segunda-feira, dezembro 11, 2017

Guiné - Navegação de Cabotagem e Batelões


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 26 de Agosto de 2010)

Poucos militares que cumpriram missões na Guiné, especialmente da Marinha, terão esquecido totalmente um sem número de embarcações à vela, com motor ou simples batelões, que integravam a navegação de cabotagem na Guiné.

Numa passagem, em toda a extensão da avenida marginal entre a ponte-cais em T e as Instalações Navais de Bissau – INAB, fácil era visualizá-las com silhuetas variadas, atracadas ou amarradas à bóia, em faina de carga ou descarga entre o cais e o Pijiguiti.




Na sua maioria, salvo algumas excepções, eram propriedade de armadores que se identificavam com as principais casas comerciais que efectuavam os transportes de pessoas e bens entre portos daquele território numa complexa logística indispensável à vida económica daquele teatro.

António Silva Gouveia, Barbosas & Comandita, Fernando S. Correia, Sociedade Comercial Ultramarina são nomes que ficaram ligados não só ao comércio da Guiné em geral mas também às lojas de venda a retalho, em Bissau e noutras localidades, em que populações e militares se abasteciam regularmente.




Angola, Binta, Bigene, Cacheu, Cacine, Correia, Gouveia, Guadiana, Portugal, Rio Tua, Sta Comba, são alguns dos nomes entre muitos outros de embarcações que se inscreveram na história da guerra da Guiné, parte integrante da responsabilidade da Marinha no garante do apoio à logística global daquele território.

Os registos (oficiais) ressalvam, em escrita a encarnado, as embarcações que de que os “terroristas” se apoderaram assim como algumas fotografias em falta no registo.

Assim se publicam as fotos existentes da maioria das embarcações e daremos conta de algumas das acções da Marinha bem sucedidas. Evitaram a utilização continuada de algumas de que o inimigo de então se apoderou.




Em cima, «Angola», «Barreiros», «Bico» e «Bigene»; em baixo, «Bihé», «Binta»,
«Cabo São Vicente» e «Cacheu»





Cada imagem de embarcação ou batelão encerra, em si própria, uma história diferente de todas as outras. Um desfilar de factos diferenciados de cada um dos outros, personalizado em diferentes situações vividas, nas missões que lhes foram atribuídas pelos proprietários e armadores, ao serviço de uma logística dura e repetitiva.

Tarefa insubstituível numa economia pobre, maioritariamente dependente do abastecimento de produtos vindos do exterior e do retorno, pela exportação, dos excedentes de uma produção agrícola limitada ao arroz, mancarra (amendoim), óleo de palma e coconote.




Em cima, «Cacine», «Calequisse», «Canchungo» e «Chegado»; em baixo, «Corneille», «Correia I»,
«Correia II» e «Douro»




Alguns produtos agrícolas de subsistência como a mandioca, batata-doce, banana, feijão, milho, laranja e manga, outros de pecuária como gado bovino, caprino e suíno, e a exploração de alguns tipos de madeiras, completavam a actividade económica.




«Damasco» e «Monte Murtosa»

Toda a população do litoral, bem como a que se fixava na margem dos rios se dedicava à pesca. Os cursos de água e as bacias hidrográficas possuíam abundantes recursos piscatórios, com centros em Bissau, Bolama, Cacheu e nos Bijagós. Embora dispondo de uma frota pesqueira artesanal garantiam o regular abastecimento das populações.



Em cima, "Evangelista", "Farim", "Gaivota" e "Geba"; em baixo, "Guadiana", "Gouveia 15",
"Gouveia 16" e "Gouveia 17".



As licenças para a pesca artesanal, atribuídas com regulamentação própria e definindo áreas de permissão, foram sempre fiscalizadas pelas unidades navais da Marinha de Guerra conforme os locais por onde, aleatoriamente, navegavam e patrulhavam, repartidas pelas diferentes missões atribuídas naquela província.

A quase totalidade dos transportes marítimos logísticos de abastecimento e escoamento de produtos, entre portos, foi sempre organizado pelo Comando de Defesa Marítima da Guiné com o apoio da Esquadrilha de Lanchas que procedia ao seu enquadramento, numa planificação que tinha em conta necessidades, prioridades, locais, horários das marés e unidades a utilizar em função da avaliação dos riscos corridos quanto a emboscadas e ataques possíveis do inimigo.




Em cima, «Lisboa», «Mansoa», «Maria Augusta» e «Maria Gorete»; em baixo, «Minho», «Mondego»,
«Murtosa» e «Pardelhas»




Por norma, eram organizados combóios com uma ou várias embarcações e batelões, invariavelmente apoiadas por LDM reforçadas por Fuzileiros de Companhias ou Destacamentos.

Estes combóios eram normalmente comandados por oficiais subalternos dos Quadros Permanentes ou da Reserva Naval e, em zonas de risco considerado acrescido, a escolta era reforçada por uma LFP ou mesmo ainda por uma LFG. Quando julgado necessário era solicitado apoio aéreo em alguns troços do percurso a efectuar.




Em cima, «Pecixe», «Portuense», «Portugal» e «Rajá»; em baixo, «Regina Maria», «Rio Douro»,
«Rio Tua» e «Sado»




Os rios Cacheu e Cumbijã foram paradigmáticos em situações de combate desencadeadas por um PAIGC agressivo que, de forma sistemática, emboscava e flagelava embarcações comerciais e unidades navais sempre que possível, obrigando a mobilizar meios e criando a noção de insegurança permanente nas guarnições dos transportes efectuados.

Na memória de cada elemento das tripulações das embarcações listadas, elemento da população ou militar do exército transportado, militar da FAP que tenha efectuado apoios aéreos e das guarnições das unidades navais que as escoltaram ou ainda fuzileiros que tenham integrado essa escoltas, haverá episódios marcantes, outros bizarros e alguns dramáticos.




Em cima, «Sagres», «Sta Comba», «Sta Maria» e «Tagus»; em baixo, «Tejo», «Torreira»,
«Uracane» e «Vencedor»




Deslumbramento pelos percursos efectuados, convívios e vivências únicas havidas, mas também o sofrimento ou a morte que chegou das margens, sem destinatário definido mas sempre com o mesmo remetente.

Fácil será a cada um perder-se na repetida leitura da listagem das embarcações, recordando algumas das escoltadas em missões isoladas sem qualquer outra ligação e os nomes de outras desfilarem sem nenhum facto especialmente significativo lembrarem.




«Vouga» e «BZé Carlos»

Muitas delas, como para as unidades navais, foram igualmente vítimas das emboscadas das margens. Sem danos de maior na maioria das vezes, atingidas algumas e gravemente danificadas outras, com feridos e perdas de vidas.

Na sua maioria, também elas tiveram um quinhão na guerra da Guiné. Recordo especialmente o Guadiana.




Fontes:
Texto do autor do blogue com fotos originais do Arquivo da Marinha, digitalizadas e adaptadas pelo autor;


mls

sábado, dezembro 09, 2017

Moçambique, anos '60 - Marinha no Lago Niassa


Lago Niassa - Base Naval de Metangula

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Agosto de 2010)


Interessante trabalho de reportagem na evocação da memória histórica de Moçambique, Lago Niassa e a Base Naval de Metangula (Augusto Cardoso).

Um notável esforço da Marinha nos idos anos '60 que, de Capitania em tempo de paz, passou rapidamente a Comando de Defesa Marítima (1963) em tempo de conflito armado.


Locução de Júlio Isidro







Fontes:
Cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, a partir de película rodada, ao tempo, com a colaboração da Marinha; texto do autor do blogue.


mls

terça-feira, dezembro 05, 2017

Angola, LFP «Altair» - P 377


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP "Altair" - P 377

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Outubro de 2010)




A LFP «Altair» atracada em Santo António do Zaire


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 13 de Janeiro de 1962, depois de ter seguido para Angola a bordo do NM »Alcobaça».

Foi depois atribuída ao Comando da Defesa Marítima de S. Tomé e Princípe. Nas águas daquele arquipélago interveio regularmente em acções de patrulha e fiscalização, tomando parte activa nas campanhas hidrográficas conduzidas pelo NH «Carvalho Araújo», nos anos de 1963 e 1964.

Em finais de 1965 foi decidido reforçar o dispositivo naval no rio Zaire, pelo que foi integrada na Esquadrilha de Lanchas do Zaire. A partir de então, as suas principais missões consistiram na fiscalização do troço fronteiriço do rio Zaire e o apoio aos postos guarnecidos por fuzileiros, nomeadamente a Quissanga, Pedra do Feitiço, Puelo, Makala, Tridente e Noqui e, por vezes, acções de patrulha costeira.

Ao logo de cerca de 14 anos permaneceu em S.Tomé e Princípe e Angola, ora baseada em Santo António do Zaire ora em Luanda.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Altair» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

2TEN António Cipião Bessa da Cruz, 20Fev62/02Ago63;
2TEN Nelson dos Santos Ventura Trindade, 02Ago63/26Set65;
2TEN João Pedro Rodrigues da Conceição, 26Set65/29SET67
CTEN Mário Augusto Faria de Carvalho, 10Mai69/16Mai69 (a)

Reserva Naval:

2TEN RN Pedro Augusto Lynce de Faria, 9.º CFORN, 29Set67/03Ago68;
2TEN RN José Manuel de Magalhães Vieira de Sá, 11.º CFORN, 03Ago68/05Ago68;
2TEN RN José Manuel Rodrigues Caliço(a), 9.º CFORN, 05Ago68/05Set68;
2TEN RN Pedro Augusto Lynce de Faria, 9.º CFORN, 05Set68/20Mar69
2TEN RN João Maria Lacerda de Lemos Mexia, 12.º CFORN – 20MAR69/10MAI69
(a) ......
2TEN RN João Maria Lacerda de Lemos Mexia, 12.º CFORN, 16Mai69/29Out70;
2TEN RN Emídio Infante Pedroso, 16.º CFORN, 29Out70/25Out72;
2TEN RN Vitor António Morgado Ferreira Mota, 19.º CFORN, 25Out72/12Mai73;
2TEN RN Jorge Manuel de Moura Vieira Teles, 20.º CFORN, 12Mai73/25Out74;
2TEN RN António Borges Santos Silva, 23.º CFORN, 25Out74/30Set75;

(a) Em acumulação com o cargo de Comandante da Comandante da Esquadrilha de Lanchas, no impedimento por doença do comandante da LFP «Altair»;




A LFP «Altair» a navegar, toda a força a vante e atracada em Luanda;

Pertenceu à classe «Bellatrix» com características, máquinas propulsoras, equipamentos, armamento e lotação idênticas, não tendo contudo o lançador de foguetes de 37 mm.

Em 30 de Setembro de 1975 foi abatida ao efectivo dos navios da Armada e cedida ao Governo da República Popular de Angola. Segundo edições do Jane's Fighting Ships posteriores a 1976 ainda terá navegado com a bandeira da República Popular de Angola durante alguns anos.


Fontes:
"Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto e fotos de arquivo do autor do blogue In Revista da Armada n.º 263, Fevereiro 94;


mls

domingo, dezembro 03, 2017

Angola, LFP «Rigel» - P 378


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Rigel» - P 378

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 26 de Outubro de 2010)




A LFP "Rigel" navegando no rio Zaire


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 13 de Janeiro de 1962, data em chegou a Luanda a bordo do NM «Alcobaça».

No dia 21 de Fevereiro seguinte, no porto de Luanda, decorreu a cerimónia do respectivo armamento, juntamente com as LFP «Altair» e LFP «Regulus», que passaram a integrar a Esquadrilha de Lanchas do Zaire.

A fiscalização do troço fronteiriço do rio Zaire e o apoio aos postos guarnecidos por fuzileiros, nomeadamente a Quissanga, Pedra do Feitiço, Puelo, Makala, Tridente e Noqui, foram as suas principais missões. Durante cerca de 14 anos permaneceu em Angola, ora baseada em Santo António do Zaire ora em Luanda.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Rigel» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

2TEN João Manuel Velhinho Pereira Nobre de Carvalho, 20Fev62/28Jan64;


a Reserva Naval:

2TEN RN Vitor Manuel Elias Baptista, 5.º CEORN, 28Jan64/30Jul65;
2TEN RN António Manuel Baptista de Melo, 7.º CEORN, 30Jul65/17Mai67;
2TEN RN Rui Santos do Serro, 9.º CFORN, 17Mai67/19Jun67;
2TEN RN José Manuel Cálix Augusto, 9.º CFORN, 19Jun67/18Abr68;
2TEN RN Mário Alberto Alves de Oliveira Salgueiro, 9.º CEORN, 18Abr68/10Mai69;
2TEN RN João Crisósto Matos Alves Antunes, 13.º CFORN, 10Mai69/05Mai71;
2TEN RN António Manuel Cordeiro Sevinate Pinto, 17.º CFORN, 05Mai71/15Mai73;
2TEN RN Francisco Neves Gomes, 20.º CFORN, 15Mai73/29Out74;
2TEN RN António José de Oliveira Brás, 23.º CFORN, 29Out74/30Set75;




A LFP «Rigel» atracada em Santo António do Zaire e a navegar, quer no rio Zaire quer nos infindáveis braços e canais

Pertenceu à classe «Bellatrix» com características, máquinas propulsoras, equipamentos, armamento e lotação idênticas, não tendo contudo o lançador de foguetes de 37 mm.

Em 30 de Setembro de 1975 foi abatida ao efectivo dos navios da Armada e cedida ao Governo da República Popular de Angola. Segundo edições do Jane's Fighting Ships posteriores a 1976 ainda terá navegado com a bandeira da República Popular de Angola durante alguns anos.


Fontes:
"Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto e fotos de arquivo do autor do blogue;Revista da Armada;


mls

quarta-feira, novembro 29, 2017

18.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Fev1971


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 8 de Julho de 2010)



Listagem completa do 18.º CFORN.


Foi o primeiro curso realizado no ano de 1971 que, a exemplo de anos anteriores seria assinalado pela incorporação de dois cursos de formação de oficiais da Reserva Naval.




Em cima, Eduardo Madeira Ricou - LFP «Procion», Fernando Correia dos Santos - LFP «Bellatrix», Herculano Marques Ferreira - LFP «Fomalhaut» e João Manuel Esteves - LFP «Antares»;
Em baixo, Jorge Manuel Ramos - LFP «Aljezur», José Sequeira Alvarez - LFP «Arcturus» e Luis Lynce de Faria - LFP «Mercúrio»




O 18.º CFORN foi alistado em 18 de Fevereiro de 1971 e concluiu-se a 13 de Outubro daquele ano. Foram incorporados 57 cadetes assim distribuídos pelas várias classes: 23 cadetes na classe de Marinha, 25 cadetes na classe de Fuzileiros e 9 cadetes na classe de Técnicos Especialistas. Pertenceu a este curso o 2TEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, vítima de uma mortal e mal esclarecida emboscada, em Angola.




Em cima, a placa de homenagem ao STEN FZ RN António Piteira, na sala Reserva Naval da Escola Naval e, em baixo, o pormenor da inscrição local no Memorial de Belém onde figura o nome do oficial morto em combate (Angola, 1973).



Comandava a Escola Naval o Contra-Almirante Pedro Fragoso de Matos e foi Director de Instrução o Capitão de Mar-e-Guerra Eugénio Eduardo da Silva Gameiro.




O Contra-Almirante Pedro Fragoso de Matos, Comandante da Escola Naval e o Director de Instrução, Capitão de Mar-e-Guerra Eugénio Eduardo da Silva Gameiro

No final do período de instrução, o Prémio “Reserva Naval” foi entregue ao cadete da classe de Marinha, António José Guimarães Barral. Este prémio destinava-­se a galardoar o aluno com classificação mais elevada no conjunto da frequência escolar e da apreciação de carácter militar.




O cadete da Reserva Naval António José Guimarães Barral

Durante o ano de 1971, para a prossecução do plano de modernização da Marinha, conjuntamente com a necessidade de reforçar os meios navais empenhados na Guerra do Ultramar, foram aumentados ao efectivo dos navios da Armada o navio-patrulha «Zaire» e a LDG «Alabarda». Em 1972, vieram ainda reforçar aquele dispositivo a LF «Sabre», o navio balizador «Schultz Xavier», o navio-patrulha «Zambeze» e o navio hidrográfico «Almeida Carvalho».

No decorrer do mesmo ano de 1971, foram abatidos ao mesmo efectivo a fragata «Nuno Tristão», o caça-minas «Santa Maria», o navio-patrulha «Santo Antão» e a LFP «Tete» e, em 1972, seguiram idêntico destino as fragatas «Álvares Cabral» e «D. Francisco de Almeida» e as LFP «Canopus», LFP «Deneb» e LFP «Algol».




A LDG «Alabarda» atracada na doca da Marinha, antes de ir para Angola

Em Julho, foi iniciada a publicação da Revista da Armada, destinada essencialmente à divulgação interna das actividades da Marinha e que se tornou numa fonte documental indispensável para o conhecimento institucional da Armada.

Muitos oficiais da Reserva Naval desempenharam missões e viriam a fazê-lo nestes navios, quer nos entretanto abatidos quer nos aumentados ao efectivo, todos eles tendo representando um papel relevante na História da Reserva Naval.



A FF «Pero Escobar», mais conhecida pela "Gina"

Houve uma normal mobilização dos elementos deste curso como Comandantes, Oficiais Imediatos de navios, Oficiais de Guarnição, integrando Companhias e Destacamentos de Fuzileiros ou Unidades e Serviços em terra, tendo sido designados para prestar serviço em África, ou Continente e Ilhas, os seguintes oficiais:

Guiné (10 Oficiais):

2TEN RN Fernando Tabanez Ribeiro, LFG «Lira»;
2TEN RN Eduardo Germano Madeira Ricou, LPP «Procion»;
2TEN RN Fernando Manuel Correia dos Santos, LFP «Bellatrix»;
2TEN RN Jorge Manuel Conceição Ramos, LFP «Aljezur»;
2TEN RN José António Sequeira Alvarez, LFP «Arcturus»;
2TEN TE RN João de Azevedo Pacheco de Sacadura Botte, CDM da Guiné;
2TEN TE RN Sidarta Valentino Capelo de Sousa, CDM da Guiné;
2TEN FZE RN Carlos Alberto Pardal Sanina, DFE 22;
2TEN FZE RN Eduardo Moreira Vaz Cardoso, DFE 12;
2TEN FZE José Alfredo Oliveira Braga, DFE 1;

Numa mensagem de Ano Novo, Sékou Touré referiu-se aos inimigos com ligação aos acontecimentos de Novembro de 1970 – Operação "Mar Verde" – e que, segundo comunicado do Bureau Político Nacional, iriam ser convidados elementos da imprensa africana e internacional para assistirem às audiências da Assembleia Nacional da República da Guiné, a funcionar para a circunstância como Tribunal Popular. A maioria dos organismos do PGD (Partido Democrático da Guiné) mostra-se favorável à pena de morte para os mercenários capturados e seus cúmplices guineenses e a pena de trabalhos forçados ou prisão para estrangeiros.

Em 24 de Janeiro foi comunicado ao país o veredicto com que a Assembleia Nacional Guineense, eleita em Tribunal Revolucionário Supremo, castigou os réus implicados nos acontecimentos de 22 de Novembro de 1970. Foram condenadas à morte 91 pessoas, 66 a trabalhos forçados perpétuos e confiscados todos os bens dos condenados. Foram expulsas do país 16 mulheres.




O Comando de Defesa Marítima da Guiné depois de instalado no antigo Edifício das Alfândegas

No decorrer do ano de 1971, em 9 de Junho, pelas 21:45 foi efectuado o primeiro ataque do PAIGC a Bissau. A cidade foi flagelada com foguetões 122 mm.

Em Agosto a Rádio Senegal passa a difundir programas do PAIGC em português utilizando, para tal, uma locutora feminina de voz agradável que ficou conhecida pelas Forças Armadas como a Maria Turra. Divulgava notícias de guerra falsas ou extraordinariamente exageradas, atacando sempre a presença dos colonialistas portugueses na Guiné.

Em Novembro do mesmo ano é activado o DFE 22 o segundo Destacamento de Fuzileiros Especiais Africanos da “Série 20”, no Centro de Preparação daquela cidade. Comandado pelo 1TEN Rebordão de Brito.


Cabo Verde (4 Oficiais):

2TEN RN Vitor Correia Guimarães, navio-patrulha «Quanza»;
2TEN RN Fernando de Oliveira Macedo Ferraz, Fragata «Comandante Sacadura Cabral»;
2TEN RN Olavo Francisco Valente Rasquinho, Comando Naval de Cabo Verde;
2TEN FZ RN Nuno Rodrigo Santos Pereira, Pelotão Independente (n.º 1) de Fuzileiros;


Angola (10 Oficiais):

2TEN RN António José Guimarãoes Barral, navio hidrográfico «Almeida de Carvalho»;
2TEN RN Herculano Santos Marques Ferreira, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Carlos Eduardo Couto da Cunha Dias, navio-patrulha «Rovuma»;
2TEN RN José dos Remédios Dias Gonçalves, navio patrulha «Cunene»;
2TEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, CF 1;
2TEN FZ RN Manuel Teotónio Rodrigues, CF 1;
2TEN FZ RN Vitor Luís da Silva Dores,CF 1;
2TEN FZ RN António Carvalho Rodrigues do Nascimento, DFE 10;
2TEN FZE RN Dulcínio de Oliveira Santos, DFE 10;
2TEN FZ RN Manuel José da Silva Gomes Lima, CF 3;

A República do Congo continuava a apoiar o movimento político-subversivo FNLA-GRAE com larga visibilidade exterior. Por ocasião de uma visita do presidente Mobutu foi salientada a contribuição congolesa e senegalesa para extirpar da terra africana todas as práticas aviltantes e de sujeição do homem africano.

A Zâmbia mantinha com Portugal um tom político de fria hostilidade, acusando o nosso país de estar a impor um bloqueio ao escoamento das suas exportações através do porto da Beira. Contrariando as declarações de intenção de uma política de boa vizinhança e de não ingerência interna nos assuntos de outras nações, o governo da Kaunda apoia os movimentos subversivos do MPLA e também da UNITA.




A LFP «Fomalhaut» a navegar no rio Zaire


Moçambique (13 Oficiais):

2TEN RN Abel Joaquim Pera Lopes Simões, CDM Portos Lago Niassa;
2TEN RN Manuel Pedro Faustino da Costa, CDM Portos Lago Niassa;
2TEN RN João Manuel Esteves, LFP «Antares»;
2TEN RN Luís Alexandre Lynce de Faria,LFP «Mercúrio»;
2TEN FZ RN António Mendes Picão, Comando Naval de Moçambique (AV);
2TEN FZE RN António Agostinho Lucas da Silva, DFE 3;
2TEN FZE RN Domingos de Sousa e Holstein Salgado, DFE 3;
2TEN FZE RN António Maria Allen Burnay Bello, DFE 9;
2TEN FZ RN Carlos Alberto Amado Pereira da Silva, DFE 9;
2TEN FZ RN António José de Miranda Correia, CF 9;
2TEN FZ RN José Luís Calheiros Ferreira, CF 9;
2TEN FZ RN Manuel Augusto Simões Morgado, CF 9;
2TEN FZ RN Roque Gomes dos Santos, CF 9;

O Conselho Mundial das Igrejas encarniçava-se contra Portugal desenvolvendo intensa actividade de apoio aos movimentos subversivos, não contando porém com o apoio generalizado das organizações religiosas.

Em Maio, mantinha-se a possibilidade pouco provável do Reino Unido, por sua iniciativa ou em nome das Nações Unidas, vir a tentar apoderar-se do porto e aeroporto da Beira, como testa de ponte para o lançamento de operações no interior da Rodésia.




A Fragata «Comandante Hermenegildo Capelo»


Continente, Ilhas e Outras Unidades (20 Oficiais):

2TEN RN António Manuel da Silva Branco,Fragata «Comandante João Belo»;
2TEN RN António Manuel Neves Martins, Fragata «Pero Escobar»;
2TEN RN António Manuel Cortez de Miranda, Direcção do Serviço de Pessoal - 1.ª Rep;
2TEN RN Carlos Augusto Fernandes Lopes, LFP «D. Aleixo»;
2TEN RN José Adriano Aguiar Mamede, Grupo n.º 2 de Escolas da Armada;
2TEN FZ RN Adelino Couto Rodrigues da Silva, CF 12;
2TEN FZ RN Carlos Alberto Lindo da Silva, CF 12;
2TEN FZ RN Ângelo José Cachudo Sajara, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN António José Rebelo da Silva Carvalho, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN David Ribeiro de Sousa Geraldes, Escola de Fuzileiros;
2TEN TE RN Orlando Luís Sousa Sequeira, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN Artur José de Almeida Santos, Grupo n.º 2 de EA (Escola de Comunicações);
2TEN TE RN Carlos Manuel Rodrigues Lisboa, DSEF da Armada;
2TEN TE RN João Manuel Cunha da Silva Abrantes, DSEF da Armada;
2TEN TE RN Diogo Ivo de Miranda Cabral de Barbosa, Direcção do Serviço de Pessoal - 5.ª Rep;
2TEN TE RN João Fernando Pontes Amaro, Chefia do Serviço de Justiça;
2TEN RN Joaquim Carlos Pereira Franciosi Costa, Estado-Maior da Armada;
2TEN RN Jorge Manuel Simões Cristina, Estado-Maior da Armada;
2TEN TE RN Marinús Pires de Lima Soares, Estado-Maior da Armada;
2TEN TE RN Pedro Domingos de Brito Ivo de Carvalho, Direcção do Serviço de Abastecimentos;





O navio-patrulha «Zaire», da classe «Cacine», atracado no Funchal por ocasião do Dia da Marinha



Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado,Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Arquivo de Marinha; Revista da Armada; Texto e Fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;


mls

domingo, novembro 26, 2017

1970/71, A Marinha em Angola II - Estação Radionaval Cabinda Zaire

Angola, de Luanda a Cabinda - Postos do rio Zaire

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Novembro de 2010)


No pequeno resumo filmado, no final desta publicação, o navio-patrulha «Mandovi» - P 1142, larga das Instalações Navais das Ilha do Cabo (INIC) em Luanda, rumo ao norte, a Cabinda.




É aproveitada a ocasião para efectuar uma visita virtual à Estação Radionaval de Luanda, salientando a importância daquela Estação na rede de comunicações do Comando Naval de Angola.

O rio Zaire, fronteira natural daquele território, com fortes correntes de 4 a 8 nós, foi sempre utilizado pelos terroristas para as infiltrações no território. Ao longo das 90 milhas de margem fronteiriça, coube à Marinha e aos Fuzileiros a fiscalização de margens e múltiplos canais com postos fixos na Quissanga, Pedra do Feitiço, Puelo, Makala, Tridente e Noqui.

Em Cabinda, uma outra unidade naval, de menor porte, a LFP «Rigel» – P 378, depois de embarcar uma força de fuzileiros e os respectivos botes de transporte, navega para montante daquele rio apoiando acções de fiscalização e patrulha dos fuzileiros nas “muilas”.

Mais tarde, no posto da Pedra do Feitiço, é efectuado o “rendez-vous” com outras unidades, as LDP 209 e LDP 213. Faz-se a habitual troca de correspondência, informações actualizadas e mensagens pessoais entre pessoal que é rendido por outros camaradas.

Depois visualiza-se o regresso do navio-patrulha «Mandovi» a Luanda, há um esclarecimento da importante missão de fiscalização e controlo da navegação mercante naquela zona, seguindo-se a faina de atracar ao cais das INIC – Instalações Navais da Ilha do Cabo.

São visíveis e identificáveis, entre outras unidades navais fundeadas ou acostadas, o navio-patrulha «Cunene» - P 1141 e a fragata «Comandante Roberto Ivens» - F 482.




A presença deste último navio permite balizar a realização desta peça filmada entre 07Dez70 e 29Out71, correspondente a uma, de três comissões, daquela unidade naval em Angola. A segunda comissão teve lugar de 12Jan74 a 02Mai74 e a terceira de 03Set75 a 10Nov75, parecendo fora de causa a credibilidade destes dois últimos espaços de tempo para a rodagem do filme.

Todas as outras unidades navais referidas e visualizadas, ali permaneciam no decorrer naquele período.

Foram muitos os oficiais da Reserva Naval que ali cumpriram as suas missões nessas e noutras Unidades Navais, Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros de que a própria fragata «Comandante Roberto Ivens» poderia ser tomada como exemplo de presença naval. Era nessa altura comandada pelo CFR José Manuel Torres Grincho.

No decorrer do mesmo período, integrou a guarnição do navio-patrulha «Mandovi» comandado pelo 1TEN António Augusto Catarino Salgado, o 2TEN RN Álvaro Jaime Neves da Silva do 17.º CFORN.

Da mesma forma, pertenceram também à guarnição do navio-patrulha «Cunene» comandado pelos 1TEN Alexandre Daniel Cunha Reis Rodrigues, de 06Jun69/09Ago71 e 1TEN Francisco Isidoro Montes de Oliveira Monteiro, de 09Ago71/09Ago73, os 2TEN RN João Luis Gomes Durão do 14.º CFORN, 2TEN RN Rui Alberto Antunes Pais dos Santos do 17.º CFORN, e 2TEN RN José dos Remédios Dias Gonçalves do 18.º CFORN.

Comandaram a LFP «Rigel» de 10Mai69/05Mai71, o 2TEN RN João Crisóstomo Matos Alves Antunes do 13.º CFORN e, de 05Mai71/15Mai73, o 2TEN RN António Manuel Cordeiro Sevinate Pinto do 17.º CFORN.






Fontes:
Cópia de filme editado pelo autor ao blogue a partir de retalhos gentilmente cedidos pela Escola de Fuzileiros, a partir de película rodada, ao tempo, com a colaboração da Marinha; Fuzileiros-Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Angola, Luis Sanches de Baêna, Comissão Cultural de Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval, 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Vols 10 e 16, Comissão Cultural de Marinha; Arquivo da Marinha; fotos de arquivo do autor cedidas pela Revista da Armada;


mls

quinta-feira, novembro 23, 2017

Guiné - A Marinha do PAIGC de 1963 a 1974


Guiné - A Marinha do PAIGC de 1963 a 1974

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Agosto de 2010)

No início da guerra na Guiné, em 1963, o PAIGC, ambicionava dispor de meios que lhe permitissem efectuar cambanças, transportando pessoal, material de guerra e abastecimentos, a partir das suas bases na Guiné Conakry - Kadigné, por exemplo - para o interior do território daquele tarritório.




Para isso, apoderou-se de algumas embarcações comerciais, umas com motor e outras não, aproveitando o trânsito destas embarcações ou as escalas em portos habituais, sobretudo no sul do território, quando ali aportavam para os normais abastecimentos logísticos.



Este tipo de acções foi-lhes rapidamente vedado a partir do momento em que as embarcações comerciais e toda a navegação de cabotagem passou a ser controlada e escoltada pela Marinha.

Em diversas acções de pirataria, sem qualquer intervenção da Marinha, foram desviadas ou capturadas ao longo do tempo as seguintes embarcações que passaram a constituir como que uma Marinha do PAIGC:

"Mensageira"
Lancha à vela, casco de madeira, 1 mastro, 11,6 m de comprimento, 16,7 t de carga.

"Persistente"
Lancha à vela, 1 mastro, 14 m de comprimento e 24,9 t de carga.




A «Persistente»

"Mirandela"
Motor de 95/105 HP, casco de ferro, alojamento com 6 beliches, 2 escotilhas, porão de carga com 2 coberturas de ferro movediças, mastro de ferro com duas faces de carga, 24 m de comprimento e 65 t de carga.



A «Mirandela»

"Arouca"
Lancha a motor, casco de aço, 1 mastro, casa de motor, porão e escotilhas, motor diesel de 3 cil, 66 HP, 15,4m de comprimento, 4,1 m de boca e 19,7 t de carga.

"Bandim"
Casco de ferro, 3 escotilhas grandes, 17 m de comprimento, 4,6 m de largura, 33,5 t de carga.

"Bissau"
Lancha à vela, casco de ferro, mastro armado cop latine e uma vela de proa, bomba para esgoto dos porões, 17 m de comprimento, 32,0 t de carga.

Ainda:

«Três de Agosto» e «Defesa» de características desconhecidas.

Nota:
Estas informações foram divulgadas pelo Estado-Maior do Comando de Defesa Marítima da Guiné em Março de 1973 e, em baixo, resumem-se as principais acções havidas pela Marinha, tendentes a capturar, inutilizar ou até destruir, a tal potencial Marinha do PAIGC:




1964


A operação “Hitler”, sob o comando do 1TEN Alpoim Calvão, comandante do DFE 8, representou a primeira acção da Marinha contra os movimentos de cambança do PAIGC no sul da Guiné, rio Camexibó, visando a intersecção e captura de quaisquer embarcações ao serviço do inimigo.




1968


Em Agosto de 1968, já com o Brigadeiro Spínola como Comandante-Chefe, a Marinha, com o conhecimento de que as embarcações «Bandim», «Arouca» e «Mirandela» estavam a ser utilizadas no transporte de pessoal e armamento para o interior da Guiné, levou a cabo nova acção na área do Quitafine, ilhas de Canefaque e Cambon, confinadas pelos rios Inxanxe e Nhafuane, sob o comando do CTEN Alpoim Calvão em operação com o nome de código «Nebulosa».

Depois de ignorarem uma ordem de paragem e após violentos combates com elementos do PAIGC, foram abatidos alguns elementos inimigos e feitos prisioneiros outros, tendo sido capturada a própria embarcação em que se faziam transportar, o «Patrice Lumumba» que, devido aos estragos sofridos, depois de rebocado para longe da área, foi afundado na foz do rio Cacine.


Nota:
Patrice Émery Lumumba, nascido como Élias Okit'Asombo (Onalua, Congo Belga, 2 de Julho de 1925 – Katanga, 17 de Janeiro de 1961), foi um líder anti-colonial e político congolês.
Na sua curta e tumultuada carreira política, optou por se alinhar com os valores anti-imperialistas e do pan-africanismo, defendendo consistentemente a solidariedade entre os povos da África para além dos limites de nação, etnia, cultura, classe e género, encorajando a luta não-violenta contra o colonialismo e convidando ao diálogo os países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento.
Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), ele foi a principal liderança na luta contra o domínio colonial belga no Congo, tendo participação decisiva na libertação do seu país do jugo imperialista europeu.
Foi eleito primeiro-ministro do seu país em 1960, mas ocupou o cargo apenas por 12 semanas, pois o governo foi derrubado por um golpe de estado liderado pelo coronel Joseph Mobutu em plena crise política do Congo.
Ao tentar fugir para o leste do país, Lumumba seria capturado algumas semanas mais tarde e assassinado em Janeiro de 1961, com a participação dos Estados Unidos e da Bélgica que viam o líder congolês como alinhado com a União Soviética.
In Wikipédia




1970 - Março


O seguimento das embarcações capturadas manteve-se e, em Março de 1970, depois de um longo processo de tratamento de informações e preparação, a Marinha voltou à carga na mesma área numa operação com o nome de código "Gata Brava”, ainda sob o comando do CTEN Alpoim Calvão.

Assim, em 27 de Março, no seguimento de uma bem planeada e estruturada emboscada, travaram-se violentos combates com o «Bandim» que deixava a base de Kadigné. Ignorando qualquer tipo de instruções de paragem e ripostando com fogo de armamento automático, foi atingido várias vezes com fogo de bazooka e armamento ligeiro. Abordada e assaltada com granadas de mão, a embarcação encalhou com vários mortos e graves avarias.

Na impossibilidade de a rebocar para local conveniente optou o comandante da operação por ordenar a sua destruição. Foi regada com gasolina e incendiada por meio de uma granada lançada para dentro da embarcação, não sem que antes se tenha verificado não haver sobreviventes no interior.



1970 - Novembro


Em Novembro de 1970 no decorrer da operação “Mar Verde”, o grupo Victor, constituído por 14 fuzileiros especiais comandados pelo 2TEN FZE Rebordão de Brito com um guia nativo da República da Guiné, largam da LFG «Orion» em três botes Zebro armados com pistolas-metralhadoras Kalashnikov, granadas ofensivas, defensivas e incendiárias.

À ordem de ataque, partiram na máxima velocidade em direcção aos navios atracados no cais bananeiro do porto de Conakry: sete lanchas torpedeiras (P6 e Komar) e uma lancha de desembarque pertencentes umas ao ao PAIGC e outras à República da Guiné. Os navios são abordados, uma sentinela do PAIGC é eliminada e são lançadas várias granadas para o interior das embarcações.

Três dos navios afundam-se rapidamente e os restantes incendeiam-se. Ainda que apanhadas de surpresa, as guarnições reagem com fogo de armamento ligeiro, mas os fuzileiros colocados em pontos estratégicos neutralizaram a resistência causando cerca de 20 baixas e sofrendo um ferido ligeiro. O ataque durou cerca de 45 minutos eliminando o que poderia vir a tornar-se um sério risco para a navegação no sul da Guiné.



Como já foi afirmado, e repetimos, as acções do PAIGC limitaram-se, até 1964, a capturar batelões e embarcações comerciais em trânsito para os seus habituais destinos, ainda sem qualquer defesa ou escolta militar, algumas vezes com a cumplicidade participante de elementos das tripulações.

Quanto às fantasias tecidas à volta de hipotéticos afundamentos ou apresamentos de unidades navais da Marinha de Guerra Portuguesa – Lanchas ou outras Unidades - pelos guerrilheiros do PAIGC, só podem ser interpretadas como histórias de caserna vividas num imaginário de ficção.

Nunca nenhuma unidade naval da Marinha de Guerra Portuguesa foi capturada pelo PAIGC ou correu sequer o risco de o ser, independentemente de algumas situações mais complexas, decorrentes de algumas operações em tempo de guerra terem passado por combates frontais com o inimigo.

Referimos como exemplo histórico, a mítica e massacrada LDM 302 que, atingida gravemente no rio Cacheu por duas vezes, com baixas pesadas entre mortos e feridos, alagada e semi-afundada, foi reposta a flutuar quase imediatamente, também de ambas as vezes. Aqui a honramos mais uma vez, lembrando as suas heróicas guarnições que impediram qualquer sucesso de concretização possível dessa criativa banda desenhada do PAIGC.




Fontes:
Pesquisa e compilação de texto do autor a partir do relatório de documentação do Arquivo da Marinha, Núcleo 236-A; Operação Mar Verde, António Luis Marinho, Temas e Debates, 2006; De Conakry ao MDLP, Alpoim Calvão, Intervenção, 1976; fotos do Arquivo da Marinha digitalizadas e tratadas pelo autor;


mls

terça-feira, novembro 21, 2017

Angola, LFP «Fomalhaut» - P 367


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Fomalhaut» - P 367

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 14 de Outubro de 2010)


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 4 de Agosto de 1961. Seguiu para Angola a bordo de um navio mercante, tendo desembarcado em Luanda no dia 17 de Agosto de 1961.




A LFP «Fomalhaut»

No dia 23 de Setembro, no porto de Luanda, decorreu uma solene cerimónia conjunta de armamento da LFP «Fomalhaut» e das suas irmãs gémeas, LFP «Espiga» e LFP «Pollux”».

No dia 30 de Setembro do mesmo mês, largou de Luanda para a sua primeira missão operacional no rio Zaire. A fiscalização do troço fronteiriço daquele cursos de água e o apoio aos postos guarnecidos por fuzileiros, nomeadamente a Quissanga, Pedra do Feitiço, Makala, Tridente e Noqui, foram as suas principais missões. Durante cerca de 14 anos permaneceu em Angola, ora baseada em Santo António do Zaire ora em Luanda.




Angola, 1964 - Duas perspectivas da LFP «Fomalhaut» a navegar



Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Fomalhaut» os seguintes oficiais da Reserva Naval:

2TEN RN Alberto Luis Guerra Neves Cordeiro, 3.º CEORN, 20Out61/14Abr63;
2TEN RN José Augusto Paes Pires de Lima, 4.º CEORN, 14Abr63/01Jun64;
2TEN RN Fernando Baptista Pereira, 6.º CEORN, 01Jun64/04Jul66;
2TEN RN Rogério Eduardo Bordalo da Rocha, 8.º CEORN, 04Jul66/24Mai68;
2TEN RN José Manuel de Magalhães Vieira de Sá, 11.º CFORN, 24Mai68/31Mai70;
2TEN RN José Telo Rasquilha de Abreu, 15.º CFORN, 31Mai70/27Abr72;
2TEN RN Herculano Santos Marques Ferreira, 18.º CFORN, 27Abr72/11Out73;
2TEN RN Carlos Alberto de Magalhães Oliveira, 21.º CFORN, 11Out73/29Abr75;
2TEN RN José Manuel Baptista Vigário, 25.º CFORN, 29Abr75/30Set75;




1964 - A LFP «Fomalhaut» a navegar no rio Zaire

Pertenceu à classe «Bellatrix» com características, máquinas propulsoras, equipamentos, armamento e lotação idênticas, não tendo contudo o lançador de foguetes de 37 mm.

Em 30 de Setembro de 1975 foi abatida ao efectivo dos navios da Armada e cedida ao Governo da República Popular de Angola. Segundo edições do Jane’s Fighting Ships posteriores a 1976, ainda terá navegado com a bandeira daquele país durante alguns anos.


Fontes:
"Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto do autor do blogue com fotos de arquivo cedidas por José Pires de Lima, 4.º CEORN;


mls

sábado, novembro 18, 2017

Guiné, 1969 – Emboscada a um comboio naval - Parte II


Afundamento do batelão “Guadiana” por EEA–Engenho Explosivo Aquático

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Julho de 2010)

(Final)




O batelão «Guadiana» afundado pelo rebentamento de um EEA - Engenho Explosivo Aquático


Resumo do acidente


Pelas 13:30 do dia 27 de Maio de 1969 na posição de latitude 11º 14’.3 N e longitude 15º 18.1’ W, quando o combóio naval RCU 09/69 navegava no rio Cobade estreito, no percurso rio Cumbijã – foz do rio Tombali com o apoio aéreo de dois aviões T6, o batelão «Guadiana» nele integrado foi atingido pela explosão de uma mina flutuante fundeada, a meio de uma passagem do rio que não teria mais de 20 metros de largura.

Muito provavelmente, a detonação terá sido accionada electricamente de terra, com resultado agravado pelo transporte de bidons de gasolina e detonadores que seguiam como carga. Houve a lamentar 5 mortos e 8 feridos com diversos graus de gravidade, todos autóctones, sendo 2 tripulantes e 11 passageiros.




A posição relativa das LDM e dos batelões no combóio, na altura em que ocorreu o avistamento do EEA

O batelão começou a alagar rapidamente e, em face desta situação, o oficial que comandava operacionalmente o combóio, 2TEN FZE RN José António Lopes da Silva Leite ordenou o imediato reboque, por uma das LDM, para um local mais afastado da área forte do inimigo – a ilha de Como – onde a embarcação pudesse ser encalhada numa das margens.

Efectivamente o batelão «Guadiana» ainda percorreu rebocado cerca de uma milha, ficando imobilizado de proa na margem esquerda do rio Ganjola, de popa para montante e a cerca de 300 metros da confluência com o rio Como.


Análise da situação e reconhecimento local

No dia seguinte foi efectuado um heli-reconhecimento pelo Chefe do Estado-Maior do CDMG, acompanhado pelo responsável do Serviço de Assistência Oficinal (SAO), Comandante do DFE 12 e Chefe da Secção de Mergulhadores para, com base nos elementos recolhidos, se proceder a uma análise prévia da possibilidade de recuperação do batelão.

Entretanto, o Comandante-Chefe alertou as FT sedeadas na margem norte do rio Cobade, para a possível utilização daqueles meios, antecipando uma tentativa de recuperação a efectuar no dia 29 de Maio. Deveriam aguardar o contacto directo do CDMG.

Era responsável por aquele sector o BArt 2865, com sede em Catió, englobando Catió, Cufar e Bedanda, tendo sido determinado à CArt 2476 (Catió) para efectuar fogo de artilharia de interdição, durante duas noites, para a área de Cachil. Simultaneamente, sobre a Ilha de Como, foram ordenados ataques com heli-canhão e bombardeamentos utilizando aviões Fiat G91, quer por haver conhecimento de numerosos alvos de interesse a atingir quer por represália.

Neste reconhecimento local, para ser apreciada a estrutura, resistência e forma de recuperação possível do batelão, deslocaram-se técnicos do SAO-Serviço de Assiatência Oficinal e mergulhadores, além de outro pessoal e equipamento diverso. Participaram ainda a LFG «Cassiopeia», 2 LDM - Lanchas de Desembarque Médias e ainda um grupo de assalto do DFE 7 com 6 botes de borracha. Os trabalhos foram acompanhados de helicóptero pelo próprio Comandante do CDMG acompanhado do Sub-chefe do Estado-Maior.




Mapa da zona do rio Cobade entre os rios Tombali (ponto TT) e proximidade do rio Cumbijã (ponto CC); assinalada a parte do Cobade estreito, próximo de Catió

O «Guadiana» tinha como principais características 17 metros de comprimento, 5.5 metros de boca e 2.2 metros de pontal. Possuía duas anteparas, a de ré que limitava os alojamentos da tripulação e a de vante que limitava o porão da amarra. Tinha duas bocas de porão, a de ré com 7.3 x 3.0 metros e a de vante com 3.2 x 2.0 metros. As balizas e a sobrequilha, em ferro, eram rebitadas ao costado.

Na continuação da vistoria efectuada pela Secção de Mergulhadores e outro pessoal técnico embarcados na LDM 105, constatou-se que o batelão estava enterrado cerca de um metro no lodo fino da margem com caimento a ré e adornado a estibordo, com balizas bastante danificadas, rebitagem desfeita e a própria sobrequilha retorcida, tudo numa extensão apreciável (cerca de 10 m). O lodo tinha invadido o fundo numa altura próxima dos 50 cm.

A impossibilidade de tornar a embarcação estanque, a estrutura fragilizada, a dificuldade na utilização de bidons que aumentassem a flutuabilidade e o intervalo de tempo entre marés disponível, deixava colocar sérias dúvidas quanto a uma tentativa de recuperação com resultados positivos.

A impossibilidade de concretizar, com os meios disponíveis, qualquer salvamento levou a que todo o pessoal e meios presentes regressassem às suas unidades de origem.




A LFG «Cassiopeia» que participou nas operações de apoio


Conclusões

No final do reconhecimento, vistoria, estudos efectuados e relatórios técnicos de todos os intervenientes concluiu o Estado-Maior haver remotas possibilidades de recuperação, questionando simultaneamente a razoabilidade de tal decisão. Assim:

– Militarmente, seria importante transformar um navio afundado numa unidade temporariamente avariada, evitando uma moralização do inimigo que incentivasse prosseguir com a utilização de minas flutuantes nos rios da Guiné, podendo vir a tornar insegura a navegação.

– Do ponto de vista de princípio, o salvamento de um navio afundado ou encalhado, deveria ser sempre encarado como meta a atingir desde que existissem consideráveis probabilidades de êxito, em função dos riscos e encargos que daí adviessem.

– Em face de informações e relatórios técnicos disponíveis, o batelão teria necessariamente reduzido valor residual e os elevados custos de reparação previstos desaconselhavam a prossecussão desse objectivo.

Assim veio a suceder por determinação do Comandante-Chefe e, mais tarde, o que restava do «Guadiana» veio a ser destruído por uma equipa de mergulhadores sapadores utilizando cargas explosivas


(final)

Fontes:
Pesquisa e compilação de texto a partir do relatório do 2TEN FZE RN José António Lopes da Silva Leite, núcleo 236-A do Arquivo de Marinha; fotos do Arquivo de Marinha; imagens do autor do blogue efectuadas a partir de extractos da carta da Guiné (cortesia IICT);


mls

terça-feira, novembro 14, 2017

Guiné, 1969 – Emboscada a um comboio naval - Parte I


Afundamento do batelão “Guadiana” por EEA–Engenho Explosivo Aquático

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 15 de Julho de 2010)

Considerações gerais


O 2TEN FZE RN João António Lopes da Silva Leite do 10.º CFORN e o STEN FZ RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva do 11.º CFORN, depois de concluírem os respectivos cursos foram ambos mobilizados para a Guiné, o primeiro integrado no Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 10 (1967) e o segundo na Companhia de Fuzileiros n.º 6 (1968).

Em Maio de 1969, viriam ambos a protagonizar, um episódio marcante da complexa actividade da Marinha ao longo dos doze anos de guerra, o primeiro como comandante operacional de uma “task unit” activada na sequência da organização de um comboio logístico, integrando LDM e embarcações comerciais e, o segundo, como comandante operacional de uma outra LDM, também com batelões mas que, numa parte comum do percurso, se juntava àquela task unit.




O 2TEN FZE RN João António Lopes da Silva Leite do 10.º CFORN e o STEN RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva do 11.º CFORN

A organização e planeamento dos comboios de abastecimento logístico estavam atribuídos pelo Comando de Defesa Marítima da Guiné à Esquadrilha de Lanchas que, de acordo com as exigências operacionais, disponibilidade de meios navais e o tão criterioso como indispensável apoio da tabela de marés, procedia à escolha do período e datas em que se efectuavam os comboios - RCU.

A necessidade de manutenção de uma logística de apoio a populações e unidades militares, tornava alguns dos percursos não só frequentes mas de periodicidade obrigatória, quer para norte quer para sul daquele território, situação também decorrente do normal escoamento de produtos agrícolas essenciais à economia do território.

Entre os mais carismáticos, cabe destacar Farim, no norte, cerca de 85 milhas a montante da foz do rio Cacheu e Bedanda ou Gadamael, no sul, ambas a uma distância próxima de 20 milhas da foz nos rios Cumbijã e Cacine (rio do Porto de Gadamael) respectivamente.

As distâncias totais percorridas a partir de Bissau – normais pontos de partida e chegada destes combóios - dependiam dos percursos parciais efectuados e dos navios e embarcações presentes. Havia ainda a considerar, de acordo com as unidades navais utilizadas, rotas alternativas às barras convencionais dos rios.




A tracejado (violeta) o percurso Bissau - Bolama e, na continuação, Bolama - TT (confluência dos rios Tombali e Cobade); igualmente visível o percurso de regresso a Bolama (laranja)

Estavam nesse caso o Canal de Melo, na travessia do rio Cumbijã para o rio Cacine, a passagem do rio Tombali para o rio Cumbijã, via rio Cobade ou a ida para o Cacheu navegando pelo interior do baixo dos Macacões, este só acessível a LDM. Claro que esta possível utilização, válida igualmente para os percursos inversos, permitia encurtamentos de caminho e reduções de tempo notáveis.

Enquanto a uma LFG de escolta estava vedada a possibilidade de efectuar atalhos por causa dos 2.20 m de calado daquela unidade naval e as LFP -Lanchas de Fiscalização Pequenas, ainda que com limitações, efectuassem diversos percursos com alguns shortcuts, as LDM - Lanchas de Desembarque Médias efectuavam verdadeiros milagres no encurtamento de traçados, quase bastando haver alguma altura de água para passarem e muita, mesmo muita, experiência do "patrão".

Afinal, com a maré na enchente, um encalhe resolvia-se quase sempre por si próprio, em fundos lodosos sem cristas rochosas. Bastava arriscar primeiro e esperar depois, raciocínio obviamente limitado para as unidades com quilha.

Para comandar estes RCU eram habitualmente nomeados oficiais subalternos dos Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros, dos Quadros Permanentes ou da Reserva Naval, reforçados por esquadras ou grupos de combate daquelas unidades e com o armamento adequado à missão, por forma a aumentar a segurança dos combóios, garantindo um destino seguro às guarnições, populações e bens por eles transportados.

Se algumas das embarcações ou batelões comerciais dispunham de motor, outras não tinham propulsão própria, sendo por isso rebocadas por aqueles que tivessem condições para o fazer. Navegação com velocidades diferentes, cabos de reboque partidos e avarias frequentes, era um panorama comum que gerava confusão e granel, obrigando o comandante do combóio, com as LDM disponíveis, a um enquadramento atento e disciplinado.

Esta estratégia era sobretudo importante a partir do ponto de confluência de todas as unidades, normalmente situado no início das bacias hidrográficas dos rios onde se situavam os locais a aportar. Aí se reviam os derradeiros pormenores da navegação a efectuar, procedimentos de comunicações e a abordagem de eventuais zonas de risco de ataques ou emboscadas do inimigo.




A tracejado (violeta) o percurso Bolama - ponto TT - Catió e os restantes percursos parciais, ponto CC (confluência dos rios Cobade e Cumbijã)- Bedanda - Cabedú - Cacine - Gadamael e respectivos regressos


A missão


Pela "Ordmove" 132/69 o Comando de Defesa Marítima da Guiné ordenou à LDM 302 que, a partir de 16 de Maio de 1969 pelas 16:30, sob o comando operacional do STEN FZ RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva, largasse de Bissau com o objectivo de escoltar as embarcações motor «Portugal» que rebocava o batelão «Angola» levando carga geral, o Pelotão de Morteiros 2115 e respectivas bagagens com destino a Vila Catió. A guarnição da LDM e o motor «Portugal» foram reforçados com elementos da CF 10.

O combóio (RCU) escalou Bolama no mesmo dia da largada e completou o percurso no rio Cobade no dia seguinte de manhã, entre o rio Tombali e a foz do rio Cagopere que dá acesso ao porto de Catió, esta parte do trajecto feita com apoio aéreo. Durante a permanência naquele porto foi montada segurança pelas FT (Forças Terrestres) locais. No regresso, a LDM 302 e as embarcações civis confluiram para a foz do rio Cagopere no dia 21 pelas 10:00 passando a estar integradas no RCU 9/69.




As embarcações comerciais motoras «Portugal» e «Angola»

Quase simultaneamente, pelo "Ordmove" 136/69 – RCU 9/69 o Comando de Defesa Marítima da Guiné ordenou a activação da TU 5 com a nomeação do 2TEN FZE RN João António Lopes da Silva Leite para comandar aquela task unit a partir do dia 20 de Maio de 1969, pelas 00:00. Foi constituída pelas LDM 105 e LDM 313, com o fim de escoltar as embarcações motor «Rio Tua» rebocando um batelão, motor «Vencedor», motor «Gouveia 17» rebocando os batelões «Guadiana» e «Lima» com destino a Bedanda e Cacine.

Houve ainda que transportar 12 toneladas de produtos de reabastecimento, enviados para Cufar pelo CTIG (Comando territorial Independente da Guiné) na LDM 105 e ainda um veículo "GMC" do exército para Gadamael na LDM 313.




O batelão «Guadiana» que viria a ser afundado mais tarde.

Tal como previsto, a partir do dia 21, pelas 10:30, foi integrada no comboio a LDM 302 com a embarcação com motor «Portugal» rebocando o batelão «Angola», sendo este grupo (RCU) a integrar comandado pelo STEN FZ RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva.

Com início e regresso a Bissau, estavam definidos os movimentos previstos com respectivas escalas e horários de chegada/largada, tendo em atenção as marés: Bissau, Bolama, ponto TT (confluência dos rios Tombali e Cobade), foz rio Cagopere, ponto CC (confluência dos rios Cobade e Cumbijã), Impungueda, Bedanda, Impungueda, ponto CC, ponto TT, Bolama e Bissau.

No dia 23 pela manhã a LDM 313 deixou o comboio no ponto CC, rumando a Cacine e Gadamael pelo Canal de Melo, com as embarcações motor «Vencedor», motor «Gouveia 17» rebocando os batelões «Lima» e «Guadiana».




O batelão motor «Gouveia 17» que rebocava os batelões «Lima» e «Guadiana»

O movimento efectuado para o aquartelamento de Cabedú com os batelões «Lima» e «Gouveia» permitiu ganhar um dia ao movimento destas embarcações, escoltadas pela LDM 313 para Cacine.

A descarga em Cacine não foi concluída mas, a necessidade do rigoroso cumprimento do planeamento imposto pelos horários das marés, obrigava a algumas decisões incompatíveis com atrasos nas cargas e descarga dos locais aportados, por problemas de estiva alheios ao comando operacional do combóio.

A progressão para montante do rio Cumbijã a partir dos ponto CC fez-se sem problemas e as descargas em Cufar e Bedanda fizeram-se dentro dos horários e com normalidade.


Regresso, rebentamento de um EEA (Engenho Explosivo Aquático) e o ataque IN


No regresso, o percurso descendente do rio fez-se com as LDM 105 e 302 com as embarcações motor “Portugal” rebocando o batelão “Angola” e motor “Rio Tua” com outro batelão.

Dia 27 pelas 11:00, juntaram-se a estas unidades, no ponto CC, as provenientes do regresso de Cacine. A LDM 313 trazia de Gadamael para Bissau uma viatura GMC e destruiu uma canoa abandonada na foz do rio Meldabom. Cerca das 13:00 do dia 27 de Maio de 1969, e com apoio duma parelha de aviões Harvard T6, iniciou-se o percurso do rio Cobade.




Os batelões motores «Rio Rua» e «Vencedor»

O comboio navegava em coluna, com as unidades navais e embarcações pela seguinte ordem na formatura: «Gouveia 17» rebocando os batelões «Lima» e «Guadiana», LDM 313, motor «Portugal» com o batelão «Angola» de braço dado, LDM 105, motor «Rio Tua» de braço dado com um batelão, LDM 302 e finalmente o motor «Vencedor».

Foi adoptada esta formatura para o motor «Gouveia 17» estabelecer a velocidade do combóio, uma vez que era a embarcação motora com menor velocidade de progressão. Pouco tempo depois, pelas 14:30, o IN (inimigo) viria a revelar-se.

Cerca de meia milha após o desembarcadouro do Cachil, foi avistado pelo pessoal da escolta, fornecida pela CF10 que se encontrava a bordo do «Gouveia 17», um fio que atravessava da margem do lado do Cachil para o meio do rio. Por analogia com casos anteriores, este pessoal mandou parar imediatamente o «Gouveia 17», o que foi tentado pelo patrão desta embarcação metendo máquinas a ré.

Como consequência desta manobra necessariamente brusca e devido ao normal seguimento por inércia, os dois batelões rebocados aproximaram-se do «Gouveia 17», tendo o primeiro reboque, o batelão «Lima», colidido com a popa do »Gouveia 17», enquanto que o outro que o seguia, o batelão »Guadiana», devido ao comprimento do cabo de reboque, ultrapassou por estibordo o «Gouveia 17», e no final do comprimento do cabo, rodopiou ficando aproado em sentido contrário ao da marcha invadindo, com a parte de ré, o local onde o fio tinha sido avistado.




Pormenor do porto interior de Bedanda

Nesse exacto momento, verificou-se uma forte explosão à popa do batelão «Guadiana». Simultaneamente, o inimigo, emboscado em ambas as margens desencadeou violento ataque com armamento ligeiro e morteiro, sem consequências pessoais.

Por sua vez, o engenho explosivo aquático que havia deflagrado à popa do batelão «Guadiana» causou 5 mortos e dez feridos, confirmados pelo sargento enfermeiro - 2Sarg H Cotovio que, seguindo na LDM 105 e após a explosão, passou imediatamente para bordo daquela embarcação. Foram rapidamente assistidos no local por aquele profissional de saúde com a colaboração de um colega - 2Sarg H Mesuras - embarcado na LDM 302. Ambos, debaixo de fogo e no meio de grande confusão por parte de passageiros civis, mantiveram a presença de espírito suficiente para desempenharem as suas funções.

Entretanto, o comandante operacional informou o apoio aéreo do sucedido e, dentro das possibilidades, solicitou cobertura mais cerrada na zona, a fim de ganhar tempo e conseguir a segurança necessária para proceder a uma busca junto ao batelão sinistrado, prevendo a eventualidade de virem a ser encontrados mais mortos ou feridos. Foi informado da impossibilidade de satisfação do pedido por uma dos aviões T6.

Calado o IN por acção do fogo efectuado pelas LDM e pelo pessoal de reforço da CF 10 pertencente às escoltas das embarcações civis, reiniciou-se imediatamente a marcha, tendo sido ordenado à LDM 105 que passasse um cabo ao motor «Gouveia 17» dado continuar com os dois batelões a reboque.

Desde o momento do rebentamento junto à popa do «Guadiana» tinham passado uns escassos dez minutos e a embarcação afundava-se rapidamente. Urgia sair da zona da ocorrência e encalhá-lo em local mais seguro, o que veio a suceder próximo da foz do rio Ganjola.




Um combóio no rio Cumbijã, na foz do rio Macobum, na zona de Cafine

Pelas 14:45, quando o comboio navegava já próximo daquele local, o 2TEN FZE RN Silva Leite, por intermédio da FAP, pediu evacuação para dez feridos a partir de Catió. Entretanto contactou igualmente as FT de Catió pedindo ao aquartelamento local a presença de transporte e médico no porto exterior, a fim de prestar assistência aos feridos e recolher os mortos que seguiam a bordo da LDM 313 para aquela localidade.

Nesta altura, o comboio reiniciou a descida do rio Cobade até à confluência com rio Tombali, depois do comandante operacional ter confirmado a presença do apoio aéreo na zona, tendo atingido aquele ponto TT pelas 16:00.

De acordo com o Comando de Defesa Marítima da Guiné (CDMG), foi dada ordem à LDM 303 para permanecer em Catió até ordem em contrário, às embarcações civis para prosseguirem independentemente para Bissau e às LDM 105 e LDM 302 para seguirem para Bolama, onde ficaram a aguardar novas instruções.

Como resultado do acontecimento e das condições de mau tempo verificadas na altura, extraviou-se diverso material fixo que se fez constar nas relações de ocorrências de cada unidade.




Um avião Harvard T6 sobrevoando o rio Cumbijã, próximo de um comboio

Foram consumidas na resposta à emboscada 2.200 munições de 20 mm, 2100 de 7.62 mm, 8 granadas ofensivas, 30 munições de ALG(dilagramas), 4 de LGF (lança-granadas foguete) e 10 rockets.

O comandante operacional, por intermédio de um militar do exército responsável pelo carregamento, foi informado de que a carga era composta por 17 bidons de gasolina, cerca de 2.000 detonadores e caixas de whisky velho. O transporte deste material terá agravado substancialmente as consequências da explosão.

Observou-se ainda a presença de inúmeros passageiros civis sem qualquer identificação que, por serem familiares de militares ou por lhes interessar visitar as famílias fora da localidade a que pertenciam, pediam aos patrões das embarcações civis para lhes facilitarem transporte para pontos de paragem do combóio de conhecimento antecipado.

Depois da chegada àquela cidade, no dia 28 pelas 18:00, foi dissolvida a task unit, regressando o 2TEN FZE RN Silva Leite a Bissau, de avião.


(continua)

Fontes:
Pesquisa e compilação de texto a partir do relatório do 2TEN FZE RN José António Lopes da Silva Leite, núcleo 236-A do Arquivo de Marinha; fotos do Arquivo de Marinha; imagens do autor do blogue efectuadas a partir de extractos da carta da Guiné (cortesia IICT);


mls