29 junho 2017

... ao saudoso Antas de Barros do 22º CFORN


Gabriel Caldas de Antas de Barros
(1951-2002)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 11 de Novembro de 2009)


... ao saudoso Antas de Barros

O Gabriel era um rapaz “sui generis”!

Penso que exercia a profissão de advogado na cidade de Braga, capital da província setentrional que foi berço da sua existência.

O Gabriel, tal como eu, integrou o 22º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, na classe de Fuzileiros.

Um dia, no alvor de uma fria manhã de Fevereiro do já longínquo ano de 1974, embarcámos, nove, para juntos cumprirmos comissão de serviço na então Província Portuguesa da Guiné.

Era um rapaz aprumado, aquele quarto oficial do DFE5-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 5!

Cioso das suas origens minhotas e orgulhoso por envergar a farda da Marinha, recordo, não raras vezes, vê-lo colocar, com inigualável altivez, a boina azul ferrête com o ferro doirado da Marinha, com que, naqueles tempos, eram distinguidos os melhores entre os melhores.




Gabriel Antas de Barros, à esquerda, e José Carrajola Horta, à direita,
dando as boas vindas a um novo “Pira di Marinha”, José Ribeiro Andrade, ao centro


Admirava-lhe o esmero, a fidalguia, o espírito indomável, a generosidade, e a enorme voluntariedade e prontidão para toda e qualquer missão, “por rios e tarrafos”, de que se havia com tranquila eficácia e rigoroso zelo.

Auscultava nele o sonho, grandioso, de servir a sua Pátria, acima de tudo, contra ventos e marés, com honra, valentia e inestimável dignidade...

Era exemplar no brio e na tradição!

Corriam, então, os anos meãos das sua efémera passagem por este destino terreno que, precocemente, interrompeu. A notícia chegou brutal, inexorável, há alguns precisos meses!...

Uma curva da estrada atirou a moto que conduzia para um destino sem retorno. Ele, não tenho dúvida, seguiu o seu caminho que leva a uma nova luz.

E lá, no reino dos Justos, reservado terá o lugar de todos aqueles que têm um coração universal, do tamanho desse Mar sem fim, que cruzámos, e que tanto deram na Terra!

Apesar de tardia, "mea culpa", esta humilde homenagem ao amigo que dava pelo nome de Gabriel Caldas de Antas de Barros, não pode deixar de ser feita! Fomos, afinal, camaradas de armas e companheiros de missão.

Que Deus o receba na Luz da Sua infinita glória!


José Manuel Carrajola Horta
22º CFORN


mls

16 junho 2017

Histórias do DFE 13 (IV) - Angola, 1965-1967


Angola-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 13

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Janeiro de 2010)




Vasco Quevedo Pessanha-7.º CEORN


Como dizia no artigo anterior, o meu grupo de combate, entre Agosto e Outubro de 1966, esteve no posto do Tridente, no Rio Zaire, junto de Noqui.




A foz do rio Zaire com um pormenor da zona da vila de Noqui, mais a montante, assinalado.

A vida era pacata e tranquila e no nosso esquema de rotatividade sabíamos de antemão, de forma muito aproximada, o tempo que iríamos passar em cada um dos postos. Essa situação não era proporcionadora das neuras que assaltavam os nossos colegas de Noqui, como contei da última vez.

Contudo, o cumprimento da nossa missão nos diferentes postos do Zaire, também já descrita no artigo anterior, deixava­nos muito tempo livre que se tornava necessário ocupar. A localização de Tridente não facilitava a existência de um terreiro para jogar à bola estando assim posta de parte uma possível ocupação dos tempos livres da guarnição, que eram muitos.




Em cima, o Posto do Tridente e, em baixo o Posto da Pedra do Feitiço, no rio Zaire, ambos junto à foz.



Entre aulas do segundo ano do Liceu que dava a grumetes e marinheiros, tal como os camaradas que nos precederam e os que nos sucederam, fizémos muitas obras, plantámos bananeiras, hortas; a conservação e reparação dos motores e botes, patrulhas no rio, patrulhas terrestres, escalas de serviços e caçadas nocturnas aos jacarés iam tomando conta do tempo.

Pessoalmente, nos diversos postos do Zaire onde estive, li imenso, tanto livros como revistas e jornais que tinha assinado. Através do Monde ia seguindo a guerra no Vietname e realizava a sorte que muitos de nós em Angola tínhamos por não estarmos num teatro de guerra como aquele.

Mas, aqui vai a segunda história curiosa passada no Tridente e em Noqui.

Como referi, Noqui estava na linha de fronteira com o Congo e, como tal, além da guarnição militar e de um administrador havia as autoridades fronteiriças e um posto da PIDE.

Em Angola, os Pides não andavam de chapéu e gabardina, com golas levantadas, como no “Puto”, e aparentavam serem pacatos civis frequentemente confundíveis com qualquer comerciante ou cantineiro. Uma das áreas em que eles eram peritos era a gestão (como dizemos hoje!) da informação.

A sua rede de informadores, de ambos os lados da fronteira, permitia terem uma noção bastante razoável do que se passava do lado do inimigo (IN), dos seus movimentos, iniciativas, problemas, dificuldades, etc. Mas a obtenção da informação não se fazia só com chá e simpatia ou a troco de uns cobres. Fazia­se também por troca de informações. Passava-­se para o lado de lá aquilo que se achava ser pouco importante ou não reservado, na expectativa de receber em troca algo de mais sério e substancial.




O Posto da Quissanga.

Com todo esse contacto acabava por se criar um certo à vontade, quase que alguma intimidade. Os turras do lado de lá conheciam bem a nossa PIDE e eles conheciam também razoavelmente alguns deles. Enfim, todos sabemos que a vida é feita de compromissos e importa que o resultado seja positivo.

Um dia, numa das tardes que fui a Noqui beber uma cerveja com os camaradas do Exército, o médico da companhia, o "Doc" não apareceu. Estava a dormir. A dormir às quatro horas da tarde? Sim, estava a dormir e não podia ser acordado. Tinha vivido uma aventura espantosa que terminara nessa manhã e estava a recarregar as baterias.

Dias antes, a altas horas da noite, vindo do Congo, tinham­-se apresentado no posto fronteiriço de Noqui dois carros civis com negros, alguns deles armados. Queriam falar com o nosso Pide com urgência. Tinha acontecido uma desgraça e só ele poderia, eventualmente, ajudar a resolvê-­la.

Que se tinha passado?

Nesse dia, algures longe e a leste de Noqui,os turras da FNLA tinham caído numa emboscada montada pela nossa tropa (mas não a de Noqui) junto à nossa fronteira com o Congo. Tinham sofrido umas baixas, mas o pior era que, na patrulha da FNLA que tinha sofrido a emboscada, tinha sido gravemente ferido o segundo comandante da base de Kinkusu. Ora a base de Kinkusu, para quem não sabe ou já não se lembra, era um dos principais, se não o principal campo militar da FNLA no Congo e servia de apoio logístico aos grupos de guerrilheiros da FNLA que actuavam no Norte de Angola. Obviamente, a base era por sua vez apoiada pelo estado congolês.

Ora acontecia que, o segundo comandante da base tinha sido gravemente ferido pelos portugueses, encontrava-­se em estado grave e recusava­-se peremptoriamente quer a ser evacuado para qualquer hospital de Leopoldeville (depois Kinchasa), quer a ser assistido por médicos da FNLA ou congolenses. Só admitia ser tratado por médico português e por nenhum outro. Os colegas dele que se desenrascassem e descobrissem um português que fosse lá tratar dele.

Assim, na fronteira de Noqui, depois de várias horas de viagem em picada, lá estavam os negros da base de Kinkusu a pedir ao nosso Pide que mandasse o "Doc" da companhia de Noqui com eles, de regresso a Kinkusu, para safar o segundo comandante deles que tinha sido ferido por um dos nossos!




Estação radionaval de Sto. António do Zaire.

Depois de muitas súplicas e muita conversa, o nosso Pide fala com o comandante da companhia que, depois de ponderar a situação, decide acordar o "Doc" e pôr­-lhe o problema: Estaria ele disposto a ir, não se sabia muito bem onde, tentar safar um principal do IN que tinha sido ferido por comandos nossos?

As condições eram mais que precárias: garantias de regresso e segurança eram zero. Mas, se o homem fosse safo, talvez tudo naquela região pudesse vir a melhorar. Estaria ele disposto a correr o risco? O "Doc" acabou por aceitar o desafio. Arranjou a trouxa, preparou os seus instrumentos e mezinhas e lá partiu, sozinho, sem escolta nem viaturas, com aquela turma semi­-turra e semi-­civil para destino desconhecido.

Depois de algumas horas de saltos e safanões lá chegou a Kinkusu. A base militar era grande, razoavelmente organizada e guarnecida, e lá lhe puseram o segundo comandante nas mãos. Com todas as dificuldades que são fáceis de imaginar, o "Doc" conseguiu extrair-­lhe a bala que estava alojada já não me lembro onde. Tratou o turra e quando estava já relativamente fora de perigo, ao fim de alguns dias, trouxeram­-no de volta a Noqui.

Tinha chegado nessa manhã, depois de alguns dias e noites de vigília ao segundo comandante de Kinkusu, completamente exausto e, nessa tarde, estava naturalmente a refazer-­se de tudo: do susto, da emoção, do risco que tinha corrido e do cansaço físico e psicológico.

Tinha sido tratado nas palminhas, com considerações e mordomias durante os dias e noites que tinha durado aquela aventura. Não o tornei a ver pois, passados poucos dias, o meu grupo de combate largava o Tridente. Também fiquei sem saber como evoluiu a acção militar naquela terra depois deste incidente. Mas certamente para o turra que tinha sido baleado e, para o "Doc" português que o tinha tratado e salvo nas circunstâncias que relatei, muito de importante se tinha passado.

Este caso que descrevi não é único. O que de único tem para mim, é ter-­se passado perto e nas minhas barbas. Episódios bizarros deste género passaram-­se em Angola repetidamente. Seriam eles o reflexo deste nosso porreirismo nacional também já assimilado pelos nossos negros de Angola ou será que é normal e corrente as guerras fazerem-­se assim?


Vasco Quevedo Pessanha
FZE - 7º CEORN


Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 10 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Out 1999; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

mls



08 junho 2017

Histórias do DFE 13 (III) - Angola, 1965-1967


Angola-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 13

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Dezembro de 2009)




Vasco Quevedo Pessanha-7.º CEORN


Entre Agosto e Outubro de 1966 estou no posto do Tridente com o meu grupo de combate. O Tridente era o posto de fuzileiros mais a montante no rio Zaire e ficava relativamente perto de Noqui, junto à confluência do rio Lué Pequeno, afluente do Zaire.




A foz do rio Zaire com a vila de Noqui assinalada.

Cerca de 15 minutos de bote e bebia­-se uma cerveja fresca com os camaradas do Exército que ali estavam estacionados. Noqui fica a este do Tridente, numa curva do rio Zaire (que naquele ponto tem uma largura aproximadamente igual à do rio Tejo entre Belém e a Trafaria) na base de uma grande barroca. No cimo da barroca e a cerca de 10 quilómetros para o interior, ficava uma pista de terra batida, de que se serviam pequenos aviões militares que asseguravam ligações regulares com o Negage e Luanda.

A fronteira terrestre de Angola com o Congo era muito próxima de Noqui e, pelo rio Zaire, passavam diariamente vários cargueiros de 20.000 toneladas, e mais, que se dirigiam ao porto de Matadi, já na Républica do Congo.




...pelo rio Zaire passavam diariamente vários cargueiros de 20.000 toneladas, e até mais...

A nossa missão tinha um duplo objectivo: por um lado impedir a infiltração do IN, pela via fluvial do Congo para Angola e, por outro, patrulhar intensamente o interior com vista à detecção e eliminação do IN. Os que andavam por lá nesse tempo, eram os FNLA e os MPLA que não necessitavam do rio para nada, pois as ligações deles com o Congo, onde havia bases importantes, fazia­se atravessando pacatamente a fronteira terrestre fora de horas e em locais onde a tropa portuguesa não andava.




Vila de Noqui - Vista do Morro dos Canhões.

Durante todo o tempo que lá estive não tivemos qualquer acção de confrontação com o IN. Patrulhámos muito, nomadizámos muito também e aproveitámos para caçar, mas nunca vimos ninguém. O terreno era dobrado, com capim alto, com várzeas nos vales, arvoredo muito concentrado por manchas e nunca encontrámos povoações ou pessoas.

Aparentemente, dizia-­se, tinham fugido para o Congo nos inícios da guerra, em 61/62. Os horizontes eram largos e imensos e toda a região tinha uma beleza particular. Naquele lugar, aparentemente pacato, convivi de perto com duas situações bem diferentes uma da outra, mas bem reveladoras de aspectos da “nossa” guerra em Angola.

A primeira passou-­se dias antes da minha chegada ao Tridente e dos meus contactos com Noqui. Noqui era um lugar profundamente deprimente, com uma barroca por trás, um rio pela frente e calor, muito calor o tempo todo. Um dos oficiais milicianos da Companhia do Exército que lá estava estacionada, contava os dias que faltavam para terminar a comissão pela contagem dos cigarros que iria ainda fumar até lá.

Para o efeito tinha tracejado numa imensa folha de papel os cigarros que iria fumar até ao fim da comissão, à razão de vinte por dia. Cada noite, antes de se deitar, riscava na parede os cigarros que tinha fumado nesse dia e escrevia os que ainda estavam por fumar. Esta maneira de matar o tempo dá ideia do ambiente que lá se vivia.

Além de uma ou outra patrulha no interior, os jogos de cartas só eram interrompidos pelas viaturas que, duas vezes por semana, iam à pista de aterragem esperar o pequeno avião que trazia correio de Luanda.
Quase tudo o que tenho lido sobre a guerra de África, sobretudo artigos de toda a espécie, fazem gala em contar os horrores permanentes em que os nossos militares viviam.

Acho que nunca vi nada escrito sobre o ócio das guarnições que, na filosofia adoptada de quadrícula, estavam espalhadas por lugares onde pouco ou nada tinham para fazer, além de estarem lá. Noqui era um desses lugares. Não o era por ser terreno completamente seguro, como já verão de seguida, mas sim por que o IN e a tropa tinham o cuidado de se evitarem mutuamente e ninguém tomava grandes iniciativas.




Fuzileiros em acção.

Nestas circunstâncias, era normalmente muito difícil manter um rigor mínimo de horários, fardamentos, actividades, higiene e, sobretudo, de disciplina e prontidão militar. Quando a tudo isto se juntava um clima depressivo e neurótico dos oficiais, a situação descambava numa bandalheira por vezes aviltante, grosseira e, sobretudo, perigosa.

Porque afinal, apesar da relativa pacatez do local ele não era propriamente uma colónia de férias forçadas, e o IN, apesar de invisível, andava por lá. A bandalheira de Noqui teve consequências trágicas. No início o grupo que ia esperar o avião do correio era composto por uma GMC, dois Unimogs e dois ou três jeeps. O pessoal ainda tinha medo, ia fardado, armado e municiado.

O esquema de segurança era bem montado, alguém levava a “bazooka”, outro a MG 42 e, com toda a parafernália, lá faziam os dez ou quinze quilómetros em picada, no meio do capim, até à pista onde o avião aterrava em segurança, largava e levava o correio, doentes, homens que iam de férias, outros que voltavam, etc.

Duas vezes por semana, meses a fio. Patrulhas rotineiras, muita cerveja, bisca lambida, sueca e uma grande neura ocupavam o resto do tempo.
A pouco e pouco foi-­se facilitando. A GMC já não era precisa. Um dos Unimogs também não. O terreno é conhecido, é tudo boa gente, não se passa nada.

A coluna, inicialmente com quarenta homens, vai-­se reduzindo. Não vale a pena ir tanta gente. E para quê a “bazooka”? E a MG 42, que é pesadíssima? E a farda, que é quente e as munições que são desnecessárias? Se aparecer uma pacaça meia dúzia de tiros resolvem o problema e sempre se traz carne fresca.

No climax da bandalheira já só vai uma Mercedes com meia dúzia de homens em t­shirts, calções, descalços e uma ou duas G3. Os que vão são os que têm mais pressa em ler o correio deles. O cozinheiro também vai. E, por graça, porque não leva ele a “bazooka” desta vez? Vamos embora que se faz tarde e o avião está aí a chegar. O avião chega. Deixa umas cartas e leva outras. Bebem­-se umas cervejas juntos, dão-­se uns abraços e daqui a três dias cá estaremos todos outra vez. O avião parte e aquela tropa fandanga regressa a Noqui.




Fronteira Noqui-Matadi.

Só que desta vez o IN está no percurso. Teve meses para observar e estudar a evolução do comportamento daqueles homens, a bandalheira progressiva que se instalou naquela unidade e a total falta de segurança com que se movimentavam. E então dá-­se a emboscada. Bem planeada, cuidadosamente preparada, rigorosamente executada.

Dos 12 homens morreram 11, incluindo o cozinheiro da “bazooka”. O que se salvou, escondeu-­se no capim durante horas, antes de poder ir levar a triste notícia ao quartel de Noqui.

Esta história acabou como os tais relatos e artigos de que atrás falava, mas por exclusiva responsabilidade dos seus protagonistas e, especialmente, dos oficiais cujo comportamento irresponsável conduziu a que aquela simples rotina terminasse em mortes desnecessárias e inúteis.

Em várias circunstâncias que acompanhei de perto, as tragédias eram muitas vezes resultado da ligeireza e inconsciência com que algumas unidades se comportavam. Fazem lembrar um pouco aqueles suicidas das motos que gostam de andar na contramão na Estrada Marginal e, quando as coisas correm mal, se queixam­ de tudo menos deles próprios.

A outra história de Noqui ficará para uma próxima vez.


Vasco Quevedo Pessanha
FZE - 7º CEORN


Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 9 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Jan/Mar 1999; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

mls

02 junho 2017

Angola, 2 de Junho 1973 - A Morte na Picada do Chilombo para Lumbala


Uma coluna auto, do Destacamento de Marinha do Zambeze, emboscada na picada de Chilombo para Lumbala.

Resultado: 4 mortos e 1 ferido grave.


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 26 de Novembro de 2009)




Em cima, vista aérea do aquartelamento do Chilombo, junto ao rio Zambeze e, em baixo, a perspectiva do aquartelamento, da margem oposta do rio




Em 2 de Junho de 1973, após a formatura de serviço, foram preparadas duas viaturas, uma Mercedes e um Unimog, para seguir para a Lumbala, com uma escolta de uma secção comandada por um sargento.




Em cima, um posto de observação guarnecido com metralhadora Oerlinkon, de 20 mm e,
em baixo, podem observar-se os tejadilhos das cabines das viaturas Mercedes retirados,
para minorar o efeito das minas.




Não tendo aquele percurso sido sujeito a qualquer emboscada inimiga desde o início da comissão da unidade, na escolta das colunas, era mantido o efectivo de uma secção com LGF e MG-42.

A regularidade da coluna tinha por objectivo levar e trazer o correio, de e para a unidade, aproveitando para o efeito um táxi aéreo fretado pela JATA que, todos os Sábados, escalava Lumbala.



Em cima, a Picada do Chilombo para Lumbala e, em baixo, a LDP 208 varada na margem do rio, junto ao aquartelamento, durante a estação seca. A lancha era utilizada para a realização de operações e reabastecimento logístico.



Em serviço, seguia também na viatura o STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira e era acompanhado pelo Sr. Medeiros, instrutor da Auto-Eunice do Luso que necessitava levar documentação para seguir para o Luso, referente aos elementos da unidade que pretendiam tirar as cartas de condução.

Como habitualmente, seguia também na coluna um moço de botica, com bolsa de primeiros socorros e um operador com um rádio RACCAL TR-28A, tendo a coluna deixado a unidade às 07:55.

A cerca de oito quilómetros e meio do aquartelamento, o Unimog imobilizou-se, devido a um furo. A viatura da frente, a Mercedes, devido à nuvem de poeira levantada pelos rodados, não se apercebeu do facto, tendo continuado isolada e, cerca de quilómetro a quilómetro e meio à frente, caiu numa emboscada.

Tinham decorrido escassos minutos desde imobilização do Unimog, e ainda o condutor tentava mudar o pneu quando, mais adiante, se ouviram rebentamentos e tiros. O sargento que seguia nesta viatura e que transportava consigo o rádio, contactou imediatamente o Chilombo, informando do sucedido enquanto eram feitos todos os esforços para concluir a mudança da roda e seguirem em socorro do pessoal da Mercedes.

A distância entre as viaturas, a ser percorrida a pé, ocasionaria grande demora e, por outro lado, deficiências no equipamento de elevação do Unimog, associado a grande nervosismo, não permitiu concluir nos minutos seguintes a operação com sucesso, enquanto passavam pelo veículo imobilizado os primeiros reforços, a caminho do local provável do ataque.

Esta coluna de reforço, integrando duas outras viaturas, comandada por um oficial, foi mandada sair cerca das 08:10, depois de serem ouvidos, para sul do aquartelamento, rebentamentos e disparos de armas com grande intensidade.

Mais tarde, colhidas informações dos sobreviventes da Mercedes atacada, foi possível reconstituir, aproximadamente, os acontecimentos ocorridos, entre a hora de saída do aquartelamento e a altura da emboscada e que a seguir se reproduzem.

Num local habilmente escolhido pelo inimigo, foram abertos abrigos em meia-lua dos dois lados da picada. Por detrás deles, uma extensa floresta possibilitava uma retirada segura e, à frente, uma enorme “chana” dificultava o abrigo do pessoal das viaturas.

As bermas da picada, na “zona da morte” foram armadilhadas com cargas de trotil – foram retirados 23 kgs. – a serem accionadas por detonadores eléctricos. Por motivos que se desconhecem, provavelmente retirada precipitada, os detonadores não foram accionados à distância, evitando uma verdadeira chacina.




Cabina da viatura emboscada, sendo visíveis os efeitos dos impates dos tiros e, do lado esquerdo, os danos provocados pelo armamento inimigo.

A viatura Mercedes, ao abrandar numa cova do piso, foi simultaneamente atingida na cabine e no motor, com uma munição de morteiro 60 mm e um projéctil de LGF de 37 mm. Logo nessa altura, previsivelmente, os três ocupantes da cabine, os STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, Mar FZE 771/68 António Cardoso Saraiva e o Sr. Medeiros, terão sido mortalmente atingidos, uma vez que a cabina e toda a parte dianteira da viatura se reduziram a uma amálgama de ferros torcidos e chapas esventradas.

Os três elementos que seguiam na caixa, os Mar FZE 717/70 João Gonçalves Nunes Pereira, Mar FZE 1214/70 Henrique Manuel Pais Fernandes e o Mar FZE 451/70 Rogério Fernandes Martins, logo que a viatura foi atingida e resvalou para a berma direita, tentaram saltar para esse mesmo lado.

O Mar FZE 717/70 João Pereira foi mortalmente atingido na cabeça, tendo ficado prostrado, agonizante, junto à viatura. O Mar 1214/70 Henrique Fernandes, que transportava a MG-42, foi ferido numa perna e o Mar FZE FZE 451/70 Rogério Martins saltou da viatura e abrigou-se na berma. Narra este último que, ao saltar para o solo, as explosões de morteiro e LGF eram contínuas, intervaladas com rajadas de metralhadoras. Tentou aproximar-se do camarada Mar FZE 717/70 João Pereira que ainda dava alguns sinais de vida mas expirou pouco depois.

Narrou ainda que, em seguida, se aproximou do outro camarada ferido, o Mar FZE 1214/70 Henrique Fernandes, que sangrava abundantemente duma perna e já tinha largado a MG-42. Não vendo quaisquer sinais de vida no local e continuando o fogo cerrado do inimigo decidiu transportá-lo e afastou-se, ladeando sempre a berma da picada, a única vereda onde existia ainda capim alto permitindo uma razoável camuflagem.

Distanciaram-se assim do local da emboscada, na direcção do Chilombo, mostrando já o Mar FZE Henrique Fernandes grande dificuldade em andar. Atravessaram um rio e já no meio dos caniçais o Mar FZE Rogério Martins efectuou um garrote na perna do camarada ferido. Alcançaram entretanto a picada, na altura em que chegavam os primeiros socorros.

Referiu o oficial que seguia na viatura da frente da coluna de reforço e alcançou primeiro a Mercedes alvejada que o IN já tinha abandonado o local quando lá chegaram. Ordenou que um grupo seguisse no encalço dos atacantes, enquanto outro prestava os primeiros socorros e montava segurança no local.

O Mar FZE 717/70 João Pereira encontrava-se morto junto à Mercedes. O STEN FZ RN António Piteira e o condutor da viatura, Mar FZE 771/68 António Saraiva foram encontrados na “chana” a cerca de 50 metros do local. O Sr. Medeiros foi também encontrado perto da viatura. Os três militares encontravam-se sem fardamento, equipamento ou objectos pessoais e também não foram encontradas as armas, uma MG-42 e quatro G3’s.

Inicialmente, apenas foram mencionadas três armas G3’s. Só mais tarde se confirmou que, consequência de uma troca de última hora de condutores, a precipitação fez com que o primeiro deixasse ficar a arma na cabina tendo o condutor que substituiu levado também a sua arma pessoal.

O grupo que efectuou a perseguição encontrou três trilhos iniciais, muitas grades de cerveja espalhadas que, originalmente, tinham sido carregadas na Mercedes, no Chilombo e, bastante para o interior, na mata, garrafas vazias e dispersão de trilhos no sentido geral S/SE. Considerado inútil manter a perseguição nestas condições o grupo regressou, tendo nomadizado a área até cerca das 11:00, hora a que os fuzileiros foram rendidos no local por militares do Exército de Lumbala.

Os corpos das vítimas foram retirados para o Chilombo, onde ficaram em câmara ardente durante duas noites, até 4 de Junho, com guarda de honra. Na manhã desse dia, pelo capelão do BCAÇ 3847, foi celebrada missa de corpo presente já com as urnas fechadas e, ainda durante a manhã, seguiram em coluna auto para o Cazombo.




Porta de Armas do aquartelamento do Chilombo.

À saída do aquartelamento, foram prestadas honras militares por toda a guarnição da unidade, profundamente abalada com o sucedido, numa última homenagem aos camaradas falecidos e que, de maneira tão trágica, perderam a vida ao serviço da Marinha e da Pátria. A morte daqueles camaradas e a conivência da população, deixaram marcas profundas que dificilmente se apagarão da memória de quantos ali viveram ou prestaram serviço.

Mortos em combate:

– STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, CF 1, do 18.º CFORN
– Mar FZE 771/68 António Cardoso Saraiva, DFE 10
– Mar FZE 717/70 João Gonçalves Nunes Pereira, DFE 10

Ferido em combate:

– Mar FZE 1214/70 Henrique Manuel Pais Fernandes, DFE 10


O tipo de acção havida, a sua cuidadosa bem como pormenorizada montagem e a suspeita envolvência da população suscitou dúvidas, com alguns considerandos pertinentes:

• Facto inédito a assinalar naquela manhã foi o não aparecimento de qualquer elemento da população a pedir boleia para a Lumbala.

• Ainda mais significativo e denunciador de que a população do Chilombo estaria a par da presença de elementos inimigos nas proximidades, ou talvez até da própria acção – atitude pouco consentânea com o comportamento habitual do MPLA - foi a circunstância de, logo pela manhã, não ter aparecido nenhuma criança para vir buscar pequeno-almoço, nem quaisquer elementos da população para jogarem no campo de futebol de salão o que, invariavelmente, acontecia todas as manhãs.

• Acresce ainda que, a população do Chilombo, ao amanhecer desse dia e antes da acção, não saíu do “Kimbo”, provavelmente antevendo prováveis represálias que receavam seguirem-se à emboscada inimiga. Esta atitude da população reflectia, inequivocamente, um estado de comprometimento para não dizer de conivência.

• A montagem do minucioso dispositivo da emboscada foi certamente iniciada na véspera, o que fez estranhar a passagem, sem incidentes e na tarde do dia anterior, no percurso Lumbala-Chilombo, de uma viatura Land-Rover, transportando o Administrador da Lumbala, sem qualquer escolta. Também no percurso Lumbala-Chilombo, passou um veículo de carga civil na noite anterior e outro na própria manhã da emboscada, com saída da Lumbala, pelas 07:00.


Fontes:
Relatório do Comandante do Destacamento de Marinha do Zambeze, 1TEN FZ Pedro Baptista Coelho; colaboração do CMG José António Ruivo - 21.º CFORN; fotos de arquivo pessoal do autor do blogue;

Dicionário:
CF - Companhia de Fuzileiros; DFE - Destacamento de Fuzileiros Especiais; LGF - Lança-Granadas Foguete; IN - inimigo; "Kimbo" - aldeamento nativo; "chana" - planície, equivalente a "chão"


mls

01 junho 2017

Reserva Naval - Morto em Combate a 2 de Junho de 1973


António Bernardino Apolónio Piteira
(1947-1973)


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Dezembro de 2009)





Foi o único Oficial da Marinha de Guerra Portuguesa - Reserva Naval, morto em combate no período em que decorreu a Guerra do Ultramar nos três teatros de África, em Angola, Moçambique ou Guiné.

Recordado por quantos com ele iniciaram a caminhada na Armada, em 18 de Fevereiro de 1971, António Piteira integrou a Classe de Fuzileiros do 18.º CFORN.

A circunstância de ter sido acontecimento único na História da Reserva Naval, seria motivo suficiente para invocar a memória desse triste facto, mas a personalidade invulgarmente simples e simpática de António Piteira, agigantava-se pela desinteressada camaradagem e amizade manifestadas em permanente alegria de viver, marcando profundamente quem o conheceu ou com ele privou de perto.

Natural da freguesia da Quinta do Jogo, do concelho de Arraiolos, onde nasceu em 11 de Outubro de 1947, era filho de Balbina Rita Apolónio e de Augusto da Silva Piteira.

Deu os primeiros passos, no ensino, nas Escolas da região e por aí se manteve até ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

A entrada na Escola Naval interrompeu-lhe a vida académica, iniciando-o numa nova fase a que se entregou com contagiante entusiasmo, marcando camaradas e guindando-se a figura de relevo na Amizade, a mais nobre virtude da vida.

Promovido a Aspirante FZ RN em 13 de Outubro de 1971, frequentou o curso de Fuzileiro e foi destacado para Angola, onde chegou a 18 de Setembro do ano seguinte, com o posto de STEN, assumindo o comando do 3.º Pelotão da Companhia N.º 1 de Fuzileiros.

No dia 2 de Junho de 1973, pelas oito horas da manhã, integrado numa coluna de viaturas do Destacamento do Zambeze, em missão de serviço à Lumbala, foi alvo de uma emboscada inimiga. Dessa emboscada, ocorrida na Picada entre Lumbala e Chilombo, a cerca de dez quilómetros desta última localidade, resultou a morte de António Piteira.




O Destacamento do Zambeze e a picada de Lumbala para o Chilombo



Na passagem do 30º aniversário da sua morte em 2003, a simplicidade das palavras de Adelino Couto Rodrigues da Silva, camarada de curso e também fuzileiro, foi elucidativa:

“...Recordo-o com eterna saudade e grande emoção. Afirmo ter sido um privilégio conhecê-lo e usufruir da oportunidade de com ele privar e dele me ter tornado amigo. Tinha grande vontade de viver e o destino pregou-lhe uma partida.
Este mundo louco tem destas coisas.
Até sempre, camarada amigo. Um dia vamos encontrar-nos e retomar as nossas conversas, estupidamente interrompidas...”


António Piteira, ainda hoje mantém entre amigos a camaradas um sentimento de tristeza e perda que perdura depois de decorrido tão longo período, ficando indefectivelmente ligado à História da Reserva Naval e da Marinha como mais uma jovem vida ceifada numa guerra que não olhou a quem arrebatou ao nosso convívio.




Também na «Sala Reserva Naval da Escola Naval», a memória de António Piteira está nobremente representada e, anualmente, é atribuído um Prémio com o seu nome, ao Cadete que, de entre os seus pares, por votação secreta e universal de todos os alunos daquela Instituição manifestar, ao longo de quatro anos e de forma mais significativa, as virtudes que se reconheciam ao homenageado – Altruísmo, Camaradagem, Generosidade, Solidariedade e Simpatia.


Fontes:
Texto e imagens de Manuel Lema Santos, 1TEN RN (lic), 8º CEORN;

mls

29 maio 2017

Histórias do DFE 13 (II) - Angola, 1965-1967


Angola-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 13

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Dezembro de 2009)




Vasco Quevedo Pessanha-7.º CEORN


Embarquei no Vera Cruz com o DFE 13 no dia 15 de Outubro, rumo a Luanda, onde chegámos 10 ou 15 dias depois.

Durante a viagem o comandante do Destacamento - Pestana dos Santos - tinha já desistido de ensinar-me a jogar bridge, no qual ele próprio se aplicava com regularidade com colegas do exército que também iniciaram a sua comissão.

A viagem foi pacata, aprendemos todos a conhecermo-nos melhor (o Pestana, o Lupi e eu) e comecei a conhecer também os homens com quem iria conviver directamente nos próximos dois anos.
Chegados a Luanda ficámos instalados na Base Naval, situada na ilha de Luanda e de certo modo entregues aos cuidados do 1º tenente Melo e Cunha, Comandante do Destacamento que iríamos render e que, durante cerca de um mês, foi o homem responsável por um treino “in loco” da nossa unidade.

O 1º tenente Melo e Cunha pareceu-me, às primeiras impressões um homem saído dos livros que o Jean Larteguy escreveu sobre as guerras da Indochina e Algéria e que eu tinha lido todos: “Os Mercenários”, “Os Centuriões”, “Os Pretorianos”, etc. Alto, seco, atlético, voz rouca, experiência de mato, enfim um especialista da guerra de guerrilha com experiência adquirida e histórias já vividas. Com ele aprendemos umas quantas coisas que nos vieram a ser muito úteis na nossa comissão.

O sistema que o Comando Naval tinha adoptado para utilizar os fuzileiros especiais em Angola era, a meu ver, inteligente. Baseava -se no princípio da rotação permanente dos 3 grupos de combate, de 25 homens cada, em que os DFE’S, para efeitos operacionais, eram divididos.

Em 1965 estava atribuída aos Fuzileiros Especiais a defesa da fronteira fluvial do rio Zaire e parte da fronteira de Cabinda com o ex-Congo-Braza, além da participação em operações especiais, conjuntamente com o exército e os “Paras” na região dos Dembos.

No Zaire havia 5 postos na margem angolana a partir de Santo António do Zaire para montante: Quissama, Pedra do Feitiço, Puelo, Macala e Tridente, este último a uma distância de 15 minutos de bote de Noqui.

Em Cabinda havia um posto numa das extremidades da lagoa do Massabi, instalado numa antiga fazenda da CUF que estava ainda a cargo do Sr. Páscoa que tinha um chimpanzé simpático que dava pelo nome de Benfica.

Já em 1966, com a abertura da frente no Leste de Angola, os fuzileiros passaram a estar em regime de permanência também no rio Lunqué Bungo (200 kms. a SE de Vila Luso) e na Lumbala, na zona sul do Saliente do Cazombo, junto à fronteira com a Zambia.

Mas, como dizia, o princípio da rotação estava em vigor, quer isto dizer que após um período de cerca de 2 meses em que cada grupo de combate do destacamento ocupava um dos postos do Zaire, o destacamento voltava todo a Luanda onde passava a integrar as forças de intervenção que actuavam em operações especiais no Norte de Angola, conjuntamente com os comandos dos outros ramos da FA’s.

Depois de um período de 6 a 8 semanas voltávamos aos postos do Zaire e de Cabinda mas ocupando normalmente postos diferentes daqueles em que já tínhamos estado anteriormente. Mais dois meses e dava-se nova rendição na zona de Dembos.




Os tempos passados no Leste de Angola eram maiores que os períodos do Zaire ou Cabinda mas o princípio da rotação mantinha-se. Este regime de permanente mobilidade, além de permitir a minimização das neuras que afectavam muitíssimo os camaradas do exército, que chegavam a estar 18 a 24 meses no mesmo local, permitia uma actuação diferente, em zonas novas, introduzindo uma parte de novidade e de desconhecido em situações alternadas de dificuldade e perigo com outras de tranquilidade e descontracção, com os evidentes efeitos positivos no clima psicológico de todos os homens do destacamento.

Além disso esta situação permitiu também que viéssemos a conhecer regiões muito diferentes de Angola. Pela minha parte fiquei a conhecer o rio Zaire e as suas margens angolanas palmo a palmo, todo o território de Cabinda, variadissímas zonas do Norte de Angola, onde fizemos inúmeras operações de intervenção a partir de Luanda e ainda cerca de 700 kms do rio Lungué Bungo (afluente do Zambeze) desde a nascente perto da ex-Silva Porto até à fronteira da Zambia, além de toda a região compreendida entre a ex-Vila Luso e Gago Coutinho.

Também fiquei a conhecer uma boa parte do centro, do Sul e da costa entre Lobito e Luanda por ocasião de umas curtas férias que tive antes de regressar à Metrópole. Enfim, para quem sonhava com Angola desde miúdo não fiquei nada mal servido!

Ao que parece este esquema de utilização dos fuzileiros que esteve em vigor em Angola durante uma série de anos, foi alterado a partir de finais de 1967 tendo-se acabado com o tão salutar princípio da rotatividade a favor da presença muito prolongada (12 a 18 meses) nos mesmos locais com resultados que desconheço mas de cuja eficácia me permito ter as maiores dúvidas.

Um excelente sargento do meu destacamento, o sargento Trigo, que comigo estava a fazer a sua 2ª comissão, regressou em 68 ou 69 ao Lungué Bungo, em nova comissão, onde esteve o tempo suficiente para em actividade lateral e de part-time, se ter dedicado à pecuária.

Com efeito à chegada comprou no kimbo local 3 vacas e um boi e quando acabou a comissão, 24 meses depois, tinha já uma dúzia de cabeças de gado que eram pacatamente apascentadas nas chamas e margens do rio e que vendeu às populações locais por uns bons cobres no momento da partida. Julgo que foi com essas economias e outras que, à chegada à Metrópole montou um pequeno supermercado na Cruz de Pau ou por aí perto.

Para o sargento Trigo foi óptimo o fim da rotatividade mas quanto à eficácia da nossa acção militar tenho as mais sérias reservas.

Não sei se é a chamada “Lei de Murphy” que diz que se alguma coisa pode descambar, então descamba com certeza. Não me admira que tivesse sido essa uma das causas.

No período que estive em Angola vi tanto disparate e insensatez na forma como foi conduzida a nossa acção militar que este caso nem merece a pena ser referido.

Julguei que este meu segundo escrito seria para referir já episódios concretos, mas acabei por divagar sobre o enquadramento da nossa actuação.

Veremos o que sai para a próxima vez.


Vasco Quevedo Pessanha
FZE - 7º CEORN


Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 7 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abr/Set 1998; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

mls

23 maio 2017

Histórias do DFE 13 (1) - Angola, 1965-1967


Angola-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 13

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Dezembro de 2009)




Vasco Quevedo Pessanha-7.º CEORN


Entrei em Outubro de 1964 para a Escola Naval, para o 7º CEORN como voluntário na classe de Fuzileiros. Depois da Escola Naval e do curso de fuzileiros navais em Vale de Zebro, integrei o curso de fuzileiros especiais que terminou em finais de Setembro ou início de Outubro de 65.

Desde miúdo e não sei porque razão, sempre tive uma espécie de fascínio por Angola. Eis senão quando, terminado o curso de FZE em Vale de Zebro tomo conhecimento de que estava prestes a embarcar para Angola o Destacamento nº 13 de Fuzileiros Especiais, DFE 13, cujo comandante era o 1º tenente António Pestana dos Santos (do quadro), que eu não conhecia senão de vista, da Escola de Fuzileiros e cujo imediato era o Vasco Lupi do quadro permanente e recém saído, quer da Escola Naval quer da Escola de Fuzileiros.

O “chamado” 3º oficial era o 2º tenente RN Ramos que, depois de dois anos na Escola de Fuzileiros, como instrutor, estava desesperado com a ideia de ir para Angola passar mais outros dois anos. Não foi difícil chegar a acordo com ele sobre a troca (eu iria como voluntário no seu lugar). Mais difícil seria convencer a hierarquia. Rapidamente apresentámos, em conjunto, uma petição ou um requerimento e ficámos à espera. Estávamos nos primeiros dias de Outubro.

O DFE 13 partia para Angola no dia 15 e cada um de nós, por razões diametralmente opostas, estava a ficar nervoso: um com a perspectiva de ir e o outro com a perspectiva de não ir. Por volta do dia 5 de Outubro, estava eu de oficial de serviço na Escola de Fuzileiros quando vem uma chamada para mim: o CEMA, Almirante Reboredo, também conhecido como o “Grande da espingarda” queria falar comigo com urgência. Nervosismo da minha parte, consternação dos colegas.

O que é que eu teria feito para o CEMA me chamar a mim, simples mortal, aspirante, FZE pintado de fresco? Apresentei-me no Terreiro do Paço. Passei à
sala de espera. Finalmente entrei no Gabinete do Almirante Reboredo onde fui submetido a cerrado inquérito e questionário sobre a minha vida pessoal, vida universitária, sobre a Escola Naval, Vale de Zebro, nível de instrução recebida, etc., etc., etc.

– E agora o que queres fazer? Pergunta o Almirante.

– Quero ir para Angola no Destacamento nº13 de Fuzileiros Especiais, respondi eu.

– Mas porquê? Tentei explicar-lhes as minhas razões e o meu interesse por Angola desde puto. – Isso vai ser muito difícil, diz o CEMA. Explico-lhe o meu arranjo com o Ramos. Eu sou voluntário para ir e ele é voluntário para ficar. Porque não? Quem perde com a troca?

– Vamos ver o que se arranja, acaba por fim por me dizer o CEMA. Mas ficas já a saber que não vejo as coisas fáceis. Isto de trocas é complicado e abre precedentes.

Dois ou três dias depois eu era nomeado e o Ramos dispensado. Tudo bem, só que tinha apenas 5 dias pela frente para conhecer melhor o Pestana e o Lupi e preparar tudo o que estava ligado a uma ausência de 1 ou 2 anos. A primeira coisa que o Pestana quis saber foi se eu jogava bridge. Disse-lhe que não sabia jogar bridge. Então o que é que você sabe fazer? Começou assim uma sólida e boa amizade que dura até hoje.

Saímos de Lisboa no Vera Cruz a 15 de Outubro, e assim começou para mim um período que foi extraordinário em todos os aspectos e que acabaria com o regresso ao Puto em Setembro de 1967.




Só anos mais tarde percebi porque fora aceite o meu pedido para integrar o DFE 13 em substituição do Ramos. O velho Almirante Reboredo era um amigo da minha família e tinha recebido 3 “cunhas”. A primeira em 64 para eu ser recusado pela Armada como voluntário para os fuzileiros. A segunda para ser recusado o meu pedido de integração no DFE 13. Ambas estas cunhas tinham sido veículadas pela minha família que via com horror a minha fantasia por este “safari” angolano. A terceira cunha tinha sido minha, era o meu próprio pedido para embarcar para Angola, confirmado directamente ao “Grande da espingarda” na entrevista que tive com ele.

Não sei se a decisão dele foi fácil mas julgo que o fraquinho que tinha como “Pai dos Fuzos” e a minha convicção e argumentação o convenceram. Afinal foi a minha própria cunha que funcionou! Da minha comissão tenho algumas histórias que para contar. Umas com piada, outras com interesse.

Nós, os portugueses, temos pouco o hábito de relatar e escrever aquilo por que passámos e que tantas vezes fazem parte das “pequenas histórias” e que outras tantas também influenciam, por vezes decisivamente, a grande História.

Vou tentar escrever umas coisas sobre o que vi e vivi nesse período em que tive a oportunidade de estar em postos no Zaire, em Cabinda, em algumas guerras na zona dos Dembos e no Leste de Angola, no Rio Lungue Dungo.

A primeira epístola será para o próximo número.


Vasco Quevedo Pessanha
FZE - 7º CEORN


Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 7 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Jan/Mar 1998; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

mls

21 maio 2017

Reserva Naval - Um Juramento de Bandeira...


…não é só uma cerimónia militar!

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 12 de Dezembro de 2009)




Cerimónia militar junto à Porta de Armas da Escola de Fuzileiros


Pela madrugada ou ainda com a noite cerrada, em frente à Escola de Fuzileiros, concentra-se a multidão de familiares que vêm de todo o país, passando toda a noite em viagem, por vezes com grandes dificuldades. Todos eles querem ver o filho, o neto, o sobrinho ou, tão somente, um amigo que vai “jurar bandeira”. Muitos não sabem explicar porquê, mas querem estar presentes num momento que, por qualquer razão, acham que é importante.

À porta da Escola de Fuzileiros, eram ainda nove horas da manhã e faltavam duas horas para a cerimónia. As pessoas esperavam ansiosamente a hora em que poderiam entrar para assistir à festa. A avó, a mãe e a tia vinham de Aveiro e saíram de casa às três da manhã: a avó já tinha assistido ao "juramento" de outros netos mas continuava a querer vir. Não era a curiosidade que a atraía, era o sentimento de que o neto ultrapassava um “marco importante” da sua vida, e ela queria estar lá para vê-lo.




Formatura na Parada da Escola de Fuzileiros

Mães, avós, tias, irmãs, de uma forma geral, encaravam o acontecimento com muito mais gravidade ou solenidade do que os homens. Queriam ver o rapazito que criaram e mimaram, fardado, metido na formatura, com uma espingarda na mão e a dizer: “juro... defender a minha pátria...”. Queriam ver como ele se tinha transformado num homem.

Muito naturalmente que os pais também não são insensíveis a este significado oculto e quase mítico do juramento de bandeira, mas tratava-se da repetição do que eles próprios já tinham feito.O seu prazer era mostrar a naturalidade de quem conhece bem o que se vai passar, de quem já sabe mais qualquer coisa, realçando, por vezes, como esses tempos antigos eram mais duros. Naquele tempo é que era! - uma frase que todos os marinheiros conhecem muito bem.




1973, Escola Naval - Juramento de Bandeira do 21.º CFORN, todas as Classes

Agora, tudo é mais fácil! Inevitavelmente, no meio da multidão, aparecem caras conhecidas. Neste caso era um velho marujo, um Fuzileiro antigo que, para além de acompanhar uns amigos, vinha em peregrinação à Escola que o formou, que o viu partir para África mais do que uma vez e onde deu instrução. Para ele as coisas eram familiares mas, ao mesmo tempo, mais emotivas. Explicou que, no tempo dele - já lá vão umas dezenas de anos - quando foi às “inspecções” em Lamego, todos os jovens queriam ser apurados para a tropa.

Depois dessa primeira “prova” que assumia o carácter de uma escolha, os que ficavam inaptos chegavam a chorar, com o sentimento de que “não serviam”.

Agora, claro, o sentimento prático (ou vertiginoso) do mundo moderno, já não se compadece com estes complexos e a interrupção da corrida para a vida é o aspecto mais importante que os jovens vêem no cumprimento do serviço militar (sobretudo nos grandes núcleos metropolitanos).




1985 - Também na Escola Naval, o Juramento de Bandeira do 46.º CFORN da classe de Marinha

Mas vinham também alguns grupos de jovens, rapazes e raparigas, familiares ou amigos, que queriam estar presentes naquele momento.Tinham curiosidade porque nunca tinham visto uma cerimónia militar, vinham por solidariedade com o amigo que já tinha ido assistir ao “juramento” deles ou estavam à beira de ir cumprir o serviço militar e queriam ter um primeiro contacto com essa vida, para eles um pouco difusa ou misteriosa.

Cerca das nove e trinta, puderam entrar e ocupar o espaço circundante à parada, sem qualquer lugar sentado. Assim estiveram até ao meio dia e trinta, com a mesma satisfação com que entraram, entusiasmados para dizer adeus, bater palmas, piscar o olho, fazer qualquer sinal que mostrasse a sua presença ao militar que desfilava e que, certamente, também já os tinha visto no meio do público.

Dentro de alguns momentos, poderiam abraçar-se, falar, rir, mas aquela proximidade da formatura, que passava junto deles, era a antecâmara desse momento final em que as fardas se misturam com as saias ou blusas e com os fatos. Alguns minutos depois já era possível distinguir os bonés brancos dos jovens recrutas, recém-formados, no meio da massa de pessoas que enchia a Parada e que, a pouco e pouco, se ia encaminhando para a porta de armas.

Concluía-se uma das dimensões fundamentais daquilo que, a nós militares, frequentemente escapa nestas cerimónias: o delírio da festa, o epílogo feito da exteriorização da alegria, o momento em que, finalmente, é possível abraçar o ente querido que protagonizou todo o ritual. A ansiedade da espera à porta, a satisfação de o reconhecer na formatura, a apreensão na solenidade dos momentos mais significativos, o contacto fugaz de uma troca de olhares durante o desfile e, finalmente, o abraço que permite a partilha de todos estes sentimentos vividos, em crescendo, durante a manhã.

Formalmente, o jovem militar tinha assumido um compromisso com a Pátria, jurando defendê-la com o sacrifício da própria vida e simbolicamente, o rapazinho, saído de casa dos pais, era um homem. É uma aparente dualidade que só pode entender-se como tal se não nos lembrarmos do sentido exacto do que é o patriotismo ou se não conseguirmos ver no compromisso formal para com a Pátria, o compromisso com a terra dos pais.




Fuzileiro Uma Vez, Fuzileiro Para Sempre...



É isso que significa efectivamente e é isso que faz com que, dentro da sociedade em que está inserido, o jovem passe a pertencer a um novo grupo. Não é só o aluno recruta que passou a ser um militar pronto, é essencialmente, um novo português, adulto, com responsabilidades assumidas por si próprio. A dimensão das palavras, à custa de serem usadas repetidamente até à exaustão, pode perder-se ou alterar-se.

Neste caso, “jurar bandeira” é, naturalmente, uma cerimónia militar com um significado preciso como são precisos e concisos os significados formais das palavras “pátria” e “patriotismo”. Na sociedade civil, podem ser palavras desgastadas mas não são sentimentos em crise, ou as pessoas simples, os cidadãos comuns de toda a parte do país não teriam este tipo de comportamento, com a naturalidade com que o podemos testemunhar, sempre que ocorre um juramento de bandeira.


Carlos Alberto Pereira Pinto
2TEN FZ RN
1º CFORN FZ, 1989/1990
NII 76789


Nota: O 1º CFORN FZ 1989/1990 foi um Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, da classe de Fuzileiros, realizado na Escola de Fuzileiros. 31 Cadetes foram incorporados em 30 de Agosto de 1989 e promovidos a Aspirante a Oficial em 3 de Fevereiro de 1990.

Fontes:
Pesquisa e compilação de textos do autor; fotos de arquivo da Revista da Armada, Escola de Fuzileiros e autor do blogue; Revista n.º 7 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abr/Set 1998;


mls

20 maio 2017

Junho de 1966 - Navio Hidrográfico «João de Lisboa»


A Reserva Naval no navio hidrográfico «João de Lisboa»

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 15 de Novembro de 2009)


O navio hidrográfico «João de Lisboa», assim classificado em 4 de Março de 1961, foi uma reconversão do antigo aviso de 2ª classe com o mesmo nome.

Serviu na Missão Hidrográfica do Continente e Ilhas Adjacentes e foi abatido ao efectivo dos navios da Armada em 30 de Setembro de 1966.




Numa das muitas missões efectuadas escalou o Funchal e efectuou o registo fotográfico da guarnição, na tradicional foto de família que acima se insere, com a limitação de não poder ser legendada na totalidade pelo desconhecimento da maioria dos elementos que a integravam.





Em cima, da esquerda para a direita: STEN RN João da Rocha Camargo de Sousa Eiró - 6º CEORN, 1TEN Alves Sameiro, 1TEN Jorge Bastos - Oficial Imediato, CTEN Miranda Gomes, CMG Luciano Bastos - Sub-Director do Instituto Hidrográfico e Comodoro Ramalho Rosa - Director do Instituto Hidrográfico.

Em baixo, da esquerda para a direita: CTEN José Emilio Ataíde - Comandante, CTEN AN, n/identificado - Instituto Hidrográfico, 1TEN SG Ribeiro, 2TEN RM Gil Costa, 1TEN Mautempo, STEN MN RN Luciano Ravara - 6º CEORN e Asp RN Pedro José Araújo de Sousa Sousa Ribeiro do 7º CEORN.





Este navio veio a ser rendido, nas missões que desempenhava, pelo navio hidrográfico «Afonso de Albuquerque» que largou de Lisboa em 20 de Junho de 1966 com essa finalidade.


Fontes:
Dicionário de navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; foto e texto cedidos pelo STEN RN Pedro José Araújo de Sousa Ribeiro;


mls

15 maio 2017

Rio Zaire - Meditações Acerca da Pedra do Feitiço


Angola, 1966 - Rio Zaire "Meditações Acerca da Pedra do Feitiço"

(Artigo escrito em 1997)



2TEN FZ RN Paulo Lowndes Marques
8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval



Faz precisamente trinta e um anos que comandei o posto da Pedra do Feitiço, junto ao Rio Zaire. Contemplando o grande rio com a sua força (no tempo das chuvas um bote era levado pela corrente a 3,8 nós) muitas vezes meditei no enorme e épico esforço de Diogo Cão (que lhe chamou Rio Poderoso) e seus homens a subir a pulso este rio, verdadeiramente poderoso, até às cataratas de Ielala, a 81 milhas da foz, bem a montante de Noqui onde, no nosso tempo, o Rio Zaire deixava de ser fronteira internacional e penetrava naquilo que designávamos o Congo-Kinshasa.

Mobutu em 1966 já estava no poder! Mas naquela meditação heroico-épica, e inseridos na experiência militar que vivíamos, instintivamente dávamos como sendo um dado adquirido o facto, algo ilógico, que Portugal estava na Pedra do Feitiço desde o tempo de Diogo Cão! Ora, estudando com mais vagar e maturidade a história da região descobri, para meu grande espanto, que a grande Pedra do Feitiço só foi finalmente e definitivamente ocupada pelos Portugueses em Agosto de 1915, por uma coluna do Tenente Fernandes que ocupou os fortes da margem esquerda do rio.




Foz do rio Zaire

Em Janeiro de 1916, saiu outra coluna de Noqui, batendo centros rebeldes estacionados nesta margem esquerda, por caminhos que, num mapa moderno, não é possível assinalar. É pois extraordinário de reflectir que comandei “a Pedra”, em 1966, esta só se tornara verdadeiramente portuguesa em termos estáveis, militares e portanto 50 anos antes!

Aliás, a Pedra do Feitiço faz parte da grande saga que foi a afirmação territorial e política de Portugal na bacia do Zaire contra as ambições de outros países europeus nos finais do século XIX. É também curioso meditar que, no momento em que escrevo estas linhas, Mobutu acaba de abandonar Kinshasa e o novo chefe Kabila entrou na cidade. E o país que nós, Fuzileiros, contemplávamos do outro lado do rio internacional, jaz despedaçado e destruído, minado por desgoverno e corrupção, onde grassam várias guerras civis e onde novamente se chocam interesses internacionais combatidos “por procuração” por grupos locais.

Em termos de direito internacional, Portugal, só em 1885, assinou em Berlim uma Convenção com a Association Internacional du Congo reconhecendo os direitos das futuras possessões de Leopoldo II da Bélgica. Em termos práticos, Portugal abandonava as suas reclamações à margem direita do Rio Zaire.

Restava um enclave com contornos vagos (só estava delimitado a sul e a leste) que incluía Cabinda e Molambo. É o que hoje se designa por Cabinda e de onde a Cabinda Gulf Oil Company exporta petróleo (sendo as instalações americanas, ironicamente, protegidas até há bem pouco tempo, por cubanos!), é de longe a maior fonte de divisas fortes para o Governo de Luanda. Embora, em 1885 tenha sido assinada uma convenção, muito restava ainda por fazer, no sentido de fazer prevalecer os direitos então aceites.

Com efeito, o chamado “scramble” de África envolvera países como a Alemanha e a Bélgica, que, em termos históricos, pouca ou nenhuma presença em África tinham tido. A comunidade interchuvas nacional, reunida no Congresso de Berlim, aceitara aquilo que denominou de doutrina da ocupação efectiva, contrapondo esta tese aos argumentos históricos, sobretudo de Portugal. Portugal estivera em muitos pontos - Diogo Cão na Pedra do Feitiço, por exemplo - mas pontualmente, esporadicamente.

Era muito difícil para um pequeno país pobre, desorganizado e geralmente envolvido em outros problemas considerados, na altura, bem mais importantes, empenhar-se numa presença efectiva em África. Por vezes construira Fortes mas também muitas vezes, e por diversas razões, os abandonara. Ali jaziam velhas ruínas que atestavam a nossa presença histórica, mas também o nosso abandono. “Os argumentos arqueológicos portugueses” como se referia Lord Salisbury, Primeiro Ministro Britânico.




Patrulha de Fuzileiros na zona de Quissanga

Foi esta nossa incapacidade perante as grandes potências, que culminou no Ultimato de 1890 e na humilhação nacional que esse incidente nos trouxe, e que tão profundamente marcou uma geração e as instituições políticas na altura.

Mas, voltando ao Rio Zaire, em 1879, as margens deste rio eram uma espécie de “no-man’s land” político. Havia presença comercial portuguesa em ambas as margens, quando o português era a língua fraca. Vários portugueses estavam comercialmente estabelecidos em Boma e Banana, por exemplo políticos, que em 1966 eram pequenas cidades congolesas. Muitas vezes, ao Domingo de manhã, aproximávamo-nos de Boma apartir da Pedra do Feitiço, para ver umas escassas europeias a banharem-se no rio. Tais proximidades irritavam as autoridades locais que as consideravam provocatórias. Recordo-me que recebi ordens expressas para não o fazer.

Tendíamos a ser, no fim do século, uma espécie de intermediários entre o subdesenvolvimento africano e a Europa industrial. Contudo, estas feitorias pagavam direitos costumeiros aos chefes locais. Sobretudo na costa norte, vários outros países tinham enclaves comerciais (como os franceses) e cada um arvorava a bandeira que entendia. Ameaçando os nossos direitos, também havia missionários católicos (franceses) e baptistas (ingleses).

A partir de 1880 começa a corrida aos tratados na parte do Baixo Rio Zaire. É assim que o francês Brazza, agindo para a França, assegura com o tratado Makoko, o domínio francês de Pont Noire e o futuro Congo Francês, hoje Congo-Brazzaville, onde nós tínhamos uma forte presença comercial. O tratado causou viva indignação entre nós. Em 1883, a marinha francesa desembarca em Noire onde encontra forte resistência (os Africanos apreciavam-nos mais!).

Em 1884, há uma intervenção por parte de duas canhoneiras nossas na margem norte do Zaire contra os Solangos (perto de Porto de Lenha, entre Boma e Banana) que tinham atacado feitorias portuguesas. Em Fevereiro de 1884, assinou-se um tratado anglo-português, o chamado Tratado do Zaire, que nos permite ocupar as duas margens do rio até Noqui (houvera concessões em Moçambique). Contudo, este Tratado suscitou a oposição de Leopoldo II, de Bismarck e ainda da França. Assim, e sobretudo devido à Alemanha, este tratado é denunciado pela Inglaterra em Junho do mesmo ano.

Recordamos que a presença Belga, na altura, fazia-se através de uma empresa privada cujo proprietário era o Rei Leopoldo II. Só mais tarde (1908) é que a comunidade internacional, movida pelos relatórios de brutalidades para com os nativos, obrigou o estado belga a adquirir a responsabilidade soberana por aquilo que então se passaria a chamar o Congo Belga. Os representantes do Rei Belga tentaram, em 1884, adquirir direitos de soberania sobre Boma.

Ferreira do Amaral, Governador Geral de Angola, envia três navios sob o comando de Brito Capelo. Capelo assina uma convenção com as autoridades gentílicas locais. Nos começos de 1885, concluem-se tratados com os sobas de Banana, Boma e de Santo António do Zaire. Mas foi sol de pouca dura e não houve continuidade de presença militar.




Instalações Navais de Sto António do Zaire

Finalmente reconhecemos o inevitável e um acordo entre Portugal e a Association International du Congo, atrás referida, foi assinado em Berlim, em 14 de Fevereiro de 1885. Portugal renunciava à margem direita do Zaire e Ambriz reconhecidos internacionalmente. Ainda houve problemas com os britânicos em Santo António do Zaire, mas esta fronteira estava consolidada quanto à comunidade internacional. Não o estava quanto às populações locais.

No começo deste século há constantes “guerrazinhas” com os Solangos na margem sul e interior. Assim, há expedições militares repressivas nesta área em 1900, 1901 (houve duas neste ano), 1902, 1908 e 1910.

Em 1913 dá-se uma grande revolta na zona do antigo reino do Congo (S. Salvador) motivada pelos abusos de recrutamento forçado para as roças de São Tomé. Os Solangos, em Outubro desse ano, recusam na Pedra do Feitiço o angariamento e, em Novembro, atacam o posto de Sumba e de Quifuma. Norton de Matos suspende o recrutamento para São Tomé em 1914. Sumba é reocupada nesse mesmo ano, mas pouco tempo depois novamente perdida como foi Quissanga e a Pedra do Feitiço.

Na margem esquerda só Noqui e Mossuco não foram invadidas, pois ali, uma canhoneira bombardeou os insurrectos. A repressão e reocupação processam-se lentamente. Começa em Janeiro de 1915 e só em Agosto é que o Tenente Fernandes reocupa a Pedra do Feitiço. Só em 1916 estava a zona da margem esquerda do Rio Zaire pacificada.

A guerra regressaria em força em 1961, quarenta e cinco anos depois.


Paulo Lowndes Marques
8ª CEORN





8.º CEORN - "In Memoriam" - Paulo Lowndes Marques

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 2 de Janeiro de 2011)




Escola Naval, 20020218 - Paulo Lowndes Marques assina o Livro de Honra
no decorrer de um encontro entre elementos do 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval
a convite do Comando daquela Instituição



Faleceu num Sábado a 1 de Janeiro de 2011, Paulo Henrique Lowndes Marques do 8.º CEORN - Cursos Especial de Oficiais da Reserva Naval.

Ingressou na Escola Naval em 9 de Outubro de 1965 e foi promovido a oficial em 29 de Abril de 1966. Integrado na Companhia de Fuzileiros n.º 10 destacou para Angola onde, durante dois anos, cumpriu diversas missões ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa.

Licenciado em direito, Paulo Lowndes Marques foi, juntamente com Diogo Freitas do Amaral, fundador do CDS e ambos eram amigos próximos de Adelino Amaro da Costa. Paulo Lowndes Marques faleceu aos 69 anos e, segundo Diogo Freitas do Amaral, "morreu de pé", numa referência aos compromissos que cumpriu até ao último momento.

Diogo Freitas do Amaral destaca a grande cultura e conhecimento da história e diplomacia que Paulo Lowndes Marques tinha. «Nunca quis altos cargos partidários», disse, sublinhando que foi «o principal representante» do CDS nas relações internacionais do partido.

Paulo Lowndes Marques foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros num dos governos de Pinto Balsemão quando Vasco Futscher era Ministro dos Negócios Estrangeiros. Enquanto Freitas do Amaral foi presidente da União Europeia das Democracias Cristãs, em Bruxelas, Paulo Lowndes Marques foi secretário geral adjunto, entre 1981 e 1983.

Todos eles foram Oficiais da Reserva Naval da Marinha de Guerra sendo que, enquanto Paulo Lowndes Marques pertenceu ao 8.º CEORN (1965), Diogo Pinto de Freitas do Amaral e Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa pertenceram ambos à classe de Técnicos Especialistas do 11.º CFORN (1967).

Paulo Lowndes Marques morreu vítima de doença prolongada. Em tempo, apresentámos sentidas condolências à família enlutada.

RIP Camarada!


Manuel Lema Santos
8.º CEORN


Fontes:
Texto e fotos do autor do blogue compilados com extractos do jornal «O Público», com a devida vénia; texto do artigo sobre o Zaire de Paulo Lowndes Marques publicado na revista da AORN n.º 4, Ano II, Abril/Junho 1997;


mls

05 maio 2017

Ainda a Reserva Naval na Escola Naval, 1996


26 de Outubro de 1996




Mesa da Assembleia Geral




Rodrigues Maximiano, Presidente da Direcção da AORN, entrega a serigrafia da AORN ao Almirante Comandante da Escola Naval




"...marchando ao som de música para o refeitório"






Andrade Neves do 1º CEORN, Abel de Oliveira do 5º CEORN, Manuel Assunção do 5º CEORN e
Marques Antunes do 3º CEORN


Fontes:
Revista n.º 3 da AORN-Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Ano II, Janeiro/Março 1997;

mls

03 maio 2017

Escola Naval e Reserva Naval, 1996



Extracto da comunicação do Almirante Castanho Paes, Comandante da Escola Naval

aquando da Assembleia Geral da AORN-Associação dos Oficiais da Reserva Naval, 26 de Outubro de 1996






"... não queria deixar de, em nome da Escola Naval, vos dar formalmente as boas-vindas a esta vossa casa, cujas raízes centenárias nunca é demais lembrar..."

"... E digo vossa casa, porque foi efectivamente aqui que a grande maioria de vós recebeu a formação militar naval básica e uma parte da formação técnico-naval necessárias ao desempenho das funções que lhes foram cometidas ao longo do período em que, servindo a Marinha, serviram o País..."

"... Julgo que a Marinha, de uma forma geral, sempre teve a consciência do valor do vosso contributo para a sua missão. A bordo ou em terra, em Portugal continental ou insular ou no antigo Ultramar, nos organismos técnicos ou nos fuzileiros, no Estado-Maior ou nos gabinetes dos vários comandos, direcções e chefias da Armada, quase 4.000 oficiais da Reserva Naval dedicaram uma parte da sua vida à nossa briosa corporação, pondo generosamente ao seu serviço as capacidades que cada um tinha em função da sua área e nível de formação académica..."

"... A Marinha deve-lhes pois uma significativa quota parte dos últimos 40 anos da sua História..."

"... Contudo, julgo que será também justo realçar que a Marinha vos terá dado alguma coisa em troca: provavelmente uma experiência humana de certo modo útil para as vossas carreiras profissionais, possivelmente um sentido de camaradagem pouco conhecido no meio civil, talvez até uma maior consciencialização sobre certos valores morais e sociais que integram os códigos de honra das instituições militares..."


Fontes:
Revista n.º 3 da AORN-Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Ano II, Janeiro/Março 1997;

mls