, maio 07, 2019

Bissau, 1967/68 - Imagens que despertam memórias (II)


Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro

Heródoto






Bissau - Vista noturna da Avenida da República que percorria o centro de Bissau entre o cais do Pijiguiti e a Praça do Império onde se situava o Palácio do Governador





Anos '60 - O então Centro de Estudos da Guiné Portuguesa que existiu entre 1946 e 1975






Duas perspectivas da antiga Praça do Império e Palácio do Governador








O antigo edifício dos CTT a meio da Avenida da República, com a curiosidade de estarem estacionados, em frente, viaturas da época como um Ford Taunus 17M (sabonête) e um DKW 3=6






A pensão da Dona Berta, local obrigatório para uma estadia de passagem, um aprazado encontro ou ainda para saborear um gelado; estacionado em frente um "Land Rover" dos fuzileiros e, por detrás do edifício,
a Sé Catedral, em baixo visível na totalidade









O monumento a Diogo Gomes que, ao lado do antigo Edício da Alfândegas,
no enfiamento da ponte-cais em "T", parece contemplar o horizonte




Fontes:
Textos de legendas e fotos do arquivo pessoal do autor do blogue;


mls

sexta-feira, maio 03, 2019

Bissau, 1968 - Imagens que despertam memórias (I)


Bissau, 1968 - Imagens que despertam memórias (I)

(Post reformulado a partir de outros já publicados em 23 de Maio de 2012)




A Avenida Marginal que percorria a orla marítima entre os Armazéns da Alfândega,
junto do Comando de Defesa Marítima da Guiné (CDMG),
Pijiguiti, Serviço de Assistência Oficinal (SAO) até às Instalaçõas Navais da de Bissau (INAB)





As Instalações Navais de Bissau, vendo-se em primeiro plano Porta de Armas do INAB





Atracadas de braço dado na asa interior da ponte-cais, em T, as LFG «Lira» - P361 e LFG «Orion» - P362





A "Alfange - LDG101, atracada na asa oposta da ponte-cais em faina de carga





Ao fundo, frente à ponte-cais, o ilhéu do Rei e, à direita, a LFG «Hidra» - P376 dá a volta para atracar






A LDM311, máquinas a vante "toda" faz-se ao lodoso Geba, para juzante





Bissau, ponte-cais na habitual faina de cargas e descargas





Bissau - Liceu Honório Barrêto





Bissau - Quartel da Amura




Fontes:
Todas as fotos foram cedidas gentilmente por João Alves Martins, Alf Mil Art, BAC1, Bissum, Piche, Bedanda e Guileje, 1967/69


mls

sexta-feira, abril 26, 2019

LDP 208 no Leste de Angola, 1971/1973 - Rio Zambeze, Chilombo


Angola, 1971/1973 - LDP 208, Rio Zambeze e Chilombo




Em cima, no rio Zambeze a «LDP 208» abicada para reabastecimento e, em baixo, em plena faina logistica




O Rio Zambeze, um dos grandes rios de Moçambique e de África, atravessa o extremo leste de Angola no saliente do Cazombo, pouco depois da sua nascente em território zambiano. Em Caripande, o rio Zambeze deixa o território angolano voltando a território da Zâmbia.

Na sua margem esquerda, mais concretamente no Chilombo, esteve baseado o Destacamento de Marinha do Zambeze - DESTACMARZAMBEZE - que, a par do Destacamento de Marinha do Lungué Bungo - DESTACMARLUNGUE - e do Destacamento de Marinha do Rivungo - DESTACMARRIVUNGO - constituíam as Forças de Marinha no Leste de Angola.

O Destacamento de Marinha do Zambeze integrava um Destacamento de Fuzileiros Especiais, um Pelotão de uma Companhia de Fuzileiros, uma Lancha de Desembarque Pequena, a «LDP 208», e uma Lancha de Transporte, a «Caripande».

No saliente do Cazombo, estavam aquarteladas várias unidades do Exército de entre as quais o Comando do Sector e do Batalhão na povoação do Cazombo, uma Companhia na Lumbala Velha, uma Companhia na Lumbala Nova, e um Pelotão reforçado no Posto Fronteiriço de Caripande.

A «LDP 208» foi transportada para o rio Zambeze – Chilombo, seccionada em três partes, primeiro de combóio, no conhecido Caminho de Ferro de Benguela, desde o Lobito até Vila Teixeira de Sousa e depois em coluna militar durante vários dias até ao Chilombo. Durante a paragem em Teixeira de Sousa, esta Vila sofreu um ataque violento.




Rio Zambeze, Chilombo - O cais das lanchas, sendo visíveis a «LDP 208», a lancha de transporte «Caripande», botes dos fuzileiros e uma viatura do Exército

Foi determinante a iniciativa do Marinheiro Artilheiro que acompanhava a lancha que resolveu abrir fogo com a peça Oerlinkon montada numa das partes da LDP 208. Naquela Vila considerava-se que a sua acção tinha evitado um banho de sangue dado que os habitantes não estavam preparados para situações como aquela e porque os atacantes vinham anestesiados com drogas e armados principalmente com armas brancas.

No Chilombo, depois de os técnicos do Serviço de Assistência Oficinal vindos de Luanda agruparem as três partes, a «LDP 208» ficou operacional e começou a cumprir a sua missão de transporte de carga e de pessoal. Navegou entre o Cazombo e Caripande, mas fundamentalmente entre o Chilombo e Caripande.

O caudal de água do rio Zambeze diminuía significativamente na época seca deixando o seu leito a descoberto em várias zonas. A navegação para montante em direcção ao Cazombo estava limitada a dois meses por ano, exigindo mesmo assim muitos cuidados, muita sondagem, muitas paragens, algum risco pessoal e material.

Entre o Chilombo e a Lumbala a navegação era possível durante quase todo o ano. Já para jusante em direcção a Caripande só eram garantidos três a quatro meses de navegação com carga embarcada.

A guarnição da «LDP 208» era constituída por um Cabo Manobra, o Patrão, por um Marinheiro Fogueiro e por um Marinheiro Artilheiro. A navegar embarcava uma secção de fuzileiros e um oficial, normalmente o Comandante do Pelotão de Apoio; em algumas circunstâncias como, por exemplo, nas idas ao Cazombo, a lancha era escoltada por uma secção de botes.

A «LDP 208» armava com uma peça Oerlinkon de 20 mm instalada numa torre montada ligeiramente para vante e por cima da “ponte” e com duas MG 42 instaladas no poço a meio navio, uma a cada bordo. O poço da «LDP 208» era fechado e sobre-elevado por forma a permitir o transporte de pessoal em pé e com protecção. Mais tarde foi instalado um lança-foguetes de 37 mm.

A velocidade da lancha era muito baixa e o ruído do motor permitia a sua detecção a grande distância o que associado à sua pouca manobrabilidade e à pouca largura do rio tornava as navegações ao mesmo tempo perigosas e maçadoras.




Rio Zambeze - fotografia aérea próxima da fronteira com a Zâmbia



No início dos anos 70 um Pelotão reforçado da Companhia sediada na Lumbala Nova “assegurava a presença portuguesa” na fronteira. Rendia de três em três meses.

Representava o pior destino possível na região: sujeito a fogo de morteiro quase todas as noites a partir de território da Zâmbia obrigando a pernoita nos abrigos; reabastecimento muito difícil pelas limitações das vias de comunicação – o rio, que só era navegável com a «LDP 208» durante três meses do ano, uma picada intransitável e com muitas minas, e uma aeronave que uma vez por semana (nem sempre) sobrevoava baixo para largar correio e uns poucos kilos de carne; sem população.

Representava um verdadeiro desterro. Em meados de 1971 a «LDP 208» sofreu um ataque com armas de tiro curvo e tiro tenso numa curva do rio quando o subia em direcção à Lumbala Nova, depois de ter reembarcado cerca de cem militares que regressavam de uma operação de nomadização. A peça encravou depois da primeira rajada em consequência do fino e quase invisível pó que permanentemente pairava sobre o rio.

O poço da lancha quase não permitia movimento no seu interior. A MG 42 de estibordo, o exposto ao ataque, também encravou. A Bazooka foi perfurada por um tiro de que resultaram estilhaços que feriram o respectivo apontador, o MAR FZE Dias. Este, apesar de ferido, desceu ao poço da Lancha e conseguiu fazer mudar a outra MG 42 para estibordo acabando por conseguir impor supremacia de fogo e ganhar tempo para que a lancha, habilmente manobrada pelo respectivo Patrão, o Cabo Manobra Sabino, se afastasse da zona de morte.




Rio Zambeze - A «LDP 208», navega preparada para qualquer eventualidade

O reabastecimento do Destacamento de Marinha no Zambeze e das unidades do Exército estacionadas nas Lumbalas e em Caripande era assegurado quase exclusivamente por avião Nord Atlas da FAP que voava a partir do Luso em direcção à Lumbala Nova uma vez por semana (em princípio). Para além do lançamento e da recolha de grupos de combate das Companhias do Exército, cabia essencialmente à «LDP 208» fazer chegar ao Chilombo e a Caripande a carga transportada pelo avião.

As navegações para Caripande são justamente motivo de especial orgulho pessoal e de sentimento de dever cumprido por parte das guarnições da «LDP 208». Asseguravam durante três meses por ano o reabastecimento semanal e o reabastecimento de bens não perecíveis e de necessidades em material para o resto do ano viabilizando a sobrevivência dos militares ali estacionados.


J.M.Dias da Silva, 16.º CFORN
CMG FZ




Nota:
Karipande é uma aldeia do Alto Zambeze no Moxico, em Angola. Dista 600 km de Luena e tem 7.000 habitantes. Na língua soba chama-se Mukumbi Munhau. Karipande foi o local da morte do "Comandante Hoji-ya-Henda"(José Mendes de Carvalho), com 27 anos de idade. Foi sepultado próximo do rio Lundoji a 30 quilómetros do então quartel de Karipande, da Frente Leste/3ª Região Político-Militar (14 de abril de 1968).

Fontes:
Texto do autor compilado a adaptado a partir da Revista n.º 20 de Novembro de 2012 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, com imagens cedidas por José Manuel Dias da Silva, 16.º CFORN (CMG FZ);

; Nota final de "Karipande" in https://pt.wikipedia.org/wiki/Karipande;

mls

segunda-feira, abril 22, 2019

Guiné, 1965/1974 - LDG - Lanchas de Desembarque Grandes e o "granel" nos transportes logísticos


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Maio de 2012)

Guiné, 1965/1974 - Granel e LDG - Lanchas de Desembarque Grandes




"...Chegado a Bissau, novo pelotão e novo destino me esperavam, Piche, e em Setembro de 1968 embarquei numa Lancha de Desembarque Grande, uma LDG, com um pelotão constituído por três peças de Artilharia 11,4 cm...João Alves Martins, Alf Mil ArtBAC1, 1967/69 (Bissum, Piche, Bedanda e Guileje)"




De quando em vez apetece-me voltar atrás, ao tempo de permanência na Guiné e olhar irreverentemente para tudo o que nos cercava à época, misturando na mesma panela acontecimentos sérios e marcantes com a humorística filosofia subjacente à leitura dos flagrantes da vida real que certamente muitos da nós lembramos constituir uma obrigatória passagem no manuseamento das “Selecções do Reader’s Digest”.

Ocorreu-me o vocábulo granel com múltiplos significados consoante o texto onde está inserido. Será um substantivo com origem na língua catalã graner e pode ser utilizado como designando depósito para cereais (celeiro, manancial, tulha), mistura desordenada (solto, em montão), uma porção de composição tipográfica não paginada ou ainda, correntemente, em linguagem informal na Marinha, associada a confusão, desordem, indisciplina, rebaldaria, etc.

Cá para mim, simplificando, em linguagem LFG - Lancha de Fiscalização Grande que alguma companhia e escoltas lhes proporcionaram, quando carregadas até à medula com Companhias do Exército, armamento e veículos, bagagens pessoais, populações e até gado eram tudo aquilo mas, fundamentalmente, uma enorme dor de cabeça para todos, especialmente para as próprias guarnições das LDG - Lanchas de Desembarque Grandes.

Claro que dependia dos locais para onde se deslocavam nas missões e alguns havia de "alto risco", quer pela reduzida manobrabilidade quer pela elevada vulnerabilidade, associada à baixa velocidade de deslocamento daquelas unidades navais.

Para lá de toda esta panóplia de significados e no respeito que a Instituição certamente merece a todos os que desempenharam missões na Guiné, era um verdadeiro espectáculo de organizada confusão assistir e/ou participar na carga/descarga de uma LDG - Lancha de Desembarque Grande, em qualquer dos vários portos da Guiné onde tinham possibilidade de abicagem.

Também deixava antever muitas das necessidades de apoio logístico que só a Marinha tinha capacidade para suportar, no apoio e abastecimento a forças militares ou populações, revelando uma notável capacidade de planeamento, e organização, concretizando os objectivos com o esforço e sacrifício das guarnições, mas também das forças militares - Exército e Força Aérea que colaboravam neste objectivo comum.



1971 - A LDG «Alfange» abicada em Cacine, procede a descarga



Frequentemente, uma imagem substitui com vantagem mil palavras, acentuando pela visão uma óbvia e correcta aplicação de um termo.

Na antiga província da Guiné, ao tempo da Guerra do Ultramar, a imagem que melhor espelharia o que acima digo seria uma LDG – Lancha de Desembarque Grande quando carregada para levar a bom porto mais um transporte logístico.

Para norte ou para o sul, para leste ou para oeste, qualquer que fosse o rumo, as LDG «Alfange» - LDG 101, LDG «Montante» - LDG 104 e LDG «Bombarda» - LDG 201, asa duas primeiras a partir de 1965 e a última a partir de 1969, eram retratos vivos de granel organizado, por força da complexidade dos movimentos, da difícil manobrabilidade e das marés que tantas limitações impunham.



Em cima: 1971 - A LDG «Alfange» embarca logística especial e, em baixo, a mesma LDG abicada na testa da ponte-cais de Bolama



A partir de 1969 a chegada à Guiné da LDG «Bombarda», reforçou o dispositivo naval da Guiné, vindo já equipada com 2 peças anti-aéreas Bofors de 40 mm, armamento que, no decorrer desse ano, veio a ser igualmente montado nas LDG «Alfange» e LDG «Montante». Tal melhoria aumentou substancialmente a segurança dos movimentos efectuados pelas LDG que passaram a ter condições de defesa suficientes para procederem, em circunstâncias normais, à maioria das missões de forma autónoma.

Noutros casos de acordo com os locais de destino e os riscos corridos no transporte que efectuavam, a guarnição era reforçada com fuzileiros, ou eram escoltadas adicionalmente por LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes e, em locais de prováveis emboscadas ou ataques, parelhas de aviões da FAP apoiavam o percurso.

Melhor que delas falar aqui ficam algumas imagens elucidativas que podem também ser vistas em:





Fontes:
Texto e fotos do arquivo pessoal do autor do blogue com cedência do Arquivo de Marinha sendo as duas primeiras por amável cedência de João Alves Martins, Alf Mil ArtBAC1, 1967/69 (Bissum, Piche, Bedanda e Guileje)


mls

segunda-feira, abril 15, 2019

Guiné, 1968 - Visita Presidencial à Guiné no paquete N/M «Funchal»


(Post reformulado a partir de outros já publicados em 29 de Agosto e 7 de Novembro de 2006)

N/M «Funchal» em "Visita Presidencial" à Guiné de 2 a 7 de Fevereiro




Em cima, o N/M «Funchal» atracado na ponte-cais, com iluminação de gala e, em baixo,
fotografado a partir da LFG «Orion» sendo igualmente visível a FF »Almirante Pereira da Silva»





Em 2 de Fevereiro de 1968, visível para trás, já atracado na ponte-cais em Bissau, o N/M «Funchal» que transportou o Presidente da República de então, Almirante Américo Tomás, bem como toda a sua comitiva, na viagem que efectuou a Cabo Verde e à Guiné, tendo permanecido neste último território de 2 a 7 daquele mês.

Participaram em escoltas diversas as LFG «Lira» e LFG «Orion», além de outras unidades navais que, quer na chegada a 2 de Fevereiro quer na partida a 7 do mesmo mês, acompanharam o navio presidencial entre a bóia do Caió-Bissau e vice-versa.

Durante o périplo presidencial fez igualmente parte da comitiva a fragata «Almirante Pereira da Silva», navio que escoltou o N/M «Funchal» durante toda a viagem, sob o comando do CFR Mário Esteves Brinca.




Em cima, o N/M «Funchal» atracado na ponte-cais, sempre engalanado,
e, em baixo, fotografado da LFG «Lira» quando era sobrevoado por uma esquadrilhas de helicópteros




Nos cinco dias que o N/M «Funchal» permaneceu em Bissau, foram levadas a cabo múltiplas realizações destinadas a comemorar a efeméride que incluiu no programa oficial, além de outros cerimónias e espectáculos, desfiles militares e exibição de grupos oriundos de várias etnias, nos arruamentos e praças da cidade.

Mais tarde, a 7 do mesmo mês e na largada do N/M «Funchal», entre Bissau e a bóia do Caió, repetir-se-ia o cenário, desta vez também com a LFG «Cassiopeia».

Alguns oficiais imediatos das LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes, nesses dias estacionadas em Bissau e outros oficiais à margem da participação nos festejos, para lá de funções permanentemente desempenhadas por inerência do cargo, foram chamados a prestar serviços adicionais como oficial de serviço à ponte-cais de Bissau, garantindo a segurança em conjunto com uma equipa de mergulhadores-sapadores.




Em cima, o N/M «Funchal» numa interessante perspectiva obtida da LFG «Sagitário» e,
em baixo, anverso e verso da medalha comemorativa da vista presidencial




Dispunham para o efeito, além da habitual guarda à ponte-cais de uma esquadra de de fuzileiros comandada por um Sargento.

No final, pelo desempenho da missão a contento, como tantos outros militares, foram agraciados com uma medalha comemorativa profusamente distribuída.




N/M «Funchal» - Resenha Histórica

Foi construído pelo estaleiro Helsingør Skipsværft A/S, na Dinamarca, por encomenda da Empresa Insulana de Navegação, com projecto de Rogério de Oliveira. Foi o maior navio de passageiros construído na Dinamarca à data da sua entrega em Outubro de 1961, tendo sido lançado ao mar a 10 de Fevereiro de 1961. Tinha então como função a ligação marítima regular entre Lisboa e as ilhas dos Açores, da Madeira e das Canárias, efectuando mensalmente duas viagens consecutivas com o itinerário Lisboa-Funchal-Tenerife-Funchal-Lisboa seguidas de uma viagem aos Açores via Funchal.

Integrava na década de 1960 uma importante frota de navios e passageiros portugueses constituída à época por mais de vinte navios, com destaque para os navios "N/T Infante Dom Henrique","N/T Santa Maria", "N/T Vera Cruz" e "N/T Príncipe Perfeito", os quatro maiores paquetes portugueses, abatidos em 2004, 1973 e 2001, respectivamente.

Foi nele que, à época do presidente Américo Tomás, foram transportados os restos mortais de Pedro IV de Portugal para o Brasil, sob escolta militar (1972).

No início da década de 1970 tendo o tráfego aéreo superado as viagens marítimas, em 1972 decidiu-se remotorizar o navio, substituindo as turbinas a vapor de origem por dois motores Diesel, e alterando os alojamentos e espaços públicos para classe única para utilização em cruzeiros turísticos internacionais. Pouco se alterou então o seu desenho exterior, mas após 1985 foram sendo efectuadas alterações graduais nomeadamente o prolongamento do convés "Promenade", então estendido até à popa. Internamente, as suas duas turbinas a vapor foram substituídas por motores a diesel.

No ano seguinte, 1974, a Insulana fundiu-se com a Companhia Colonial de Navegação, dando origem à CTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos, de Lisboa, passando o "Funchal" ser propriedade da Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos. Em 1975 encontrava-se desactivado em Lisboa, tendo sido identificado pelo empresário grego George Potamianos, que o apresentou a uma empresa sueca de navegação que o fretou e explorou por dez anos, até que a Arcalia Shipping - The Great Warwick Co. Inc, do Panamá, daquele empresário, o adquiriu, em hasta pública, da massa falida da CTM (1985).

Após aquisição pelo armador Potamianos foi registado no Panamá, em 1985, sofrendo sucessivos melhoramentos e modernizações, tendo voltado ao serviço em Dezembro de 1985.

O FUNCHAL terminou o seu último cruzeiro em Lisboa a 16 de Setembro de 2010 e foi retirado do serviço para modernização a efectuar no cais da Matinha em Lisboa, mas devido à conjuntura económica adversa, em Julho de 2011, esses trabalhos estimados em 15 milhões de Euros foram suspensos.

A entrada em vigor, a partir de 1 de outubro de 2010, de novas exigências da Convenção SOLAS 2010 para a salvaguarda da vida humana no mar obrigou a algumas alterações de natureza técnica a bordo do "Funchal", nomeadamente a substituição de materiais combustíveis. Aproveitando essa intervenção o armador decidiu proceder a uma completa actualização dos alojamentos e espaços para passageiros, por forma a torná-lo ainda mais apetecível.

Estava previsto para Julho de 2011 o regresso do navio ao mercado dos cruzeiros com duas viagens a partir de Lisboa que iriam comemorar os 50 anos da viagem inaugural em 1961.

Constituiu até essa altura o navio mais famoso da companhia Classic International Cruises, que contava ainda com os navios Princess Danae, Arion, Princess Daphne e Athena, todos a navegar sob bandeira portuguesa (registo da Madeira).

No entanto, por dificuldades económicas a Classic International Cruises de Lisboa foi encerrada em Novembro de 2012, passando o navio para a posse da principal entidade credora, o Montepio Geral. O "Funchal" permaneceu imobilizado em Lisboa desde 16 de Setembro de 2010 até Fevereiro de 2013.

Em Fevereiro de 2013, juntamente com mais 3 navios, foi adquirido por um investidor português, a "Portuscale Cruises". Depois de sofrer profundas remodelações voltou poder navegar em Agosto de 2013.

A 1 de Agosto de 2013 foi apresentado, após remodelação profunda, que incluiu uma pintura inspirada na original da Empresa Insulana.

A 22 de Agosto de 2013 o navio voltou a navegar, como propriedade da Portuscale Cruises, mas ficou retido no porto de Gotemburgo, Suécia devido a deficiências técnicas detectadas aquando de uma inspecção pelas autoridades, antes do que seria a sua viagem re-inaugural.[1] Efectuou o último cruzeiro ao serviço da PORTUSCALE CRUISES de 28 de Dezembro de 2014 a 2 de Janeiro de 2015 e encontra-se desde essa data imobilizado em Lisboa, tendo o programa de cruzeiros previsto para 2015 sido cancelado a 12 de Fevereiro de 2015.

Foi vendido em 5 de Dezembro de 2018 por £3,9 milhões, um décimo do valor gasto na renovação do navio, para ser hotel de festa flutuante entre Liverpool e as Ilhas Baleares.


Fontes:
Texto e imagens de N/M «Funchal» em http://pt.wikipedia.org/wiki/Funchal_%28paquete%29; texto e imagens do "post" de arquivo do autor do blogue com cedências parciais dos comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Carlos Dias Souto;


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