sexta-feira, agosto 18, 2017

LDM 202, Marinha e Reserva Naval - Uma entre tantas outras na Guiné


Guiné - LDM 202


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 21 de Março de 2010)




Uma visão possível da LDM 202 na Guiné, numa mistura de Bissau, rio Cumbijã e rio Cacheu


Dificilmente um oficial da Reserva Naval que tenha efectuado uma comissão na Guiné a navegar, em terra ou como fuzileiro, terá deixado de arrecadar no seu baú de episódios e relatos vividos um embarque numa Lancha de Desembarque Média, afinal uma lendária LDM.

Em escoltas a combóios logísticos ou como reforço de escolta de outras unidades. De Bissau a Farim, no extremo montante do rio Cacheu, ou a Gadamael, início do corredor de Guileje, no sudoeste. Diferentes itinerários podiam incluir Binta, Ganturé, S. Vicente, Cacheu, Teixeira Pinto, Bolama, Catió, Bedanda, Cacine, além de outros locais, obrigatórios na rotina operacional daquelas unidades navais.

Pormenorizando mesmo mais, existiam alguns portos, se assim se podia chamar a locais de abicagem improvisados com grande imaginação, coragem marinheira e as LDM atascadas no lôdo, aqui se adicionam arrojadamente Bissum no rio Armada, afluente do rio Cacheu ou Cabedú, com acesso pelo rio Lade, afluente da margem esquerda do rio Cumbijã, na foz junto ao ponto CC (Charlie-Charlie), ponto que referenciava a confluência dos rios Cobade e Cumbijã.

Com espírito de solidariedade e camaradagem a que se juntava uma pitada de aventura, houve quem se voluntariasse mas, a rotina normal assentava na escala de que “tocava a vez a todos”. Habitualmente eram nomeados para o comando dessas missões oficiais subalternos das Companhias ou Destacamentos de Fuzileiros, da Esquadrilha de Lanchas ou até prestando serviço em Terra.

Exceptuavam-se naturalmente os que, pelas funções desempenhadas, estavam permanentemente embarcados em LFP, LDG, LFG ou outras unidades navais. No meu caso pessoal, talvez possível excepção, o CDMG terá aproveitado a permanência da LFG «Orion» em cruzeiro no rio Cacine, para me nomear para participar na operação “Sol”, com a LDM 307, comandando a unidade e embarcando a Companhia do Exército estacionada em Cabedú, visando uma acção militar a sul da ilha de Melo.

Ficará para mais tarde o relato desse filme rodado com um actor «rookie», recém-saído da Escola NavaL, escassos dois meses e meio depois de ter sido nomeado para a Guiné como oficial imediato de uma das cinco LFG que ali estavam atribuídas operacionalmente.




Guiné - A LDM 202 a navegar lado a lado com outra LDM, com fuzileiros embarcados

Mas porquê a LDM 202? Nenhum significado especial. É apenas uma amostra aleatória de 42 possíveis Lanchas de Desembarque Médias das diversas classes que estacionaram na Guiné.

Podia ser abordada mais uma vez a LDM 302, massacrada várias vezes em combate, nas arriscadas missões que sempre desempenhou até ser retirada operacionalmente do rio Cacheu.

Ao tempo, ficou a pairar como que uma estranha maldição que se teria abatido sobre aquela lancha, influenciando o Comando de Defesa Marítima da Guiné a ponto de, após o último revés sofrido naquele rio, passar a efectuar missões operacionais no rio Grande de Buba integrada no dispositivo da TU 4.

Mereceu-me a LDM 202 este apontamento porque alguém, leitor do blogue, tendo pertencido a uma das muitas guarnições que prestaram serviço naquela unidade naval, aqui deixou escritas meia dúzia de linhas corajosas, dando conta da carga negativa que ainda consigo transporta, transcorridas mais de quatro décadas.

Afinal, situações e acontecimentos semelhantes às protagonizados pela LDM 302 foram vividas por muitas outras unidades idênticas, ou até sem o serem, mas partilhando todas um díficil e pesado teatro de conflito.

As guarnições estavam sujeitas a longos períodos operacionais, afastadas dos centros de abastecimento e com condições precárias de habitabilidade. Um clima extremo e cenários de navegação frequentemente hostis com emboscadas ou ataques inesperados, obrigavam a permanente e desgastante atenção.




1973 - Algures no rio Cacheu, próximo de Ganturé, outra LDM da classe 200, a LDM 204, com elementos do DFE 1 embarcados

Frequentemente, apenas o factor sorte marcou a fronteira entre a passagem incólume e o recontro com feridos graves ou mesmo culminando com a perda de vidas.

A LDM 202 chegou à Guiné no princípio de 1964 e destaca-se no início da sua vida operacional a missão de apoio logístico à "Operação Tridente" que decorreu de Janeiro a Março desse ano.

Mais tarde, de 21 a 24 de Abril, efectuou o desembarque do DFE 7 na região de Cametonco, ilha de Catunco, com o apoio da LFG «Escorpião».

Além de rotineiras missões de fiscalização, transporte e apoio logístico, a LDM 202 participou em diversas acções militares envolvendo transporte de forças de fuzileiros, outras forças e colaboração com unidades navais, tendo sido flagelada ou emboscada por diversas vezes.

Entre 1964 e 1968, esteve presente nas operações Touro, Dedal, Tornado, Inspecção, Braçal, Gato, Bina, Salto, Rio, Coco, Trinca, Galo, Tejo, Sado, Faneca, Piranha, Elsa, Hidra, Vega, Antares, Teste, Sirius, Espiga, Átria, Fomalhaut, Alviela, Mizar e Deneb.

Continuou depois a actividade operacional, quer participando noutras acções de fiscalização e transporte quer ficando atribuída a disposivos de forças navais constituídos em bacias hidrográficas nos rios Cacheu, Mansoa, Geba, Corubal, Grande de Buba, Tombali, Cacine e Cumbijã até ser abatida em 30 de Novembro de 1972.

Aqui deixo este possível rascunho ao leitor do blogue e antigo membro da guarnição da LDM 302, extensivo a todas as outras guarnições das LDM, quer pelas apreciações feitas quer por ter pertencido a uma dessas unidades que tanto honraram a Marinha pelo empenhamento, abnegação e sacrifício postos no cumprimento das missões.

Abaixo, passo a transcrever as mensagens trocadas:




Em 2008.11.17, em comentário ao post “As LDM na Guiné” Luís Lucas DaSilva escreveu:

"Cordiais saudações!
Estou feliz pelo autor do texto e pela sua leitura, que muito agradeço.
Ao ler o texto, por sinal muito bem elaborado, recuei no tempo e no espaço e recordei com enorme tristeza e um forte peso no peito os longos, dias, semanas, meses e anos que passei na LDM 202, no período de 1968 - 1970.
Realmente, tal como texto refere, não foi fácil ser tripulante de uma LDM por todas as razões associadas a uma guerra terrível. Sem dúvida que todas as guarnições prestaram ao país um serviço exemplar, dedicado, empenhado e com elevado sentido de responsabilidade.
A minha mágoa, que ainda persiste, lamentavelmente, é que pouco ou nada se falou ou se escreveu sobre o serviço que as LDMs e as suas tripulações prestaram em especial na Guiné. Valha-nos a feliz iniciativa do autor do texto, que não tenho o prazer de conhecer para lhe dar um afectuoso abraço de admiração e de reconhecimento pelas suas palavras escritas que tocaram fundo no meu coração.
Bem haja em meu nome e do nome de tantos camaradas que navegaram nos mares de sofrimento da linda e querida Guiné.
Com amizade, sou,
Luís Lucas DaSilva"



Em 2008.11.22, em resposta à comunicação anterior sobre "LDM vs LDM 202" o autor do blogue publicou:

"Caro Amigo e Camarada,
Que imenso mar de recordações, misto de amargura e saudade, ao lembrar LDM's, LDP's, LD's, LFG's, LDG's, LFP's, DFE's, CF's, Bissau, Cacheu, Cacine, Cumbijã, sei cá, tanta coisa mais!
Sem ter o prazer de o conhecer, partilho consigo essa enorme vaga de tão controversos quanto vivos sentimentos. Por momentos, quando li o seu comentário, voltei atrás umas dezenas de anos e recordei vivências únicas que incluem, ainda hoje e especialmente, as LDM's.
Senti-me feliz e grato pela sua apreciação, sinais que me encorajam a não desistir de uma difícil cruzada em que, tal como sucedia na Guiné, navegávamos dias a fio, sem regresso assegurado. Quem o tinha?
Sem outra companhia que não a dos camaradas de caminhada ou de porto de acostagem.
E eram tão poucos...
Sinto-o no desinteresse da sociedade que nos rodeia e que parece não partilhar os mesmos valores da História dos últimos 50 anos. Só que os do seu próprio País. Condenando-o a um passado recente envergonhado e deliberadamente esquecido.
Em cada post publicado opor-me-ei sempre, mantendo viva a memória da Reserva Naval da Marinha de Guerra a que pertenci, mas também a da sua LDM 202 e nossas, tantas elas eram, as LDM's.
As LDM's e todas as outras unidades com guarnições de Homens que, determinadamente, se empenham em manter esse passado recente bem presente.
Com orgulho e de cabeça erguida.
Disponha com Amizade e Camaradagem.
Um abraço,
mls"



Em 2008.11.25, resposta de L. DaSilva:

"Prezado amigo!
Foi com enorme satisfação que recebi a sua mensagem. Aliás, passados tantos anos é bom, muito bom, comunicar com alguém que se exprime numa linguagem apenas conhecida por aqueles que, como escreveu, souberam "navegar em mares de de dúvida, sofrimento, dor, aflição e angústia, etc".
Li e reli a sua mensagem e compreendi pelas suas palavras escritas que tem uma missão muito nobre para concretizar. Compreendi o seu sentimento. Realmente, é necessário que os portugueses e quem nos representa não fiquem esquecidos de uma realidade que "mexeu" com uma geração inteira de homens e suas famílias.
Por isso, prezado amigo, sou a favor dos seus objectivos, do seu empenho, da sua luta em levar por diante o esclarecimento que o nosso povo carece.
Pela minha parte assumo parte de uma "culpa" que é a de nada fazer para dar a conhecer o meu sentimento de alguma revolta em relação ao que se passou na Guiné. Mas, prezado amigo, durante muitos anos não tive ajuda de nenhum especialista para me ajudar nos meus muitos problemas de ordem psíquica e emocional, que sózinho tive que enfrentar.
Não fui capaz de resistir às pressões do quotidiano devido ao meu estado físico e emocional. E este drama durou anos a fio ao ponto da família se ter destruído com uma separação. Hoje reconheço que tive parte da culpa do que sucedeu no meu casamento, na minha família.
Mas estou completamente de acordo que se use de todas vias possíveis no sentido de não se deixar passar no tempo uma realidade terrível que ainda hoje "dorme" na mesma "cama" de todos aqueles que a viveram.
Estou revoltado, frustrado, triste com os governantes deste país que pouco ou nada fizeram para reparar as muitas perdas, completamente irrecuperáveis, de homens como nós que experimentamos e vivemos um contexto de guerra terrível, especialmente nas LDM's e das outras embarcações da Marinha de Guerra.
Penso que a própria Marinha de Guerra muito poderia contribuir se conseguisse desenvolver um mecanismo que juntasse as tripulações das diversas embarcações que estiveram presentes nas diversas frentes de guerra.
Seria extremamente salutar para homens como eu rever os antigos camaradas e com eles partilharmos experiências de vida. Igualmente, seria muito salutar organizar visitas à Base Naval e ao Alfeite. Mas, infelizmente, nada disso existe que nos anime e nos entusiasme.
Pela minha parte consegui materializar um sonho de muitos anos que foi visitar a Guiné Bissau e alí pude verter lágrimas, muitas lágrimas que expressaram um misto incrível de sentimentos que não mais vou esquecer.
Enfim, amigo, valeu a leitura do texto que escreveu no Blog da Reserva Naval, que muito me alegrou, bem assim como a sua mensagem, aliás, que muito agradeço.
Bem haja por tudo.
Com admiração, sou,
L. Lucas DaSilva"



Em 2008.11.25 resposta a de L. DaSilva:

"Meu Caro Amigo,
Grato pelas suas palavras que apreciei.
No final de uma dezena de anos, em que partilho o meu tempo disponível com a causa Reserva Naval, talvez possa resumir a algumas escassa dezenas, o número de colaborações, participações, relatos, comentários ou mesmo críticas ao blogue ou à página que, com meios próprios e alguma boa vontade, vou mantendo com a ideia já sedimentada de que escrever é saudável para o espírito e liberta.
Quando rabisco para um conjunto de pessoas, transmitindo nessa escrita memórias vividas, sentimentos e valores adquiridos, mantenho-me com rumo definido, ainda que não visualize ou conheça a maioria dos leitores.
Como terá possivelmente constatado fui oficial da Reserva Naval, no meu caso imediato da LFG “Orion” mas, como eu, foram cerca de 3300 ao longo de três décadas dos quais, mais de um milhar estiveram num dos teatros de guerra, em Angola, Moçambique ou Guiné.
Embarcados em quase todo o tipo de unidades navais, incluindo destacamentos, companhias de fuzileiros ou também as LDM's em escoltas, combóios ou operações pontuais, desempenhámos as missões de serviço para que fomos nomeados, como todos os "marinheiros".
Se algumas vezes todas aquelas unidades e guarnições se encontraram em situações menos fáceis, e assim foi em muitos locais, noções como espírito de equipa, solidariedade, resistência ao desgaste e partilha, adquiriram uma dimensão especial nos valores adquiridos.
Que mantenho, motivo porque sempre que o entender, mencionarei e incluirei as LDM's no trabalho que estou a fazer com gosto, sobretudo o blogue. Sinto alguns leitores do outro lado e isso, ainda que não seja suficiente, aconchega e motiva.
Aproveito para lhe perguntar se tem alguma imagem ou algum acontecimento interessante passado com a LDM 202. Proximamente, talvez este fim-de-semana caso o complete, insira a primeira parte do relato do afundamento da LDM 302, em cuja recuperação e reboque para Bissau, a LFG Orion também participou, na altura comigo.
Irei continuar, mais devagar ou mais depressa, com readquirida remada nos encorajamentos recebidos. Bem haja igualmente.
Um abraço Amigo,
mls"



Em 2008.11.29, Lucas deixou um novo comentário na sua mensagem
"A epopeia da LDM 302 na Guiné (1)"

Ataque à LDM 302(1):

Amigo e Senhor!
Felizmente que há ainda homens interessados em divulgar apontamentes importantes da história de guerra naval onde navios portugueses foram extremamente influentes, como foi o caso das diversas embarcações da Marinha de Guerra portuguesa nos vários "teatros" nas ex-colónias portuguesas.
Bem haja prezado senhor pela sua iniciativa, pelo seu empenho e interesse em que a nossa história chegue ao conhecimento de muitas pessoas.
Pela minha parte tomei a liberdade de reenviar este excelente apontamento para pessoas que até este momento ignoravam a realidade vivida pelos marinheiros portugueses na guerra do ultramar.
Com admiração, sou,
Luís Lucas DaSilva




Fontes:
Arquivo de Marinha; Revista da Armada; fotos de arquivo do autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar, 17.º Vol, 2006, Comissão Cultural da Marinha;


mls

terça-feira, agosto 15, 2017

Guiné - LDM da classe 200


LDM-Lanchas de Desembarque Médias, classe 200, na Guiné.

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 18 de Março de 2010)





Da classe 200, foram cinco as LDM - Lanchas de Desembarque Médias fabricadas. Estas unidades, construídas nos Estados Unidos da América foram modernizadas nos estaleiros navais da Argibay.

Em 13 de Janeiro de 1964 foram aumentadas ao efectivo dos navios da Armada as LDM 201, LDM 203, LDM 204 e LDM 205, sendo estas duas últimas uma reconversão das anteriores LDM 101 e LDM 102 respectivamente. Em 18 desse mesmo mês foi igualmente aumentada ao efectivo a LDM 202.

Alguns anos mais tarde, respectivamente em 17 de Maio de 1968 e 29 de Maio de 1969, as LDM 205 e LDM 204 deram lugar a novas construções nos Estaleiros Navais do Mondego.




Bissau, 1973 - Um grupo de LDM amarradas de proa à ponte-cais, vendo-se em primeiro plano a LDM 201.

Todas elas, depois de efectuarem provas e testes, foram transportadas para a Guiné em navios mercantes, onde permaneceram sempre enquanto operacionais até serem abatidas ao efectivo.

Por esta ordem, em 26Mai72 a LDM 201, em 30Nov72 a LDM 202, em 22Jun71 LDM 203, em 9Set74 a LDM204 e em 22Jun71 a LDM 205.

Muitos oficiais da Reserva Naval desempenharam missões de comando que integraram aquelas unidades navais em múltiplas missões operacionais de fiscalização, escolta, embarque e transporte de fuzileiros, militares de outros ramos, população em geral, nos comboios logísticos com material, equipamentos e abastecimentos.

Com uma guarnição de 6 homens, comandadas por um Cabo de Manobra foram, em conjunto com todas as outras classes de LDM presentes na Guiné, um importante suporte da estrutura operacional e logística da Marinha.




1973 - No rio Cacheu, próximo de Ganturé, a LDM 204 manobra de forma a atracar de braço dado com a LFG «Lira»

Que se enalteça a competência, coragem, esforço e dedicação das suas guarnições, no bom êxito conseguido das inúmeras e arriscadas missões que lhes foram atribuídas, algumas delas pagas com o sacrifício da própria vida.


Fontes:
Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha - 17.º Vol, 2006; fotos de arquivo de Abel de Melo e Sousa cedidas ao autor do blogue;


mls

domingo, agosto 13, 2017

Guiné, anos 60/70 - Marinha e Logística


As LDG - Lanchas de Desembarque Grandes na estratégia logística da Guiné

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Julho de 2009)




Em termos simplificados de caracterização de território, salvo a parte leste do interior, seria correcto afirmar que a Guiné era um enorme somatório de ilhas e penínsulas. Cada pequena parcela de terreno encontrava-se rodeado de água por todos os lados e, frequentemente, nem era muito fácil ou possível distinguir, para quem lá navegasse, entre ilha e península se não estivessem disponíveis os instrumentos de navegação indispensáveis.

As marés marcavam a diferença e o ritmo, com desníveis próximos de quatro metros, entre estofo de preia e baixa-mar, consoante o local e época do ano, diminuindo ou aumentando, neste fluxo e refluxo, a área continental em quase vinte por cento da superfície do território.




Bela imagem da LDG «Alfange» com tornado eminente

Na planificação efectuada, em todos os exercícios e operações que envolvessem meios navais, era uma das principais variáveis a ter em conta como precioso auxiliar. Os tempos dispendidos nas deslocações poderiam ser substancialmente reduzidos e, para as unidades navais com mais baixas velocidades de cruzeiro, caso das LDG, LDM e LFP, era incontornável a consideração de tal mais valia.

Naturalmente que, aquelas características de teatro militar exigiram à Marinha, desde muito cedo, uma bem sustentada rede de transportes marítimos e fluviais, ampliada no tempo e na capacidade, de forma a suprir as necessidades logísticas crescentes dos três ramos das Forças Armadas.




LDG «Alfange» no rio Cacheu, uma moldura humana habitual na chegada ou regresso de contingentes de tropas; em primeiro plano, uma metralhadora MG42 da asa da ponte da LFG - Lancha de Fiscalização Grande que procede à escolta

Os transportes de tropas fizeram chegar a Bissau, por via marítima, milhares de militares em sucessivas vagas de contingentes chegadas de Portugal Continental e muitos outros milhares de toneladas de abastecimentos ou material, parte de toda uma logística de abastecimento da população e das unidades militares estacionadas no território.

De acordo com a estratégia definida e as directivas emanadas do Comandante-Chefe, essa gigantesca tarefa foi sempre atribuição da Marinha garantindo, a partir de e para Bissau, ou de outro qualquer local, a gestão dos meios navais disponíveis no transporte de militares, populações, abastecimentos, equipamentos e todo o tipo de carga.




Guiné, 1971 - LDG «Alfange» largando da Ponte-Cais em Bissau para mais uma missão de transporte de pessoal e material

Este crescendo de necessidades condicionou o necessário reequipamento da Marinha com as LDG – Lanchas de Desembarque Grandes, que desempenharam um papel fulcral em toda a logística da Guiné, a partir de 10 de Outubro de 1965 com a LDG «Alfange», posteriormente em 21 de Maio de 1966 com a LDG «Montante» e finalmente em 30 de Julho de 1969 com a LDG «Bombarda».

Efectuaram múltiplas missões, no rio Cacheu escalando e/ou abicando em Vila Cacheu, S. Vicente, Ingoré, Antotinha, Ganturé, Binta ou Farim; no rio Mansoa em Teixeira Pinto; no rio Geba, além de Bissau, Porto Gole, Enxudé, Gampará, Xime e Bambadinca; no rio Grande de Buba em Bolama, Fulacunda e Buba; no rio Cumbijã em Cafine, Cadique, Cufar, Impungueda e Chugué; no rio Cacine em Cacine e Gadamael; nos Bijagós em variados locais.



Guiné, 1971 - A LDG «Alfange» abicada em Bolama

Os numerosos transportes de militares e abastecimentos, aliados a manobras lentas e difíceis, tornaram-nos sempre apetecidos alvos para embocadas e flagelações. Ripostaram sempre prontamente, repelindo-as e cumprindo sempre as missões, ainda que registando algumas baixas ao longo do tempo.

Uma verdadeira multidão de militares, veículos e todo o tipo de mercadorias inundava o convés e o poço, numa amálgama indescritível, enquanto a algazarra dos militares embarcados aumentava o risco geral, pela atenção despertada nos locais de passagem.




Guiné, 1971 - A LDG «Alfange» abicada em Farim, na parte final da faina de descarga de material

Foram sempre solicitados para missões logísticas, dentro ou fora dos limites das áreas hidrografadas, o que, em associação com a sua lentidão e difíceis condições de manobrabilidade, as especiais condições de correntes e marés, e ainda a situação de guerra então vivida, tornavam as suas missões verdadeiras epopeias e a sua segurança numa constante preocupação, obrigando frequentemente à escolta por outras unidades navais, as LFG – Lanchas de Fiscalização Grandes ou as LFP – Lanchas de Fiscalização Pequenas, apoiadas por grupos de combate de Fuzileiros e também com a FAP – Força Aérea Portuguesa, em alerta solo, consoante os percursos efectuados.

O armamento original da LDG «Bombarda», com peças Bofors de 40 mm e lança-foguetes de 37 mm, também já instalados na altura nas LDG «Alfange» e LDG «Montante», melhorou consideravelmente a resposta nesse capítulo.




Guiné, 1971 - LDG «Alfange» no rio Cacine, inicia uma faina de descarga

Deve-se-lhes, em conjunto com as LDM, o escrupuloso cumprimento de uma gigantesca tarefa da Marinha que nunca foi suficientemente enaltecida, nem da qual está iniciada a memória histórica.

LDG - Lancha de Desembarque Grande
LFG - Lancha de Fiscalização Grande
LFP - Lancha de Fiscalização Pequena
LDM - Lancha de Desembarque Média
FAP - Força Aérea Portuguesa


Fontes:
Fotos do Arquivo de Marinha e do autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha - Lanchas, 2006;


mls

sábado, agosto 12, 2017

Memórias do 13.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval,


Memórias do 13 º CFORN, 1968

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Maio de 2010)


Fazer uma caminhada pelo tempo que passou, sinto-o, é cada vez mais fácil; e, se acaso estivermos em grupo, é altamente compensador. Ao pedirem-me para procurar relatar um ou outro caso, simpático, em que estivessem envolvidos os jovens cadetes do 13º CFORN, não demorou muito a que as imagens aparecessem, depois os sons e, depois também, a saudade.

Mas, dentro do 13º CFORN, havia o 21º Curso de Fuzileiros (FZE), o qual se desenvolvia no chamado 2º ciclo do CFORN. Abordarei este em primeiro lugar.

O 21º Curso FZE era constituído por jovens oriundos de dois dos três vértices do arquipélago, grande parte dos quais já licenciados e, por isso, com experiências de vida bem diferenciadas.

A uni-los, o espírito de grupo e uma bem cuidada oposição aos instrutores, passando esta pela liderança dos mais velhos.

E, pelos instrutores passava, o terrível Xavier (o papá Xavi, nosso camarada já falecido, a quem aqui deixo expressa sentida homenagem). O então 2TEN Xavier, grande, desembaraçado, invariavelmente com uma ofensiva na mão, procurava em todas as suas deambulações pelo campo de batalha, deixar referência quanto aos especiais cuidados pelos quais se deveria reger a actuação dos Fuzileiros e quanto às tácticas a adoptar perante o Inimigo (o IN, todos se lembrarão da sigla).

1.º Mandamento:



...e, os alunos depressa entendiam a força do mandamento, pois caso não fosse praticado, chovia granada. As caminhadas pelas agrestes cotas da serra da Arrábida eram extremamente árduas e comum a distância a pique do mar.

Mesmo para a juventude de então, seria penoso procurar o meandro de estrada mais aconselhado para atravessar o alcatrão. Então que fazer? Cumprir o mandamento ou debandar com as granadas que cairiam sobre nós? Não, o melhor seria confiar numa alternativa de carácter técnico, talvez proveniente da tradicional criatividade que teimosamente nos vai acompanhando ao longo dos tempos...

Assim, o comandante do destacamento mandou cortar vários arbustos e dispô-los tipo brecha, perpendicularmente à estrada (recentemente vim a saber que a vegetação era do tipo paraclimático. Naquela altura parecia-me mais do tipo rasgante, tal o modo como se manifestava à nossa passagem. Feita a abertura, todo o destacamento atravessou em segurança!... Os instrutores não se manifestaram perante tamanha ousadia! O pior foram os minutos seguintes…

2.º Mandamento:



...os alunos entenderam; mas, o limite do seu pensamento ia mais longe e, à cautela, procuraram dar uma olhadela pela escala do oficial de serviço e saber quando é que estaria de serviço o tenente Xavier.

Vista a escala, constatámos não dispor de muito tempo para criar defesas…dois dias era muito pouco e, ainda não tínhamos completado o Manual de Minas e Armadilhas… Ninguém tinha dúvidas que o Xavier iria ao nosso alojamento (à tabanca,lembram-se?), sobressaltar o nosso tão merecido e querido descanso…

A imaginação circulou de mente em mente e, a umas quantas horas do anoitecer, já a braçadeira do oficial de serviço se procurava ajustar ao braço do Xavi, o grupo tinha encontrado as contramedidas: primeiro, dois baldes de lodo; depois, uma ligação por fio entre a porta de entrada na tabanca e o grande extintor que lhe ficava três metros à frente; por último, um grande quadro com letra bem desenhada expressando o seguinte: os Fuzileiros, frente a uma tabanca IN, (o nosso 2.º Mandamento)...

Os baldes de lodo ficariam por cima das portas de acesso aos cotes e o dito, ao ser colocado, vinha fresquinho; por sorte, um encontrava-se recheado com uma gaivota que havia praticado o seu último mergulho. Tudo preparado por altura do recolher. De momento, restar-nos-ia apenas aguardar que a noite avançasse e que o Xávi deixasse largar os seus impulsos…

O que aconteceu por volta das duas da manhã foi magnífico!... A porta abre-se, a luz acende-se e…um silvo diz-nos que a primeira armadilha havia sido accionada, acompanhado de um Oh! a confirmar os efeitos. Em paralelo, o grande quadro lembrava que um princípio táctico havia sido violado por um Fuzileiro Especial; porém, o momento não aconselhava dar cedências ao flanco…

"Sim senhor, pá, é mesmo assim pá, vejo que estão a aprender pá" – e lá cai o balde de lodo, quando a porta do cote é aberta, certamente para o Sr. Tenente felicitar a acção dos cadetes… Ao formarmos, foi a ordem recebida, qualquer coisa nos poderia acontecer.

Nada ultrapassaria a imagem multicolor do Sr. Tenente Xavier!...

A propósito da tabanca, não seria possível a sua recuperação à época, mostrando como dormíamos, como arrumávamos o nosso uniforme de licença e o nosso equipamento de combate?... Se nada se fizer, daqui a uns anos não haverá mostra de nenhum artigo, nem se poderão medir quaisquer imagens do passado... Talvez por terem uma história muito curta, os americanos preservam tudo o que tem significado e que pertenceu a ontem. Com este procedimento manterão, no futuro, imagens que os mais antigos normalmente perdem.

Quanto ao 13.º CFORN em geral, esse era constituído por jovens provenientes do então todo nacional. Para além da grande e longa formatura nocturna, na qual os Srs. oficiais Escolinhas pretendiam saber quem havia roubado o boné do Belfas (designação também carinhosa), a qual destroçou sem sucesso para o outro lado, recordo os momentos de angústia claramente sentidos pelo «cadetame» detido por motivos escolares, no fim de semana, ao verem partir de licença e, garbosamente fardados, os outros camaradas. De facto, o teste de Organização não tinha corrido bem para uns tantos.

As imagens do passado dizem-me que alguns ocupam hoje cargos importantes, mas eu prometo levar este saber para a tumba!

Para todos um grande abraço




Hernâni Vidal de Rezende
CMG FZE - 13º CFORN




Fontes:
Texto compilado e actualizado pelo autor do blogue a partir do publicado na Revista n.º 17 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Março 2004; Imagens do do autor do blogue;


mls

terça-feira, agosto 08, 2017

Guiné - A Linha do Cacheu


Guiné - A Linha do Cacheu e os combóios que por lá circulavam


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 16 de Abril de 2010)





Retomo aqui no blogue, com inteira actualidade e justiça, o artigo do Elísio Pires Carmona, do 15.º CFORN, por ele redigido e então publicado nas revistas números 14 e 15 da Associação dos Oficiais da Reserva Naval, em 2003. Tão bem tece analogias entre linhas, combóios e rios da Guiné, que não resisti à tentação do acrescento humorístico da imagem acima, além de outras. Espero que me desculpe porque fui um dos que também lá estive e neles andei, com "passe" conferido pela Marinha... De quando em vez, nas margens, apareciam os pica-bilhetes com vários tipos de instrumentação para o efeito
mls




“(...) só quem lá esteve é que sabe do que é que estou a falar...”


Ora, estou a falar do texto do José Manuel da Costa Bual numa das revistas da Associação publicadas. Estou a falar da Linha do Cacheu: linha de carris feitos de água barrenta pelos quais transitavam, uma vez por mês, combóios que tinham por locomotivas LDM´s e Batelões em vez de Vagões.




O mapa da Guiné, mostrando, ao centro, o rio Geba (Bissau) e, a norte, o rio Cacheu em toda a sua extensão, até Farim (clique para ver ampliado)

Aliás como a Linha de Catió ou a Linha de Bedanda, permita­-se-­me a redundância. Sei do que fala. Porque também por lá passei. Porque também vivi as mesmas emoções...

Penso que tem razão de ser a sugestão deixada, na altura, numa Assembleia Geral da Associação: o nosso testemunho alimentará a nossa memória colectiva e contribuirá também, sem constrangimentos, para ajudar a fazer a História.

A tarefa que me propus então foi a de contar, rebuscando do fundo do meu baú, (já ouvi isto num sítio qualquer) memórias que, curiosamente, permanecendo tão vivas me dão a sensação, ao recordá­-las, de que estão a acontecer. De resto, como transparece cristalinamente do trabalho do Costa Bual. Mesmo tendo passado cerca de 40 anos...




Bissau - Do lado de dentro da ponte-cais, lado a lado, várias LDM's amarram de proa ao cais

A Linha do Cacheu começava, como todas as Linhas, em Bissau. Justamente na Ponte-cais. Era de lá que saíam as LDM-lanchas de Desembarque Médias, normalmente duas, por vezes três, Geba abaixo, rumo a Vila Cacheu. Mas o combóio, esse, só se constituía e assumia verdadeiramente a sua pomposa designação naquela localidade. Na qual se concentravam os Batelões a escoltar. O comandante, nós, seguíamos normalmente por via aérea, no pequeno Rallye – a nossa avioneta.




Vila Cacheu - O interior do forte, vendo-se o monumento ao Infante D. Henrique de que existiam várias réplicas naquele território.

Esta linha tinha, por assim dizer, um Ramal: o de Bissum. No regresso de Farim as lanchas aguardavam, na passagem de São Vicente – onde a estrada de Bissau, João Landim, Bula, Ingoré se interrompia, cortada pelo magnífico Cacheu – pela chegada de novos batelões.

Fundeavam, durante o dia, no meio do rio; amarravam­-se ao tarrafo durante a noite, dissolvidas na penumbra, por mor das coisas.




Ingoré - Em cima, uma bolanha junto da povoação e, em baixo, a estrada para o Ingorezinho.



As LDM eram, se houver alguém que não saiba, modestas lanchas de desembarque, armadas com uma Oerlikon (já não me recordo se se escreve assim) e duas MG 42 à proa, uma em cada um dos bordos, com uma equipagem constituída por um Cabo Manobra – o Patrão da lancha – um Telegrafista, dois Fogueiros e dois Artilheiros. Nos combóios, a tripulação era reforçada com meia secção de fuzileiros – mais seis elementos.

Os comandantes destas tremendas flotilhas – os Nimitzes, os Yamamotos, os..., éramos nós, mais a dar, algumas vezes, para Lafites, Drakes,... como se verá ao longo destas estórias.

Ah!, e faziam-­se bons petiscos a bordo, que metiam, algumas vezes, ostras fresquinhas pescadas, nomeadamente, no Rio Grande de São Domingos, mas também, no sul, no próprio Cobade.

Feita esta introdução, porque sobre o resto já contou, e bem, o Bual, passarei às peripécias vividas lá p'rós lados do Cacheu.




O rio Cacheu, consoante a hora do dia e o estado do tempo, proporcionava registos fotográficos ímpares



O “Calado”

O Calado era o patrão duma das LDM, no ano de 1971. Foi com o Calado que fiz o meu primeiro combóio, em Fevereiro. Deveria ter ido em Janeiro, com o Januário, para aprender o caminho, como era costume. Mas, numa partida (brincadeira) de “basquetebol”, num dos dias anteriores, no terreiro sobranceiro às nossas instalações, nas INAB-Instalações Navais de Bissau, onde havia umas tabelas e umas marcações meio sumidas no alcatrão, atropelado pelo Benjamim, dei cabo do braço.

Infelizmente, nesse combóio, o Januário, à pesca com granada, em Ganturé, ficou marcado pela explosão daquela em que tinha agarrado: granada de armadilha, explodiu logo que abriu a mão...




Rio Cacheu - Batelões atracados em Ganturé (Bigene)

Mas voltando ao combóio, vale dizer que a subida até Farim decorreu sem história. Apenas os olhos se arregalaram perante tamanho desconhecido, tanta grandeza. Aquele Tarrafo, alicerces mergulhados na água, na maré cheia, aquele Verde imenso, o Passaredo... e os pontos de referência que íamos guardando intuitivamente sem esforço: a foz do Rio Grande de São Domingos e mais acima a do Cabói, Jolmete, São Vicente – o rio a estreitar – a foz do Armada, as clareiras de Barro e de Maca e, finalmente, a 1ª estação, Ganturé, já ao fim do dia, e onde, por esta razão, costumávamos pernoitar.

Na manhã seguinte, com o dia a clarear, fazíamo­-nos rumo a Farim, com os mesmos cuidados, a mesma atenção e o mesmo deslumbramento, deixando sucessivamente para trás as clareiras do Sambuiá e do Tancroal, Binta e, por fim, FARIM. Em Farim, o rio era curiosamente largo.




Rio Cacheu - Magnífico por-de-sol, próximo de Ganturé

Para lá do mais a cidade tinha outras duas curiosidades: uma magnífica piscina, com café e esplanada, e a Geninha, a filha do Madeireiro mais representativo, cortejada por levadas de furriéis, alferes e até alguns distintos Tenentes da Marinha. O jantar, na primeira noite, era em casa dela. Pela minha banda ainda lá comi um, à boleia do Sousa Dias.

(Já agora, os nomes, nestas minhas crónicas (?), só por casualidade é que têm representação real...)

À Geninha vi­-a mais uma vez, em Bissau, pelo Carnaval de 72. Acho que se tinha cansado de Farim. Acompanhava o Varela, noite alta, à procura de um casaco, salvo erro, que por certo não lhe serviria para nada, já que fazia quase dois de mim em altura. Estremunhados, com o barulho, viemos dois à porta: eu e o Abreu, por sinal ambos em trajes tão menores que nos pareceu ridículo pedirem­-nos, àquela hora, um casaco.

Estávamos, se a memória não me atraiçoa, uns dez dias em Farim. Dias que davam para conversar muito, para ler muito, para bons petiscos bem regados a vinho misturado com cerveja, refrescada com umas pedras de gelo retiradas do frigorífico, ou arca congeladora, ou lá o que era aquilo que havia a bordo e funcionava a petróleo, para tomar banho no rio e fazer umas piruetas com o Zebro II. A nossa comida, a dos fuzileiros, era normalmente guardada em arcas térmicas onde a carne era congelada em gelo bem atacado. Íamos comendo por cima.




Farim, 1966 - A povoação fotografada da LFG "Orion", fundeada a meio da enseada fronteira.

Ah!, e jantávamos cedo, por volta das 18 horas, aproveitando os últimos fulgores do dia. As noites... As noites, em Fevereiro, eram bem agradáveis. Não fossem as melgas, que descobriam o mais ínfimo dos buraquitos no mosquiteiro para entrar sem cerimónia a perguntar insistentemente “precisas de mim, precisas de mim...” e ainda agora dormiríamos a sono solto...

Mas então, e o Calado? O Calado só aparece, permita­-se-­me a repetição, no Ramal de Bissum.

Um dia de espera em São Vicente, pelos batelões, passada a carga dos batelões para as lanchas, na ocasião apenas duas, lá fomos nós Armada adentro. Verdade se diga que a fama do rio, a sua estreiteza e as curvas muito arrematadas e “sem inclinação”, não davam motivos para grandes confianças.

A atenção redobrava: um dos artilheiros no “canhão”, outro artilheiro e um dos fogueiros nas MG's, dois fuzileiros no tejadilho da casa do leme com a “basooka”, o telegrafista no rádio e nós, os restantes, todos o mais compostos que era possível. Na altura, era-­nos dado ver ainda a vegetação das margens calcinada pelo muito fogo com que tinha sido massacrada em tempos anteriores. E uma ou outra clareira, vegetação esfuziante lá ao fundo, com um ou outro crocodilo aquecendo­-se ao sol.




Rio Cacheu - De S. Vicente a Vila Cacheu numa LDM.

Bissum não tinha Porto, nem ponte-cais – aquelas docas feitas de cibes, mergulhados no leito lodoso e pranchas de madeira pregadas com cavilhas. As lanchas abicavam na margem, baixavam a porta e a carga era descarregada pela população para as Berliet do Exército. Nunca saí da lancha para ver a aldeia ou o aquartelamento: nunca tive curiosidade para tanto, nem sei se algum dos nossos camaradas a terá tido.

Pois foi na abicagem que apareceu o Calado. Tão Calado tinha andado antes que mal tinha dado por ele. “Ó sr. Tenente, como é que quer que eu abique?” Acho que nem ouvi bem. “Ó sr. Tenente, desculpe lá, mas como é que quer que eu abique?” Acordei surpreendido pela pergunta e recordo­-me de ter dito mais ou menos isto, de rajada: “Ó Calado, não sei, disso sabe você, faça o melhor que souber, se houver problemas cá estarei para assumir as minhas responsabilidades, mas faça o melhor que souber”. E abicou.

Aproximava­-se, entretanto, a outra lancha, pilotada pelo Popeye – enorme, espadaúdo, barbudo e cachimbudo como a conhecida figura, dado à boa pinga e ao mulherio, mas ainda periquito nas lides da governação das LDM's. E o Calado voltou a interpelar­-me, agora com um pedido bem mais lógico: “Ó sr. Tenente, o meu camarada ainda é novo nestas andanças, agradeço­-lhe que lhe diga que abique a estibordo (bom, por baixo...); não terá problemas”. E não teve.

Sentado à mesa, instalada entre a cabine e a Oerlikon, enquanto assistia à descarga, o Calado arranjou coragem para me dizer “Ó sr. Tenente, desculpe lá a minha pergunta de há bocado, mas há combóios em que os seus camaradas nos dizem como querem que manobremos...”

Comprometo-­me, longa que vai esta lenga­-lenga, a contar em próxima estória a importância que o Calado teve, pelo senso e sabedoria – e muita era – para o sucesso dos meus combóios.

Presto-­lhe a minha homenagem, ao Popeye – nunca lhe conheci outro nome – ao Teixeira e a todos os outros com quem percorri os principais cursos da Guiné durante os 21 meses da minha comissão.

O “Directo” do Cacheu – Farim

Cada combóio era um combóio. Quero com isto dizer, que todos tinham ingredientes suficientes para que nunca se estabelecesse qualquer rotina, para lá das normais tarefas do governo e da segurança, que uns, valha a verdade, respeitavam mais do que outros.

Nunca troquei impressões com os meus camaradas sobre combóios. Acho que nunca ninguém me perguntou, nem eu perguntei: Correu tudo bem? O facto de partir e voltar, 15 dias depois, mais dia menos dia, era suficiente. Manifestávamos a nossa alegria, muitas vezes discretamente, e pronto. O Ordmove era cumprido... Era? Era, era cumprido. Mas...

Mas, no directo Cacheu - Farim não foi. Nem para cima, a caminho de Farim, nem para baixo, rumo à passagem de S.Vicente. Tendo chegado a Vila Cacheu por volta das 15 horas, com tempo para saudar os camaradas do DFE e dar umas voltas pelo burgo, no caminho de regresso às LDM cruzei-­me com o Calado.




Cacheu - O antigo Aquartelamento do Cacheu (1966), mais tarde Messe dos Oficiais Fuzileiros (1969) e actualmente Casa do Governador da Região do Cacheu.

Ó senhor tenente! A que horas é a saída amanhã? Uns segundos de silêncio, embaraçosos, que o Ordmove até era confidencial (?)... logo interrompidos, também com algum embaraço, pelo Patrão:

Ó senhor tenente, fica só entre nós. Sabe, é que quem programa os combóios, com base nos elementos disponíveis, nem sempre conhece bem a realidade. Nós que passamos aqui a vida, ganhamos outras referências que nos ajudam bastante e que nos levam a fazer as coisas à nossa maneira. Respeitando sempre o essencial. Na lancha explico­-lhe...

E explicou. Ordmove em cima da mesa e a Tabela das Marés aberta na página certa, eis os ingredientes para a 2ª lição – a 1ª tinha sido, lembram-­se, em Bissau, no 1º combóio. A maré começa a virar às 06:00 da manhã. Significa que às 05:00 está quase parada, ou mesmo parada. Se sairmos por essa hora, a crista da onda vai apanhar-­nos já acima a montante, claro, de Jolmete, o que faz que andemos mais depressa.

Está decidido, Calado! Foi assim que, por volta das 04:30, motores a trabalhar e duas buzinadelas sonoras, puseram toda a gente de pé em três tempos e a andar, antes que pelo menos na outra lancha – e o Popey também devia ter consultado a Tabela e feito os seus cálculos – tivessem tempo de questionar a sua surpresa: Já?




Panorâmica geral de Ganturé (Bigene) com o rio Cacheu ao fundo

Às 15:00, com duas horas de avanço sobre o horário previsto, deixámos batelões em Ganturé e, gasto o tempo suficiente para os cumprimentos da ordem, aos camaradas residentes, ala que se faz tarde a caminho de Binta, onde ficaram mais dois batelões e, sem detença, rumo a Farim, já o Sol a baixar significativamente no horizonte.

Aportámos à Cidade Fim de Linha, pelas 21:00 horas, já que no troço final, com a maré a inverter o ciclo, a marcha se foi tornando lenta. Soube mais tarde que no Estado-Maior, onde pontificavam, entre outros, pelo menos na logística – patentes às malvas, o Almeida Carvalho, o Jorge Soares, o Aguillar e o Beato, este do meu CFORN, – se interrogaram, meio baralhados, ao receberem a obrigatória MENSAGEM DE CHEGADA, identificada com um nome inglês que já esqueci“ (...) não era para chegar amanhã de manhã?...”




Farim - O murete adjacente ao cais, as conhecidas acácias e a LDG «Alfange» abicada para descarga e carga

Claro que a partir daqui, nos meus combóios, passou a ser respeitado apenas o envio da Hora de Chegada ao Destino, nunca batendo certo com o referido na Carta de Movimento, – vulgo Ordmove – como é óbvio.

Tive oportunidade, ainda neste combóio, de o justificar. É que, sem que alguém dos presentes, mais do que eu próprio, imaginava eu, soubesse da hora da saída, a meio da manhã apareceu um indivíduo negro a perguntar-­me a hora da partida. Que tinha um motor...avaria reparada... para enviar, aproveitando a boleia, já nem sei para onde.

Claro que dei ordem de andamento com a antecipação de duas horas, depois de me ter certificado de que tudo estava aprontado – “a DEPART” essa, foi enviada à hora justa...





Elísio Alfredo Pires Carmona
2TEN FZ RN
15.º CFORN


Fontes:
Texto compilado e actualizado pelo autor do blogue a partir do publicado nas revistas números 14 e 15 da Associação dos Oficiais da Reserva Naval, 2003; fotos e imagens de arquivo do autor do blogue;


mls

segunda-feira, agosto 07, 2017

Reserva Naval na LFP «Bellatrix», P 363 - Parte II


Guiné, 1970 - Minha Querida «Bellatrix» = NRP 363 - Parte II

(continuação)

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 18 de Fevereiro de 2010)




Na foto da esquerda, ainda nos estaleiros onde foi construída, a LFP «Bellatrix» efectua provas de mar e, na foto da direita, procede-se ao seu carregamento no transporte que a traria para Portugal


A Apollo XIII

Um dia, estava eu muito no quentinho no Cacheu, quando me apareceu o radiotelegrafista com cara de caso.

– “Oh! Homem, o que é que se passa?” pergunto­-lhe eu, ao que me responde meio acabrunhado – “Senhor Comandante, chegou agora uma mensagem que eu não percebo e que parece que não é de Bissau...”.

O Comando de Defesa Marítima da Guiné, em Bissau, era como já se calcula a única entidade que se correspondia connosco diariamente em código.

– “Então descodifica lá isso!”

– “Não sou capaz...”

– “Mau, mostra lá isso, então?” atiro­-lhe eu já curioso.

E à fria análise do meu olhar arguto, revelou­-se a dura realidade: a mensagem era cifrada!

– “Eh! pá, atão tu não vês qu’isso é uma mensagem cifrada? Decifra já isso, homem!”

Aí começa-­me ele a gaguejar: – “É qu’ê cá... ê cá nan sei, nan sei decifrar mensagens...”

– “Mau, então não te ensinaram isso em Vila Franca?” digo-­lhe eu, já com ar severo.

–“Ensinaram, sô comandante, mas é que ... é qu’eu já me esqueci, nunca mais pratiquei...”

Estou feito, pensei eu, que também nunca mais tinha praticado! E lá fomos à procura da máquina da cifra e mais dos dossiers adequados à resolução do problema.




Panorama de Vila Cacheu vista do meio do rio

Ao fim de algumas três horas, ou mais, de porfiados esforços, lá tínhamos a máquina actualizada e pronta a começar o serviço. E começaram a aparecer as primeiras indicações: FLASH!!! SECRETO!!! E, pânico, a mensagem vinha directamente para o comandante da «Bellatrix», de Sexa, o CEMA, o autêntico, o verdadeiro e genuíno, o do Terreiro do Paço!!!

E no final de mais de duas horas, finalmente a mensagem foi decifrada.

Para encurtar razões, tratava-­se do seguinte: a cápsula Apollo XIII, a do programa espacial da NASA (e do filme), a cumprir missão no espaço, tinha tido uma avaria nos sistemas de navegação e mostrava­-se incapaz de tornar à Terra automaticamente, como estava previsto, tendo de regressar “em manual”, isto é, sob manobra directa dos astronautas.

Isso determinou que a NATO lançasse um alerta geral e atribuísse, a cada navio dos seus parceiros, uma determinada área de responsabilidade, na eventualidade da cápsula não amarar, como estava previsto no plano de voo inicial, numa zona do Pacífico.

E à «Bellatrix» calhou, e era isso que dizia a mensagem, um quadradinho no Atlântico, entre a Guiné e Cabo Verde, para onde eu, já em estado de prontidão, me deveria deslocar tão rápido quanto me fosse ordenado, e lá assegurar a devida protecção aos astronautas até à chegada de quem de direito.

O curioso é que, com os consumos de combustível e as performances de que a lancha então era capaz, se eu atestasse os depósitos à partida, a minha autonomia só me permitia chegar ao ponto de encontro. Para o regresso teria de vir a reboque, já se vê...

Mas enfim, tudo está bem quando acaba bem e, graças a Deus, a Apollo XIII amarou exactamente onde devia, no Pacífico.

O Buba

O Rio Grande do Buba, assim chamado, não tinha nada a ver com o Cacheu. Era uma ria grande e larga, espraiada, de águas limpas e claras, com a savana a chegar às margens.




Vista aérea de Bolama, no rio Grande de Buba

Riquíssimo em peixe (em quantidade e qualidade), de tal modo que atrás já foquei, se pescava diariamente o almoço e o jantar. Na minha estreia no Buba, e na primeira maré que lá passámos, fui ver a faina da pesca.
As linhas eram cordéis e os anzóis, alfinetes revirados. Isco, quando o punham, era uma côdea de pão.

E mesmo assim, mal a primeira linha tocou a água, logo um pargo, um belo pargo aí de vinte e cinco ou trinta centímetros, começou a ser recolhido. Mas esse não o provámos, que vinha ele já metade fora de água quando, vinda lá de baixo, uma bicuda com um metro, levou pargo, anzol, ponta da linha e tudo o mais. Por estas e por outras é que, no Buba, só se pescava com estopro de aço.

E era assim que, com vinte ou trinta minutos de pesca diária, assegurávamos o peixe fresco (e que peixe!) para as refeições.

No Buba, o calor exterior e a temperatura e limpidez da água convidavam ao mergulho. Mas aí o receio eram os tubarões, que os havia naquelas águas. E então, no pressuposto de que os tubarões fogem do ruído, inventou­-se a piscina oceânica de águas permanentemente correntes e com limites definidos, com cintura flexível de segurança sonora, a saber: um voluntário, normalmente um dos fogueiros, saltava para o zebro - entretanto já com os paneiros reparados e um motor espectacular de 50 hp em vez dos habituais 35 hp das outras lanchas – e começava a desenhar círculos centrados na "Bellatrix" e um raio de aproximadamente seis metros, enquanto os banhistas evolucionavam graciosamente que nem Esther Williams, na zona de segurança.

E assim se passava o tempo.

Apesar de tudo foi no Buba que, um dia, apanhei um susto. Estava no meio de um cruzeiro, quando fui mandado levar um combóio de batelões à foz do Cumbijã, no sul.

Não era habitual interromper um cruzeiro, mas qualquer conjunto de circunstâncias determinou a inoperacionalidade simultânea de várias lanchas e não houve outra alternativa senão mandarem­-me a mim na missão.

Lá fui eu e correu tudo sem problemas. Mas como tinha de regressar imediatamente ao Buba, em vez de passar a noite no Cumbijã, voltei sem parar.

Isso determinou que tenha estado trinta e tal horas sem dormir. Por isso, quando me apanhei de novo no Buba, já passada Bolama e porque, aquelas águas nessa altura, para além de calmas já nos eram familiares, entreguei a Ponte ao Mestre que me assegurou que eu podia ir descansar um pouco. E assim fiz.

Mas ainda não estava a dormir há uma hora quando acordei em sobressalto, com um pressentimento e, ao subir à Ponte, fiquei estarrecido: o Mestre confundira alguma referência e, na grande bifurcação do Buba, quando ele se dividia em duas braças aparentemente iguais, em vez de inflectir para leste, como devia, inflectiu para norte, para um local temível onde, em tempos, fora apoiar uma LDM num abastecimento a Fulacunda, mas isso com cobertura aérea. Mas, enfim, lá fizémos 180 graus e nada de anormal aconteceu, graças a Deus.

A Operação quase Nino

Foi dos episódios mais emocionantes vividos na Guiné, enquanto Comandante da «Bellatrix».

Um fim de tarde, no Buba, estávamos já fundeados para o período da noite, a cerca de uma milha da última curva antes do troço final que levava ao aquartelamento, e eu a tomar um copo, a ler e à espera da hora de jantar, quando fui abordado por três zebros dos fuzileiros do Buba, numa operação habitual ao fim de tarde – um saque ao meu Gin!

Às 19:45 - o quarto rendia às 20:00 - aparentemente satisfeitos, os “assaltantes” retiraram.

E eu, que costumava render a praça de quarto para que pudessem jantar todos juntos, continuei no convés com ar contemplativo, observando os zebros que se afastavam. E quando começavam a desaparecer na curva do rio, reparei com espanto num estralejar por cima deles.

Fiquei perplexo: não era hábito na Guiné, e muito menos tinha eu notícia de algum fogo de artifício na zona. De repente, caí em mim. Aquilo era um ataque e os botes estavam a ser atacados.Dei o alarme na lancha e via rádio. Avançámos para o local. Mas, entre levantar ferro, arrancar com o navio e chegar ao local à velocidade “vertiginosa” da «Bellatrix», passou pelo menos meia hora.

Fazendo fogo para onde me parecia que provinham os morteiros, continuei durante algum tempo nesta acção. E soubera já, entretanto, que ninguém tinha sido atingido nos botes, embora houvesse a registar um furo numa das secções de uma das embarcações.

E fui ficando por ali a ver no que é que aquilo dava, até que ao fim p’raí duma hora, apareceu a todo o vapor uma LFG - Lancha de Fiscalização Grande, disparando afanosamente. A cena passou­-se, acabei o cruzeiro e voltei para Bissau onde cheguei ao fim da tarde e, cumprindo a rotina, fui ao Estado-Maior apresentar-­me.




1974 - Porto de Bissau visto do Quartel da Amura; no horizonte a Corveta »Honório Barreto»

Era 5ª feira. Aí fui às minhas premissas, lavei-­me, vesti­-me em função do dia e fui para a Messe para o jantar do ronco. Entro e vejo o Segundo Comandante na outra ponta da sala, junto ao Bar, acenando na minha direcção.

Olho para trás e, como não vejo ninguém, pergunto gestualmente:

– É comigo?, ao que o senhor Segundo Comandante acenou afirmativamente. Estranho e vou ter com ele. Quando chego à sua beira ele, entusiasmadíssimo, diz­-me de chofre:

–”Parabéns, você matou o Nino!” Nem mais nem menos, o Nino, o Vieira propriamente dito. Eu estranhei aquilo e perguntei, timidamente:

–”Como senhor Comandante?” E expliquei­-lhe o que se tinha passado.

–”Sim, o Nino”, insistiu ele. E, chamando o Oficial de Informações:

– “Oh! Comandante, não é verdade?”

– “É verdade, está confirmado.”

– “Vê (?), está confirmado!”

E eu, nada convencido, voltei a contar a história, fundamentei-­a com um cálculo de probabilidades e, finalmente, usei o argumento final:

– “E é que além disso, senhor Comandante, os meus Pais ensinaram­-me em pequenino que as armas de fogo são muito perigosas e que nunca se apontam para ninguém, e eu não me canso de repetir isso aos meus homens. Por isso, está a ver, senhor Comandante, não pode ter acontecido na minha lancha...”

Como se constata pela História recente, eu tinha razão...

De quando a «Bellatrix» ia às Ostras

Fui duas ou três vezes à foz do Cumbijã. O abastecimento de Bedanda e de outros aquartelamentos para aqueles lados era feito por combóios de batelões – às vezes mais de dez – através do Cumbijã, apoiados por uma LDM.

Competia, no entanto, às LFP o apoio de navegação a esses combóios até à foz do referido rio, ziguezagueando pelos bancos de areia, em animada ronda de bóias inexistentes, entre os Bijagós e terra firme.

As missões começavam, normalmente, em Bissau com o "briefing" dos comandantes onde, para além de se apresentar o plano de viagem, se recomendava expressamente aos «skippers» dos batelões que marcassem cuidadosamente os pontos de viragem da LFP, para só aí virarem por sua vez e, desse modo, evitarem os baixios e os inconvenientes encalhanços.

Trabalho inglório!...

Os batelões avariavam a uma média de dois cada três horas.

Que é como quem diz: ainda Bissau estava à vista e já o combóio se estendia por algumas três ou quatro vezes o seu comprimento à partida, inciando-­se a partir daí, a inevitável prática do atalhanço.

Que, por sua vez, determinava o início dos encalhanços...

Que praticamente duplicava o número de paragens imprevistas... – uma vez até a LDM se avariou!...

E assim sucessivamente até ao seu destino, dentro do Cumbijã, entre a ilha de Como e um areal, onde normalmente se pernoitava. No dia seguinte, regressávamos à Base e o restante combóio continuava rio acima, sob o comando da LDM.

Mas, como em tudo, também havia coisas boas – as ostras!

As ostras do Tombali.

Na Guiné, havia duas qualidades de ostras: as do tarrafo e as da rocha. As da rocha, em mar aberto, eram naturalmente as melhores, mais limpas, mais frescas, melhor depuradas, batidas que eram pelas ondas. E dessas, as de maior fama eram as dos baixios do Tombali.

E posso testemunhá-­lo, graças a Deus! Graças a Deus e a cuidadosos planeamentos que faziam coincidir a passagem da «Bellatrix» no local com as horas da marés vazas. Parava­-se (normalmente para reparar uma avaria ligeira), arriava-­se o bote e lá se iam encher os baldes com as afrodisíacas bivalves.

E depois era fartar das ditas, com um branquinho que nunca nos faltou.

Até tenho saudades...

Epílogo

E foi assim a minha passagem de seis meses pela «Bellatrix»: curta, mas marcante.

Depois, ainda fiquei mais um ano na Guiné (que eu já fora para lá com licenciatura), mas agora em comissão civil.

Estávamos em plena acção psico-­social, Congresso dos Povos de Guiné, etc., e o General Spínola, ao tempo Governador, requisitou­-me à Marinha e colocou-­me como Agrónomo nos serviços de Veterinária, onde um dos meus principais entretenimentos era andar de tabanca em tabanca a inaugurar bebedouros para vacas.

E a brincar, a brincar, foi aí que andei de Chaimite, de pica em coluna no mato, e tive outras experiências bem mais desagradáveis.

E saudades da Bellatrix...

Mas isso são outras histórias.





José Manuel da Costa Bual
14.º CFORN


(final)

Fontes:
Texto de artigo publicado na Revista n.º 12 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abril 2000; fotos de arquivo do autor do blogue, Arquivo da Marinha e 2TEN RN Abel Melo e Sousa, do 20.º CFORN;

mls

domingo, agosto 06, 2017

Reserva Naval na LFP "Bellatrix", P 363 - Parte I


Guiné, 1970 - Minha Querida "Bellatrix" = NRP 363 - Parte I

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 12 de Fevereiro de 2010)




Em cima, no sul da Guiné as entradas das barras dos rios Cumbijã e Cacine, a ilha de Melo,
Em baixo, a povoação de Cacine e uma morança da tabanca





Preâmbulo

Durante seis meses fui Comandante da LFP «Bellatrix». Agora parece pouco tempo mas, na altura, já casado e com prole iniciada e, ainda por cima na Guiné, pareceu-­me muito!

Eu até era para ter ficado no Estado-Maior da Armada, em Lisboa, mas um dia, ao fim de seis meses, estava eu muito sossegadinho no 2.º andar do Terreiro do Paço a olhar para o Tejo, quando o meu Comandante ao tempo, o CMG António Duarte da Cruz Filipe me chamou e disse:

"Bual, dados os bons e leais serviços prestados, e porque se aproxima o seu aniversário, a Marinha não quer deixar passar em branco a efeméride e por isso aqui tem!"

E estendeu-­me a valiosa prenda, um lindo bilhete de avião da TAP para o dia dos meus anos, de ida para Bissau (só de ida), acompanhado pela competente Guia de Marcha, "o todo" embrulhado nas amáveis palavras de uma gentilíssima portaria de nomeação, onde eram tecidos os maiores encómios à minha capacidade de comando – o que eu até estranhei, porque na altura ainda estava por demonstrar!

A primeira reacção foi de recusa, a minha modéstia não me permitia aceitar tal distinção, nem eu me considerava merecedor de tão valiosa prenda...mas, as palavras insistentes e emocionadas do Sr. Comandante amoleceram a minha resistência e fizeram-­me aceitar o presente.

E lá fui...

O primeiro contacto

Cheguei a Bissau às duas e meia da tarde de um daqueles dias da época das chuvas, em que o calor é abrasador e a humidade insuportável, daqueles dias em que, chegado à porta do avião, me senti empurrado para trás pelo peso do ar.



Em cima: Num registo da LDG «Alfange», amarrada à bóia em Bissau, um panorama da Av. Marginal com as torres da Sé ao fundo e o NM «Braga» atracado ao cais.
Em baixo: A ponte-cais em T de Bissau, na normal azáfama de carga e descarga de batelões, de e para viaturas militares. Por detrás, em primeiro plano, o edifício do Comando de Defesa Marítima da Guiné (antigo edifício das Alfândegas).



À minha espera, o meu amigo Zé da Silva Dias, o da Reserva Naval, ao tempo Comandante da LFP «Deneb» e, interinamente, da LFP «Bellatrix» que me estava destinada, o cujo pegou em mim e me levou à Solmar, onde nos dessedentámos e comemos um bife; daí, para a sesta no «Hotel Reserva Naval»; ao fim da tarde, para um magnífico jantar em casa de um amigo dele que amavelmente se dispôs a tentar ajudar a fazer-­me passar o inesquecível dia de anos.

E foi ainda meio enressacados que, logo bem cedo no dia seguinte, embarcámos na LFP «Bellatrix» para a viagem da passagem do comando. Como estreia, não foi mau; pelo canal de Melo até Cacine, onde a amável convite do residente desembarcámos para jantar, no aquartelamento do Exército.

Para jantar e para levar na cabeça, que ainda íamos na sopa quando começaram a ouvir-­se uns sons "sui generis", novos para mim, mas que logo me explicaram serem rebentamentos provenientes, ao que parecia, de umas morteiradas amorosamente enviadas do outro lado da fronteira pelo PAIGC, com lembranças do Sekou Touré (foi o meu baptismo de fogo e, graças a Deus, o mais perto que jamais dele estive).

Interrompido o jantar, esperámos, e o Zebro nunca mais! E o barulho afastava­­-se, afastava­-se..., em direcção ao mar. E, enquanto conjecturávamos sobre o que se poderia estar a passar - púnhamos até a hipótese de deserção do fogueiro -, começámos a ouvir gritos e pedidos de socorro; era o pobre desgraçado, ofegante (e apavorado, que aquilo eram águas de tubarões), a nado.

Tinha caído do bote, embora com desculpa, que os paneiros do fundo estavam partidos e, com a mareta, o dito bote dobrou e cuspiu­-o. De modo que, para começo, não estava mal: ao fim de pouco mais de 30 horas na Guiné, já tinha levado na cabeça, tido um homem ao mar e perdido o Zebro!

Por outro lado, e em contrapartida, que também se deve ver o lado bom das coisas, ao fim de pouco mais de 31 horas na Guiné, já tinha passado incólume por uma operação de fogo, feito um salvamento no Cacine e recuperado uma embarcação à deriva...

E assim estava estabelecido o primeiro contacto com a «Bellatrix», a gloriosa P 363, autêntica lancha voadora com o seu jeito inconfundível de marcar presença pelo fumo, nos seus picos entusiasmados de 8,19 nós a favor da corrente!



A LFP «Belatrix» em plena navegação

A guarnição

A «Bellatrix» tinha uma característica que a distinguia das outras lanchas em serviço na Guiné: enquanto que, normalmente, uma guarnição em cada uma delas era rendida de uma só vez, Comandante e restantes elementos, na «Bellatrix», por contingências várias e coisas passadas, as rendições eram individuais.

Sorte minha, digo eu, porque isto quer dizer, na prática, que acabávamos por nunca estar na lancha, perdoe-­se­-me a expressão, aos papéis. Que é como quem diz que, quando eu cheguei, piriquito, a rapaziada explicou-­me praticamente tudo. E depois, conforme eles iam sendo rendidos, já o Comandante (cá o rapaz) dominava a situação... Penso eu de que!...Mas, fora de brincadeiras: guarnições como aquela não haveria muitas, decerto...

Passaram por lá, durante o meu tempo, dois Mestres, Cabos por sinal - que nunca me calhou nenhum Sargento – mas que acabaram dando conta do recado, Artilheiros, destemidos e de pontaria tão afinada que dispensavam a antepara da peça (reparem que, no modelo da protagonista e, correctamente, não está representado este acessório, Fogueiros que sem os milagres dos quais nunca teríamos ido a lado nenhum e Radiotelegrafistas que até conseguiam comunicar com Bissau (e com o EMA!) do meio do tarrafo do Cacheu!...

Pescadores eméritos, que graças a eles (para os cruzeiros do Buba só levávamos arroz, batatas e verdes) as proteínas arranjavam­-se lá, diariamente! Animadores fantásticos, organizadores de tempos lúdicos, que até a segurança aos tubarões garantiam, também no Buba, perfazendo círculos com o Zebro à roda da lancha e transformando as águas circundantes em piscina fabulosa...

E as ostras, nos baixos do Tombali? Eram às carradas, de cada vez que levávamos um combóio de batelões à foz do Cumbijã! E o Peciche (ou Pecixe), nunca consegui apurar, que tratava de nós todos, e tinha uma mãozinha para o tempero que, vou-vos contar, só não o trouxe para Lisboa porque ele não quis vir comigo.

Era uma equipa do melhor e devo dizer que só me faltou um electrónico para reparar o radar quando uma vez o seu PPI se transformou numa flor (saudosos ‘70s, dos hippies..).

A vida a bordo

Não faria certamente muita diferença da vida a bordo das outras lanchas, a vida na LFP «Bellatrix» em cruzeiro. Levantar, fiscalizar, almoçar, fiscalizar outra vez, jantar e deitar! E, para ajudar a passar o tempo, ler, escrever (quem ainda não tinha perdido a escrita, já se sabe), conversar, ouvir música, beber uns copos e fazer paciências.

E esperar pelo dia seguinte...

Eu passava a maior parte do tempo entre a ponte e a câmara, que o calor não convidava a estar ao ar livre. Aliás, na câmara, cohabitava comigo um ratinho que era muito meu amigo. Dormia na cama de estibordo, por cima da qual havia uma prateleira com livros a que, pomposamente, chamava biblioteca e, todas as noites, entre as duas e as três da manhã, o meu amigo vinha cumprimentar-­me, saltando da biblioteca para o chão e usando a minha barriga como degrau.Lá ia à vida dele e só nunca percebi como é que voltava para casa, que nunca o consegui surpreender em tal trajecto.

Havia outras habitantes da câmara, mas com essas dava-­me menos. Não eram nada amigáveis, parecia até que fugiam de mim e teimavam em fechar­-se no seu domínio. Pois é, eram as baratas que, provavelmente para se defenderem do tal calor que nos oprimia a todos, optaram por viver no frigorífico. Entravam e saíam à vontade pelas borrachas, que na verdade não vedavam lá muito bem...

Lembro­-me até de uma vez em que recebi um daqueles miminhos por que todos ansiávamos que nos mandassem de Lisboa. Era uma remessa particularmente gulosa e continha, entre outras iguarias, um extraordinário queijo da serra, amanteigado e ainda por cima e feliz coincidência, chegou-­me a dita encomenda em véspera de sair para um cruzeiro.




Um troféu perfeitamente ao alcance, à época...

Feliz, pensei que aquele cruzeiro até me ia custar menos a passar, com aquele queijinho para ir papando. Pressuroso, carreguei-­o para a lancha e largámos de Bissau de madrugada. À noite, já no Cacheu, para culminar um petisco do Pecixe e com um vinho que eu até tinha prévia e cuidadosamente escolhido, abri cerimoniosamente o queijo... e, oh céus!, excedia em tudo as minhas expectativas mais optimistas: a massa escorrida, o aroma, o paladar!!! Os cheiros da serra, das ervas da serra, do cardo da serra, tudo me acudia à memória!!!... Eu via­-me lá, pastor de um rebanho de ovelhas pastando num fim de tarde, o som bucólico dos badalos embalava­-me...

Oh! Cacheu, onde é que estavas que já nem de ti me lembrava! Aí apareceu­-me outra vez o Pecixe para levantar a mesa, e acordou-­me do sonho. Ia-­o matando...e de novo cá em baixo, no real verde escuro acastanhado do Cacheu, guardei o queijo, antecipando já o almoço do amanhã. Até dormi melhor nessa noite, os sonhos que eu tive...

Mas, na manhã seguinte (quem me dera não ter acordado): o queijo, o meu queijo, o meu rico queijinho, jazia no chão da Câmara! O frigorífico não era lá muito aficionado de fazer frio: gelo, nem pensar, e frio, talvez uns 5 ou 6 graus abaixo da temperatura exterior (que era p’raí de 40° à sombra...), menos do que isso, não! Sobre as borrachas do dito já falei, quando contei as baratas!

De modos que durante a noite, o meu rico queijinho, amanteigado como só ele, com a temperatura morninha lá de dentro, foi escorrendo, escorrendo, primeiro pelo chão do próprio frigorífico, depois por baixo das borrachas e para fora dele e, por fim, pelo chão da câmara afora!...Quem se aproveitou da situação e se alambazou com o meu queijo foi o meu amigo, durante a sua saída nocturna. E eu, em contrapartida, entrei numa fase depressiva aguda que me durou pelo menos até ao fim do cruzeiro.

O caminho marítimo para o Cacheu

Primeiro que tudo, não é para me gabar (ou talvez até seja), mas quero fazer notar que nunca, repito, nunca encalhei na Guiné.

Posto isto, quero referir que o meu primeiro cruzeiro foi no Cacheu. E dessa primeira vez, como de resto nas 2 ou 3 seguintes, segui escrupulosamente o que mandavam os livros e aconselhavam as boas e seguras práticas de navegação: ia ao mar, contornava o continente até às bóias de marcação do canal (lembram­­-se?..., daquelas que não estavam lá, mas que vinham nas cartas e qu’a gente calculava que deviam ser mais ou menos por ali...) e daí, pimba: direito a terra e Cacheu acima.

Mas um dia, em conversa com um comandante de uma LDG (não juro, mas parece­me que seria o Comandante Costa Correia) percebi que eles não davam essa volta e iam directos da foz do Mansoa à barra do Cacheu.

Não quis ouvir mais nada: pois se eles calavam pouco menos do que eu, o que é que eu andava ali a fazer às voltas? E fui-­­me às cartas, passei a dar mais atenção às tabelas das marés e passei a ir também por lá. Nunca me arrependi e cortei algumas 6 ou 7 horas à viagem, ainda por cima as mais chatas...

O Cacheu

Só quem lá esteve é que sabe de que é que eu estou a falar. Daquele braço de mar, com mais de duzentos quilómetros de comprido, com quase um metro de amplitude de maré em Farim, daquela espécie de canal de perfil em U onde corria um líquido viscoso verde escuro acastanhado que alguns diziam ser água (no que eu nunca acreditei!), com o tarrafo claustrofóbico emergindo erecto das margens, por vezes até 20 m de altura, com os olhinhos dos crocodilos (dos poucos que escapavam ao Zé Luís Roque Pinho) a espreitarem por entre o emaranhado das raízes e, sobretudo, do negro.




A LFP «Canopus» (irmã gémea da LFP «Bellatrix»)efectua uma escolta no rio Cacheu.

O negro, negro, das noites sem lua, um negro grosso que até pesava, um negro baço onde não se via a meio metro, um negro que metia medo. Um negro como eu acho que deve ser o negro dos buracos negros.

No Cacheu, os dias passavam mais devagar do que nos outros sítios, devia ser das horas serem mais compridas, ou então daquela humidade grossa (esverdeada, no Cacheu até a humidade era esverdeada...) que se metia dentro dos relógios e lhes atrasava os ponteiros.

Num dia típico no Cacheu, ao nascer do Sol, levantava­-se o ferro e ficava­-se à deriva enquanto o Sol projectava a sombra do tarrafo no rio; então, quando o calor se tornava insuportável, amarrávamos na margem ensombrada; quando o Sol chegava ao zénite, mudávamos para a outra margem; quando a sombra voltava a cobrir o rio, desamarrávamos e derivávamos de novo, até ao pôr do Sol. E, entretanto, é claro, almoçávamos e jantávamos os petiscos do Pecixe.

A excepção eram as clareiras: aí sempre havia algum "suspense", punham­-se os motores a trabalhar, o pessoal nos postos de combate e, às vezes, até se fazia fogo para afinar a pontaria, ou então, quanto mais não fosse, para gastar munições em fim de prazo...

Era no Cacheu que a «Bellatrix» registava os consumos mais baixos de gasóleo e mais altos de líquido sedíveis: em média, 2 caixas de vinho, 3 garrafas de whisky e 3 garrafas de gin, por cruzeiro.




José Manuel da Costa Bual
14.º CFORN


(continua)

Fontes:
Texto de artigo publicado na Revista n.º 11 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abril 2000; Fotos do Arquivo da Marinha e do autor do blogue;


mls

sábado, agosto 05, 2017

Angola - Reserva Naval nos Dembos


2TEN FZE RN Manuel José de Almeida Corrêa de Barros, 5.º CEORN - Ferido em Combate nos Dembos

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 6 de Fevereiro de 2010)




O 2TEN FZE RN Manuel José de Almeida Corrêa de Barros pertenceu ao 5º CEORN e ingressou na Marinha de Guerra em 4 de Outubro de 1962.

Promovido a Aspirante RN em Maio de 1963, foi destacado para prestar serviço em Angola, no Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 6, tendo sido ferido em combate em complexa operação na região dos Dembos.

Mais tarde, veio a ingressar nos Quadros Permanentes da Marinha de Guerra - SEG.




Foi Comandante do DFE 6 o 1TEN AN João Fernandes Mendes Barata tendo como Oficial Imediato o 2TEN António Alexandre Welti Duque Martinho e 3.º Oficial o STEN FZE RN Manuel José de Almeida Corrêa de Barros.


Fontes:
Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África 1961/74 - Guiné, Luis Sanches de Baêna, 2006; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Ordem da Armada 1.ª Série n.º 26 de 3Jun1964; Arquivos do autor;


mls

quarta-feira, agosto 02, 2017

Reserva Naval, Guiné - A Pátria Honrai


2TEN FZE RN José Luis Couceiro, 5.º CEORN - Medalha da Cruz de Guerra de 2.ª Classe

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Fevereiro de 2010)




O 2TEN FZE RN José Luis Couceiro pertenceu ao 5º CEORN - Cursos especial de Oficiais da Reserva Naval e ingressou na Marinha de Guerra em 4 de Outubro de 1962.

Promovido a Aspirante RN em Maio de 1963, foi destacado para prestar serviço na Guiné, no Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 2, tendo-se destacado pela sua empenhada participação em diversas operações. Quase no final da comissão de serviço, foi chamado a substituir o seu camarada do mesmo curso Abel Machado de Oliveira, integrado no DFE 8 e que, ferido em combate, teve de ser evacuado.








Foi Comandante do DFE 2 o 1TEN Pedro Manuel de Vasconcelos Caeiro, seu Imediato o 2TEN Adolfo Esteves Sousa e 3.º Oficial o STEN FZE RN José Luis Couceiro.

O comandante do destacamento, ferido em combate, veio a ser substituído pelo 1TEN Mário Augusto Faria de Carvalho.

Foi Comandante do DFE 8 o 1TEN Guilherme Almor de Alpoim Calvão, seu Imediato o 2TEN José Manuel Malhão Pereira e 3.º Oficial o STEN FZE RN Abel Machado de Oliveira.

Este último, ferido em combate, veio a ser substituído pelo 2TEN RN FZE José Luis Couceiro.


Fontes:
Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África 1961/74 - Guiné, Luis Sanches de Baêna, 2006; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Ordens da Armada 1.ª Série n.º 37 de 12.8.1964, n.º 4 de 27.1.1965 e n.º 22 de 22.6.1965.


mls