terça-feira, julho 04, 2017

Reserva Naval em Angola - DFE 6, 1973 / 75 (Parte I)


Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 6, «Os Tubarões»
Angola, 1973/75 – parte I


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Dezembro de 2009)




Distintivo do DFE-6, Angola 1973/75


O DFE-6 é reactivado e começa a ser organizado durante o primeiro semestre de 1973, na então Força de Fuzileiros do Continente, na Base Naval do Alfeite, local onde eram activadas e desactivadas as unidades de Fuzileiros que partiam ou regressavam do Ultramar.

Foi nomeado como seu comandante o 1TEN EMQ José Manuel Correia Graça e imediato o STEN FZE RN Sérgio Tavares de Almeida, pertencente ao 20.º CFORN (também conhecido, entre o pessoal por “negativo camarada”, pela forma como habitualmente respondia aos pedidos menos ortodoxos dos elementos do Destacamento).

Como 3.º e 4.º oficiais foram nomeados, respectivamente, os STEN FZE RN Jorge Manuel de Pina Paiva e Pona Franco e STEN FZE RN José António Ruivo, pertencentes ao 21.º CFORN e que tinham acabado de frequentar, em finais de Março, o respectivo curso de Fuzileiro Especial.




Em cima, os oficiais do DFE 6, Correia Graça, Paiva e Pona, um oficial do Exército da Companhia de Lumbala, José Ruivo, o oficial Comandante da Companhia de Lumbala e Sérgio Almeida e, em baixo, Sérgio Almeida, Paiva e Pona, José Ruivo, oficiais do DFE 6 e ainda Alberto Cavaco do pelotão de apoio da CF 1



Constituído o Destacamento, embarca para Luanda a 10 de Outubro de 1973, a bordo de um dos dois aviões Boing 707 de que a Força Aérea Portuguesa na altura dispunha. Uma vez em Luanda, o Destacamento fica instalado no aquartelamento de Belas, nos arredores da cidade.



Em cima, vista da cidade de Luanda e, em baixo, um pormenor da messe de Belas, nos arredores da cidade



O Imediato (Sérgio Almeida) e o 3.º oficial (Paiva e Pona), juntamente com metade da Unidade, seguem de imediato para o Chilombo, no Leste de Angola (saliente do Cazombo), onde iriam render o DFE 10, na altura sob o comando do 1TEN FZE RN António João Carreiro e Silva, pertencente ao 9.º CFORN.

A viagem foi feita num avião Noratlas da FAP até à Lumbala e depois em coluna de viaturas, num percurso de cerca de 30 kms, até ao aquartelamento do Chilombo. O Comandante e o 4.º oficial (José Ruivo), seguem com o resto da Unidade 15 dias depois, tendo efectuado o mesmo percurso.

A Lumbala foi o primeiro local de estacionamento de Fuzileiros no rio Zambeze, Leste de Angola. Mais tarde esse local foi ocupado pelo Exército, tendo os DFE’s passado a ocupar o Chilombo.



Em cima, o avião Noratlas na pista da Lumbala e, em baixo, um deslocamento em viaturas da Lumbala para o Chilombo



A razão da presença de Destacamentos de Fuzileiros Especiais naquela região, prendia-se com a necessidade de patrulhar o rio Zambeze e seus afluentes, numa tentativa de evitar a infiltração de elementos do MPLA, provenientes da Zâmbia, país onde tinham os seus santuários.

O aquartelamento do Chilombo ficava ao lado da aldeia (kimbo), com o mesmo nome, resultante da política de reagrupamento da população para efeitos de controlo, de modo a retirar ao inimigo essa vantagem.



Em cima, o aquartelamento do Chilombo junto ao rio Zambeze, vendo-se a LDP 208 em seco e, em baixo, uma festa “ronco”, na aldeia do Chilombo



Um pouco mais para Sudoeste era zona de actuação da UNITA, zona onde se encontrava outro Destacamento de Fuzileiros Especiais, no rio Lungué-Bungo.
O rio Zambeze atravessa o saliente do Cazombo, de Norte para Sul, passando depois pela Zâmbia, antes de entrar em Moçambique, desaguando no Oceano Índico.



Em cima, o mapa do saliente do Cazombo e, em baixo, o rio Zambeze próximo do Chilombo



Dois dos principais afluentes do rio Zambeze na região são o rio Luena e o Chifumage, que serviam igualmente como importantes vias de penetração de guerrilheiros. Durante boa parte do ano, correspondendo à época das chuvas, estes rios eram navegáveis pelos botes.

Foi numa das muitas curvas do rio Chifumage que, em 1968, uma patrulha de botes do DFE 2 sofreu forte emboscada a partir da margem, tendo resultado dois mortos. O STEN FZE RN João Manuel Sarmento Coelho, pertencente ao 10.º CFORN, foi gravemente ferido, atingido com mais de uma dúzia de tiros, tendo recuperado dos ferimentos.



O rio Luena, afluente do Zambeze, na época das chuvas

A navegabilidade do Zambeze estava muito dependente da época do ano. Durante 6 a 8 meses, correspondendo à época das chuvas, era navegável quer pelos botes quer pela Lancha de Desembarque Pequena, LDP 208, atribuída em permanência ao Chilombo. Estes eram os principais meios de deslocamento, quer para o lançamento de operações quer para o reabastecimento do DFE (que se efectuava a partir da Lumbala, situada 30 km a jusante e guarnecida por uma companhia de caçadores do Exército).



Em cima, a LDP 208 a navegar no rio Zambeze e, em baixo, uma patrulha de botes no mesmo rio



Durante mais 2 meses era ainda possível navegar com relativa facilidade com os botes (existiam dois modelos: pneumáticos “Zebro III” e de fibra, os “marujos”). Durante os meses restantes, correspondentes ao pico da época seca, eram difíceis as deslocações pelo rio, mesmo para os botes.

Nessa altura os deslocamentos, quer para o lançamento de operações quer para reabastecimento a partir da Lumbala, eram feitos essencialmente por coluna de viaturas, ficando então o pessoal mais exposto ao problema das minas (na época a principal actividade inimiga).

Durante uma operação na região Sul do saliente do Cazombo, já bastante próximo da fronteira com a Zâmbia, o pessoal do DFE caiu num campo minado, tendo o 1GRT FZE António Paulino Friezas, o “gago”, accionado uma mina anti-pessoal de que resultou a amputação de uma perna.



O Marinheiro Friezas (em primeiro plano), em patrulha no rio Zambeze

Durante o deslocamento em viaturas, para o lançamento de uma patrulha na zona da Mata do rio Matoche, a viatura em que seguia o STEN FZE RN Paiva e Pona accionou uma mina anti-carro, de que resultou a morte do condutor, MAR FZ Belo, o “cowboy”, e ferimentos ligeiros no oficial.

Foi também num deslocamento à Lumbala em coluna de viaturas, para reabastecimento, que em Junho de 1973 (4 meses antes da chegada do DFE-6), se deu a emboscada que vitimou o STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, do 18.º CFORN, o único oficial da Marinha morto em combate durante a guerra colonial.





Viaturas na zona da emboscada à coluna do STEN FZ RN António Piteira

José António Ruivo
CMG FZE - 21.º CFORN


(continua)

Fontes:
Texto e imagens do CMG José António Ruivo - 21.º CFORN.


mls

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