27 outubro 2018

Liga dos Combatentes - Lei do Reconhecimento e da Solidariedade


Antigos Combatentes da Guerra do Ultramar




Capa da revista "Combatente" n.º 385


É este o título do Editorial da revista trimestral Combatente n.º 385, Setembro de 2018, assinado pelo seu Director e Presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes, General Joaquim Chito Rodrigues.

(clicar para ver)

Pessoalmente, sou sócio da Liga dos Combatentes há cerca de três décadas, com o n.º 83.162, não pelas vantagens que tal me pode proporcionar essa qualidade, mas pelos valores e objectivos se solidariedade social que aquela Instituição tem prosseguido na defesa dos interesses dos Antigos Combatentes.

Entendo ser do interesse geral dos Antigos Combatentes o conhecimento do referido Editorial, motivo pelo qual, com a devida vénia, o reproduzo na íntegra tal como publicado na página 5 daquele número da revista «Combatente» acima referido.


Fontes:
Texto do autor do blogue; reprodução integral da página 5 da Revista "Combatente" n.º 385 de Setembro de 2018 da Liga dos Combatentes, em http://www.ligacombatentes.org.pt/revista_combatente/edi_oes_da_revista




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

17 outubro 2018

Guiné, 1967 – Rio Cacine (II)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Novembro de 2011)


Guiné, 1961/1971 - A LFP «Deneb»





1967 - A LFP «Deneb» fundeada frente a Cacine


Apenas como mero e aleatório exemplo ou simples exercício de síntese histórica, tendo como intuito dar a compreender alterações de estratégia quase imperceptíveis na política prosseguida pelo Comando de Defesa Marítima da Guiné ao longo do tempo, decidi pegar na LFP «Deneb», a última das três primeiras LFP - Lanchas de Fiscalização Pequenas da classe «Bellatrix» a rumar à Guiné onde, a bordo de um navio mercante, chegou em Junho de 1961.

Tal como as outras duas anteriores, as LFP «Bellatrix» e LFP «Canopus», foram inicialmente comandadas por um Sargento da classe de Manobra (M). Levaram a cabo o adestramento da guarnição e exercícios de tiro, operando em áreas próximas de Bissau, no rio Geba, efectuando também apoios à navegação de que se podem destacar, por exemplo, a colaboração com o NH «Pedro Nunes» e a escolta ao NM «Conceição Maria».

No princípio de Outubro navegou com oficiais da Reserva Naval, embarcando afinal aqueles que viriam a ser nomeados, alguns dias mais tarde, a partir do dia 18, como Comandantes daquelas unidades navais.

Assim sucedeu com os Asp RN Fernando Manuel da Silva Ferreira, Asp RN Joaquim Madeira Terenas e Asp RN Armando Fernandes Peres para as LFP «Bellatrix», LFP «Canopus» e LFP «Deneb», respectivamente, todos pertencentes ao 3.º CEORN – Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval.




A partir dessa altura, o alcance das missões operacionais atribuídas às LFP foi alargado, para norte, às bacias hidrográficas dos rios Mansoa e Cacheu. Ainda alternativamente, para sul, passou a estender-se às bacias hidrográficas dos rios, Tombali, Cobade, Cumbijã e Cacine, incluindo afluentes e canais.

Durante todo o ano de 1962 houve especial incidência de acções nas quase 90 milhas do rio Cacheu, com múltiplas operações de fiscalização, patrulha e apoio à navegação comercial com escoltas a combóios, ainda que deslocações pontuais a outras bacias hidrográficas se acrescentassem a esta intensa actividade operacional.

Como apontamento especial, em 12 de Abril, embarcaram em Farim com o navio fundeado, o Governador-Geral da Província CFR Peixoto Correia e o Subchefe do Estado-Maior da Armada CALM Armando Roboredo que, horas mais tarde regressaram a terra depois de navegarem até Binta.

No decorrer do ano de 1963, manteve-se aquele figurino operacional com destaque para um aumento da participação em operações levadas a cabo pelo CDMG e um lento deslocamento da incidência de actuação de norte para sul do território.

A estas modificações não terá sido alheia a chegada àquele território das Lanchas de Fiscalização Grandes, LFG «Argos», LFG «Dragão» e, mais tarde, a LFG «Escorpião» a partir do segundo semestre do ano. Maior capacidade de manobra e versatilidade de utilização, rapidez, poder de fogo e a possibilidade de transportar a bordo fuzileiros na realização ou no apoio a operações justificavam a sua utilização preferencial no rio Cacheu.

Em 8 de Agosto, enquanto fundeada em S. Vicente, num acidente originado por se ter voltado um bote plástico, quando procuravam atracar à LFP «Deneb» depois de terem efectuado uma patrulha, pereceram afogados os 2GR FZ 17371 António Domingos Abreu e 2GR FZ 16878 José Mariano dos Reis, ambos pertencentes à CF 3, embarcados ao serviço daquela unidade naval.

Resultaram infrutíferas todas as tentativas para resgatar os corpos. Durante todo o resto do ano e até meados de 1966 não regressaria ao rio Cacheu quedando-se quer pelo rio Mansoa quer nos outros rios, a sul do território.



1967 - Do lado de dentro do arame farpado do aquartelamento, a LFP «Deneb» fundeada frente ao cais de Cacine

O início do ano de 1964, de 13 de Janeiro a 22 de Março, foi marcado pela participação na operação «Tridente», conjuntamente com a LFP «Canopus», prosseguindo durante parte do ano a acção de fiscalização e patrulha no sul com participação em diversas operações levadas a cabo.

Em Agosto e Setembro, com o apoio de esquadras de fuzileiros, aumentou a frequência de acções de fiscalização e patrulha com alguns desembarques na área dos rios Cumbijã e Cacine, afluentes e canais com algumas respostas a flagelações sofridas em resposta a ataques inimigos e o afundamento de várias canoas.




Cacine, 1967 - Na LFP «Deneb», à esquerda, o 1TEN José Luis Leiria Pinto, Comandante do DFE 6 e, à direita, o CTEN José Afonso de Sousa Guimarães, Comandante do INAB (Instalações Navais de Bissau)

No rio Cacine, na margem direita, passaram a ficar referenciados como pontos de prováveis acções futuras de flagelação inimiga a Ponta Canabém (Canábria), na confluência na foz do rio Chaquebante e, um pouco mais a juzante, a confluência dos rios Pachicã e Sôco. Ainda mais para no sentido da foz, na mesma margem, o Canal de Melo (rio Massancano) permitia que, com as condições de maré adequadas, as LFP e as LDM atravessassem do rio Cacine para o rio Cumbijã, e inversamente, evitando a barra e encurtando muito quer o percurso a efectuar quer os tempos dispendidos na travessia.

No mês de Novembro, no decorrer da operação “Dueto”, embarcaram na LFP «Deneb» o Comandante da Defesa Marítima da Guiné - CMG Av Ferrer Caeiro, o Chefe do Estado-Maior - CFR Mário Dias Martins e o Subchefe do Estado-Maior - CTEN Adriano de Carvalho.

Na margem esquerda o aquartelamento de Cacine e o reforço das FTs mantido em Cameconde, a cerca de oito quilómetros, marcavam o limiar da zona controlada pelas nossa Forças. Para juzante, o Quitafine, era quase na totalidade controlado pelo PAIGC com pontos referenciados na ponta Campeane, Pampaire, foz do rio Poxiuco e toda a península para sudoeste.

Próximo do final do ano, em meados de Dezembro, numa acção de fogo ao prestar apoio aos fuzileiros na margem esquerda do rio Cacine, no Quitafine, terá sido referenciado, ainda numa fase inicial, na zona de Cassumba, a existência de forte actividade inimiga, local onde viria a ser edificada uma fortificação, tipo “bunker”, alojando peças anti-carro de 57 mm, baptizados mais tarde como “Os Canhões de Navarone”, com que o IN a passaria a alvejar as unidades navais que demandavam a barra.



Em cima o "Gouveia 17" e, em baixo, o "Bigene"


Dentro dos mesmos padrões de actuação operacional se manteve a actividade da LFP «Deneb» no decorrer de 1965 e princípio de 1966, regressando a uma pontual presença no rio Cacheu em fins de Maio, quando escoltou as embarcações comerciais “Gouveia 17”, “Bigene” e “Calequisse” na última semana daquele mês.



O "Calequisse"

Não voltou a desempenhar qualquer missão naquele rio até 1968, prosseguindo sempre a actividade operacional no sul, alternando apoio a operações com missões de fiscalização e patrulha, escolta a combóios sendo alvo de diversos ataques e flagelações, a que respondeu sempre com êxito e sem baixas.

Especial destaque para a participação na foz do Cacine, contra as posições inimigas em Cassumba, no apoio às LFG «Sagitário» e LFG «Cassiopeia» levada a cabo sob o Comando da FAP nas operações Sayonara I e Sayonara II em 1 e 7 de Dezembro de 1966, respectivamente.

Em Maio de 1968, o Comandante-Chefe, Brigadeiro António de Spínola alterou profundamente a estratégia a prosseguir pelo dispositivo naval disponível no território, atribuindo prioridade a múltiplos tipos de acções no rio Cacheu que visassem dificultar, impedir e cortar “cambanças” de pessoal e material inimigo nos corredores tradicionais do Sitató, Jumbembem, Sambuiá e Canja.

Para isso, através de directivas emanadas do Gabinete do Comandante Chefe e através do CDMG, foi activada a operação “Via Láctea” e mais tarde a operação "Andrómeda" a que foram atribuídos meios navais e fuzileiros que passaram a incluir LFG, LFP, LDM e DFE.

A LFP «Deneb» regressou às missões no rio Cacheu tal como as LFP «Bellatrix» e LFP «Canopus». Mais tarde, novas construções como as LFP “Arcturus”, LFP «Aldebaran, LFP «Procion», LFP «Alvor» e LFP «Aljezur» se juntaram ao dispositivo naval existente naquele teatro.

No decorrer de todo aquele ano e quase por inteiro no ano de 1969, a LFP «Deneb» foi intensamente solicitada em acções diversas, flagelações e respostas a ataques no rio Cacheu, em operações no âmbito das missões atribuídas.

Até ao final do ano, em Agosto, ainda patrulhou por um curto periodo o rio Grande de Buba, “encostando” em Bissau no virar do ano. Reparações diversas, demoras excessivas no fornecimento de algumas peças ou sobressalentes e ausência de outros, com experiência de máquinas, atiraram um estado de prontidão, “apenas aceitável”, para o mês de Setembro de 1970.

Já em 1971, depois de algumas missões sem exigências excessivas atribuídas no curso inferior dos rios Cacheu, rio Grande de Buba, Geba confluência com o Corubal ou patrulhas nocturnas no Porto de Bissau, aquela LFP subiu o plano inclinado do SAO a 1 de Julho, onde foi minuciosamente vistoriada.

A Comissão encarregue do trabalho, concluiu que não se justificava a recuperação da LFP «Deneb» devido à extensão das corrosões, deformações e respectiva estrutura geral, inviabilizando economicamente uma reparação com esse objectivo. Assim foi proposto o desarmamento e abate que se veio a efectivar em 3 de Fevereiro.

Das três primeiras LFP que estiveram na Guiné, as LFP «Bellatrix», LFP «Canopus» e LFP «Deneb», esta lancha foi a última a ser aumentada ao efectivo e também a primeira a ser abatida.




Por isso mesmo, talvez a tenha escolhido para este exemplo, agora com o infeliz acrescento de que, neste percurso temporal daquela unidade naval, dois “marinheiros” perderam dramaticamente a vida em missão de serviço.

Aqui lhes prestamos sentida homenagem.




Fontes:
Texto do autor do blogue; Carta da província da Guiné, Ministério do Ultramar, 1961; Fotos da LFP «Deneb» cedidas por Emídio Aragão Teixeira, 8.º CEORN; Arquivo de Marinha; Setenta e Cinco Anos No Mar, LFP - 17.º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2006.


mls

15 outubro 2018

Guiné, 1969 – Rio Cacine (I)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 17 de Outubro de 2011)


Condições de navegabilidade do rio Cacine


(clique na imagem para ampliar)



Aspecto geral do rio Cacine e a região sul da Guiné; a noroeste, os rios Cumbijã, Tombali e ainda o Cobade que liga os dois primeiros


O rio Cacine encontrava-se todo hidrografado e era demandado por todas as unidades navais e embarcações civis da Guiné. As LDG - Lanchas de Desembarque Grande, normalmente não passavam para montante da foz do rio Meldabom, um dos principais afluentes da margem direita do Cacine.

Ali foi instalada a marca “Lira” que, assinalando um assoreamento rochoso, representava o limite de navegação possível a montante.

Gadamael

Fica situado no rio Queruano ou rio Axe, afluente da margem esquerda do Cacine, e o seu acesso só era possível a cerca de duas horas antes do estofo da preia-mar, devendo as unidades navais sair naquele momento, para evitar ficar em seco, situação não aconselhável pela situação militar vivida na zona.

Só era praticável por LDM - Lanchas de Desembarque Médias e por embarcações civis de pequena tonelagem, normalmente estacionadas em Cacine que efectuassem transportes de viaturas, artilharia e pessoal militar ou reabastecimento das Forças de Terra a partir do cais daquela povoação.

Perto da entrada do rio Queruano, num emaranhado de confluências dos rios Cafungaqui, Diderigabi e Cacondo, um pouco a juzante, existia uma rocha no fundo que exigia precauções especiais à navegação que demandava Gadamael.

Aquele porto era de dimensões muito restritas e a sua entrada também se encontrava ameaçada por pronunciado assoreamento. Era dotado de um bom cais, onde atracavam as LDM e as embarcações civis, existindo ainda a montante daquele local, um declive natural na própria margem onde as lanchas abicavam.

Era no entanto um aterro pouco consistente ficando o lôdo a descoberto com a vazante. Todo o interior do porto junto ao cais se encontrava assoreado e, no baixa-mar, ficava em seco uma grande extensão do rio.

(clique na imagem para ampliar)



Barras dos rios Cumbijã e Cacine

Cacine

Situado na margem esquerda do rio com o mesmo nome, entre as Pontas Bachao e Camassanhe, era demandado por embarcações civis com escolta e por unidades navais de todos os tipos que se encontravam naquele teatro, constituindo um terminal de cargas para as FTs estacionadas em Gadamael e de escoamento de alguns produtos para Bissau, sobretudo coconote.

Possuía uma ponte-cais que permitia a atracação de LDM ou embarcações civis, para carga e descargas, mas que fica totalmente a seco no baixa-mar.

As LDM abicavam mais a juzante da ponte-cais, a cerca de 300 jardas, num local onde a margem fazia uma pequena saliência arredondada, havendo uma estrada que, ao longo da margem, dava acesso à povoação. Para melhorar as condições de abicagem, teria sido necessário proceder à colocação de quatro cabeços em terra, convenientemente dispostos, para a amarração destas unidades navais quando abicadas.

Por outro lado, logo a juzante do local de abicagem existia uma zona de fundos mais baixos que poderia ter sido mais dragada, evitando quaisquer encalhes com pequeno abatimentos, sempre fácil de se verificarem. O tempo de permanência na abicagem, era de cerca de duas horas e meia para as LDG, devendo sair com o preia-mar, nunca ficando junto a Cacine por não ser indicado militarmente.

Eram frequentes as flagelações da margem contrária, a partir da zona conhecida como Ponta Canabém, junto à foz do rio Chaquebante, com morteiro e metralhadora pesada.

Outras unidades navais como as – LFG - Lanchas de Ficalização Grandes ou as – LFP - Lanchas de Fiscalização pequenas , utilizavam com frequência a foz do rio Imberem como fundeadouro, por considerarem o local mais seguro contra eventuais flagelações, o que faria supor a possibilidade de tentar arranjar um local de abicagem com mais segurança e maiores fundos, situação que se adivinhava simples de implementar na Ponta Camassanhe, pelo desenho da própria carta.

Essa alternativa implicava considerar um acesso àquela ponta, a partir da povoação, e que nunca chegou a existir.


Fontes:
Carta 220 da Missão Geo-Hidrográfica da Guiné, Barra dos rios Cumbijã e Cacine, 1959-1964, por cortesia do Instituto Hidrográfico; Carta da província da Guiné, Ministério do Ultramar, 1961; Arquivo de Marinha.


mls

28 setembro 2018

Cesária Évora e Reserva Naval - 1968


(Post reformulado a partir de outros já publicados em 31 de Janeiro de 2012)


Cabo Verde, 1968 - Cesária Évora com a Reserva Naval no Mindelo





A última publicação efectuada abordou Cesária Évora - "Cize", aquando do infausto desenlace que nos privou definitivamente do seu convívio. Ainda que nutrisse especial admiração e carinho por Cesária Évora parece-me de todo despropositado falar em conhecimento pessoal.

Uma perda irreparável como pessoa, como intérprete e embaixadora da música de Cabo Verde, mas também como exemplo de simplicidade de vida que nunca esqueceu as origens num caminho semeado de escolhos e dificuldades em que, mesmo nos momentos altos que lhe sorriram, nunca deixou de lembrar quem lhe estendeu a mão, tal como a procurou dar sempre aos amigos que dela precisaram.




Dizia Zeca Afonso na sua poesia «...quando eu morrer, rosas brancas, para mim ninguém as corte, quem as não teve na vida de que lhe servem na morte...» É já prática comum do foro da hipocrisia mediática. Como em casos idênticos, com outras personalidades e vultos da cultura, não apenas no contexto musical, a meritocracia reencontra-se na aplicação prática, sempre tardiamente e apenas, quase exclusivamente, a título póstumo. Historicamente repetitivo mas sempre lamentável, o reconhecimento de valores culturais post mortem.

Também como outros camaradas, cadete da Reserva Naval, incógnito, tive apenas um primeiro contacto efêmero com as gentes, hábitos e música de Cabo Verde, no decorrer da viagem de instrução do 8.º CEORN – Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, efectuado nas fragatas «Diogo Cão» e «Corte Real» que, na segunda quinzena de Abril de 1966, aportaram àquelas ilhas. Eram comandadas, respectivamente, pelos CFR Peixoto Correia e CFR Pinheiro de Azevedo, vindo este último a exercer mais tarde as funções de Primeiro-Ministro, após o 25 de Abril.

Era tradicional organizarem-se festas, convívios ou recepções por ocasião da visita de navios da Marinha Portuguesa a Cabo Verde. Recordo esses momentos quer na ilha de S.Vicente, no Grémio do Mindelo quer na ilha de Santiago, na cidade da Praia, com visitas guiadas às ilhas a que não faltou uma passagem pelo Tarrafal.




Mais tarde, no decorrer dos anos de 1966 a 1968, voltei ali nas deslocações que, aproximadamente de seis em seis meses, a LFG «Orion», tal como todas as outras lanchas do mesmo tipo, faziam da Guiné a Cabo Verde, por imposição de trabalhos de conservação e manutenção nos estaleiros navais da ilha de S. Vicente.

Quando ali aportavam mantinham-se ali estacionadas cerca de um mês em cada uma das vezes que o faziam. Então, já casado e com família próxima ali estabelecida, sempre fui naquelas casas recebido e tratado com carinho e atenção especiais que aqui gratamente recordo e, entre guarnição e familiares ou amigos, nunca me senti acossado por qualquer sentimento de solidão ou insularidade.

Tudo fez parte de uma etapa da minha vida de que recordo, entre muitas outras pessoas, um tio da mãe das minhas filhas, o poeta Jorge Barbosa cujo nome mais tarde foi atribuído à Escola Secundária do Mindelo, e um sem número de familiares e amigos que partilharam comigo mesa e convívio.




Mindelo - Escola Secundária "Jorge Barbosa"

Na nostalgia de quem lembra de forma gratificante estas memórias, ficaram na “sodade di nha tempo ido” as sempre eternas mornas e coladeras que Cesária Évora tão bem interpretou e legou como herança cultural de um Povo. Algumas gravações, sempre escassas, guardo-as há muito comigo.

Como outros cursos, também o 11.º CFORN – Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, em 1968, ali rumou na viagem de instrução de final de curso, nas mesmas Fragatas «Diogo Cão» e «Corte Real», desta vez comandadas respectivamente pelos CFR Eurico Serradas Duarte e CFR Mário Dias Martins. Teve lugar entre os dias 4 e 29 de Março de 1968, saindo de Lisboa e aportando a Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Horta, S. Vicente de Cabo Verde, Funchal e Porto Santo, antes de entrar de novo em Lisboa.

Tendo Cesária Évora nascido em 1941, no mês de Agosto, em Março de 1968 contava ainda 26 anos. A partir da chegada a Lisboa no dia 29 daquele mês, vamos ter em conta que no regresso da viagem de instrução as fragatas não foram a Porto Santo. Rumaram directamente para Lisboa, dois dias de viagem, com saída do Funchal num final de tarde. Fazendo contas "às arrecuas" concluir-se-á que a saída do Funchal se efectuou no dia 27. Deduzindo o tempo de permanência na Madeira de 2 a 3 dias e mais outros 3 a 4 para ali chegarem de Cabo Verde, ficará o dia 19 de Março como provável dia de saída de S. Vicente.

Sem a pretensão de total rigor, quer na data quer na informação, nos dois ou três dias anteriores, terá decorrido uma festa convívio que incluiu a actuação de Cesária Évora e de alguns elementos que, com "Cize", formavam o conjunto musical que a acompanhava.

Ainda que com meios empíricos, improvisados na hora, a sessão foi gravada, como é visível numa das fotos, mas da sua guarda e eventual conservação no tempo nada se sabe de concreto. Muito provavelmente, perdurará ainda esquecida num baú de recordações pertencente a algum dos muitos participantes na viagem.




Mindelo, Março de 1968 - Com Cesária Évora, da esquerda para a direita, Henrique Oliveira Pires, António Campos Teixeira, José Manuel Vieira de Sá e José António Trindade Leitão, todos do 11.º CFORN

Depois da chegada a Lisboa, do Juramento de Bandeira daquele 11.º CFORN e já como oficiais da Reserva Naval, Henrique Oliveira Pires foi destacado para a Guiné como comandante da LFP «Canopus», António Campos Teixeira para o Grupo n.º 1 de Escolas da Armada, José Manuel Vieira de Sá para Angola como comandante da LFP «Fomalhaut» e José António da Trindade Leitão para o Grupo n.º 2 de Escolas da Armada.

Como curiosidade adicional, foi o último ano em que aquelas duas unidades navais efectuaram viagens de instrução a Cabo Verde. A FF «Diogo Cão» foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 21Out68 e a «Corte Real» em 19Nov68.


Fontes:
Texto, fotos de arquivo, edição e arranjo de imagem do autor do blogue com fotos cedidas por elementos do 11.º CFORN; imagem do Liceu Jorge Barbosa por cortesia de:
http://pt.trekearth.com/gallery/Africa/Cape_Verde/Barlavento/Sao_Vicente/Mindelo/photo530294.htm.




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

24 setembro 2018

Cesária Évora, a morte aos 70 anos


Cabo Verde, Mindelo - Cesária Évora, "Cize", desaparecimento aos 70 anos.

(Post reformulado a partir de outros já publicados em 18 de Dezembro de 2011)



1968 - Cesária Évora aquando da viagem de Instrução do 11.º CFORN antes da sua actuação.


Nascida no Mindelo a 27 de Agosto de 1941, Cesária Évora desde muito cedo que encarnou o espírito da genuína música tradicional das ilhas cabo-verdianas.

A afinidade com o Mar, o Mindelo na ilha de S.Vicente e as inúmeras arribadas de navios àquele porto transformaram muitos marinheiros em testemunhos desse talento mais que cinquentenário, sempre manifestado de forma singela, popular e simpática, mas arrebatadoramente livre numa expressão melancólica e magoada.

Mindelo, as noites de fresca aragem marítima, os banhos madrugada dentro na Baía das Gatas, as idas com os mergulhadores apanhar lagostas, o convívio com um povo culto, são e alegre, as manhãs na praia da Matiota e tantas vivências mais, foram retemperadoras para muitos "marujos" que, vindos da Guiné, aportavam ao cais de S. Vicente para fabricos, integrados nas guarnições das LFG-Lanchas de Fiscalização Grandes.

Também muitos Oficiais, Sargentos e Praças, quer dos Quadros Permanentes quer da Reserva Naval, que ali prestaram serviço ou em viagem de instrução, em unidades navais ainda cadetes, a quem tantas vezes foi dada a oportunidade de partilha daquele fraterno ambiente de convívio, participam certamente deste sentimento, já que Cesária Évora por diversas vezes actuou de forma quase privada, “a pedido”, com a simplicidade que se lhe conhecia.

Naquele dia de Dezembro ficaram especialmente tristes todos os que estiveram em Cabo Verde, tenha sido numa fugaz passagem ou em mais prolongadas estadas. Toda a força e vida de Cesária Évora, expressa em anos de embaixadora mundial da morna e diva dos pés descalços de Cabo Verde não foi suficiente para a manter entre nós.

De nada valeu o apoio médico, carinho de familiares, amigos e admiradores. Nascida no Mindelo a 27 de agosto de 1941, deixou o nosso convívio com 70 anos.

Ficou mais pobre Cabo Verde, privado de um património histórico cultural e musical de eleição. Mesmo todos os que, como nós, com ela conviveram e tiveram o privilégio de partilhar a sua presença e voz ao vivo, mesmo que só pontualmente, sentiram a perda.

Cize, como era conhecida, ficará para sempre entre nós, recordada nas mornas coadas entre memórias em cálidas noites de Cabo Verde e do Mindelo, do Grémio à Baía da Gatas, num talento reconhecido mundialmente ao mais elevado nível de consagração.

E que saudade...







Fontes:
Texto foto de arquivo do autor do blogue com imagem cedida gentilmente pelo 11.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval;




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

Guiné, 1971 - Nas mãos do PAIGC



Sobreviventes...!

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Novembro de 2011)


No episódio de 24 de Outubro de 2011, no Jornal da noite da SIC, em «Sobreviventes», ficámos a conhecer a história de quatro antigos combatentes, de Piche ao Saltinho...

Duarte Fortunato, António Teixeira, Manuel Vidal e António Baptista, combatentes da Guerra do Ultramar - Guiné, foram feitos prisioneiros de guerra pelo PAIGC.

Foi um relato impressionante sobre a captura e o cativeiro numa prisão da Guiné-Conakry.






Fontes:
Com a devida vénia ao Jornal da Noite da SIC-Notícias de 24 de Outubro de 2011;


mls

17 setembro 2018

2TEN FZE RN João Pedro Gião Toscano Rico


"In Memoriam" 2TEN FZE RN João Pedro Gião Toscano Rico - 4.º CEORN

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Julho de 2011)




2TEN FZE RN João Pedro Gião Toscano Rico
1938-2006



A notícia chegou de forma brutal, porque inesperada para mim. Camarada de curso entrado na Escola Naval em 1961, para a frequência do 4.º CEORN, João Pedro revelou-se cedo como um inadaptado das regras impostas aos cadetes.

Cumpridor mas contrariado, alcançou sempre notas positivas e, mesmo nas provas de Educação Física os níveis alcançados foram sempre acima da média, mesmo saltando à vista que não era grande predestinado para as actividades ligadas ao desporto.

Sem queixas nem lamentos, reconhecia-se nele o esforço de executar algumas das tarefas obrigatórias, porque nunca deu parte de fraco e a si próprio impunha a tenacidade de ser igual, ou melhor, entre os melhores.

No entanto, a sua rebeldia trouxe-lhe contrariedades. Na viagem de instrução final de curso, sabedor que aos cadetes era imposta a obrigação de permanecerem fardados nas saídas de bordo, tomou a decisão provocatória de se apresentar vestido à civil no bar do hotel frequentado pelos oficiais da guarnição do navio, valendo-lhe a atitude uma sanção que o relegou para os últimos lugares da classificação do curso e a quase certa e mais rápida mobilização para o Ultramar.

Enganou-se quem o castigou, porque tal facto não o apoquentou. Pertencente à classe de Marinha, a lógica apontava para o destacamento para um navio em comissão africana, ou eventualmente integrado numa Companhia de Fuzileiros Navais. Inesperadamente, ofereceu-se para a frequência do curso de Fuzileiro, terminando a respectiva instrução com a classificação de “Apto” e tornando-se desde então o primeiro oficial na História da Reserva Naval habilitado com o curso de Fuzileiro Especial.

Foi em 1962 mobilizado para Angola, sendo o 4.º oficial do DFE 1, destacamento comandado pelo 1TEN Henrique Metzner, tendo como oficial imediato o 2TEN Luís Camós Oliveira Rego e 3º oficial o 2TEN José Júlio Neto Abrantes Serra.

No Zaire, em Março de 1963, fui encontrá-lo de camuflado, no comando do Posto avançado de vigilância da Quissanga, o mais a jusante do rio. Tinha com ele uma boa remessa de medicamentos, a maior parte amostras de laboratórios, que cedia ao seu pessoal em receitas de quem se mostrava conhecedor das maleitas caseiras de pouca gravidade. Aos nativos, no seu dizer curioso, curava os males com a intenção de «acabar com a feitiçaria».

Um dia, desafiado pelo agente da Pide em serviço na vila de Nóqui, decide fazer uma visita a Matadi, cidade congolesa mais próxima da fronteira.

Em vez de regressar no mesmo dia, por ali se quedou em turismo durante dois dias, provocando tremenda dor de cabeça ao acompanhante.




Era assim João Pedro Toscano Rico. Dizia-se admirador do célebre herói da banda desenhada, o capitão Marvel. Só que os seus dotes não lhe permitiam voar. Certo dia, encontrei-o à deriva, num bote Zebro a caminho da margem congolesa, com o motor de bordo inoperativo e em risco de ser caçado por nativos que na margem o aguardavam após uma cena de provocação.

Não foi ainda dessa vez que foi apanhado. Nem em várias outras ocasiões, porque repetiu a provocação de pisar terra na margem direita, esperando que os negros do Congo, brandindo catanas, o tentassem apanhar. Sem sucesso, para seu bem.

Valente e corajoso, não era apenas a inconsciência que o levava a tais procedimentos. Algum desejo de notoriedade, eventualmente, levavam-no a atitudes perigosas de que se foi livrando, por vezes no limite do razoável.

Amigo do seu amigo, confiante nos outros, tinha sentimentos nobres e ideais onde a coerência ocupava lugar de destaque.

Em 28 de Setembro de 1975, no célebre Verão Quente da malfadada época da anarquia reinante, João Pedro regressava do Alentejo onde normalmente habitava, tratando e gerindo as suas terras de lavoura, como Agrónomo de profissão que era.

Passou a Ponte do Tejo esperando que as barragens da populaça o mandassem parar, como era norma naquele dia, na procura revolucionária de reaccionários armados.

Não o detiveram porém, o que muito o espantou, porque se fazia transportar numa viatura de marca, um Mercedes, indicativo à primeira vista que se trataria de «contra revolucionário e perigosíssimo reaccionário».

Decide então inverter a marcha, voltar à margem Sul e repetir o trajecto em direcção a Lisboa. Dessa vez foi efectivamente mandado parar. Não acatou a ordem e face à atitude, um qualquer grupo de energúmenos enviou na sua direcção uma rajada de metralhadora que o apanhou em cheio, deixando-o às portas da morte.

De 1975 até 2006 viveu com essa recordação, porque o mal físico não o impediu de fazer a sua vida habitual, agora com mais calma.

Dada a natureza dos tiros que o atingiram, sempre se considerou convicto de que seriam forças militares as que o trataram daquela forma. Não mais concedeu qualquer crédito à Instituição Militar.

Fez, no entanto, uma excepção. Quando lhe divulguei o projecto do Museu da Reserva Naval e lhe mostrei a importância histórica da farda camuflada do 1.º Fuzileiro Especial RN nele figurar, convidou-me a ir a sua casa e retirando de um armário uma caixa, religiosamente guardada por sua Mãe, entretanto falecida, entregou-ma com a emoção de quem se desfaz de um bem precioso mas com a certeza de que a mesma seria estimada como até ali.

E é estimada e ficará exposta no Museu da Reserva Naval ou voltará para a posse dos seus filhos. Promessa que lhe fiz e que cumprirei.

João Pedro Toscano Rico, meu camarada de curso e companheiro de comissão em África, um dos Bravos do Zaire como entre nós, os que por ali passaram, orgulhosamente gostamos de referir, é um dos eleitos da minha Memória, enchendo-me de tristeza o facto de não mais o ter no nosso convívio.



José Pires de Lima
4º CEORN




Fontes:
Página de memória histórica da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, 2006, publicada em www.reservanaval.pt/inmemoriam/inmemoriam.html; fotos de arquivo do autor do blogue


mls

11 setembro 2018

NRP «Zarco» - Veleiro da Marinha


O veleiro NRP «Zarco» - antigo «Blaus VII»

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 8 de Agosto de 2011)







O NRP «Zarco» foi desenhado pelo arquitecto naval e designer holandês Peter Sijm e construído em 1983 nos estaleiros "Jachtwerf Jongert BV" situados em Medemblik na Holanda, tendo tido vários proprietários até 2007, ano em que foi registado em Espanha com o nome «Blaus VII».

Em Fevereiro de 2007, no âmbito da operação “Agrafo” de combate ao narcotráfico, em cooperação com a Policia Judiciária, o «Blaus VII» foi abordado a 100 milhas do Arquipélago da Madeira por uma equipa do Destacamento de Ações Especiais, lançada a partir da corveta NRP «António Enes».






A bordo foram encontrados 1.500 quilogramas de cocaína. Nesse mesmo ano, após o estabelecimento de um protocolo de cooperação com a Policia Judiciária, a Marinha Portuguesa ficou com a responsabilidade de assegurar a sua guarda e manutenção, bem como a sua regular utilização, tendo sido transferido para a Escola Naval para utilização como veleiro de instrução de cadetes em substituição do NRP «Vega».






Para além dos embarques de instrução dos cadetes da Escola Naval, o navio efectua igualmente missões no âmbito do CINAV, Centro de Investigação Naval.

Em 3 de julho de 2015, o «Blaus VII» foi aumentado ao efectivo dos navios da Marinha Portuguesa e rebaptizado como NRP «Zarco».





Fontes:
Fotos do espólio pessoal do autor deste blogue captadas na Marina de Portimão em 5 de Agosto de 2011 e texto compilado a partir do site da Marinha em https://www.marinha.pt/pt/os_meios;


mls

05 setembro 2018

Metangula, 1969 - Amália Rodrigues em Moçambique


Lago Niassa - Amália Rodrigues na Base Naval de Metangula

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 16 de Outubro de 2011)





1920-1999


No mês em que decorreu mais um aniversário sobre a sua morte aqui fica um testemunho de homenagem à fadista, cantora e actriz portuguesa, considerada o exemplo máximo do fado, comummente aclamada como a voz de Portugal e uma das mais brilhantes cantoras do século passado.











Fontes:
Fotos gentilmente cedidas pelo Almirante Espadinha Galo e pelo 2TEN MN RN Ricardo Migães de Campos, 11.º CFORN (falecido);




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

03 setembro 2018

Penamacor – Monumento aos Combatentes do Ultramar

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 29 de Agosto de 2011)

"In Memoriam" Coronel José Monteiro Grilo







Foi inaugurado no dia 1 de Junho de 2011, dia do concelho de Penamacor, o monumento em homenagem aos Combatentes do Ultramar, erigido na rotunda poente da Avenida da República que assim quiseram honrar os irmãos de armas e entes queridos mortos no campo de batalha, cujos nomes figuram na base do monumento em pequenas lápides de pedra com placas em latão gravadas.






Um pouco por todo o país, vai-se alargando significativamente a simbologia permanente aos Combatentes do Ultramar pela edificação de monumentos ou simples memoriais que evocam, de forma diversa mas comum no sentimento partilhado de um povo, a recusa de deixar cair no esquecimento aqueles que combateram ao serviço de Portugal na Guerra do Ultramar.

Especial e justificada relevância para os que não regressaram ao país, à família e aos seus, desde então privados ad eternum do convívio de um pai, marido, filho, irmão, noiva ou simples familiar.

Mágoa impossível de escamotear pela óbvia justificação da “morte em combate” ou “no cumprimento do dever pátrio” pela vida arrebatada precocemente, pese embora a evocação de valores, tão defensáveis nos ideais da preservação da defesa nacional como discutíveis no resultado último da morte, consequências do recurso à guerra ao serviço da incompreensão do Homem.

Penamacor era também terra de naturalidade do meu sogro. Homem de arreigados princípios e valores que da sua personalidade eram atributos, escolheu a carreira militar no Exército como vida profissional. Conheci-o já como oficial superior, no posto de Coronel, reformado.




Perfil de recorte digno e educado, culto e austero, partilhava com alegria parcos momentos familiares, mas raramente abordava a Instituição e as muitas vivências havidas nas várias frentes onde combateu.

Nas ocasiões pontuais em que comigo abordava essa temática, sempre timidamente, adivinhava-se-lhe um espírito marcado por cicatrizes e mágoas acumuladas pelo tempo que nem Família, Instituição ou País ajudaram a sarar.

Excepção para o brilho dos olhos, sorriso e o regresso às brincadeiras infantis que os netos sempre nele despertaram.




O tríptico do monumento de Penamacor, esculpido em pedra, recortando as costas marítimas dos três teatros de guerra, Angola, Moçambique e Guiné simboliza, de todo, uma vida inteira como a dele, dedicada às armas e ao dever.

Não caiu em combate mas foi caindo aos poucos.

Na Índia, corria o ano de 1961, então já como capitão, foi feito prisioneiro de guerra no Estado Português da Índia no Campo de Pondá.

Em Moçambique onde desempenhou comissões por duas vezes, primeiro 1954/1957 e mais tarde 1963/1965.

Em Angola de 1967/1968, foi ferido em combate num joelho, em emboscada da CCaç 1639 que comandava, integrada no BCaç 1901.

Finalmente na Guiné, 1970/1971, já como oficial superior, integrado no Comando do Agrupamento 2970 (futuro CAOP 2) problemas graves de saúde obrigaram à sua evacuação.

Falta-me capacidade pessoal e engenho criativo para ajuizar da resistência humana à possível sobrevivência fisica e psicológica de tão sucessivas quanto duras provações.

Caiu no último combate da vida na sequência de prolongada doença em missão última que a todos nos aguarda.

Aqui honro a memória de todos os Combatentes de Penamacor e a dele particularmente.

Foi uma honra ser seu genro, Sr. Coronel.






Fonte (familiar):
O Coronel de Infantaria José Monteiro Grilo nasceu na Vila de Penamacor no dia 5 de Dezembro de 1930 e faleceu em Lisboa no dia 28 de Novembro de 2009; fotos do autor do blogue.


mls

27 agosto 2018

53º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Set86


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 12 de Julho de 2011)

53.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval




Registo de família na portaria da Escola Naval, da esquerda para a direita:
Fila inferior: José Eduardo Sabido Gualdino Ferreira Martins, Luís Filipe Pires Fernandes, Luís Filipe Matos de Araújo Maia e Nuno Manuel de Abreu Veloso;
Fila (degrau) do meio: Nelson Bruno Monteiro Ferreira Pacheco, António Manuel da Silva Bernardes, António Jorge Aldinhas Ferreira e Jorge Manuel Fernandes Nunes;
Fila (degrau) superior: Manuel de Oliveira dos Santos, António Cândido Lampreia Pereira Gonçalves, Orlando António Pires Leitão, João Antero Nascimento dos Santos Cardoso e Jorge Manuel Moita Nunes Pereira.



Do 53.º CFORN foram alistados inicialmente 17 cadetes da classe de Marinha, no dia 15 de Setembro de 1986. Daquela incorporação, terminaram o curso e foram promovidos a Aspirante a Oficial 13 elementos (*), em 14 de Março de 1987.

Comandava a Escola Naval o Contra-Almirante António Carlos Fuzeta da Ponte e foi Director de Instrução o Capitão de Mar-e-Guerra José Luis Ferreira Leiria Pinto.




O Juramento de Bandeira na parada da Escola Naval.
Da esquerda para a direita, fila da frente: José Eduardo Sabido Gualdino Ferreira Martins, Jorge Manuel Fernandes Nunes, António Manuel da Silva Bernardes, Manuel de Oliveira dos Santos
e Nuno Manuel de Abreu Veloso;
Fila de trás: Luís Filipe Pires Fernandes, Nelson Bruno Monteiro Ferreira Pacheco e,
mais à direita ou atrás, já não se conseguem identificar


No final do período de instrução, o "Prémio Reserva Naval" foi entregue ao cadete da classe de Marinha, António Jorge Aldinhas Ferreira. Este prémio destinava-se a galardoar o aluno com classificação mais elevada no conjunto da frequência escolar e da apreciação de carácter militar.

A exortação aos cadetes esteve a cargo do CTEN Sajara Madeira e presidiu à cerimónia o Almirante CEMA que passou revista ao Corpo de Alunos em parada, após o que se seguiu o habitual desfile.

Mais tarde foram destacados para as seguintes Unidades e Serviços:

ASP RN José Eduardo Sabino Gualdino Ferreira Martins, LFP «Águia";
ASP RN António Jorge Aldinhas Ferreira, navio-patrulha «Cacine»
ASP RN Orlando Pires Leitão, navio-patrulha «Quanza» e, mais tarde, LFP «Albatroz»;
ASP RN Jorge Manuel Moita Nunes Pereira, LFP «Andorinha»;
ASP RN António Cândido Lampreia Pereira Gonçalves, requisitado pelo Estado;
ASP RN João Antero Nascimento dos Santos Cardoso, Draga-Minas «S. Miguel»;
ASP RN Nuno Manuel de Abreu Veloso, NH «Almeida Carvalho»;
ASP RN Luis Filipe Pires Fernandes, navio-patrulha «Save»;
ASP RN Jorge Manuel Fernandes Nunes, LDG «Alabarda»;

Não se conhecem os locais para onde foram destacados cumprir missões os seguintes oficiais:

ASP RN Manuel de Oliveira dos Santos;
ASP RN Nelson Bruno Monteiro Ferreira Pacheco;
ASP RN António Manuel da Silva Bernardes;
ASP RN Luis Filipe Matos de Araújo Maia;

Este 53.º CFORN ficou conhecido como "Os Gorileiros", nome resultante de uma anedota contada por um dos elementos do curso sobre um cão gorileiro, espécie de feroz e voraz versão africana de um perdigueiro...




Em cima, embarque de fim-de-semana na fragata "Almirante Magalhães Corrêa" e, em baixo, na Escola de Limitação de Avarias, em instrução.



No dia 17 de Setembro de 2011, o 53º CFORN, "Os Gorileiros" reuniu-se para convívio e almoço 25 anos após a entrada na Escola Naval. O encontro teve lugar naquele Estabelecimento de Ensino.



(*) Nota - Os cadetes não mencionados, não concluiram o curso ou sairam da Marinha.


Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue, compilado a partir do Anuário da Reserva Naval de Manuel Lema Santos, edição AORN, 2011; elementos e fotos do 53.º CFORN cedidos por Orlando Pires Leitão, 53.º CFORN;


mls

23 agosto 2018

LFP «Átria"»- P 360


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Átria» - P 360




A LFP «Átria»


Construída nos Estados Unidos era uma lancha rápida, em fibra de vidro e que desde 1972 estivera na Guiné, sob o nome de «Corsair». Fora abatida ao efectivo de Unidades Auxiliares da Armada em 31 de Janeiro de 1983.

Esta unidade naval tinha as seguintes características gerais:



No dia 1 de Fevereiro daquele ano, foi aumentada ao efectivo de navios da Armada como Lancha de Fiscalização, com o nome de LFP «Átria» e substituiu a LFP «Rio Minho» no serviço de patrulha e fiscalização da pesca no rio Minho.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada em 1 de Março de 1993, recebendo o nome de «Tainha» e passando a ser designada por UAM 831.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Átria» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Luís Manuel Mota Ferreira da Silva, 37.º CFORN, 08Abr83/14Set84;
2TEN RN José Manuel da Veiga Ferreira, 43.º CFORN, 14Set84/05Out85*




*A partir desta data e até ao seu abate não foi possível apurar os comandantes da LFP «Átria».

Fontes:
Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com foto de arquivo do autor do blogue cedida pela Revista da Armada;


mls


20 agosto 2018

LFP "Rio Minho" - P 370


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Rio Minho» - P 370

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Junho de 2011)




A LFP «Rio Minho» fundeada no rio Minho


Construída nos estaleiros navais do Arsenal do Alfeite e única da sua classe, foi destinada à navegação e fiscalização do Rio Minho e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 8 de Fevereiro de 1956 com a designação de Lancha de Fiscalização Fluvial. Em 9 de Outubro de 1959 passou a designar-se por Lancha de Fiscalização Pequena.

Esta unidade naval tinha as seguintes características gerais:




Permaneceu no Continente em missões de patrulha e de fiscalização de pesca ao longo de toda a costa norte. Em 1981 o seu estado geral era já bastante mau e com o motor de estibordo inoperativo.

Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Rio Minho» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

CFR António José de Barros Vieira Coelho, 09Out59/18Fev61;
CTEN José Marques Elpídio, 18Fev61/12Abr66;
CTEN Adriano Augusto Loureiro de Chuquere Gonçalves da Cunha, 12Abr66/14Nov68;
CTEN Fernando Miranda Gomes, 14Nov68/28Set72;
CTEN Paulo Joaquim Costa Teixeira, 28Set72/13Nov74;
CTEN João Manuel Velho da Silva Dias, 13Nov74/17Set75;
CTEN Manuel Gomes Araújo, 17Set75/13Set79;

Reserva Naval:

2TEN RN Noémio da Silva Moreira, 29.º CFORN, 13Set79/16Set80;
2TEN RN Manuel Albino das Costa Ribeiro, 31.º CFORN, 16Set80/08Set81;
2TEN RN José António Raimundo Mendes da Silva, 34.º CFORN, 08Set81/17Dez82;

Em 17 de Fevereiro de 1982 passou ao estado estado de desarmamento para posterior abate ao efectivo da Armada, o que se consumou em 17 de Dezembro daquele ano.






Nota:
Nova lancha com o mesmo nome e numero de costado foi construída no Arsenal do Alfeite em 1991 e especialmente concebida para missões de patrulha em águas pouco profundas, sendo de realçar o seu reduzido calado. Pelo mesmo motivo, não possui hélices nem lemes, sendo a sua propulsão e governo assegurados por dois jactos de água omni-direcionais, o que lhe confere excelente capacidade de manobra.

A lancha possui espaçosos alojamentos para a guarnição, constituída por um oficial e um sargento, ambos com camarote privativo, e seis praças. A sua compartimentação garante a sobrevivência da lancha mesmo com dois compartimentos contíguos alagados. Ainda se encontra ao serviço da Armada, mas não foi possível obter os nomes dos respectivos comandantes.





Fontes:
Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com foto de arquivo do autor do blogue cedida pela Revista da Armada


mls

16 agosto 2018

Anuário da Reserva Naval 1976/1992 de Manuel Lema Santos

Apresentação pelo Comandante Adelino Rodrigues da Costa

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 19 de Julho de 2011)





No dia 14 de Junho de 2011, por ocasião do 16.º Aniversário da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, no Museu de Marinha - Pavilhão das Galeotas, com a presença do Vice-Almirante José Augusto Vilas Boas Tavares, Director da Comissão Cultural de Marinha, diversas Entidades e Convidados, foi apresentado a edição "Anuário da Reserva Naval, 1976-1992".

A apresentação da obra foi efectuada pelo Comandante Adelino Rodrigues da Costa que, na ocasião, dirigiu as seguintes palavras às personalidades e convidados presentes:

" Foi com muito agrado que aceitei o convite que me foi dirigido pela AORN para apresentar o Anuário da Reserva Naval, nesta edição que regista e identifica o vasto conjunto de homens que, entre 1976 e 1992, serviram a Reserva Naval e a Marinha.

A minha aceitação desta tarefa resultou essencialmente da admiração pessoal que tenho pelo Manuel Lema Santos, o autor deste trabalho – que desde já felicito vivamente –, pela dedicação, persistência e seriedade como conduziu as suas pesquisas em fontes informativas muito dispersas, que não eram fáceis, nem isentas de contradições.

Porém, houve outras razões adicionais para que eu aceitasse este honroso convite. Uma delas é de natureza emocional. De facto, tenho mantido uma ligação muito próxima à Reserva Naval, bem como a muitos dos seus elementos e às suas memórias navais, porque entre 1968 e 1974 tive o privilégio de ter sido instrutor de sete CFORN – Cursos de Formação de Oficiais da Reserva Naval, além de muitos desses oficiais terem sido meus companheiros em diversas situações, nomeadamente em Moçambique e, sobretudo, nas barras e nos rios da Guiné.

Para além disso, também entendi que este convite me dava a oportunidade de louvar uma vez mais a AORN pelo trabalho que tem desenvolvido em prol da Marinha e de prestar a minha modesta homenagem aos seus primeiros presidentes da Assembleia Geral e da Direcção, que prematuramente nos deixaram e que aqui evoco com saudade – Ernâni Rodrigues Lopes e António Henrique Rodrigues Maximiano.

O Anuário da Reserva Naval que hoje é apresentado, constitui um notável trabalho que resulta da laboriosa actividade do seu autor e, naturalmente, de uma pesquisa documental muito vasta.

Creio estar em condições de fazer esta afirmação porque, há cerca de vinte anos, eu próprio passei por uma experiência semelhante à que viveu o Manuel Lema Santos e, portanto, sei por experiência própria, que neste tipo de pesquisa se sucedem muitas dificuldades e que há muitos obstáculos e lacunas de informação nos documentos que se consultam. Assim se consomem tempo e paciência que, por vezes, quase bloqueiam o andamento do trabalho e desesperam quem assumiu o desafio de chegar a um resultado final.

Por isso, embora as 116 páginas do Anuário da Reserva Naval nos possam sugerir uma ideia de facilidade ou de simplicidade, o facto é que essas páginas correspondem a um labor aturado e exigente de pesquisa e de selecção de informações, assim como de atenta resolução de muitas dúvidas e contradições.

Esta edição do Anuário vem revelar-nos uma nova visão do que foi a Reserva Naval e é um notável contributo para a preservação da sua memória histórica e da sua relação com a Marinha.

Por vezes, há a tendência para identificar a Reserva Naval com o período de 1958 a 1975, quando a previsão da guerra em África e as hostilidades que se mantiveram por 13 anos na Guiné, em Angola e em Moçambique, levaram a Marinha a procurar na sociedade civil e, em particular nas universidades, os homens que vieram reforçar os seus quadros, que comandaram lanchas de fiscalização, que embarcaram em todos os tipos de navios, que integraram os destacamentos e companhias de fuzileiros e que, de uma forma mais geral, deram um importante contributo para um certo rejuvenescimento e modernização da Marinha.

Se o contributo da Reserva Naval foi um facto que tanto valorizou a Marinha, a inversa também é verdadeira. Esses jovens de formação universitária também se valorizaram através da sua integração temporária na Marinha e dos conhecimentos que adquiriram sobre a organização e a cultura da corporação e, hoje, nas suas actividades e nas suas vidas, mantêm com orgulho essa marca marinheira.

Porém, este trabalho do Manuel Lema Santos revela-nos que, a partir de 1976 e já com as páginas da conflitualidade colonial encerradas, a Marinha decidiu continuar a procurar na sociedade civil um reforço de quadros e de especialistas de que necessitava para acompanhar as exigências da sua adaptação aos novos contextos operacionais, mas também às novas realidades democráticas e às suas mudanças políticas, sociais e, sobretudo, tecnológicas.

Nesse período decorrido entre 1976 e 1992, a Marinha incorporou 1885 oficiais cuja formação decorreu na Escola Naval ou na Escola de Fuzileiros, salientando-se que 414 se destinaram à classe de Marinha, 249 à classe de Médicos Navais, 484 à classe da Especialistas, 50 à classe de Técnicos, 666 à classe de Fuzileiros, 11 à classe de Engenheiros Construtores Navais e 11 à classe de Farmacêuticos Navais.

Estes números mostram que, embora num contexto operacional bem diferente do que acontecera entre 1958 e 1975, a Reserva Naval continuou a prestar importantes serviços ao País, através da nossa Marinha.

A edição que hoje nos é apresentada sumaria o historial da Reserva Naval entre 1976 e 1992, com uma detalhada descrição da evolução dos cursos realizados e uma elaborada Síntese Legislativa, que inclui a principal legislação publicada ao longo desse período, que foi muitas vezes alterada em função das necessidades da corporação e constitui um importante auxiliar para fundamentar futuros estudos sobre este tema.

Depois, o Anuário identifica os cursos e os cadetes das várias classes que os frequentaram, com a indicação das suas datas de nascimento, de alistamento e de promoção a Aspirante, constituindo uma notável base de dados que, até agora, não estava disponível.

Na sua parte final o Anuário da Reserva Naval inclui Informações Adicionais, onde se incluem diversas listagens – Comandantes da Escola Naval e da Escola de Fuzileiros, Directores de Instrução dos vários cursos, Prémios Reserva Naval atribuídos – e, ainda, uma interessante resenha ilustrada do nosso dispositivo naval entre os anos de 1976 e 1992, com uma apresentação inspirada nos Jane’s Fighting Ships.

Finalmente, para além do seu conteúdo objectivo, deve ser salientada a excelência da apresentação gráfica do Anuário, que muito o valoriza. Assim, o Manuel Lema Santos está de parabéns e é credor do reconhecimento da AORN e da Marinha, pelos resultados que obteve e pelo livro que hoje nos apresenta.

O Anuário é, portanto, um valioso repositório de informações sobre a Reserva Naval. Um dia, tal como hoje sucede com os registos do Arquivo Histórico da Biblioteca Central da Marinha e com as saudosas Listas da Armada, os Anuários da Reserva Naval serão um instrumento indispensável para a pesquisa histórica e para o conhecimento do que foi a Marinha na segunda metade do século XX, mas também do importante papel que os oficiais da Reserva Naval – mais de três mil – tiveram na sua na sua estrutura administrativa, técnica e operacional.

E nesta sala, que com as suas galeotas e aeroplanos nos evoca algumas das facetas mais simbólicas da nossa herança cultural marinheira, eu ouso perguntar se a Marinha podia ter sido uma prestigiada corporação e uma referência institucional da sociedade portuguesa, sem o enriquecedor contributo da Reserva Naval.
E ouso, também, dar a resposta:

Poder, podia, mas não era a mesma coisa!


Adelino Rodrigues da Costa
Lisboa, 14 de Julho de 2011




Edição disponível no Secretariado da Associação:



Rua da Junqueira, 1300-342 Lisboa
Telefone: 21 362 68 40 – Horário das 15 às 20H
Fax: 21 362 68 39
aorn95@reservanaval.pt
maria.antonieta@reservanaval.pt




Fontes: Alocução do Comandante Adelino Rodrigues da Costa em 14 de Junho de 2011; Anuário da Reserva Naval, 1976-1992, Manuel Lema Santos, edição AORN-2011;



Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto