29 junho 2020

23.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Ago1973


Post reformulado a partir de outro já publicado em 2010.11.14




Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de: Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Comissão Cultural de Marinha, 2006; Fuzileiros – Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Luis Sanches de Baêna, Comissão Cultural de Marinha, 2006; apontamentos e fotografia de curso cedidos pelo CMG FZE José da Conceição Gois, do 23º CFORN, que mais tarde ingressou nos Quadros Permanentes; Arquivo de Marinha, Revista da Armada e cedências pessoais de origens diversas;


mls

26 junho 2020

Marinha condecora «AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval» com Medalha Naval de Vasco da Gama

Esta publicação respeita integralmente no texto a cerimónia levada a cabo em 20 de Maio de 2001, incluindo a data de realização.






Fontes:
Texto compilado da revista n.º 13 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, publicada em Dezembro de 2001 no artigo «Condecoração da AORN»; fotos do espólio pessoal do autor do blogue;


mls

23 junho 2020

22.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Fev1973


Post reformulado a partir de outro já publicado em 2010.10.20




Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de: Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Outras Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Fuzileiros – Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Luis Sanches de Baêna, 2006; Fotos do Arquivo de Marinha, Revista da Armada e cedências pessoais de origens diversas;


mls

20 junho 2020

Marinha, Reserva Naval e Escola Naval - Sala «Reserva Naval»


Esta publicação respeita integralmente no texto a cerimónia levada a cabo em 25 de Maio de 2000, incluindo a data de realização.





Fontes:
Texto compilado da revista n.º 12 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, publicada em Dezembro de 2000 no artigo »Sala Reserva Naval»; fotos do espólio pessoal do autor do blogue com arranjo pessoal da imagem que encima este "post";


mls

18 junho 2020

O Almirante Sarmento Rodrigues e a Reserva Naval






Fontes:
Texto de autor do Eng.º Rogério Canas de Sousa Ferreira, Cadete decano da Reserva Naval do 1.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, publicado na Revista n.º 12 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval de Dezembro de 2000;


mls

17 junho 2020

Almirante Sarmento Rodrigues


Recordando...

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Outubro de 2016)





Fonte:
Opinião DN
9 de Setembro de 2014
Miguel Félix António
Jurista/Gestor



Nos tempos conturbados que vivemos é com gosto que evoco a vida de um português de têmpera, do género de "antes quebrar que torcer", a quem o nosso país muito deve, designadamente, pelo papel central que teve, como político e militar mas também como doutrinador, na antiga África portuguesa.

Manoel Maria Sarmento Rodrigues nasceu em Freixo de Espada à Cinta em Junho de 1899 e morreu em Lisboa a 1 de Agosto de 1979, passaram agora 35 anos.

Uma das suas primeiras missões como Oficial de Marinha foi no República, acompanhando em 1922 a viagem aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Em 1925-1926 é ajudante de campo do governador-geral do Estado Português da Índia e em 1928 secretário do ministro dos Negócios Estrangeiros.

Entre 1931 e 1935, já primeiro-tenente, em Moçambique - terra à qual ficaria indelevelmente ligado -, foi comandante dos portos de Chinde e de Quelimane. Entre 1941 e 1945, comanda o Lima, navio que teve papel central na busca e no salvamento de largas dezenas de passageiros de navios estrangeiros atacados pela marinha alemã, ao largo dos Açores, e que lhe valeu os maiores encómios dos governos inglês e norte-americano, o que muito contribuiu para densificar o seu prestígio nacional e internacional.

A 26 de Junho de 1945 é nomeado governador da Guiné, onde em 1947 realizou as comemorações do V Centenário do Descobrimento Marítimo daquele território, que tanto ajudou a desenvolver.

Regressado a Lisboa a seu pedido em 1948, desempenha funções no Estado-Maior Naval e é eleito em 1949 deputado à Assembleia Nacional pelo círculo de Moçambique.

Entre 2 de Agosto de 1950 e 7 de Julho de 1955, integrou o Governo de Portugal como ministro do Ultramar, tendo nesse âmbito adoptado uma ampla reforma da administração colonial portuguesa.

Em 1957 é promovido a comodoro (actual contra-almirante) e designado comandante da Escola Naval, funções que desempenha até 1961, tendo presidido à Comissão das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, no âmbito das quais foi edificado o Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.

Por convite do novo ministro do Ultramar, é nomeado em 1961, já com o posto de contra-almirante (actual vice-almirante), governador-geral de Moçambique, cargo que desempenha até 1964 e do qual se demite por algumas propostas que considerava vitais para a consolidação do espaço lusíada não terem tido acolhimento no Governo.

Em Março de 1969 é um dos fundadores do Grupo de Estudos de História Marítima que esteve na génese da Academia de Marinha, de que seria o seu primeiro presidente quando da sua criação em Dezembro de 1978.

Foi autor de uma vasta obra sobre assuntos navais, de defesa e de administração colonial, nas quais mostrou que, a par da espada, era também um exímio manejador das letras.

Casado com uma sobrinha de Guerra Junqueiro, deixou um expressivo lote de descendentes, em quantidade e qualidade, como é o caso do actual presidente da Direcção Nacional da Liga Portuguesa contra o Cancro, o seu neto Francisco Cavaleiro de Ferreira.

Como escreveu Adriano Moreira, tratou-se de alguém "com uma firmeza de princípios que não dobram às conveniências", "sem a menção do qual não é possível escrever a história portuguesa, designadamente dos estados de língua portuguesa que ajudou a definir", e a quem bem se terá aplicado a célebre frase: "Mal com el-rei por amor-dos-homens, mal com os homens por amor de el-rei."




mls

16 junho 2020

21.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Ago1972


Post reformulado a partir de outro já publicado em 2010.09.14





Fontes:
Texto do autor do blogue com a colaboração do CMG José António Ruivo do 21.º CFORN, compilado a partir do Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios & Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Fuzileiros – Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Luis Sanches de Baêna, 2006; Arquivo de Marinha; Revista da Armada; fotos do 21.º CFORN por cedência da revista da Armada; outras fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;


mls

11 junho 2020

São Turras, Sr. Tenente, são Turras!...




Rio Cacheu ao pôr-do-sol (Abel Melo e Sousa -CFR Ref)


Havia já dois dias que as Lanchas fundeavam a meio do rio a jusante da Passagem de S. Vicente, concluído o Comboio de Farim. Aguardavam os batelões para Bissun, que chegavam e amarravam ao Tarrafo à espera da trasfega da carga para as LDM.

Dois dias sem mais preocupações que as que decorriam das tarefas diárias agendadas, as escutas do telegrafista, os banhos divertidos da marujada, a confecção das refeições e os momentos passados com as letras dirigidas às namoradas.

O dia, esse, esvaía-se com os últimos fulgores do sol a perderem-se por entre os galhos do arvoredo e as risadas do pessoal, as LDM à espera do momento para se abrigarem, furtivamente, já a coberto da noite, nos “amarradouros” conhecidos e reconhecidos da margem direita, a montante da Passagem de S. Vicente. E tudo sossegava.

À medida que a noite avançava sobravam as palmadas nos moscos – nome carinhoso com que se designavam os mosquitos – e, à medida que a noite avançava, os sussurros do sentinela e dos mais resistentes ao sono e aos sonhos, como que conversando com a gritaria da passarada noctívaga.

Nada faria crer que aquela noite iria ser diferente. O Tenente acendera atempadamente a malcheirosa espira verde “anti-mosquitagem” em cima do rádio e enchera os canudos do colchão pneumático que fazia de cama no chão da cabine de pilotagem.

Imaginava que, sendo ainda periquito, sempre era melhor respirar o ar impregnado dos cheiros oleosos do que o ar puro ao relento no tombadilho da lancha. Estava mais protegido…

Mas não era verdade, que ainda não tinha pregado olho quando, lá pelas 3 horas da madrugada, uma vozearia ensurdecedora lhe pôs no coração um sufoco e nas pernas um terramoto. Era a voz do Xixas a mais exaltada, estaria no seu turno de guarda, a gritar “são turras, são turras, trás a MG, vão já com uma rajada!!!”…

O Tenente, entretanto, perguntava a si próprio “o que é que se passa ali?”, todo num abanico. Recuperado o sangue frio concordou, ainda consigo próprio “porra!, eu sou o comandante, tenho de ir ver do que se trata”, sempre com a vozearia a crescer, a crescer por entre rajadas à espera.




LDM abicada no porto de Bissum - Rio Armada
Abastecimento e transporte de militares e populações


Fez das tripas coração e subiu ao convés com um enérgico:

– O que é que se passa aqui?

Respondeu o Xixas, já com uma G3 quase engatilhada:

– São turras, Sr Tenente, são Turras, vão já numa rajada!

– Onde é que estão os Turras?

– Ali, na canoa.

Era verdade; encostada ao tanque da água de estibordo encontrava-se uma canoa com cinco homens, pretos, tão pretos como a noite, vergados, completamente vergados ao sabor da sua sorte, dobrados pela cintura sobre as suas pernas.

O Tenente avaliou a situação, ou não avaliou, mas ocorreu-lhe, a ele sim, numa rajada, acalmar os ânimos com uma ordem:

– Ninguém dispara nada. O comandante sou eu. Tudo o que se fizer só pode ser feito com minha autorização! E não faremos nada com jeito se não nos acalmarmos todos!

Toda a gente estremeceu, porque a resposta foi um longo silêncio de poucos segundos que soprou ao Tenente “estás a tomar o pulso aos acontecimentos” e, com isto, saltou para o tanque da água. Percorreu o comprimento da canoa espiolhando o seu interior.

Apenas cinco homens ajoujados, cobertos por um fraco pano da mesma cor, preta, que talvez os abrigasse da esbatida frescura da madrugada. Nada de armas, que fosse de seus vestígios,
nada de nada, apenas medo, porventura, e silêncio. Falou aos homens ainda do tanque da água, também flutuador, acha o Tenente:

–Podem ser turras, sim, podem ser turras, mas nada o denuncia, que na canoa apenas estas cinco pobres criaturas!

– Mas... são turras, Sr Tenente, são Turras!,… insistia o Xixas

– Podem ser, sim, mas não há evidências nenhumas.




Refeição partilhada a bordo duma Lancha de Desembarque Média

Silêncio. Novamente a resposta foi o silêncio. Então o Tenente, sentado nos calcanhares, à proa da canoa, atreveu-se a perguntar:

– Alguém fala português? Silêncio, silêncio quebrado pelo Xixas:

– São Turras, Sr. Tenente, são Turras!

Uma rajada...

O Tenente subiu ao tombadilho e falou

– Podem ser turras, sim, mas do que me estou a lembrar agora, neste momento, é da minha terra, lá longe, do outro lado; e das laranjeiras e das parreiras; e de amigos…

O silêncio, o silêncio tinha tomado definitivamente conta dos acontecimentos.

O Tenente voltou a saltar para o depósito da água, cada vez mais confiante, e novamente sentado nos calcanhares, perguntou

– De onde vêm vocês?

Aconteceu, então, inesperadamente, um:

– De Bissum…




2 LDM abicadas
Abastecimento de combustível e víveres


Soltado pelo homem sentado a meio da canoa, que se desdobrou, lentamente, talvez com o pressentimento de “já me lixei, já nos lixámos” e, por uns segundos que foram uma eternidade, em silêncio, permitiu que os olhares, dele e do Tenente, se fixassem. E voltou a dobrar-se sobre si. O Tenente, como que impulsionado por uma mola, de pé, atirou:

– Ah! Afinal sempre há alguém que fala português!... E vão para onde?

– Para Bula!, respondeu, dobrado, o mesmo homem…

Com calma e uma paz imensa, juntou-se aos seus homens, junto da Oerlikon, – que todos se tinham levantado, todos sem excepção –, e voltou a falar ao pessoal:

– Eu não vos dizia?! Estes homens vão à cidade como também eu, nas segundas-feiras. Um vai renovar o BI, aquele vai tirar uma certidão de nascimento, o terceiro vai à Praça, o…

Lembrou-se de que, com Spínola, tinha havido uma inflexão na política de aproximação às populações designada, oficialmente, por “A PSICO”. Toda a gente aproveitava e reduzia, às tantas, tudo à “PSICO” – olh’á Psico!…

E voltou a saltar para o tanque da água para, num gesto inesperado para todos, – ou talvez não –, com um toque no ombro do homem a vante, ordenar:

– Sigam, amigos, vão à vossa vida…

E ficou só o silêncio, um longo silêncio, a morrer nos olhos ao ritmo lento das remadas, a canoa a cruzar o Cacheu para a curva à esquerda, lá longe, no vagar de quem espera, a todo o instante, o troar de uma rajada.
Ah! Como eu gostaria de saber o que se terão dito ao mergulharem na imensidão da noite, sós, na companhia fagueira do seu rio…


Marinheiro E*
*O Marinheiro “E”, de todos já conhecido, é o Sócio Originário n.º 1542, Oficial FZ RN que integrou os efectivos da CF 11 e que cumpriu uma comissão de serviço na Guiné nos anos 1971/1972.


Fontes:
Com a devida vénia, texto compilado a partir de artigo já publicado na Revista "O Desembarque" n.º 30 da Associação de Fuzileiros em http://www.associacaofuzileiros.pt/


mls

06 junho 2020

Guiné, 1968 - Campanha de promoção da época...


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Janeiro de 2011)

Campanha de promoção na forma de postais do SPEME
(Serviços Postais do Estado-Maior do Exército)




Juntos?... e houve vencedores?



sem comentários... a própria imagem os sugere!



Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue com original cedido por Carlos Fernando Carlos Dias Souto (CMG);


mls

31 maio 2020

20.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Fev1972


Post reformulado a partir de outro já publicado em 2010.08.21





Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de: Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Fuzileiros – Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Luis Sanches de Baêna, 2006; Arquivo de Marinha; Revista da Armada; Fotos do 20.º CFORN, cedência de Jorge Moura Teles; outras fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;


mls

29 maio 2020

Imediatos da LFG “Orion” na classe “Cacine”


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Junho de 2010)





Fontes:
Texto compilado pelo autor do blogue com imagens da Revista da Armada; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Comissão Cultural da Marinha 10.º e 15.º Vols, 1999/2004; Ordem da Armada;


mls

27 maio 2020

LFP "Albufeira" - P 1157


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Junho de 2010)





Fontes:
Dicionário de Navios, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

25 maio 2020

O Combóio de Bissum


Guiné, rio Cacheu - Os combóios navais para Bissum





As LDM repousavam há já dois dias nas paragens da Passagem de S. Vicente. Era aqui que morria o Combóio a Farim. De dia a juzante da dita, fundeadas, braço dado, e à noite a montante, abrigadas na sombra acolhedora do tarrafo que bordejava a bolanha do outro lado, um nadita acima do ponto em que nascia a estrada que ligava a Ingoré, ao tempo desactivada.

Nesse interim, enquanto os batelões iam chegando ao ritmo rançoso dos seus barulhentos motores, que os anunciavam a milhas, a marujada, sem excepção, o que quer dizer que o comando também bastas vezes se associava, passava o dia entretido em brincadeiras que a água suscitava, os mergulhos, mas também a preparação das refeições, o correio para a família e amadas que ajudavam a preencher o santo dia.

A noite, essa era acordada, de quando em quando, pela voz em surdina das rendições das sentinelas, os gritos da passarada nocturnal e as palmadas disparadas na direcção da insuportável mosquitada que nos rondava ao som insistente dos seus apelos “precisas de mim, precisas de mim…”.

Reunida toda a esquadra havia que sacar do ORDMOVE e dar-lhe seguimento: passar a carga, batelão a batelão, para as LDM, manobra acompanhada pelo Cabo do exército responsável e, uma vez carregadas, zarpar pelo estreito e sinuoso «Rio Armada», tão sinuoso que as LDM não se protegiam uma à outra na maior parte dos "esses" do rio, tudo a postos para o que desse e viesse, o Patrão ao leme, um artilheiro na peça e o outro numa das MG42, um fogueiro atento ao roncar dos notores e o outro na MG42 do outro bordo, o telegrafista sentado à frente do rádio, ao lado do Patrão, no tejadilho da cabine de pilotagem o "basookeiro" e o ajudante com a arma respectiva, a basooka, todos cientes de que a atenção era a regra mestra até à rampa de abicagem na perpendicular ao aquartelamento do Exército, ali mãos dadas com a Tabanca. O Exército assegurava, nas imediações, por terra, a segurança do Combóio.

Na preparação para a abicagem, o Calado que por sinal nem falava muito, o que condizia com o apelido, questionou o Tenente com um respeitoso “Sr. Tenente, como quer que abique?”, que deixou o oficial um pouco desconcertado, a coçar a cabeça e a cogitar no “como quer que abique?”, reagindo instantes depois com um “ó homem, disso sabe você, faça o melhor que souber, que se alguma coisa correr menos bem cá estaremos para assumir”.




Bissum – Tabanca
Fotos em http://guine-bissum.blogspot.pt/ - Alf Mil Aníbal Magalhães


Realmente, aquilo foi como quem diz, ”limpar o cu a um menino”. Mas as coisas ainda não estavam sossegadas, porque logo que a LDM se calou, um novo apelo veio do Patrão: “Sr. Tenente, sabe, o Popeye”, – era a alcunha do outro Patrão, que fazia jus na sua imponente figura, espadaúdo, barba a condizer, cachimbo à maneira, cópia quase perfeita da entusiasmante figura da Banda Desenhada, ao epíteto com que o mimosearam –, “é novo nestas andanças, vem pela primeira vez e ainda não domina bem estas correntes e marés, digamos assim, que as havia mesmo, pelo que agradeço, então, que seja o senhor a indicar-lhe que abique a juzante da nossa Lancha, bem ditas a coisas «do lado de baixo», que não terá dificuldades na manobra”.

Silenciosamente o Tenente deslocou-se à ré e com uma sinalética simples e adequada às circunstâncias, usando mais o braço e a mão em vez da voz, que se perderia no meio do ronronar dos motores, indicou ao Popeye onde abicar, que fez saber que tinha entendido com uma espaçada abanadela de cabeça, com um sim três vezes acima e abaixo, perceptível pelas descontinuadas fumigações das cachimbadas. Concluída a manobra sem incidentes o Tenente veio sentar-se na mesa situada entre a Cabine de Pilotagem e a Peça, atento às tarefas de descarga da carga das LDM, na companhia do Patrão.

Permaneceram uns instantes calados até que o Calado, nova¬mente, resolveu falar:

– Sr. Tenente, desculpe ter perguntado, há bocado, como queria que abicasse…

– Ó Calado, fiquei surprendido, sim, aqueles instantes, mas é que não sabia mesmo o que devia de mandar fazer. Por isso, olhe, foi assim, saiu aquele “faça o melhor que souber”…

– Sabe, Sr. Tenente, já tem havido camaradas seus que se põem a dizer-nos como devemos de fazer, e às vezes andamos para aqui a rapar até acertar, e é porque acertamos nós… Mais uma vez, desculpe…

E voltou o silêncio, com o Tenente atento ao movimento humano, novidade para ele, dos homens da população de Bissum, num vai e vem entre as lanchas e as viaturas do aquartelamento, transbordando a carga que as LDM prestimosamente tinham levado. Concluída a operação, máquinas a funcionar, duas businadelas de despedida, gratos os militares pelos mantimentos, ala que se faz tarde, que havia que aproveitar ao máximo a força da corrente para mais depressa dizer adeus ao Armada.

Que, diga-se de passagem, tinha o seu encanto, o tarrafo que bordejava a água calcinado de combates anteriores, lá ao fundo, nas clareiras, a orla verdejante da mata, um crocodilo que, incomodado no seu solário, se levanta no seu vagar para mergulhar no seu ambiente, curva e contracurva num não despegar até ao abraço ao Cacheu.

E novamente S. Vicente, um abrandar de todas as tensões, e um hurraaa! de missão cumprida. Desceram os fuzileiros e a basooka do tejadilho da Cabine, abandonadas as MG42 dos bordos a vante, a Oerlikon em posição de descanso apontando a um inimigo imaginário no alto dos céus, o rádio sossegado nos bip bip bip, máquinas a todo o “vapor”, era assim que se dizia, que o único com trabalho garantido era mesmo o Patrão. Todos, tripulação e escoltas já só viam e sonhavam com Bissau, ainda tão longe.




Bissum – Transporte de tropas em LDM no rio Cacheu

Todos,… bem,… todos menos o Patrão por força das suas funções e o Tenente. Como? Pois, é que por alturas de Jolmete o bom do Calado resolveu falar para desinquietar outra vez o Oficial:

– Sr. Tenente, desculpe, pode chegar aqui à Cabine?

O Tenente deixou os restantes navegantes e aproximou-se da janela de pilotagem.

– Não, Senhor Tenente, é aqui, aqui mesmo junto a mim…

Com um ar circunspecto, bem visível nas rugas da testa, lá foi o bom do Tenente com ar de quem pergunta “mas o que é que vem aí agora?”.

Então foi assim:

– Senhor Tenente, o Senhor pôs-me à vontade em Bissum. Uns melhor e outros pior, na verdade quem sabe destas manobras somos nós. Maaass,… suspensão para encher o peito – sabe, nunca se sabe, mas pode acontecer um dia ter o Senhor de dizer mesmo como se faz, por virem todos, como o Popeye, pela primeira vez. E poderá um dia, oxalá nunca aconteça, ter de ser o senhor a deitar mão ao leme…

O Tenente escutava, longe de imaginar o que estava para chegar...

– Está a ver aquela mancha meio arenosa no meio do tarrafo? Ora agarre aqui no volante, – o leme, claro – eu vou aqui, não tenha medo, e experimente abicar lá. Vamos fazê-lo com a ajuda das máquinas, que se controlam, como sabe, com estes dois manípulos. Vá, afrouxe, vamos devagar, a corrente ainda está a descer, deixe descair a Lancha um pouco abaixo do ponto, isso, assim, vá, dê um pouco de máquina de bombordo, a da esquerda, isso…

E o Tenente abicou, com ajuda, mas abicou. Repetiram a manobra, perante o espanto dos tripulantes da outra Lancha, a do Popeye, que reduziu a velocidade intrigado com a agitação.

– Está a ver, nem é difícil…

O Tenente não dizia nada, e ainda não tinha acordado bem da lição quando de rajada vem novo ataque.

– Então e imaginemos que é atacado e tem de manobrar rapidamente, sair da linha de fogo e tem de fazer um pião? Ora deixe-me mostrar como é…

E mostrou.

– Viu? Então agora faça lá o Senhor…


Marinheiro E*
*O Marinheiro “E”, de todos já conhecido, é o Sócio Originário n.º 1542, Oficial FZ RN que integrou os efectivos da CF 11 e que cumpriu uma comissão de serviço na Guiné nos anos 1971/1972.





Curso do rio Cacheu entre a foz e o rio Armada (a laranja) com a localização de Bissum


Fontes:
Com a devida vénia, texto compilado a partir de artigo já publicado na Revista "O Desembarque" n.º 29 da Associação de Fuzileiros em http://www.associacaofuzileiros.pt/


mls

22 maio 2020

Guiné 1970/72, Fuzileiros e LDM - Lanchas de Desembarque Médias – Parte II


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 24 de Novembro de 2010)

Intimidades entre uma Companhia de Fuzileiros (CF 11) e as Lanchas de Desembarque Médias no teatro operacional da Guiné

Parte II

Os combóios de Catió

Exigiam cuidados redobrados. Recebido o ORDMOVE era certo e sabido que, vinte minutos depois de estudado, lá estava na sala do Estado-Maior a solicitar meia dúzia de botes e outros tantos motores na ponte-cais de Bissau.

Por uma vez, aconteceu que vinte minutos depois estava de novo a exigir mais seis botes e seis motores.

Os primeiros botes estavam todos furados e, quanto aos motores, não funcionou nenhum. Da segunda remessa alguns ainda foram devolvidos. Resultado final de seis botes novinhos em folha e também o mesmo número de motores novos. Funcionavam todos! Ainda hoje persiste a pergunta de porquê tão pouco cuidado nos meios essenciais para o cumprimento destas missões? No caso de surgirem problemas quem assumiria a responsabilidade?

É que aconteceu, num dos combóios, quando nos aprontávamos para carregar os nossos materiais logísticos, armas e mantimentos, encontrar cada LDM com uma BERLIET no “Poço”. Era impossível acomodarmo-nos e, pior ainda, defendermo-nos. Um salto ao Estado-Maior e uma explicação: “Tinha de as levar, porque tinha sido assumido o compromisso de as transportar até Catió, onde faziam muita falta”.

– “Ah, e quem assumiu o compromisso?”, depois de informado, solicitei apenas que fosse redigida uma declaração na qual quem tinha assumido o frete se responsabilizasse pela segurança do combóio. Como era evidente, aconteceu uma recusa.

– “Está a gozar comigo?”, informei que esperava, no Cais, que a situação fosse solucionada e retirei-me com o “Determina mais alguma coisa?” da praxe.




Guiné - Mapa da região de Catió

As BERLIET seguiram para Catió, realmente, mas a bordo de batelões. Para gáudio dos oficiais do Batalhão de Catió, informados de que o oficial do combóio se tinha recusado a levar as viaturas…

Que fé dá o relatório destes acontecimentos? “NIL” (nada ou zero). Ao quarto relatório devolvido, igual aos anteriores, informei que tinha percebido, finalmente, o que se desejava e inscrevi, em todos os items, a célebre “NIL”.

Mas os trabalhos não terminaram aqui. Dado que a partida foi atrasada cinco horas – às 16:00, soube depois, ainda no Estado-Maior alguém perguntava se sempre tinha saído ou não... - tivemos de fundear na Ponta dos Escravos, e fazermo-nos ao caminho, de manhã, duas horas mais cedo para o encontro com os meios aéreos de apoio, na foz do Cobade.




A Oerlikon, (para a fotografia), podendo distinguir-se, ao fundo, um dos T6 do apoio aos Comboios do Sul, a Catió e a Bedanda – mas a fotografia pretendia, mesmo, era apanhar o mosquito.

Mal habituados, poupava-lhes três quartos de hora no tempo de apoio, - por ser largo no seu curso inferior, o Cobade oferecia boas condiçoes de defesa e eu adiantava caminho -, os T6 questionaram o Estado-Maior sobre a razão de, desta vez, o apoio ter demorado o dobro do tempo do costume.




Em cima, escolta de botes aos combóios do sul, no rio Cagopere, afluente do Cobade que dá acesso ao porto interior de Catió, e, em baixo, aquele porto na baixa-mar



E lá vem nova chamada ao Estado-Maior:

“Porquê?”

– “Ah, estão equivocados, porque prestaram o apoio que tinham de prestar.”

– “Como?”

– “Muito fácil, a que horas o iniciaram e a que horas o ORDMOVE o previa?”

– “Olha…?!”

Mas, é claro, no relatório nada consta… Como podem os investigadores tirar conclusões correctas? Ficarão, sempre, pela aproximação...




Em cima, chegada a Catió. Podem também distinguir-se ainda o artilheiro e o "basookeiro", cada um no seu posto e, em baixo, descomprimindo




Rendição do Rendição do Batalhão de Catió

Neste combóio para sul participaram três LDM, houve um “rendez-vous” (encontro) com a LDG “Montante” na foz do rio Cumbijã, idas com escala e descarga de pessoal e material a Cabedú e, para montante, em Cufar.

Era especialmente impressionante a viagem ao aquartelamento de Cabedú localidade no rio Lade, afluente da margem esquerda do Cumbijã, quase junto à foz no extremo sul do Cantanhês, onde estava estacionado um pelotão do Batalhão, com um mais do que exíguo porto onde, na preia-mar, não era nítido o curso do braço de água.

Uma semana depois, novo rendez-vous com a LDG “Bombarda” na foz do Cobade. Em virtude da noite tempestuosa o encontro com aquela unidade naval foi atrasado duas horas.

Com o tempo de maré limitado, subi ao tombadilho da LDG "Bombarda". Dei, para grande surpresa minha, com um Tenente-Coronel e um Major, ambos ajoelhados a enrolar um dos clássicos colchões pneumáticos em uso na época.

Toquei no ombro do Senhor Coronel, que olhou para mim – ainda mais surpreendido, porquanto o meu uniforme, (passe a redundância, já passaram 37 anos e posso confessá-lo) resumia-se ao dólmen do camuflado, sem galões, um panamá de praia aos quadradinhos pretos e brancos, um calção preto de ginástica usado nas futeboladas de 5 e as botas de lona.

Comuniquei-lhe: – Sr. Coronel, estamos atrasados 2 horas em relação à partida, por isso temos três quartos de hora para passar as bagagens para cada uma das LDM – abeirámo-nos do “Poço” da LDG e concretizei o quê e as lanchas respectivas. O homem, totalmente confundido, lá se resolveu à terceira insistência e sem hesitar, a dar as suas indicações, sem saber quem era o interlocutor a dar-lhe instruções. Acrescentei que, antes de o pessoal embarcar, teria de dar algumas indicações que tinham de ser escrupulosamente cumpridas.

Em meia hora estava todo o material dentro das LDM, o que revelou uma grande eficácia. Determinei então, depois de o referido senhor, acompanhado de um Major sorridente, ter anunciado que eu próprio iria falar, o seguinte:

1. Se houvesse guerra ela seria travada apenas por nós.

2. Por isso, toda a gente tinha de ir abrigada no “Poço” das LDM.

3. Para evitar surpresas e acidentes, culatras atrás, carregador fora da G3 e câmara sem qualquer munição.

Largou a primeira LDM, largou a segunda e pedi então aos Senhores Tenente-Coronel e Major que descessem para a terceira. Desci então para o bote que me aguardava e segui para me juntar à primeira. Como o tempo entretanto já aquecera, o dólmen já se tinha tornado num empecilho e já tinha sido despedido. Belo fardamento, não acham?…

À chegada a Catió já me tinha composto, mais ou menos, porque tinha vestido o calção azul da ordem e tinha colocado o respectivo boné. Esqueci-me, todavia, da camisa e dos respectivos galões.

O bom do homem passou a viagem a perguntar ao Patrão da LDM e aos restantes elementos da Marinha quem era eu. Sem que tivessem ordem para isso, levaram o tempo todo a responder, simplesmente, “é o comandante”.
Quando a LDM que o transportava abicou, com o cais cheio dos velhos e dos novos que já se lhes tinham juntado em festa, o Senhor Coronel, empoleirado na porta da LDM, travava com os braços alguém que se lhe pudesse adiantar.

Uma vez pés em terra, apenas se preocupou em encontrar-me no meio da multidão para me agradecer a belíssima viagem até ao seu destino, sem ligar a qualquer dos surpreendidos camaradas presentes.

Nota final: aos que aguardavam no cais dei um quarto de hora para descarregarem os respectivos materiais. Descarregaram os deles e os nossos. E obrigaram-nos a voltar atrás, já o combóio se aproximava da foz do rio Cagopere…




Em Abril de 1967, um avião Harvard T6 sobrevoa o rio Cumbijã, no decorrer da protecção a um combóio da lanchas e batelões


A vida a bordo das LDM

Não era de hotel de primeira classe, mas naquelas idades…

Bem, instalávamos as arcas congeladoras, atacadas com os mantimentos, normalmente carne de vaca e de frango, os fogões Hipólito a petróleo, que davam para fazer bons petiscos, os tachos, claro, de alumínio, - agora há tachos bem melhores...-, os nossos sacos, os nossos colchões e as nossas redes mosquiteiras, no “Poço”.

As redes mosquiteiras eram relativamente eficazes e protegiam-nos das três variedades de mosquitos existentes: Uma primeira vaga de batedores (davam connosco), a segunda de sapadores que descobriam as entradas mal tapadas e a terceira vaga, lá pela meia-noite, era constituída pelos sugadores. Com estes travávamos boas batalhas durante a noite, por vezes durante a noite inteira.

No regresso de todos estes combóios, para norte ou para sul, baixada a guarda, os botes lançavam-se às ostras presas no tarrafo, quer no rio Cobade, quer no Rio Grande de S. Domingos, afluente do Cacheu. E acontecia uma festa de forte camaradagem entre a escolta de Fuzileiros e as guarnições das LDM...




Elísio Pires Carmona
2TEN FZ RN
15.º CFORN


(final)

Fontes:
Texto compilado a partir de artigo e imagens cedidos pelo 2TEN FZ RN Elísio Pires Carmona, 15.º CFORN; restantes imagens de arquivo do autor ou cedidas pela Revista da Armada, Arquivo da Marinha, CAlm Joel Pascoal e CFR Abel de Melo e Sousa.


mls

20 maio 2020

Guiné 1970/72, Fuzileiros e LDM - Lanchas de Desembarque Médias – Parte I


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 21 de Novembro de 2010)


Nota do autor do blogue
:

Por ocasião do Congresso dos 50 Anos da Reserva Naval, decorrido de 2 a 5 de Outubro de 2008, em Aveiro, foram efectuadas variadas comunicações aos presentes, abordados por diferentes personalidades e versando temática diversificada.

Sem que a peça abaixo publicada, enviada por um camarada da Reserva Naval, represente qualquer apreciação diferenciada sobre o objectivo, fases e intervenções do evento então levado a cabo, Marinha, Reserva Naval, Guiné, Cacheu, LDM’s e Fuzileiros representam sempre renovadas oportunidades para abordagem de memórias históricas.

Inesgotáveis no tema, nos locais, nas acções e nos intervenientes.

Também na estranha mística com que sempre olhei e respeitei o Cacheu , de que ainda hoje perdura a imagem de uma sinuosa e rítmica dança da navegação, ora a bombordo ora a estibordo, arcadas de tarrafo frondoso e reverente, tímida protecção de unidades, pessoas e bens, interrompida ocasionalmente por clareiras imprevisivelmente armadilhadas.

Em quatro anos que separaram ali a minha passagem da do 2TEN FZ RN Elísio Alfredo Pires Carmona, poucas alterações significativas terá havido. Salvo, claro, a agudização crescente de um conflito sem solução à vista. Melhor do que eu, aquele meu camarada da Reserva Naval, percorre estes caminhos num texto simultaneamente crítico e esclarecido.

mls



Intimidades entre uma Companhia de Fuzileiros (CF 11) e as Lanchas de Desembarque Médias no teatro operacional da Guiné

(Parte I)




No rio Cacheu, em segundo plano um batelão navegando para montante

Entendi redigir este documento assim intitulado como um desafio, sublinhando o elevado tributo que aquelas unidades navais pagaram durante todo o tempo em que decorreu a Guerra Colonial.

Tomei esta decisão enquanto então oficial de uma Companhia de Fuzileiros, a CF11. Não pretendendo ser especialmente conhecedor da temática LDM, mas não sendo meu timbre recusar desafios, propus-me, salvaguardando a questão desta leitura se tornar uma verdadeira seca, falar do que foi a minha experiência, tantas vezes as LDM foram o meu abrigo.

Posto este ponto prévio, permitam agora que me apresente, digamos que sob a forma de breve ficha pessoal:

De meu nome Elísio Alfredo Pires Carmona - 2TEN FZ RN Pires Carmona -, pertenci ao 15.º CFORN, concluído em 04-09-69, efectuei uma comissão na Guiné, CF11, de 30.12.70 a 06.10.72, aliás com um muito engraçado e “sui generis” início, que exigiu duas partidas: a primeira, a 10.12.70, abortada, a bordo do NRP «S. Gabriel» (*), e a segunda, a 30.12.70, no NM «Rita Maria», com escalas em Leixões, Funchal e S. Vicente de Cabo Verde, antes de chegar a Bissau, no dia 09.01.71. O final do Serviço Militar chegou em 01.01.73.


A Guiné



Ena!...era assim a Guiné? Não, não era sempre assim. Aliás, ainda continuará a ser, na generalidade, uma boa parte assim. Por isso as melhores estradas ainda continuarão a ser os seus rios e braços de mar.



Mas era também esta calma – no cais de Farim



Também estes fins de tarde, ainda em Farim…



E estes, fundeados na Ponta dos Escravos, no sul…


Vida das Companhias de Fuzileiros na Guiné

Integravam o dispositivo operacional da Marinha na Guiné duas Companhias de Fuzileiros (CF). Normalmente, alternavam a sua actividade entre:

1. Períodos de serviço interno, sedeados em Bissau com serviços de guarda atribuídos, fundamentalmente às INAB – Instalações Navais de Bissau e ao Edifício do Comando.




Em cima, vista aérea das Instalações Navais de Bissau - INAB e, em baixo, o edifício do Comando de Defesa Marítima da Guiné.



2. Períodos de serviço externo, com um pelotão da Companhia em Ganturé, comandado por um oficial, que era responsável pelos serviços de guarda da Base, podendo eventualmente apoiar operações dos Destacamentos, com uma secção de morteiros e 3 oficiais em Bissau, destacados para os combóios navais a Farim, Bissum, Catió e Bedanda. O oficial Imediato da Companhia também participava nos combóios.

A Companhia de Fuzileiros, durante este período, prestava ainda serviços de escolta, ao nível de esquadra, em fiscalização ou reforço na escolta de batelões, em zonas de menor perigo, especialmente no rio Geba, nas proximidades de Bissau.

E é nos períodos de serviço externo que se encaixam as LDM na vida dos Oficiais Fuzileiros. Especialmente adaptadas às exigências da guerra na Guiné, suficientemente versáteis, podiam executar tarefas de fiscalização e patrulha no rio Cacheu durante cerca de um mês.

Ali davam apoio a embarques e desembarques dos Destacamentos de Fuzileiros nos rios, e não só. Escoltavam combóios e ainda transportavam militares e mercadorias a aquartelamentos do Exército que, neste contexto, quer pela sua localização quer pelas condições de acesso, inviabilizavam o recurso aos batelões. Era frequente, sobretudo nos combóios a Bissum e a Catió, dar boleia a elementos da população.


Breve descritivo de uma LDM – Lancha de Desembarque Média

Haverá algum militar que tenha estado na Guiné que não saiba o que é uma LDM – Lancha de Desembarque Média?



A LDM 302 navegando no Cacheu, junto ao tarrafo da margem. A – Poço(resguardado com chapa balística); B – Peça Oerlinkon; C – Tarrafo; D – Casa do leme; E – Bote de borracha; F – Porta de abater; G – WC.

Bem, são pequenas unidades navais que, em vez de proa têm uma “porta que rebate”, para permitir cargas e descargas de pessoas e mercadorias com a LDM “abicada” em terra. A zona das cargas, “o poço” , tem duas metralhadoras MG42, montadas uma em cada bordo, a vante.

No convés e frente à cabina, estava montada num reparo circular uma metralhadora anti-aérea Oerlikon de 20 mm e, mais à frente, por cima da cobertura do poço, havia um bote pneumático Zebro II. Junto à cabine de navegação e comando, ou melhor, casa do leme e comando das máquinas, havia ainda uma mesa para as refeições, justamente colocada frente à janela.

A casa de banho (WC), com esse nome (?), era simplesmente inexistente. Não passava de um simulacro - uma caixa metálica aberta - que permitia as necessidades básicas de forma simplificada.

A guarnição era constituída pelo Patrão, um Cabo de Manobra, um Telegrafista, 2 Artilheiros e 2 Fogueiros. Havia um permanente e grande companheirismo entre toda a guarnição que se alargava, durante a realização dos combóios, à escolta de Fuzileiros.


No Cacheu



Na imagem de cima, a caminho de Bissum, no trajecto entre a passagem de S. Vicente e a Foz do rio Armada, onde as coisas podiam realmente complicar-se. Notória, ainda, a descontracção do pessoal. Pode distinguir-se perfeitamente a capacidade de fogo da LDM com o armamento visível: a Oerlikon, com o cano ainda na vertical, a “basooka” em cima da cabina e uma das MG 42.



Nesta imagem de pormenor a LDM mantem-se ainda amarrada ao tarrafo, esperando a vinda da maré e a hora estipulada no "ORDMOVE".


"ORDMOVE"

Nas imagens seguintes, é possível verificar que todas as informações necessárias para a execução de todos os trabalhos eram definidas pelo "ORDMOVE":

Constituição do combóio e lanchas de apoio;
Comando, pessoal da Companhia de Fuzileiros e local de posse do comando;
Batelões, carga e locais de destino;
Articulação com forças de apoio;
Transporte de pessoal e cuidados a observar;













Nota
:

Nos combóios a Farim, ao oficial era poupada a viagem em LDM a partir de Bissau. Era transportado até Vila Cacheu, na avioneta da Marinha, um Auster Rallye, azul claro.


Cada operação tinha sempre como epílogo o respectivo relatório. Mas quem quiser escrever, com verdade, a história para a qual este relato pode ser uma fraca contribuição, não se poderá cingir aos arquivos. A verdadeira história está com as pessoas. É preciso ouvi-las contar o que lhes foi vedado escrever nos documentos criados para o efeito. Porquê?

Conveniências…

Alguns dos comboios do Cacheu até foram bem divertidos. Por exemplo, o "ORDMOVE" de um deles previa, e bem, que a carga a transportar para Bissum fosse levada até S.Vicente, ao contrário do que sempre acontecia, recorrendo a combóio de viaturas militares. Em S. Vicente as lanchas abicaram e começaram a receber a carga das "GMC" e das "BERLIET".

Previam-se quatro subidas do rio Armada (de que ninguém gostava), só que, às tantas, entre as indicações que os meus olhos liam e a carga que faltava, com um bocadito de esforço e com a água a bordejar, por cima, a linha de água inscrita nos flutuadores (depósitos de água) das LDM, consultados os Patrões, arriscámos fazer uma única viagem.




Padrão aos Descobrimentos em Vila Cacheu - "Por mares nunca dantes navegados..."

Dois meses depois fui chamado ao Estado-Maior. O oficial que fazia o controlo das operações, pelo menos destas, questionou-me sobre o facto de não ter feito as quatro viagens da praxe. Que não, tinha feito apenas uma.

“Porquê, perguntei?”

– “Então o Exército tem razão…

Caíu alguma carga ao rio?”

– “Não, nem uma única caixinha…”

O que aconteceu então? Ah!…, o responsável pela carga tinha traficado, entre Bissau e S.Vicente, quase todo o material que era suposto transportarmos para Bissum. Tinha-se desculpado com o oficial do combóio. A maior parte da carga tinha caído ao rio. Teve azar…

Mas no combóio seguinte as coisas foram ainda mais engraçadas. Como a subida do rio Armada, pelo menos naquela fase, tinha ganho algum sossêgo, resolveram (quem seria?) que as LDM escoltariam os próprios batelões até Bissum.

Chegada a hora da partida recusaram-se a avançar. “Que não entravam no Armada.” Seguiu-se uma troca longa de mensagens com Bissau seguidas de sessões de persuasão dos patrões dos batelões. “Que não, que não saíam dali.”




Ganturé - Em cima, um Land-Rover e a Messe e, em baixo, um abrigo. Hoje, tudo arrasado"



A quarta mensagem de Bissau dizia, preto no branco, que decidisse por mim. Foi o que quis ouvir, ler, sei lá... Lanchas a juzante de todos os batelões, expectantes, porque as lanchas aparentemente iam embora, meia volta, Oerlikons apontadas às ditas embarcações e, braço estendido, à boa moda Bonapartista, digo eu, "Todos à minha frente..." E foi um ver se te avias pelo rio Armada acima.

Mas agora,... talvez logo a seguir,... é claro que foi um risco que se correu escusadamente. Era já noite escura quando deixámos Bissum, guiados pela lua e pelas margens. Só que desta vez não se perdeu carga alguma...




Elísio Pires Carmona
2TEN FZ RN
15.º CFORN

(continua)

Fontes:
Texto compilado a partir de artigo e imagens cedidos pelo 2TEN FZ RN Elísio Pires Carmona, 15.º CFORN; restantes imagens de arquivo do autor cedidas pela Revista da Armada, Arquivo da Marinha, CAlm Joel Pascoal e CFR Abel de Melo e Sousa.


mls

18 maio 2020

Guiné, LFP «Aljezur» - P 1158


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 10 de Março de 2011)





Fontes:
Dicionário de Navios, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

14 maio 2020

Guiné - Navegação de Cabotagem e Batelões


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 26 de Agosto de 2010)





Fontes:
Texto do autor do blogue com fotos originais do Arquivo da Marinha, digitalizadas e adaptadas pelo autor;


mls

13 maio 2020

19.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Set1971


Post reformulado a partir de outro já publicado em 2010.07.23/2018.06.18





Fontes:
Texto do autor do blogue, compilado a partir de: Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Fuzileiros – Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Luis Sanches de Baêna, 2006; Arquivo de Marinha; Revista da Armada; Texto e Fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;


mls

11 maio 2020

Angola, LFP «Altair» - P 377


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Outubro de 2010)





Fontes:
"Dicionário de Navios", Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, 2005; "Anuário da Reserva Naval 1958-1975", Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Texto e fotos de arquivo do autor do blogue In Revista da Armada n.º 263, Fevereiro 94;


mls

10 maio 2020

NTM «Creoula», 2003 - Reserva Naval e Cabo Espartel

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 3 de Abril de 2012/23 de Setembro de 2018)






No ano em que o NTM «Creoula», UAM 201, antigo lugre da Frota Branca Portuguesa (Portuguese White Fleet) completava, em 10 de Maio seguinte, 75 anos de lançamento ao mar e ao serviço da Marinha Portuguesa, justo é que se exaltem também as missões de colaboração e treino de mar com a AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval que representavam, oficialmente, aquela histórica classe de oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa.

Será correcto que, nessa perspectiva, se considere como tantos outras unidades navais que tantos e bons serviços prestaram à Marinha e a Portugal, um navio Reserva Naval. Assim ficaram conhecidos navios onde se incluiram, destroyers, fragatas, navios-patrulhas, draga-minas, navios hidrográficos e auxiliares, lanchas de ficalização grandes e pequenas bem como também lanchas de desembarque grandes, médias e pequenas e, como não poderia deixar de ser, navios-escola.

Qualquer relato diferente ou oportuno registo fotográfico arrastará consigo uma referência ao “velho” lugre, justa homenagem a um navio que reflecte de forma única, na história que simbolicamente consigo transporta, num misto lendário de coragem e determinação, uma escola de marinheiros, disciplina, trabalho e sacrifício, a que corresponderam 37 campanhas bacalhoeiras que o «Creoula« já tinha cumprido na Gronelândia e Terra Nova, a última em 1973.

Em 1 de Junho de 1987 o navio foi formalmente entregue ao Ministério da Defesa Nacional passando a ser designado como Unidade Auxiliar de Marinha (UAM 201) e classificado como NTM - Navio de Treino de Mar.

Todos os anos, desde a Páscoa até Outubro, o navio realiza cruzeiros destinados a futuros profissionais do mar e a jovens interessados, os quais se integram na vida diária de bordo, desempenhando todas as tarefas necessárias. Têm sido inúmeras as missões desempenhadas nas áreas do ensino e da cultura com estas vertentes de formação e treino, algumas delas também com a AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval.

É de um antigo oficial da Reserva Naval o registo fotográfico exibido e o comentário abaixo que, em 2003, a sul do Algarve, algures entre Portimão e o Cabo Espartel – Tanger, cruzou o rumo do lugre no caminho para Marrocos. Como afirmou “... parecia o lago do Campo Grande e obrigámos um grumete a ir a correr à popa para arriar a bandeira, respondendo à nossa saudação...”, seguindo a mais antiga tradição naval.

Bem hajas Camarada e Amigo, continuas connosco «aragonez»!






O Cabo Espartel é um cabo situado na costa marroquina, perto de Tânger. No penhasco que ali se situa (a 110 m de altura sobre o mar), existe um farol cuja luz se pode ver a 23 milhas náuticas. Para sul, o terreno desce rapidamente dando lugar a uma planície, o que provoca a ilusão de que o cabo pareça uma ilha quando visto de alguns pontos. Antigamente, este cabo era conhecido como Cabo Ampelusia. Este ponto é um dos limites em terra do estreito de Gibraltar.
O local foi palco de confrontos navais famosas, como a Batalha do Cabo Espartel em 20 de Outubro de 1782, entre a esquadra franco-espanhola e a esquadra inglesa.
Posteriormente, uma outra batalha naval teve lugar ali, durante a Guerra Civil Espanhola, também denominada Batalha do Cabo Espartel, em 29 de Setembro de 1936, quando foi quebrado o bloqueio republicano do Estreito de Gibraltar, assegurando o suprimento das forças nacionalistas no Marrocos Espanhol.







Fontes:
Texto e imagens de arquivo do autor do blogue; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; http://pt.wikipedia.org/wiki/Cabo_Espartel; imagens cedidas gentilmente por Emídio Aragão Teixeira, 8.º CEORN, 2012;


mls