quarta-feira, outubro 04, 2017

Guiné, 1970 - DFE 21 (2)


DFE 21 - O primeiro Destacamento de Fuzileiros Especiais da «Série 20»

Parte II

Operação "Mar Verde"

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Maio de 2010)




DFE 21 - Uma breve pausa na progressão é aproveitada para descanso





O recrutamento inicial de elementos para integrar o DFE 21 já tinha sido iniciado em Setembro de 1969. Depois de activado, em 21 de Abril de 1970, participou, até Maio, em diversas operações no sul da Guiné depois do que, conjuntamente com o DFE8, passou a estar sedeado em Vila Cacheu.

Naquelas zonas efectuou várias acções, tendo sofrido pesadas baixas entre mortos e feridos, entre os quais se incluíram alguns oficiais e sargentos. Em Agosto, depois de uma curta passagem por Buba, foi transferido para Brá, para se juntar aos preparativos que antecederam a organização da operação “Mar Verde”, já em curso na ilha de Soga e na qual viria a participar.




A sudoeste do canal do Geba, no arquipélago dos Bijagós,
a ilha de Soga, base de preparação da operação "Mar Verde".
Situada a oeste da ilha de Rubane, estão ambas encaixadas entre os canais Diogo Gomes e Bubaque


A ilha de Soga foi escolhida como local de preparação pelas condições especiais que detinha, a par de uma situação estrategicamente recatada que oferecia a possível segurança em termos do necessário secretismo. A operação, quer na planificação prévia quer na organização e execução finais, teve como estratega e Comandante o CTEN Alpoim Calvão (OTC).

O DFE 21, na estrutura inicial, teve como Comandante o 1TEN FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva que tinha ingressado nos Quadros Permanentes, na classe de Fuzileiros, depois de ter efectuado uma primeira comissão de serviço na Guiné, como terceiro oficial do DFE 4, de 1965 a 1967. Pertenceu originalmente à Reserva Naval onde integrou o 7.º CEORN.

Em 21 Junho de 1971 o comando do Destacamento de Fuzileiros Africanos, DFE 21, foi sendo parcial e progressivamente rendido, ainda que alguns dos elementos que o constituiam continuassem voluntariamente até 1 de Abril de 1973.

Foi nomeado Comandante do DFE 21 o 1TEN FZE José Manuel de Matos Moniz, também ele originário da Reserva Naval. Tinha pertencido ao 8.º CEORN e, no final do curso foi integrado no DFE 1, em Moçambique e de 1967 a 1969, depois do que concorreu aos Quadros Permanentes na classe de Fuzileiros.

Comandantes:

1TEN FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva, 7.º CEORN, ingressou nos QP;
1TEN FZE José Manuel de Matos Moniz, 8.º CEORN, ingressou nos QP;

Oficiais Imediatos:

1TEN José Maria da Silva Horta, QP;
2TEN Luis António Proença Maia, QP;
2TEN FZE RN António José Rodrigues da Hora, 11.º CFORN, ingressou nos QP;
2TEN FZE RN Manuel Maria Peralta de Castro Centeno, 19.º CFORN, ingressou nos QP;

Oficiais:

2TEN FZE José Carlos Freire Falcão Lucas, 13.º CFORN;
2TEN FZE RN Eduardo Madureira da Veiga Rica, 14.º CFORN*;
2TEN FZE Manuel José Fernandes Guerra, 15.º CFORN;
2TEN FZE RN Jaime Manuel Gamboa de Melo Cabral, 16.º CFORN;
2TEN FZE RN Francisco Luis Saraiva de Vasconcelos, 16.º CFORN;
2TEN FZE RN João Frederico Saldanha Carvalho e Meneses, 19.º CFORN;
2TEN FZE RN Cândido Alexandre Lucas, 20.º CFORN;
2TEN FZE RN José Joaquim Caldeira Marques Monteiro de Macedo, 21.º CFORN;

* Meses depois, já na Guiné, sofreu um acidente em serviço tendo de ser evacuado.




DFE 21 - A evacuação de um ferido

Consideradas as guarnições dos navios que a integraram, a força que partiu da ilha de Soga em 20 de Novembro de 1970, totalizou próximo de 600 elementos. Foram 80 homens do DFE 21 que, com mais cerca de 200 homens pertencentes à “Front Nacional de Liberation de la Guiné” (FNLG) e 150 elementos da Companhia de Comandos Africanos comandada pelo Capitão João Bacar, iniciaram a operação “Mar Verde”.

Com o reforço de aviões P2V5 da Força Aérea Portuguesa, foram transportados e apoiados por uma força naval constituída por seis unidades navais.

Delas se indicam os respectivos Comandantes e Oficiais Imediatos, a saber:

LFG «Orion» (OTC) - CTEN Alberto Augusto Faria dos Santos e 2TEN Mário Manuel da Fonseca Alvarenga Rua, QP; nela embarcou o CTEN Alpoim Calvão, Comandante da operação;

LFG «Cassiopeia» – 1TEN Fausto José do Lago Domingues e 2TEN RN Alfredo Manuel de Paiva Pacheco, 13.º CFORN;

LFG «Dragão» – 1TEN António Alexandre Welti Duque de Martinho e 2TEN RN João Manuel Nunes Vaz, 13.º CFORN;

LFG «Hidra» – 1TEN José Augusto Fialho Góis e 2TEN Duarte José Cruz de Castro Centeno, QP;

LDG «Montante» – 1TEN Luis Manuel Dias da Costa Correia e 2TEN Raul David Nunes Vieira Pita, QP;

LDG «Bombarda» – 1TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus e 2TEN RN Luis Manuel Ferreira Marques, 13.º CFORN;




Da esquerda para a direita, em Bissau: Alfredo Paiva Pacheco, Imediato da LFG «Hidra»;
João Manuel Nunes Vaz, Imediato da LFG «Sagitário», 1º TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus, Comandante da LDG «Bombarda», José Guerreiro Banza, Comandante da LFP «Arcturus», Coutinho, Capelão Delmar Barreiros, CDMG e mais dois oficiais não identificados


Mais do que quaisquer outros considerandos estratégicos, militares, políticos e sociais que possam ter sido, ou vierem a ser invocados e memorizados em futuros considerandos filosóficos, ficou certamente para a História a libertação “concreta” de 25 militares, prisioneiros de guerra, e ainda um civil, resultado positivo inquestionável, justificativo de quaisquer decisões políticas e militares tomadas.

Nada mais valeroso e nobre do que uma missão cumprida, culminada pela libertação de reféns de guerra, devolvendo-lhes a dignidade de Homens e Combatentes ao serviço do país por que se bateram, restituindo-os à família e reconquistando-lhes a auto-estima, ambas perdidas no tempo de reclusão.

Com cunho meramente pessoal, aqui deixo exarado o meu apreço especial pela acção do DFE 21, cuja missão principal foi o ataque à prisão “La Montaigne” que levou a cabo com êxito total, não sem que deixe de ser importante tornar o apreço extensivo a todo o Comando da operação "Mar Verde", envolvendo todas as forças participantes, sem as quais não seria possível tal desfecho.

Noutra perspectiva social e política que rejeito, acompanhada de duvidosos e falaciosos argumentários, terá sido considerada como uma controversa e arriscada operação, também por nela terem sido envolvidos a quase plenitude dos meios da Marinha já empenhados num cenário guerra então mantido.

Para lá daquele assinalável resultado o grupo de assalto do 2TEN FZE RN Rebordão de Brito - grupo "Victor", com apenas 14 fuzileiros especiais e um guia, procedeu à neutralização da Marinha de Guerra do PAIGC (três vedetas e uma lancha de desembarque) e quatro lanchas torpedeiras da República da Guiné, todas acostadas no dique "La Prudence". Depois de eliminada a sentinela foram lançadas granadas para o interior das unidades navais, causando danos irreparáveis. Três delas afundaram-se de imediato e quatro incendiaram-se. Na breve escaramuça havida as nossas forças sofreram apenas um ferido ligeiro tendo provocado 24 baixas e retirado de seguida.

Melhor que quaisquer palavras, a foto abaixo ilustra um momento histórico pleno de significado. Um grupo de recém-libertados prisioneiros, depois do regresso à ilha de Soga, já em franca confraternização com a guarnição da LFG «Dragão» é fotografado na proa daquela lancha.



Desempenhava as funções de oficial Imediato da LFG «Dragão» o 2TEN RN João Manuel Vaz do 13.º CFORN. Sendo-o na realidade da LFG «Sagitário», uma imobilização prolongada desta lancha de fiscalização, muito sentido de responsabilidade assumida e camaradagem demonstradas, permitiram ao companheiro da LFG «Dragão» cumprir outros deveres na Metrópole.

De entre os prisioneiros libertados, o 2TEN João Manuel Vaz convidou um ex-prisioneiro, casualmente oficial, para com ele partilhar o jantar na LFG «Dragão». Algumas dificuldades na roupa que trazia vestida - uns parcos “slips” - criaram engulhos, rapidamente resolvidos pelo anfitrião que colocou a câmara de oficiais e alguma roupa pessoal à disposição do visitante.

A escolha incluiu uns calções e uma camisa, mas não permitiu ter em conta nem os efeitos do tempo de prisão visíveis no primeiro, nem a diferença de corpulência relativamente ao João Manuel Vaz, facto que acabou por se tornar chocantemente evidente depois de concretizada a improvisada adaptação de vestuário.

Nenhum número de roupagem resiste a regimes de clausura prolongadas com condições de privação tão humilhantes mas, quer a confrangente visão de uma camisa chegar aos joelhos quer um corpo inteiro caber numa pernas de uns calções, foram igualmente ultrapassadas sem constrangimentos.

Já à mesa, durante o jantar - um habitual peixe frito com arroz de tomate e salada - era evidente o nervosismo do convidado. Num expontâneo diálogo entabulado, quedaram também sem significado algumas dramáticas dificuldades do ex-prisioneiro na forma de lidar com garfo e faca, dando rapidamente lugar a outra forma prática de tomar uma refeição.

Opto pela dispensa de comentários ao que é por demais visível no nível de empenhamento e participação então exigido às guarnições de Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros e Unidades Navais, onde os oficiais da Reserva Naval ombrearam com os seus pares dos Quadros Permanentes ao longo de 12 anos de guerra.

DFE 21 e operação "Mar Verde", podem ser tidos apenas como mais dois tão demonstrativos quanto eloquentes exemplos. Alguns dos participantes naquela epopeia já não se encontram entre nós, mas aqui fica a evocação que os mantém presentes no nosso espírito e memória.



(final)



Fontes:
Texto compilado com a colaboração de 2TEN RN João Manuel Nunes Vaz do 13.º CFORN; Arquivo de Marinha; Operação "Mar Verde" de António Luis Marinho - Temas e Debates, 2006; Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África - Guiné de Luis Sanches Baêna, 2006; Texto e fotos de arquivo do autor;


mls

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