terça-feira, julho 17, 2018

Morrer no Cacheu - A Guerra na Guiné


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 31 de Julho de 2012, em memória dos que lá combateram e cairam. Igualmente lembrando os que, tendo regressado, já se não encontram entre nós.)


MORRER NO CACHEU - A GUERRA NA GUINÉ


Terça-feira
Revista do EXPRESSO, 31 de Março de 2001
Artigo de Rui Araújo





Rio Cacheu: o grupo de fuzileiros aguarda numa das margens a chegada da lancha



A lancha de desembarque, LDM 302, atingida pelo fogo dos guerrilheiros, parcialmente submersa


Às 09:20 do dia 19 de Dezembro de 1967, os guerrilheiros do PAIGC abrem fogo com armas pesadas e ligeiras contra a LDM 302 (Lancha de Desembarque Média) em frente da Clareira de Porto do Coco, no rio Cacheu. O primeiro foguete de um RPG 7 rebenta com a casa dos motores. O segundo atinge em cheio a cabine onde está o patrão Domingos Lopes Medeiros.

Estivemos 20 minutos debaixo de fogo. Ficou tudo destruído: o rádio, os taquímetros, não havia nada em condições. A lancha parou, e como a maré estava vazia assentou no lodo, à ré. A casa das máquinas ficou também logo alagada. E ninguém podia fazer nada. Toda a gente estava com estilhaços no corpo. Foi aí que dei com o patrão Medeiros caído. Quando o agarrei pelos braços para o levantar, as pernas caíram para o chão. Estava cortado ao meio, conta o marinheiro Joaquim Claudino da Silva, agora 1º tenente do Corpo de Fuzileiros, antes de mostrar a fotografia da LDM 302 encalhada no Cacheu.

Lopes Medeiros é o último militar português a morrer em combate na Guiné, no ano de 1967. O patrão da LDM 302 estava a pensar regressar daí a uns dias a Chaves. A comissão de 24 meses no Ultramar estava quase terminada.




Fuzileiros da Armada, no rio Cacheu, durante a operação.



Atraquei na ponte-cais de Binta às 9h20 mas fiquei lá pouco tempo. Depois do estrondo das explosões e dos tiros da 302, decidi largar. Entrei na zona perigosa às 11h00. O rio estava calmo, pelo que, a essa hora, foi servido o almoço: bacalhau cozido com grão e batatas. Às 11h40, o Costa (que ia ao leme) avistou a 302 afundada, com a popa debaixo de água. E não havia ninguém à vista. Como a lancha se encontrava mesmo em frente da Clareira de Porto do Coco, esperei que a corrente a levasse para um sítio mais seguro no meio do tarrafe (arbusto conhecido em África por mangal) antes de me aproximar para ver o que tinha acontecido. E, enquanto Claudino da Silva comunicava com Bissau, o marinheiro Conceição prendia um cabo à lancha para a rebocar.

Quinhentos metros depois da Clareira, vi o bote da 302 a sair do tarrafe com quatro homens a bordo. No fundo do bote, estava o Medeiros morto, com os intestinos caídos, ao lado. Nem me quero lembrar disto, conta Domingos da Conceição Capelinha, patrão da LDM 204, num diário de bordo escrito metodicamente, dia após dia, durante 25 longos meses feitos de patrulhas e operações nos rios Cacheu e Armada, no norte da Guiné. O pessoal das lanchas era o mais sacrificado. E tanto assim que todos preferiam andar no Destacamento.

A LDM 302 é rebocada para Ganturé: uma aldeia com quatro ou cinco barracões da CUF, abandonados, e uma ponte de cais degradado que ainda permite a uma lancha atracar.

Quando o Carvalho saltou para a 302 para manobrar os cabos de reboque ou ir lá buscar qualquer coisa, a lancha virou-se e ele, não sei como, ou nadava mal ou se enervou, desapareceu. É provável que tenha sido apanhado por um crocodilo porque ali havia muitos. A verdade é que o grumete artilheiro da 302 sumiu, nunca mais voltou a aparecer. Escapou ao ataque mas não sobreviveu ali, a dois ou três metros de terra, que era a distância a que ele estava do cais. Tinha os dias de vida contados, naquela hora, escreve o cabo Capelinha na letra íntima da indignação contida, porque injustiças daquelas só podem pertencer decididamente ao sagrado.



O aquartelamento de Ganturé onde, a poucos metros da margem, morreu um dos militares envolvidos na operação

A essa hora, em Lisboa, Salazar recebe Bruno Heck, ministro alemão da Família e da Juventude. A audiência concedida pelo Presidente do Conselho é qualificada de cordial, na edição do Diário de Notícias, do dia seguinte.

É o fim de mais uma tarde de invernia na capital. Salazar e Heck começam a dar alguns passos arrastados no cenário triste do jardim da residência, sobe o pano no Palácio das Necessidades para uma outra representação providencial: a conferência de imprensa anual do ministro dos Negócios Estrangeiros para «os representantes portugueses e estrangeiros dos órgãos de informação». O sr. Dr. Franco Nogueira, ladeado pelo secretário nacional da Informação, sr. Dr. Moreira Baptista, e pelo secretário-geral do seu Ministério, sr. Embaixador José Luís Archer, toma a palavra.

Fomos acusados talvez pela centésima vez, de não cumprirmos as resoluções da Assembleia da ONU sobre autodeterminação. A acusação é inteiramente procedente; nunca nos propusemos cumprir tais resoluções, nem nos propomos fazê-lo, e sempre o dissemos lealmente e categoricamente logo de início. Só será de estranhar que, tendo os ataques começado em 1955, vá a Assembleia há quase doze anos perdendo connosco o seu tempo; mas não tem isso importância de maior, porque entretanto, nós vamos ganhando tempo.

Há declarações que com o tempo e a distância acabam por adquirir a solidez de um testamento. Para Franco Nogueira, a primeira frente da nossa guerra em terras de África está na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. A segunda está em Moscovo e acessoriamente em Conacri e em Dacar.

No norte da Guiné, Amílcar Cabral pega num carregador de 71 munições para a PPSH (700/900 tiros por minuto) e inicia mais uma reunião num mangal com o grupo das FARP - os guerrilheiros do PAIGC - que estão a operar na região.

Os rios devem ser vigiados por unidades especiais cuja única missão será destruir à 'bazookada' os barcos portugueses. Ouvimos o motor no rio e a 'bazooka'. Eu repito: podemos fazer mais. Temos que correr com os portugueses. Os barcos não podem continuar a passar, ordena Cabral aos seus guerrilheiros.

A estação das chuvas está praticamente terminada. A época do no pincha tugas (correr com os «portugas») vai começar a sério na Guiné, apesar das divergências internas com as quais o PAIGC está confrontado.

Até 1966, vivendo com grupos itinerantes e necessitando arrastar as populações para o seu seio, predominaram as acções de reacção às NF (Nossas Forças), através de emboscadas e flagelações, acções de saque e destruição junto de populações e tabancas. A partir daí, criado o EP (Exército Popular), pondo as 'unidades' deste a trabalhar em zonas próprias, veio a verificar-se um aumento de acções contra aquartelamentos, em tentativas de fixação, de modo a garantir liberdade de actuação nas suas áreas, lê-se num documento «classificado» do Exército português.

A prioridade é garantir os abastecimentos e para tal é essencial controlar também os rios do norte - Cacheu, Sambuiá, Armada.

De acordo com um outro documento militar «secreto», as cambanças (passagem de uma margem para a outra) no corredor de Sambuiá, considerado o principal corredor de penetração do PAIGC entre o Senegal e a Guiné, representam também uma preocupação para o Comando Operacional português.

As forças portuguesas (sobretudo terrestres) também dependem das vias fluviais num território «recortado por diversos rios navegáveis e sujeitos a marés de elevada amplitude». E dependem acessoriamente das lanchas que permitem fazer a ligação entre os diferentes pontos do território, quer na óptica militar, quer na óptica civil, como alternativa a uma insuficiente rede de estradas e a uma insegurança militar crescente para as duas partes em confronto.

De facto, as lanchas representam em algumas áreas a única forma de suporte logístico: da sua capacidade dependia o êxito de inúmeras missões, a vida de muitos homens e a chegada ao destino de milhares de toneladas de material de guerra e de abastecimento, explica ainda Lopes Carvalheira, na Revista da Armada (nº 292).



Em cima, um protótipo da lancha de desembarque atingida e, em baixo, armamento apreendido aos guerrilheiros do PAIGC


Três ou quatro dias depois do ataque, 35 fuzileiros do DFE 12 chegam a Ganturé (Porto de Bigene) com a missão específica de garantir a segurança do cais e permitir a recuperação da LDM 302. Ou do que ainda resta da lancha, uma das 13 LDM construídas nos EUA e modernizada nos Estaleiros Navais de Argibay. A lancha foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada por portaria de 18 de Janeiro de 1964. Pouco depois seguiu para a Guiné a bordo de um navio mercante, tendo chegado a Bissau no dia 23 de Fevereiro de 1964, escreve Malheiro do Vale, no número 279 da Revista da Armada.

24 de Dezembro de 1967. No Cacheu, é só mais um domingo como os outros porque esta guerra como tantas outras não se rege pelo calendário gregoriano. E hoje, aqui, no meio do rio, não há ceia, não há consoada nem 'missa do galo', e muito menos prendas. O jantar foi feijão-frade com atum, uma garrafa de anis e outra de uísque para se beber um cálice. Às 20:00 deitei-me. Era mais uma noite de nevoeiro. Às 22:00 recebo uma mensagem para esperar por uma avioneta que levaria três urnas e ir ao quartel de Bissum buscar os três soldados mortos, escreve, inconformado, o patrão da LDM 204, sem reparar que a chapa da lancha já está a precisar de ser actualizada há uma data de meses (que aqui acabam sempre por ser uma eternidade).

Às 03:30 do dia 26 de Dezembro, os obuses dos aquartelamentos de Bissum e Bula começam a vomitar fogo. Com aqueles estrondos relativamente perto, pouco dormi. E de manhã, terei de ir buscar mais mortos, escreve o Capelinha no seu diário, sem descortinar outra solução para aquela vida. Sempre cuidou que a única coisa que levava dali era a consciência do dever cumprido. No fim de contas, a divisa da Armada A Pátria honrai que a Pátria vos contempla ainda o interpelava.

No dia 31 de Dezembro, Capelinha decide dar por terminada a sua noitada de réveillon - a roupa está-lhe tão colada ao corpo com o calor e a humidade que parece que é a pele. Depois de jantar mais uma vez, feijão frade com atum, escreve algumas palavras simples e nítidas na página 28 do diário de guerra: Assim findo o ano de 1967. Domingos da Conceição Capelinha. C/M Nº 395955 L.D.M. 204 – Esquadrilha de Lanchas da Guiné. O patrão da 204 coloca o diário no cacifo, apaga a luz, instala o mosquiteiro a modos, puxa do lençol e adormece.

Em Lisboa, o programa de variedades Minuto Zero - com Raul Solnado, Armando Cortez, Francisco Nicholson, Delfina Cruz; as cançonetistas Maria da Glória, Mário Melo, Mimi Gaspar e Simone de Oliveira; os fadistas Carlos do Carmo, Teresa da Silva Carvalho, dr. Luís Góis e o seu conjunto de guitarras, o de Raul Nery e o Duo Ouro Negro - já está no ar no único canal da RTP. É, aliás, o principal programa do segundo período de emissão da Televisão. A guerra só recomeçará amanhã com o programa das FA Ao Serviço da Nação (no segundo período de emissão, com imagem de João Rocha e João Lourenço).

Segunda-feira, 1 de Janeiro de 1968. Às 5h30 começo a ouvir rajadas de metralhadora e rebentamentos em frente do quartel na Mata de Óio. Pensei: aí estão eles, e adormeci, escreve Capelinha.

Em 1968, 78% do orçamento português da Defesa servem para financiar a manutenção e a administração das Forças Armadas estacionadas em África», constata o Stokholm International Peace Research Institute. É um esforço tanto mais significativo quanto Portugal depende essencialmente dos fornecimentos estrangeiros. Mas, apesar das resoluções sempre ambíguas da ONU (31/12/63), não é menos certo que poucos Estados membros continuam a aprovisionar legalmente Lisboa. Só a Alemanha, a Espanha e a França continuam a abastecer Portugal, algumas vezes de forma envergonhada. A França, por exemplo, forneceu a Portugal mais de uma centena de helicópteros «Alouette», depois de 1963. E o regime transfere legalmente este armamento para as suas províncias ultramarinas, aliás, parte integrante do território nacional...

Na Guiné, os fuzileiros especiais (ou navais) dispõem essencialmente de metralhadoras MG, lança-granadas foguetes 'Instalaza' (de fabrico espanhol) que, quando utilizados com as granadas antipessoal e as espingardas automáticas G-3, constituem um armamento perfeitamente adequado para a guerra de guerrilha. Os sistemas de comunicações, pelo contrário, nem sempre correspondem às expectativas.

Já o número de efectivos das FARP (e respectivo potencial de combate) é uma incógnita : restam as estimativas dos militares.

Um documento classificado das Forças Armadas indica que «as características próprias da guerrilha e descontinuidade e fluidez da actuação dos grupos inimigos não permite precisar os efectivos empenhados na luta
.

Só as estimativas permitem esclarecer em definitivo o problema, porquanto os grupos armados enquadram militares treinados no exterior e infiltrados na Província, indivíduos recrutados e treinados sumariamente no interior da Província e ainda elementos de populações controladas. Pode até dizer-se que nas zonas activas de guerrilha, todo o autóctone é um In(imigo, NDR) potencial.

Alguns documentos referem a existência de 9.000 combatentes do PAIGC, sendo 3.000 do Exército Popular e 6.000 da guerrilha popular, entre 1966 e 1967. Uma coisa porém é certa: com o tempo, o número de efectivos do PAIGC continuou a aumentar, tanto no interior como no exterior do território, designadamente nas bases de apoio de Konakry, Boké e Kandiafara.



Nesta e nas outras duas imagens abaixo, os fuzileiros durante a operação no rio Cacheu

De acordo com o testemunho oral (confidencial) da Academia de Marinha do primeiro-tenente Nuno Gonçalo Vieira Matias, comandante do Destacamento Nº 13 de Fuzileiros Especiais (hoje, chefe de Estado-Maior da Armada) os guerrilheiros tinham muito armamento, sobretudo russo, checoslovaco e chinês (de todas as épocas) para além de aparecer uma arma ou outra obtida no mercado internacional - como as pistolas metralhadoras Thompson» - de origem americana.

Um outro relatório reservado das FA descreve, exaustivamente, o potencial das FARP: Utilizando armamento de muitas origens e procedências, presentemente, verifica-se uma maior incidência de armamento russo e países satélites, perfeitamente adequado à guerra que desenvolve. O In apoia-se ainda em técnicos cubanos, existentes em TN (Território Nacional) e no estrangeiro, para melhoria das condições imediatas de utilização do armamento de que dispõe, nomeadamente de armamento pesado. Podem apreciar-se as seguintes fases de apreciação de armamento In: 1ª fase: no início da luta armada, em 1963 e início de 1964, o armamento inimigo caracterizava-se por armas caçadeiras e gentílicas e ainda pistolas, pistolas-metralhadoras, espingardas, granadas de mão e alguns engenhos explosivos; 2ª fase: desde 1964 e até meados de 1966, caracterizado pelo aparecimento de armas pesadas, morteiros 82 e metralhadoras pesadas, bem assim um longo emprego de engenhos explosivos. No final de 1964, assistiu-se ao abandono das armas gentílicas e caçadeiras, sendo estas substituídas por armas automáticas, semi-automáticas e de repetição.

Os portugueses notaram desde Junho de 1966 uma forte melhoria no material pesado (canhões sem recuo e morteiros 120) culminando com o aparecimento de foguetes 120 mm.

Para além da URSS, há mais países a apoiar convictamente as FARP. Um documento classificado revela que os guerrilheiros receberam em 1961 cursos de guerra subversiva (adaptados às características da Guiné) na Checoslováquia, China e Gana, constituindo este o primeiro apoio concreto ao 'partido', feito por países estrangeiros» e, em 1962, ao mesmo tempo que são capturadas as primeiras armas de origem soviética, é também referenciada nova estadia de elementos do PAIGC recebendo instrução de guerra subversiva nos três países já referidos e também em Marrocos, no Mali e na Guiné-Conacri, onde a instrução foi ministrada por argelinos que para o efeito ali se encontravam radicados.

A partir de 1963, ano em que as actividades do inimigo atingem já uma expressão muito significativa - largo uso de armas automáticas e emprego de minas anticarro -, o PAIGC continuou a contar com o auxílio permanente e diversificado dos países já citados (o apoio do Gana só até à queda de N'Krumah) e ainda da Bulgária, RDA, Hungria, Cuba e predominantemente da URSS. E de mais alguns países europeus. Cabral conta ainda com a solidariedade política e material de várias organizações internacionais, designadamente da OUA.

Sábado, 20 de Julho de 1968. Às 23h45 ouvimos um rebentamento e logo a seguir o assobio da carga e o estrondo a uns 50 metros da proa da lancha. Corremos todos para fora do abrigo. A lancha estremeceu. Os fuzileiros também estavam debaixo de fogo. Os rebentamentos do canhão sem recuo continuaram. Os malditos turras não arredavam pé, deviam estar a bater a zona. O patrulha 'Lira' bombardeou então a clareira e aquela cambada de cobardolas que só actuava à traição desandou. Só mesmo assim é que podiam ganhar a guerra, escreve o patrão da LDM 204, revoltado e ao mesmo tempo impotente, certamente por desconhecer Clausewitz e Sun Tzu.

Sábado, 27 de Julho. Bolama, Bolama de Baixo, Uato, Mandinga, Areia Branca, Jabicunda, Canena, Nova Sintra e Cacheu recebem a visita do governador e comandante-chefe da Guiné, brigadeiro António de Spínola, no prosseguimento dos seus contactos directos com as populações e Forças Armadas, comunica a agência noticiosa ANI.

Na altura em que o chefe da província está a efectuar um reconhecimento aéreo do rio Cacheu e do corredor de Sambuiá, o patrão da lancha 204 está a contas com algo mais prosaico: os mosquitos. Estava cheio de comichão de picadelas de mosquitos. Às 14:30 larguei com os fuzileiros do DFE 12. Começou a chover a cântaros.

O segundo-tenente Pedro Serradas Duarte (hoje, capitão de fragata já reformado), imediato do DFE 12 e que na altura comandava o destacamento (cujo comandante era Fernando Gomes Pedrosa), determina que um grupo de 21 fuzileiros especiais comandados por Benjamim Lopes de Abreu parta em sete zebros (botes de borracha com motores de 50 cv) para o rio Tancroal. Missão: montar mais uma emboscada.

Era mais uma operação em que estávamos a atingir objectivos concretos: destruir os meios de cambança. O pessoal emboscado começa a ser atingido por canhão sem recuo, morteiro e metralhadoras pesadas, para além dos inevitáveis tiros de armas ligeiras. Mas tinham que sair dali sem utilizar os motores para não denunciarem a sua posição. A LFG do comandante Dias Souto avançou, entretanto, para a Clareira do Tancroal em simultâneo com 2 LDM e 1 LF, que abriram fogo contra as forças atacantes referenciadas pelo clarão dos disparos do canhão sem recuo. E os fuzileiros lá conseguiram sair do rio. Era mais um ataque por força do sucesso que a operação 'Via Láctea' estava a ter, dada a impossibilidade de o PAIGC fazer chegar ao interior da Guiné o material de guerra de que tanto carecia, conta Serradas Duarte.



Cinco semanas antes tinha começado uma das maiores operações de sempre (decidida por Spínola), destinada a impedir a entrada e a circulação de material do PAIGC.

De acordo com um documento secreto, o corredor das cambanças de Sambuiá era a principal preocupação do Comandante-Chefe. O corredor começava na região de Samine (no Sul do Senegal), passava por Cumbamory e acabava no rio Cacheu. Era aqui que os guerrilheiros cambavam o material de canoa entre Porto de Coco e Porto da Ponta do Pau.

Em 1968, o PAIGC dispõe no sector de Sambuiá de dois bigrupos (cada um deles com 52 homens) que têm por missão proteger as colunas de abastecimento. No sector de Morés existe outro bigrupo e no sector de Biambi mais um. Junto à margem sul do Cacheu opera ainda o grupo de artilharia (comandado por Irénio do Nascimento Lopes, mais conhecido por Réni) cuja principal missão é atacar a navegação portuguesa. A LDM 302 afundada é uma das lanchas que este grupo atacou.

Um documento militar a que o Expresso teve parcialmente acesso indica que o General Spínola mandou quatro Companhias do Exército executar uma operação na península de Sambuiá. A operação não teve sucesso (apagado). O General Spínola deu ordem à Marinha para executar uma operação na mesma península quatro dias depois. Foram utilizados dois Destacamentos, o DFE 13, que seguiu ao longo de um dos rios, e o DFE 12, sob o comando do primeiro-tenente Gomes Pedrosa (um extraordinário combatente) que seguiu junto do outro rio, e conseguiram um sucesso pela surpresa, trazendo populações e sobretudo obtendo informações que mais tarde vieram a permitir que fizessem, talvez, a maior captura de armamento de toda a história do conflito em África.

Por essa razão, dois comandantes de sector do PAIGC foram fuzilados a mando de Nino Vieira. Ansumane Mané confessou, anos mais tarde, que Nino também o queria matar porque os tugas apanharam o material todo. De qualquer modo, a operação terá tido como resultado a extinção quase total dos ataques do PAIGC a sul do rio Cacheu.

Nos jornais da capital, a única informação sobre a Guiné é um comunicado lacónico das Forças Armadas: Morreram em combate o primeiro-cabo 01357567 António André Santos, natural de Vila Nova de Gaia e o soldado da milícia Iero Cajiko.

A actualidade é dominada pelo fogo na Serra do Trancoso (destaque para uma reportagem do jovem jornalista Carlos Pinto Coelho, enviado especial do Diário de Notícias: Costa imensa, calçada de negro. Pedras erguidas como muros, serra acima, e também elas tela do mesmo pintor em fúria: o lume. Por sobre cinza e troncos carbonizados a pedra causticada - a prostração de corpos, o esgotamento de espíritos.), a nomeação de monsenhor Lopes da Cruz para prelado consultor da Comissão Pontifícia e o artigo do «The Tablet» do deputado britânico John Biggs-Davison, publicado no Diário de Notícias: As superpotências pretendem dominar o Mundo, e a África é rica em minerais, em portos e em posições de decisiva vantagem estratégica. Os portugueses já estavam na Guiné quando fomos vencidos na Guerra dos Cem Anos.




Quinta-Feira, 10 de Outubro. Às 08:30 desembarcou metade do Destacamento de Fuzileiros. Estávamos ainda em Bigene quando demos com um turra morto que estava a ir rio abaixo. Tinha dentro de um saco de pergamóide uma máquina fotográfica municiada de tripé, binóculos, uma bússola, uma pistola e uma série de livros de comunismo. O corpo seguiu com a corrente, escreve Capelinha.

Terça-Feira, 23 de Outubro. Às 22h embarco no 'Alfredo da Silva' com destino a Lisboa. Arrumo as minhas coisas no camarote número 20 e subo ao convés para fazer adeus a Bissau.

Quarta-Feira, 1 de Novembro. Entro em casa às 21h, e dou por findo o meu diário de dois anos na guerrilha na província da Guiné Portuguesa.




Fontes:
Texto e imagens compilados integralmente, com a devida autorização e agradecimento pessoal ao jornalista Rui Araújo, a partir do seu artigo publicado na revista do "Jornal Expresso" de 31 de Março de 2001, reportando-se todos os acontecimentos referenciados a essa data de relato;


mls

2 comentários:

Aragão Teixeira disse...

Magnífico!
Os tempos do passado estão a ser julgados pelos parâmetros de hoje, do mesmo modo que espero que os "tugas" do futuro se arrepiem perante os dos nossos dias.
Mas, com razão ou sem ela, orgulho-me de ter servido ao lado e ao mesmo tempo dos Homens que hoje relembras.
Hoje, a tristeza de ser parte de um povo que nada tem para contemplar.
Nem o espelho da Pátria.

francisco gracio disse...

...EU ESTAVA LA. DFE 6