sexta-feira, julho 28, 2017

Angola - Fuzileiros portugueses voltam à "Pedra do Feitiço"


5 de Dezembro de 2009 - Fuzileiros portugueses voltam à "Pedra do Feitiço"

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Janeiro de 2010)





Eh pá! Já fiz duas comissões na Pedra do Feitiço!

É com esta pilhéria ou outras de cariz semelhante que, ainda hoje, os fuzileiros mais antigos tentam impressionar os mais modernos acerca da sua pretensa antiguidade. Ficou-lhes o jeito das conversas repetidamente ouvidas durante as longas noites de serviço ou à roda das mesas de bar em que, os que andaram por terras de Santo António do Zaire, agora Soyo.

Nas décadas de 60 e 70, davam largas à sua imaginação e contavam as suas aventuras africanas em relatos naturalmente envolvidos em alguma fantasia mas, no essencial, próximos da dura realidade que a guerra impunha e, também, com o mesmo intuito de impressionar a atenta assistência.




Os fuzileiros de todos os tempos, habituaram-se a ouvir falar da Pedra do Feitiço como se de um local mítico se tratasse onde todas as incursões, mesmo que imaginárias, são permitidas e tão válidas como as mais perigosas operações reais. Quando o tema é a Pedra do Feitiço, tudo se aceita e tudo se tolera numa complacência e tolerância quase doutrinárias.

Memórias de outros cenários de África permanecem, também, bem vivas nas conversas entre fuzileiros. Basta dar uma vista de olhos pelos muitos “blogs” criados pela comunidade FZ espalhada pelo mundo para o constatar mas parece-nos que, uma das que mais pontua no imaginário FZ, é mesmo a Pedra. Por isso, foi com uma ponta de emoção que, no dia 5 de Dezembro de 2009, seis Fuzileiros Portugueses demandaram e desembarcaram na Pedra do Feitiço.




A oportunidade surgiu da necessidade de, no âmbito da Cooperação Técnico-Militar, verificar as condições de treino bilateral na área operacional onde o Batalhão FZ Angolano mantém o seu dispositivo com a missão de patrulhar e fiscalizar o rio Zaire, desde a Foz até Noqui, para conter a infiltração de estrangeiros ilegais vindos da Republica Democrática do Congo ou de outros países a norte. Mudaram os tempos, mudou o contexto mas a missão dos Fuzileiros, no essencial, mantém-se naquela zona de fronteira estratégica para Angola.

O dia 5 de Dezembro de 2009 nasceu cinzento, parecendo querer carregar, ainda mais, a emoção que de todos nós se apoderara. O comandante Loureiro Nunes (LN), uma espécie de patrocinador e cicerone, que, cumprindo missão na Pedra do Feitiço, ali passou dois anos da sua juventude, exteriorizava essa mesma emoção “ rapaziada se eu começar a falar demais, dêem-me um toque”. E vários toques….foram necessários tal a vontade de tudo dizer, de tudo mostrar, enfim, de tudo reviver.




Acompanhados pelo comandante Bamba, comandante do Corpo de Fuzileiros de Angola e outros oficiais angolanos, largámos da Base Naval do Soyo e aí vamos nós, rio acima, em duas lanchas cedidas pelo LN que, qual velho marujo, manobrava habilmente uma delas. Máxima velocidade! Temos pela frente 60 milhas e não podemos deixar de fazer uma rápida passagem pela Ilha da Kissanga para cumprimentar os Fuzos que guarnecem aquela posição. Jamais nos perdoariam tendo em conta o isolamento em que se encontram.

Vencendo a fortíssima corrente, somos envolvidos pela beleza do mangal que, numa paleta policromática, avança pela margem continuamente ponteada de pequenos povoados de pescadores. Casas, tipo palafita, assentes em estacas cravadas em chão de “mabanga” sobrepõem-se à água. Porquê? Será para aproveitar o fresco das águas? Questões de segurança? Talvez?




A paragem na ilha da Kissanga foi rápida mas valeu a pena. Cenário idílico que tivemos de deixar para trás. O objectivo principal estava ainda bastante longe. Uma chuva quente e forte deixou-nos encharcados até aos ossos mas nada de desânimos. O magnífico sol africano se encarregará de resolver o problema logo a seguir. A vista espraia-se pelo imenso estuário e, ao longe, começa a vislumbrar-se a Pedra do Feitiço num cenário magnífico de calmaria das águas, do verde da vegetação que nelas se reflecte e das construções em anfiteatro numa ponta de terra que termina em enormes rochedos. Espectacular!

Saltamos para terra, estamos na Pedra do Feitiço. Um nervoso miudinho invade-nos a todos. Passado o impacto inicial soltam-se as emoções e é um tropel de informações que o LN começa a debitar. Parecia que ainda lá estava em comissão tal o realismo dos seus relatos. Mas os vestígios da passagem dos fuzileiros portugueses por aquelas paragens são ainda bem evidentes e preservados e falam por si. Os fuzileiros angolanos respeitam o passado preservando as inscrições, os registos pessoais e, em suma, tudo o que se relaciona com a nossa passagem por aquele local.




Mais calmos, sentados debaixo do cajueiro grande, bebemos uma cuca (cerveja angolana de grandes tradições) em fraterno convívio com os fuzileiros angolanos, apreciando a tranquilidade do local, olhando o rio espelhado e vivendo aquele momento místico, provavelmente irrepetível para nós.

Rapazes! Temos de regressar! Era a voz do LN …. Apesar da corrente, agora a favor, temos as tais sessenta milhas para percorrer e o almoço com o Vice-Almirante Comandante da Região Naval Norte, no Soyo, não espera.




Deixamos a Pedra do Feitiço com a alma lavada, na plena consciência de que, ao fazer esta visita, homenageamos, muito justamente, tantos quantos por aqui passaram, estejam eles onde estiverem.


Agradecimentos:
À Marinha de Guerra Angolana que autorizou a missão e a apoiou através da preciosa colaboração do Comandante da Região Naval Norte, VALM Valentim Alberto António.
Ao comandante Loureiro Nunes, de forma emocionada, cujo apoio com meios, disponibilidade pessoal e saber, foi fundamental para o sucesso do empreendimento a que nos propusemos.


Participaram nesta expedição pela parte portuguesa:
CMG FZ RN Loureiro Nunes – 19.º CFORN, CFR FZ RN Benjamim Correia – 23.º CFORN, CTEN FZ Clemente Gil, 2TEN ST FZ Figueiredo Pereira, 1SAR FZ Basílio Perfeito e CAB FZ Correia Alvélos


Benjamim Correia
CFR FZ RN, 23º CFORN


Fontes:
Texto e fotos do CFR FZ RN Benjamim de Jesus Correia, 23.º CFORN, compilados a partir de colaboração na Cooperação Técnico-Militar com Angola, Projecto 8 – Marinha.


mls

1 comentário:

jose disse...

Tambem lá setive com o Comadante L.Loureiro Nunes e formos os últimos a deixar CABINDA e mais tarde LuANDA quando da Independência

Saudações José Pirrolas Mar.F.Z.116/69