terça-feira, maio 09, 2017

Educação Física na Armada - Reserva Naval


Reserva Naval e Educação Física na Armada





Na Marinha, pelo Centro de Educação Física da Armada (CEFA) e por quase todas as Unidades em terra, passaram muitos Oficiais da Reserva Naval, nomeadamente professores de Educação Física, alguns deles com protagonismo actual na vida desportiva, académica e social.

Muitos outros ingressaram nos Quadros Permanentes e constituiam, à data, a quase totalidade dos Oficiais no activo que estavam à frente dos Serviços que ministravam esta disciplina nas diferentes Unidades em terra. Não é pois, despropositado, mas da elementar justiça, afirmar que a concepção e organização da Educação Física na Marinha era então fundamentalmente fruto do investimento de muitos profissionais oriundos da Reserva Naval.
A participação de todos os elementos trouxe benefícios para a causa da Educação Física na Marinha.

Para corroborar esta ideia, é oportuno referir que a razão pela qual não foram conhecidos acidentes por excessos que algumas vezes temos ouvido falar em outros ramos das Forças Armadas, pode ter ficado a dever-se a três aspectos conjugados:

– À abertura que a Marinha teve aos conhecimentos emanados de Instituições exteriores no que concerne à formação em Educação Física, estabelecendo protocolos com o antigo Instituto Nacional de Educação Física-INEF, posteriormente Instituto Superior e, actualmente, como Faculdade de Motricidade Humana, para a especialização de Oficiais.

– À organização interna da instrução por "departamentos", cabendo a cada um, uma instrução específica ministrada por “especialistas”.

– À solidez da formação dos especializados em Educação Física - Oficiais e Monitores - que, sem retirar a "dureza" que o treino físico militar tinham de possuir, possibilitava uma leitura atempada dos limites fisiológicos ao esforço.

Todavia a Educação Física na Marinha não se esgota na preparação física militar: a conquista social dos tempos livres e a regulamentação do trabalho, com restrições cada vez maiores para o exercício de uma profissão pelos jovens são por um lado uma forma de protecção à criança e por outro um meio de defesa dos trabalhadores.

Todavia, se o aumento de tempo livre pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, paradoxalmente, tem também efeitos preversos: nas escolas o que preocupa os pais e professores é o que fazem os jovens quando não estão nas aulas!

Paralelamente, face à conjugação de vários factores, o número de reformados tem aumentado relativamente à população activa, assim como existe uma ten-dência para que a reforma seja alcançada mais cedo. Este facto também veio colocar novos problemas! Georges Friedman (1972), na sua obra «O PODER E A SABEDORIA» refere-se aos reformados da seguinte forma: "Os problemas do homem depois do trabalho, são muitas vezes comparáveis aos do homem privado do trabalho" porque "na civilização técnica o emprego, mesmo enfadonho, define o homem, dá-lhe uma razão para ser social". Contudo, actualmente, deixámos de exortar o trabalho como um meio redentor e de aprimoramento do carácter.

Assim, o desporto e as actividades físico-desportivas, entendidas como aquelas que são orientadas para o culto do corpo e da sua funcionalidade, ganharam um lugar de destaque, quer atribuindo-se-lhes algumas virtudes que antes eram atributos do trabalho, quer pelo facto de constituirem uma ocupação capaz de combater comportamentos desviantes.

São estas as principais razões que levam todas as instituições, Escolas, Clubes, Municípios, etc., a investirem no desporto e em outras actividades de lazer, mobilizando milhares de cidadãos e contribuindo para que estas actividades tenham passado de um período onde tinham pouca expressão como actividade organizada, para um período em que passaram a ser consideradas com um serviço social de oferta obrigatória.

Neste quadro, não é de estranhar que a Marinha tenha sido permeável à influência da sociedade, nomeadamente através dos que nela cumpriram o Serviço Militar Obrigatório, e apoiasse a actividade física utilizando-a, não só como um meio de preparação militar, mas também como de inserção cultural dos militares e seus familiares.

Assim, o CEFA pela sua acção ao longo da estruturação da Educação Física na Marinha foi uma referência obrigatória, particularmente por dois motivos:

O primeiro teve a ver com a formação de Monitores que ministravam as aulas de Educação Física nas diferentes Unidades onde estavam colocados. Estes Monitores eram sujeitos a uma formação de um ano lectivo, estando creditados por algumas Federações, através dum protocolo, como agentes de ensino desportivo. Tinham sido realizados até então trinta e cinco Cursos, tendo sido alguns deles frequentados por Oficiais, Sargentos e Praças da Marinha, Força Aérea e Polícia de Segurança Pública.Também a Guarda Fiscal e a Guarda Nacional Republicana que enviaram elementos seus para frequentarem aquele Curso.

O segundo diz respeito à dinamização, organização e apoio a diferentes actividades, quer para os militares, quer para os seus familiares. Hoje em dia, apesar de haver sinais de alguma incompreensão e falta de sensibilidade para a importância da Educação Física como contributo para a saúde e bem-estar das populações, ela está estruturada de maneira a possibilitar a sua prática por toda a população militar.

Existem mais testes para avaliar a condição física como meio de garantir a operacionalidade do pessoal, mas também de estimular a sua participação nas actividades. Uma outra preocupação era garantir a todos um conjunto de competências no meio aquático, estes usualmente designadas com «saber nadar», através da despistagem dos que estão inadaptados e conduzindo-os à frequência de um «curso de adaptação ao meio aquático», com uma duração de vinte e quatro aulas. Existia ainda outro curso, com doze aulas, para os que estavam insuficientemente adaptados.

A avaliação do «saber nadar» era realizada através dum conjunto de «níveis de adaptação ao meio aquático», possibilitando determinar como e quanto cada um «sabia nadar». Estas e outras medidas contribuiram para que as actividades físicas conquistassem no dia-a-dia expressão como prática assumida com reflexos na saúde e bem-estar e constituam uma cultura específica, que usualmente se denominava como cultura física, com inegáveis repercussões sociais.

Como nota final, é oportuno salientar que as instituições reflectiam a obra daqueles que nelas trabalhavam e anteriormente tinham trabalhado. Num momento em que as Forças Armadas estavam sujeitas a uma redução do serviço militar obrigatório, este pequeno artigo de opinião deve ser entendido como um meio de lembrar os benefícios alcançados pela abertura e permeabilidade a valores sociais transpostos para dentro da instituição militar, sem a desvirtuar, mas antes enriquecendo-a, através do contributo de elementos que a integraram num determinado período da sua vida.

Com certeza que outros grupos profissionais deixaram a sua marca nesta instituição que a todos nós marcou.


Manuel Cantarino de Carvalho
9º CFORN


Fontes:
Revista n.º 3 da AORN-Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Ano II, Janeiro/Março 1997; foto de «Faculdade de Motricidade Humana»;

mls

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