quarta-feira, abril 01, 2020

Reserva Naval na LFP «Bellatrix», P 363 - Parte II


Guiné, 1970 - Minha Querida «Bellatrix» = NRP 363 - Parte II

(continuação)

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 18 de Fevereiro de 2010)




Na foto da esquerda, ainda nos estaleiros onde foi construída, a LFP «Bellatrix» efectua provas de mar e, na foto da direita, procede-se ao seu carregamento no transporte que a traria para Portugal


A Apollo XIII

Um dia, estava eu muito no quentinho no Cacheu, quando me apareceu o radiotelegrafista com cara de caso.

– “Oh! Homem, o que é que se passa?” pergunto­-lhe eu, ao que me responde meio acabrunhado – “Senhor Comandante, chegou agora uma mensagem que eu não percebo e que parece que não é de Bissau...”.

O Comando de Defesa Marítima da Guiné, em Bissau, era como já se calcula a única entidade que se correspondia connosco diariamente em código.

– “Então descodifica lá isso!”

– “Não sou capaz...”

– “Mau, mostra lá isso, então?” atiro­-lhe eu já curioso.

E à fria análise do meu olhar arguto, revelou­-se a dura realidade: a mensagem era cifrada!

– “Eh! pá, atão tu não vês qu’isso é uma mensagem cifrada? Decifra já isso, homem!”

Aí começa-­me ele a gaguejar: – “É qu’ê cá... ê cá nan sei, nan sei decifrar mensagens...”

– “Mau, então não te ensinaram isso em Vila Franca?” digo-­lhe eu, já com ar severo.

–“Ensinaram, sô comandante, mas é que ... é qu’eu já me esqueci, nunca mais pratiquei...”

Estou feito, pensei eu, que também nunca mais tinha praticado! E lá fomos à procura da máquina da cifra e mais dos dossiers adequados à resolução do problema.




Panorama de Vila Cacheu vista do meio do rio

Ao fim de algumas três horas, ou mais, de porfiados esforços, lá tínhamos a máquina actualizada e pronta a começar o serviço. E começaram a aparecer as primeiras indicações: FLASH!!! SECRETO!!! E, pânico, a mensagem vinha directamente para o comandante da «Bellatrix», de Sexa, o CEMA, o autêntico, o verdadeiro e genuíno, o do Terreiro do Paço!!!

E no final de mais de duas horas, finalmente a mensagem foi decifrada.

Para encurtar razões, tratava-­se do seguinte: a cápsula Apollo XIII, a do programa espacial da NASA (e do filme), a cumprir missão no espaço, tinha tido uma avaria nos sistemas de navegação e mostrava­-se incapaz de tornar à Terra automaticamente, como estava previsto, tendo de regressar “em manual”, isto é, sob manobra directa dos astronautas.

Isso determinou que a NATO lançasse um alerta geral e atribuísse, a cada navio dos seus parceiros, uma determinada área de responsabilidade, na eventualidade da cápsula não amarar, como estava previsto no plano de voo inicial, numa zona do Pacífico.

E à «Bellatrix» calhou, e era isso que dizia a mensagem, um quadradinho no Atlântico, entre a Guiné e Cabo Verde, para onde eu, já em estado de prontidão, me deveria deslocar tão rápido quanto me fosse ordenado, e lá assegurar a devida protecção aos astronautas até à chegada de quem de direito.

O curioso é que, com os consumos de combustível e as performances de que a lancha então era capaz, se eu atestasse os depósitos à partida, a minha autonomia só me permitia chegar ao ponto de encontro. Para o regresso teria de vir a reboque, já se vê...

Mas enfim, tudo está bem quando acaba bem e, graças a Deus, a Apollo XIII amarou exactamente onde devia, no Pacífico.

O Buba

O Rio Grande do Buba, assim chamado, não tinha nada a ver com o Cacheu. Era uma ria grande e larga, espraiada, de águas limpas e claras, com a savana a chegar às margens.




Vista aérea de Bolama, no rio Grande de Buba

Riquíssimo em peixe (em quantidade e qualidade), de tal modo que atrás já foquei, se pescava diariamente o almoço e o jantar. Na minha estreia no Buba, e na primeira maré que lá passámos, fui ver a faina da pesca.
As linhas eram cordéis e os anzóis, alfinetes revirados. Isco, quando o punham, era uma côdea de pão.

E mesmo assim, mal a primeira linha tocou a água, logo um pargo, um belo pargo aí de vinte e cinco ou trinta centímetros, começou a ser recolhido. Mas esse não o provámos, que vinha ele já metade fora de água quando, vinda lá de baixo, uma bicuda com um metro, levou pargo, anzol, ponta da linha e tudo o mais. Por estas e por outras é que, no Buba, só se pescava com estopro de aço.

E era assim que, com vinte ou trinta minutos de pesca diária, assegurávamos o peixe fresco (e que peixe!) para as refeições.

No Buba, o calor exterior e a temperatura e limpidez da água convidavam ao mergulho. Mas aí o receio eram os tubarões, que os havia naquelas águas. E então, no pressuposto de que os tubarões fogem do ruído, inventou­-se a piscina oceânica de águas permanentemente correntes e com limites definidos, com cintura flexível de segurança sonora, a saber: um voluntário, normalmente um dos fogueiros, saltava para o zebro - entretanto já com os paneiros reparados e um motor espectacular de 50 hp em vez dos habituais 35 hp das outras lanchas – e começava a desenhar círculos centrados na "Bellatrix" e um raio de aproximadamente seis metros, enquanto os banhistas evolucionavam graciosamente que nem Esther Williams, na zona de segurança.

E assim se passava o tempo.

Apesar de tudo foi no Buba que, um dia, apanhei um susto. Estava no meio de um cruzeiro, quando fui mandado levar um combóio de batelões à foz do Cumbijã, no sul.

Não era habitual interromper um cruzeiro, mas qualquer conjunto de circunstâncias determinou a inoperacionalidade simultânea de várias lanchas e não houve outra alternativa senão mandarem­-me a mim na missão.

Lá fui eu e correu tudo sem problemas. Mas como tinha de regressar imediatamente ao Buba, em vez de passar a noite no Cumbijã, voltei sem parar.

Isso determinou que tenha estado trinta e tal horas sem dormir. Por isso, quando me apanhei de novo no Buba, já passada Bolama e porque, aquelas águas nessa altura, para além de calmas já nos eram familiares, entreguei a Ponte ao Mestre que me assegurou que eu podia ir descansar um pouco. E assim fiz.

Mas ainda não estava a dormir há uma hora quando acordei em sobressalto, com um pressentimento e, ao subir à Ponte, fiquei estarrecido: o Mestre confundira alguma referência e, na grande bifurcação do Buba, quando ele se dividia em duas braças aparentemente iguais, em vez de inflectir para leste, como devia, inflectiu para norte, para um local temível onde, em tempos, fora apoiar uma LDM num abastecimento a Fulacunda, mas isso com cobertura aérea. Mas, enfim, lá fizémos 180 graus e nada de anormal aconteceu, graças a Deus.

A Operação quase Nino

Foi dos episódios mais emocionantes vividos na Guiné, enquanto Comandante da «Bellatrix».

Um fim de tarde, no Buba, estávamos já fundeados para o período da noite, a cerca de uma milha da última curva antes do troço final que levava ao aquartelamento, e eu a tomar um copo, a ler e à espera da hora de jantar, quando fui abordado por três zebros dos fuzileiros do Buba, numa operação habitual ao fim de tarde – um saque ao meu Gin!

Às 19:45 - o quarto rendia às 20:00 - aparentemente satisfeitos, os “assaltantes” retiraram.

E eu, que costumava render a praça de quarto para que pudessem jantar todos juntos, continuei no convés com ar contemplativo, observando os zebros que se afastavam. E quando começavam a desaparecer na curva do rio, reparei com espanto num estralejar por cima deles.

Fiquei perplexo: não era hábito na Guiné, e muito menos tinha eu notícia de algum fogo de artifício na zona. De repente, caí em mim. Aquilo era um ataque e os botes estavam a ser atacados.Dei o alarme na lancha e via rádio. Avançámos para o local. Mas, entre levantar ferro, arrancar com o navio e chegar ao local à velocidade “vertiginosa” da «Bellatrix», passou pelo menos meia hora.

Fazendo fogo para onde me parecia que provinham os morteiros, continuei durante algum tempo nesta acção. E soubera já, entretanto, que ninguém tinha sido atingido nos botes, embora houvesse a registar um furo numa das secções de uma das embarcações.

E fui ficando por ali a ver no que é que aquilo dava, até que ao fim p’raí duma hora, apareceu a todo o vapor uma LFG - Lancha de Fiscalização Grande, disparando afanosamente. A cena passou­-se, acabei o cruzeiro e voltei para Bissau onde cheguei ao fim da tarde e, cumprindo a rotina, fui ao Estado-Maior apresentar-­me.




1974 - Porto de Bissau visto do Quartel da Amura; no horizonte a Corveta »Honório Barreto»

Era 5ª feira. Aí fui às minhas premissas, lavei-­me, vesti­-me em função do dia e fui para a Messe para o jantar do ronco. Entro e vejo o Segundo Comandante na outra ponta da sala, junto ao Bar, acenando na minha direcção.

Olho para trás e, como não vejo ninguém, pergunto gestualmente:

– É comigo?, ao que o senhor Segundo Comandante acenou afirmativamente. Estranho e vou ter com ele. Quando chego à sua beira ele, entusiasmadíssimo, diz­-me de chofre:

–”Parabéns, você matou o Nino!” Nem mais nem menos, o Nino, o Vieira propriamente dito. Eu estranhei aquilo e perguntei, timidamente:

–”Como senhor Comandante?” E expliquei­-lhe o que se tinha passado.

–”Sim, o Nino”, insistiu ele. E, chamando o Oficial de Informações:

– “Oh! Comandante, não é verdade?”

– “É verdade, está confirmado.”

– “Vê (?), está confirmado!”

E eu, nada convencido, voltei a contar a história, fundamentei-­a com um cálculo de probabilidades e, finalmente, usei o argumento final:

– “E é que além disso, senhor Comandante, os meus Pais ensinaram­-me em pequenino que as armas de fogo são muito perigosas e que nunca se apontam para ninguém, e eu não me canso de repetir isso aos meus homens. Por isso, está a ver, senhor Comandante, não pode ter acontecido na minha lancha...”

Como se constata pela História recente, eu tinha razão...

De quando a «Bellatrix» ia às Ostras

Fui duas ou três vezes à foz do Cumbijã. O abastecimento de Bedanda e de outros aquartelamentos para aqueles lados era feito por combóios de batelões – às vezes mais de dez – através do Cumbijã, apoiados por uma LDM.

Competia, no entanto, às LFP o apoio de navegação a esses combóios até à foz do referido rio, ziguezagueando pelos bancos de areia, em animada ronda de bóias inexistentes, entre os Bijagós e terra firme.

As missões começavam, normalmente, em Bissau com o "briefing" dos comandantes onde, para além de se apresentar o plano de viagem, se recomendava expressamente aos «skippers» dos batelões que marcassem cuidadosamente os pontos de viragem da LFP, para só aí virarem por sua vez e, desse modo, evitarem os baixios e os inconvenientes encalhanços.

Trabalho inglório!...

Os batelões avariavam a uma média de dois cada três horas.

Que é como quem diz: ainda Bissau estava à vista e já o combóio se estendia por algumas três ou quatro vezes o seu comprimento à partida, inciando-­se a partir daí, a inevitável prática do atalhanço.

Que, por sua vez, determinava o início dos encalhanços...

Que praticamente duplicava o número de paragens imprevistas... – uma vez até a LDM se avariou!...

E assim sucessivamente até ao seu destino, dentro do Cumbijã, entre a ilha de Como e um areal, onde normalmente se pernoitava. No dia seguinte, regressávamos à Base e o restante combóio continuava rio acima, sob o comando da LDM.

Mas, como em tudo, também havia coisas boas – as ostras!

As ostras do Tombali.

Na Guiné, havia duas qualidades de ostras: as do tarrafo e as da rocha. As da rocha, em mar aberto, eram naturalmente as melhores, mais limpas, mais frescas, melhor depuradas, batidas que eram pelas ondas. E dessas, as de maior fama eram as dos baixios do Tombali.

E posso testemunhá-­lo, graças a Deus! Graças a Deus e a cuidadosos planeamentos que faziam coincidir a passagem da «Bellatrix» no local com as horas da marés vazas. Parava­-se (normalmente para reparar uma avaria ligeira), arriava-­se o bote e lá se iam encher os baldes com as afrodisíacas bivalves.

E depois era fartar das ditas, com um branquinho que nunca nos faltou.

Até tenho saudades...

Epílogo

E foi assim a minha passagem de seis meses pela «Bellatrix»: curta, mas marcante.

Depois, ainda fiquei mais um ano na Guiné (que eu já fora para lá com licenciatura), mas agora em comissão civil.

Estávamos em plena acção psico-­social, Congresso dos Povos de Guiné, etc., e o General Spínola, ao tempo Governador, requisitou­-me à Marinha e colocou-­me como Agrónomo nos serviços de Veterinária, onde um dos meus principais entretenimentos era andar de tabanca em tabanca a inaugurar bebedouros para vacas.

E a brincar, a brincar, foi aí que andei de Chaimite, de pica em coluna no mato, e tive outras experiências bem mais desagradáveis.

E saudades da Bellatrix...

Mas isso são outras histórias.





José Manuel da Costa Bual
14.º CFORN


(final)

Fontes:
Texto de artigo publicado na Revista n.º 12 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abril 2000; fotos de arquivo do autor do blogue, Arquivo da Marinha e 2TEN RN Abel Melo e Sousa, do 20.º CFORN;

mls

terça-feira, março 31, 2020

Reserva Naval na LFP "Bellatrix", P 363 - Parte I


Guiné, 1970 - Minha Querida "Bellatrix" = NRP 363 - Parte I

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 12 de Fevereiro de 2010)




Em cima, no sul da Guiné as entradas das barras dos rios Cumbijã e Cacine, a ilha de Melo,
Em baixo, a povoação de Cacine e uma morança da tabanca





Preâmbulo

Durante seis meses fui Comandante da LFP «Bellatrix». Agora parece pouco tempo mas, na altura, já casado e com prole iniciada e, ainda por cima na Guiné, pareceu-­me muito!

Eu até era para ter ficado no Estado-Maior da Armada, em Lisboa, mas um dia, ao fim de seis meses, estava eu muito sossegadinho no 2.º andar do Terreiro do Paço a olhar para o Tejo, quando o meu Comandante ao tempo, o CMG António Duarte da Cruz Filipe me chamou e disse:

"Bual, dados os bons e leais serviços prestados, e porque se aproxima o seu aniversário, a Marinha não quer deixar passar em branco a efeméride e por isso aqui tem!"

E estendeu-­me a valiosa prenda, um lindo bilhete de avião da TAP para o dia dos meus anos, de ida para Bissau (só de ida), acompanhado pela competente Guia de Marcha, "o todo" embrulhado nas amáveis palavras de uma gentilíssima portaria de nomeação, onde eram tecidos os maiores encómios à minha capacidade de comando – o que eu até estranhei, porque na altura ainda estava por demonstrar!

A primeira reacção foi de recusa, a minha modéstia não me permitia aceitar tal distinção, nem eu me considerava merecedor de tão valiosa prenda...mas, as palavras insistentes e emocionadas do Sr. Comandante amoleceram a minha resistência e fizeram-­me aceitar o presente.

E lá fui...

O primeiro contacto

Cheguei a Bissau às duas e meia da tarde de um daqueles dias da época das chuvas, em que o calor é abrasador e a humidade insuportável, daqueles dias em que, chegado à porta do avião, me senti empurrado para trás pelo peso do ar.



Em cima: Num registo da LDG «Alfange», amarrada à bóia em Bissau, um panorama da Av. Marginal com as torres da Sé ao fundo e o NM «Braga» atracado ao cais.
Em baixo: A ponte-cais em T de Bissau, na normal azáfama de carga e descarga de batelões, de e para viaturas militares. Por detrás, em primeiro plano, o edifício do Comando de Defesa Marítima da Guiné (antigo edifício das Alfândegas).



À minha espera, o meu amigo Zé da Silva Dias, o da Reserva Naval, ao tempo Comandante da LFP «Deneb» e, interinamente, da LFP «Bellatrix» que me estava destinada, o cujo pegou em mim e me levou à Solmar, onde nos dessedentámos e comemos um bife; daí, para a sesta no «Hotel Reserva Naval»; ao fim da tarde, para um magnífico jantar em casa de um amigo dele que amavelmente se dispôs a tentar ajudar a fazer-­me passar o inesquecível dia de anos.

E foi ainda meio enressacados que, logo bem cedo no dia seguinte, embarcámos na LFP «Bellatrix» para a viagem da passagem do comando. Como estreia, não foi mau; pelo canal de Melo até Cacine, onde a amável convite do residente desembarcámos para jantar, no aquartelamento do Exército.

Para jantar e para levar na cabeça, que ainda íamos na sopa quando começaram a ouvir-­se uns sons "sui generis", novos para mim, mas que logo me explicaram serem rebentamentos provenientes, ao que parecia, de umas morteiradas amorosamente enviadas do outro lado da fronteira pelo PAIGC, com lembranças do Sekou Touré (foi o meu baptismo de fogo e, graças a Deus, o mais perto que jamais dele estive).

Interrompido o jantar, esperámos, e o Zebro nunca mais! E o barulho afastava­­-se, afastava­-se..., em direcção ao mar. E, enquanto conjecturávamos sobre o que se poderia estar a passar - púnhamos até a hipótese de deserção do fogueiro -, começámos a ouvir gritos e pedidos de socorro; era o pobre desgraçado, ofegante (e apavorado, que aquilo eram águas de tubarões), a nado.

Tinha caído do bote, embora com desculpa, que os paneiros do fundo estavam partidos e, com a mareta, o dito bote dobrou e cuspiu­-o. De modo que, para começo, não estava mal: ao fim de pouco mais de 30 horas na Guiné, já tinha levado na cabeça, tido um homem ao mar e perdido o Zebro!

Por outro lado, e em contrapartida, que também se deve ver o lado bom das coisas, ao fim de pouco mais de 31 horas na Guiné, já tinha passado incólume por uma operação de fogo, feito um salvamento no Cacine e recuperado uma embarcação à deriva...

E assim estava estabelecido o primeiro contacto com a «Bellatrix», a gloriosa P 363, autêntica lancha voadora com o seu jeito inconfundível de marcar presença pelo fumo, nos seus picos entusiasmados de 8,19 nós a favor da corrente!



A LFP «Belatrix» em plena navegação

A guarnição

A «Bellatrix» tinha uma característica que a distinguia das outras lanchas em serviço na Guiné: enquanto que, normalmente, uma guarnição em cada uma delas era rendida de uma só vez, Comandante e restantes elementos, na «Bellatrix», por contingências várias e coisas passadas, as rendições eram individuais.

Sorte minha, digo eu, porque isto quer dizer, na prática, que acabávamos por nunca estar na lancha, perdoe-­se­-me a expressão, aos papéis. Que é como quem diz que, quando eu cheguei, piriquito, a rapaziada explicou-­me praticamente tudo. E depois, conforme eles iam sendo rendidos, já o Comandante (cá o rapaz) dominava a situação... Penso eu de que!...Mas, fora de brincadeiras: guarnições como aquela não haveria muitas, decerto...

Passaram por lá, durante o meu tempo, dois Mestres, Cabos por sinal - que nunca me calhou nenhum Sargento – mas que acabaram dando conta do recado, Artilheiros, destemidos e de pontaria tão afinada que dispensavam a antepara da peça (reparem que, no modelo da protagonista e, correctamente, não está representado este acessório, Fogueiros que sem os milagres dos quais nunca teríamos ido a lado nenhum e Radiotelegrafistas que até conseguiam comunicar com Bissau (e com o EMA!) do meio do tarrafo do Cacheu!...

Pescadores eméritos, que graças a eles (para os cruzeiros do Buba só levávamos arroz, batatas e verdes) as proteínas arranjavam­-se lá, diariamente! Animadores fantásticos, organizadores de tempos lúdicos, que até a segurança aos tubarões garantiam, também no Buba, perfazendo círculos com o Zebro à roda da lancha e transformando as águas circundantes em piscina fabulosa...

E as ostras, nos baixos do Tombali? Eram às carradas, de cada vez que levávamos um combóio de batelões à foz do Cumbijã! E o Peciche (ou Pecixe), nunca consegui apurar, que tratava de nós todos, e tinha uma mãozinha para o tempero que, vou-vos contar, só não o trouxe para Lisboa porque ele não quis vir comigo.

Era uma equipa do melhor e devo dizer que só me faltou um electrónico para reparar o radar quando uma vez o seu PPI se transformou numa flor (saudosos ‘70s, dos hippies..).

A vida a bordo

Não faria certamente muita diferença da vida a bordo das outras lanchas, a vida na LFP «Bellatrix» em cruzeiro. Levantar, fiscalizar, almoçar, fiscalizar outra vez, jantar e deitar! E, para ajudar a passar o tempo, ler, escrever (quem ainda não tinha perdido a escrita, já se sabe), conversar, ouvir música, beber uns copos e fazer paciências.

E esperar pelo dia seguinte...

Eu passava a maior parte do tempo entre a ponte e a câmara, que o calor não convidava a estar ao ar livre. Aliás, na câmara, cohabitava comigo um ratinho que era muito meu amigo. Dormia na cama de estibordo, por cima da qual havia uma prateleira com livros a que, pomposamente, chamava biblioteca e, todas as noites, entre as duas e as três da manhã, o meu amigo vinha cumprimentar-­me, saltando da biblioteca para o chão e usando a minha barriga como degrau.Lá ia à vida dele e só nunca percebi como é que voltava para casa, que nunca o consegui surpreender em tal trajecto.

Havia outras habitantes da câmara, mas com essas dava-­me menos. Não eram nada amigáveis, parecia até que fugiam de mim e teimavam em fechar­-se no seu domínio. Pois é, eram as baratas que, provavelmente para se defenderem do tal calor que nos oprimia a todos, optaram por viver no frigorífico. Entravam e saíam à vontade pelas borrachas, que na verdade não vedavam lá muito bem...

Lembro­-me até de uma vez em que recebi um daqueles miminhos por que todos ansiávamos que nos mandassem de Lisboa. Era uma remessa particularmente gulosa e continha, entre outras iguarias, um extraordinário queijo da serra, amanteigado e ainda por cima e feliz coincidência, chegou-­me a dita encomenda em véspera de sair para um cruzeiro.




Um troféu perfeitamente ao alcance, à época...

Feliz, pensei que aquele cruzeiro até me ia custar menos a passar, com aquele queijinho para ir papando. Pressuroso, carreguei-­o para a lancha e largámos de Bissau de madrugada. À noite, já no Cacheu, para culminar um petisco do Pecixe e com um vinho que eu até tinha prévia e cuidadosamente escolhido, abri cerimoniosamente o queijo... e, oh céus!, excedia em tudo as minhas expectativas mais optimistas: a massa escorrida, o aroma, o paladar!!! Os cheiros da serra, das ervas da serra, do cardo da serra, tudo me acudia à memória!!!... Eu via­-me lá, pastor de um rebanho de ovelhas pastando num fim de tarde, o som bucólico dos badalos embalava­-me...

Oh! Cacheu, onde é que estavas que já nem de ti me lembrava! Aí apareceu­-me outra vez o Pecixe para levantar a mesa, e acordou-­me do sonho. Ia-­o matando...e de novo cá em baixo, no real verde escuro acastanhado do Cacheu, guardei o queijo, antecipando já o almoço do amanhã. Até dormi melhor nessa noite, os sonhos que eu tive...

Mas, na manhã seguinte (quem me dera não ter acordado): o queijo, o meu queijo, o meu rico queijinho, jazia no chão da Câmara! O frigorífico não era lá muito aficionado de fazer frio: gelo, nem pensar, e frio, talvez uns 5 ou 6 graus abaixo da temperatura exterior (que era p’raí de 40° à sombra...), menos do que isso, não! Sobre as borrachas do dito já falei, quando contei as baratas!

De modos que durante a noite, o meu rico queijinho, amanteigado como só ele, com a temperatura morninha lá de dentro, foi escorrendo, escorrendo, primeiro pelo chão do próprio frigorífico, depois por baixo das borrachas e para fora dele e, por fim, pelo chão da câmara afora!...Quem se aproveitou da situação e se alambazou com o meu queijo foi o meu amigo, durante a sua saída nocturna. E eu, em contrapartida, entrei numa fase depressiva aguda que me durou pelo menos até ao fim do cruzeiro.

O caminho marítimo para o Cacheu

Primeiro que tudo, não é para me gabar (ou talvez até seja), mas quero fazer notar que nunca, repito, nunca encalhei na Guiné.

Posto isto, quero referir que o meu primeiro cruzeiro foi no Cacheu. E dessa primeira vez, como de resto nas 2 ou 3 seguintes, segui escrupulosamente o que mandavam os livros e aconselhavam as boas e seguras práticas de navegação: ia ao mar, contornava o continente até às bóias de marcação do canal (lembram­­-se?..., daquelas que não estavam lá, mas que vinham nas cartas e qu’a gente calculava que deviam ser mais ou menos por ali...) e daí, pimba: direito a terra e Cacheu acima.

Mas um dia, em conversa com um comandante de uma LDG (não juro, mas parece­me que seria o Comandante Costa Correia) percebi que eles não davam essa volta e iam directos da foz do Mansoa à barra do Cacheu.

Não quis ouvir mais nada: pois se eles calavam pouco menos do que eu, o que é que eu andava ali a fazer às voltas? E fui-­­me às cartas, passei a dar mais atenção às tabelas das marés e passei a ir também por lá. Nunca me arrependi e cortei algumas 6 ou 7 horas à viagem, ainda por cima as mais chatas...

O Cacheu

Só quem lá esteve é que sabe de que é que eu estou a falar. Daquele braço de mar, com mais de duzentos quilómetros de comprido, com quase um metro de amplitude de maré em Farim, daquela espécie de canal de perfil em U onde corria um líquido viscoso verde escuro acastanhado que alguns diziam ser água (no que eu nunca acreditei!), com o tarrafo claustrofóbico emergindo erecto das margens, por vezes até 20 m de altura, com os olhinhos dos crocodilos (dos poucos que escapavam ao Zé Luís Roque Pinho) a espreitarem por entre o emaranhado das raízes e, sobretudo, do negro.




A LFP «Canopus» (irmã gémea da LFP «Bellatrix»)efectua uma escolta no rio Cacheu.

O negro, negro, das noites sem lua, um negro grosso que até pesava, um negro baço onde não se via a meio metro, um negro que metia medo. Um negro como eu acho que deve ser o negro dos buracos negros.

No Cacheu, os dias passavam mais devagar do que nos outros sítios, devia ser das horas serem mais compridas, ou então daquela humidade grossa (esverdeada, no Cacheu até a humidade era esverdeada...) que se metia dentro dos relógios e lhes atrasava os ponteiros.

Num dia típico no Cacheu, ao nascer do Sol, levantava­-se o ferro e ficava­-se à deriva enquanto o Sol projectava a sombra do tarrafo no rio; então, quando o calor se tornava insuportável, amarrávamos na margem ensombrada; quando o Sol chegava ao zénite, mudávamos para a outra margem; quando a sombra voltava a cobrir o rio, desamarrávamos e derivávamos de novo, até ao pôr do Sol. E, entretanto, é claro, almoçávamos e jantávamos os petiscos do Pecixe.

A excepção eram as clareiras: aí sempre havia algum "suspense", punham­-se os motores a trabalhar, o pessoal nos postos de combate e, às vezes, até se fazia fogo para afinar a pontaria, ou então, quanto mais não fosse, para gastar munições em fim de prazo...

Era no Cacheu que a «Bellatrix» registava os consumos mais baixos de gasóleo e mais altos de líquido sedíveis: em média, 2 caixas de vinho, 3 garrafas de whisky e 3 garrafas de gin, por cruzeiro.




José Manuel da Costa Bual
14.º CFORN


(continua)

Fontes:
Texto de artigo publicado na Revista n.º 11 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abril 2000; Fotos do Arquivo da Marinha e do autor do blogue;


mls

segunda-feira, março 30, 2020

Junho de 1966 - Navio Hidrográfico «João de Lisboa»


A Reserva Naval no navio hidrográfico «João de Lisboa»

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 15 de Novembro de 2009)


O navio hidrográfico «João de Lisboa», assim classificado em 4 de Março de 1961, foi uma reconversão do antigo aviso de 2ª classe com o mesmo nome.

Serviu na Missão Hidrográfica do Continente e Ilhas Adjacentes e foi abatido ao efectivo dos navios da Armada em 30 de Setembro de 1966.




Numa das muitas missões efectuadas escalou o Funchal e efectuou o registo fotográfico da guarnição, na tradicional foto de família que acima se insere, com a limitação de não poder ser legendada na totalidade pelo desconhecimento da maioria dos elementos que a integravam.





Em cima, da esquerda para a direita: STEN RN João da Rocha Camargo de Sousa Eiró - 6º CEORN, 1TEN Alves Sameiro, 1TEN Jorge Bastos - Oficial Imediato, CTEN Miranda Gomes, CMG Luciano Bastos - Sub-Director do Instituto Hidrográfico e Comodoro Ramalho Rosa - Director do Instituto Hidrográfico.

Em baixo, da esquerda para a direita: CTEN José Emilio Ataíde - Comandante, CTEN AN, n/identificado - Instituto Hidrográfico, 1TEN SG Ribeiro, 2TEN RM Gil Costa, 1TEN Mautempo, STEN MN RN Luciano Ravara - 6º CEORN e Asp RN Pedro José Araújo de Sousa Sousa Ribeiro do 7º CEORN.





Este navio veio a ser rendido, nas missões que desempenhava, pelo navio hidrográfico «Afonso de Albuquerque» que largou de Lisboa em 20 de Junho de 1966 com essa finalidade.


Fontes:
Dicionário de navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; foto e texto cedidos pelo STEN RN Pedro José Araújo de Sousa Ribeiro;


mls

domingo, março 29, 2020

Guiné, LFP «Deneb» - P 365


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Deneb» - P 365

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Fevereiro de 2011)


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 15 de Junho de 1961, na Guiné, depois de ter sido transportada por um navio mercante para Bissau, onde chegou no dia 8 daquele mês.




Guiné, 1967 - A LFP «Deneb» a navegar no rio Cacine

Foi integrada na Esquadrilha de Lanchas da Guiné e a terceira de um conjunto de 13 unidades que constituíram a classe «Bellatrix» e com as mesmas características gerais. Ainda que algumas delas reflectissem alterações estruturais profundas entre si, resultantes da necessidade de as adaptar aos cenários de operações, foi decidida a sua classificação na mesma classe, para simplificação de tipologias diferenciadas que poderiam implicar uma reclassificação em, pelo menos, duas classes distintas.

Fez parte do planeamento inicial do Estado-Maior da Armada este tipo de unidades navais serem comandadas por um Sargento M (manobra). Mais tarde, por proposta do Comando de Defesa Marítima da Guiné, a ideia foi abandonada. Na sequência da resolução de alguns problemas de navegação surgidos pelo tipo da complexa hidrografia daquele território, foi decidido que o comando passasse a ser efectuado por um Oficial subalterno.




Guiné, 1964 - A participação na Operação "Tridente" com apoio ao desembarque de forças na «Ilha de Como». Em primeiro plano a LFP «Canopus", sendo visível o lançador de foguetes de 37 mm e, a curta distância, a LFP «Deneb» - que a acompanhava na mesma missão




No dia 23 largou do porto de Bissau e, no dia seguinte, depois de patrulhar o rio Geba regressou ao cais. Entre Junho e o final de Setembro, realizou exercícios de tiro no canal do Geba, efectuou diversas escoltas e patrulhas, escoltou o TT «Conceição Maria», comboiou o NH «Pedro Nunes» até Bissau e patrulhou também o rio Cacheu.

Em 12 de Outubro navegou com um grupo de Aspirantes a Oficial da Reserva Naval que depois deixou naquele navio hidrográfico, tendo regressado a Bissau em 16 de Outubro.

No dia 18 assumiu o comando da LFP «Deneb» o STEN RN Armando Fernandes Peres do 3.º CEORN, o primeiro oficial a exercer aquelas funções.

Tendo iniciado no rio Geba a sua vida operacional, teve mais destacada participação no sul da Guiné, ainda que com acções pontuais no rio Cacheu no decorrer dos anos de 1962 e 1963. Apoiou operações e combóios logísticos, sobretudo nos rios Tombali, Cobade, Cumbijã e Cacine, onde foi alvo de frequentes emboscadas, mantendo combates com grupos armados instalados nas margens.

De 13 de Janeiro a 22 de Março de 1964, participou na Operação «Tridente», tendo regressado por breves intervalos a Bissau para descanso da guarnição. A partir de meados de 1968 passou a integrar também o dispositivo naval no rio Cacheu – Operação «Via Láctea» - onde participou em múltiplas missões operacionais que incluiram flagelações ao inimigo da sequência de ataques e emboscadas das margens.




Armando Fernandes Peres, José Manuel Burnay e Mário Sá Couto

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Deneb» os seguintes oficiais da Reserva Naval:

2TEN RN Armando Fernandes Peres, 3.º CEORN, 18Out61/09Abr63;
2TEN RN José Manuel Burnay, 4.º CEORN, 09Abr63/23Jun64;
2TEN RN Mário Luis Neves Sá Couto, 6.º CEORN, 23Jun64/02Jun66;
2TEN RN Emídio Guilherme Mendes de Aragão Teixeira, 8.º CEORN, 02Jun66/23Mar68;
2TEN RN Manual Maria Pereira da Silva, 10.º CFORN, 23Mar68/20Nov69;
2TEN RN José Luis Ferreira da Silva Dias, 14.º CFORN, 20Nov69/17Jul70;
2TEN RN Ilídio José Prazeres de Assunção, 15.º CFORN, 17Jul70/03Fev72;




Emídio Aragão Teixeira, Manuel Pereira da Silva, José Luis Dias e Ilídio Prazeres de Assunção

Foi-lhe atribuída a alcunha «Branca de Neve», suportada num claro trocadilho do nome quando, após uma reparação, a pintura exterior, usualmente verde acastanhado escuro, surgiu bem mais clara que a das outras lanchas.

Em 1 de Julho de 1971 subiu o plano inclinado do SAO - Serviço de Assistência Oficinal onde foi vistoriada. No relatório, considerou a Comissão de vistoria que, a extensão e dimensão das corrosões, deformações, bem como o notável enfraquecimento de todos os elementos da estrutura em geral, por implicar uma grande reparação geral, tornava anti-económica a recuperação daquela unidade naval. Assim, com cerca de 7800 horas de navegação foi proposto o desarmamento total do navio e o seu abate, o que veio a suceder em 3 de Fevereiro de 1972.

Navios da mesma classe:

«Bellatrix», «Canopus», «Deneb», «Espiga», «Fomalhaut», «Pollux», «Rigel», «Altair», «Arcturus», «Aldebaran», «Procion», «Sirius» e «Vega».




Fontes:
"Por este nome se conhecem (As alcunhas dos navios)" - Carlos Alberto da Encarnação Gomes, Edições Culturais da Marinha, 2010; "Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; "Setenta e Cinco Anos no Mar", Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto e imagem do autor do blogue;


mls

sábado, março 28, 2020

Guiné, LFP «Canopus» - P 364


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Canopus» - P 364

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 31 de Janeiro de 2011)


Construída nos estaleiros alemães Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 29 de Maio de 1961, na Guiné, depois de ter sido transportada por um navio mercante para Bissau, onde chegou em 17 daquele mês, juntamente com a LFP «Bellatrix».




Bissau - A LFP «Canopus», na ponte-cais em «T» atracada de braço dado às LFG «Lira», LFG «Sagitário» e ainda uma outra LFG

Foi integrada na Esquadrilha de Lanchas da Guiné e a segunda de um grupo de 13 unidades que constituíram a classe «Bellatrix» e com as mesmas características gerais. Ainda que algumas delas reflectissem alterações estruturais profundas entre si, resultantes da necessidade de as adaptar aos cenários de operações, foi decidida a sua classificação na mesma classe, para simplificação de tipologias diferenciadas que poderiam implicar uma reclassificação em, pelo menos, duas classes distintas.

Fez parte do planeamento inicial do Estado-Maior da Armada este tipo de unidades navais serem comandadas por um Sargento M - Classe de Manobra. Mais tarde, por proposta do Comando de Defesa Marítima da Guiné, a ideia foi abandonada. Na sequência da resolução de alguns problemas de navegação surgidos pelo tipo da complexa hidrografia daquele território foi decidido que o comando passasse a ser efectuado por um Oficial subalterno.




Guiné, 1964 - A participação na Operação "Tridente" com apoio ao desembarque de forças na "Ilha de Como". Em primeiro plano o lançador de foguetes de 37 mm sendo visível, a curta distância, em baixo, a LFP «Deneb» que a acompanhava na mesma missão



Em 4 de Agosto de 1961 largou em patrulha para o rio Cacine. No dia 12, depois de suspender passou por cima de uma pedra que se encontrava no meio do rio danificando o leme e o veio do motor de estibordo. Encalhou propositadamente frente a Cacine para proceder a verificações, constatando-se que havia um pequeno rombo, prontamente tapado. A porta do leme de EB tinha recolhido um pouco pela popa e o veio do motor daquele bordo tinha empenado com torsão das pás do hélice. Em 21 daquele mês regressou a Bissau a reboque do NM «Corubal», atracando no dia seguinte para reparação.

Tendo iniciado no sul da Guiné a sua vida operacional, ali teve mais destacada participação no apoio a operações e a comboios logísticos, sobretudo nos rios Tombali, Cobade, Cumbijã e Cacine, onde foi alvo de frequentes emboscadas, mantendo combates com grupos armados instalados nas margens.

De 13 de Janeiro a 11 de Março de 1964, participou na Operação “Tridente”, decorrida até 22 de Março, tendo estacionado por breves intervalos em Bissau para descanso da guarnição. A partir de meados de 1968 passou a integrar também o dispositivo naval no rio Cacheu – Operação Via Láctea.



Guiné, rio Cacheu - Foi frequente a participação em escoltas a combóios de batelões e lanchas. Na imagem de cima é visível um modelo mais actualizado de lançador de foguetes com secção rectangular e, na de baixo, um dispositivo de lançamento de granadas, deniminados ALG/Dilagramas, e uma metralhadora MG 42





Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Canopus» os seguintes oficiais da Reserva Naval:



Joaquim Madeira Terenas,Luis Fernandes Sequeira e Manuel Ruivo Figueiredo

2TEN RN Joaquim Madeira Terenas, 3.º CEORN - 27Set61/07Abr63;
2TEN RN Luis Pinto Fernandes Sequeira, 4.º CEORN – 07Abr63/23Jun64;
2TEN RN Manuel José Ruivo Figueiredo, 6.º CEORN – 23Jun64/02Jun66;
2TEN RN Carlos Alberto Lopes, 8.º CEORN – 02Jun66/27Mai68;
2TEN RN Henrique Nunes de Oliveira Pires, 11.º CFORN – 27Mai68/02Mar70;
2TEN RN Domingos Manuel Alves Monteiro Diniz, 14.º CFORN – 02Mar70/22Jul71;




Carlos Alberto Lopes, Henrique Oliveira Pires e Domingos Monteiro Diniz.

Em 22 de Julho de 1971 permanecia atracada no porto de Bissau devido à falta de sobressalentes. Nessa data, depois de mais de 5.600 horas ao serviço da Marinha de Guerra, foi a primeira da classe a ser abatida ao efectivo dos navios da Armada.




Guiné, 1967 - Quase em seco, atracada no porto interior de Catió, vendo-se o 2TEN RN Carlos Alberto Lopes, o comandante da altura, a bombordo, sentado no convés junto à bóia

Navios da mesma classe:
«Bellatrix», «Canopus», «Deneb», «Espiga», «Fomalhaut», «Pollux», «Rigel», «Altair», «Arcturus», «Aldebaran», «Procion», «Sirius» e «Vega».




Fontes:
Dicionário de Navios, Comandante Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue cedidas por 2TEN RN Henrique Oliveira Pires e Arquivo de Marinha.


mls

quinta-feira, março 26, 2020

18.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Fev1971


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 8 de Julho de 2010)



Listagem completa do 18.º CFORN.


Foi o primeiro curso realizado no ano de 1971 que, a exemplo de anos anteriores seria assinalado pela incorporação de dois cursos de formação de oficiais da Reserva Naval.




Em cima, Eduardo Madeira Ricou - LFP «Procion», Fernando Correia dos Santos - LFP «Bellatrix», Herculano Marques Ferreira - LFP «Fomalhaut» e João Manuel Esteves - LFP «Antares»;
Em baixo, Jorge Manuel Ramos - LFP «Aljezur», José Sequeira Alvarez - LFP «Arcturus» e Luis Lynce de Faria - LFP «Mercúrio»




O 18.º CFORN foi alistado em 18 de Fevereiro de 1971 e concluiu-se a 13 de Outubro daquele ano. Foram incorporados 57 cadetes assim distribuídos pelas várias classes: 23 cadetes na classe de Marinha, 25 cadetes na classe de Fuzileiros e 9 cadetes na classe de Técnicos Especialistas. Pertenceu a este curso o 2TEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, vítima de uma mortal e mal esclarecida emboscada, em Angola.




Em cima, a placa de homenagem ao STEN FZ RN António Piteira, na sala Reserva Naval da Escola Naval e, em baixo, o pormenor da inscrição local no Memorial de Belém onde figura o nome do oficial morto em combate (Angola, 1973).



Comandava a Escola Naval o Contra-Almirante Pedro Fragoso de Matos e foi Director de Instrução o Capitão de Mar-e-Guerra Eugénio Eduardo da Silva Gameiro.




O Contra-Almirante Pedro Fragoso de Matos, Comandante da Escola Naval e o Director de Instrução, Capitão de Mar-e-Guerra Eugénio Eduardo da Silva Gameiro

No final do período de instrução, o Prémio “Reserva Naval” foi entregue ao cadete da classe de Marinha, António José Guimarães Barral. Este prémio destinava-­se a galardoar o aluno com classificação mais elevada no conjunto da frequência escolar e da apreciação de carácter militar.




O cadete da Reserva Naval António José Guimarães Barral

Durante o ano de 1971, para a prossecução do plano de modernização da Marinha, conjuntamente com a necessidade de reforçar os meios navais empenhados na Guerra do Ultramar, foram aumentados ao efectivo dos navios da Armada o navio-patrulha «Zaire» e a LDG «Alabarda». Em 1972, vieram ainda reforçar aquele dispositivo a LF «Sabre», o navio balizador «Schultz Xavier», o navio-patrulha «Zambeze» e o navio hidrográfico «Almeida Carvalho».

No decorrer do mesmo ano de 1971, foram abatidos ao mesmo efectivo a fragata «Nuno Tristão», o caça-minas «Santa Maria», o navio-patrulha «Santo Antão» e a LFP «Tete» e, em 1972, seguiram idêntico destino as fragatas «Álvares Cabral» e «D. Francisco de Almeida» e as LFP «Canopus», LFP «Deneb» e LFP «Algol».




A LDG «Alabarda» atracada na doca da Marinha, antes de ir para Angola

Em Julho, foi iniciada a publicação da Revista da Armada, destinada essencialmente à divulgação interna das actividades da Marinha e que se tornou numa fonte documental indispensável para o conhecimento institucional da Armada.

Muitos oficiais da Reserva Naval desempenharam missões e viriam a fazê-lo nestes navios, quer nos entretanto abatidos quer nos aumentados ao efectivo, todos eles tendo representando um papel relevante na História da Reserva Naval.



A FF «Pero Escobar», mais conhecida pela "Gina"

Houve uma normal mobilização dos elementos deste curso como Comandantes, Oficiais Imediatos de navios, Oficiais de Guarnição, integrando Companhias e Destacamentos de Fuzileiros ou Unidades e Serviços em terra, tendo sido designados para prestar serviço em África, ou Continente e Ilhas, os seguintes oficiais:

Guiné (10 Oficiais):

2TEN RN Fernando Tabanez Ribeiro, LFG «Lira»;
2TEN RN Eduardo Germano Madeira Ricou, LPP «Procion»;
2TEN RN Fernando Manuel Correia dos Santos, LFP «Bellatrix»;
2TEN RN Jorge Manuel Conceição Ramos, LFP «Aljezur»;
2TEN RN José António Sequeira Alvarez, LFP «Arcturus»;
2TEN TE RN João de Azevedo Pacheco de Sacadura Botte, CDM da Guiné;
2TEN TE RN Sidarta Valentino Capelo de Sousa, CDM da Guiné;
2TEN FZE RN Carlos Alberto Pardal Sanina, DFE 22;
2TEN FZE RN Eduardo Moreira Vaz Cardoso, DFE 12;
2TEN FZE José Alfredo Oliveira Braga, DFE 1;

Numa mensagem de Ano Novo, Sékou Touré referiu-se aos inimigos com ligação aos acontecimentos de Novembro de 1970 – Operação "Mar Verde" – e que, segundo comunicado do Bureau Político Nacional, iriam ser convidados elementos da imprensa africana e internacional para assistirem às audiências da Assembleia Nacional da República da Guiné, a funcionar para a circunstância como Tribunal Popular. A maioria dos organismos do PGD (Partido Democrático da Guiné) mostra-se favorável à pena de morte para os mercenários capturados e seus cúmplices guineenses e a pena de trabalhos forçados ou prisão para estrangeiros.

Em 24 de Janeiro foi comunicado ao país o veredicto com que a Assembleia Nacional Guineense, eleita em Tribunal Revolucionário Supremo, castigou os réus implicados nos acontecimentos de 22 de Novembro de 1970. Foram condenadas à morte 91 pessoas, 66 a trabalhos forçados perpétuos e confiscados todos os bens dos condenados. Foram expulsas do país 16 mulheres.




O Comando de Defesa Marítima da Guiné depois de instalado no antigo Edifício das Alfândegas

No decorrer do ano de 1971, em 9 de Junho, pelas 21:45 foi efectuado o primeiro ataque do PAIGC a Bissau. A cidade foi flagelada com foguetões 122 mm.

Em Agosto a Rádio Senegal passa a difundir programas do PAIGC em português utilizando, para tal, uma locutora feminina de voz agradável que ficou conhecida pelas Forças Armadas como a Maria Turra. Divulgava notícias de guerra falsas ou extraordinariamente exageradas, atacando sempre a presença dos colonialistas portugueses na Guiné.

Em Novembro do mesmo ano é activado o DFE 22 o segundo Destacamento de Fuzileiros Especiais Africanos da “Série 20”, no Centro de Preparação daquela cidade. Comandado pelo 1TEN Rebordão de Brito.


Cabo Verde (4 Oficiais):

2TEN RN Vitor Correia Guimarães, navio-patrulha «Quanza»;
2TEN RN Fernando de Oliveira Macedo Ferraz, Fragata «Comandante Sacadura Cabral»;
2TEN RN Olavo Francisco Valente Rasquinho, Comando Naval de Cabo Verde;
2TEN FZ RN Nuno Rodrigo Santos Pereira, Pelotão Independente (n.º 1) de Fuzileiros;


Angola (10 Oficiais):

2TEN RN António José Guimarãoes Barral, navio hidrográfico «Almeida de Carvalho»;
2TEN RN Herculano Santos Marques Ferreira, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Carlos Eduardo Couto da Cunha Dias, navio-patrulha «Rovuma»;
2TEN RN José dos Remédios Dias Gonçalves, navio patrulha «Cunene»;
2TEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, CF 1;
2TEN FZ RN Manuel Teotónio Rodrigues, CF 1;
2TEN FZ RN Vitor Luís da Silva Dores,CF 1;
2TEN FZ RN António Carvalho Rodrigues do Nascimento, DFE 10;
2TEN FZE RN Dulcínio de Oliveira Santos, DFE 10;
2TEN FZ RN Manuel José da Silva Gomes Lima, CF 3;

A República do Congo continuava a apoiar o movimento político-subversivo FNLA-GRAE com larga visibilidade exterior. Por ocasião de uma visita do presidente Mobutu foi salientada a contribuição congolesa e senegalesa para extirpar da terra africana todas as práticas aviltantes e de sujeição do homem africano.

A Zâmbia mantinha com Portugal um tom político de fria hostilidade, acusando o nosso país de estar a impor um bloqueio ao escoamento das suas exportações através do porto da Beira. Contrariando as declarações de intenção de uma política de boa vizinhança e de não ingerência interna nos assuntos de outras nações, o governo da Kaunda apoia os movimentos subversivos do MPLA e também da UNITA.




A LFP «Fomalhaut» a navegar no rio Zaire


Moçambique (13 Oficiais):

2TEN RN Abel Joaquim Pera Lopes Simões, CDM Portos Lago Niassa;
2TEN RN Manuel Pedro Faustino da Costa, CDM Portos Lago Niassa;
2TEN RN João Manuel Esteves, LFP «Antares»;
2TEN RN Luís Alexandre Lynce de Faria,LFP «Mercúrio»;
2TEN FZ RN António Mendes Picão, Comando Naval de Moçambique (AV);
2TEN FZE RN António Agostinho Lucas da Silva, DFE 3;
2TEN FZE RN Domingos de Sousa e Holstein Salgado, DFE 3;
2TEN FZE RN António Maria Allen Burnay Bello, DFE 9;
2TEN FZ RN Carlos Alberto Amado Pereira da Silva, DFE 9;
2TEN FZ RN António José de Miranda Correia, CF 9;
2TEN FZ RN José Luís Calheiros Ferreira, CF 9;
2TEN FZ RN Manuel Augusto Simões Morgado, CF 9;
2TEN FZ RN Roque Gomes dos Santos, CF 9;

O Conselho Mundial das Igrejas encarniçava-se contra Portugal desenvolvendo intensa actividade de apoio aos movimentos subversivos, não contando porém com o apoio generalizado das organizações religiosas.

Em Maio, mantinha-se a possibilidade pouco provável do Reino Unido, por sua iniciativa ou em nome das Nações Unidas, vir a tentar apoderar-se do porto e aeroporto da Beira, como testa de ponte para o lançamento de operações no interior da Rodésia.




A Fragata «Comandante Hermenegildo Capelo»


Continente, Ilhas e Outras Unidades (20 Oficiais):

2TEN RN António Manuel da Silva Branco,Fragata «Comandante João Belo»;
2TEN RN António Manuel Neves Martins, Fragata «Pero Escobar»;
2TEN RN António Manuel Cortez de Miranda, Direcção do Serviço de Pessoal - 1.ª Rep;
2TEN RN Carlos Augusto Fernandes Lopes, LFP «D. Aleixo»;
2TEN RN José Adriano Aguiar Mamede, Grupo n.º 2 de Escolas da Armada;
2TEN FZ RN Adelino Couto Rodrigues da Silva, CF 12;
2TEN FZ RN Carlos Alberto Lindo da Silva, CF 12;
2TEN FZ RN Ângelo José Cachudo Sajara, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN António José Rebelo da Silva Carvalho, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN David Ribeiro de Sousa Geraldes, Escola de Fuzileiros;
2TEN TE RN Orlando Luís Sousa Sequeira, Escola de Fuzileiros;
2TEN FZ RN Artur José de Almeida Santos, Grupo n.º 2 de EA (Escola de Comunicações);
2TEN TE RN Carlos Manuel Rodrigues Lisboa, DSEF da Armada;
2TEN TE RN João Manuel Cunha da Silva Abrantes, DSEF da Armada;
2TEN TE RN Diogo Ivo de Miranda Cabral de Barbosa, Direcção do Serviço de Pessoal - 5.ª Rep;
2TEN TE RN João Fernando Pontes Amaro, Chefia do Serviço de Justiça;
2TEN RN Joaquim Carlos Pereira Franciosi Costa, Estado-Maior da Armada;
2TEN RN Jorge Manuel Simões Cristina, Estado-Maior da Armada;
2TEN TE RN Marinús Pires de Lima Soares, Estado-Maior da Armada;
2TEN TE RN Pedro Domingos de Brito Ivo de Carvalho, Direcção do Serviço de Abastecimentos;





O navio-patrulha «Zaire», da classe «Cacine», atracado no Funchal por ocasião do Dia da Marinha



Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado,Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Arquivo de Marinha; Revista da Armada; Texto e Fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;


mls

quarta-feira, março 25, 2020

Reserva Naval, 1998 - 40 anos depois da sua criação


Reserva Naval, 1998 - 40 anos depois da sua criação

(Post reformulado a partir de um já anteriormente publicado em 27 de Maio de 2008)

A Fundação da AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval, como já referido em anterior publicação, teve lugar em 14 de Julho de 1995, na Sala do Risco - Casa da Balança, como exemplo único em todos os ramos das Forças Armadas.

Decorridos três anos sobre a fundação da Associação dos Oficiais da Reserva Naval e 40 anos depois da criação da Reserva Naval, em 1958, teve lugar a Assembleia Geral para eleição de novos corpos directivos na conhecida Casa da Balança.

Decorreu dentro dos tão habituais quanto sãos parâmetros de análise, crítica e camaradagem. Também convívio e humor bastantes.

Ao tempo, não resisti a esboçar uma humorística força naval em que, à testa, sulcava as águas um porta-aviões da AORN, com céu limpo, sol brilhante e mar chão, prenúncio de largas milhas a navegar ao serviço da cultura e dos valores de Portugal, da Marinha e do Mar.

Símbolo vivo representativo do que terá sido a Reserva Naval ao serviço do País e da Marinha, entre 1958 e 1992.




Uniformizados a rigor, embarcavam e dirigiam a força os Almirantes da Reserva Naval Ernâni Rodrigues Lopes, do 7.º CEORN nas funções de Presidente da Assembleia Geral, Alípio Barroso Pereira Dias, do 9.º CFORN como Presidente do Conselho Fiscal e António Rodrigues Maximiano, do 20.º CFORN no lugar Presidente da Direcção da Associação.

Dando continuidade à satírica caricatura, entendi dever atribuir à Direcção uma outra unidade naval de mais vetusta construção, na forma de uma nau quinhentista, relembrando as tormentas que não teriam sido levadas a cabo durante o mandato.




Para o leme tinha sido destacado, com a indispensável guia de marcha, o responsável pela Direcção, António Rodrigues Maximiano, coadjuvado nas vigorosas remadas pelos restantes membros da guarnição, todos Oficiais da Reserva Naval a saber: Alfredo Lemos Damião - 15.º CFORN, António Luis Marinho de Castro - 8.º CEORN e Manuel Sousa Torres - 8.º CEORN.

As personalizadas gravatas do Max, como na família Reserva Naval era conhecido António Rodrigues Maximiano, também aqui encontraram uma personalizada forma de expressão e visibilidade.

Para todos, com quem tive a honra de partilhar colaboração durante anos, aqui deixo registado o meu testemunho de apreço com um renovado e saudoso «até sempre!...», aos que já não se encontram entre nós.


Manuel Lema Santos
8º CEORN




Fontes:

Texto e fotos de arquivo do autor;

mls

segunda-feira, março 23, 2020

Ainda as LFP da classe «Bellatrix»


Correcções e Esclarecimentos




A LFP «Bellatrix»


Foram construídas 13 unidades das Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP) classe «Bellatrix»:

As primeiras oito nos estaleiros nos estaleiros Bayerische Schiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main, na Alemanha:

LFP «Bellatrix» - P 363;
LFP «Canopus» - P 364;
LFP «Deneb» - P 365;
LFP «Espiga» - P 366;
LFP «Fomalhaut» - P 367;
LFP «Pollux» - P 368;
LFP «Rigel» P 378;
LFP «Altair» - P 377;


A LFP «Bellatrix», a primeira, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 29-5-1961 e a LFP «Altair», a última, em 13 de Janeiro de 1962.

As três primeiras, as LFP «Bellatrix» - P 363, LFP «Canopus» - P 364 e a LFP «Deneb» - P 365 foram atribuídas ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.

As restantes cinco, as P 365, «Espiga» - P 366, «Fomalhaut» - P 367, «Pollux» - P 368, «Rigel» P 378 e «Altair» - P 379 foram atribuídas ao Comando Naval de Angola - Esquadrilha de Lanchas do Zaire.

As outras cinco, construídas mais tarde no Arsenal do Alfeite, foram as seguintes:

LFP «Arcturus» - P 1151;
LFP «Aldebaran» - P 1152;
LFP «Procion» - P 1153;
LFP «Sirius» - P 1154;
LFP «Vega»- P 1155;


A LFP «Arcturus»- P 1151, a primeira, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 17 de Maio de 1968 e a LFP «Vega»- P 1155, a última, em 21 de Setembro de 1970.

As três primeiras, as LFP «Arcturus» - P 1151, LFP «Aldebaran» - P 1152 e a LFP «Procion» - P 1153 foram atribuídas ao Comando de Defesa Marítima da Guiné.

As restantes duas, as LFP «Sirius» - P 1154 e a LFP «Vega»- P 1155, foram atribuídas ao Comando Naval de Moçambique - Comando de Defesa Marítima de Porto Amélia.

Ainda que estas 13 unidades navais tivessem características gerais semelhantes, pequenos pormenores houve em pequenos retoques de aperfeiçoamento ulterior ao fabrico, consoante o teatro de operações. Baseavam-se em informações colhidas da experimentação prática conducentes à melhoria das condições quer de defesa quer de operacionalidade global.

Apenas as LFP atribuídas ao Comando de Defesa Marítima da Guiné instalaram chapa balística de protecção e lança-foguetes de 37 mm. Mesmo neste caso o desenho foi alterado posteriormente.

Na Revista da Armada referida como fonte, pode ler-se que:


“...Os motivos das cinco LFP construídas a partir da LFP «Arcturus» terem ficado com os deslocamentos e o calado máximo superiores e a velocidade máxima inferior aos das primeiras oito LFP «Bellatrix» foi o facto de na sua construção ter sido utilizada chapa de maior espessura, das capacidades dos tanques de aguada e de combustível serem maiores e ainda do guincho do ferro ser de um modelo diferente mais volumoso e mais pesado.

Mas além destas diferenças não detectáveis à vista, (exceptuando talvez o guincho do ferro), havia outras, exteriores, que permitem fazer a destrinça facilmente: assim as oito lanchas construídas no estaleiro alemão têm dez vigias rectangulares no casco, cinco a cada bordo, enquanto que as cinco lanchas "Arcturus" têm quinze pequenas vigias circulares, sete no costado de BB e oito no de EB. Por outro lado a antena do radar (Decca 303) nas oito LFP «Bellatrix» está montada no topo de uma pequena coluna posicionada a BB da superestrutura da ponte ao passo que nas cinco LFP «Arcturus» aquela antena de radar está instalada no galope de um mastro que tem quase o dobro da altura e que, como quase todos os mastros, se encontra colocado no plano de mediania do navio...”





A LFP «Espiga»



A LFP «Aldebaran»


As imagens acima inseridas, sombreadas nos pormenores que constituiram alterações notáveis de construção, dispensam legendas no que respeita à imediata percepção visual destas diferenças exteriores.

Depreende-se logicamente que o aspecto exterior, tanto no caso da LFP «Sírius» como no da LFP «Vega», seriam necessariamente idênticos ao da LFG «Aldebaran», mas tendo em conta que não dispunham do lançador de foguetes de 37 mm nem de chapa balística de protecção.



Apenas como um exemplo de equipamento modificado, instalado em algumas das LFP, repare-se no lançador de foguetes montado inicialmente na LFP “Bellatrix”, comparativamente ao modelo que outras vieram a instalar posteriormente como o da LFP «Aldebaran».

Navios da classe:

«Bellatrix», «Canopus», «Deneb», «Espiga», «Fomalhaut», «Pollux», «Rigel», «Altair», «Arcturus», «Aldebaran», «Procion», «Sirius» e «Vega»



Fontes:
Arquivo de Marinha; Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais de Marinha, 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, 16.º volume, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Revista da Armada, n.º 405 - Das lanchas de Fiscalização Pequenas, José Ferreira dos Santos, membro da Academia de Marinha.

mls

domingo, março 22, 2020

Reserva Naval nas LFP - Lanchas de Fiscalização Pequenas classe «Bellatrix»


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Bellatrix» - P 363

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Janeiro de 2011)

Das Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP) classe «Bellatrix» foram construídas 13 unidades das quais, as primeiras oito, as LFP «Bellatrix» - P 363, LFP «Canopus» - P 364, LFP «Deneb» - P 365, «Espiga» - P 366, «Fomalhaut» - P 367, «Pollux» - P 368, «Rigel» P 378 e «Altair» - P 379, nos estaleiros nos estaleiros Bayerische Schiffbaugesellschaft mbH, em Erlenbach/Main, na Alemanha.

As restantos cinco, as LFP «Arcturus»- P 1151, LFP «Aldebaran»- P 1152, LFP «Procion» - P 1153, LFP «Sirius»- P 1154 e LFP «Vega»- P 1155, foram construídas no Arsenal do Alfeite, tendo a primeira sido aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 17 de Maio de 1968 e a última em 21 de Setembro de 1970.

A primeira, a LFP «Bellatrix», foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 29-5-1961, na Guiné, depois de ter sido transportada por um navio mercante para Bissau, onde chegou em 17 daquele mês, juntamente com a LFP «Canopus».

Foi integrada na Esquadrilha de Lanchas da Guiné e a primeira de um grupo de 13 unidades que constituiram a classe «Bellatrix». Ainda que algumas delas reflectissem alterações estruturais profundas entre si, resultantes da necessidade de as adaptar aos cenários de operações, foi decidida a sua classificação na mesma classe, para simplificação de tipologias diferenciadas que poderiam implicar uma reclassificação em, pelo menos, duas classes distintas.

Estas unidades navais tinham as seguintes características gerais:



Fez parte do planeamento inicial do Estado-Maior da Armada este tipo de unidades navais serem comandadas por um Sargento de Manobra. Mais tarde, por proposta do Comando de Defesa Marítima da Guiné, a ideia foi abandonada. Na sequência da resolução de alguns problemas de navegação surgidos pelo tipo da complexa hidrografia daquele território foi decidido que o comando passasse a ser efectuado por um oficial subalterno.



Em cima, na Guiné - A LFP «Bellatrix» a navegar no rio Cacine ainda sem o lançador de foguetes e, em baixo, o perfil daquela unidade naval num ozalide do desenho de construção naval



Entre a saída de Lisboa para a Guiné e 27 de Setembro de 1961, data em que o primeiro oficial da Reserva Naval, assumiu as funções de comandante, a LFP “Bellatrix” teve como Patrão e Mestre um Sargento Ajudante da classe de Manobra – José Agostinho Moreira, tendo participado em diversas acções de fiscalização, transporte de pessoal e material, combóios, transporte de fuzileiros e emboscadas.



Em cima: Ainda nos estaleiros Bayerische Shiffbaugesellschaft mbH, a LFP «Bellatrix»
em fase de provas de mar, e na altura do embarque no transporte que a haveria de trazer para Portugal;
Em baixo: Já carregada lado a lado com a LFP «Canopus»




Ainda que tenha iniciado no rio Cacheu em Agosto de 1961 a sua vida operacional, teve mais destacada participação no apoio a operações e a comboios logísticos, sobretudo nos rios do sul da Guiné. A partir de meados de 1968 passou a integrar também o dispositivo naval no rio Cacheu – Operação Via Láctea.

Foi alvo de frequentes emboscadas e manteve combates com grupos armados instalados nas margens dos rios Tombali, Cobade, Cumbijá e Cacine, tendo sido atingida pelo fogo inimigo.



O local de impacto de uma «bazookada» no rio Cobade.

Em Janeiro de 1964, participou na Operação “Tridente”, decorrida até 22 de Março. Em 13 de Fevereiro de 1968 foi violentamente atacada no rio Cobade de que resultaram, além de um rombo a bombordo, 80% abaixo da linha de água, estragos na casa da navegação, radar, sistema eléctrico e motores principais que obrigaram a mais prolongada reparação.



Durante todo o período em que esteve operacional, sempre na Guiné, foram comandantes da LFP «Bellatrix» os seguintes oficiais da Reserva Naval:



2TEN RN Fernando Manuel da Silva Ferreira, 3.º CEORN, 27Set61 a 09Abr63;
2TEN RN Rui George Osório de Barros, 4.º CEORN, 09Abr63 a 23Jun64;
2TEN RN António Simas de Oliveira Vera Cruz, 6.º CEORN, 23Jun64 a 02Jun66;
2TEN RN Manuel Henrique Vieira de Sousa Torres, 8.º CEORN, 02Jun66 a 23Mar68;




2TEN RN Raul Jorge Ramos de Lima, 10.º CFORN, 23Mar68 a 15Dez69;
2TEN RN José Luis Ferreira da Silva Dias, 14.º CFORN, 15Dez69 a 15Fev70;
2TEN RN Raul Jorge Ramos de Lima, 10.º CFORN, 15Fev70 a 26Mar70 (cont);
2TEN RN José Manuel Garcia da Costa Bual, 14.º CFORN, 26Mar70 a 10Ago70;




2TEN RN António José Fonseca Prezado Alves, 15.º CFORN, 10Ago70 a 24Ago72;
2TEN RN Fernando Manuel Correia dos Santos, 18.º CFORN, 24Ago72 a 10Set73;
2TEN RN José Manuel Miranda Themudo Barata, 21.º CFORN, 10Set73 a 07Set74;





Guiné – Registos fotográficos de missões da LFP «Bellatrix» sendo visível
o lançador de foguetes de 37 mm, montado por cima da metralhadora Oerlikon de 20 mm








Em Bissau, atracada no interior da asa da ponte-cais em T, de braço dado com a LFG “Lira” (1968)





Em modelos à escala, em cima, na AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval ou, em baixo,
tanto a navegar com radar em cima, como amarrada à bóia na Lagoa Azul em Sintra, em 2009








Depois de mais de 13 anos de bons serviços e mais de 8.500 horas de navegação, a LFP «Bellatrix» foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 7 de Setembro de 1974.

Navios da classe:

«Bellatrix», «Canopus», «Deneb», «Espiga», «Fomalhaut», «Pollux», «Rigel», «Altair», «Arcturus», «Aldebaran», «Procion», «Sirius» e «Vega»

Fontes:
«Dicionário de Navios» de Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; «Setenta e Cinco Anos no Mar», Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005: fotos de arquivo do autor do blogue, Arquivo de Marinha, Revista da Armada, Carlos Dias Souto e Mário Cavalleri.

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