quinta-feira, novembro 23, 2017

Guiné - A Marinha do PAIGC de 1963 a 1974


Guiné - A Marinha do PAIGC de 1963 a 1974

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Agosto de 2010)

No início da guerra na Guiné, em 1963, o PAIGC, ambicionava dispor de meios que lhe permitissem efectuar cambanças, transportando pessoal, material de guerra e abastecimentos, a partir das suas bases na Guiné Conakry - Kadigné, por exemplo - para o interior do território daquele tarritório.




Para isso, apoderou-se de algumas embarcações comerciais, umas com motor e outras não, aproveitando o trânsito destas embarcações ou as escalas em portos habituais, sobretudo no sul do território, quando ali aportavam para os normais abastecimentos logísticos.



Este tipo de acções foi-lhes rapidamente vedado a partir do momento em que as embarcações comerciais e toda a navegação de cabotagem passou a ser controlada e escoltada pela Marinha.

Em diversas acções de pirataria, sem qualquer intervenção da Marinha, foram desviadas ou capturadas ao longo do tempo as seguintes embarcações que passaram a constituir como que uma Marinha do PAIGC:

"Mensageira"
Lancha à vela, casco de madeira, 1 mastro, 11,6 m de comprimento, 16,7 t de carga.

"Persistente"
Lancha à vela, 1 mastro, 14 m de comprimento e 24,9 t de carga.




A «Persistente»

"Mirandela"
Motor de 95/105 HP, casco de ferro, alojamento com 6 beliches, 2 escotilhas, porão de carga com 2 coberturas de ferro movediças, mastro de ferro com duas faces de carga, 24 m de comprimento e 65 t de carga.



A «Mirandela»

"Arouca"
Lancha a motor, casco de aço, 1 mastro, casa de motor, porão e escotilhas, motor diesel de 3 cil, 66 HP, 15,4m de comprimento, 4,1 m de boca e 19,7 t de carga.

"Bandim"
Casco de ferro, 3 escotilhas grandes, 17 m de comprimento, 4,6 m de largura, 33,5 t de carga.

"Bissau"
Lancha à vela, casco de ferro, mastro armado cop latine e uma vela de proa, bomba para esgoto dos porões, 17 m de comprimento, 32,0 t de carga.

Ainda:

«Três de Agosto» e «Defesa» de características desconhecidas.

Nota:
Estas informações foram divulgadas pelo Estado-Maior do Comando de Defesa Marítima da Guiné em Março de 1973 e, em baixo, resumem-se as principais acções havidas pela Marinha, tendentes a capturar, inutilizar ou até destruir, a tal potencial Marinha do PAIGC:




1964


A operação “Hitler”, sob o comando do 1TEN Alpoim Calvão, comandante do DFE 8, representou a primeira acção da Marinha contra os movimentos de cambança do PAIGC no sul da Guiné, rio Camexibó, visando a intersecção e captura de quaisquer embarcações ao serviço do inimigo.




1968


Em Agosto de 1968, já com o Brigadeiro Spínola como Comandante-Chefe, a Marinha, com o conhecimento de que as embarcações «Bandim», «Arouca» e «Mirandela» estavam a ser utilizadas no transporte de pessoal e armamento para o interior da Guiné, levou a cabo nova acção na área do Quitafine, ilhas de Canefaque e Cambon, confinadas pelos rios Inxanxe e Nhafuane, sob o comando do CTEN Alpoim Calvão em operação com o nome de código «Nebulosa».

Depois de ignorarem uma ordem de paragem e após violentos combates com elementos do PAIGC, foram abatidos alguns elementos inimigos e feitos prisioneiros outros, tendo sido capturada a própria embarcação em que se faziam transportar, o «Patrice Lumumba» que, devido aos estragos sofridos, depois de rebocado para longe da área, foi afundado na foz do rio Cacine.


Nota:
Patrice Émery Lumumba, nascido como Élias Okit'Asombo (Onalua, Congo Belga, 2 de Julho de 1925 – Katanga, 17 de Janeiro de 1961), foi um líder anti-colonial e político congolês.
Na sua curta e tumultuada carreira política, optou por se alinhar com os valores anti-imperialistas e do pan-africanismo, defendendo consistentemente a solidariedade entre os povos da África para além dos limites de nação, etnia, cultura, classe e género, encorajando a luta não-violenta contra o colonialismo e convidando ao diálogo os países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento.
Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), ele foi a principal liderança na luta contra o domínio colonial belga no Congo, tendo participação decisiva na libertação do seu país do jugo imperialista europeu.
Foi eleito primeiro-ministro do seu país em 1960, mas ocupou o cargo apenas por 12 semanas, pois o governo foi derrubado por um golpe de estado liderado pelo coronel Joseph Mobutu em plena crise política do Congo.
Ao tentar fugir para o leste do país, Lumumba seria capturado algumas semanas mais tarde e assassinado em Janeiro de 1961, com a participação dos Estados Unidos e da Bélgica que viam o líder congolês como alinhado com a União Soviética.
In Wikipédia




1970 - Março


O seguimento das embarcações capturadas manteve-se e, em Março de 1970, depois de um longo processo de tratamento de informações e preparação, a Marinha voltou à carga na mesma área numa operação com o nome de código "Gata Brava”, ainda sob o comando do CTEN Alpoim Calvão.

Assim, em 27 de Março, no seguimento de uma bem planeada e estruturada emboscada, travaram-se violentos combates com o «Bandim» que deixava a base de Kadigné. Ignorando qualquer tipo de instruções de paragem e ripostando com fogo de armamento automático, foi atingido várias vezes com fogo de bazooka e armamento ligeiro. Abordada e assaltada com granadas de mão, a embarcação encalhou com vários mortos e graves avarias.

Na impossibilidade de a rebocar para local conveniente optou o comandante da operação por ordenar a sua destruição. Foi regada com gasolina e incendiada por meio de uma granada lançada para dentro da embarcação, não sem que antes se tenha verificado não haver sobreviventes no interior.



1970 - Novembro


Em Novembro de 1970 no decorrer da operação “Mar Verde”, o grupo Victor, constituído por 14 fuzileiros especiais comandados pelo 2TEN FZE Rebordão de Brito com um guia nativo da República da Guiné, largam da LFG «Orion» em três botes Zebro armados com pistolas-metralhadoras Kalashnikov, granadas ofensivas, defensivas e incendiárias.

À ordem de ataque, partiram na máxima velocidade em direcção aos navios atracados no cais bananeiro do porto de Conakry: sete lanchas torpedeiras (P6 e Komar) e uma lancha de desembarque pertencentes umas ao ao PAIGC e outras à República da Guiné. Os navios são abordados, uma sentinela do PAIGC é eliminada e são lançadas várias granadas para o interior das embarcações.

Três dos navios afundam-se rapidamente e os restantes incendeiam-se. Ainda que apanhadas de surpresa, as guarnições reagem com fogo de armamento ligeiro, mas os fuzileiros colocados em pontos estratégicos neutralizaram a resistência causando cerca de 20 baixas e sofrendo um ferido ligeiro. O ataque durou cerca de 45 minutos eliminando o que poderia vir a tornar-se um sério risco para a navegação no sul da Guiné.



Como já foi afirmado, e repetimos, as acções do PAIGC limitaram-se, até 1964, a capturar batelões e embarcações comerciais em trânsito para os seus habituais destinos, ainda sem qualquer defesa ou escolta militar, algumas vezes com a cumplicidade participante de elementos das tripulações.

Quanto às fantasias tecidas à volta de hipotéticos afundamentos ou apresamentos de unidades navais da Marinha de Guerra Portuguesa – Lanchas ou outras Unidades - pelos guerrilheiros do PAIGC, só podem ser interpretadas como histórias de caserna vividas num imaginário de ficção.

Nunca nenhuma unidade naval da Marinha de Guerra Portuguesa foi capturada pelo PAIGC ou correu sequer o risco de o ser, independentemente de algumas situações mais complexas, decorrentes de algumas operações em tempo de guerra terem passado por combates frontais com o inimigo.

Referimos como exemplo histórico, a mítica e massacrada LDM 302 que, atingida gravemente no rio Cacheu por duas vezes, com baixas pesadas entre mortos e feridos, alagada e semi-afundada, foi reposta a flutuar quase imediatamente, também de ambas as vezes. Aqui a honramos mais uma vez, lembrando as suas heróicas guarnições que impediram qualquer sucesso de concretização possível dessa criativa banda desenhada do PAIGC.




Fontes:
Pesquisa e compilação de texto do autor a partir do relatório de documentação do Arquivo da Marinha, Núcleo 236-A; Operação Mar Verde, António Luis Marinho, Temas e Debates, 2006; De Conakry ao MDLP, Alpoim Calvão, Intervenção, 1976; fotos do Arquivo da Marinha digitalizadas e tratadas pelo autor;


mls

terça-feira, novembro 21, 2017

Angola, LFP «Fomalhaut» - P 367


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Fomalhaut» - P 367

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 14 de Outubro de 2010)


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 4 de Agosto de 1961. Seguiu para Angola a bordo de um navio mercante, tendo desembarcado em Luanda no dia 17 de Agosto de 1961.




A LFP «Fomalhaut»

No dia 23 de Setembro, no porto de Luanda, decorreu uma solene cerimónia conjunta de armamento da LFP «Fomalhaut» e das suas irmãs gémeas, LFP «Espiga» e LFP «Pollux”».

No dia 30 de Setembro do mesmo mês, largou de Luanda para a sua primeira missão operacional no rio Zaire. A fiscalização do troço fronteiriço daquele cursos de água e o apoio aos postos guarnecidos por fuzileiros, nomeadamente a Quissanga, Pedra do Feitiço, Makala, Tridente e Noqui, foram as suas principais missões. Durante cerca de 14 anos permaneceu em Angola, ora baseada em Santo António do Zaire ora em Luanda.




Angola, 1964 - Duas perspectivas da LFP «Fomalhaut» a navegar



Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Fomalhaut» os seguintes oficiais da Reserva Naval:

2TEN RN Alberto Luis Guerra Neves Cordeiro, 3.º CEORN, 20Out61/14Abr63;
2TEN RN José Augusto Paes Pires de Lima, 4.º CEORN, 14Abr63/01Jun64;
2TEN RN Fernando Baptista Pereira, 6.º CEORN, 01Jun64/04Jul66;
2TEN RN Rogério Eduardo Bordalo da Rocha, 8.º CEORN, 04Jul66/24Mai68;
2TEN RN José Manuel de Magalhães Vieira de Sá, 11.º CFORN, 24Mai68/31Mai70;
2TEN RN José Telo Rasquilha de Abreu, 15.º CFORN, 31Mai70/27Abr72;
2TEN RN Herculano Santos Marques Ferreira, 18.º CFORN, 27Abr72/11Out73;
2TEN RN Carlos Alberto de Magalhães Oliveira, 21.º CFORN, 11Out73/29Abr75;
2TEN RN José Manuel Baptista Vigário, 25.º CFORN, 29Abr75/30Set75;




1964 - A LFP «Fomalhaut» a navegar no rio Zaire

Pertenceu à classe «Bellatrix» com características, máquinas propulsoras, equipamentos, armamento e lotação idênticas, não tendo contudo o lançador de foguetes de 37 mm.

Em 30 de Setembro de 1975 foi abatida ao efectivo dos navios da Armada e cedida ao Governo da República Popular de Angola. Segundo edições do Jane’s Fighting Ships posteriores a 1976, ainda terá navegado com a bandeira daquele país durante alguns anos.


Fontes:
"Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto do autor do blogue com fotos de arquivo cedidas por José Pires de Lima, 4.º CEORN;


mls

sábado, novembro 18, 2017

Guiné, 1969 – Emboscada a um comboio naval - Parte II


Afundamento do batelão “Guadiana” por EEA–Engenho Explosivo Aquático

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Julho de 2010)

(Final)




O batelão «Guadiana» afundado pelo rebentamento de um EEA - Engenho Explosivo Aquático


Resumo do acidente


Pelas 13:30 do dia 27 de Maio de 1969 na posição de latitude 11º 14’.3 N e longitude 15º 18.1’ W, quando o combóio naval RCU 09/69 navegava no rio Cobade estreito, no percurso rio Cumbijã – foz do rio Tombali com o apoio aéreo de dois aviões T6, o batelão «Guadiana» nele integrado foi atingido pela explosão de uma mina flutuante fundeada, a meio de uma passagem do rio que não teria mais de 20 metros de largura.

Muito provavelmente, a detonação terá sido accionada electricamente de terra, com resultado agravado pelo transporte de bidons de gasolina e detonadores que seguiam como carga. Houve a lamentar 5 mortos e 8 feridos com diversos graus de gravidade, todos autóctones, sendo 2 tripulantes e 11 passageiros.




A posição relativa das LDM e dos batelões no combóio, na altura em que ocorreu o avistamento do EEA

O batelão começou a alagar rapidamente e, em face desta situação, o oficial que comandava operacionalmente o combóio, 2TEN FZE RN José António Lopes da Silva Leite ordenou o imediato reboque, por uma das LDM, para um local mais afastado da área forte do inimigo – a ilha de Como – onde a embarcação pudesse ser encalhada numa das margens.

Efectivamente o batelão «Guadiana» ainda percorreu rebocado cerca de uma milha, ficando imobilizado de proa na margem esquerda do rio Ganjola, de popa para montante e a cerca de 300 metros da confluência com o rio Como.


Análise da situação e reconhecimento local

No dia seguinte foi efectuado um heli-reconhecimento pelo Chefe do Estado-Maior do CDMG, acompanhado pelo responsável do Serviço de Assistência Oficinal (SAO), Comandante do DFE 12 e Chefe da Secção de Mergulhadores para, com base nos elementos recolhidos, se proceder a uma análise prévia da possibilidade de recuperação do batelão.

Entretanto, o Comandante-Chefe alertou as FT sedeadas na margem norte do rio Cobade, para a possível utilização daqueles meios, antecipando uma tentativa de recuperação a efectuar no dia 29 de Maio. Deveriam aguardar o contacto directo do CDMG.

Era responsável por aquele sector o BArt 2865, com sede em Catió, englobando Catió, Cufar e Bedanda, tendo sido determinado à CArt 2476 (Catió) para efectuar fogo de artilharia de interdição, durante duas noites, para a área de Cachil. Simultaneamente, sobre a Ilha de Como, foram ordenados ataques com heli-canhão e bombardeamentos utilizando aviões Fiat G91, quer por haver conhecimento de numerosos alvos de interesse a atingir quer por represália.

Neste reconhecimento local, para ser apreciada a estrutura, resistência e forma de recuperação possível do batelão, deslocaram-se técnicos do SAO-Serviço de Assiatência Oficinal e mergulhadores, além de outro pessoal e equipamento diverso. Participaram ainda a LFG «Cassiopeia», 2 LDM - Lanchas de Desembarque Médias e ainda um grupo de assalto do DFE 7 com 6 botes de borracha. Os trabalhos foram acompanhados de helicóptero pelo próprio Comandante do CDMG acompanhado do Sub-chefe do Estado-Maior.




Mapa da zona do rio Cobade entre os rios Tombali (ponto TT) e proximidade do rio Cumbijã (ponto CC); assinalada a parte do Cobade estreito, próximo de Catió

O «Guadiana» tinha como principais características 17 metros de comprimento, 5.5 metros de boca e 2.2 metros de pontal. Possuía duas anteparas, a de ré que limitava os alojamentos da tripulação e a de vante que limitava o porão da amarra. Tinha duas bocas de porão, a de ré com 7.3 x 3.0 metros e a de vante com 3.2 x 2.0 metros. As balizas e a sobrequilha, em ferro, eram rebitadas ao costado.

Na continuação da vistoria efectuada pela Secção de Mergulhadores e outro pessoal técnico embarcados na LDM 105, constatou-se que o batelão estava enterrado cerca de um metro no lodo fino da margem com caimento a ré e adornado a estibordo, com balizas bastante danificadas, rebitagem desfeita e a própria sobrequilha retorcida, tudo numa extensão apreciável (cerca de 10 m). O lodo tinha invadido o fundo numa altura próxima dos 50 cm.

A impossibilidade de tornar a embarcação estanque, a estrutura fragilizada, a dificuldade na utilização de bidons que aumentassem a flutuabilidade e o intervalo de tempo entre marés disponível, deixava colocar sérias dúvidas quanto a uma tentativa de recuperação com resultados positivos.

A impossibilidade de concretizar, com os meios disponíveis, qualquer salvamento levou a que todo o pessoal e meios presentes regressassem às suas unidades de origem.




A LFG «Cassiopeia» que participou nas operações de apoio


Conclusões

No final do reconhecimento, vistoria, estudos efectuados e relatórios técnicos de todos os intervenientes concluiu o Estado-Maior haver remotas possibilidades de recuperação, questionando simultaneamente a razoabilidade de tal decisão. Assim:

– Militarmente, seria importante transformar um navio afundado numa unidade temporariamente avariada, evitando uma moralização do inimigo que incentivasse prosseguir com a utilização de minas flutuantes nos rios da Guiné, podendo vir a tornar insegura a navegação.

– Do ponto de vista de princípio, o salvamento de um navio afundado ou encalhado, deveria ser sempre encarado como meta a atingir desde que existissem consideráveis probabilidades de êxito, em função dos riscos e encargos que daí adviessem.

– Em face de informações e relatórios técnicos disponíveis, o batelão teria necessariamente reduzido valor residual e os elevados custos de reparação previstos desaconselhavam a prossecussão desse objectivo.

Assim veio a suceder por determinação do Comandante-Chefe e, mais tarde, o que restava do «Guadiana» veio a ser destruído por uma equipa de mergulhadores sapadores utilizando cargas explosivas


(final)

Fontes:
Pesquisa e compilação de texto a partir do relatório do 2TEN FZE RN José António Lopes da Silva Leite, núcleo 236-A do Arquivo de Marinha; fotos do Arquivo de Marinha; imagens do autor do blogue efectuadas a partir de extractos da carta da Guiné (cortesia IICT);


mls

terça-feira, novembro 14, 2017

Guiné, 1969 – Emboscada a um comboio naval - Parte I


Afundamento do batelão “Guadiana” por EEA–Engenho Explosivo Aquático

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 15 de Julho de 2010)

Considerações gerais


O 2TEN FZE RN João António Lopes da Silva Leite do 10.º CFORN e o STEN FZ RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva do 11.º CFORN, depois de concluírem os respectivos cursos foram ambos mobilizados para a Guiné, o primeiro integrado no Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 10 (1967) e o segundo na Companhia de Fuzileiros n.º 6 (1968).

Em Maio de 1969, viriam ambos a protagonizar, um episódio marcante da complexa actividade da Marinha ao longo dos doze anos de guerra, o primeiro como comandante operacional de uma “task unit” activada na sequência da organização de um comboio logístico, integrando LDM e embarcações comerciais e, o segundo, como comandante operacional de uma outra LDM, também com batelões mas que, numa parte comum do percurso, se juntava àquela task unit.




O 2TEN FZE RN João António Lopes da Silva Leite do 10.º CFORN e o STEN RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva do 11.º CFORN

A organização e planeamento dos comboios de abastecimento logístico estavam atribuídos pelo Comando de Defesa Marítima da Guiné à Esquadrilha de Lanchas que, de acordo com as exigências operacionais, disponibilidade de meios navais e o tão criterioso como indispensável apoio da tabela de marés, procedia à escolha do período e datas em que se efectuavam os comboios - RCU.

A necessidade de manutenção de uma logística de apoio a populações e unidades militares, tornava alguns dos percursos não só frequentes mas de periodicidade obrigatória, quer para norte quer para sul daquele território, situação também decorrente do normal escoamento de produtos agrícolas essenciais à economia do território.

Entre os mais carismáticos, cabe destacar Farim, no norte, cerca de 85 milhas a montante da foz do rio Cacheu e Bedanda ou Gadamael, no sul, ambas a uma distância próxima de 20 milhas da foz nos rios Cumbijã e Cacine (rio do Porto de Gadamael) respectivamente.

As distâncias totais percorridas a partir de Bissau – normais pontos de partida e chegada destes combóios - dependiam dos percursos parciais efectuados e dos navios e embarcações presentes. Havia ainda a considerar, de acordo com as unidades navais utilizadas, rotas alternativas às barras convencionais dos rios.




A tracejado (violeta) o percurso Bissau - Bolama e, na continuação, Bolama - TT (confluência dos rios Tombali e Cobade); igualmente visível o percurso de regresso a Bolama (laranja)

Estavam nesse caso o Canal de Melo, na travessia do rio Cumbijã para o rio Cacine, a passagem do rio Tombali para o rio Cumbijã, via rio Cobade ou a ida para o Cacheu navegando pelo interior do baixo dos Macacões, este só acessível a LDM. Claro que esta possível utilização, válida igualmente para os percursos inversos, permitia encurtamentos de caminho e reduções de tempo notáveis.

Enquanto a uma LFG de escolta estava vedada a possibilidade de efectuar atalhos por causa dos 2.20 m de calado daquela unidade naval e as LFP -Lanchas de Fiscalização Pequenas, ainda que com limitações, efectuassem diversos percursos com alguns shortcuts, as LDM - Janchas de Desembarque Médias efectuavam verdadeiros milagres no encurtamento de traçados, quase bastando haver alguma altura de água para passarem e muita, mesmo muita, experiência do "patrão".

Afinal, com a maré na enchente, um encalhe resolvia-se quase sempre por si próprio, em fundos lodosos sem cristas rochosas. Bastava arriscar primeiro e esperar depois, raciocínio obviamente limitado para as unidades com quilha.

Para comandar estes RCU eram habitualmente nomeados oficiais subalternos dos Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros, dos Quadros Permanentes ou da Reserva Naval, reforçados por esquadras ou grupos de combate daquelas unidades e com o armamento adequado à missão, por forma a aumentar a segurança dos combóios, garantindo um destino seguro às guarnições, populações e bens por eles transportados.

Se algumas das embarcações ou batelões comerciais dispunham de motor, outras não tinham propulsão própria, sendo por isso rebocadas por aqueles que tivessem condições para o fazer. Navegação com velocidades diferentes, cabos de reboque partidos e avarias frequentes, era um panorama comum que gerava confusão e granel, obrigando o comandante do combóio, com as LDM disponíveis, a um enquadramento atento e disciplinado.

Esta estratégia era sobretudo importante a partir do ponto de confluência de todas as unidades, normalmente situado no início das bacias hidrográficas dos rios onde se situavam os locais a aportar. Aí se reviam os derradeiros pormenores da navegação a efectuar, procedimentos de comunicações e a abordagem de eventuais zonas de risco de ataques ou emboscadas do inimigo.




A tracejado (violeta) o percurso Bolama - ponto TT - Catió e os restantes percursos parciais, ponto CC (confluência dos rios Cobade e Cumbijã)- Bedanda - Cabedú - Cacine - Gadamael e respectivos regressos


A missão


Pela "Ordmove" 132/69 o Comando de Defesa Marítima da Guiné ordenou à LDM 302 que, a partir de 16 de Maio de 1969 pelas 16:30, sob o comando operacional do STEN FZ RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva, largasse de Bissau com o objectivo de escoltar as embarcações motor «Portugal» que rebocava o batelão «Angola» levando carga geral, o Pelotão de Morteiros 2115 e respectivas bagagens com destino a Vila Catió. A guarnição da LDM e o motor «Portugal» foram reforçados com elementos da CF 10.

O combóio (RCU) escalou Bolama no mesmo dia da largada e completou o percurso no rio Cobade no dia seguinte de manhã, entre o rio Tombali e a foz do rio Cagopere que dá acesso ao porto de Catió, esta parte do trajecto feita com apoio aéreo. Durante a permanência naquele porto foi montada segurança pelas FT (Forças Terrestres) locais. No regresso, a LDM 302 e as embarcações civis confluiram para a foz do rio Cagopere no dia 21 pelas 10:00 passando a estar integradas no RCU 9/69.




As embarcações comerciais motoras «Portugal» e «Angola»

Quase simultaneamente, pelo "Ordmove" 136/69 – RCU 9/69 o Comando de Defesa Marítima da Guiné ordenou a activação da TU 5 com a nomeação do 2TEN FZE RN João António Lopes da Silva Leite para comandar aquela task unit a partir do dia 20 de Maio de 1969, pelas 00:00. Foi constituída pelas LDM 105 e LDM 313, com o fim de escoltar as embarcações motor «Rio Tua» rebocando um batelão, motor «Vencedor», motor «Gouveia 17» rebocando os batelões «Guadiana» e «Lima» com destino a Bedanda e Cacine.

Houve ainda que transportar 12 toneladas de produtos de reabastecimento, enviados para Cufar pelo CTIG (Comando territorial Independente da Guiné) na LDM 105 e ainda um veículo "GMC" do exército para Gadamael na LDM 313.




O batelão «Guadiana» que viria a ser afundado mais tarde.

Tal como previsto, a partir do dia 21, pelas 10:30, foi integrada no comboio a LDM 302 com a embarcação com motor «Portugal» rebocando o batelão «Angola», sendo este grupo (RCU) a integrar comandado pelo STEN FZ RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva.

Com início e regresso a Bissau, estavam definidos os movimentos previstos com respectivas escalas e horários de chegada/largada, tendo em atenção as marés: Bissau, Bolama, ponto TT (confluência dos rios Tombali e Cobade), foz rio Cagopere, ponto CC (confluência dos rios Cobade e Cumbijã), Impungueda, Bedanda, Impungueda, ponto CC, ponto TT, Bolama e Bissau.

No dia 23 pela manhã a LDM 313 deixou o comboio no ponto CC, rumando a Cacine e Gadamael pelo Canal de Melo, com as embarcações motor «Vencedor», motor «Gouveia 17» rebocando os batelões «Lima» e «Guadiana».




O batelão motor «Gouveia 17» que rebocava os batelões «Lima» e «Guadiana»

O movimento efectuado para o aquartelamento de Cabedú com os batelões «Lima» e «Gouveia» permitiu ganhar um dia ao movimento destas embarcações, escoltadas pela LDM 313 para Cacine.

A descarga em Cacine não foi concluída mas, a necessidade do rigoroso cumprimento do planeamento imposto pelos horários das marés, obrigava a algumas decisões incompatíveis com atrasos nas cargas e descarga dos locais aportados, por problemas de estiva alheios ao comando operacional do combóio.

A progressão para montante do rio Cumbijã a partir dos ponto CC fez-se sem problemas e as descargas em Cufar e Bedanda fizeram-se dentro dos horários e com normalidade.


Regresso, rebentamento de um EEA (Engenho Explosivo Aquático) e o ataque IN


No regresso, o percurso descendente do rio fez-se com as LDM 105 e 302 com as embarcações motor “Portugal” rebocando o batelão “Angola” e motor “Rio Tua” com outro batelão.

Dia 27 pelas 11:00, juntaram-se a estas unidades, no ponto CC, as provenientes do regresso de Cacine. A LDM 313 trazia de Gadamael para Bissau uma viatura GMC e destruiu uma canoa abandonada na foz do rio Meldabom. Cerca das 13:00 do dia 27 de Maio de 1969, e com apoio duma parelha de aviões Harvard T6, iniciou-se o percurso do rio Cobade.




Os batelões motores «Rio Rua» e «Vencedor»

O comboio navegava em coluna, com as unidades navais e embarcações pela seguinte ordem na formatura: «Gouveia 17» rebocando os batelões «Lima» e «Guadiana», LDM 313, motor «Portugal» com o batelão «Angola» de braço dado, LDM 105, motor «Rio Tua» de braço dado com um batelão, LDM 302 e finalmente o motor «Vencedor».

Foi adoptada esta formatura para o motor «Gouveia 17» estabelecer a velocidade do combóio, uma vez que era a embarcação motora com menor velocidade de progressão. Pouco tempo depois, pelas 14:30, o IN (inimigo) viria a revelar-se.

Cerca de meia milha após o desembarcadouro do Cachil, foi avistado pelo pessoal da escolta, fornecida pela CF10 que se encontrava a bordo do «Gouveia 17», um fio que atravessava da margem do lado do Cachil para o meio do rio. Por analogia com casos anteriores, este pessoal mandou parar imediatamente o «Gouveia 17», o que foi tentado pelo patrão desta embarcação metendo máquinas a ré.

Como consequência desta manobra necessariamente brusca e devido ao normal seguimento por inércia, os dois batelões rebocados aproximaram-se do «Gouveia 17», tendo o primeiro reboque, o batelão «Lima», colidido com a popa do »Gouveia 17», enquanto que o outro que o seguia, o batelão »Guadiana», devido ao comprimento do cabo de reboque, ultrapassou por estibordo o «Gouveia 17», e no final do comprimento do cabo, rodopiou ficando aproado em sentido contrário ao da marcha invadindo, com a parte de ré, o local onde o fio tinha sido avistado.




Pormenor do porto interior de Bedanda

Nesse exacto momento, verificou-se uma forte explosão à popa do batelão «Guadiana». Simultaneamente, o inimigo, emboscado em ambas as margens desencadeou violento ataque com armamento ligeiro e morteiro, sem consequências pessoais.

Por sua vez, o engenho explosivo aquático que havia deflagrado à popa do batelão «Guadiana» causou 5 mortos e dez feridos, confirmados pelo sargento enfermeiro - 2Sarg H Cotovio que, seguindo na LDM 105 e após a explosão, passou imediatamente para bordo daquela embarcação. Foram rapidamente assistidos no local por aquele profissional de saúde com a colaboração de um colega - 2Sarg H Mesuras - embarcado na LDM 302. Ambos, debaixo de fogo e no meio de grande confusão por parte de passageiros civis, mantiveram a presença de espírito suficiente para desempenharem as suas funções.

Entretanto, o comandante operacional informou o apoio aéreo do sucedido e, dentro das possibilidades, solicitou cobertura mais cerrada na zona, a fim de ganhar tempo e conseguir a segurança necessária para proceder a uma busca junto ao batelão sinistrado, prevendo a eventualidade de virem a ser encontrados mais mortos ou feridos. Foi informado da impossibilidade de satisfação do pedido por uma dos aviões T6.

Calado o IN por acção do fogo efectuado pelas LDM e pelo pessoal de reforço da CF 10 pertencente às escoltas das embarcações civis, reiniciou-se imediatamente a marcha, tendo sido ordenado à LDM 105 que passasse um cabo ao motor «Gouveia 17» dado continuar com os dois batelões a reboque.

Desde o momento do rebentamento junto à popa do «Guadiana» tinham passado uns escassos dez minutos e a embarcação afundava-se rapidamente. Urgia sair da zona da ocorrência e encalhá-lo em local mais seguro, o que veio a suceder próximo da foz do rio Ganjola.




Um combóio no rio Cumbijã, na foz do rio Macobum, na zona de Cafine

Pelas 14:45, quando o comboio navegava já próximo daquele local, o 2TEN FZE RN Silva Leite, por intermédio da FAP, pediu evacuação para dez feridos a partir de Catió. Entretanto contactou igualmente as FT de Catió pedindo ao aquartelamento local a presença de transporte e médico no porto exterior, a fim de prestar assistência aos feridos e recolher os mortos que seguiam a bordo da LDM 313 para aquela localidade.

Nesta altura, o comboio reiniciou a descida do rio Cobade até à confluência com rio Tombali, depois do comandante operacional ter confirmado a presença do apoio aéreo na zona, tendo atingido aquele ponto TT pelas 16:00.

De acordo com o Comando de Defesa Marítima da Guiné (CDMG), foi dada ordem à LDM 303 para permanecer em Catió até ordem em contrário, às embarcações civis para prosseguirem independentemente para Bissau e às LDM 105 e LDM 302 para seguirem para Bolama, onde ficaram a aguardar novas instruções.

Como resultado do acontecimento e das condições de mau tempo verificadas na altura, extraviou-se diverso material fixo que se fez constar nas relações de ocorrências de cada unidade.




Um avião Harvard T6 sobrevoando o rio Cumbijã, próximo de um comboio

Foram consumidas na resposta à emboscada 2.200 munições de 20 mm, 2100 de 7.62 mm, 8 granadas ofensivas, 30 munições de ALG(dilagramas), 4 de LGF (lança-granadas foguete) e 10 rockets.

O comandante operacional, por intermédio de um militar do exército responsável pelo carregamento, foi informado de que a carga era composta por 17 bidons de gasolina, cerca de 2.000 detonadores e caixas de whisky velho. O transporte deste material terá agravado substancialmente as consequências da explosão.

Observou-se ainda a presença de inúmeros passageiros civis sem qualquer identificação que, por serem familiares de militares ou por lhes interessar visitar as famílias fora da localidade a que pertenciam, pediam aos patrões das embarcações civis para lhes facilitarem transporte para pontos de paragem do combóio de conhecimento antecipado.

Depois da chegada àquela cidade, no dia 28 pelas 18:00, foi dissolvida a task unit, regressando o 2TEN FZE RN Silva Leite a Bissau, de avião.


(continua)

Fontes:
Pesquisa e compilação de texto a partir do relatório do 2TEN FZE RN José António Lopes da Silva Leite, núcleo 236-A do Arquivo de Marinha; fotos do Arquivo de Marinha; imagens do autor do blogue efectuadas a partir de extractos da carta da Guiné (cortesia IICT);


mls

sábado, novembro 11, 2017

Guiné, rio Armada - O aparecimento da primeira mina aquática em Abril de 1967


Rio Armada - Cacheu, rebenta o primeiro EEA-Engenho Explosivo Aquático

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 12 de Setembro de 2010)





A utilização de EEA – Engenhos Explosivos Aquáticos, sempre fez parte do ideário de percurso a seguir pelo PAIGC na estratégia de guerra contra a nossa navegação e unidades navais, em rios e bacias hidrográficas da Guiné.

A partir de meados de Agosto 1966 começaram a ser recolhidas notícias da vinda de pessoal técnico treinado para o efeito e também da entrada, em várias regiões do território, de engenhos de origem e capacidade diversa destinados a apoiar aquela fase da estratégia.

Quase sempre com origem em elementos capturados, as notícias difundidas nos Perintreps do CTIG, referiam com frequência a vinda de técnicos especializados, a utilização de cabos ou cordas prendendo minas accionadas por elementos escondidos nas margens ou que, sendo magnéticas e estando submersas, se soltavam com a passagem dos barcos, "vindo contra eles e rebentando".

Contudo, pode afirmar-se sem incorrer em erro grosseiro que, efectuado um balanço ao longo dos 12 anos em que decorreu a guerra da Guiné, foram muito mais "as vozes que as nozes".

A tecnologia e experiência exigidas na manipulação e montagem de engenhos daquele tipo, os grandes desníveis de marés existentes entre preia e baixa-mar, as fortes correntes dos cursos de água e a fiscalização intensa da Marinha de Guerra sempre representaram obstáculos de monta, dissuasores eficazes da instalação de EEA.

O primeiro caso registado teve como palco o rio Armada, afluente do rio Cacheu, com um grupo de LDM - Lanchas de Desembarque Médias, em 6 de Abril de 1967, tendo como resultado apenas alguns prejuízos materiais.

Um grupo de lanchas constituído pelas LDM 204, 308 e 309 que tivera como destino Bissum, fora levar "cibes", árvore de médio porte utilizada na construção. Ao descer o rio Armada, de regresso, no início da tarde, foi atacado pelo inimigo simultaneamente das duas margens, com armamento ligeiro e pesado.

Os elementos do PAIGC fizeram explodir da margem, três cargas debaixo de água, rebentando duas à frente da LDM 309, não a atingindo, mas a terceira rebentou a meia nau provocando, devido ao sopro, o levantamento da lancha que se inclinou para Bombordo. Foi a primeira ocorrência deste tipo, que antes parece ter correspondido a um engenho terrestre montado no rio e accionado a partir de terra.




Em cima, o Rio Cacheu, entre a Ponta de S. Vicente a juzante e a foz do Rio Armada a montante e, em baixo, os danos provocados pelo rebentamento da mina aquática no fundo da LDM 309



Do rebentamento, resultou um rombo com cerca de um metro quadrado na LDM, por onde entrava água em abundância e um sargento foi projectado caindo ao rio, mas foi recuperado de seguida.

Apesar de adornada e com água aberta, a lancha continuou a navegar até S. Vicente onde, posteriormente, lhe foi prestada a necessária assistência por uma equipa do Serviço de Assistência Oficinal (SAO).

Decorreram quase dois anos entre esta tentativa e novas ocorrências do mesmo tipo, apesar de alguma continuidade na recolha de notícias dispersas. As acções seguintes levadas a cabo visaram sobretudo a região sul, nas zonas dos rios Cobade e Cumbijã onde a instabilidade e insegurança da navegação, aumentariam as dificuldades de transportes e abastecimentos, forçando a concentração de meios.

O rio Cobade assumia importância estratégica fundamental no abastecimento ao sul da Guiné, nomeadamente na acessibilidade ao aquartelamento de Catió, com utilização de um afluente, o rio Cagopere. Especialmente estreito em parte do percurso, denominado Cobade estreito, aquele curso de água foi teatro, em 2 de Março de 1969 e novamente em 27 de Maio de 1969, de mais duas acções com utilização de minas aquáticas.

Se no primeiro caso não houve consequências, tendo o engenho sido destruído a tiro pela LDM 102, no segundo, próximo de um local conhecido pela Cambança do Brandão, da colisão do batelão Guadiana com o dispositivo, resultaram 5 mortos e 8 feridos entre os passageiros locais transportados pelo batelão.

Explodiu e incendiou-se de forma agravada por transportar bidons de gasolina e detonadores, obrigando a que fosse encalhado. Mais tarde, numa acção específica envolvendo uma tentativa de recuperação e na impossibilidade de o conseguir, foi afundado.

A medida táctica de incluir, no combóio naval, uma patrulha avançada de botes para detecção visual de eventuais dispositivos flutuantes, foi iniciada a partir desta grave ocorrência com o batelão Guadiana.

Na mesma situação privilegiada relativamente a Bedanda, encontrava-se o rio Ungauriuol, afluente do rio Cumbijã, única via de abastecimento ao aquartelamento pelo seu porto interior. Provavelmente, por esse mesmo motivo, terão sido instalados EEA por duas vezes ao longo do percurso do rio. Os dispositivos mencionados foram detectados, a primeira vez em 29 de Dezembro de 1968 e a segunda vez em 28 de Janeiro de 1972, ambos sem consequências de maior e posteriormente desactivados pelas equipas de mergulhadores-sapadores.




A LDM 312 no rio Ungauriuol, Bedanda, próximo do estofo da baixa-mar

Neste último caso, em 1972, o combóio era comandado pelo STEN FZ da Reserva Naval João José da Silva Serradas Duarte, 15.º CFORN, CF 11 e a equipa de mergulhadores-sapadores pelo 2TEN Amaro Coelho da Fonseca (QP).

Voltaremos a abordar esta temática.


Manuel Lema Santos
1TEN RN, 1965/1972
Guiné 1966/68, LFG «Orion»


Fontes:
Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; algumas informações sobre este episódio encontrados nos arquivos do Estado-Maior do CDMG, tomando como base o auto de ocorrência levantado oportunamente pela Esquadrilha de Lanchas em Maio de 1967; Arquivo de Marinha; Pormenor da carta 285-A, de Cacheu a Barro, do Instituto Hidrográfico; Texto e fotos de arquivo do autor do blogue;


mls

segunda-feira, novembro 06, 2017

Guiné, LFP «Deneb» - P 365


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Deneb» - P 365

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Fevereiro de 2011)


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 15 de Junho de 1961, na Guiné, depois de ter sido transportada por um navio mercante para Bissau, onde chegou no dia 8 daquele mês.




Guiné, 1967 - A LFP «Deneb» a navegar no rio Cacine

Foi integrada na Esquadrilha de Lanchas da Guiné e a terceira de um conjunto de 13 unidades que constituíram a classe «Bellatrix» e com as mesmas características gerais. Ainda que algumas delas reflectissem alterações estruturais profundas entre si, resultantes da necessidade de as adaptar aos cenários de operações, foi decidida a sua classificação na mesma classe, para simplificação de tipologias diferenciadas que poderiam implicar uma reclassificação em, pelo menos, duas classes distintas.

Fez parte do planeamento inicial do Estado-Maior da Armada este tipo de unidades navais serem comandadas por um Sargento M (manobra). Mais tarde, por proposta do Comando de Defesa Marítima da Guiné, a ideia foi abandonada. Na sequência da resolução de alguns problemas de navegação surgidos pelo tipo da complexa hidrografia daquele território, foi decidido que o comando passasse a ser efectuado por um Oficial subalterno.




Guiné, 1964 - A participação na Operação "Tridente" com apoio ao desembarque de forças na «Ilha de Como». Em primeiro plano a LFP «Canopus", sendo visível o lançador de foguetes de 37 mm e, a curta distância, a LFP «Deneb» - que a acompanhava na mesma missão




No dia 23 largou do porto de Bissau e, no dia seguinte, depois de patrulhar o rio Geba regressou ao cais. Entre Junho e o final de Setembro, realizou exercícios de tiro no canal do Geba, efectuou diversas escoltas e patrulhas, escoltou o TT «Conceição Maria», comboiou o NH «Pedro Nunes» até Bissau e patrulhou também o rio Cacheu.

Em 12 de Outubro navegou com um grupo de Aspirantes a Oficial da Reserva Naval que depois deixou naquele navio hidrográfico, tendo regressado a Bissau em 16 de Outubro.

No dia 18 assumiu o comando da LFP «Deneb» o STEN RN Armando Fernandes Peres do 3.º CEORN, o primeiro oficial a exercer aquelas funções.

Tendo iniciado no rio Geba a sua vida operacional, teve mais destacada participação no sul da Guiné, ainda que com acções pontuais no rio Cacheu no decorrer dos anos de 1962 e 1963. Apoiou operações e combóios logísticos, sobretudo nos rios Tombali, Cobade, Cumbijã e Cacine, onde foi alvo de frequentes emboscadas, mantendo combates com grupos armados instalados nas margens.

De 13 de Janeiro a 22 de Março de 1964, participou na Operação «Tridente», tendo regressado por breves intervalos a Bissau para descanso da guarnição. A partir de meados de 1968 passou a integrar também o dispositivo naval no rio Cacheu – Operação «Via Láctea» - onde participou em múltiplas missões operacionais que incluiram flagelações ao inimigo da sequência de ataques e emboscadas das margens.




Armando Fernandes Peres, José Manuel Burnay e Mário Sá Couto

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Deneb» os seguintes oficiais da Reserva Naval:

2TEN RN Armando Fernandes Peres, 3.º CEORN, 18Out61/09Abr63;
2TEN RN José Manuel Burnay, 4.º CEORN, 09Abr63/23Jun64;
2TEN RN Mário Luis Neves Sá Couto, 6.º CEORN, 23Jun64/02Jun66;
2TEN RN Emídio Guilherme Mendes de Aragão Teixeira, 8.º CEORN, 02Jun66/23Mar68;
2TEN RN Manual Maria Pereira da Silva, 10.º CFORN, 23Mar68/20Nov69;
2TEN RN José Luis Ferreira da Silva Dias, 14.º CFORN, 20Nov69/17Jul70;
2TEN RN Ilídio José Prazeres de Assunção, 15.º CFORN, 17Jul70/03Fev72;




Emídio Aragão Teixeira, Manuel Pereira da Silva, José Luis Dias e Ilídio Prazeres de Assunção

Foi-lhe atribuída a alcunha «Branca de Neve», suportada num claro trocadilho do nome quando, após uma reparação, a pintura exterior, usualmente verde acastanhado escuro, surgiu bem mais clara que a das outras lanchas.

Em 1 de Julho de 1971 subiu o plano inclinado do SAO - Serviço de Assistência Oficinal onde foi vistoriada. No relatório, considerou a Comissão de vistoria que, a extensão e dimensão das corrosões, deformações, bem como o notável enfraquecimento de todos os elementos da estrutura em geral, por implicar uma grande reparação geral, tornava anti-económica a recuperação daquela unidade naval. Assim, com cerca de 7800 horas de navegação foi proposto o desarmamento total do navio e o seu abate, o que veio a suceder em 3 de Fevereiro de 1972.

Navios da mesma classe:

«Bellatrix», «Canopus», «Deneb», «Espiga», «Fomalhaut», «Pollux», «Rigel», «Altair», «Arcturus», «Aldebaran», «Procion», «Sirius» e «Vega».




Fontes:
"Por este nome se conhecem (As alcunhas dos navios)" - Carlos Alberto da Encarnação Gomes, Edições Culturais da Marinha, 2010; "Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; "Setenta e Cinco Anos no Mar", Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto e imagem do autor do blogue;


mls

sexta-feira, novembro 03, 2017

Guiné, 1966 - Exercícios de Fuzileiros II


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Julho de 2010, com imagens do filme legendadas)


O pequeno documentário filmado final ilustra um modelo de exercício de fuzileiros que quase se identifica com os de tantas operações efectuadas com os DFE-Destacamentos de Fuzileiros Especiais e LFG–Lanchas de Fiscalização Grandes.

Tinham lugar acções conjuntas em que à unidade naval cabia normalmente a missão de transporte até próximo do local da operação. Efectuado o transbordo para as LDM locais que procediam ao desembarque dos fuzileiros nos locais previstos, garantiam ainda escolta e apoio no local da operação quando e sempre que necessário.

Complementarmente, desempenhavam quase sempre as tarefas de centro de coordenação operacional ou mesmo de CTU (dependendo da antiguidade dos oficiais presentes). No final de cada operação, o regresso a Bissau à base naval fazia-se de modo idêntico, muitas vezes incluindo uma refeição quente ao pessoal envolvido na operação, confeccionada a bordo da LFG participante.






A preparação da operação no INAB – Instalações Navais de Bissau. A faina de carga dos botes de borracha e do equipamento no transporte que conduziria o Destacamento ao cais de embarque.






Passagem pela Avenida Marginal e cais do Pijiguiti






Chegada à ponte-cais da “Scania” transportando pessoal e equipamento






Na ponte-cais em T, várias LDM-Lanchas de Desembarque Médias amarradas de proa para o cais






No cais principal está atracada a fragata «Nuno Tristão»






Depois do embarque efectuado, a LFG «Cassiopeia» realiza a manobra de desacostagem do cais lateral, passando pela frente do cais principal






O Comandante da LFG “Cassiopeia”, 1TEN Pedro Manuel Barreira Pessoa Lopes, cumprimenta regulamentarmente o navio mais antigo, a fragata «Nuno Tristão»






Na ponte, aos comandos da máquinas, o 2Sarg ACM Feliz Santos Serra executa as instruções recebidas do comando






O 2Sarg A Vitor Clemente da Silva, também fiel de bordo, efectua uma rotina de verificação das peças Bofors de 40 mm com o pessoal artilheiro






Preparando os cunhetes de munições de 40 mm






Os helicópteros da FAP que participam da operação, em voo de apoio próximo






A LDM efectua a manobra de atracação à LFG para ser efectuado o transbordo






O Destacamento de Fuzileiros Especiais efectua o transbordo de pessoal, armamento e equipamento para a LDM





A LFG «Cassiopeia» mantém-se a pairar na zona onde decorre a operação






Início do desembarque






Depois do desembarque a acção dos fuzileiros já em terra





Fontes:
Filme editado e montado pelo autor do blogue a partir de cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, originalmente filmada com a colaboração da Marinha; texto do autor;


mls

quinta-feira, novembro 02, 2017

Guiné, LFP «Canopus» - P 364


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Canopus» - P 364

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 31 de Janeiro de 2011)


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 29 de Maio de 1961, na Guiné, depois de ter sido transportada por um navio mercante para Bissau, onde chegou em 17 daquele mês, juntamente com a LFP «Bellatrix».




Bissau - A LFP «Canopus», na ponte-cais em «T» atracada de braço dado às LFG «Lira», LFG «Sagitário» e ainda uma outra LFG

Foi integrada na Esquadrilha de Lanchas da Guiné e a segunda de um grupo de 13 unidades que constituíram a classe «Bellatrix» e com as mesmas características gerais. Ainda que algumas delas reflectissem alterações estruturais profundas entre si, resultantes da necessidade de as adaptar aos cenários de operações, foi decidida a sua classificação na mesma classe, para simplificação de tipologias diferenciadas que poderiam implicar uma reclassificação em, pelo menos, duas classes distintas.

Fez parte do planeamento inicial do Estado-Maior da Armada este tipo de unidades navais serem comandadas por um Sargento M - Classe de Manobra. Mais tarde, por proposta do Comando de Defesa Marítima da Guiné, a ideia foi abandonada. Na sequência da resolução de alguns problemas de navegação surgidos pelo tipo da complexa hidrografia daquele território foi decidido que o comando passasse a ser efectuado por um Oficial subalterno.




Guiné, 1964 - A participação na Operação "Tridente" com apoio ao desembarque de forças na "Ilha de Como". Em primeiro plano o lançador de foguetes de 37 mm sendo visível, a curta distância, em baixo, a LFP «Deneb» que a acompanhava na mesma missão



Em 4 de Agosto de 1961 largou em patrulha para o rio Cacine. No dia 12, depois de suspender passou por cima de uma pedra que se encontrava no meio do rio danificando o leme e o veio do motor de estibordo. Encalhou propositadamente frente a Cacine para proceder a verificações, constatando-se que havia um pequeno rombo, prontamente tapado. A porta do leme de EB tinha recolhido um pouco pela popa e o veio do motor daquele bordo tinha empenado com torsão das pás do hélice. Em 21 daquele mês regressou a Bissau a reboque do NM «Corubal», atracando no dia seguinte para reparação.

Tendo iniciado no sul da Guiné a sua vida operacional, ali teve mais destacada participação no apoio a operações e a comboios logísticos, sobretudo nos rios Tombali, Cobade, Cumbijã e Cacine, onde foi alvo de frequentes emboscadas, mantendo combates com grupos armados instalados nas margens.

De 13 de Janeiro a 11 de Março de 1964, participou na Operação “Tridente”, decorrida até 22 de Março, tendo estacionado por breves intervalos em Bissau para descanso da guarnição. A partir de meados de 1968 passou a integrar também o dispositivo naval no rio Cacheu – Operação Via Láctea.



Guiné, rio Cacheu - Foi frequente a participação em escoltas a combóios de batelões e lanchas. Na imagem de cima é visível um modelo mais actualizado de lançador de foguetes com secção rectangular e, na de baixo, um dispositivo de lançamento de granadas, deniminados ALG/Dilagramas, e uma metralhadora MG 42





Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Canopus» os seguintes oficiais da Reserva Naval:



Joaquim Madeira Terenas,Luis Fernandes Sequeira e Manuel Ruivo Figueiredo

2TEN RN Joaquim Madeira Terenas, 3.º CEORN - 27Set61/07Abr63;
2TEN RN Luis Pinto Fernandes Sequeira, 4.º CEORN – 07Abr63/23Jun64;
2TEN RN Manuel José Ruivo Figueiredo, 6.º CEORN – 23Jun64/02Jun66;
2TEN RN Carlos Alberto Lopes, 8.º CEORN – 02Jun66/27Mai68;
2TEN RN Henrique Nunes de Oliveira Pires, 11.º CFORN – 27Mai68/02Mar70;
2TEN RN Domingos Manuel Alves Monteiro Diniz, 14.º CFORN – 02Mar70/22Jul71;




Carlos Alberto Lopes, Henrique Oliveira Pires e Domingos Monteiro Diniz.

Em 22 de Julho de 1971 permanecia atracada no porto de Bissau devido à falta de sobressalentes. Nessa data, depois de mais de 5.600 horas ao serviço da Marinha de Guerra, foi a primeira da classe a ser abatida ao efectivo dos navios da Armada.




Guiné, 1967 - Quase em seco, atracada no porto interior de Catió, vendo-se o 2TEN RN Carlos Alberto Lopes, o comandante da altura, a bombordo, sentado no convés junto à bóia

Navios da mesma classe:
«Bellatrix», «Canopus», «Deneb», «Espiga», «Fomalhaut», «Pollux», «Rigel», «Altair», «Arcturus», «Aldebaran», «Procion», «Sirius» e «Vega».




Fontes:
Dicionário de Navios, Comandante Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue cedidas por 2TEN RN Henrique Oliveira Pires e Arquivo de Marinha.


mls