segunda-feira, outubro 22, 2018

Guiné, 1968 - Brigadeiro António de Spínola


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 11 de Novembro de 2011)


Uma visão satírica do Brigadeiro António de Spínola




(clique na imagem para ampliar)


O BCaç 1933 embarcou para a Guiné em 27Set67 (CCaç 1792 em 28Out67) e regressou em 20Ago69.

Esta Unidade foi comandada pelo TCor Inf Armando Campos Saraiva/TCor Inf Renato Nunes Xavier, constituída pelas CCaç 1790 (Cap Inf José Ponces de Carvalho Aparício) CCaç 1791 (Cap Inf António Maia Correia) e CCaç 1792 (Cap Mil Art António Manuel Conceição Henriques/Cap Art Ricardo António Tavares Antunes Rei/Cap Inf Rui Manuel Gomes Mendonça) e ainda pela CCS (Cap Inf José Bento Guimarâes Figueiral/Cap Inf Carlos Alberto Cardoso.
O Estado-Maior era constituído pelo 2.º Comte, Maj Inf Américo Correia e o OInfOp/Adj Maj Inf Graciano Antunes Henriques.

Tinha como divisa “O que fizermos vos dirá quem somos”.

Veio a assumir a responsabilidade do sector de Nova Lamego abrangendo locais como Bajocunda, Buruntuma, Canquelifá, Piche, Pirada, Madina do Boé e Nova Lamego.

Integrado neste batalhão, seguiu também para aquele território o Alf Médico Alberto Lema Santos. Desempenhou funções de clínico em quase todos aqueles subsectores vindo a ser destacado mais tarde, em final de Abril de 1968, para a CCaç 1801 (Cap Inf José Daniel Barros Adão/Cap Inf António Manuel Pacheco Rosa) responsável pelo subsector do Ingoré, com um pelotão no Sedengal e outras forças igualmente destacadas nos reordenamentos de Antotinha e Apilho, ainda que se mantendo integrada no BCaç 1933.

Num percurso de muitas localidades, consultas, tratamentos, conselhos e confidências, ficou também o insubstituível humor militar de caserna na forma de missivas, descrições, relatos e poesias.

Neste caso particular, estes versos satíricos, policopiados no papel da época, já envelhecido pelo tempo, visando o “Homem Grande de Bissau” ou “Caco Baldé”, como ficou conhecido o então Brigadeiro António de Spínola.




Texto e arranjo gráfico do autor do blogue; documento original cedido por Alberto Lema Santos (Alf. Miliciano médico do BCaç 1933; resumo histórico do BCaç 1933 da Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974), EME, 2002.

mls

sábado, outubro 20, 2018

LFG «Escorpião» e Reserva Naval


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Julho de 2006)


Lanchas de Fiscalização Grandes - LFG «Escorpião» e Reserva Naval






A LFG «Escorpião» - P 375, foi a terceira LFG - Lancha de Fiscalização Grande de 10 idênticas, construída nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 21 de Agosto de 1963.




A LFG «Escorpião» em plena navegação nas águas de Cabo Verde



A LFG «Escorpião» deixou Lisboa em 11Out63, escalando o Funchal, S. Vicente de Cabo Verde onde estacionou com os dois geradores inoperativos, devido a avarias. Após as necessárias reparações, efectuou alguns cruzeiros entre ilhas e apenas rumou à Guiné a 21Dez63, devido a um grave acidente sofrido pelo comandante que foi substituído.

Fundeou em Bissau a 23Dez63 ficando atribuída ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.

Levou a cabo diversas missões de simples cruzeiro, patrulha, fiscalização, transporte de fuzileiros e de militares de outros ramos das FA, tendo participado em diversas operações naquele teatro de guerra.

Igualmente empenhada em escoltas à navegação comercial e transportes de tropas, apoio à oceanografia com colocação de bóias e reparação de marcas.

Participação da LFG «Escorpião» em operações com datas, locais e outras unidades navais, fuzileiros ou forças de terra que integraram as forças participantes:

– 09/11Abr64, Operação Tenaz, Cafine, Rio Cumbijã, DFEs 8 e DFE 9, LFP «Canopus» e LFP «Deneb», LDM 201 e LDM203;

– 21/24Abr64, Operação em “Cametonco”, DFE 7, LDM 202;

– 02/06Ago64, Operação Broca, Catio/Cufar/Bedanda, Rio Cumbijã, DFE 7 e DFE 9, DD «Vouga», LFG «Dragão», LFP «Bellatrix, LFP «Canopus», LDM 301, LDM 306 e LDM 307, LDP 102, LDP 104 e LDP 106, FTs, Paras;

– 24/26Out64, Operação Remate, Cantanhês/Sta. Clara, Rio Cumbijã, DFE 7, DFE 8, DFE 9 e DFE 10, LFG «Hidra», LFP «Canopus», LDM 203, LDM 301, LDM 306 e LDM 307;

– 20/22Set64, Operação Tornado, Cantanhês, Rio Cumbijã, , DFE 7, DFE 9, DFE 10 e DFE 8 (unidade de reserva), FF «Diogo Gomes», LFG «Dragão», LFP «Canopus» e LFP «Deneb», LDM 202, LDM 203, LDM 301, LDM 302, LDM 304, LDM 305, LDM 306 e LDM 307, LDP 101, LDP 102 e LDP 104, NTF Bor, F’s CArt 676, CCav 702, CCav 703 e CCav 704, Pel Paras;

Foi alvo de diversas flagelações e ataques tendo sempre respondido e calado o inimigo. Em 21Dez64 largou com destino a Luanda, onde atracou em 31Dez64 depois de escalar S. Tomé durante dois dias.

Atribuída ao Comando Naval de Angola, no tempo de vida operacional até 1975 e enquanto esteve ao serviço da Marinha, desempenhou múltiplas missões, de fiscalização da pesca, patrulha, escolta e apoio a operações, alternando permanentemente entre Angola e S. Tomé e Príncipe.

No decorrer do ano de 1968, em 4 de Outubro, efectuou exercícios conjuntos cpm a FF «Nuno Tristão». Mais tarde, já decorria o ano de 1969, a 20 de Agosto, em S. Tomé e Príncipe, navegou na companhia dos navios-patrulha «Cacine» e «Cunene»




Em cima, a LFG «Escorpião» participa num exercício com a FF «Nuno Tristão» e, em baixo, navega em companhia dos navios-patrulha acima mencionados, NRP «Cacine» e NRP «Cunene»





Comandaram a LFG «Escorpião» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

1TEN Henrique de Jesus Palma Ferreira Pinto, 21Ago63/14Dez63;
1TEN António Vasco Pinto de Magalhães Martinha, 14Dez63/18Dez63;
1TEN José Olias Maldonado, 18Dez63/12Mar66;
1TEN Raul Trincalhetas Janes Semedo, 12Mar66/11Mai68;
1TEN António Luciano de Sá Homem de Gouveia, 11Mai68/15Mai70;
1TEN José Howel Santos Heitor, 15Mai70/15Mai72;
1TEN Francisco Luis Adragna Quinta, 15Mai72/23Mai74;
1TEN Francisco Ferreira Baptista, 23Mai74/08Abr75;
1TEN Agostinho Vidal de Pinho, 08Abr75/07Ago75;
1TEN José Manuel Belo Varela Castelo, 07Ago75/19Ago75;
1TEN Vitor Manuel Henriques Gonçalo, 19Ago75/30Set75;

Foram seus Imediatos os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Fernando Tavares Farinha, 5.º CEORN;
2TEN RN António Fernandes Cláudio, 6.º CEORN;
2TEN RN José Rui Marinho Centeno da Costa, 8.º CEORN;
2TEN RN Silas Esteves Pego, 11.º CFORN




STEN RN Silas Esteves Pego, 11.º CFORN, oficial imediato da LFG «Escorpião»

Quadros Permanentes:

2TEN Rui Manuel de Sá Leal;
2TEN Augusto César da Gama Ferreira de Carvalho;

Em 30de Setembro de 1975, em Luanda, foi abatida ao efectivo dos navios da Armada.

Efectuou na totalidade, entre 1963 e 1975, cerca de 11.747 horas de navegação com alguns registos imprecisos ou inexistentes.


Fontes:
Texto redigido, compilado e adaptado pelo autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar, 15.º Volume, Comissão Cultural de Marinha, 2004; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; imagens de arquivo do autor, cedidas pelo Arquivo de Marinha, Revista da Armada, Museu de Marinha e STEN RN (lic) Silas Esteves Pego - 11.º CFORN;


mls

quarta-feira, outubro 17, 2018

Guiné, 1967 – Rio Cacine (II)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Novembro de 2011)


Guiné, 1961/1971 - A LFP «Deneb»





1967 - A LFP «Deneb» fundeada frente a Cacine


Apenas como mero e aleatório exemplo ou simples exercício de síntese histórica, tendo como intuito dar a compreender alterações de estratégia quase imperceptíveis na política prosseguida pelo Comando de Defesa Marítima da Guiné ao longo do tempo, decidi pegar na LFP «Deneb», a última das três primeiras LFP - Lanchas de Fiscalização Pequenas da classe «Bellatrix» a rumar à Guiné onde, a bordo de um navio mercante, chegou em Junho de 1961.

Tal como as outras duas anteriores, as LFP «Bellatrix» e LFP «Canopus», foram inicialmente comandadas por um Sargento da classe de Manobra (M). Levaram a cabo o adestramento da guarnição e exercícios de tiro, operando em áreas próximas de Bissau, no rio Geba, efectuando também apoios à navegação de que se podem destacar, por exemplo, a colaboração com o NH «Pedro Nunes» e a escolta ao NM «Conceição Maria».

No princípio de Outubro navegou com oficiais da Reserva Naval, embarcando afinal aqueles que viriam a ser nomeados, alguns dias mais tarde, a partir do dia 18, como Comandantes daquelas unidades navais.

Assim sucedeu com os Asp RN Fernando Manuel da Silva Ferreira, Asp RN Joaquim Madeira Terenas e Asp RN Armando Fernandes Peres para as LFP «Bellatrix», LFP «Canopus» e LFP «Deneb», respectivamente, todos pertencentes ao 3.º CEORN – Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval.




A partir dessa altura, o alcance das missões operacionais atribuídas às LFP foi alargado, para norte, às bacias hidrográficas dos rios Mansoa e Cacheu. Ainda alternativamente, para sul, passou a estender-se às bacias hidrográficas dos rios, Tombali, Cobade, Cumbijã e Cacine, incluindo afluentes e canais.

Durante todo o ano de 1962 houve especial incidência de acções nas quase 90 milhas do rio Cacheu, com múltiplas operações de fiscalização, patrulha e apoio à navegação comercial com escoltas a combóios, ainda que deslocações pontuais a outras bacias hidrográficas se acrescentassem a esta intensa actividade operacional.

Como apontamento especial, em 12 de Abril, embarcaram em Farim com o navio fundeado, o Governador-Geral da Província CFR Peixoto Correia e o Subchefe do Estado-Maior da Armada CALM Armando Roboredo que, horas mais tarde regressaram a terra depois de navegarem até Binta.

No decorrer do ano de 1963, manteve-se aquele figurino operacional com destaque para um aumento da participação em operações levadas a cabo pelo CDMG e um lento deslocamento da incidência de actuação de norte para sul do território.

A estas modificações não terá sido alheia a chegada àquele território das Lanchas de Fiscalização Grandes, LFG «Argos», LFG «Dragão» e, mais tarde, a LFG «Escorpião» a partir do segundo semestre do ano. Maior capacidade de manobra e versatilidade de utilização, rapidez, poder de fogo e a possibilidade de transportar a bordo fuzileiros na realização ou no apoio a operações justificavam a sua utilização preferencial no rio Cacheu.

Em 8 de Agosto, enquanto fundeada em S. Vicente, num acidente originado por se ter voltado um bote plástico, quando procuravam atracar à LFP «Deneb» depois de terem efectuado uma patrulha, pereceram afogados os 2GR FZ 17371 António Domingos Abreu e 2GR FZ 16878 José Mariano dos Reis, ambos pertencentes à CF 3, embarcados ao serviço daquela unidade naval.

Resultaram infrutíferas todas as tentativas para resgatar os corpos. Durante todo o resto do ano e até meados de 1966 não regressaria ao rio Cacheu quedando-se quer pelo rio Mansoa quer nos outros rios, a sul do território.



1967 - Do lado de dentro do arame farpado do aquartelamento, a LFP «Deneb» fundeada frente ao cais de Cacine

O início do ano de 1964, de 13 de Janeiro a 22 de Março, foi marcado pela participação na operação «Tridente», conjuntamente com a LFP «Canopus», prosseguindo durante parte do ano a acção de fiscalização e patrulha no sul com participação em diversas operações levadas a cabo.

Em Agosto e Setembro, com o apoio de esquadras de fuzileiros, aumentou a frequência de acções de fiscalização e patrulha com alguns desembarques na área dos rios Cumbijã e Cacine, afluentes e canais com algumas respostas a flagelações sofridas em resposta a ataques inimigos e o afundamento de várias canoas.




Cacine, 1967 - Na LFP «Deneb», à esquerda, o 1TEN José Luis Leiria Pinto, Comandante do DFE 6 e, à direita, o CTEN José Afonso de Sousa Guimarães, Comandante do INAB (Instalações Navais de Bissau)

No rio Cacine, na margem direita, passaram a ficar referenciados como pontos de prováveis acções futuras de flagelação inimiga a Ponta Canabém (Canábria), na confluência na foz do rio Chaquebante e, um pouco mais a juzante, a confluência dos rios Pachicã e Sôco. Ainda mais para no sentido da foz, na mesma margem, o Canal de Melo (rio Massancano) permitia que, com as condições de maré adequadas, as LFP e as LDM atravessassem do rio Cacine para o rio Cumbijã, e inversamente, evitando a barra e encurtando muito quer o percurso a efectuar quer os tempos dispendidos na travessia.

No mês de Novembro, no decorrer da operação “Dueto”, embarcaram na LFP «Deneb» o Comandante da Defesa Marítima da Guiné - CMG Av Ferrer Caeiro, o Chefe do Estado-Maior - CFR Mário Dias Martins e o Subchefe do Estado-Maior - CTEN Adriano de Carvalho.

Na margem esquerda o aquartelamento de Cacine e o reforço das FTs mantido em Cameconde, a cerca de oito quilómetros, marcavam o limiar da zona controlada pelas nossa Forças. Para juzante, o Quitafine, era quase na totalidade controlado pelo PAIGC com pontos referenciados na ponta Campeane, Pampaire, foz do rio Poxiuco e toda a península para sudoeste.

Próximo do final do ano, em meados de Dezembro, numa acção de fogo ao prestar apoio aos fuzileiros na margem esquerda do rio Cacine, no Quitafine, terá sido referenciado, ainda numa fase inicial, na zona de Cassumba, a existência de forte actividade inimiga, local onde viria a ser edificada uma fortificação, tipo “bunker”, alojando peças anti-carro de 57 mm, baptizados mais tarde como “Os Canhões de Navarone”, com que o IN a passaria a alvejar as unidades navais que demandavam a barra.



Em cima o "Gouveia 17" e, em baixo, o "Bigene"


Dentro dos mesmos padrões de actuação operacional se manteve a actividade da LFP «Deneb» no decorrer de 1965 e princípio de 1966, regressando a uma pontual presença no rio Cacheu em fins de Maio, quando escoltou as embarcações comerciais “Gouveia 17”, “Bigene” e “Calequisse” na última semana daquele mês.



O "Calequisse"

Não voltou a desempenhar qualquer missão naquele rio até 1968, prosseguindo sempre a actividade operacional no sul, alternando apoio a operações com missões de fiscalização e patrulha, escolta a combóios sendo alvo de diversos ataques e flagelações, a que respondeu sempre com êxito e sem baixas.

Especial destaque para a participação na foz do Cacine, contra as posições inimigas em Cassumba, no apoio às LFG «Sagitário» e LFG «Cassiopeia» levada a cabo sob o Comando da FAP nas operações Sayonara I e Sayonara II em 1 e 7 de Dezembro de 1966, respectivamente.

Em Maio de 1968, o Comandante-Chefe, Brigadeiro António de Spínola alterou profundamente a estratégia a prosseguir pelo dispositivo naval disponível no território, atribuindo prioridade a múltiplos tipos de acções no rio Cacheu que visassem dificultar, impedir e cortar “cambanças” de pessoal e material inimigo nos corredores tradicionais do Sitató, Jumbembem, Sambuiá e Canja.

Para isso, através de directivas emanadas do Gabinete do Comandante Chefe e através do CDMG, foi activada a operação “Via Láctea” e mais tarde a operação "Andrómeda" a que foram atribuídos meios navais e fuzileiros que passaram a incluir LFG, LFP, LDM e DFE.

A LFP «Deneb» regressou às missões no rio Cacheu tal como as LFP «Bellatrix» e LFP «Canopus». Mais tarde, novas construções como as LFP “Arcturus”, LFP «Aldebaran, LFP «Procion», LFP «Alvor» e LFP «Aljezur» se juntaram ao dispositivo naval existente naquele teatro.

No decorrer de todo aquele ano e quase por inteiro no ano de 1969, a LFP «Deneb» foi intensamente solicitada em acções diversas, flagelações e respostas a ataques no rio Cacheu, em operações no âmbito das missões atribuídas.

Até ao final do ano, em Agosto, ainda patrulhou por um curto periodo o rio Grande de Buba, “encostando” em Bissau no virar do ano. Reparações diversas, demoras excessivas no fornecimento de algumas peças ou sobressalentes e ausência de outros, com experiência de máquinas, atiraram um estado de prontidão, “apenas aceitável”, para o mês de Setembro de 1970.

Já em 1971, depois de algumas missões sem exigências excessivas atribuídas no curso inferior dos rios Cacheu, rio Grande de Buba, Geba confluência com o Corubal ou patrulhas nocturnas no Porto de Bissau, aquela LFP subiu o plano inclinado do SAO a 1 de Julho, onde foi minuciosamente vistoriada.

A Comissão encarregue do trabalho, concluiu que não se justificava a recuperação da LFP «Deneb» devido à extensão das corrosões, deformações e respectiva estrutura geral, inviabilizando economicamente uma reparação com esse objectivo. Assim foi proposto o desarmamento e abate que se veio a efectivar em 3 de Fevereiro.

Das três primeiras LFP que estiveram na Guiné, as LFP «Bellatrix», LFP «Canopus» e LFP «Deneb», esta lancha foi a última a ser aumentada ao efectivo e também a primeira a ser abatida.




Por isso mesmo, talvez a tenha escolhido para este exemplo, agora com o infeliz acrescento de que, neste percurso temporal daquela unidade naval, dois “marinheiros” perderam dramaticamente a vida em missão de serviço.

Aqui lhes prestamos sentida homenagem.




Fontes:
Texto do autor do blogue; Carta da província da Guiné, Ministério do Ultramar, 1961; Fotos da LFP «Deneb» cedidas por Emídio Aragão Teixeira, 8.º CEORN; Arquivo de Marinha; Setenta e Cinco Anos No Mar, LFP - 17.º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2006.


mls

segunda-feira, outubro 15, 2018

Guiné, 1969 – Rio Cacine (I)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 17 de Outubro de 2011)


Condições de navegabilidade do rio Cacine


(clique na imagem para ampliar)



Aspecto geral do rio Cacine e a região sul da Guiné; a noroeste, os rios Cumbijã, Tombali e ainda o Cobade que liga os dois primeiros


O rio Cacine encontrava-se todo hidrografado e era demandado por todas as unidades navais e embarcações civis da Guiné. As LDG - Lanchas de Desembarque Grande, normalmente não passavam para montante da foz do rio Meldabom, um dos principais afluentes da margem direita do Cacine.

Ali foi instalada a marca “Lira” que, assinalando um assoreamento rochoso, representava o limite de navegação possível a montante.

Gadamael

Fica situado no rio Queruano ou rio Axe, afluente da margem esquerda do Cacine, e o seu acesso só era possível a cerca de duas horas antes do estofo da preia-mar, devendo as unidades navais sair naquele momento, para evitar ficar em seco, situação não aconselhável pela situação militar vivida na zona.

Só era praticável por LDM - Lanchas de Desembarque Médias e por embarcações civis de pequena tonelagem, normalmente estacionadas em Cacine que efectuassem transportes de viaturas, artilharia e pessoal militar ou reabastecimento das Forças de Terra a partir do cais daquela povoação.

Perto da entrada do rio Queruano, num emaranhado de confluências dos rios Cafungaqui, Diderigabi e Cacondo, um pouco a juzante, existia uma rocha no fundo que exigia precauções especiais à navegação que demandava Gadamael.

Aquele porto era de dimensões muito restritas e a sua entrada também se encontrava ameaçada por pronunciado assoreamento. Era dotado de um bom cais, onde atracavam as LDM e as embarcações civis, existindo ainda a montante daquele local, um declive natural na própria margem onde as lanchas abicavam.

Era no entanto um aterro pouco consistente ficando o lôdo a descoberto com a vazante. Todo o interior do porto junto ao cais se encontrava assoreado e, no baixa-mar, ficava em seco uma grande extensão do rio.

(clique na imagem para ampliar)



Barras dos rios Cumbijã e Cacine

Cacine

Situado na margem esquerda do rio com o mesmo nome, entre as Pontas Bachao e Camassanhe, era demandado por embarcações civis com escolta e por unidades navais de todos os tipos que se encontravam naquele teatro, constituindo um terminal de cargas para as FTs estacionadas em Gadamael e de escoamento de alguns produtos para Bissau, sobretudo coconote.

Possuía uma ponte-cais que permitia a atracação de LDM ou embarcações civis, para carga e descargas, mas que fica totalmente a seco no baixa-mar.

As LDM abicavam mais a juzante da ponte-cais, a cerca de 300 jardas, num local onde a margem fazia uma pequena saliência arredondada, havendo uma estrada que, ao longo da margem, dava acesso à povoação. Para melhorar as condições de abicagem, teria sido necessário proceder à colocação de quatro cabeços em terra, convenientemente dispostos, para a amarração destas unidades navais quando abicadas.

Por outro lado, logo a juzante do local de abicagem existia uma zona de fundos mais baixos que poderia ter sido mais dragada, evitando quaisquer encalhes com pequeno abatimentos, sempre fácil de se verificarem. O tempo de permanência na abicagem, era de cerca de duas horas e meia para as LDG, devendo sair com o preia-mar, nunca ficando junto a Cacine por não ser indicado militarmente.

Eram frequentes as flagelações da margem contrária, a partir da zona conhecida como Ponta Canabém, junto à foz do rio Chaquebante, com morteiro e metralhadora pesada.

Outras unidades navais como as – LFG - Lanchas de Ficalização Grandes ou as – LFP - Lanchas de Fiscalização pequenas , utilizavam com frequência a foz do rio Imberem como fundeadouro, por considerarem o local mais seguro contra eventuais flagelações, o que faria supor a possibilidade de tentar arranjar um local de abicagem com mais segurança e maiores fundos, situação que se adivinhava simples de implementar na Ponta Camassanhe, pelo desenho da própria carta.

Essa alternativa implicava considerar um acesso àquela ponta, a partir da povoação, e que nunca chegou a existir.


Fontes:
Carta 220 da Missão Geo-Hidrográfica da Guiné, Barra dos rios Cumbijã e Cacine, 1959-1964, por cortesia do Instituto Hidrográfico; Carta da província da Guiné, Ministério do Ultramar, 1961; Arquivo de Marinha.


mls

domingo, outubro 14, 2018

LFG «Dragão» - Protocolo de entrega ao Governo Português pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo


16 de Julho de 1963 - Protocolo de Entrega da LFG «Dragão»





Em 16 de Julho de 1963 foi assinado, em papel selado, o "Protocolo de Entrega" da segunda lancha-patrulha, a LFG «Dragão», entre os Estaleiros Navais de Viana do Castelo e o Governo Português, com representantes de ambas as partes, num contrato que visava a construção de três unidades navais idênticas.

De um total de 10 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes idênticas, viriam a ser construídas nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo as primeiras quatro (4), a saber: LFG «Argos», LFG «Dragão», LFG «Escorpião» e LFG «Pégaso».

As restantes seis (6) seriam construídas nos Estaleiros Navais do Arsenal do Alfeite, como segue: LFG «Cassiopeia», LFG «Hidra», LFG «Lira», LFG «Orion», LFG «Centauro» e LFG »Sagitário».

Esta última foi entregue em 4 de Setembro de 1965. De salientar a notável capacidade revelada da construção naval nacional, com capacidade para construir 10 unidades navais deste tipo em apenas 2 anos e 3 meses.





A LFG «Dragão» a navegar

Fontes:
Texto redigido pelo autor do blogue compilado e coligido a partir de Setenta e Cinco Anos no Mar, 15.º Volume, Comissão Cultural de Marinha, 2004; imagens de arquivo do autor, cedidas pelo Arquivo de Marinha, Revista da Armada, e José Pires de Lima, 4.º CEORN;


mls

quinta-feira, outubro 11, 2018

LFG «Dragão» e Reserva Naval


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 16 de Julho de 2006)


Lanchas de Fiscalização Grandes - LFG «Dragão» e "Reserva Naval"





A LFG «Dragão» - P 374, foi a segunda LFG - Lancha de Fiscalização Grande, de 10 idênticas, construída nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 17 de Julho de 1963.

Construída nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 17 de Julho de 1963.




A LFG «Dragão» a navegar com encaixe fotográfico de pormenor - o sino daquela unidade naval

A LFG «Dragão» deixou Lisboa escalando o Funchal, S. Vicente de Cabo Verde e Bissau, onde atracou em 19Ago63 ficando atribuída ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.

Em 28 de Agosto de 1963, a LFG Dragão inaugurou as missões de patrulha e fiscalização do rio Cacheu que se viria a tornar a mais extensa e intensiva zona de pressão da Marinha sobre o PAIGC, ao longo de todo o período da guerra, numa permanente tentativa de interceptar e impedir as cambanças na fronteira norte pelo IN a partir do Senegal.

Levou a cabo diversas missões de simples cruzeiro, patrulha, fiscalização, transporte de fuzileiros e de militares de outros ramos das FA, tendo participado em diversas operações naquele teatro de guerra.

Igualmente empenhada em escoltas à navegação comercial e transportes de tropas, apoio à oceanografia com colocação de bóias e reparação de marcas.




Participação da LFG «Dragão» em operações com datas, locais e outras unidades navais, fuzileiros ou forças de terra que integraram as forças participantes:

14/15Nov63 - Operação Júpiter, DFE 2 e DFE 8 (3 Secções), LFG «Dragão», LD 2 e LD 4, CP 111(1 Pel);



Resumo:

A Operação "Júpiter" foi a primeira operação em que interveio uma LFG - Lancha de Fiscalização Grande, neste caso como unidade de apoio.

Foi levada a cabo em 13/14 de Novembro, em Jabadá, no rio Geba e teve a participação da LFG «Dragão» que transportava uma secção do DFE 2 e dois botes daquele destacamento.

As LD 2 e LD4 transportavam 4 secções do DFE 2 e o ferry-boat Bor 3 secções do DFE 8 com 1 pelotão da Companhia de Paraquedistas 111.

Ao cair da noite do dia 13, pelas 19:30, depois de uma concentração prévia em Ganduá Porto, utilizado como fundeadouro numa manobra de diversão, as LD 2 e LD 4 que levavam a bordo 4 secções do DFE2, a quem competia o cerco da tabanca de Jabadá, efectuaram o desembarque do pessoal no ponto previsto A com o apoio radar da LFG «Dragão», tendo aquelas unidades regressado ao local de concentração pelas 23:00.

Mais tarde, a LFG «Dragão a navegar com as LD de braço dado, uma a cada bordo, lançou os 2 botes com o restante pessoal do DFE 2 , no ponto previsto B da ordem de operações, regressando para junto do Bor.

De madrugada, a LFG «Dragão», já com as esquadras e botes recolhidos e depois de previamente efectuado, para as LD, o transbordo das 3 secções do DFE 8 e do pelotão de paraquedistas abriu fogo de reconhecimento sobre a zona prevista para desembarque.

Pouco antes foi alvejado com tiros de espingarda sem consequência, tendo as forças sido desembarcadas no ponto C.

O navio fundeou frente a Jabadá ficando a seu cargo o controlo das comunicações e o envio dos comunicados para o CDMG enquanto decorreu a operação.

A meio da tarde procedeu-se ao reembarque das forças tendo as unidades sido hostilizadas novamente com tiros de espingarda e pistola ao que a LFG «Dragão» respondeu com Bofors, calando o inimigo.



Outras operações:

– Desembarque no Ilhéu de Tabacunda, 11Dez63, DFE 8 (3 Secções), LD 2 e LD 4, CP 111(1 Pel);

– Operação Tridente, 14Jan/25Mar64, Ilhas de Como, Caiar e Catunco, Rios Cumbijã/Cacine, com a LFG «Argos», DD «Vouga», FF «Nuno Tristão», outros meios navais e FT;

– Operação Touro, 29/30Mai64, DFE 2, DFE 7, DFE 8 e DFE 9, Rios Cumbijã/Cacine, LFP «Canopus», LDM 202, LDM 302, LDM 305 e LDM 307, NTF «Bor»;

– Operação Tulipa, 06/08Jul64, DFE 7, DFE 8, DFE 9 e DFE 10, Cassumba, Rio Cacine, NH «Pedro Nunes», LFG «Argos», LFP «Deneb», LDM 301 e LDM 305, LDP 101 e LDP 104;

– Operação Broca, 02/06Ago64, Catio/Cufar/Bedanda, Rio Cumbijã, DFE 7 e DFE 9, DD «Vouga», LFP «Bellatrix» e LFP «Canopus», LDM 301, LDM 306 e LDM 307, LDP 102, 104 e 106, FTs, Paras;

– Operação Crato, 17/21Ago64, Jabadá/Gã Pedro/Jufá/S.José/Bissilão, Rio Geba, DFE 8 e DFE 9, DD «Vouga», LDM 203, LDM 301, LDM 304, LDM 305 e LDM 307;

– Operação Tornado, 20/22Set64, Cantanhês, Rio Cumbijã, DFE 7, DFE 9, DFE 10 e DFE 8(unidade de reserva), FF «Diogo Gomes», LFG «Escorpião», LFP «Canopus» e LFP «Deneb», LDM 202, LDM 203, LDM 301, LDM 302, LDM 304, LDM 305, LDM 306 e LDM 307, LDP 101, LDP 102 e LDP 104, NTF «Bor», FTs CArt 676, CCav 702, Ccav 703 e CCav704, Pel Paras;

Foi alvo de diversas flagelações e ataques tendo sido violentamente emboscada no rio Cacheu em 26 de Dezembro de 1963, com metralhadora pesada. Ainda que sem baixas na guarnição, sofreu 18 impates com perfuração e alguns danos materiais.




Mensagem para o CDMG do relato da emboscada sofrida

Em 10Out64, na companhia da LFG «Argos», largou com destino a Moçambique, tendo escalado S. Tomé, Luanda, Lobito, Capetown, Durban e Lourenço Marques, onde atracou a 23Fev65, ficando atribuída ao Comando Naval de Moçambique.

Depois de vários cruzeiros de fiscalização e patrulha na costa moçambicana, aportou a Porto Amélia em 23Jun65, ficando atribuída àquele Comando de Defesa Marítima. Regressou a Lourenço Marques em 27Out65, alternando entre docagens com reparações, patrulha da costa moçambicana quer atribuída ao Comando de Defesa Marítima de Porto Amélia quer atribuída ao Comando Naval de Moçambique.

No decorrer do ano de 1968 manteve a actividade operacional participando nas seguintes operações:

"Arinque" com DFE 9, "Bailéu" com DFE 9, "Cadernal" com DFE 1, "Dala" com DFE 1, "Estai" com DFE 1, "Fálica" com DFE 1, "Gurupés" com DFE 4, "Almadia" com DFE 9 e "Brigue" com DFE 1.

Durante o ano de 1969, manteve a actividade operacional na costa norte de Moçambique, tendo participado nas operações "Caíque" de 04/08Jan e "Dori" de 14/15Jan, regressando em Maio a Lourenço Marques, onde veio a docar para fabricos, com escala pela Beira.




Em cima, a LFG «Dragão» atracada, por bombordo, no cais em Porto Amélia, com a LFP «Antares» de braço dado e, em baixo, situação idêntica mas em posição invertida no cais.



Em Julho de 1969, iniciou o regresso à Guiné, onde permaneceu até ao final da sua vida operacional, tendo voltado a participar em inúmeras missões.

No decorrer do ano de 1970 participou nas operações "Carapau" de 02/03Ago, "Cardume" em 02Set, "Cascavel" de 05/06NOut.

De 17 a 27 Novembro de 1970 participou na operação "Mar Verde", conjuntamente com as LFG "Cassiopeia", LFG "Hidra", LFG "Orion", LDG "Montante", LDG "Bombarda", DFE 21 e ainda uma Companhia de Comandos Africanos.

Efectuou na totalidade, entre 1963 e 1975, cerca de 8.490 horas de navegação registadas.

Comandaram a LFG "Dragão" os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

1TEN José Alberto Lopes Carvalheira, 19Jul63/09Out65;
1TEN Jorge Marques Freire Bandeira Duarte, 09Out65/14Fev67;
1TEN Pedro Monteiro Fiadeiro, 14Fev67/07Mar69;
1TEN António Alexandre Welti Duque Martinho, 07Mar69/02Jan71;
1TEN Francisco José Morgado Castro e Silva, 02Jan71/15Out72;
1TEN Carlos Alberto Mano Simões Lopes, 15Out72/16Jul74;
1TEN Manuel Raúl Ferreira Pires, 16Jul74/20Mar75;

Foram seus Imediatos os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Godofredo dos Santos Marques dos Reis, 5.º CEORN;
2TEN RN José Fernando Ferreira Guimarães, 7.º CEORN;
2TEN RN Fernando Rabaça Correia Cordeiro, 9.º CFORN;
2TEN RN Gaspar Miranda Teixeira, 13.º CFORN;
2TEN RN Francisco Almeida d' Oliveira Baptista, 17.º CFORN;
2TEN RN José Manuel Soares Dionísio, 19.º CFORN;
2TEN RN João Manuel da Silva Cunha, 21.º CFORN;
2TEN RN José Amaro Marques Nunes, 20.º CFORN;

Em 03Dez1975, após uma longa viagem de Cabo Verde para Angola, numa distância superior a 3.000 milhas, na companhia das LFG «Argos», LFG «Hidra», todas rebocadas pelo NA «Schultz Xavier» e ainda com as LFG «Hidra» e LFG «Orion», ambas a navegar pelos próprios meios. Viagem efectuada também com as LDG «Alfange» e LDG «Ariete», o navio-rebocador já referido e a corveta «António Enes» naquele combóio que ficou conhecido como a "Incrível Armada".

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 28Mai75.

Efectuou na totalidade, entre 1963 e 1975, cerca de 8.490 horas de navegação, havendo outros períodos não registados ou menos precisos nos registos.


Fontes:
Texto redigido, compilado e adaptado pelo autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar, 15.º Volume, Comissão Cultural de Marinha, 2004; Comissão Coloredo 042/042A/042B/042C/042D; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; imagens de arquivo do autor, cedidas pelo Arquivo de Marinha, Revista da Armada, Museu de Marinha e outras origens diversas;


mls

quarta-feira, outubro 10, 2018

LFG «Argos» - Protocolo de entrega ao Governo Português pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo


24 de Junho de 1963 - Protocolo de Entrega da LFG «Argos»





Em 24 de Junho de 1963 foi assinado, em papel selado, o "Protocolo de Entrega" da LFG «Argos» entre os Estaleiros Navais de Viana do Castelo e o Governo Português, com representantes de ambas as partes, num contrato que visava a construção de três lanchas-patrulhas.

De um total de 10 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes idênticas, viriam a ser construídas nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo as primeiras quatro (4), a saber: LFG «Argos», LFG «Dragão», LFG «Escorpião» e LFG «Pégaso».

As restantes seis (6) seriam construídas nos Estaleiros Navais do Arsenal do Alfeite, como segue: LFG «Cassiopeia», LFG «Hidra», LFG «Lira», LFG «Orion», LFG «Centauro» e LFG »Sagitário».

Esta última foi entregue em 4 de Setembro de 1965. De salientar a notável capacidade revelada da construção naval nacional, com capacidade para construir 10 unidades navais deste tipo em apenas 2 anos e 3 meses.





Vista aérea dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo

Fontes:
Texto redigido pelo autor do blogue compilado e coligido a partir de Setenta e Cinco Anos no Mar, 15.º Volume, Comissão Cultural de Marinha, 2004; imagens de arquivo do autor, cedidas pelo Arquivo de Marinha, Revista da Armada, e José Pires de Lima, 4.º CEORN;


mls

domingo, outubro 07, 2018

LFG classe «Argos» - Perfis de construção naval


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 18 de Julho de 2006)


LFG da classe «Argos» - Diferentes perfis de construção


As imagens que abaixo se publicam são elucidativas quanto às diferenças de visualização de perfil lateral de construção:



1 - Um esboço a carvão antes da construção inicial.






2 - A LFG «Escorpião» a navegar nas águas de Cabo Verde. Ainda que tenha esteja inicialmente na Guiné, em Ago1963/Dez1964, rumou a Angola tendo ficado atribuída àquele Comando Naval durante todo o tempo de vida operacional, em conjunto com as LFG «Pégaso» e LFG «Centauro» que para aquele teatro foram directamente.

Em nenhuma delas foi instalada chapa balística de protecção.







3 - A LFG «Orion» navega na Guiné, rio Cacheu; pode observar-se que a ponte, casa das máquinas e motores auxiliares tinham protecção blindada com chapa balística de um quarto de polegada.




Da mesma forma foram equipadas as LFG «Cassiopeia», LFG «Hidra», LFG «Lira» e LFG »Sagitário», sendo que as 5 passaram toda a sua vida operacional atribuídas ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.

Uma particularidade distinguiu a LFG «Sagitário» por o próprio casco, nas zonas referidas, já vir equipado com chapa balística, o que lhe permitia uma velocidade superior em 2/3 nós superior a todas as outras.

As LFG «Argos» - a primeira a ser construída - e a LFG «Dragão», tal como a LFG «Escorpião», estacionaram inicialmente na Guiné, nos anos de 1963/1964, rumaram a Moçambique tendo ficado atribuídas àquele Comando Naval.

Regressando anos mais tarde à Guiné para justificado reforço do dispositivo naval, as LFG «Dragão» em Jul69 e a LFG «Argos» em Jan70, foram nessa altura equipadas com o mesmo tipo de protecção.




Fontes:
Texto do autor compilado a partir de Setenta e Cinco Anos no Mar, 15.º Volume, Comissão Cultural de Marinha, 2004; fotos de arquivo do autor cedidas pelo Arquivo de Marinha;


mls

sexta-feira, outubro 05, 2018

LFG «Argos» e Reserva Naval


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 8 de Julho de 2006)


Lanchas de Fiscalização Grandes - LFG «Argos» e "Reserva Naval"






Cresta da LFG «Argos» e Caracteristicas Gerais


A LFG «Argos» - P 372, foi a primeira LFG - Lancha de Fiscalização Grande de 10 idênticas e que deu o nome à classe.

Construída nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e aumentada ao efectivo dos navios da Armada em Junho de 1963.




Na Doca de Marinha o CEMA, Almirante Armando Roboredo e Silva, é recebido pelo comandante da LFG «Argos», o então 1TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus, antes de largar para a Guiné

A LFG «Argos» deixou Lisboa em Julho, escalando o Funchal, S. Vicente e Bissau, onde atracou em 30Jul63 ficando atribuída ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.




A LFG «Argos» a navegar

Participação da LFG «Argos» em operações com datas, locais e outras unidades navais, fuzileiros ou forças de terra que integraram as forças participantes:

06Ago63 - Iniciou as missões diversas que lhe foram sendo atribuídas e participou numa primeira operação "Desembarque no Ilhéu da Tabacunda" em conjunto com a LFP «Deneb» e 3 Secções do DFE 8;

14Jan/25Mar64 - Operação Tridente, Ilhas de Como, Caiar e Catunco, Rios Cumbijã/Cacine, com a LFG «Dragão», DD «Vouga», FF «Nuno Tristão», outros meios navais e FT;

06/08Jul64 - Operação Tulipa, Cassumba, rio Cacine, com DFE 7, DFE 8, DFE 9 e DFE 10, NH «Pedro Nunes», LFG «Dragão», LFP «Deneb», LDM 301 e LDM 305, LDP 101 e LDP 104;

02/04Set64 - Operação Dedal, Gampará, rio Geba, Golpe de Mão coordenado com as FT, DFE 9 e DFE 10, LFP «Canopus», LDM 202, LDM 301, LDM 302, LDM 305 e LDP 102;

De meados de Fev64 a final de Mar64 esteve em Cabo Verde, S. Vicente, onde docou para manutenção e fabricos.

Em 10Out64, na companhia da LFG «Dragão» largou da Guiné com destino a Moçambique, tendo escalado S. Tomé, Luanda, Lobito, Capetown, Durban e Lourenço Marques, onde atracou a 23Fev65, ficando atribuída ao Comando Naval de Moçambique.

No final do ano, depois de vários cruzeiros de fiscalização e patrulha na costa moçambicana, aportou a Porto Amélia em 29Dez65, ficando atribuída àquele Comando de Defesa Marítima.




A LFG «Argos» nos estaleiros em Lourenço Marques

Em Julho de 1966, com graves avarias dos motores principais foi rebocada para o porto de Lourenço Marques pela FF «Álvares Cabral», ali ficando imobilizada até Novembro de 1969, regressando posteriormente à Guiné - Bissau, onde atracou em 10Jan70, ali permanecendo até ao final da sua vida operacional.

Continuou a desempenhar missões de simples cruzeiro, patrulha, fiscalização, transporte de fuzileiros e de militares de outros ramos das FA, incluindo feridos e prisioneiros, tendo continuado a participar em diversas missões de que se destacam as operações "Guarda Patrão" e "Volta Brandal", ambas em 1972.

Igualmente empenhada em escoltas à navegação comercial e transportes de tropas, apoio à oceanografia com colocação de bóias e reparação de marcas.

Comandaram a LFG «Argos» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

1TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus, 16Jun63/15Out65;
1TEN José Augusto de Morais Sarmento Gouveia, 15Out65/19Jan67;
1TEN José da Costa Catalão, 18Set69/01Mar71;
1TEN Artur Junqueiro Sarmento, 09Jun71/31Jan73;
1TEN José Brás Maldonado Cortes Simões, 31Jan73/16Ago74;
1TEN António Carlos Rebelo Duarte, 16Ago74/28Mai75;

Foram ainda Encarregados do Comando os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN João António Rodrigues de Oliveira, 19Jan67/17Abr67;
2TEN RN Albano Fernandes Dias, 17Abr67/18Set69;
STEN RN José Luís da Câmara Alves, 01Mar71/09Jun71;

Foram seus Imediatos os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN João dos Santos N. Texugo de Sousa, 3.º CEORN, 28Jun63/19Jul63;
2TEN RN Duarte Drummond Esmeraldo, 5.º CEORN, 18Jan64/12Jun65;
2TEN RN João António Rodrigues de Oliveira, 7.º CEORN, 12Jun65/17Abr67;
2TEN RN Albano Fernandes Dias, 9.º CFORN, 17Abr67/29Jan69;
2TEN RN José H de Brum Sousa Dourado, 12.º CFORN, 29Jan69/16Out70;
2TEN RN José Luis Câmara Alves, 16.º CFORN, 16Out79/15Jul72;
2TEN RN José Alfredo Queiroga Abreu Alpoim, 19.º CFORN, 16Jul72/30Abr74;
STEN RN Eugénio Mendes Ferreira, 23.º CFORN, 30Abr74/--Out74;

Em 03Dez1975, após uma longa viagem de Cabo Verde para Angola, numa distância superior a 3.000 milhas, na companhia das LFG «Dragão», LFG «Hidra», todas rebocadas pelo NA «Schultz Xavier» e ainda com as LFG «Hidra» e LFG «Orion», ambas a navegar pelos próprios meios. Viagem efectuada também com as LDG «Alfange» e LDG «Ariete», o navio-rebocador já referido e a corveta «António Enes» na que ficou conhecida como a "Incrível Armada".

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 28Mai75.

Efectuou na totalidade, entre 1963 e 1975, cerca de 4.600 horas de navegação, havendo outros períodos não registados. Além de grandes imobilizações em 1967 e 1968 não foi possível apurar o tempo de navegação efectuado nos anos de 1969 e 1970.


Fontes:
Texto redigido, compilado e adaptado pelo autor do blogue; Setenta e Cinco Anos no Mar, 15.º Volume, Comissão Cultural de Marinha, 2004; Comissão Coloredo 042/042A/042B/042C/042D; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; imagens de arquivo do autor, cedidas pelo Arquivo de Marinha, Revista da Armada, Museu de Marinha e outras origens diversas;


mls

terça-feira, outubro 02, 2018

Reserva Naval - As 10 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes classe «Argos» na Guerra do Ultramar


Agradecimento aos leitores...





Já efectuei a publicação deste texto na página do Facebook "Reserva Naval - As 10 LFG classe «Argos» na Guerra do Ultramar". Um grupo que com o decorrer do tempo deixei estagnar.

Entendi repeti-lo aqui para mera informação dos leitores, antigos camaradas e amigos que "teimam" em manterem algum seguimento destes apontamentos que a esmo tenho publicado. Há sempre pormenores que passam a quem escreve e publica e, nessa base, achei por bem refazer a imagem de topo.

Desta vez com a LDG «Alfange», LDG 101. Não me pareceria completa uma imagem da Guerra do Ultramar, neste exemplo Guiné, sem que figurem as imagens das principais unidades navais que ali desempenharam todo o tipo de missões durante aquele conflito armado.

O rio Cumbijã foi uma "dor de cabeça crónica" mas poderia ter escolhido o Cacheu, o Cobade, o Cacine ou qualquer outro. Transpondo os exemplos para Angola ou Moçambique poder-se-ia falar em Zaire ou Lago Niassa - Metangula ou ainda muitos outros locais daqueles teatros de guerra, mantendo como referência que as unidades navais presentes foram essencialmente do mesmo tipo.

Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Macau ou Timor tiveram pouca ou mesmo nenhuma expressão apesar de pesarem significativamente nas horas de navegação dos meios navais empenhados.

Necessário se torna referenciar que o dispositivo incluiu outras unidades navais de maior porte, mais vocacionadas para navegação oceânica ou costeira, transporte, reboque, reabastecimento e hidrografia, mantendo em pleno todo um conjunto de missões atribuídas à Marinha, nacional e internacionalmente.

Merecem ainda destaque os navios-patrulha da classe «Cacine» que vieram complementar e substituir as LFG classe «Argos» a partir de 1969, também num total de 10 unidades construídas e aumentadas ao efectivo.

Agora com alguns retoques de correcção/actualização irei efectuar a publicação neste blogue "Reserva Naval" de cada uma das sínteses possíveis das 10 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes da classe «Argos». Faço notar tratar-se apenas da minha interpretação de sínteses, dado que o conceito pode sempre ser dilatado, preferindo eu que os apontamentos que aqui vou deixando espalhados sejam apelidados de pistas.

Um agradecimento pessoal a todos os que directa ou indirectamente me inspiraram, seguiram, apoiaram ou mesmo criticaram naquele grupo que mantive no Facebook e fora dele, ao longo deste tempo e desde o seu início. com a designação «Reserva Naval - As 10 LFG classe «Argos» na Guerra do Ultramar»

Confesso que inicialmente me entusiasmei com a ideia de um projecto daquele teor por ter desempenhado durante dois anos, de final de Maio de 1966 a final de Abril de 1968, na Guiné, as funções de oficial Imediato da LFG "Orion".

Aproveito para aqui expressar um agradecimento pessoal à guarnição que comigo conviveu durante aquele período e que tanto me apoiou no desempenho das minhas funções. Sem ela, melhor dizendo sem elas, porque foram duas guarnições ao longo daquele período de tempo, não me teria sido possível levar a cabo, com algum êxito, as funções para que tinha sido nomeado.

Iniciado em final de 2004, embrulhei-me naquilo que hoje considero já uma loucura de co-empreitada sem fim à vista. Não transportando no espírito quaisquer pretensões a historiador, entre aquele limite inferior temporal e o ano de 2011 como limite de um trabalho de pesquisa, já fui alcunhado de "Torre de Tombo" quando se refere o tema LFG classe «Argos» e Guiné.

Sobretudo Guiné, onde estive e também onde estiveram 8 das 10 LFG ainda que não simultaneamente. Fiquei espantado mas debati-me com a ideia do significado que lhe deveria atribuir. Louvor ou rato de biblioteca? Já estive na Torre de Tombo várias vezes e não me parece o lugar mais apetecível para passar o tempo.

Por outro lado, com a ideia de lazer de lado, ficou muito do meu tempo pessoal no Arquivo de Marinha, Biblioteca de Marinha, Museu de Marinha, Revista da Armada, Escola de Fuzileiros e também a Repartição de Reservistas em Alcântara.

Terei ganho algo de especial com esse objectivo? Sobretudo muita papelada, apontamentos, imagens, uma enormidade de tempo pessoal dispendido e ainda diversos equipamentos informáticos pessoais utilizados e desgastados nessa cruzada. A acrescentar alguns encorajamentos e muitas críticas ou "tu também podias...". Ficou-me sobretudo a ideia de um volume razoável de conhecimento adquirido, mas muito disperso, retalhado, incompleto no tratamento e, consequentemente, de complexa consulta histórica e impossível de classificar como cronologicamente encadeado.

A minha condição de não arquivista, escritor e algum perfeccionismo lógico agravou a minha classificação de pesquisa sempre incompleta, na procura de uma linha de horizonte inexistente que, obviamente, não conseguiria atingir. Fui sempre navegando, registando o Diário Náutico mas talvez me tenha esquecido da necessidade de um porto de chegada.

Senti não ter capacidade para desenvolver, de todo e simultaneamente, tudo o que gostaria de catalogar com cabimento no conceito de memórias Reserva Naval - Marinha no qual orgulhosamente me incluo, por ter pertencido ao 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval.

As LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes da classe «Argos» são um mero capítulo de um historial Reserva Naval - Marinha que, de forma alargada, deve incluir todo o tipo de unidades navais onde aquela classe de oficiais desempenhou missões que incluiram, Destroyers, Fragatas, Corvetas, Navios Hidrográficos, Draga-minas, Navios-patrulha, Navios auxiliares, LFG-Lanchas de Fiscalização Grandes, LFP - Lanchas de Fiscalização Pequenas, LDG - Lanchas de Desembarque Grandes, LDM - Lanchas de Desembarque Médias, LDP - Lanchas de Desembarque Pequenas, Unidades de Fuzileiros (Companhias e Destacamentos) e ainda grande diversidade de Unidades e Serviços em terra.

No que dia respeito a teatros, participação e desempenho de missões nos diversos territórios além-mar, especialmente durante o período em que decorreu a Guerra do Ultramar, entre 1961 e 1975. Guiné, Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e até para Macau e Timor foram destacados oficiais da Reserva Naval. Continente e Regiões Autónomas dos Açores e Madeira completaram então o leque de locais possíveis para destacamento daquela classe de oficiais.

Tal como no grupo do Facebook que no início mencionei, publicarei aqui no blogue um historial resumido de cada uma das LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes da classe «Argos», agora com algumas correcções e acrescentos, a que irei adicionando outras imagens e documentação diversa que até agora entendi não publicar.

Não foi e continua a não ser muito fácil pesquisar, compilar e publicar documentação histórica. As dificuldades de acesso são muitas, as facilidades concedidas para quem o pretende fazer são escassas e os custos elevados, quer no tempo dispendido quer no material compilado ou digitalizado.

Actualmente, mesmo com maior acessibilidade aos arquivos existentes, há uma inexplicável ausência de material, levando a crer que muita documentação terá ficado algures, no caminho histórico do nosso redimensionamento geográfico, consequência do final da Guerra do Ultramar. Naturalmente que limito as minhas publicações ao que me é possível pessoalmente, sempre com a preocupação de que apenas podem representar marcas possíveis para quem entenda prosseguir a navegação.

Para quem o desejar há um enorme caminho à frente...

Como sempre, não posso deixar de evocar os já ausentes destas comunicações, relatos, diálogos e convívios porque já embarcaram para o destino último que a todos nos espera.

Será até breve...


Manuel Lema Santos (8.º CEORN)
1TEN RN (lic), 1965-1972
Guiné, LFG «Orion» 1966-1968;
CNC/BNL 1968-1970;
EMA, 1970-1972;