sexta-feira, maio 29, 2020

Imediatos da LFG “Orion” na classe “Cacine”


Imediatos da LFG «Orion» na classe «Cacine»


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Junho de 2010)


Os 2TEN RN José Zulmiro de Sousa Barbosa e 2TEN RN António Fernando de Brito Castilho Dias foram ambos oficiais da Reserva Naval, o primeiro do 24.º CFORN e o segundo do 22.º CFORN.

Julgava eu que, pelos meus sempre insuficientes canhenhos históricos, o José Zulmiro Barbosa teria sido o último a desempenhar as funções de oficial Imediato da LFG «Orion» depois de, em 23.12.74, ter aportado a Luanda a “Incrível Armada”.

Assim não terá sido uma vez que o António Castilho Dias, antes de regressarem os dois a Portugal e se bem que numa curta passagem, ainda desempenhou igualmente as mesmas funções a partir de 25.2.75.

Ambos estiveram em navios-patrulha da classe «Cacine» mas, melhor que espraiar para aqui teorias, será transcrever algumas mensagens que tive o prazer de trocar com o José Zulmiro Barbosa.




Em 2010.04.14, José Zulmiro Barbosa, em comunicação sobre "Imediatos da LFG «Orion» na classe “Cacine” disse:

Caro Lema Santos,

Tenho acompanhado com crescente interesse o seu/nosso blogue.
Fui imediato da «Orion», tendo integrado a “Incrível Armada” que, como sabe, chegou a Luanda em 23.12.74.
Em Luanda passei para o Rovuma por troca com outro camarada da RN, Castilho Dias, tendo regressado a Lisboa, onde chegámos a 16 de Março de 1975. Depois fui ainda imediato dos navios-patrulha «Mandovi» e «Geba».
Envio-lhe umas fotos da Base Naval de Luanda, onde se pode ver a LFG «Orion» em fabricos, o «Rovuma» atracado na muralha e uma panorâmica geral com várias lanchas.
Claro que pode fazer o que entender com elas.
Estou na expectativa de ver algumas notas no blogue sobre o «meu» 24.º CFORN, uma vez que penso que terá acesso a documentação para tal.
Um abraço e obrigado pelo seu magnífico trabalho.
Até breve,
José Zulmiro Barbosa





Luanda - Aspecto da base naval sendo visível a LDG «Alabarda» atracada com 2 LFP de braço dado e, do outro lado do cais, várias LFG amarradas;



Em 2010.04.14, mls, em comunicação sobre "Imediatos da LFG «Orion» na classe «Cacine» respondeu:

Caro José Zulmiro Barbosa,

Em primeiro lugar o meu agradecimento pelo cumprimento. Será um prazer ser contactado por um camarada e, para mais, Imediato da LFG «Orion"»!
Temo não poder corresponder a tão elevadas expectativas, porque estou numa de remador "a solo" o que se vai tornando cada vez mais complicado.
Vai para meia dúzia de anos que iniciei esta cruzada complementar e gostava de prosseguir, uma vez que acabar nunca acaba. A História é dinâmica e resta sempre algo para acrescentar.
Mas, não perdendo tempo, em épocas diferentes, fomos camaradas na «Orion» e aquela LFG como ponto comum é muito importante! Espero que comungues - quebro aqui o formalismo - da mesma ideia.
Começo por te fazer um desafio. Divulga o «blogue» em camaradas com que tenhas contacto, tenta arranjar fotos do curso, de passe ou de episódios diversos, para se poder efectuar um resumo do 24.º CFORN em condições.
E desse como de outro qualquer. Do 13.º CFORN para a frente não disponho de quase nenhum material pelo que ilustrar o resumo devidamente vai ser mais complicado. O acesso aos arquivos é muito limitado ou mesmo fechado, mesmo a fotos da época porque estão anexas ao processo pessoal.
Tenho o relato oficial completo da Incrível Armada que, aliás, já li e reli várias vezes. Tenho imenso material pesquisado das LFG classe «Argos», já digitalizado e compilado mas não me chega o tempo para tudo.
Fico por aqui, apenas para não armar nenhuma confusão nas tuas ideias mas também a aguardar notícias tuas para continuarmos o diálogo. Deixo-te os meus contactos abaixo e agradeço-te as fotos que enviaste. Voltaremos a falar nisso.
Abraço amigo,
mls




Em 2010.10.25, José Zulmiro Barbosa, em comunicação sobre "Imediatos da LFG «Orion» na classe «Cacine» respondeu:

Caro Lema Santos,

No último “post” sobre a classe «Cacine» , verifico com surpresa que, tendo embora sido 3º oficial do Rovuma (por troca com o 2TEN RN Castilho Dias, que passou para a «Orion»), em Fevereiro e Março de 1975 (viagem Luanda –Lisboa), não apareço na relação de oficiais RN que prestaram serviço no navio-patrulha «Rovuma».
Da mesma forma , tendo sido 3º oficial e imediato do «Mandovi» (por troca com o 2TEN RN Manuel Almeida Vasques, que passou para o «Rovuma»), de Abril de 1975 a Dezembro de 1975, também não consto da relação respectiva.
No navio-patrulha Mandovi, de prevenção e atracado em Leixões, vivi as eleições de 25 de Abril de 1975 para a Constituinte na companhia do 1TEN Cajarabille, comandante à data; atracado na BNL, também de prevenção, vivi o “golpe” de 25 de Novembro de 75, substituindo o comandante (1TEN Tomás Coelho, que tinha rendido o 1TEN Cajarabille), que estava de férias.
De Dezembro de 1975 a Fevereiro de 1976, data em que fui licenciado, fui imediato do Geba. Porventura também não existirão registos.
Estranho, apesar da confusão na época ser grande... (verão quente de 75, golpes e contragolpes, etc).
Conto voltar ao assunto.
Um abraço e até breve.
José Zulmiro Barbosa


Luanda - O navio- patrulha "Rovuma" atracado na muralha e uma LFG encostada de braço dado.



Em 2010.06.25, mls, em comunicação sobre "Imediatos da LFG «Orion» na classe «Cacine» respondeu:

Caro José Zulmiro Barbosa,

Para mim, é sempre extremamente agradável ouvir pessoas do outro lado da linha que lêem e estão atentas. Antigos camaradas ainda melhor, mas é raro. Basta observar os comentários que vão aparecendo "online".
Tudo o que na altura disse mantém-se e, naturalmente, tenho algumas dificuldades em acelerar o andamento, a sós. Mesmo para história dos cursos, depois das mensagens que trocámos, apesar de um apelo feito pela Associação e por mim, apenas arranjámos uma foto de curso do 16.º CFORN... até ao 25.º CFORN, o último.
O único suporte existente para tentar localizar as Unidades ou Serviços onde prestavam serviço oficiais RN era, e a partir de 1978 nem isso, a Lista da Armada. Esta publicação referia as situações relativas a 31 de Dezembro de cada ano e ali figurava apenas a data inicial de destacamento para a Unidade.
Como tal, algum movimento a meio do ano, não mantido até 31 de Dezembro não figuraria, o que explica todas essa ausências de informação. Para mim, oficialmente, o 2TEN RN José Zulmiro da Silva Barbosa, do 24.º CFORN, aparece como oficial Imediato da LFG «Orion» em 31.12.74 (desde 21.11.74) e em 1975 já nem aparece em lado nenhum na Lista da Armada!
O 2TEN RN António Castilho Dias, do 22.º CFORN, em 31.12.73 aparece no navio-patrulha «Maio» (desde 1.10.73), em 31.12.74 no navio-patrulha «Rovuma» (desde 5.2.74) e em 1975 não aparece igualmente em lado nenhum.
Para mim, verdadeira surpresa terá sido o Castilho Dias ter sido também imediato da «Orion», ainda que apenas de passagem. A partir daqui tudo é confusão e granel. Aliás, as trocas de situações, algo frequentes, em navios estacionados na Base Naval de Lisboa nunca permitiram registos actualizados.
Outros dados poderão ser obtidos na Repartição de Alcântara, em consulta do processo individual e, compreensivelmente, apenas pelo próprio. As guarnições de navios também têm classificação reservada e não podem ser consultadas.
De seguida conto publicar o que oficialmente existe sobre os restantes 5 navios-patrulhas da classe «Cacine». Claro que estará igualmente incompleto na informação...
As fotos estão guardadas e arrepiou-me o estado da LFG «Orion». Aproveito para te enviar uma outra foto da nossa LFG, quase diria do bom tempo daquele navio. Nova, a estrear, saída do Alfeite e em frente à Praça do Comércio, antes de ir para a Guiné.
Fico a aguardar a tuas opiniões/sugestões.
Abraço amigo,
mls





Em cima, em Angola, 1974, o aspecto desolador da LFG «Orion» em fabricos (?) e, em baixo, a mesma LFG fundeada frente ao Terreiro do Paço, em 1964, antes de rumar à Guiné





Em 2010.10.25, José Zulmiro Barbosa, em comunicação sobre "Imediatos da LFG «Orion» na classe «Cacine» respondeu:

Caro Lema Santos,

Está explicado.Já em tempos pedi uma certidão para obtenção da carta de patrão de alto mar, e de facto a descrição do meu serviço militar só referia a LF «Corvina» (meu primeiro navio) e acabava na LFG «Orion»...
Já agora pergunto-te onde poderei consultar a Lista da Armada. Online?.
Vou tentar escrever algo que possa ter interesse para o blogue.
Obrigado pela bonita foto. No meu tempo as lanchas da Guiné eram pintadas de verde.
Um abraço,
JZB





Guiné, rio Cacheu - A LFP «Aldebaran» vestida de um estranho verde



Em 2010.06.25, mls, em comunicação sobre "Imediatos da LFG «Orion» na classe «Cacine» respondeu:

Caro José Zulmiro Barbosa,

Consultas "online" penso que não conseguirás nada. Estão todas disponíveis mas no Arquivo Central de Marinha, na Fábrica Nacional de Cordoaria, na Junqueira. A partir de 1978, figuram apenas com números informáticos, sem situações profissionais e têm muitas gralhas.
Efeitos do tempo...ou do mau tempo? Quem tenha paciência - muita - pode procurar as Ordens da Armada ou da Direcção do Serviço de Pessoal, uma a uma, e encontra os movimentos todos. Bela perspectiva!
Mesmo assim, sendo um documento público, a partir de 2003 existe apenas em suporte digital e, como documento Intranet, é interno, não estando disponível ao público, a não ser que permitam uma vistazita de olhos num terminal dum computador. Que o país está diferente, está, mas para melhor ou para pior?
Deixo-te o repto de escreveres meia dúzia de linhas para as fotos de Angola e para algum apoio que necessites.
Julgo que a cor cinza esverdeado que me habituei a ver nos navios da Marinha de Guerra, por motivos que desconheço iniciou, na época, um processo de alteração de cor, claramente visível na Guiné em algumas das unidades navais.
Propositadamente ou não, certamente de gosto duvidoso, tanto que assim continua a não ser. Talvez a ideia fosse simular uma espécie de camuflado com o tarrafo. Quem sabe?
Já agora um pedido: Tens foto de curso do 24.º CFORN? Até ao final do ano também vai figurar um resumo, no blogue e na página. Também vou publicar alguns filmes, nomeadamente de Angola.
Abraço,
mls




Fontes:
Texto compilado pelo autor do blogue com imagens da Revista da Armada; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha 10.º e 15.º Vols, 1999/2004; Ordem da Armada;


mls

quarta-feira, maio 27, 2020

LFP "Albufeira" - P 1157


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Albufeira» - P 1157

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 15 de Março de 2011)




A LFP «Albufeira» a navegar no porto de Leixões


Construída nos estaleiros do Arsenal do Alfeite e a segunda da classe «Alvor», com as mesmas características gerais, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 9 de Junho de 1967 tendo sido atribuída ao Instituto Hidrográfico.

Por esse facto e após o período de adestramento da guarnição, permaneceu no Arsenal do Alfeite para montagem do equipamento electrónico de sondagem até 11 de Agosto desse ano. Iniciou serviço hidrográfico da zona costeira continental a partir desse mês. Ocasionalmente e até 1970, efectuou serviços de fiscalização da pesca na costa algarvia.

Em 21 de Setembro de 1972 foi superiormente decidido atribuir o navio ao Comando de Defesa Marítima de Timor. Por esse facto, subiu o plano inclinado do Arsenal do Alfeite onde foi pintado de branco, tendo sido retirada a peça Oerlikon e passando a designar-se por «Tibar».

Embarcou em 25 de Fevereiro de 1973 no navio holandês «Batjan» com destino a Timor, onde chegou a 8 de Abril, sendo atribuída àquele Comando de Defesa Marítima, provisoriamente em serviço de policiamento marítimo. Dadas as características do navio, a sua utilização esteve limitada pela não existência quer de portos de abrigo quer de pontos de apoio para reabastecimento na costa sul.




Timor - A LFP «Tibar» navega ao largo de Dili

Esses condicionamentos levaram a que a acção do navio incidisse especialmente na costa norte, nomeadamente na Ilha de Ataúro no enclave de Oe-cusse, zonas que, pela sua situação geográfica, se encontravam isoladas da restante província.

Dentro das limitações da lancha, foi prestado todo o apoio e colaboração possíveis no transporte de pessoal e de material militar, sempre que solicitado.

Em 23 de Abril de 1973, numa das viagens entre Dili e Ataúro, já junto desta ilha, sofreu avaria dos motores (o motor de arranque do motor principal de bombordo encontrava-se queimado), o que obrigou a que o navio ficasse inoperacional, devido aos fracos recursos oficinais a nível de sobressalentes.

Só voltou a navegar em Outubro desse ano, colaborando com uma barcaça de Timor num embarque, efectuado a seis milhas a oeste de Dili, de trinta e cinco chineses de Hong-Kong e dezasseis indonésios do navio «Norse Lion» que foram transportados para terra e entregues às autoridades sanitárias, a fim de serem assistidos.

Eram náufragos do navio «Anne Fortune» que tivera um incêndio a bordo quando navegava para Hong-Kong e que tinham sido recolhidos pelo «Norse Lion». Em 6 de Abril de 1974 voltou a prestar auxílio a náufragos, desta feita de uma embarcação indonésia que se encontrava sem vento e à deriva há cinco dias, sem água potável. Encontrava-se a cerca de 35 milhas da Ilha de Ataúro e transportava cento e sete pessoas.

Foi rebocada para a ilha onde todos os ocupantes foram assistidos. Em 26 de Agosto de 1975 participou no transporte das Autoridades Portuguesas do porto de Dili para a Ilha de Ataúro, tendo sido o último navio português a largar do cais de Dili, em cujas proximidades combatiam já as forças timorenses rivais. Seguiu para Kupang para reabastecimento no Timor indonésio, em 29 de Agosto. Encontrou grandes dificuldades no retorno que só se deu em 5 de Setembro para a Ilha de Ataúro.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Albufeira» os seguintes oficiais:

Reserva Marítima:

2TEN RM Gil da Costa, 24Jun67/04Nov68;

Quadro Permanente:

2TEN Orlando Luís Saavedra Temes de Oliveira, 04Nov68/12Nov69;

Reserva Naval:

2TEN RN Fernando Magalhães do Amaral Neto, 12.º CFORN, 12Nov69/15Jul70;
2TEN RN João José Carvalho Ghira, 15.º CFORN, 15Jul70/26Oou70;
2TEN RN José Filipe de Melo Castro Guedes, 16.º CFORN, 26Out70/24Out72;
2TEN RN Vasco Torres Graça dos Santos, 19.º CFORN, 24Out72/08Abr73;




Fernando do Amaral Neto-12.º CFORN, José Castro Guedes-16.º CFORN
e Vasco Graça dos Santos-19.º CFORN


Para a permanência do navio em Timor a lotação não previa um oficial pelo que o cargo de Comandante acumulou com o Comandante do Comando de Defesa Marítima de Timor.

Já com o nome de LFP «Tibar» foram ainda comandantes daquela LFP os seguintes oficiais:

Quadro Permanente:

CTEN Manuel Arsénio Velho Pacheco de Medeiros, 08Abr73/29Set73;
CTEN José Luís Ferreira Leiria Pinto, 29Set73/08Out75;

Depois de mais de 8 anos de bons serviços e horas de navegação indeterminadas, foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 8 de Outubro de 1975.


Navios da mesma classe:
LFP «Alvor», LFP «Albufeira» e LFP «Alzejur”.

Fontes:
Dicionário de Navios, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

segunda-feira, maio 25, 2020

O Combóio de Bissum


Guiné, rio Cacheu - Os combóios navais para Bissum





As LDM repousavam há já dois dias nas paragens da Passagem de S. Vicente. Era aqui que morria o Combóio a Farim. De dia a juzante da dita, fundeadas, braço dado, e à noite a montante, abrigadas na sombra acolhedora do tarrafo que bordejava a bolanha do outro lado, um nadita acima do ponto em que nascia a estrada que ligava a Ingoré, ao tempo desactivada.

Nesse interim, enquanto os batelões iam chegando ao ritmo rançoso dos seus barulhentos motores, que os anunciavam a milhas, a marujada, sem excepção, o que quer dizer que o comando também bastas vezes se associava, passava o dia entretido em brincadeiras que a água suscitava, os mergulhos, mas também a preparação das refeições, o correio para a família e amadas que ajudavam a preencher o santo dia.

A noite, essa era acordada, de quando em quando, pela voz em surdina das rendições das sentinelas, os gritos da passarada nocturnal e as palmadas disparadas na direcção da insuportável mosquitada que nos rondava ao som insistente dos seus apelos “precisas de mim, precisas de mim…”.

Reunida toda a esquadra havia que sacar do ORDMOVE e dar-lhe seguimento: passar a carga, batelão a batelão, para as LDM, manobra acompanhada pelo Cabo do exército responsável e, uma vez carregadas, zarpar pelo estreito e sinuoso «Rio Armada», tão sinuoso que as LDM não se protegiam uma à outra na maior parte dos "esses" do rio, tudo a postos para o que desse e viesse, o Patrão ao leme, um artilheiro na peça e o outro numa das MG42, um fogueiro atento ao roncar dos notores e o outro na MG42 do outro bordo, o telegrafista sentado à frente do rádio, ao lado do Patrão, no tejadilho da cabine de pilotagem o "basookeiro" e o ajudante com a arma respectiva, a basooka, todos cientes de que a atenção era a regra mestra até à rampa de abicagem na perpendicular ao aquartelamento do Exército, ali mãos dadas com a Tabanca. O Exército assegurava, nas imediações, por terra, a segurança do Combóio.

Na preparação para a abicagem, o Calado que por sinal nem falava muito, o que condizia com o apelido, questionou o Tenente com um respeitoso “Sr. Tenente, como quer que abique?”, que deixou o oficial um pouco desconcertado, a coçar a cabeça e a cogitar no “como quer que abique?”, reagindo instantes depois com um “ó homem, disso sabe você, faça o melhor que souber, que se alguma coisa correr menos bem cá estaremos para assumir”.




Bissum – Tabanca
Fotos em http://guine-bissum.blogspot.pt/ - Alf Mil Aníbal Magalhães


Realmente, aquilo foi como quem diz, ”limpar o cu a um menino”. Mas as coisas ainda não estavam sossegadas, porque logo que a LDM se calou, um novo apelo veio do Patrão: “Sr. Tenente, sabe, o Popeye”, – era a alcunha do outro Patrão, que fazia jus na sua imponente figura, espadaúdo, barba a condizer, cachimbo à maneira, cópia quase perfeita da entusiasmante figura da Banda Desenhada, ao epíteto com que o mimosearam –, “é novo nestas andanças, vem pela primeira vez e ainda não domina bem estas correntes e marés, digamos assim, que as havia mesmo, pelo que agradeço, então, que seja o senhor a indicar-lhe que abique a juzante da nossa Lancha, bem ditas a coisas «do lado de baixo», que não terá dificuldades na manobra”.

Silenciosamente o Tenente deslocou-se à ré e com uma sinalética simples e adequada às circunstâncias, usando mais o braço e a mão em vez da voz, que se perderia no meio do ronronar dos motores, indicou ao Popeye onde abicar, que fez saber que tinha entendido com uma espaçada abanadela de cabeça, com um sim três vezes acima e abaixo, perceptível pelas descontinuadas fumigações das cachimbadas. Concluída a manobra sem incidentes o Tenente veio sentar-se na mesa situada entre a Cabine de Pilotagem e a Peça, atento às tarefas de descarga da carga das LDM, na companhia do Patrão.

Permaneceram uns instantes calados até que o Calado, nova¬mente, resolveu falar:

– Sr. Tenente, desculpe ter perguntado, há bocado, como queria que abicasse…

– Ó Calado, fiquei surprendido, sim, aqueles instantes, mas é que não sabia mesmo o que devia de mandar fazer. Por isso, olhe, foi assim, saiu aquele “faça o melhor que souber”…

– Sabe, Sr. Tenente, já tem havido camaradas seus que se põem a dizer-nos como devemos de fazer, e às vezes andamos para aqui a rapar até acertar, e é porque acertamos nós… Mais uma vez, desculpe…

E voltou o silêncio, com o Tenente atento ao movimento humano, novidade para ele, dos homens da população de Bissum, num vai e vem entre as lanchas e as viaturas do aquartelamento, transbordando a carga que as LDM prestimosamente tinham levado. Concluída a operação, máquinas a funcionar, duas businadelas de despedida, gratos os militares pelos mantimentos, ala que se faz tarde, que havia que aproveitar ao máximo a força da corrente para mais depressa dizer adeus ao Armada.

Que, diga-se de passagem, tinha o seu encanto, o tarrafo que bordejava a água calcinado de combates anteriores, lá ao fundo, nas clareiras, a orla verdejante da mata, um crocodilo que, incomodado no seu solário, se levanta no seu vagar para mergulhar no seu ambiente, curva e contracurva num não despegar até ao abraço ao Cacheu.

E novamente S. Vicente, um abrandar de todas as tensões, e um hurraaa! de missão cumprida. Desceram os fuzileiros e a basooka do tejadilho da Cabine, abandonadas as MG42 dos bordos a vante, a Oerlikon em posição de descanso apontando a um inimigo imaginário no alto dos céus, o rádio sossegado nos bip bip bip, máquinas a todo o “vapor”, era assim que se dizia, que o único com trabalho garantido era mesmo o Patrão. Todos, tripulação e escoltas já só viam e sonhavam com Bissau, ainda tão longe.




Bissum – Transporte de tropas em LDM no rio Cacheu

Todos,… bem,… todos menos o Patrão por força das suas funções e o Tenente. Como? Pois, é que por alturas de Jolmete o bom do Calado resolveu falar para desinquietar outra vez o Oficial:

– Sr. Tenente, desculpe, pode chegar aqui à Cabine?

O Tenente deixou os restantes navegantes e aproximou-se da janela de pilotagem.

– Não, Senhor Tenente, é aqui, aqui mesmo junto a mim…

Com um ar circunspecto, bem visível nas rugas da testa, lá foi o bom do Tenente com ar de quem pergunta “mas o que é que vem aí agora?”.

Então foi assim:

– Senhor Tenente, o Senhor pôs-me à vontade em Bissum. Uns melhor e outros pior, na verdade quem sabe destas manobras somos nós. Maaass,… suspensão para encher o peito – sabe, nunca se sabe, mas pode acontecer um dia ter o Senhor de dizer mesmo como se faz, por virem todos, como o Popeye, pela primeira vez. E poderá um dia, oxalá nunca aconteça, ter de ser o senhor a deitar mão ao leme…

O Tenente escutava, longe de imaginar o que estava para chegar...

– Está a ver aquela mancha meio arenosa no meio do tarrafo? Ora agarre aqui no volante, – o leme, claro – eu vou aqui, não tenha medo, e experimente abicar lá. Vamos fazê-lo com a ajuda das máquinas, que se controlam, como sabe, com estes dois manípulos. Vá, afrouxe, vamos devagar, a corrente ainda está a descer, deixe descair a Lancha um pouco abaixo do ponto, isso, assim, vá, dê um pouco de máquina de bombordo, a da esquerda, isso…

E o Tenente abicou, com ajuda, mas abicou. Repetiram a manobra, perante o espanto dos tripulantes da outra Lancha, a do Popeye, que reduziu a velocidade intrigado com a agitação.

– Está a ver, nem é difícil…

O Tenente não dizia nada, e ainda não tinha acordado bem da lição quando de rajada vem novo ataque.

– Então e imaginemos que é atacado e tem de manobrar rapidamente, sair da linha de fogo e tem de fazer um pião? Ora deixe-me mostrar como é…

E mostrou.

– Viu? Então agora faça lá o Senhor…


Marinheiro E*
*O Marinheiro “E”, de todos já conhecido, é o Sócio Originário n.º 1542, Oficial FZ RN que integrou os efectivos da CF 11 e que cumpriu uma comissão de serviço na Guiné nos anos 1971/1972.





Curso do rio Cacheu entre a foz e o rio Armada (a laranja) com a localização de Bissum


Fontes:
Com a devida vénia, texto compilado a partir de artigo já publicado na Revista "O Desembarque" n.º 29 da Associação de Fuzileiros em http://www.associacaofuzileiros.pt/


mls

sexta-feira, maio 22, 2020

Guiné 1970/72, Fuzileiros e LDM - Lanchas de Desembarque Médias – Parte II


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 24 de Novembro de 2010)

Intimidades entre uma Companhia de Fuzileiros (CF 11) e as Lanchas de Desembarque Médias no teatro operacional da Guiné

Parte II

Os combóios de Catió

Exigiam cuidados redobrados. Recebido o ORDMOVE era certo e sabido que, vinte minutos depois de estudado, lá estava na sala do Estado-Maior a solicitar meia dúzia de botes e outros tantos motores na ponte-cais de Bissau.

Por uma vez, aconteceu que vinte minutos depois estava de novo a exigir mais seis botes e seis motores.

Os primeiros botes estavam todos furados e, quanto aos motores, não funcionou nenhum. Da segunda remessa alguns ainda foram devolvidos. Resultado final de seis botes novinhos em folha e também o mesmo número de motores novos. Funcionavam todos! Ainda hoje persiste a pergunta de porquê tão pouco cuidado nos meios essenciais para o cumprimento destas missões? No caso de surgirem problemas quem assumiria a responsabilidade?

É que aconteceu, num dos combóios, quando nos aprontávamos para carregar os nossos materiais logísticos, armas e mantimentos, encontrar cada LDM com uma BERLIET no “Poço”. Era impossível acomodarmo-nos e, pior ainda, defendermo-nos. Um salto ao Estado-Maior e uma explicação: “Tinha de as levar, porque tinha sido assumido o compromisso de as transportar até Catió, onde faziam muita falta”.

– “Ah, e quem assumiu o compromisso?”, depois de informado, solicitei apenas que fosse redigida uma declaração na qual quem tinha assumido o frete se responsabilizasse pela segurança do combóio. Como era evidente, aconteceu uma recusa.

– “Está a gozar comigo?”, informei que esperava, no Cais, que a situação fosse solucionada e retirei-me com o “Determina mais alguma coisa?” da praxe.




Guiné - Mapa da região de Catió

As BERLIET seguiram para Catió, realmente, mas a bordo de batelões. Para gáudio dos oficiais do Batalhão de Catió, informados de que o oficial do combóio se tinha recusado a levar as viaturas…

Que fé dá o relatório destes acontecimentos? “NIL” (nada ou zero). Ao quarto relatório devolvido, igual aos anteriores, informei que tinha percebido, finalmente, o que se desejava e inscrevi, em todos os items, a célebre “NIL”.

Mas os trabalhos não terminaram aqui. Dado que a partida foi atrasada cinco horas – às 16:00, soube depois, ainda no Estado-Maior alguém perguntava se sempre tinha saído ou não... - tivemos de fundear na Ponta dos Escravos, e fazermo-nos ao caminho, de manhã, duas horas mais cedo para o encontro com os meios aéreos de apoio, na foz do Cobade.




A Oerlikon, (para a fotografia), podendo distinguir-se, ao fundo, um dos T6 do apoio aos Comboios do Sul, a Catió e a Bedanda – mas a fotografia pretendia, mesmo, era apanhar o mosquito.

Mal habituados, poupava-lhes três quartos de hora no tempo de apoio, - por ser largo no seu curso inferior, o Cobade oferecia boas condiçoes de defesa e eu adiantava caminho -, os T6 questionaram o Estado-Maior sobre a razão de, desta vez, o apoio ter demorado o dobro do tempo do costume.




Em cima, escolta de botes aos combóios do sul, no rio Cagopere, afluente do Cobade que dá acesso ao porto interior de Catió, e, em baixo, aquele porto na baixa-mar



E lá vem nova chamada ao Estado-Maior:

“Porquê?”

– “Ah, estão equivocados, porque prestaram o apoio que tinham de prestar.”

– “Como?”

– “Muito fácil, a que horas o iniciaram e a que horas o ORDMOVE o previa?”

– “Olha…?!”

Mas, é claro, no relatório nada consta… Como podem os investigadores tirar conclusões correctas? Ficarão, sempre, pela aproximação...




Em cima, chegada a Catió. Podem também distinguir-se ainda o artilheiro e o "basookeiro", cada um no seu posto e, em baixo, descomprimindo




Rendição do Rendição do Batalhão de Catió

Neste combóio para sul participaram três LDM, houve um “rendez-vous” (encontro) com a LDG “Montante” na foz do rio Cumbijã, idas com escala e descarga de pessoal e material a Cabedú e, para montante, em Cufar.

Era especialmente impressionante a viagem ao aquartelamento de Cabedú localidade no rio Lade, afluente da margem esquerda do Cumbijã, quase junto à foz no extremo sul do Cantanhês, onde estava estacionado um pelotão do Batalhão, com um mais do que exíguo porto onde, na preia-mar, não era nítido o curso do braço de água.

Uma semana depois, novo rendez-vous com a LDG “Bombarda” na foz do Cobade. Em virtude da noite tempestuosa o encontro com aquela unidade naval foi atrasado duas horas.

Com o tempo de maré limitado, subi ao tombadilho da LDG "Bombarda". Dei, para grande surpresa minha, com um Tenente-Coronel e um Major, ambos ajoelhados a enrolar um dos clássicos colchões pneumáticos em uso na época.

Toquei no ombro do Senhor Coronel, que olhou para mim – ainda mais surpreendido, porquanto o meu uniforme, (passe a redundância, já passaram 37 anos e posso confessá-lo) resumia-se ao dólmen do camuflado, sem galões, um panamá de praia aos quadradinhos pretos e brancos, um calção preto de ginástica usado nas futeboladas de 5 e as botas de lona.

Comuniquei-lhe: – Sr. Coronel, estamos atrasados 2 horas em relação à partida, por isso temos três quartos de hora para passar as bagagens para cada uma das LDM – abeirámo-nos do “Poço” da LDG e concretizei o quê e as lanchas respectivas. O homem, totalmente confundido, lá se resolveu à terceira insistência e sem hesitar, a dar as suas indicações, sem saber quem era o interlocutor a dar-lhe instruções. Acrescentei que, antes de o pessoal embarcar, teria de dar algumas indicações que tinham de ser escrupulosamente cumpridas.

Em meia hora estava todo o material dentro das LDM, o que revelou uma grande eficácia. Determinei então, depois de o referido senhor, acompanhado de um Major sorridente, ter anunciado que eu próprio iria falar, o seguinte:

1. Se houvesse guerra ela seria travada apenas por nós.

2. Por isso, toda a gente tinha de ir abrigada no “Poço” das LDM.

3. Para evitar surpresas e acidentes, culatras atrás, carregador fora da G3 e câmara sem qualquer munição.

Largou a primeira LDM, largou a segunda e pedi então aos Senhores Tenente-Coronel e Major que descessem para a terceira. Desci então para o bote que me aguardava e segui para me juntar à primeira. Como o tempo entretanto já aquecera, o dólmen já se tinha tornado num empecilho e já tinha sido despedido. Belo fardamento, não acham?…

À chegada a Catió já me tinha composto, mais ou menos, porque tinha vestido o calção azul da ordem e tinha colocado o respectivo boné. Esqueci-me, todavia, da camisa e dos respectivos galões.

O bom do homem passou a viagem a perguntar ao Patrão da LDM e aos restantes elementos da Marinha quem era eu. Sem que tivessem ordem para isso, levaram o tempo todo a responder, simplesmente, “é o comandante”.
Quando a LDM que o transportava abicou, com o cais cheio dos velhos e dos novos que já se lhes tinham juntado em festa, o Senhor Coronel, empoleirado na porta da LDM, travava com os braços alguém que se lhe pudesse adiantar.

Uma vez pés em terra, apenas se preocupou em encontrar-me no meio da multidão para me agradecer a belíssima viagem até ao seu destino, sem ligar a qualquer dos surpreendidos camaradas presentes.

Nota final: aos que aguardavam no cais dei um quarto de hora para descarregarem os respectivos materiais. Descarregaram os deles e os nossos. E obrigaram-nos a voltar atrás, já o combóio se aproximava da foz do rio Cagopere…




Em Abril de 1967, um avião Harvard T6 sobrevoa o rio Cumbijã, no decorrer da protecção a um combóio da lanchas e batelões


A vida a bordo das LDM

Não era de hotel de primeira classe, mas naquelas idades…

Bem, instalávamos as arcas congeladoras, atacadas com os mantimentos, normalmente carne de vaca e de frango, os fogões Hipólito a petróleo, que davam para fazer bons petiscos, os tachos, claro, de alumínio, - agora há tachos bem melhores...-, os nossos sacos, os nossos colchões e as nossas redes mosquiteiras, no “Poço”.

As redes mosquiteiras eram relativamente eficazes e protegiam-nos das três variedades de mosquitos existentes: Uma primeira vaga de batedores (davam connosco), a segunda de sapadores que descobriam as entradas mal tapadas e a terceira vaga, lá pela meia-noite, era constituída pelos sugadores. Com estes travávamos boas batalhas durante a noite, por vezes durante a noite inteira.

No regresso de todos estes combóios, para norte ou para sul, baixada a guarda, os botes lançavam-se às ostras presas no tarrafo, quer no rio Cobade, quer no Rio Grande de S. Domingos, afluente do Cacheu. E acontecia uma festa de forte camaradagem entre a escolta de Fuzileiros e as guarnições das LDM...




Elísio Pires Carmona
2TEN FZ RN
15.º CFORN


(final)

Fontes:
Texto compilado a partir de artigo e imagens cedidos pelo 2TEN FZ RN Elísio Pires Carmona, 15.º CFORN; restantes imagens de arquivo do autor ou cedidas pela Revista da Armada, Arquivo da Marinha, CAlm Joel Pascoal e CFR Abel de Melo e Sousa.


mls

quarta-feira, maio 20, 2020

Guiné 1970/72, Fuzileiros e LDM - Lanchas de Desembarque Médias – Parte I


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 21 de Novembro de 2010)


Nota do autor do blogue
:

Por ocasião do Congresso dos 50 Anos da Reserva Naval, decorrido de 2 a 5 de Outubro de 2008, em Aveiro, foram efectuadas variadas comunicações aos presentes, abordados por diferentes personalidades e versando temática diversificada.

Sem que a peça abaixo publicada, enviada por um camarada da Reserva Naval, represente qualquer apreciação diferenciada sobre o objectivo, fases e intervenções do evento então levado a cabo, Marinha, Reserva Naval, Guiné, Cacheu, LDM’s e Fuzileiros representam sempre renovadas oportunidades para abordagem de memórias históricas.

Inesgotáveis no tema, nos locais, nas acções e nos intervenientes.

Também na estranha mística com que sempre olhei e respeitei o Cacheu , de que ainda hoje perdura a imagem de uma sinuosa e rítmica dança da navegação, ora a bombordo ora a estibordo, arcadas de tarrafo frondoso e reverente, tímida protecção de unidades, pessoas e bens, interrompida ocasionalmente por clareiras imprevisivelmente armadilhadas.

Em quatro anos que separaram ali a minha passagem da do 2TEN FZ RN Elísio Alfredo Pires Carmona, poucas alterações significativas terá havido. Salvo, claro, a agudização crescente de um conflito sem solução à vista. Melhor do que eu, aquele meu camarada da Reserva Naval, percorre estes caminhos num texto simultaneamente crítico e esclarecido.

mls



Intimidades entre uma Companhia de Fuzileiros (CF 11) e as Lanchas de Desembarque Médias no teatro operacional da Guiné

(Parte I)




No rio Cacheu, em segundo plano um batelão navegando para montante

Entendi redigir este documento assim intitulado como um desafio, sublinhando o elevado tributo que aquelas unidades navais pagaram durante todo o tempo em que decorreu a Guerra Colonial.

Tomei esta decisão enquanto então oficial de uma Companhia de Fuzileiros, a CF11. Não pretendendo ser especialmente conhecedor da temática LDM, mas não sendo meu timbre recusar desafios, propus-me, salvaguardando a questão desta leitura se tornar uma verdadeira seca, falar do que foi a minha experiência, tantas vezes as LDM foram o meu abrigo.

Posto este ponto prévio, permitam agora que me apresente, digamos que sob a forma de breve ficha pessoal:

De meu nome Elísio Alfredo Pires Carmona - 2TEN FZ RN Pires Carmona -, pertenci ao 15.º CFORN, concluído em 04-09-69, efectuei uma comissão na Guiné, CF11, de 30.12.70 a 06.10.72, aliás com um muito engraçado e “sui generis” início, que exigiu duas partidas: a primeira, a 10.12.70, abortada, a bordo do NRP «S. Gabriel» (*), e a segunda, a 30.12.70, no NM «Rita Maria», com escalas em Leixões, Funchal e S. Vicente de Cabo Verde, antes de chegar a Bissau, no dia 09.01.71. O final do Serviço Militar chegou em 01.01.73.


A Guiné



Ena!...era assim a Guiné? Não, não era sempre assim. Aliás, ainda continuará a ser, na generalidade, uma boa parte assim. Por isso as melhores estradas ainda continuarão a ser os seus rios e braços de mar.



Mas era também esta calma – no cais de Farim



Também estes fins de tarde, ainda em Farim…



E estes, fundeados na Ponta dos Escravos, no sul…


Vida das Companhias de Fuzileiros na Guiné

Integravam o dispositivo operacional da Marinha na Guiné duas Companhias de Fuzileiros (CF). Normalmente, alternavam a sua actividade entre:

1. Períodos de serviço interno, sedeados em Bissau com serviços de guarda atribuídos, fundamentalmente às INAB – Instalações Navais de Bissau e ao Edifício do Comando.




Em cima, vista aérea das Instalações Navais de Bissau - INAB e, em baixo, o edifício do Comando de Defesa Marítima da Guiné.



2. Períodos de serviço externo, com um pelotão da Companhia em Ganturé, comandado por um oficial, que era responsável pelos serviços de guarda da Base, podendo eventualmente apoiar operações dos Destacamentos, com uma secção de morteiros e 3 oficiais em Bissau, destacados para os combóios navais a Farim, Bissum, Catió e Bedanda. O oficial Imediato da Companhia também participava nos combóios.

A Companhia de Fuzileiros, durante este período, prestava ainda serviços de escolta, ao nível de esquadra, em fiscalização ou reforço na escolta de batelões, em zonas de menor perigo, especialmente no rio Geba, nas proximidades de Bissau.

E é nos períodos de serviço externo que se encaixam as LDM na vida dos Oficiais Fuzileiros. Especialmente adaptadas às exigências da guerra na Guiné, suficientemente versáteis, podiam executar tarefas de fiscalização e patrulha no rio Cacheu durante cerca de um mês.

Ali davam apoio a embarques e desembarques dos Destacamentos de Fuzileiros nos rios, e não só. Escoltavam combóios e ainda transportavam militares e mercadorias a aquartelamentos do Exército que, neste contexto, quer pela sua localização quer pelas condições de acesso, inviabilizavam o recurso aos batelões. Era frequente, sobretudo nos combóios a Bissum e a Catió, dar boleia a elementos da população.


Breve descritivo de uma LDM – Lancha de Desembarque Média

Haverá algum militar que tenha estado na Guiné que não saiba o que é uma LDM – Lancha de Desembarque Média?



A LDM 302 navegando no Cacheu, junto ao tarrafo da margem. A – Poço(resguardado com chapa balística); B – Peça Oerlinkon; C – Tarrafo; D – Casa do leme; E – Bote de borracha; F – Porta de abater; G – WC.

Bem, são pequenas unidades navais que, em vez de proa têm uma “porta que rebate”, para permitir cargas e descargas de pessoas e mercadorias com a LDM “abicada” em terra. A zona das cargas, “o poço” , tem duas metralhadoras MG42, montadas uma em cada bordo, a vante.

No convés e frente à cabina, estava montada num reparo circular uma metralhadora anti-aérea Oerlikon de 20 mm e, mais à frente, por cima da cobertura do poço, havia um bote pneumático Zebro II. Junto à cabine de navegação e comando, ou melhor, casa do leme e comando das máquinas, havia ainda uma mesa para as refeições, justamente colocada frente à janela.

A casa de banho (WC), com esse nome (?), era simplesmente inexistente. Não passava de um simulacro - uma caixa metálica aberta - que permitia as necessidades básicas de forma simplificada.

A guarnição era constituída pelo Patrão, um Cabo de Manobra, um Telegrafista, 2 Artilheiros e 2 Fogueiros. Havia um permanente e grande companheirismo entre toda a guarnição que se alargava, durante a realização dos combóios, à escolta de Fuzileiros.


No Cacheu



Na imagem de cima, a caminho de Bissum, no trajecto entre a passagem de S. Vicente e a Foz do rio Armada, onde as coisas podiam realmente complicar-se. Notória, ainda, a descontracção do pessoal. Pode distinguir-se perfeitamente a capacidade de fogo da LDM com o armamento visível: a Oerlikon, com o cano ainda na vertical, a “basooka” em cima da cabina e uma das MG 42.



Nesta imagem de pormenor a LDM mantem-se ainda amarrada ao tarrafo, esperando a vinda da maré e a hora estipulada no "ORDMOVE".


"ORDMOVE"

Nas imagens seguintes, é possível verificar que todas as informações necessárias para a execução de todos os trabalhos eram definidas pelo "ORDMOVE":

Constituição do combóio e lanchas de apoio;
Comando, pessoal da Companhia de Fuzileiros e local de posse do comando;
Batelões, carga e locais de destino;
Articulação com forças de apoio;
Transporte de pessoal e cuidados a observar;













Nota
:

Nos combóios a Farim, ao oficial era poupada a viagem em LDM a partir de Bissau. Era transportado até Vila Cacheu, na avioneta da Marinha, um Auster Rallye, azul claro.


Cada operação tinha sempre como epílogo o respectivo relatório. Mas quem quiser escrever, com verdade, a história para a qual este relato pode ser uma fraca contribuição, não se poderá cingir aos arquivos. A verdadeira história está com as pessoas. É preciso ouvi-las contar o que lhes foi vedado escrever nos documentos criados para o efeito. Porquê?

Conveniências…

Alguns dos comboios do Cacheu até foram bem divertidos. Por exemplo, o "ORDMOVE" de um deles previa, e bem, que a carga a transportar para Bissum fosse levada até S.Vicente, ao contrário do que sempre acontecia, recorrendo a combóio de viaturas militares. Em S. Vicente as lanchas abicaram e começaram a receber a carga das "GMC" e das "BERLIET".

Previam-se quatro subidas do rio Armada (de que ninguém gostava), só que, às tantas, entre as indicações que os meus olhos liam e a carga que faltava, com um bocadito de esforço e com a água a bordejar, por cima, a linha de água inscrita nos flutuadores (depósitos de água) das LDM, consultados os Patrões, arriscámos fazer uma única viagem.




Padrão aos Descobrimentos em Vila Cacheu - "Por mares nunca dantes navegados..."

Dois meses depois fui chamado ao Estado-Maior. O oficial que fazia o controlo das operações, pelo menos destas, questionou-me sobre o facto de não ter feito as quatro viagens da praxe. Que não, tinha feito apenas uma.

“Porquê, perguntei?”

– “Então o Exército tem razão…

Caíu alguma carga ao rio?”

– “Não, nem uma única caixinha…”

O que aconteceu então? Ah!…, o responsável pela carga tinha traficado, entre Bissau e S.Vicente, quase todo o material que era suposto transportarmos para Bissum. Tinha-se desculpado com o oficial do combóio. A maior parte da carga tinha caído ao rio. Teve azar…

Mas no combóio seguinte as coisas foram ainda mais engraçadas. Como a subida do rio Armada, pelo menos naquela fase, tinha ganho algum sossêgo, resolveram (quem seria?) que as LDM escoltariam os próprios batelões até Bissum.

Chegada a hora da partida recusaram-se a avançar. “Que não entravam no Armada.” Seguiu-se uma troca longa de mensagens com Bissau seguidas de sessões de persuasão dos patrões dos batelões. “Que não, que não saíam dali.”




Ganturé - Em cima, um Land-Rover e a Messe e, em baixo, um abrigo. Hoje, tudo arrasado"



A quarta mensagem de Bissau dizia, preto no branco, que decidisse por mim. Foi o que quis ouvir, ler, sei lá... Lanchas a juzante de todos os batelões, expectantes, porque as lanchas aparentemente iam embora, meia volta, Oerlikons apontadas às ditas embarcações e, braço estendido, à boa moda Bonapartista, digo eu, "Todos à minha frente..." E foi um ver se te avias pelo rio Armada acima.

Mas agora,... talvez logo a seguir,... é claro que foi um risco que se correu escusadamente. Era já noite escura quando deixámos Bissum, guiados pela lua e pelas margens. Só que desta vez não se perdeu carga alguma...




Elísio Pires Carmona
2TEN FZ RN
15.º CFORN

(continua)

Fontes:
Texto compilado a partir de artigo e imagens cedidos pelo 2TEN FZ RN Elísio Pires Carmona, 15.º CFORN; restantes imagens de arquivo do autor cedidas pela Revista da Armada, Arquivo da Marinha, CAlm Joel Pascoal e CFR Abel de Melo e Sousa.


mls

segunda-feira, maio 18, 2020

Guiné, LFP «Aljezur» - P 1158


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Aljezur» - P 1158

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 10 de Março de 2011)




Guiné - A LFP «Aljezur» a navegar


Construída nos estaleiros do Arsenal do Alfeite e a terceira da classe «Alvor», com as mesmas características gerais, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 18 de Janeiro de 1968 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando nesse mesmo dia.

Durante os anos de 1968 e 1969, até Maio deste último, desempenhou missões de fiscalização da pesca ao longo da costa algarvia e de apoio a navios hidrográficos. Rumou então à BNL na companhia da LFP «Alvor».

No Arsenal do Alfeite efectuou algumas transformações consideradas necessárias, designadamente o reforço do casco com chapa balística e a montagem de um lançador de foguetes de 37 mm.




Guiné - Máquinas a vante toda a força ou fundeada

Foi transportada para a Guiné a bordo do NM «Ambrizete» juntamente com a LFP «Alvor». Saiu de Lisboa em 3 de Setembro de 1969 e desembarcou em Bissau em 9 de Setembro desse mês, ficando atribuída à Esquadrilha de Lanchas da Guiné.

Iniciou missões de patrulha e fiscalização no rio Grande de Buba em 19 de Novembro de 1969. Efectuou diversas missões de escolta, transporte de material e de pessoal, de apoio a combóios de embarcações nos diversos rios da Guiné e de apoio ao navio hidrográfico «Pedro Nunes» no levantamento hidrográfico do rio Mansoa.

Em Julho de 1970, na sequência de fiscalização e patrulha do rio Cacheu, entre a foz do rio Armada e Canjaja, em apoio de emboscadas com botes efectuadas pelos DFE 7 e DFE 12, foi atacada da margem norte com morteiros e armamento ligeiro. A lancha ripostou com lança-foguetes, Oerlikon e MG 42 regressando a Bissau no dia seguinte com problemas nos veios. Mais tarde, depois de reparada a avaria, voltou à zona, tendo efectuado fogo de reconhecimento sobre áreas suspeitas sem que o inimigo se tenha revelado.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Aljezur» os seguintes oficiais:




José Joaquim de Sousa Ferreira Martins, 8.º CEORN, o primeiro comandante daquela unidade naval

Reserva Naval:

2TEN RN José Joaquim de Sousa Ferreira Martins, 8.º CEORN, 18Jan68/15Jul70;
2TEN RN João José Carvalho Ghira, 15.º CFORN, 15Jul70/27Mar71;
2TEN RN Carlos Manuel Martins Brites Moita, 14.º CFORN, 27Mar71/05Abr71;
2TEN RN João José Carvalho Ghira, 15.º CFORN, 05Abr71/21Ago71;
2TEN RN Carlos Manuel Martins Brites Moita, 14.º CFORN, 21Ago71/01Set71;
2TEN RN João José Carvalho Ghira, 15.º CFORN, 01Set71/10Fev72;

Quadros Permanentes:

CTEN Jorge Manuel da Conceição Ramos, 10Fev72/17Out73;
CTEN José Carlos Faria da Conceição, 17Out73/07Set74;

Durante a sua vida operacional, participou em diversas operações: "Via Láctea", "Volta Brandal", "Sol Nascente", "Quarto Minguante", "Guarda Patrão", "Lua Nova", "Verga Latina", "Quarto Crescente", "Primeiro Remo", "Mastro Grande", "Sol Poente" e "Vela Grande".




Guiné - A guarnição da LFP «Aljezur» em registo de família

A partir de 4 de Agosto de 1974 ficou inoperativa com problemas na instalação eléctrica. Depois de mais de 6 anos de bons serviços e quase 4.700 horas de navegação, foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 7 de Setembro de 1974.

Navios da mesma classe:

LFP «Alvor», LFP «Albufeira» e LFP «Aljezur”.


Fontes:
Dicionário de Navios, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

sábado, maio 16, 2020

Angola, LFP "Régulus" - P 369


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Régulus» - P 369

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 2 de Novembro de 2010)




A LFP «Régulus» a navegar no rio Zaire


Foi a quarta unidade da classe «Antares» e, contrariamente aos outros navios da sua classe que foram construídos em Inglaterra, foi construída nos Estaleiros Navalis da CUF, embora o seu casco em fibra de vidro tivesse sido construído em Portsmouth pela empresa inglesa Halmatic Ltd.

Foi transportada para Luanda a bordo de um navio mercante, onde desembarcou em 13 de Janeiro de 1962. No dia 27 do mesmo mês foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada, em 20 de Fevereiro seguinte realizou-se a cerimónia formal de armamento.

Em 6 de Março iniciou a sua primeira missão, navegando de Luanda para o rio Zaire onde foi integrada na Esquadrilha de Lanchas do Zaire.

A fiscalização do troço fronteiriço do rio Zaire e o apoio aos postos guarnecidos por fuzileiros, nomeadamente a Quissanga, Pedra do Feitiço, Puelo, Makala, Tridente e Noqui, foram as suas principais missões. Durante cerca de 3 anos permaneceu em Angola, ora baseada em Santo António do Zaire ora em Luanda.

No dia 14 de Setembro de 1965 foi embarcada no NM «Rovuma» com destino à Ilha de Moçambique, a fim de ser transportada para o Lago Niassa, por via ferroviária até ao Catur e por via rodoviária até Meponda, na margem do lago, na epopeia que foi designada de Operação «Atum». Depois, pelos seus próprios meios, navegou até Metangula, onde chegou em Novembro de 1965.

Incorporada na Esquadrilha de Lanchas do Lago Niassa, navegou com bandeira portuguesa até 21 de Março de 1970, data em que, na base de decisões políticas tomadas em Setembro de 1969 e mediante certas condições operacionais, foi cedida ao Malawi, onde tomou o nome de «Chibisa».

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Régulus» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

2TEN João Carlos da Fonseca Pereira Bastos, 07Fev62/28Jan64;

Da Reserva Naval:

2TEN RN Manuel Joaquim Reis da Assunção, 5.º CEORN, 28Jan64/25Nov64;
2TEN RN Fernando Baptista Pereira, 6.º CEORN, 25Nov64/26Nov64;
2TEN RN Manuel Joaquim Reis da Assunção, 5.º CEORN, 26Nov64/30Nov64;
2TEN RN António Jorge Silva de Almeida Pinto, 4.º CEORN, 30Nov64/20Dez64;
2TEN RN Manuel Joaquim Reis da Assunção, 5.º CEORN, 20Dez64/30Jul65;
2TEN RN João Paulo Von Mayer Rus, 7.º CEORN, 30Jul65/03Jan66;
2TEN RN Rui Jorge Lima Saraiva, 7.º CEORN, 03Jan66/05Mai66;
2TEN RN José Manuel Neto Domingues, 8.º CEORN, 05Mai66/13Jan67;
2TEN RN Rui Jorge Lima Saraiva, 7.º CEORN, 13Jan67/22Mai67;
2TEN RN Francisco Ribeiro Nogueira Freire, 9.º CFORN, 22Mai67/28Set68;
2TEN RN António Roque de Andrade Afonso, 9.º CFORN, 28Set68/27Nov68;
2TEN RN Manuel Agostinho Castro Freire de Meneses, 11.º CFORN, 27Nov68/15Dez68;
2TEN RN António Roque de Andrade Afonso, 9.º CFORN, 15Dez68/05Fev69;
2TEN RN José Luis Tocha Antunes dos Santos, 12.º CFORN, 05Fev69/21Mar70;




Santo António do Zaire - Rendição de Comando em 1964

Pertenceu à classe «Antares» com características, máquinas propulsoras, equipamentos, armamento e lotação idênticas.

Em 20 de Maio de 1974 foi feita entrega definitiva à República do Malawi, passando a navegar sob aquela bandeira com alguns elementos da guarnição portugueses, incluindo o comandante. Nesta data foi abatida ao efectivo dos navios da Armada.


Fontes:
"Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto e fotos de arquivo do autor do blogue, com fotos da Revista da Armada n.º 258, Setembro/Outubro 1993;


mls

quinta-feira, maio 14, 2020

Guiné - Navegação de Cabotagem e Batelões


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 26 de Agosto de 2010)

Poucos militares que cumpriram missões na Guiné, especialmente da Marinha, terão esquecido totalmente um sem número de embarcações à vela, com motor ou simples batelões, que integravam a navegação de cabotagem na Guiné.

Numa passagem, em toda a extensão da avenida marginal entre a ponte-cais em T e as Instalações Navais de Bissau – INAB, fácil era visualizá-las com silhuetas variadas, atracadas ou amarradas à bóia, em faina de carga ou descarga entre o cais e o Pijiguiti.




Na sua maioria, salvo algumas excepções, eram propriedade de armadores que se identificavam com as principais casas comerciais que efectuavam os transportes de pessoas e bens entre portos daquele território numa complexa logística indispensável à vida económica daquele teatro.

António Silva Gouveia, Barbosas & Comandita, Fernando S. Correia, Sociedade Comercial Ultramarina são nomes que ficaram ligados não só ao comércio da Guiné em geral mas também às lojas de venda a retalho, em Bissau e noutras localidades, em que populações e militares se abasteciam regularmente.




Angola, Binta, Bigene, Cacheu, Cacine, Correia, Gouveia, Guadiana, Portugal, Rio Tua, Sta Comba, são alguns dos nomes entre muitos outros de embarcações que se inscreveram na história da guerra da Guiné, parte integrante da responsabilidade da Marinha no garante do apoio à logística global daquele território.

Os registos (oficiais) ressalvam, em escrita a encarnado, as embarcações que de que os “terroristas” se apoderaram assim como algumas fotografias em falta no registo.

Assim se publicam as fotos existentes da maioria das embarcações e daremos conta de algumas das acções da Marinha bem sucedidas. Evitaram a utilização continuada de algumas de que o inimigo de então se apoderou.




Em cima, «Angola», «Barreiros», «Bico» e «Bigene»; em baixo, «Bihé», «Binta»,
«Cabo São Vicente» e «Cacheu»





Cada imagem de embarcação ou batelão encerra, em si própria, uma história diferente de todas as outras. Um desfilar de factos diferenciados de cada um dos outros, personalizado em diferentes situações vividas, nas missões que lhes foram atribuídas pelos proprietários e armadores, ao serviço de uma logística dura e repetitiva.

Tarefa insubstituível numa economia pobre, maioritariamente dependente do abastecimento de produtos vindos do exterior e do retorno, pela exportação, dos excedentes de uma produção agrícola limitada ao arroz, mancarra (amendoim), óleo de palma e coconote.




Em cima, «Cacine», «Calequisse», «Canchungo» e «Chegado»; em baixo, «Corneille», «Correia I»,
«Correia II» e «Douro»




Alguns produtos agrícolas de subsistência como a mandioca, batata-doce, banana, feijão, milho, laranja e manga, outros de pecuária como gado bovino, caprino e suíno, e a exploração de alguns tipos de madeiras, completavam a actividade económica.




«Damasco» e «Monte Murtosa»

Toda a população do litoral, bem como a que se fixava na margem dos rios se dedicava à pesca. Os cursos de água e as bacias hidrográficas possuíam abundantes recursos piscatórios, com centros em Bissau, Bolama, Cacheu e nos Bijagós. Embora dispondo de uma frota pesqueira artesanal garantiam o regular abastecimento das populações.



Em cima, "Evangelista", "Farim", "Gaivota" e "Geba"; em baixo, "Guadiana", "Gouveia 15",
"Gouveia 16" e "Gouveia 17".



As licenças para a pesca artesanal, atribuídas com regulamentação própria e definindo áreas de permissão, foram sempre fiscalizadas pelas unidades navais da Marinha de Guerra conforme os locais por onde, aleatoriamente, navegavam e patrulhavam, repartidas pelas diferentes missões atribuídas naquela província.

A quase totalidade dos transportes marítimos logísticos de abastecimento e escoamento de produtos, entre portos, foi sempre organizado pelo Comando de Defesa Marítima da Guiné com o apoio da Esquadrilha de Lanchas que procedia ao seu enquadramento, numa planificação que tinha em conta necessidades, prioridades, locais, horários das marés e unidades a utilizar em função da avaliação dos riscos corridos quanto a emboscadas e ataques possíveis do inimigo.




Em cima, «Lisboa», «Mansoa», «Maria Augusta» e «Maria Gorete»; em baixo, «Minho», «Mondego»,
«Murtosa» e «Pardelhas»




Por norma, eram organizados combóios com uma ou várias embarcações e batelões, invariavelmente apoiadas por LDM reforçadas por Fuzileiros de Companhias ou Destacamentos.

Estes combóios eram normalmente comandados por oficiais subalternos dos Quadros Permanentes ou da Reserva Naval e, em zonas de risco considerado acrescido, a escolta era reforçada por uma LFP ou mesmo ainda por uma LFG. Quando julgado necessário era solicitado apoio aéreo em alguns troços do percurso a efectuar.




Em cima, «Pecixe», «Portuense», «Portugal» e «Rajá»; em baixo, «Regina Maria», «Rio Douro»,
«Rio Tua» e «Sado»




Os rios Cacheu e Cumbijã foram paradigmáticos em situações de combate desencadeadas por um PAIGC agressivo que, de forma sistemática, emboscava e flagelava embarcações comerciais e unidades navais sempre que possível, obrigando a mobilizar meios e criando a noção de insegurança permanente nas guarnições dos transportes efectuados.

Na memória de cada elemento das tripulações das embarcações listadas, elemento da população ou militar do exército transportado, militar da FAP que tenha efectuado apoios aéreos e das guarnições das unidades navais que as escoltaram ou ainda fuzileiros que tenham integrado essa escoltas, haverá episódios marcantes, outros bizarros e alguns dramáticos.




Em cima, «Sagres», «Sta Comba», «Sta Maria» e «Tagus»; em baixo, «Tejo», «Torreira»,
«Uracane» e «Vencedor»




Deslumbramento pelos percursos efectuados, convívios e vivências únicas havidas, mas também o sofrimento ou a morte que chegou das margens, sem destinatário definido mas sempre com o mesmo remetente.

Fácil será a cada um perder-se na repetida leitura da listagem das embarcações, recordando algumas das escoltadas em missões isoladas sem qualquer outra ligação e os nomes de outras desfilarem sem nenhum facto especialmente significativo lembrarem.




«Vouga» e «BZé Carlos»

Muitas delas, como para as unidades navais, foram igualmente vítimas das emboscadas das margens. Sem danos de maior na maioria das vezes, atingidas algumas e gravemente danificadas outras, com feridos e perdas de vidas.

Na sua maioria, também elas tiveram um quinhão na guerra da Guiné. Recordo especialmente o Guadiana.




Fontes:
Texto do autor do blogue com fotos originais do Arquivo da Marinha, digitalizadas e adaptadas pelo autor;


mls