domingo, agosto 12, 2018

1958/2018 - 60 anos da Reserva Naval


“A Marinha e a Reserva Naval, uma aliança que perdura”





Decorreram ontem 60 anos sobre o ingresso na Escola Naval do 1.º CEORN – Cursos Especial de Oficiais da Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa.

Em 11 de Agosto de 1958, 20 cadetes candidatos a oficiais daquele Quadro de Complemento deram inicío a um primeiro ciclo de 25 cursos, realizados entre 1958 e 1975, num total de 1.712 universitários oriundos de vários estabelecimentos escolares e formações.




Em cima, a "Casa da Balança" nas Instalações Centrais da Marinha onde foi descerrada a placa e,
em baixo, vista geral do edifício das ICM, junto da "Doca da Caldeira"




Interrompidos no ano de 1975, no decorrer do qual nenhum cuirso foi levado a cabo, foram reatados em 1976. Até Maio de 1992 foram então concluídos mais 78 cursos, repartidos entre a Escola Naval e a Escola de Fuzileiros, num total de 1.886 cadetes, igualmente candidatos a oficiais da Reserva Naval.

Em 25 de Julho de 2005, com a presença do Chefe do Estado-Maior da Armada, o Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Oficiais da Reserva Naval e várias outras individualidades, foi descerrada na Casa da Balança - Instalações Centrais de Marinha uma placa evocativa do cinquentenário da criação da Reserva Naval.




A placa comemorativa da efeméride

E bem serviram sem cuidar recompensa!

Ao longo de vários anos tenho aqui publicado múltiplos artigos sobre o tema, pelo que referirei algumas datas e acontecimentos que considero marcantes, interpretação que pode ser sempre classificada de subjectiva, pelas escolhas pessoais.

Contudo todas elas me parecem relevantes na evolução da preservação de memórias históricas da Reserva Naval, Marinha e da respectiva Associação.

Assim foram publicados e podem ser acedidos pelos respectivos links:

7 de Outubro de 2016




14 de Outubro de 2016




5 de Novembro de 2016




9 de Dezembro de 2016




1 de Junho de 2017




20 de Janeiro de 2018




25 de Maio de 2000 (revista n.º 12 da AORN)




20 de Maio de 2001 (revista n.º 13 da AORN)



Fontes:
Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Revistas da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, números 12-Dez2000 e 13-Dez2001; texto e fotos de arquivo do autor do blogue com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

sexta-feira, agosto 10, 2018

LFP «Dom Jeremias» - P 1149


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Dom Jeremias» - P 1149

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 13 de Junho de 2011)




A LFP «Dom Aleixo».



Construída nos estaleiros navais de S. Jacinto em Aveiro, foi a segunda e última da classe «Dom Aleixo», com as mesmas características gerais.

Foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 22 de Dezembro de 1967 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando nesse mesmo dia. Inicialmente, houve a intenção de seguir para Timor mas a ideia foi abandonada.

Até princípio de Abril de 1968 decorreu o período de aprontamento e adestramento da guarnição com algumas deficiências, pelas constantes reparações a que o navio esteve sujeito, quer no Arsenal do Alfeite quer nos estaleiros responsáveis pela construção, em Aveiro. Houve que modificar a posição dos escapes dos motores principais e auxiliares, alterar o sistema eléctrico de iluminação e o sistema de descarga de água dos motores.

Com o apoio da fragata «Diogo Gomes», largou de Lisboa em 10 daquele mês rumo a Cabo Verde, juntamente com a LFP «Dom Aleixo», tendo aportado a S. Vicente em 18 de Abril depois de escalarem o porto do Funchal.

Permaneceu em missões de fiscalização naquele arquipélago durante cerca de 30 meses, até ao último trimestre de 1970. Regressou a Lisboa, novamente na companhia da «Dom Aleixo», em 27 de Outubro daquele ano.

Os anos de 1971 a 1975 passou-os no desempenho de missões de fiscalização da pesca na costa continental portuguesa, nomeadamente ao longo da costa algarvia.

A partir de 1976 foram-lhe atribuídas missões hidrográficas e oceanográficas, passando para a dependência do Instituto Hidrográfico.

Foi abatida ao efectivo da Armada em 19 de Dezembro de 1997.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Dom Jeremias» os seguintes oficiai:

Quadros Permanentes:

2TEN Carlos Alberto da Encarnação Gomes, 22Dez67/15Jan69;
2TEN José António dos Santos de Almeida Joglar, 15Jan69/09Fev72;
...............................................................

2TEN Luís Filipe Borges Pereira e Cruz, 25Ago76/02Set77;
2TEN Luís Maria Cabral Leal Faria, 02Set77/17Mar78;
2TEN José Alberto Alves dos Santos, 17Mar78/02Ago79;
2TEN João Adelino Delduque Pereira Gonçalves, 02Ago79/03Set80;
2TEN César Martinho Gusmão Reis Madeira, 03Set80/24Ago82;
2TEN Diogo Alberto Font Xavier da Cunha, 24Ago82/08Set83;
2TEN Edgar Marcos de Bastos Ribeiro, 08Set83/14Set84;
2TEN Manuel Alexandre Pinto de Abreu, 14Set84/05Out85*

Reserva Naval:

..............................................................

STEN RN Francisco de Oliveira de Castro Paradela, 16.º CFORN, 09Fev72/24Out72;
STEN RN José Manuel da Veiga Ferreira, 19.º CFORN, 24Out72/01Set75;
STEN RN Eurico Teixeira Ladeira, 23.º CFORN, 01Set75/03Set75;
STEN RN José Carlos Baptista Santos, 23.º CFORN, 03Set65/18Dez75;
STEN RN José Guilherme dos Santos Alves, 25.º CFORN, 18Dez75/25Ago76;
.............................................................

*A partir desta data e até 1997 não foi possível apurar os comandantes da LFP «Dom Jeremias».


Navios da mesma classe: LFP «Dom Aleixo», LFP «Dom Jeremias».


Fontes:
Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

quarta-feira, agosto 08, 2018

LFP "Dom Aleixo" - P 1148


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Dom Aleixo» - P 1148

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 8 de Junho de 2011)





A LFP «Dom Aleixo»


Foi construída nos Estaleiros de S. Jacinto em Aveiro e deu o nome à classe «Dom Aleixo». Posta de lado a ideia inicial de seguir para Timor, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 22 de Dezembro de 1967 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando nesse mesmo dia.

Estas unidades navais tinham as seguintes características gerais:




Até princípio de Abril de 1968 decorreu o período de aprontamento e adestramento da guarnição com algumas deficiências, pelas constantes reparações a que o navio esteve sujeito, quer no Arsenal do Alfeite quer nos estaleiros responsáveis pela construção, em Aveiro.

Houve que modificar a posição dos escapes dos motores principais e auxiliares, alterar o sistema eléctrico de iluminação e o sistema de descarga de água dos motores.

Com o apoio da fragata «Diogo Gomes», largou de Lisboa em 10 daquele mês rumo a Cabo Verde, juntamente com a LFP «Dom Jeremias», tendo aportado a S. Vicente em 18 de Abril depois de escalarem o porto do Funchal.

Permaneceu em missões de fiscalização naquele arquipélago durante cerca de 30 meses, até ao último trimestre de 1970. Regressou a Lisboa, novamente na companhia da «Dom Jeremias», em 27 de Outubro daquele ano.

Os anos de 1971 e 1972 passou-os, na sua maior parte, no Arsenal do Alfeite, a fim de efectuar grandes reparações, largando esporadicamente para efectuar experiências de máquinas, leme e de outras estruturas.

Após o final deste último ano desempenhou missões de fiscalização da pesca na costa continental portuguesa, nomeadamente ao longo da costa algarvia, tendo voltado ao Arsenal do Alfeite em 4 de Dezembro de 1973 para novas reparações e calibrações. Regressou à costa algarvia em 22 de Abril de 1974 onde continuou a desempenhar missões de fiscalização da pesca.

A partir de 1976 foram-lhe atribuídas missões hidrográficas e oceanográficas. Em 1988 e 1989 esteve em missão o arquipélago da Madeira. Em 30 de Abril de 1996 passou ao estado de desarmamento e foi abatida ao efectivo da Armada em 31 de Julho de 1997.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Dom Aleixo» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN José Manuel da Conceição Grade, 10.º CFORN, 22Dez67/24Nov69;
2TEN RN Joaquim Manuel Nunes Serra, 14.º CFORN, 24Nov69/18Out71;
2TEN RN Carlos Augusto Fernandes Lopes, 18º CFORN, 18Out71/02Out73;
2TEN RN João Rodrigues de Oliveira, 22.º CFORN, 02Out73/01Set75;
2TEN RN Eurico Teixeira Ladeira, 23.º CFORN, 02Set75/26Mar76;
.............................................................
2TEN RN Jorge Filipe Ramos Silva Guerreiro, 29.º CFORN, 13Set79/05Set80;
2TEN RN Manuel Augusto Moutinho da Silva, 31.º CFORN, 05Set80/09Set81;
2TEN RN Carlos Manuel de Abreu Matias Ângelo, 34.º CFORN, 09Set81/13Abr83;
2TEN RN Helder António Carrilho Figueiras , 38.º CFORN, 13Abr83/14Mar84;
2TEN RN Álvaro Fernando G. Amzalak dos Santos, 41.º CFORN, 14Mar84/03Abr85;
2TEN RN José António Raimundo Mendes da Silva, 44.º CFORN, 03Abr85/05Out85;*

Quadros Permanentes:
.............................................................
2TEN António Carlos da Cruz Cordeiro, 26Mar76/15Nov77;
2TEN António Tomé Robalo Cabral, 15Nov77/13Set79;

*A partir desta data e até 1997 não foi possível apurar os comandantes da LFP «Dom Aleixo»





A LFP «Dom Aleixo» a navegar

Navios da mesma classe: LFP «Dom Aleixo», LFP «Dom Jeremias».


Fontes:
Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

domingo, agosto 05, 2018

Guiné, 1966-Lancha de Fiscalização Grande no rio Cacine


Registo no “Diário Náutico” de uma LFG - Lancha de Fiscalização Grande

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 7 de Junho de 2006)




Em cima, mapa do rio Cacine e, em baixo, a LFG "Orion" a navegar




Noite fechada, na ponte da LFG – Lancha de Fiscalização Grande, radar em cima, o oficial apresta-se para fundear o navio na foz do rio Imberém, a montante do aquartelamento de Cacine, na margem esquerda do rio.

Maré na vazante, lancha a navegar para montante, pessoal de “quarto“ atento nos postos, mestre na proa, ao guincho.

Em sequência rotineira, mãos nos comandos das máquinas da ponte, reduz para máquinas avante devagar. Quase de seguida, pequena pausa e pára as máquinas.

O marinheiro do leme aguenta o rumo, o navio desliza as derradeiras jardas contra a corrente até quase se imobilizar.

Da ponte são dadas instruções para ser largada a amarra. Ouve-se o barulho metálico das quarteladas que deslizam no escovém e o ferro que mergulha na água.

Entretanto o navio imobiliza-se, lentamente descai e o ferro unha no fundo lodoso.

Volta à faina, navio fundeado.

Pessoal e lancha entorpedecidos na imensidão temporal de um cruzeiro, entre um suspender de ferro, navegar acima e abaixo por tempo indeterminado, o fundear de novo.

Quartos uns iguais aos outros, ora para montante ora para juzante, horas de fiscalização a cumprir

Na margem, as luzes do aquartelamento de Cacine bruxuleiam no cacimbo da noite e, mais longe, por cima do arvoredo a mancha luminosa das luzes da Cacoca e Gadamael, os dois aquartelamentois mais próximos.

O registo do diário náutico, páginas vazias de imaginação, o pensamento longe, a mão que se arrasta em cima do calhamaço, rabiscando o que nunca há-de ser lido, quem sabe?




Esboços no Diário Náutico de uma LFG - Lancha de Fiscalização Grande

Por vezes, durante o dia, o PAIGC, da Ponta Canabém, da outra na margem do rio, frente ao aquartelamento de Cacine, entende "participar nas festas" com morteiradas e uma ou outra rajada de metralhadora pesada na direcção do aquartelamento. Sempre sem consequências, por curtas na distância, mas o objectivo é mesmo incomodar.

Em alguns casos a LFG presente suspendia ferro e, reduzindo a distância, fazia questão de retribuir de perto o cumprimento com as peças de 40 mm, calando o inimigo.

Neste caso, nada de notável a registar. O regresso ao silêncio, ficam os esboços e o pessoal de quarto em serviço.


Fontes:
Texto de Manuel Lema Santos, 8.º CEORN, compilado e editado por mls; extracto do mapa do rio Cacine da "Carta da Porvíncia da Guiné", Ministério do Ultramar, 1961; fotos de arquivo do autor do blogue com cedência do Arquivo de Marinha e do Alf Mil João Alves Martins, BAC1, Bissum, Piche, Bedanda e Guileje, 1967/69;


mls

terça-feira, julho 31, 2018

"In Memoriam" Professor Doutor Agostinho Almeida Santos - O último embarque de um antigo Oficial da Reserva Naval


2TEN MN RN Agostinho Diogo Jorge de Almeida Santos
8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval





Agostinho Almeida Santos


Aqui nesta modesta homenagem recordo Agostinho Diogo Jorge de Almeida Santos, alguns dias depois de ter deixado o nosso convívio, dia 14 passado.

Infausta notícia que, chegando tardia no meu conhecimento, não me impede de manifestar, à família enlutada e a todos os amigos pessoais, um enorme sentimento de pesar pela perda havida.

Dissertar aqui sobre o percurso pessoal e profissional de Agostinho Almeida Santos é objectivo para que assumo humildemente não ter dimensão, quer pelo relativo afastamento pessoal quer profissional, ambos condicionados por rumos de vida diferenciados.

A comunicação social especializada e a própria Assembleia da República, em diferentes formas de manifestada homenagem, expressaram e difundiram a notícia da perda de tão humana quanto erudita personalidade.

Limito-me aqui a mencionar algumas das possíveis referências:



In "Notícias de Coimbra"

"...O médico e professor catedrático de ginecologia, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), realizou, pela primeira vez, em Portugal, a técnica de procriação medicamente assistida, designada por GIFT (Transferência de Gâmetas para a Trompa), “método que propiciou o nascimento do primeiro bebé em junho de 1988”, refere um resumo curricular de Agostinho Almeida Santos do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida...."

"...Naquela que terá sido uma das suas últimas entrevistas de vida, efectuada por Braga da Cruz e Américo Santos, dois dos grandes timoneiros do Clube da Comunicação Social de Coimbra, o reputado médico lembrou que se sentia “o pai de 17 mil crianças” nascidas no seio de casais que não tinham filhos..."


In "Público"

"...Segundo a mesma nota, Agostinho Almeida Santos fundou e dirigiu o programa de reprodução medicamente assistida, que funciona em Coimbra, desde 1985. Entre 2005 e 2007, foi o presidente do Conselho de Administração dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

Na vida académica, publicou 185 trabalhos científicos, proferiu mais de 400 palestras e foi o responsável pelas disciplinas de Obstetrícia e Ética, Deontologia e Direitos Médicos da FMUC.

Membro de 18 sociedades científicas nacionais e internacionais, desempenhou funções de perito da Comunidade Económica Europeia na área de investigação em bioética. Autor do livro Razões de Ser, associado aos problemas e futuro da bioética, Agostinho Almeida Santos manteve uma actividade universitária de forma ininterrupta desde 1965, sublinha a mesma nota curricular.

Em 2011, com a intervenção da troika, alertou para a necessidade de se ajudarem os portugueses mais pobres, no acesso aos cuidados de saúde. "Vamos ter em Portugal, dentro de pouco tempo, pessoas que não têm dinheiro, nem amigos, mas vão precisar de ter acesso à saúde", disse então, frisando que se tratava de "um problema cívico", que devia mobilizar todos...."




Largamente difundida em toda a comunicação social, a notícia do desaparecimento de tão ilustre personalidade da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra com vasto e riquíssimo percurso médico, científico, académico, humano e pessoal, transporta-nos a memória ao mês de Setembro de 1965, ano em que ingressou num grupo de 68 Cadetes na Escola Naval, na classe de Médicos Navais do 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, onde se manteve até Fevereiro de 1968, ano em que foi licenciado, passando à vida civil no posto de Segundo-Tenente.




8.º CEORN, na portaria da Escola Naval em foto de família - Agostinho Almeida Santos (ao centro do círculo),
Jorge Miranda (à esquerda), António Palma Fernandes (à direita) e Frederico Silveira Machado (atrás)





Foto de grupo do 8.º CEORN - Em cima, da esquerda para a direita: Augusto de Athaide Albergaria, Agostinho Almeida Santos, Frederico Silveira Machado, José Silveira Godinho, Manuel Castro Norton e António Simões Pereira; em baixo, Mário Rocha de Sousa

Em Abril de 1966, depois da habitual viagem de instrução nas fragatas «Corte Real» e «Diogo Cão», seguiu-se o Juramento de Bandeira com a promoção a Aspirante a Oficial.

Agostinho Almeida Santos foi então destacado para o NRP «São Gabriel», vindo a integrar como Médico Naval a Companhia de Fuzileiros n.º 2 em Moçambique, onde permaneceu até 1968, ano em que foi licenciado, regressando à vida civil no posto de Segundo-Tenente.




Buarcos, 1992 - Em cima, da esquerda para a direita:
José Silveira Godinho, Martinho Pereira Coutinho, Agostinho Almeida Santos, Alexandre Ferreira Borrego, António Simões Pereira, António Cardoso da Silva e Manuel Lema Santos;
Em baixo, Joaquim José Carvalho, Luis Mata de Oliveira, Mário Rui Nunes e Fernando Nunes Serra com a companhia de várias das respectivas senhoras presentes;


Nunca esqueceu a Marinha e os camaradas de curso "Filhos da Escola". Anos mais tarde, em Novembro de 1992, empenhou-se na organização de um Encontro-Convívio dos elementos do seu curso da Escola Naval, 8.º CEORN-Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, reunindo em Coimbra/Buarcos vários antigos companheiros e respectivas senhoras, convívio repetido por sua iniciativa em 1994, sempre num ambiente de grande fraternidade e amizade, características de uma personalidade eminentemente humanista e social.




Dois momentos do 1.º Encontro de Médicos no Hospital de Marinha



Em 27 de Fevereiro de 1999, integra a Comissão Organizadora e participa no 1.º Grande Encontro de Médicos da Reserva Naval, numa organização da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, com o apoio do Hospital de Marinha que encerrou na secular Sala da Farmácia com a já tradicional hospitalidade da Marinha.



Na revista n.º 11 da mesma Associação, em Abril de 2000, sob o título «Saúde e Medicina» publicou um artigo denominado "Clonagem Humana - Um Horror Quase Possível".


Entre 19 e 21 de Setembro de 2003, esteve presente como elemento e sócio participante no Primeiro Encontro Nacional da Reserva Naval, numa organização da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval que teve lugar na Figueira da Foz, no Centro de Artes e Espectáculos.




Encontro Nacional da Reserva Naval, Set2003 - Em cima, Agostinho Almeida Santos no secretariado e, em baixo no decorrer do Jantar Convívio de encerramento




Agostinho Almeida Santos apoiou ainda e encabeçou a direcção e organização de uma Delegação das Beiras da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval.

Depois de uma reunião prévia decorrida em 8 de Julho, em Coimbra, no Hotel Astória, continuada num convívio a 6 de Setembro, em 24 de Outubro de 2003 nasceu aquele Núcleo, então a bordo do "Basófias", com mais de 30 camaradas da Reserva Naval presentes.

Promovido por Agostinho Almeida Santos, acompanhado pelos camaradas Corte-Real, Maia de Carvalho e João Paulo Craveiro, com o apoio do Polo Norte que apadrinhou, o Núcleo das Beiras viu finalmente o baptismo do mar com o nome de "Granel das Beiras".




Agostinho Almeida Santos na sua alocução

Sobre aquele momento escreveu então Agostinho Almeida Santos:

"...Coimbra não tem mar mas tem marés. E foi numa maré cheia de uma lua nova que uma vintena de bravos marinheiros de antanho subiram o Mondego numa barcaça sem quilha, flutuando ao sabor da sorte a bordo de um “Basófias”. Após lauto repasto os intrépidos guerreiros bradaram às armas e decidiram navegar a vante.
Para se reabastecerem, semanas depois, no porão da ré de um couraçado bairradino. Com o Luís Pato ao leme, o imediato suporte dos comandos do “Polo Norte” e a fragância das espumantes ondas, o iluminado espírito do camarada Pires da Rosa fez baptismo do “Granel das Beiras” que há-de ser figura de proa da nau do Centro à conquista das mares da costa que nos banha.
Todos seremos agora poucos para no “Granel das Beiras” honrarmos um passado de que nos orgulhamos, ao serviço da Armada Portuguesa.
Agostinho Almeida Santos
8º CEORN



Desde a vinda a este mundo que todos estamos ao portaló a aguardar a hora de chamada para o último embarque, agora num horizonte de vida necessariamente estreitado pelas milhas já percorridas.

Até breve!


Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de: Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Lista da Armada; Fotos de arquivo pessoal do autor do blogue; Revistas da AORN-Associação dos Oficiais da Reserva Naval, nº 9-Mar1999, n.º 11-Abr2000 e n.º 17-Mar2004;


mls

domingo, julho 29, 2018

LFP "Cisne" - P 1167


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Cisne» - P 1167

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 22 de Maio de 2011)




A LFP «Cisne»


Construída nos estaleiros navais do Arsenal do Alfeite, quinta e última da classe «Albatroz», com as mesmas características gerais, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1976 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando nesse mesmo dia.

A LFP «Cisne» construída como uma lancha rápida de fiscalização e patrulhamento, outrora dispondo de uma peça de artilharia de 20 mm, foi depois equipada com um alador de redes, fruto da reconversão do navio, levada a cabo em 1999, para a actividade de controlo e fiscalização da pesca nas águas sob jurisdição nacional do continente, o que lhe conferia interessantes características de operacionalidade.

Desde a sua incorporação, guarneceu os dispositivos da Zonas Marítimas do Centro e do Sul, com algumas incursões à Zona Norte, realizando diversas missões, nomeadamente de fiscalização da pesca, repressão do contrabando, busca e salvamento, controle da poluição no mar, fiscalização dos esquemas de separação de tráfego marítimo existentes ao largo da costa. Desde a alteração sofrida em 99, executou também missões específicas de alagem de artes caladas em situação presumivelmente infractora.

Durante os períodos em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Cisne»os seguintes oficiais:

Reserva Naval

STEN RN Alexandre Maria Lindim Vassalo, 31Mar76/16Ago76;
STEN TE RN Joaquim Pereira de Oliveira, 25.º CFORN, 16Ago76/26Jan77;
...............................................
STEN RN José Pedro de Sá Campos Gil, 32.º CFORN, 11Mar81/10Mar82;
STEN RN Mário Manuel Soares Alves, 35.º CFORN, 10Mar82/13Abr83;
STEN RN Paulo San-Bento de Sousa Almeida, 38.º CFORN, 13Abr83/20Mar85;
STEN RN João Carlos Gonçalves Lanzinha, 44.º CFORN, 20Mar85/05Out85*

Quadros Permanentes:
...............................................
2TEN Joaquim António Saloio Ganhão, 26Jan77/25Ago78;
2TEN José Domingos Pereira da Cunha, 25Ago78/02Jun80;
2TEN Eduardo Miguel Cardoso Botelho, 02Jun80/11Mar81;

*Em Outubro de 1985 continuava no comando do navio e a partir desta data não foi possível apurar os comandantes da LFP «Cisne» que ainda se encontra ao efectivo da Armada


Tendo sido comandada por vários oficiais da Reserva Naval, a partir de finais de 1991, passou a ser comandada por oficiais dos Quadros Permanentes.

Até ao final da sua vida operacional não foi possível apurar os comandantes da LFP «Cisne» que, nesta data, já se encontrava abatida ao efectivo dos navios da Armada.




A LFP "Cisne" em mais uma das suas missões.

Navios da mesma classe: «Albatroz», «Açor», «Andorinha», «Águia» e «Cisne»


Fontes:
Texto compilado de Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos da Revista da Armada.


mls

segunda-feira, julho 23, 2018

LFP «Águia» - P 1165


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Águia» - P 1165

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 22 de Maio de 2011)




A LFP «Águia»


Construída nos estaleiros navais do Arsenal do Alfeite e a quarta da classe «Albatroz», com as mesmas características gerais, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 22 de Fevereiro de 1975 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando seis dias depois.

Durante os seus anos de operacionalidade desempenhou missões de fiscalização da pesca na costa continental portuguesa, nomeadamente ao longo da costa algarvia.

Durante os períodos em que tem estado operacional foram comandantes da LFP «Águia» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Abílio Simões de Oliveira Pinheiro, 22.º CFORN, 28Fev75/08Set75;
2TEN RN Manuel Carlos de Azevedo e Melo, 24.º CFORN, 08Set75/21Jan76;
STEN TE RN Lídio Marques Fernandes, 25.º CFORN, 21Jan76/14Set76;
...............................................
STEN RN João Miguel Rocha Frota Cúcio , 30.º CFORN, 24Mar80/11Mar81;
STEN RN José Alexandre Antunes Serra, 32.º CFORN, 11Mar81/10Mar82;
STEN RN Amândio Augusto Pires Águeda, 35.º CFORN, 10Mar82/13Abr83;
STEN RN António Luís Ribeiro Pereira de Sousa, 38º CFORN, 13Abr83/12Mar84;
STEN RN Jorge Fernando da Silva Simão, 43º CFORN, 12Mar84/11Set85;
STEN RN Jorge Manuel Ramos da Silva, 46.º CFORN, 11Set85/05Out85;*

Quadros Permanentes:
...............................................
2TEN Augusto Mourão Ezequiel, 14Set76/15Nov77;
2TEN José António Saramago Fidalgo, 15Nov77/25Ago78;
2TEN Carlos José de Jesus Conceição, 25Ago78/24Mar80;


*Em Outubro de 1985 continuava no comando do navio;
Até ao final da sua vida operacional não foi possível apurar os comandantes da LFP «Águia» que, nesta data, já se encontrava abatida ao efectivo dos navios da Armada.


Em Agosto de 2003, sofreu alterações ao projecto de construção inicial, tendo a peça de 20 mm montada no castelo sido substituída por um "alador" de redes de pesca.

Tendo sido comandada por vários oficiais da Reserva Naval, a partir de finais de 1991, passou a ser comandada por oficiais dos Quadros Permanentes.




A LFP «Águia» atracada em Vila Real de Sto António.

Navios da mesma classe: «Albatroz», «Açor», «Andorinha», «Águia» e «Cisne»


Fontes:
Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada.


mls

domingo, julho 22, 2018

LFP «Andorinha» - P 1164


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Andorinha» - P 1164

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Maio de 2011)




A LFP «Andorinha»


Construída nos estaleiros navais do Arsenal do Alfeite e a terceira da classe «Albatroz», com as mesmas características gerais, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 20 de Dezembro de 1974 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando nesse mesmo dia.

Durante os seus anos de operacionalidade desempenhou missões de fiscalização da pesca na faixa continental portuguesa, nomeadamente ao longo da costa algarvia. Em 30 de Junho de 2001 subiu o rio Douro até Peso da Régua.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Andorinha» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Artur Augusto Leal Mimoso, 22.º CFORN, 20Dez74/08Set75;
2TEN RN Luís Filipe Silva de Castro Vilas-Boas, 25.º CFORN, 08Set75/16Ago76;
2TEN TE RN Miguel de Sousa Ramos Maximiano, 25.º CFORN, 16Ago76/15Nov77;
...............................................
2TEN RN José Jorge Pinto Ribeiro Torres , 29.º CFORN, 28Dez79/16Set80;
2TEN RN António Manuel Perez da Silva Babo, 31.º CFORN, 16Set80/02Set81;
2TEN RN Rui Manuel Perdigão dos Santos Coelho, 32.º CFORN, 02Set81/30Mar83;
2TEN RN Francisco Luís Gomes Osório Bernardo, 38.º CFORN, 30Mar83/17Fev84;
2TEN RN José Carlos Baptista do Nascimento e Silva, 41.º CFORN, 17Fev84/29Mar85;
2TEN RN Henrique Duarte Repolho, 44.º CFORN, 29Mar85/05Out85*

Quadros Permanentes:
...............................................
2TEN Augusto José Brito da Silva, 15Nov77/25Ago78;
2TEN Mário Manuel Lajoso, 25Ago78/28Dez79;


*A partir desta data e até ao final da sua vida operacional não foi possível apurar os comandantes da LFP «Andorinha» que, nesta data, já se encontra abatida ao efectivo dos navios da Armada.






A LFP «Andorinha» a navegar ao largo da costa da Algarve

Navios da mesma classe:
«Albatroz», «Açor», «Andorinha», «Águia» e «Cisne»


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

sábado, julho 21, 2018

Guiné, 1967 - O rio Cacheu num esquiço...


Guiné,1967 - LFG «Lira» no rio Cacheu

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Junho de 2006)





Para montante do Porto de S. Vicente, o leito do rio estreitava perigosamente, pouco excedendo em alguns troços, dois comprimentos de navio.

Sentia-se no ar a pestilência da bolanha, coalhada pela pesada humidade que asfixiava o ar. Pairava uma ameaça constante por detrás da cerrada vegetação.

Uma densa neblina como que amortalhava por inteiro a zona, fazendo pesar ainda mais o silêncio, apenas interrompido pelo piar agudo das aves que debandavam assustadas à passagem da lancha de fiscalização.

Apenas se ouvia o ronronar das máquinas e o ruído do gerador, abafados pelo rufo fechado. As antenas de comunicações curvavam-se para as margens, quase que roçando as pernadas do frondoso tarrafo.

Assomavam os primeiros alvores do dia, o sol coalhado pela humidade do ar deixando ver ao fundo uma embarcação de cabotagem.

Na asa de bombordo da ponte, uma metralhadora MG 42 guarnecida. Tudo parecia sossegado mas a prudência recomendava essa rotina.

Saracoteando-se ora a bombordo ora a estibordo, o Cacheu estendia-se no enfiamento da proa adivinhando-se, mais à frente, uma curva para bombordo de contornos imprecisos.

Outra e mais outra, sempre, numa dança infindável. Desfilavam em sucessão as lalas de Canja, Barro e o porto de Ganturé (Bigene) na região do Olossato.

A proa, recortada pelo reflexo da água, cortava o rio lodoso e barrento, rasgando caminho ao navio para montante, para voltar a fechar à popa. A esteira da água amortecia-se na distância, como se nada tivesse sulcado o leito.

Mais para vante, Porto Coco, Jagali e Tancroal, adensavam o receio de uma possível emboscada nas lalas com a mata ao fundo. Peças guarnecidas a bordadas ou mesmo postos de combate.

Instruções aos artilheiros pelo telefone, o trabalhar dos motores das peças de 40 mm e os cadenciados tiros de reconhecimento. A aproximação à curva seguinte e, de novo, silêncio e o tarrafo.

Lá muito a montante da foz, 95 milhas depois, Farim.

Era assim o Cacheu, místico e traiçoeiro.


Fontes:
Texto do autor com imagem de arquivo cedida por especial cortesia de Carlos Dias Souto (CMG)


mls

terça-feira, julho 17, 2018

Morrer no Cacheu - A Guerra na Guiné


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 31 de Julho de 2012, em memória dos que lá combateram e cairam. Igualmente lembrando os que, tendo regressado, já se não encontram entre nós.)


MORRER NO CACHEU - A GUERRA NA GUINÉ


Terça-feira
Revista do EXPRESSO, 31 de Março de 2001
Artigo de Rui Araújo





Rio Cacheu: o grupo de fuzileiros aguarda numa das margens a chegada da lancha



A lancha de desembarque, LDM 302, atingida pelo fogo dos guerrilheiros, parcialmente submersa


Às 09:20 do dia 19 de Dezembro de 1967, os guerrilheiros do PAIGC abrem fogo com armas pesadas e ligeiras contra a LDM 302 (Lancha de Desembarque Média) em frente da Clareira de Porto do Coco, no rio Cacheu. O primeiro foguete de um RPG 7 rebenta com a casa dos motores. O segundo atinge em cheio a cabine onde está o patrão Domingos Lopes Medeiros.

Estivemos 20 minutos debaixo de fogo. Ficou tudo destruído: o rádio, os taquímetros, não havia nada em condições. A lancha parou, e como a maré estava vazia assentou no lodo, à ré. A casa das máquinas ficou também logo alagada. E ninguém podia fazer nada. Toda a gente estava com estilhaços no corpo. Foi aí que dei com o patrão Medeiros caído. Quando o agarrei pelos braços para o levantar, as pernas caíram para o chão. Estava cortado ao meio, conta o marinheiro Joaquim Claudino da Silva, agora 1º tenente do Corpo de Fuzileiros, antes de mostrar a fotografia da LDM 302 encalhada no Cacheu.

Lopes Medeiros é o último militar português a morrer em combate na Guiné, no ano de 1967. O patrão da LDM 302 estava a pensar regressar daí a uns dias a Chaves. A comissão de 24 meses no Ultramar estava quase terminada.




Fuzileiros da Armada, no rio Cacheu, durante a operação.



Atraquei na ponte-cais de Binta às 9h20 mas fiquei lá pouco tempo. Depois do estrondo das explosões e dos tiros da 302, decidi largar. Entrei na zona perigosa às 11h00. O rio estava calmo, pelo que, a essa hora, foi servido o almoço: bacalhau cozido com grão e batatas. Às 11h40, o Costa (que ia ao leme) avistou a 302 afundada, com a popa debaixo de água. E não havia ninguém à vista. Como a lancha se encontrava mesmo em frente da Clareira de Porto do Coco, esperei que a corrente a levasse para um sítio mais seguro no meio do tarrafe (arbusto conhecido em África por mangal) antes de me aproximar para ver o que tinha acontecido. E, enquanto Claudino da Silva comunicava com Bissau, o marinheiro Conceição prendia um cabo à lancha para a rebocar.

Quinhentos metros depois da Clareira, vi o bote da 302 a sair do tarrafe com quatro homens a bordo. No fundo do bote, estava o Medeiros morto, com os intestinos caídos, ao lado. Nem me quero lembrar disto, conta Domingos da Conceição Capelinha, patrão da LDM 204, num diário de bordo escrito metodicamente, dia após dia, durante 25 longos meses feitos de patrulhas e operações nos rios Cacheu e Armada, no norte da Guiné. O pessoal das lanchas era o mais sacrificado. E tanto assim que todos preferiam andar no Destacamento.

A LDM 302 é rebocada para Ganturé: uma aldeia com quatro ou cinco barracões da CUF, abandonados, e uma ponte de cais degradado que ainda permite a uma lancha atracar.

Quando o Carvalho saltou para a 302 para manobrar os cabos de reboque ou ir lá buscar qualquer coisa, a lancha virou-se e ele, não sei como, ou nadava mal ou se enervou, desapareceu. É provável que tenha sido apanhado por um crocodilo porque ali havia muitos. A verdade é que o grumete artilheiro da 302 sumiu, nunca mais voltou a aparecer. Escapou ao ataque mas não sobreviveu ali, a dois ou três metros de terra, que era a distância a que ele estava do cais. Tinha os dias de vida contados, naquela hora, escreve o cabo Capelinha na letra íntima da indignação contida, porque injustiças daquelas só podem pertencer decididamente ao sagrado.



O aquartelamento de Ganturé onde, a poucos metros da margem, morreu um dos militares envolvidos na operação

A essa hora, em Lisboa, Salazar recebe Bruno Heck, ministro alemão da Família e da Juventude. A audiência concedida pelo Presidente do Conselho é qualificada de cordial, na edição do Diário de Notícias, do dia seguinte.

É o fim de mais uma tarde de invernia na capital. Salazar e Heck começam a dar alguns passos arrastados no cenário triste do jardim da residência, sobe o pano no Palácio das Necessidades para uma outra representação providencial: a conferência de imprensa anual do ministro dos Negócios Estrangeiros para «os representantes portugueses e estrangeiros dos órgãos de informação». O sr. Dr. Franco Nogueira, ladeado pelo secretário nacional da Informação, sr. Dr. Moreira Baptista, e pelo secretário-geral do seu Ministério, sr. Embaixador José Luís Archer, toma a palavra.

Fomos acusados talvez pela centésima vez, de não cumprirmos as resoluções da Assembleia da ONU sobre autodeterminação. A acusação é inteiramente procedente; nunca nos propusemos cumprir tais resoluções, nem nos propomos fazê-lo, e sempre o dissemos lealmente e categoricamente logo de início. Só será de estranhar que, tendo os ataques começado em 1955, vá a Assembleia há quase doze anos perdendo connosco o seu tempo; mas não tem isso importância de maior, porque entretanto, nós vamos ganhando tempo.

Há declarações que com o tempo e a distância acabam por adquirir a solidez de um testamento. Para Franco Nogueira, a primeira frente da nossa guerra em terras de África está na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. A segunda está em Moscovo e acessoriamente em Conacri e em Dacar.

No norte da Guiné, Amílcar Cabral pega num carregador de 71 munições para a PPSH (700/900 tiros por minuto) e inicia mais uma reunião num mangal com o grupo das FARP - os guerrilheiros do PAIGC - que estão a operar na região.

Os rios devem ser vigiados por unidades especiais cuja única missão será destruir à 'bazookada' os barcos portugueses. Ouvimos o motor no rio e a 'bazooka'. Eu repito: podemos fazer mais. Temos que correr com os portugueses. Os barcos não podem continuar a passar, ordena Cabral aos seus guerrilheiros.

A estação das chuvas está praticamente terminada. A época do no pincha tugas (correr com os «portugas») vai começar a sério na Guiné, apesar das divergências internas com as quais o PAIGC está confrontado.

Até 1966, vivendo com grupos itinerantes e necessitando arrastar as populações para o seu seio, predominaram as acções de reacção às NF (Nossas Forças), através de emboscadas e flagelações, acções de saque e destruição junto de populações e tabancas. A partir daí, criado o EP (Exército Popular), pondo as 'unidades' deste a trabalhar em zonas próprias, veio a verificar-se um aumento de acções contra aquartelamentos, em tentativas de fixação, de modo a garantir liberdade de actuação nas suas áreas, lê-se num documento «classificado» do Exército português.

A prioridade é garantir os abastecimentos e para tal é essencial controlar também os rios do norte - Cacheu, Sambuiá, Armada.

De acordo com um outro documento militar «secreto», as cambanças (passagem de uma margem para a outra) no corredor de Sambuiá, considerado o principal corredor de penetração do PAIGC entre o Senegal e a Guiné, representam também uma preocupação para o Comando Operacional português.

As forças portuguesas (sobretudo terrestres) também dependem das vias fluviais num território «recortado por diversos rios navegáveis e sujeitos a marés de elevada amplitude». E dependem acessoriamente das lanchas que permitem fazer a ligação entre os diferentes pontos do território, quer na óptica militar, quer na óptica civil, como alternativa a uma insuficiente rede de estradas e a uma insegurança militar crescente para as duas partes em confronto.

De facto, as lanchas representam em algumas áreas a única forma de suporte logístico: da sua capacidade dependia o êxito de inúmeras missões, a vida de muitos homens e a chegada ao destino de milhares de toneladas de material de guerra e de abastecimento, explica ainda Lopes Carvalheira, na Revista da Armada (nº 292).



Em cima, um protótipo da lancha de desembarque atingida e, em baixo, armamento apreendido aos guerrilheiros do PAIGC


Três ou quatro dias depois do ataque, 35 fuzileiros do DFE 12 chegam a Ganturé (Porto de Bigene) com a missão específica de garantir a segurança do cais e permitir a recuperação da LDM 302. Ou do que ainda resta da lancha, uma das 13 LDM construídas nos EUA e modernizada nos Estaleiros Navais de Argibay. A lancha foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada por portaria de 18 de Janeiro de 1964. Pouco depois seguiu para a Guiné a bordo de um navio mercante, tendo chegado a Bissau no dia 23 de Fevereiro de 1964, escreve Malheiro do Vale, no número 279 da Revista da Armada.

24 de Dezembro de 1967. No Cacheu, é só mais um domingo como os outros porque esta guerra como tantas outras não se rege pelo calendário gregoriano. E hoje, aqui, no meio do rio, não há ceia, não há consoada nem 'missa do galo', e muito menos prendas. O jantar foi feijão-frade com atum, uma garrafa de anis e outra de uísque para se beber um cálice. Às 20:00 deitei-me. Era mais uma noite de nevoeiro. Às 22:00 recebo uma mensagem para esperar por uma avioneta que levaria três urnas e ir ao quartel de Bissum buscar os três soldados mortos, escreve, inconformado, o patrão da LDM 204, sem reparar que a chapa da lancha já está a precisar de ser actualizada há uma data de meses (que aqui acabam sempre por ser uma eternidade).

Às 03:30 do dia 26 de Dezembro, os obuses dos aquartelamentos de Bissum e Bula começam a vomitar fogo. Com aqueles estrondos relativamente perto, pouco dormi. E de manhã, terei de ir buscar mais mortos, escreve o Capelinha no seu diário, sem descortinar outra solução para aquela vida. Sempre cuidou que a única coisa que levava dali era a consciência do dever cumprido. No fim de contas, a divisa da Armada A Pátria honrai que a Pátria vos contempla ainda o interpelava.

No dia 31 de Dezembro, Capelinha decide dar por terminada a sua noitada de réveillon - a roupa está-lhe tão colada ao corpo com o calor e a humidade que parece que é a pele. Depois de jantar mais uma vez, feijão frade com atum, escreve algumas palavras simples e nítidas na página 28 do diário de guerra: Assim findo o ano de 1967. Domingos da Conceição Capelinha. C/M Nº 395955 L.D.M. 204 – Esquadrilha de Lanchas da Guiné. O patrão da 204 coloca o diário no cacifo, apaga a luz, instala o mosquiteiro a modos, puxa do lençol e adormece.

Em Lisboa, o programa de variedades Minuto Zero - com Raul Solnado, Armando Cortez, Francisco Nicholson, Delfina Cruz; as cançonetistas Maria da Glória, Mário Melo, Mimi Gaspar e Simone de Oliveira; os fadistas Carlos do Carmo, Teresa da Silva Carvalho, dr. Luís Góis e o seu conjunto de guitarras, o de Raul Nery e o Duo Ouro Negro - já está no ar no único canal da RTP. É, aliás, o principal programa do segundo período de emissão da Televisão. A guerra só recomeçará amanhã com o programa das FA Ao Serviço da Nação (no segundo período de emissão, com imagem de João Rocha e João Lourenço).

Segunda-feira, 1 de Janeiro de 1968. Às 5h30 começo a ouvir rajadas de metralhadora e rebentamentos em frente do quartel na Mata de Óio. Pensei: aí estão eles, e adormeci, escreve Capelinha.

Em 1968, 78% do orçamento português da Defesa servem para financiar a manutenção e a administração das Forças Armadas estacionadas em África», constata o Stokholm International Peace Research Institute. É um esforço tanto mais significativo quanto Portugal depende essencialmente dos fornecimentos estrangeiros. Mas, apesar das resoluções sempre ambíguas da ONU (31/12/63), não é menos certo que poucos Estados membros continuam a aprovisionar legalmente Lisboa. Só a Alemanha, a Espanha e a França continuam a abastecer Portugal, algumas vezes de forma envergonhada. A França, por exemplo, forneceu a Portugal mais de uma centena de helicópteros «Alouette», depois de 1963. E o regime transfere legalmente este armamento para as suas províncias ultramarinas, aliás, parte integrante do território nacional...

Na Guiné, os fuzileiros especiais (ou navais) dispõem essencialmente de metralhadoras MG, lança-granadas foguetes 'Instalaza' (de fabrico espanhol) que, quando utilizados com as granadas antipessoal e as espingardas automáticas G-3, constituem um armamento perfeitamente adequado para a guerra de guerrilha. Os sistemas de comunicações, pelo contrário, nem sempre correspondem às expectativas.

Já o número de efectivos das FARP (e respectivo potencial de combate) é uma incógnita : restam as estimativas dos militares.

Um documento classificado das Forças Armadas indica que «as características próprias da guerrilha e descontinuidade e fluidez da actuação dos grupos inimigos não permite precisar os efectivos empenhados na luta
.

Só as estimativas permitem esclarecer em definitivo o problema, porquanto os grupos armados enquadram militares treinados no exterior e infiltrados na Província, indivíduos recrutados e treinados sumariamente no interior da Província e ainda elementos de populações controladas. Pode até dizer-se que nas zonas activas de guerrilha, todo o autóctone é um In(imigo, NDR) potencial.

Alguns documentos referem a existência de 9.000 combatentes do PAIGC, sendo 3.000 do Exército Popular e 6.000 da guerrilha popular, entre 1966 e 1967. Uma coisa porém é certa: com o tempo, o número de efectivos do PAIGC continuou a aumentar, tanto no interior como no exterior do território, designadamente nas bases de apoio de Konakry, Boké e Kandiafara.



Nesta e nas outras duas imagens abaixo, os fuzileiros durante a operação no rio Cacheu

De acordo com o testemunho oral (confidencial) da Academia de Marinha do primeiro-tenente Nuno Gonçalo Vieira Matias, comandante do Destacamento Nº 13 de Fuzileiros Especiais (hoje, chefe de Estado-Maior da Armada) os guerrilheiros tinham muito armamento, sobretudo russo, checoslovaco e chinês (de todas as épocas) para além de aparecer uma arma ou outra obtida no mercado internacional - como as pistolas metralhadoras Thompson» - de origem americana.

Um outro relatório reservado das FA descreve, exaustivamente, o potencial das FARP: Utilizando armamento de muitas origens e procedências, presentemente, verifica-se uma maior incidência de armamento russo e países satélites, perfeitamente adequado à guerra que desenvolve. O In apoia-se ainda em técnicos cubanos, existentes em TN (Território Nacional) e no estrangeiro, para melhoria das condições imediatas de utilização do armamento de que dispõe, nomeadamente de armamento pesado. Podem apreciar-se as seguintes fases de apreciação de armamento In: 1ª fase: no início da luta armada, em 1963 e início de 1964, o armamento inimigo caracterizava-se por armas caçadeiras e gentílicas e ainda pistolas, pistolas-metralhadoras, espingardas, granadas de mão e alguns engenhos explosivos; 2ª fase: desde 1964 e até meados de 1966, caracterizado pelo aparecimento de armas pesadas, morteiros 82 e metralhadoras pesadas, bem assim um longo emprego de engenhos explosivos. No final de 1964, assistiu-se ao abandono das armas gentílicas e caçadeiras, sendo estas substituídas por armas automáticas, semi-automáticas e de repetição.

Os portugueses notaram desde Junho de 1966 uma forte melhoria no material pesado (canhões sem recuo e morteiros 120) culminando com o aparecimento de foguetes 120 mm.

Para além da URSS, há mais países a apoiar convictamente as FARP. Um documento classificado revela que os guerrilheiros receberam em 1961 cursos de guerra subversiva (adaptados às características da Guiné) na Checoslováquia, China e Gana, constituindo este o primeiro apoio concreto ao 'partido', feito por países estrangeiros» e, em 1962, ao mesmo tempo que são capturadas as primeiras armas de origem soviética, é também referenciada nova estadia de elementos do PAIGC recebendo instrução de guerra subversiva nos três países já referidos e também em Marrocos, no Mali e na Guiné-Conacri, onde a instrução foi ministrada por argelinos que para o efeito ali se encontravam radicados.

A partir de 1963, ano em que as actividades do inimigo atingem já uma expressão muito significativa - largo uso de armas automáticas e emprego de minas anticarro -, o PAIGC continuou a contar com o auxílio permanente e diversificado dos países já citados (o apoio do Gana só até à queda de N'Krumah) e ainda da Bulgária, RDA, Hungria, Cuba e predominantemente da URSS. E de mais alguns países europeus. Cabral conta ainda com a solidariedade política e material de várias organizações internacionais, designadamente da OUA.

Sábado, 20 de Julho de 1968. Às 23h45 ouvimos um rebentamento e logo a seguir o assobio da carga e o estrondo a uns 50 metros da proa da lancha. Corremos todos para fora do abrigo. A lancha estremeceu. Os fuzileiros também estavam debaixo de fogo. Os rebentamentos do canhão sem recuo continuaram. Os malditos turras não arredavam pé, deviam estar a bater a zona. O patrulha 'Lira' bombardeou então a clareira e aquela cambada de cobardolas que só actuava à traição desandou. Só mesmo assim é que podiam ganhar a guerra, escreve o patrão da LDM 204, revoltado e ao mesmo tempo impotente, certamente por desconhecer Clausewitz e Sun Tzu.

Sábado, 27 de Julho. Bolama, Bolama de Baixo, Uato, Mandinga, Areia Branca, Jabicunda, Canena, Nova Sintra e Cacheu recebem a visita do governador e comandante-chefe da Guiné, brigadeiro António de Spínola, no prosseguimento dos seus contactos directos com as populações e Forças Armadas, comunica a agência noticiosa ANI.

Na altura em que o chefe da província está a efectuar um reconhecimento aéreo do rio Cacheu e do corredor de Sambuiá, o patrão da lancha 204 está a contas com algo mais prosaico: os mosquitos. Estava cheio de comichão de picadelas de mosquitos. Às 14:30 larguei com os fuzileiros do DFE 12. Começou a chover a cântaros.

O segundo-tenente Pedro Serradas Duarte (hoje, capitão de fragata já reformado), imediato do DFE 12 e que na altura comandava o destacamento (cujo comandante era Fernando Gomes Pedrosa), determina que um grupo de 21 fuzileiros especiais comandados por Benjamim Lopes de Abreu parta em sete zebros (botes de borracha com motores de 50 cv) para o rio Tancroal. Missão: montar mais uma emboscada.

Era mais uma operação em que estávamos a atingir objectivos concretos: destruir os meios de cambança. O pessoal emboscado começa a ser atingido por canhão sem recuo, morteiro e metralhadoras pesadas, para além dos inevitáveis tiros de armas ligeiras. Mas tinham que sair dali sem utilizar os motores para não denunciarem a sua posição. A LFG do comandante Dias Souto avançou, entretanto, para a Clareira do Tancroal em simultâneo com 2 LDM e 1 LF, que abriram fogo contra as forças atacantes referenciadas pelo clarão dos disparos do canhão sem recuo. E os fuzileiros lá conseguiram sair do rio. Era mais um ataque por força do sucesso que a operação 'Via Láctea' estava a ter, dada a impossibilidade de o PAIGC fazer chegar ao interior da Guiné o material de guerra de que tanto carecia, conta Serradas Duarte.



Cinco semanas antes tinha começado uma das maiores operações de sempre (decidida por Spínola), destinada a impedir a entrada e a circulação de material do PAIGC.

De acordo com um documento secreto, o corredor das cambanças de Sambuiá era a principal preocupação do Comandante-Chefe. O corredor começava na região de Samine (no Sul do Senegal), passava por Cumbamory e acabava no rio Cacheu. Era aqui que os guerrilheiros cambavam o material de canoa entre Porto de Coco e Porto da Ponta do Pau.

Em 1968, o PAIGC dispõe no sector de Sambuiá de dois bigrupos (cada um deles com 52 homens) que têm por missão proteger as colunas de abastecimento. No sector de Morés existe outro bigrupo e no sector de Biambi mais um. Junto à margem sul do Cacheu opera ainda o grupo de artilharia (comandado por Irénio do Nascimento Lopes, mais conhecido por Réni) cuja principal missão é atacar a navegação portuguesa. A LDM 302 afundada é uma das lanchas que este grupo atacou.

Um documento militar a que o Expresso teve parcialmente acesso indica que o General Spínola mandou quatro Companhias do Exército executar uma operação na península de Sambuiá. A operação não teve sucesso (apagado). O General Spínola deu ordem à Marinha para executar uma operação na mesma península quatro dias depois. Foram utilizados dois Destacamentos, o DFE 13, que seguiu ao longo de um dos rios, e o DFE 12, sob o comando do primeiro-tenente Gomes Pedrosa (um extraordinário combatente) que seguiu junto do outro rio, e conseguiram um sucesso pela surpresa, trazendo populações e sobretudo obtendo informações que mais tarde vieram a permitir que fizessem, talvez, a maior captura de armamento de toda a história do conflito em África.

Por essa razão, dois comandantes de sector do PAIGC foram fuzilados a mando de Nino Vieira. Ansumane Mané confessou, anos mais tarde, que Nino também o queria matar porque os tugas apanharam o material todo. De qualquer modo, a operação terá tido como resultado a extinção quase total dos ataques do PAIGC a sul do rio Cacheu.

Nos jornais da capital, a única informação sobre a Guiné é um comunicado lacónico das Forças Armadas: Morreram em combate o primeiro-cabo 01357567 António André Santos, natural de Vila Nova de Gaia e o soldado da milícia Iero Cajiko.

A actualidade é dominada pelo fogo na Serra do Trancoso (destaque para uma reportagem do jovem jornalista Carlos Pinto Coelho, enviado especial do Diário de Notícias: Costa imensa, calçada de negro. Pedras erguidas como muros, serra acima, e também elas tela do mesmo pintor em fúria: o lume. Por sobre cinza e troncos carbonizados a pedra causticada - a prostração de corpos, o esgotamento de espíritos.), a nomeação de monsenhor Lopes da Cruz para prelado consultor da Comissão Pontifícia e o artigo do «The Tablet» do deputado britânico John Biggs-Davison, publicado no Diário de Notícias: As superpotências pretendem dominar o Mundo, e a África é rica em minerais, em portos e em posições de decisiva vantagem estratégica. Os portugueses já estavam na Guiné quando fomos vencidos na Guerra dos Cem Anos.




Quinta-Feira, 10 de Outubro. Às 08:30 desembarcou metade do Destacamento de Fuzileiros. Estávamos ainda em Bigene quando demos com um turra morto que estava a ir rio abaixo. Tinha dentro de um saco de pergamóide uma máquina fotográfica municiada de tripé, binóculos, uma bússola, uma pistola e uma série de livros de comunismo. O corpo seguiu com a corrente, escreve Capelinha.

Terça-Feira, 23 de Outubro. Às 22h embarco no 'Alfredo da Silva' com destino a Lisboa. Arrumo as minhas coisas no camarote número 20 e subo ao convés para fazer adeus a Bissau.

Quarta-Feira, 1 de Novembro. Entro em casa às 21h, e dou por findo o meu diário de dois anos na guerrilha na província da Guiné Portuguesa.




Fontes:
Texto e imagens compilados integralmente, com a devida autorização e agradecimento pessoal ao jornalista Rui Araújo, a partir do seu artigo publicado na revista do "Jornal Expresso" de 31 de Março de 2001, reportando-se todos os acontecimentos referenciados a essa data de relato;


mls