quarta-feira, julho 19, 2017

Guiné, 1963/74 - Rio Cacheu e emboscadas à Marinha no Tancroal


Tancroal-Temível local de emboscadas e ataques à Marinha

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 11 de Janeiro de 2010)


Recebi há dias uma comunicação do companheiro e camarada de lides da Guiné Victor Barata, especialista da FAP/DO, sedeado no blogue “Especialistas da BA 12”.

Formulava os simpáticos votos de Bom Ano 2010 e informava-me de que estava disponível no YouTube o vídeo já publicado no post anterior.




BA 12 - A Base Aérea de Bissalanca, fotografada em Fevereiro de 1973.

Retribuí em dobrado os votos, extensivamente a todos os companheiros. Depois de solicitar autorização, procedi à inserção do vídeo neste blogue com a devida referenciação e incluindo o texto completo do autor – Alferes Pilav Jorge Félix dos “Canibais” Guiné – Alouette III, igualmente companheiro e camarada.

A excelente qualidade da edição e montagem do vídeo quase não deixa perceber o “fade in” (passagem gradual de uma imagem para outra) de algumas fotos, bem "misturadas" no filme. A música aviva o ambiente e embora gostasse de ouvir lá encaixado, como fundo musical, o "Paint it Black" dos Rolling Stones, conotado desde sempre com a guerra do Vietname, o autor foi ele, Jorge Félix, e está de parabéns pelo invulgar trabalho executado.

Não consegui resistir às imagens do vídeo publicadas e deixei-me arrastar pela emoção das recordações. Muitos dos camaradas da Marinha que, também ali no Cacheu, honraram valores por que se bateram, já não estão entre nós para a devida apreciação de alguém que, louvavelmente, se lembrou dos marinheiros.

Alguns pagaram com a vida e outros regressaram diminuídos quando, nas LDM, LDP, LFP, LDG, LFG ou integrando DFE e CF, se empenharam no cumprimento das missões que o País lhes exigiu. Outros, felizmente vivos, sentiram e sentem no decorrer do tempo o definhar de ideias e valores que, ainda num passado recente, eram reflexo do sentir da sociedade em que foram educados e viveram.




Mapa da zona do rio Cacheu com pormenor do Tancroal.

Binta, representava para as LFG, depois de deixar Farim rumo a Vila Cacheu, para juzante, uma pausa para a preparação do acto seguinte, na escolta às LDG que tinham deixado carga ou trocado companhias do Exército, até três normalmente, formadas por homens experientes mas cansados e desgastados psicologicamente, por outras idênticas integradas por homens ainda sem experiência mas de espírito fresco.

Normalmente, um grupo de combate de fuzileiros "ajustava" o dispositivo de segurança e, o sentimento de que a FAP, com os nossos prateados vigilantes do céu, estava em situação de alerta-solo com comunicações permanentes connosco, sempre tornava o "cruzeiro" mais simpático.




No rio Cacheu, o cais de Ganturé (Bigene) com a LFG "Orion" atracada com duas LDM de braço dado.

Depois de cinco a seis horas de navegação e o desfilar das zonas especialmente "hospitaleiras" como Canjaja, rio Olossato, Porto de Batu (Tancroal), Jagali, Concolim, rios Sambuiá e Talicó, Porto Coco, Ganturé (Bigene), Iador, Barro, Canja, rio Armada, o Porto da Ponta de S. Vicente marcava, finalmente, como que uma fronteira para o abrandamento do dispositivo. Ainda mais para juzante, depois de Maca, rios Jol, Churo, Zagaia e Caboiana, lá aportávamos a Vila Cacheu, agora já em zonas sem grandes sobressaltos.

Deve dizer-se que, até ao final da guerra, nunca a Marinha se deixou intimidar por emboscadas e ataques, mesmo com graves consequências e, nesse mesmo momento, voltava atrás repetindo a passagem mais uma ou duas vezes, num desafio permanente. Havia ainda e deve ser dito que, ocasionalmente, um grupo de combate de fuzileiros embarcados queria, por vezes, lançar os botes à água e ir a terra "acertar as contas" com a rapaziada do PAIGC.




Imagem de um avião Harvard T6 estacionado no sul da Guiné, na pista de Cufar, modelo de aeronave que participava no apoio aéreo, em operações e escoltas.

Tudo pouco conhecido, ainda menos divulgado e convenientemente esfumado no tempo, que tudo limpa. Borrachas políticas com tecnologia de ponta que permitem apagar Memória e História recente, à medida de mal disfarçados interesses e construídas com o sofrimento e amargura de quem não consegue esquecer.

A clareira do Tancroal, em Porto de Batu, no rio Cacheu, era um local obrigatoriamente batido pelo nosso fogo de reconhecimento, tentando evitar que os sinistros RPG 2 e 7, metralhadoras ligeiras, pesadas e canhão sem recúo se fizessem anunciar nas calorosas manifestações de boas-vindas do PAIGC. Foram muitas vezes de graves consequências e, alguns casos, dramáticas.




A clareira de Porto de Batu - Tancroal.

Em 26 de Dezembro de 1963, ao cair da noite, a LFG «Dragão» sofreu uma violenta emboscada no rio Cacheu, na zona do Olossato, em Porto Batu - Tancroal, naquele que viria a tornar-se um local de permanentes “dores de cabeça” para as unidades navais que, no percurso de ida e volta a Farim, tivessem de navegar frente àquela clareira.

Do ataque, que com alguma sorte apenas provocou danos materiais, resultaram 22 impates de bala perfurante e ficou destruído o oculta-chamas e a patilha de arranque da comutatriz da peça Boffors de 40 mm, a ré. Ficou também furada uma garrafa de ar comprimido.

Em 13 de Janeiro de 1968, pelas 20:30, a LFG «Lira» juntamente com a LDG «Alfange», esta com três companhias embarcadas que deixavam a zona de Binta, a CCaç 1546, e de Farim as CCaç 1548 e a CCS, todas do BCaç 1887, ali foram violentamente emboscadas. Se alguém daquelas unidades ler estas linhas, recordar-se-á certamente, pois terá sido uma despedida pesada para quem regressava ao país e à família. A LDG «Alfange» foi mandada retroceder e aguardar em Binta até ao dia seguinte.

A LFG «Lira», que antecedia e escoltava a LDG «Alfange», foi atingida com 2 granadas de RPG 7, uma na ponte de comando e outra no rufo da casa da máquina sofrendo 1 morto, fuzileiro, 4 feridos graves e três ligeiros, todos pertencentes à guarnição, além de prejuízos materiais diversos.




Em cima, a ponte da LFG "Lira", mostrando o local do impate de uma das granadas de RPG 7, a EB e, em baixo, uma outra perspectiva captada do corredor interior da ponte.



Ainda tiveram de navegar durante cinco horas para chegar até Vila Cacheu, como se pode imaginar em condições muito difíceis, sem comunicações, sem girobússola e com avarias diversas, além das baixas.

Ali, já estabelecidas as comunicações com Bissau, os helicópteros da FAP evacuaram os feridos graves cerca da 01:00 da manhã e um DO 27 evacuou os restantes ao raiar do dia. No dia seguinte, a LFG «Sagitário», entretanto saída de Bissau, foi buscar a LDG »Alfange» com um grupo de combate de fuzileiros e o apoio da Força Aérea.




Em cima, uma imagem do rufo da casa das máquinas atingido por outro dos projécteis de RPG 7 e, na imagem de baixo, são bem visíveis os danos provocados nos botes de borracha pelos estilhaços.
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Duas semanas depois, nos dias 29 e 30 de Janeiro, as LFG «Cassiopeia» e novamente a LFG «Lira», com os Destacamentos de Fuzileiros Especiais 10 e 12 embarcados, levaram a efeito na zona e, em conjunto, as operações “Alpheratz” e “Antares", varrendo a área e infligindo ao inimigo 12 mortos, 3 feridos e 2 elementos capturados além de habitações várias e equipamentos destruídos.

Foi assim a guerra para ambos os lados. Estilhaços, sangue e o cheiro a morte por todo o lado. Camarada de curso e oficial imediato da LFG «Lira», o 2TEN RN Jorge Calado Marques, do 8º CEORN, recentemente falecido, ficou surdo de um dos ouvidos no ataque sofrido, projectado violentamente pelo sopro do impacto contra a chapa interior da ponte, lesão de que nunca recuperou.

Embora quase todas as unidades navais ali tivessem sido emboscadas, são poucos ou quase inexistentes os registos. Aqui ficam algumas fotos da sua autoria, testemunho mais que eloquente de algumas das mazelas, apenas as do navio claro, porque muitas outras não ficaram documentadas.

Ficarão todos para sempre registados na nossa memória.


Fontes:
Imagens cedidas pelo 2TEN RN Jorge Manuel da Silva Calado Marques, 8.º CEORN oficial imediato da LFG «Lira», 1966/68 e 2TEN RN Abel Ivo de Melo Sousa, 20.º CFORN–DFE 1, Guiné 1972/74; imagens de arquivo do autor; textos compilados de apontamentos do Arquivo de Marinha.


mls

5 comentários:

Henrique Paulino disse...

Eu, pertenci ao DFE10,só não estava a bordo da "LIRA" na altura do ataque porque tinha embarcado horas antes numa LDM rumo ao Aquartelamento do Cacheu para nessa madrugada irmos desenvolver outra missão, também muito complicada. Em relação ao ataque foi um golpe muito duro para todos nós, porque um colega e amigo foi atingido mortalmente e mais uns quantos feridos com gravidade. Em relação às fotos dos estragos na "LIRA",fiquei surpreendido, porque, nos almoços anuais do meu DFE nós falamos sempre nesse ataque mas ninguém tem fotos,do acontecimento.
Já informei alguns colegas do Destacamento, sobre este Blogue, para que possam visualizar as referidas fotografias. Em relação às operações realizadas no Trancroal a 29 de Janeiro de 1968,tivemos mais uns feridos e as informações que nos chegaram em relação às baixas causadas ao IN seriam 18 e não 12 como é referido. Muito haveria que falar sobre este episódio e outros,no desenrolar daquela guerra. Já passaram uma dezenas de anos, mas estes acontecimentos não mais saem
das nossas memórias. Henrique Paulino Serrão ex-marinheiro FZE

Rui Ferrão disse...

Voltando ainda ao ataque há "LIRA" e às posteriores operações "ALPHERATZ" E "ANTARES" onde intervieram os DFE10 e DFE12 tenho a dizer o seguinte: no que se refere ao DFE10 ao qual eu pertencia, as coisas não foram fáceis, pois enfrentamos durante algumas horas um grupo de guerrilheiros com um número significativo de elementos (as informações que dispúnhamos, seriam 150), nós ainda conseguimos contar 40, que passaram pela nossa frente e todos com armamento pesado (compreenda-se bazzoc.RPG7 e morteiros). Este grupo era comandado pelo um tal "RENI" homem muito experiente naquele tipo de guerra. Deste recontro o DFE10 sofreu alguns feridos, um dos quais grave (Sarg.enfermeiro Francisco)tendo feito um prisioneiro e infligindo 18 mortos ao PAIGC. O DFE10 nesta operação passou por alguns momentos menos bons, caso de termos esgotado o material pesado tendo sido reabastecidos via Héli.Muito havia que falar sobre esta e outras acções não menos arriscadas em que o DFE10 esteve envolvido.

joseocorreia disse...

Eu tambem pertenci a guarnição do N.R.P.LIRA DE 66 a 68 fiz parte do grupo de artilheiros como Mar. AP.Foi dificil passar por essas escaramuças e foram varias mas tenho saudades dos companheiros dessa epoca. Vou tentar meter uma foto dos artilheiros desse PATRULHA nessa epoca.E jÀ agora um bom NATAL para todos .CORREIA

joseocorreia disse...

Eu tambem pertenci a guarnição do N.R.P.LIRA DE 66 a 68 fiz parte do grupo de artilheiros como Mar. AP.Foi dificil passar por essas escaramuças e foram varias mas tenho saudades dos companheiros dessa epoca. Vou tentar meter uma foto dos artilheiros desse PATRULHA nessa epoca.E jÀ agora um bom NATAL para todos .CORREIA

mls disse...

É sempre gratificante rever camaradas de missões idênticas em navios gémeos, 43 anos depois. A LFG "Orion" falhou a missão por falha do motor de estibordo ao lançar máquinas.
Na LFG "Lira", que a substituiu por estar de reserva, embarcaram dois elementos da guarnição da "Orion" e um deles foi ferido em combate.
O acaso ditou o que, sendo sorte de alguns, foi azar para outros que enfrentaram o inimigo em duras condições mas com coragem e honra ainda que com baixas a lamentar.
Quase ia perdendo o meu camarada Calado Marques que já não está também entre nós. Aqui lembro em conjunto todos os que viveram os mesmos momentos, especialmenbte os ausentes.
Abraço amigo e disponham sempre...