domingo, junho 10, 2018

Cerimónia de Homenagem aos Combatentes


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 22 de Março de 2011)

A opinião de um Santo Aleixense, antigo oficial da Reserva Naval do 8.º CEORN




Concelho de Moura - Aldeia de Santo Aleixo da Restauração, encimada pela igreja


Nunca fui apoiante e nem sequer simpatizante de Cavaco Silva. Continuo a considerá-lo como um dos principais responsáveis pelo estado político-social a que chegou o País em que nasci, cresci e em que escolhi viver.

Não partilho os valores políticos, sociais e religiosos daquele antigo Presidente da República.

Que tenha dado conta, na minha já não muito curta travessia de vida, nunca me aproveitei de quaisquer benesses ao serviço de interesses estranhos aos que a minha educação e consciência me impuseram como conduta pessoal e profissional.

Dentro desse modelo pequeno-burguês, herdado familiarmente, encarei o serviço militar como "incontornável" e, como alternativa depois de me candidatar à Marinha, escolhi ou mais correctamente terei sido seleccionado por aquela Instituição para o fazer.

Já não consegui evitar democraticamente a minha nomeação para a Guiné como local ideal para o desempenho da minha parcela de cidadania a cumprir mas, mais uma vez, fui menino obediente e bem comportado.

A despeito de, por direito de classificação final de curso, me competir o desempenho de missões que me viriam a ser cometidas noutro qualquer território à minha escolha, e só nesse sentido refiro obediência ou bom comportamento, fui nomeado para o fazer naquele teatro.

Regressei incólume, tal como toda a guarnição da unidade naval onde prestei serviço a despeito de, no global dos três teatros da Guerra do Ultramar, mais de nove milhares de militares não terem tido a mesma sorte.

Não sei se lhes foi dada oportunidade de escolha mas cabe-me, como cidadão livre e vivendo em democracia, respeitar e honrar essa Memória, seja ela de África, da Índia, da 1.ª Guerra Mundial, de Aljubarrota ou de outro qualquer lado onde se combateu ao serviço de Portugal.

Fá-lo-ei sempre!

Nestas palavras, e em poucas coisas mais, estive de acordo com Cavaco Silva! Também, por esse mesmo motivo, publiquei, ao tempo, a alocução dele na homenagem efectuada junto do monumento aos Combatentes do Ultramar e que volto agora a republicar no "link" abaixo que inclui o vídeo da cerimónia:


Pecou por tardia a atitude, já que dispôs de um primeiro mandato completo para o fazer mas, calculísticas avaliações políticas mais do que sentir verdadeiro, terão atirado a iniciativa para um almejado segundo mandato porque o risco de não ser reeleito seria eventualmente acrescido.

Aqui, permito-me expressar uma outra opinião que considero sustentada quanto baste. Tenho um enorme respeito pelo saber e cultura do Prof. Adriano Moreira que oiço atentamente, sempre que tenho ocasião para tal.

Foi Ministro do Ultramar e não de África e, por palavras próprias, já explicou pormenorizadamente a diferença de conceitos e também onde acabou um e começou o outro. Na minha modesta opinião, fê-lo detalhadamente e com conhecimento de causa.

Uma coisa é certa! Está gravado no meu espírito que quando embarquei para a Guiné fui para o Ultramar (África) e, no final da minha comissão, regressei à Metrópole (Portugal). Era assim em linguagem corrente mas "tempo e conveniência política" deturpam verdades históricas. Colónias sempre tivemos e, a haver alguma espécie de «acordo ortográfico obrigatório» com alteração significativa da denominação, adoptaria a de Guerra Colonial.

Não quero pronunciar-me sobre o pouco que conheço para lá da Guiné. Tendo lido alguma coisa sobre outros teatros de conflito, mas bastam-me meia dúzia de nomes entre os quais incluo o do Lobo Antunes para me apetecer continuar calado e, indo mais além na minha imagem de marinheiro, ter que chamar pelo "gregório" como na navegação em mar cavado a grosso. Afinal, tantas vezes se propala a mentira que assume foros de verdade...

Quase simultaneamente, a minha mãe teve lá três filhos de quatro, dois na Guiné e uma filha em Angola com o marido, este como Oficial da FAP, ao tempo. Nenhum deles como militar de carreira.

A única pessoa que, durante o meu tempo de permanência na Guiné, mostrou proteger por duas vezes a minha vida, conhecia-me há meia dúzia de meses, era um negro de etnia mandinga e foi mais tarde fuzilado a mando de escumalha que se dedica ao narcotráfico, tudo em nome de um bom povo guineense que ainda não deixou de sofrer desde que de lá saímos.

Também aqui estou de acordo com Cavaco Silva. E serei apelidado de racista?

Depois, bem, depois vieram datas célebres, sessões de esclarecimento, tentativas várias de lavagens ao cérebro, pessoas classificadas como não devidamente esclarecidas, ameaças veladas, saneamentos, empresas saqueadas, plenários, comícios com toda a casta de apaniguados, modelos políticos e sociais a aplicar, a maioria sob a batuta filosófica de acólitos de Marx, Lenine, Engels e Trotsky, uns piores do que outros mas todos medíocres, maus os que se seguiram e, agora, ainda piores.

Para mim sobrou o epíteto de "recuperável" talvez depois de umas férias num qualquer arquipélago "Gulag". Parece nada terem aprendido e o País reflecte-o hoje pesadamente! Muito teria para continuar a debitar mas não consigo descortinar motivos válidos para apoiar quem quer que seja nem "antes" nem "depois".

A igreja de Santo Aleixo da Restauração, localidade de onde sou natural, foi destruída por três vezes na Independência e de outras tantas vezes foi reconstruída, sem apoios comunitários. Por lá se mantém, bem caiada. A localidade figura no Monumento dos Restauradores e, provavelmente, haverá por aqui alguma genética residual de rejeição à política e, mais ainda, à manipulação que a comunicação social hoje dela faz.



Lisboa - Praça dos Restauradores, monumento e um pormenor

Muito provavelmente, também o País irá continuar, mesmo sem a falta de qualidade e dignidade mínima exigíveis a políticos representativos de cidadãos que neles acreditam e votam.

Façam o favor de cumprir com dignidade, como sempre fizeram a maioria dos Combatentes, ainda que muitos deles emprestados temporariamente às Forças Armadas como Milicianos do Exército ou da Força Aérea e ainda da Reserva Naval, neste último caso da Marinha.

Evoco aqui as Mães que cederam o melhor de si próprias às fileiras e os Militares que honraram o conceito de cidadania ao serviço do Pátria por que lutaram ou até deram a vida.


Manuel Lema Santos, 8.º CEORN
1TEN RN 1965-1972, lic.
Guiné LFG «Orion», 1966/1968;
CNC 1968/1970;
EMA 1970/1972;


Fontes:
Texto e foto do autor; foto de Santo Aleixo da Restauração de António Melão, 2008 com a devida vénia em http://www.flickr.com/photos/metalcamera/2338221925/sizes/z/in/photostream/


mls

4 comentários:

Abreu dos Santos (senior) disse...

Caro Manuel Lema Santos,
Gostei de o ler.

carlosnabeiro@gmail.com disse...

Sr. Comandante Lema Santos.Há sécu_
los,que Portugal enferma de vários:
Conde Andeiro e Miguel de Vasconce_
los.Há quarenta anos,libertavam-nos
da obediência e controlo do capita_
lismo Ocidental,para nos oferecerem
em Salva de prata,à Canga de leste.

Luís Costa Correia disse...

Este depoimento é bem demonstrativo da dignidade e verticalidade do Responsável pelo "Reserva Naval", a quem a Marinha muito deve.

Emídio disse...

Bom...
Se todos pensássemos.
Com miolos mas também com coluna de vertebras.
E sangue nas veias em vez da orchata que nos querem meter no corpo.
Se todos tivessemos o engenho, a arte e a coragem de transmitir o que vai cá dentro como o fazes.
Então seriamos um país e não um local.
Temos de fazer alguma coisa, mesmo com o peso dos quase 70.
É que somos menos e mais velhos.
Mas somos melhores.