sexta-feira, abril 20, 2018

Guiné, Bafatá - Memória de João de Oliveira Muzanty


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Fevereiro de 2011)

João de Oliveira Muzanty - Governador da Guiné


Na Guiné, quem demandasse águas do sul, entre as barras dos rios Tombali e Cumbijã, navegaria no «Canal de Muzanty», balizado a bombordo por várias marcas radar, frente às ilhas de Como, Caiar e Catunco, ficando sensivelmente a meia distância da costa e da ilha João Vieira, a estibordo.




Canal de Muzanty num pormenor da carta do Instituto Hidrográfico CN 212, entre o Cabo Rôxo e o Cabo Verga

Com base em informação recolhida a partir do texto “Crónica Mensal da Colónia”, publicado no n.º 5, do Ano I, em Novembro de 1950, de “Ecos da Guiné”, Boletim de Informação e de Estatística, evocamos agora João de Oliveira Muzanty, uma outra figura política que merece destaque na consolidação do percurso histórico da Guiné na primeira metade do século XIX.



"Primeiro-Tenente da Armada foi provido no lugar de Governador da Guiné por Decreto de 8 de Junho de 1906, tomando posse do cargo em 13 de Agosto do mesmo ano.

Já como chefe da Missão Portuguesa de delimitação, havia permanecido na Colónia durante um período de 6 anos, conquistando então um grande prestígio, pelas suas superiores qualidades de carácter e íntegra personalidade, pelo que a sua nomeação foi alvo dos maiores aplausos e geral contentamento em toda a Colónia.

A notícia espalhou-se célere e entrou em todos os corações sedentos de justiça como um luminoso facho de esperança, naqueles tempos recuados em que a Guiné gemia ao peso de prepotências, ao grito constante de “salve-se quem puder”, o conhecido e peculiar salvo-conduto da anarquia e da desordem, o fruto das torvas ambições e da traição, as únicas benesses a esperar duma Colónia penal, como estigma maldito, o “vírus” danado desses tristes tempos, já tão distantes que se perdem nas poeiras do passado.

A sua notável acção na Colónia fez-se imediatamente sentir, regulamentando vários serviços, aumentando a cobrança do imposto indígena, fazendo uso de uma hábil política e jamais em período permanente rebeliões, e mal definida soberania no pandemónio em que a Guiné se debatia, pela sua diversidade rácica e étnica e estas separadas ainda por religiões, a manifestação humana mais séria, porque abre abismos insuperáveis e nas almas sulcos profundos.

E Oliveira Muzanty levou a grande massa indígena à compreensão das medidas adoptadas, trazendo à Colónia como que uma espécie de tréguas, um período de repouso na azáfama guerrreira tão tradicional, como endémica.

Oliveira Muzanty foi, na verdade, um grande Governador da Guiné, o homem da situação, o oficial destemido e prudente como o momento o aconselhava.

Marcou positivamente uma época e, apesar da efêmera governação, prestou à Colónia os mais relevantes serviços. Bem justa , pois, a homenagem que lhe foi prestada, erguendo-se-lhe monumento condigno, de linhas sóbrias mas elegantes.




Estátua erigida em Bafatá e evocativa do antigo Governador(1906-1909), 1.º Tenente Oliveira Muzanty.



A sua inauguração foi levada a efeito no dia 28 de Maio, na linda e progressiva Vila de Bafatá, revestindo-se o acto da maior solenidade.

Foi uma evocação histórica de 41 anos, sentida homenagem da Colónia um dos seus grandes obreiros e lídimo percursor. A iniciativa pertencente ao Exmº Senhor Comandante Sarmento Rodrigues, quando Governador da Guiné, Ilustre Ministro das Colónias e, como tantas outras, que traduz a sensibilidade do seu espírito sempre iluminado por ideias nobres e generosas, não se alheando nunca ao sentido patriótico que de todas as iniciativas se desprende, ficando a Colónia a dever a Sua Excelência mais esta magistral lição de civismo e amor pátrio, porque é a história em marcha em vénia respeitosa perante os grandes portugueses, merecedores do culto da Pátria, o abraço fraternal do passado com o presente, o render da guarda para o futuro.

Também o actual Governador da Colónia, Engenheiro Raimundo Serrão, dispensou à obra todo o calor do seu apoio, o impulso forte da sua acção e dinamismo, o que tornou possível que a obra figurasse no programa festivo da Revolução Nacional que, com tanto brilho, se solenizou neste ano.

É que a revolução continua firme nos seus propósitos e a sublimar-se sempre, e mais, nos seus próprios desígnios.

Foi obra do escultor António Duarte e do arquitecto Fernando Pessoa e o monumento, no seu conjunto, constitui uma concepção feliz de arte e beleza.




Após o final da guerra, a República da Guiné-Bissau sofreu das normais vicissitudes resultantes da alteração de regimes políticos por via dos conflitos armados, e foram vários, com adaptação da sociedade civil a transformações sociais profundas, marcadas pela necessidade de eliminar quaisquer vestígios físicos, históricos ou arquitectónicos, nascidos durante a vigência ou pela mão de outro regime anterior considerado hostil.




Em cima, no ano de 1995, a estátua já desmantelada e, em baixo, em 2008, a base do monumento. Por detrás, o tribunal vendo-se ainda à direita o mercado árabe



Lá, também como cá, ou em qualquer outro local de convulsões sociais, a memória histórica não é susceptível de ser apagada por mera vontade de momento, mesmo que compreensivelmente alicerçada em recentes feridas de guerra, abertas de ambos os lados e ainda por sarar.

Sobreviveram pessoas, relatos, documentação e registos que darão, em devido tempo, lugar a pesquisa e investigação, cabendo a sociólogos e historiadores a construção de uma História dinâmica, sem hermetismos autocráticos.




Fontes:
Texto e fotos compilados a partir da “Crónica Mensal da Colónia”, publicado no n.º 5, do Ano I, em Novembro de 1950, de “Ecos da Guiné”, Boletim de Informação e de Estatística, gentilmente cedidos pelo Dr. Carlos Silva (Furriel Mil, CCaç 2548); foto do Alferes Mil Fernando Gouveia, CAgr 2597, Bafatá 68/70; Carta Hidrográfica CN 212 do Instituto Hidrográfico (pormenor);


mls

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