17 julho 2018

Morrer no Cacheu - A Guerra na Guiné


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 31 de Julho de 2012, em memória dos que lá combateram e cairam. Igualmente lembrando os que, tendo regressado, já se não encontram entre nós.)


MORRER NO CACHEU - A GUERRA NA GUINÉ


Terça-feira
Revista do EXPRESSO, 31 de Março de 2001
Artigo de Rui Araújo





Rio Cacheu: o grupo de fuzileiros aguarda numa das margens a chegada da lancha



A lancha de desembarque, LDM 302, atingida pelo fogo dos guerrilheiros, parcialmente submersa


Às 09:20 do dia 19 de Dezembro de 1967, os guerrilheiros do PAIGC abrem fogo com armas pesadas e ligeiras contra a LDM 302 (Lancha de Desembarque Média) em frente da Clareira de Porto do Coco, no rio Cacheu. O primeiro foguete de um RPG 7 rebenta com a casa dos motores. O segundo atinge em cheio a cabine onde está o patrão Domingos Lopes Medeiros.

Estivemos 20 minutos debaixo de fogo. Ficou tudo destruído: o rádio, os taquímetros, não havia nada em condições. A lancha parou, e como a maré estava vazia assentou no lodo, à ré. A casa das máquinas ficou também logo alagada. E ninguém podia fazer nada. Toda a gente estava com estilhaços no corpo. Foi aí que dei com o patrão Medeiros caído. Quando o agarrei pelos braços para o levantar, as pernas caíram para o chão. Estava cortado ao meio, conta o marinheiro Joaquim Claudino da Silva, agora 1º tenente do Corpo de Fuzileiros, antes de mostrar a fotografia da LDM 302 encalhada no Cacheu.

Lopes Medeiros é o último militar português a morrer em combate na Guiné, no ano de 1967. O patrão da LDM 302 estava a pensar regressar daí a uns dias a Chaves. A comissão de 24 meses no Ultramar estava quase terminada.




Fuzileiros da Armada, no rio Cacheu, durante a operação.



Atraquei na ponte-cais de Binta às 9h20 mas fiquei lá pouco tempo. Depois do estrondo das explosões e dos tiros da 302, decidi largar. Entrei na zona perigosa às 11h00. O rio estava calmo, pelo que, a essa hora, foi servido o almoço: bacalhau cozido com grão e batatas. Às 11h40, o Costa (que ia ao leme) avistou a 302 afundada, com a popa debaixo de água. E não havia ninguém à vista. Como a lancha se encontrava mesmo em frente da Clareira de Porto do Coco, esperei que a corrente a levasse para um sítio mais seguro no meio do tarrafe (arbusto conhecido em África por mangal) antes de me aproximar para ver o que tinha acontecido. E, enquanto Claudino da Silva comunicava com Bissau, o marinheiro Conceição prendia um cabo à lancha para a rebocar.

Quinhentos metros depois da Clareira, vi o bote da 302 a sair do tarrafe com quatro homens a bordo. No fundo do bote, estava o Medeiros morto, com os intestinos caídos, ao lado. Nem me quero lembrar disto, conta Domingos da Conceição Capelinha, patrão da LDM 204, num diário de bordo escrito metodicamente, dia após dia, durante 25 longos meses feitos de patrulhas e operações nos rios Cacheu e Armada, no norte da Guiné. O pessoal das lanchas era o mais sacrificado. E tanto assim que todos preferiam andar no Destacamento.

A LDM 302 é rebocada para Ganturé: uma aldeia com quatro ou cinco barracões da CUF, abandonados, e uma ponte de cais degradado que ainda permite a uma lancha atracar.

Quando o Carvalho saltou para a 302 para manobrar os cabos de reboque ou ir lá buscar qualquer coisa, a lancha virou-se e ele, não sei como, ou nadava mal ou se enervou, desapareceu. É provável que tenha sido apanhado por um crocodilo porque ali havia muitos. A verdade é que o grumete artilheiro da 302 sumiu, nunca mais voltou a aparecer. Escapou ao ataque mas não sobreviveu ali, a dois ou três metros de terra, que era a distância a que ele estava do cais. Tinha os dias de vida contados, naquela hora, escreve o cabo Capelinha na letra íntima da indignação contida, porque injustiças daquelas só podem pertencer decididamente ao sagrado.



O aquartelamento de Ganturé onde, a poucos metros da margem, morreu um dos militares envolvidos na operação

A essa hora, em Lisboa, Salazar recebe Bruno Heck, ministro alemão da Família e da Juventude. A audiência concedida pelo Presidente do Conselho é qualificada de cordial, na edição do Diário de Notícias, do dia seguinte.

É o fim de mais uma tarde de invernia na capital. Salazar e Heck começam a dar alguns passos arrastados no cenário triste do jardim da residência, sobe o pano no Palácio das Necessidades para uma outra representação providencial: a conferência de imprensa anual do ministro dos Negócios Estrangeiros para «os representantes portugueses e estrangeiros dos órgãos de informação». O sr. Dr. Franco Nogueira, ladeado pelo secretário nacional da Informação, sr. Dr. Moreira Baptista, e pelo secretário-geral do seu Ministério, sr. Embaixador José Luís Archer, toma a palavra.

Fomos acusados talvez pela centésima vez, de não cumprirmos as resoluções da Assembleia da ONU sobre autodeterminação. A acusação é inteiramente procedente; nunca nos propusemos cumprir tais resoluções, nem nos propomos fazê-lo, e sempre o dissemos lealmente e categoricamente logo de início. Só será de estranhar que, tendo os ataques começado em 1955, vá a Assembleia há quase doze anos perdendo connosco o seu tempo; mas não tem isso importância de maior, porque entretanto, nós vamos ganhando tempo.

Há declarações que com o tempo e a distância acabam por adquirir a solidez de um testamento. Para Franco Nogueira, a primeira frente da nossa guerra em terras de África está na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque. A segunda está em Moscovo e acessoriamente em Conacri e em Dacar.

No norte da Guiné, Amílcar Cabral pega num carregador de 71 munições para a PPSH (700/900 tiros por minuto) e inicia mais uma reunião num mangal com o grupo das FARP - os guerrilheiros do PAIGC - que estão a operar na região.

Os rios devem ser vigiados por unidades especiais cuja única missão será destruir à 'bazookada' os barcos portugueses. Ouvimos o motor no rio e a 'bazooka'. Eu repito: podemos fazer mais. Temos que correr com os portugueses. Os barcos não podem continuar a passar, ordena Cabral aos seus guerrilheiros.

A estação das chuvas está praticamente terminada. A época do no pincha tugas (correr com os «portugas») vai começar a sério na Guiné, apesar das divergências internas com as quais o PAIGC está confrontado.

Até 1966, vivendo com grupos itinerantes e necessitando arrastar as populações para o seu seio, predominaram as acções de reacção às NF (Nossas Forças), através de emboscadas e flagelações, acções de saque e destruição junto de populações e tabancas. A partir daí, criado o EP (Exército Popular), pondo as 'unidades' deste a trabalhar em zonas próprias, veio a verificar-se um aumento de acções contra aquartelamentos, em tentativas de fixação, de modo a garantir liberdade de actuação nas suas áreas, lê-se num documento «classificado» do Exército português.

A prioridade é garantir os abastecimentos e para tal é essencial controlar também os rios do norte - Cacheu, Sambuiá, Armada.

De acordo com um outro documento militar «secreto», as cambanças (passagem de uma margem para a outra) no corredor de Sambuiá, considerado o principal corredor de penetração do PAIGC entre o Senegal e a Guiné, representam também uma preocupação para o Comando Operacional português.

As forças portuguesas (sobretudo terrestres) também dependem das vias fluviais num território «recortado por diversos rios navegáveis e sujeitos a marés de elevada amplitude». E dependem acessoriamente das lanchas que permitem fazer a ligação entre os diferentes pontos do território, quer na óptica militar, quer na óptica civil, como alternativa a uma insuficiente rede de estradas e a uma insegurança militar crescente para as duas partes em confronto.

De facto, as lanchas representam em algumas áreas a única forma de suporte logístico: da sua capacidade dependia o êxito de inúmeras missões, a vida de muitos homens e a chegada ao destino de milhares de toneladas de material de guerra e de abastecimento, explica ainda Lopes Carvalheira, na Revista da Armada (nº 292).



Em cima, um protótipo da lancha de desembarque atingida e, em baixo, armamento apreendido aos guerrilheiros do PAIGC


Três ou quatro dias depois do ataque, 35 fuzileiros do DFE 12 chegam a Ganturé (Porto de Bigene) com a missão específica de garantir a segurança do cais e permitir a recuperação da LDM 302. Ou do que ainda resta da lancha, uma das 13 LDM construídas nos EUA e modernizada nos Estaleiros Navais de Argibay. A lancha foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada por portaria de 18 de Janeiro de 1964. Pouco depois seguiu para a Guiné a bordo de um navio mercante, tendo chegado a Bissau no dia 23 de Fevereiro de 1964, escreve Malheiro do Vale, no número 279 da Revista da Armada.

24 de Dezembro de 1967. No Cacheu, é só mais um domingo como os outros porque esta guerra como tantas outras não se rege pelo calendário gregoriano. E hoje, aqui, no meio do rio, não há ceia, não há consoada nem 'missa do galo', e muito menos prendas. O jantar foi feijão-frade com atum, uma garrafa de anis e outra de uísque para se beber um cálice. Às 20:00 deitei-me. Era mais uma noite de nevoeiro. Às 22:00 recebo uma mensagem para esperar por uma avioneta que levaria três urnas e ir ao quartel de Bissum buscar os três soldados mortos, escreve, inconformado, o patrão da LDM 204, sem reparar que a chapa da lancha já está a precisar de ser actualizada há uma data de meses (que aqui acabam sempre por ser uma eternidade).

Às 03:30 do dia 26 de Dezembro, os obuses dos aquartelamentos de Bissum e Bula começam a vomitar fogo. Com aqueles estrondos relativamente perto, pouco dormi. E de manhã, terei de ir buscar mais mortos, escreve o Capelinha no seu diário, sem descortinar outra solução para aquela vida. Sempre cuidou que a única coisa que levava dali era a consciência do dever cumprido. No fim de contas, a divisa da Armada A Pátria honrai que a Pátria vos contempla ainda o interpelava.

No dia 31 de Dezembro, Capelinha decide dar por terminada a sua noitada de réveillon - a roupa está-lhe tão colada ao corpo com o calor e a humidade que parece que é a pele. Depois de jantar mais uma vez, feijão frade com atum, escreve algumas palavras simples e nítidas na página 28 do diário de guerra: Assim findo o ano de 1967. Domingos da Conceição Capelinha. C/M Nº 395955 L.D.M. 204 – Esquadrilha de Lanchas da Guiné. O patrão da 204 coloca o diário no cacifo, apaga a luz, instala o mosquiteiro a modos, puxa do lençol e adormece.

Em Lisboa, o programa de variedades Minuto Zero - com Raul Solnado, Armando Cortez, Francisco Nicholson, Delfina Cruz; as cançonetistas Maria da Glória, Mário Melo, Mimi Gaspar e Simone de Oliveira; os fadistas Carlos do Carmo, Teresa da Silva Carvalho, dr. Luís Góis e o seu conjunto de guitarras, o de Raul Nery e o Duo Ouro Negro - já está no ar no único canal da RTP. É, aliás, o principal programa do segundo período de emissão da Televisão. A guerra só recomeçará amanhã com o programa das FA Ao Serviço da Nação (no segundo período de emissão, com imagem de João Rocha e João Lourenço).

Segunda-feira, 1 de Janeiro de 1968. Às 5h30 começo a ouvir rajadas de metralhadora e rebentamentos em frente do quartel na Mata de Óio. Pensei: aí estão eles, e adormeci, escreve Capelinha.

Em 1968, 78% do orçamento português da Defesa servem para financiar a manutenção e a administração das Forças Armadas estacionadas em África», constata o Stokholm International Peace Research Institute. É um esforço tanto mais significativo quanto Portugal depende essencialmente dos fornecimentos estrangeiros. Mas, apesar das resoluções sempre ambíguas da ONU (31/12/63), não é menos certo que poucos Estados membros continuam a aprovisionar legalmente Lisboa. Só a Alemanha, a Espanha e a França continuam a abastecer Portugal, algumas vezes de forma envergonhada. A França, por exemplo, forneceu a Portugal mais de uma centena de helicópteros «Alouette», depois de 1963. E o regime transfere legalmente este armamento para as suas províncias ultramarinas, aliás, parte integrante do território nacional...

Na Guiné, os fuzileiros especiais (ou navais) dispõem essencialmente de metralhadoras MG, lança-granadas foguetes 'Instalaza' (de fabrico espanhol) que, quando utilizados com as granadas antipessoal e as espingardas automáticas G-3, constituem um armamento perfeitamente adequado para a guerra de guerrilha. Os sistemas de comunicações, pelo contrário, nem sempre correspondem às expectativas.

Já o número de efectivos das FARP (e respectivo potencial de combate) é uma incógnita : restam as estimativas dos militares.

Um documento classificado das Forças Armadas indica que «as características próprias da guerrilha e descontinuidade e fluidez da actuação dos grupos inimigos não permite precisar os efectivos empenhados na luta
.

Só as estimativas permitem esclarecer em definitivo o problema, porquanto os grupos armados enquadram militares treinados no exterior e infiltrados na Província, indivíduos recrutados e treinados sumariamente no interior da Província e ainda elementos de populações controladas. Pode até dizer-se que nas zonas activas de guerrilha, todo o autóctone é um In(imigo, NDR) potencial.

Alguns documentos referem a existência de 9.000 combatentes do PAIGC, sendo 3.000 do Exército Popular e 6.000 da guerrilha popular, entre 1966 e 1967. Uma coisa porém é certa: com o tempo, o número de efectivos do PAIGC continuou a aumentar, tanto no interior como no exterior do território, designadamente nas bases de apoio de Konakry, Boké e Kandiafara.



Nesta e nas outras duas imagens abaixo, os fuzileiros durante a operação no rio Cacheu

De acordo com o testemunho oral (confidencial) da Academia de Marinha do primeiro-tenente Nuno Gonçalo Vieira Matias, comandante do Destacamento Nº 13 de Fuzileiros Especiais (hoje, chefe de Estado-Maior da Armada) os guerrilheiros tinham muito armamento, sobretudo russo, checoslovaco e chinês (de todas as épocas) para além de aparecer uma arma ou outra obtida no mercado internacional - como as pistolas metralhadoras Thompson» - de origem americana.

Um outro relatório reservado das FA descreve, exaustivamente, o potencial das FARP: Utilizando armamento de muitas origens e procedências, presentemente, verifica-se uma maior incidência de armamento russo e países satélites, perfeitamente adequado à guerra que desenvolve. O In apoia-se ainda em técnicos cubanos, existentes em TN (Território Nacional) e no estrangeiro, para melhoria das condições imediatas de utilização do armamento de que dispõe, nomeadamente de armamento pesado. Podem apreciar-se as seguintes fases de apreciação de armamento In: 1ª fase: no início da luta armada, em 1963 e início de 1964, o armamento inimigo caracterizava-se por armas caçadeiras e gentílicas e ainda pistolas, pistolas-metralhadoras, espingardas, granadas de mão e alguns engenhos explosivos; 2ª fase: desde 1964 e até meados de 1966, caracterizado pelo aparecimento de armas pesadas, morteiros 82 e metralhadoras pesadas, bem assim um longo emprego de engenhos explosivos. No final de 1964, assistiu-se ao abandono das armas gentílicas e caçadeiras, sendo estas substituídas por armas automáticas, semi-automáticas e de repetição.

Os portugueses notaram desde Junho de 1966 uma forte melhoria no material pesado (canhões sem recuo e morteiros 120) culminando com o aparecimento de foguetes 120 mm.

Para além da URSS, há mais países a apoiar convictamente as FARP. Um documento classificado revela que os guerrilheiros receberam em 1961 cursos de guerra subversiva (adaptados às características da Guiné) na Checoslováquia, China e Gana, constituindo este o primeiro apoio concreto ao 'partido', feito por países estrangeiros» e, em 1962, ao mesmo tempo que são capturadas as primeiras armas de origem soviética, é também referenciada nova estadia de elementos do PAIGC recebendo instrução de guerra subversiva nos três países já referidos e também em Marrocos, no Mali e na Guiné-Conacri, onde a instrução foi ministrada por argelinos que para o efeito ali se encontravam radicados.

A partir de 1963, ano em que as actividades do inimigo atingem já uma expressão muito significativa - largo uso de armas automáticas e emprego de minas anticarro -, o PAIGC continuou a contar com o auxílio permanente e diversificado dos países já citados (o apoio do Gana só até à queda de N'Krumah) e ainda da Bulgária, RDA, Hungria, Cuba e predominantemente da URSS. E de mais alguns países europeus. Cabral conta ainda com a solidariedade política e material de várias organizações internacionais, designadamente da OUA.

Sábado, 20 de Julho de 1968. Às 23h45 ouvimos um rebentamento e logo a seguir o assobio da carga e o estrondo a uns 50 metros da proa da lancha. Corremos todos para fora do abrigo. A lancha estremeceu. Os fuzileiros também estavam debaixo de fogo. Os rebentamentos do canhão sem recuo continuaram. Os malditos turras não arredavam pé, deviam estar a bater a zona. O patrulha 'Lira' bombardeou então a clareira e aquela cambada de cobardolas que só actuava à traição desandou. Só mesmo assim é que podiam ganhar a guerra, escreve o patrão da LDM 204, revoltado e ao mesmo tempo impotente, certamente por desconhecer Clausewitz e Sun Tzu.

Sábado, 27 de Julho. Bolama, Bolama de Baixo, Uato, Mandinga, Areia Branca, Jabicunda, Canena, Nova Sintra e Cacheu recebem a visita do governador e comandante-chefe da Guiné, brigadeiro António de Spínola, no prosseguimento dos seus contactos directos com as populações e Forças Armadas, comunica a agência noticiosa ANI.

Na altura em que o chefe da província está a efectuar um reconhecimento aéreo do rio Cacheu e do corredor de Sambuiá, o patrão da lancha 204 está a contas com algo mais prosaico: os mosquitos. Estava cheio de comichão de picadelas de mosquitos. Às 14:30 larguei com os fuzileiros do DFE 12. Começou a chover a cântaros.

O segundo-tenente Pedro Serradas Duarte (hoje, capitão de fragata já reformado), imediato do DFE 12 e que na altura comandava o destacamento (cujo comandante era Fernando Gomes Pedrosa), determina que um grupo de 21 fuzileiros especiais comandados por Benjamim Lopes de Abreu parta em sete zebros (botes de borracha com motores de 50 cv) para o rio Tancroal. Missão: montar mais uma emboscada.

Era mais uma operação em que estávamos a atingir objectivos concretos: destruir os meios de cambança. O pessoal emboscado começa a ser atingido por canhão sem recuo, morteiro e metralhadoras pesadas, para além dos inevitáveis tiros de armas ligeiras. Mas tinham que sair dali sem utilizar os motores para não denunciarem a sua posição. A LFG do comandante Dias Souto avançou, entretanto, para a Clareira do Tancroal em simultâneo com 2 LDM e 1 LF, que abriram fogo contra as forças atacantes referenciadas pelo clarão dos disparos do canhão sem recuo. E os fuzileiros lá conseguiram sair do rio. Era mais um ataque por força do sucesso que a operação 'Via Láctea' estava a ter, dada a impossibilidade de o PAIGC fazer chegar ao interior da Guiné o material de guerra de que tanto carecia, conta Serradas Duarte.



Cinco semanas antes tinha começado uma das maiores operações de sempre (decidida por Spínola), destinada a impedir a entrada e a circulação de material do PAIGC.

De acordo com um documento secreto, o corredor das cambanças de Sambuiá era a principal preocupação do Comandante-Chefe. O corredor começava na região de Samine (no Sul do Senegal), passava por Cumbamory e acabava no rio Cacheu. Era aqui que os guerrilheiros cambavam o material de canoa entre Porto de Coco e Porto da Ponta do Pau.

Em 1968, o PAIGC dispõe no sector de Sambuiá de dois bigrupos (cada um deles com 52 homens) que têm por missão proteger as colunas de abastecimento. No sector de Morés existe outro bigrupo e no sector de Biambi mais um. Junto à margem sul do Cacheu opera ainda o grupo de artilharia (comandado por Irénio do Nascimento Lopes, mais conhecido por Réni) cuja principal missão é atacar a navegação portuguesa. A LDM 302 afundada é uma das lanchas que este grupo atacou.

Um documento militar a que o Expresso teve parcialmente acesso indica que o General Spínola mandou quatro Companhias do Exército executar uma operação na península de Sambuiá. A operação não teve sucesso (apagado). O General Spínola deu ordem à Marinha para executar uma operação na mesma península quatro dias depois. Foram utilizados dois Destacamentos, o DFE 13, que seguiu ao longo de um dos rios, e o DFE 12, sob o comando do primeiro-tenente Gomes Pedrosa (um extraordinário combatente) que seguiu junto do outro rio, e conseguiram um sucesso pela surpresa, trazendo populações e sobretudo obtendo informações que mais tarde vieram a permitir que fizessem, talvez, a maior captura de armamento de toda a história do conflito em África.

Por essa razão, dois comandantes de sector do PAIGC foram fuzilados a mando de Nino Vieira. Ansumane Mané confessou, anos mais tarde, que Nino também o queria matar porque os tugas apanharam o material todo. De qualquer modo, a operação terá tido como resultado a extinção quase total dos ataques do PAIGC a sul do rio Cacheu.

Nos jornais da capital, a única informação sobre a Guiné é um comunicado lacónico das Forças Armadas: Morreram em combate o primeiro-cabo 01357567 António André Santos, natural de Vila Nova de Gaia e o soldado da milícia Iero Cajiko.

A actualidade é dominada pelo fogo na Serra do Trancoso (destaque para uma reportagem do jovem jornalista Carlos Pinto Coelho, enviado especial do Diário de Notícias: Costa imensa, calçada de negro. Pedras erguidas como muros, serra acima, e também elas tela do mesmo pintor em fúria: o lume. Por sobre cinza e troncos carbonizados a pedra causticada - a prostração de corpos, o esgotamento de espíritos.), a nomeação de monsenhor Lopes da Cruz para prelado consultor da Comissão Pontifícia e o artigo do «The Tablet» do deputado britânico John Biggs-Davison, publicado no Diário de Notícias: As superpotências pretendem dominar o Mundo, e a África é rica em minerais, em portos e em posições de decisiva vantagem estratégica. Os portugueses já estavam na Guiné quando fomos vencidos na Guerra dos Cem Anos.




Quinta-Feira, 10 de Outubro. Às 08:30 desembarcou metade do Destacamento de Fuzileiros. Estávamos ainda em Bigene quando demos com um turra morto que estava a ir rio abaixo. Tinha dentro de um saco de pergamóide uma máquina fotográfica municiada de tripé, binóculos, uma bússola, uma pistola e uma série de livros de comunismo. O corpo seguiu com a corrente, escreve Capelinha.

Terça-Feira, 23 de Outubro. Às 22h embarco no 'Alfredo da Silva' com destino a Lisboa. Arrumo as minhas coisas no camarote número 20 e subo ao convés para fazer adeus a Bissau.

Quarta-Feira, 1 de Novembro. Entro em casa às 21h, e dou por findo o meu diário de dois anos na guerrilha na província da Guiné Portuguesa.




Fontes:
Texto e imagens compilados integralmente, com a devida autorização e agradecimento pessoal ao jornalista Rui Araújo, a partir do seu artigo publicado na revista do "Jornal Expresso" de 31 de Março de 2001, reportando-se todos os acontecimentos referenciados a essa data de relato;




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

13 julho 2018

LFP "Açor" - P 1163


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Açor» - P 1163

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Maio de 2011)




A LFP «Açor»


Construída nos estaleiros navais do Arsenal do Alfeite e a segunda da classe “Albatroz”, com as mesmas características gerais, foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 9 de Dezembro de 1974 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando nesse mesmo dia.

Durante os seus anos de operacionalidade desempenhou missões de fiscalização da pesca na costa continental portuguesa, nomeadamente ao longo da costa algarvia.

Em 2001, através da portaria 1825/01 de 17 de Outubro, o navio foi cedido à República Democrática de Timor-Leste, juntamente com a LFP «Albatroz», tendo tomado o nome de «Ataúro», e sido entregue àquele Estado em 12 de Janeiro de 2002.



Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Açor» os seguintes oficiais:

Reserva Naval>:

2TEN RN Edmundo José Simões Gomes de Azevedo, 23.º CFORN, 09Dez74/18Dez75;
2TEN RN José Manuel Nogueira Soares, 23.º CFORN, 18Dez75/03Mar76;
........................................................
2TEN RN Armando António Pereira Teles Fortes , 29.º CFORN – 28AGO79/16SET80
2TEN RN Joaquim Marques Gomes, 31.º CFORN – 16SET80/02SET81
2TEN RN Fernando Manuel Nunes Macedo de Carvalho, 34.º CFORN – 02SET81/27JUL83
2TEN RN Carlos Alberto Mesquita da Costa, 38.º CFORN – 27JUL83/30NOV83
2TEN RN António José Duarte Barros, 38.º CFORN – 30NOV83/14FEV84
2TEN RN Pedro Manuel Robert dos Santos Jordão, 41.º CFORN – 14FEV84/29MAR85
2TEN RN José Alberto Gomes Precioso, 44.º CFORN – 29MAR85/05OUT85*

Quadros Permanentes:

2TEN Jorge Manuel Lopes da Fonseca, 3Mar76/02Fev77
2TEN Hélio Natal Lopes Prior, 02Fev77/18Ago77;
2TEN Luís Manuel Fourneaux Macieira Fragoso, 18Ago77/25Ago78;
2TEN Leonel Esteves Fernandes, 25Ago78/28Ago79;
.........................................................

*A partir desta data e até 2001 não foi possível apurar os comandantes da LFP «Açor» que, no decorrer daquele ano, já tinha sido abatida ao efectivo da Armada






Na Base Naval do Alfeite, a LFP «Açor» atracada de braço dado à LFP «Albatroz», ambas amarradas a um navio-patrulha; a ré, é ainda possível ver a LFP «Andorinha» igualmente atracada a outro navio-patrulha;

Navios da mesma classe: «Albatroz», «Açor», «Andorinha», «Águia» e «Cisne».




Fontes:
Dicionário de Navios e Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

10 julho 2018

LFP "Albatroz" - P 1162


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Albatroz» - P 1162

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Abril de 2011)




A LFP «Albatroz»


Construída nos estaleiros navais do Arsenal do Alfeite e a primeira da classe a que deu o nome foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 9 de Dezembro de 1974 e entregue ao primeiro oficial a exercer o comando nesse mesmo dia.

Estas unidades navais tinham as seguintes características gerais:




Durante os seus anos de operacionalidade desempenhou missões de fiscalização da pesca ao longo da costa algarvia.

Em 2 de Abril de 1976 prestou assistência ao navio-patrulha «Save» que fora abalroado a cerca de 2 milhas da ponta de Sagres e que estivera em risco de se afundar.

Em 1982, a partir de Abril, cumpriu o PTB por diversas ocasiões entre Setúbal, Sesimbra e a Base Naval de Lisboa, tendo rumado de novo para o Algarve em 25 de Agosto desse ano, continuando a sua missão de fiscalização da pesca em toda aquela costa, vistoriando vários arrastões portugueses, espanhóis e de outras nacionalidades durante os meses seguintes.

Em 26 de Outubro de 1983, voltou a rumar à Base Naval de Lisboa para fabricos. Efectuou regularmente operações de PTO e experiência de máquinas entre Lisboa, Cascais e Sesimbra, tendo voltado à costa algarvia a 1 de Março de 1984 para prosseguir com as suas missões de fiscalização de pesca de barlavento a sotavento.

Em 2001, através da portaria 1825/01 de 17 de Outubro, o navio foi cedido à República Democrática de Timor-Leste, juntamente com a LFP «Açor», tendo tomado o nome de «Oe-cusse» e sido entregue àquele Estado em 12 de Janeiro de 2002.



Durante todo o período em que esteve operacional foram comandantes da LFP «Albatroz» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Eduardo José Rebelo Ferreira, 22.º CFORN. 09Dez74/08Set75;
2TEN RN José Jorge Geirinhas Mascarenhas, 23.º CFORN, 08Set75/18Dez75;
2TEN RN Rui Palha de Melo Freitas, 25.º CFORN, 18Dez75/31Ago76;
2TEN TE RN Pedro Manuel Martins Pires Marinho, 25.º CFORN, 31Ago76/15Nov77;
2TEN RN Jorge Manuel da Piedade Reis , 27.º CFORN, 25Set79/16Set80;
2TEN RN João Manuel Coelho Condinho Pereira, 31.º CFORN, 16Set80/02Set81;
2TEN RN Luís Filipe Braguez Caldeirinha Roma, 34.º CFORN, 02Set81/24Set82;
2TEN RN João Carlos Paixão Estorninho, 37.º CFORN, 24Set82/23Ago84;
2TEN RN Manuel Afonso de Castro Machado Espregueira, 43.º CFORN, 23Ago84/05Out85
..................
2TEN RN Orlando António Pires Leitão, 53.º CFORN, ??Set87/??Out90; (a confirmar...)*

Quadros Permanentes:

2TEN Júlio Manuel Sajara Madeira, 15Nov77/10Nov78;
2TEN Nuno Jorge Faria de Mendonça, 10Nov78/25Set79;


*A partir desta data e até 2001 não foi possível apurar os comandantes da LFP «Albatroz» que, no decorrer daquele ano, já tinha sido abatida ao efectivo da Armada.






Na Base Naval do Alfeite, a LFP «Albatroz» com a LFP «Açor», atracadas de braço dado a um navio-patrulha; a ré, é ainda possível ver a LFP «Andorinha» igualmente atracada a outro navio-patrulha

Navios da mesma classe: «Albatroz», «Açor», «Andorinha», «Águia» e «Cisne».




Fontes:
Dicionário de Navios e Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha – 2006; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s), 16º VOL, 2005, com fotos de arquivo do autor do blogue - Arquivo de Marinha e Revista da Armada;


mls

07 julho 2018

Reserva Naval, Guiné - Talvez por me sentir ainda puto...


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Abril de 2011)


Resposta a Emídio Aragão Teixeira do 8.º CEORN, também o meu curso...



Rio Cacheu, Guiné - LFP «Canopus» vs LFG »Orion»




Meu Caro Aragão Teixeira,


Talvez por me sentir ainda puto, partilho muitas das tuas convicções e irreverências. De forma idêntica, respeito diferenças de filosofia marcadas por percursos de vida diferenciados. Nas nossas amarras, e cada navio tem uma ou duas, partilhamos ser «Filhos da Escola» como um indissociável elo comum.

Talvez por me sentir ainda puto, gosto de pensar que nascemos, crescemos em mundos diferentes e fomos talhados à medida de uma geração de valores sedimentados pela educação e cultura, em que nunca se confundiu educação com formação académica nem cultura com bens materiais.

Talvez por me sentir ainda puto, acho que a educação se ministrava num berço, digno ainda que modesto, preferencialmente em casa dos pais. A formação académica adquiria-se em estabelecimentos de ensino adequados, muitas vezes com sacrifícios familiares, dando sentido objectivo a uma futura vida profissional com naturais anseios e sonhos, ficado muitos deles pelo caminho e concretizando outros, estes últimos normalmente poucos.

Talvez por me sentir ainda puto, sonho que a cultura, assenta num equilibrado crescimento de formação e conhecimento, nunca alienando a educação pelo caminho, no respeito por valores, pessoas, sociedade e País onde os nossos pais envelheceram e nos deixaram um dia, então melhor preparados para enfrentar a vida.

Talvez por me sentir ainda puto penso que, de forma oposta, a ambição material, arrogante e cega, em si mesma como objectivo, ignora educação, despreza valores e julga poder adquirir cultura ou conhecimento sem esforço, a troco de favores, influências, interesses de grupo ou simples envelopes «adaptados às circunstâncias».

Talvez por me sentir ainda puto, habituei-me a respeitar e agradecer a enorme energia motivadora de gente simples de antanho que, tratando-me por «vossemecê» e trabalhando se sol a sol, beata no canto da boca, de enxada nas mãos calejadas pelo tempo, não compreendiam porque se sentiam cansados aos setenta e muitos. De quando em vez, emborcavam um copo de tinto com a bucha, para retemperar forças e o trabalho seguia. Muitos, por essa idade, lá iam ao médico sem nunca terem posto os pés numa consulta.

Talvez por me sentir ainda puto, agradeço ter recebido, a troco de nada, grandes lições de sabedoria dessa «gente grande». Cresciam em berços de palha, paredes meias com o gado e arrumavam uns trocos dentro de uma meia velha, guardada dentro de uma panela esmaltada. Lá na aldeia, em tempo de férias de estudante, nas noites de cozidela de forno, partilhavam comigo a bôla de cevada ainda quente. Ensinaram-me a fazer fisgas de uma vara de freixo e a usá-la para atirar aos pássaros ou para as mais variadas aventuras, algumas delas tropelias de garotada.

Talvez por me sentir ainda puto, sonho com arcabuzes fabricados com as varas de salgueiro e rolhas talhadas com os pequenos canivetes que usava como formão, plaina, enxó e lixadeira, num quatro em um bem aproveitado. Sonho ainda com os custilos comprados na loja do correio para armar aos pardais ou às megengras (chapim-azul). Também ali se podiam comprar mercearias ou beber um copo de tinto avulso. Ao lado, a eira do povoado onde se jogava futebol, a malha do cereal, joeirar o centeio, a medição final nos alqueires para as arcas, as podas, as enxertias, as mondas, as corridas de leiras na arranca da batata e as vindimas, rodopia tudo isto nas lembranças de tempos idos.

Talvez por me sentir ainda puto, julgava ser possível estar presente numa manifestação de estudantes universitários de forma livre e espontânea. Em 1962, assim pensei no Campo de Santana e tive de fugir da polícia de choque e, no dia 11 de Maio desse mesmo ano, alta noite, juntamente com um irmão meu, fomos detidos com mais de milhar e meio de estudantes no convívio da Cidade Universitária, «apenas» por um dia. Num momento fortuito, descobri não ser possível a cidadania de corpo inteiro.

Talvez por me sentir ainda puto, em 1965, sonhei ser possível concorrer e ingressar na Escola Naval ombreando com futuros camaradas, em condições de igualdade, sem me ser lembrado aquele pequeno estigma registado numa reunião estudantil anos antes. Ingresso sim, foi possível por mérito próprio mas, no dia da admissão, a Direcção do Curso entendeu alertar para aquele «perigoso» registo de presença acrescentando o «sábio conselho» de evitar outras incursões naquele domínio.

Talvez por me sentir ainda puto, em 1966, depois de concluído o curso da Escola Naval, sonhei poder servir o País como tantos cidadãos o fizeram e entendi escolher livre e voluntariamente África para o fazer. Ainda que a classificação do final de curso, boa, pudesse fazer antever, por direito de classificação, outro teatro para o desempenho das funções atribuídas, foi entendido «superiormente» que a Guiné era o local mais adequado para o meu perfil.

Talvez por me sentir ainda puto, julgava de todo impossível, de acordo com a legislação vigente ao tempo, que outro familiar próximo, irmão mais velho, nove meses mais tarde, viesse a ter o mesmo teatro como destino de desempenho do serviço militar, neste caso como médico, integrado num batalhão. Sonhei ainda ser possível estar presente no funeral do meu pai, falecido quinze escassos dias antes do final do meu regresso da comissão de serviço. Acordar doloroso o meu, porque nem eu nem o meu irmão fomos bem sucedidos nessa normal ambição!

Talvez por me sentir ainda puto, nunca me incomodou a ideia de operações com fuzileiros, baptismo de fogo, emboscadas, flagelações e até, integrado na guarnição, servirmos de isco para provocar o combate com o inimigo. Era normal suceder. Tensão, juventude e alguma leveza na avaliação do risco eram catalisadores importantes. Sempre me preocupou a segurança daqueles que das minhas funções e do meu comportamento dependiam.

Talvez por me sentir ainda puto, recordo aqueles dois anos plenos de inesquecíveis e ricas vivências fruto do comportamento, camaradagem e solidariedade de uma guarnição de que muito me honro ter sido Oficial Imediato. Lembro-os a todos e à LFG «Orion» com grande saudade e amizade, sobretudo aos que já não se contam entre nós.

Talvez por me sentir ainda puto, gostaria que fosse possível visitar uma daquelas unidades navais que tanto prestigiaram a Marinha nos mais de doze anos de implacável e ininterrupta guerra. Quem sabe, talvez pudessem ter sido preservadas uma LDM (escolheria a LDM 302), uma LDG (escolheria a LDG «Alfange»), uma LFP (escolheria a LFP «Bellatrix») ou uma LFG (escolheria a LFG «Lira»). Afinal foram dezenas de unidades navais e alguns milhares de homens que se bateram pelo País. Mas não, ficaram por lá todas sem excepção, cascos apodrecidos num rasto pouco de acordo com uma cultura histórica digna.

Talvez por me sentir ainda puto, gosto de recordar os heróis da Marinha que se distinguiram em acções especiais. Bastará lembrar os elementos das guarnições da LDM 302 que em três dos vários ataques sofridos (1967, 1968 e 1969), tiveram 3 mortos em combate e 1 ferido grave (todos no rio Cacheu) e um outro grave (no rio Uajá).

Talvez por me sentir ainda puto, lembro também a LFG «Lira» que, no mesmo local do rio Cacheu (Tancroal), no princípio de 1968, já noite a fechar, atacada com diverso armamento, foi atingida com 2 granadas de RPG7 que lhe provocaram 1 morto (DFE 10), 4 feridos graves e 3 ligeiros. Dos feridos ligeiros, um foi o nosso camarada 2TEN RN Calado Marques que, mesmo ferido, assumiu durante 5 horas a navegação até Vila Cacheu, complementando o comando de um navio sem comunicações, sem giro e com avarias diversas. Apenas ali foi possível a evacuação do elemento da guarnição morto em combate e dos feridos.

Talvez por me sentir ainda puto, sonho que um dia poderá vir a ser possível levar a cabo um projecto sério de País em que os nosso filhos e netos se orgulhem de viver, alicerçado numa cultura idónea de cidadania e sociedade. Nele, as Instituições responsáveis defenderão intransigentemente a preservação da identidade de um Estado democrático com maior justiça e bem estar social.

Talvez por me sentir ainda puto, continuarei determinadamente a registar, no nosso caso particular, o orgulho de termos sido o último curso «Especial» de muitos outros da Reserva Naval e, enquanto pudermos utilizar pena ou teclado, reescrever as memórias do que entendermos importante.

Talvez por me sentir ainda puto lembro que, do nosso convívio Guiné, já partiram para a última comissão dos »Magníficos» os camaradas e amigos Jorge Manuel Calado Marques (Galã), José Carlos Pereira Marques (Lotus Flower), Manuel Sousa Torres (Manecas) e ainda o José Manuel Matos Moniz. Do nosso curso, não apenas Guiné, também o José Tereno Valente, Alexandre Ferreira Borrego, António Palma Fernandes, Augusto Soares de Albergaria, António Marinho de Castro, Frederico da Luz Rebelo, José Matos Moniz, Manuel Monteiro Coutinho, Paulo Lowndes Marques e Rui Sousa Eiró já não se encontram entre nós. Certamente escolheram o rumo certo para um reencontro do nosso curso para breve, o 8.º CEORN.

Abraço amigo,



Manuel Lema Santos
8.º CEORN




Fontes:
Comentário de Manuel Lema Santos, 8.º CEORN, compilado e editado por mls; texto e fotos de arquivo do autor do blogue com cedência do Museu de Marinha e Henrique Oliveira Pires, 11.º CFORN;


mls

05 julho 2018

Reserva Naval - Talvez por ser puto! Talvez...


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Abril de 2011)

Talvez por ser puto! Talvez...




Rio Cacheu, Guiné - A LFP «Canopus" (Lancha de Fiscalização Pequena) vs LFG "Orion" (Lancha de Fiscalização Grande)

Emídio Aragão Teixeira, amigo pessoal e antigo camarada do mesmo curso, o 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval que, com mais de uma dezena de camaradas, eu incluído, fomos destacados para o cumprimento de diferentes missões na Guiné no ano da graça de 1966.

Sobre a viagem efectuada num DC6 da FAP já aqui publiquei um resumo possível:

Mal recordado diga-se, que a memória de acontecimentos idos e menos festivos refugia-se e trai-nos, dificultando a lembrança fácil e instantãnea. Emídio Aragão Teixeira, o "Mio" para familiares e amigos próximos e também para mim, foi nomeado para comandar a LFP «Deneb», Lancha de Fiscalização Pequena da classe «Bellatrix» enquanto que, a mim, me tocou na nomeação ser oficial imediato da LFG «Orion», Lancha de Fiscalização Grande da classe «Argos».

Diferenças? Em quase tudo quanto é possível em unidades navais, muito dissemelhantes nas dimensões e tipo de construção, passando pela guarnição, equipamentos e armamento, até à capacidade das missões a desempenhar.

Diferenças que se esbateram pelas condições específicas do teatro Guiné em que, operacionalmente, ombrearam lado a lado num dia-a-dia denso, diversificado e muitas vezes imprevisível, ao longo de dois anos com que foi premiada cada uma das guarnições que nelas foram desfilando - Oficiais, Sargentos e Praças - rumo a uma História ainda pouco divulgada por insuficientemente relatada. As LFP com guarnições de 7 e as LFG com guarnições de 27 homens.

Trata-se de contas simples para 13 anos de conflito na Guiné, das quais 8 LFP-Lanchas de Fiscalização Pequenas que ali ficaram atribuídas operacionalmente a adicionar a 7 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes. As primeiras ali foram abatidas ao efectivo e, das segundas, foram afundadas 140 milhas a oeste de Bissau as LFG «Cassiopeia» e LFG «Sagitário», por não terem condições de navegabilidade. As restantes 5 LFG juntaram-se em Angola às 3 que ali mantiveram a vida operacional, desempenhando missões até ao seu abate.

Acrescentem-se-lhe ainda 3 LDG - Lanchas de Desembarque Grandes (20 elementos de guarnição), 44 LDM - Lanchas de Desembarque Médias (6 homens de guarnição), 9 LDP - Lanchas Desembarque Pequenas (3/4 elementos de guarnição) e ainda to da uma panóplia de navios diversos que incluiu fragatas, corvetas, navios-patrulha, navios-auxiliares, navios-hidrográficos e ainda Unidades e Serviços em terra.

Obrigatório deixar igualmente aqui um espaço para assinalar os 27 DFE - Destacamentos de Fuzileiros Especiais e as 11 CF - Companhias de Fuzileiros além de diversos Pelotões de Reforço que completaram o dispositivo naval.

Sobre a nossa ínclita viagem até à Guiné Aragão Teixeira rubricou um comentário que aqui volto a transcrever integralmente:




Meu muito caro Lema,

Lembro-me de alguma coisa a propósito da memorável viagem, ruidosa e fria, que 13 magníficos, tal onze mais dois do oceano por cima dele passando, tratámos de fazer.

Dois meses antes antes do nascimento da Karen...

Puto que eu era!

Feliz na facilidade da vida e das coisas, sem nunca se me ter apresentado a hipótese de não estar a fazer a coisa certa.

E isso talvez tenha ajudado a que, política e imagem incorrectas à parte, ainda hoje considere que foram os dois menos complicados anos da minha vida!

Talvez por ser puto! Talvez...

Talvez por ser inconsciente, o grande antídoto para o medo. Talvez...

Mas porque me lembro de quem e como era na altura, não hesito em afirmar que se voltasse atrás tudo voltaria a ser igual.

Normalmente as mesmas causas, no mesmo enquadramento, determinam as mesmas consequências.

Dizem que o verdadeiro estúpido é aquele que espera coisa diversa da já verificada!

Não me sinto pior ou melhor por ter andado por lá aos tiros do que se sentiria o Persa depois de ter perdido a guerra contra o Grande.

Mesmo que os jornais do Irão de hoje considerassem, e não consideram, o Dário como um criminoso. Vencido.

Já percebeste que estas linhas são apenas o prefácio de outras que espero escrever a este respeito.

A Pátria honrae? Talvez.

Mas cega,ninguém contempla ninguém.

Um forte abraço!

Quantos restamos dos treze?




Emídio Aragão Teixeira
8.º CEORN




Fontes:
Comentário de Emídio Aragão Teixeira, 8.º CEORN, compilado e editado pelo autor do blogue, mls; fotos de arquivo do autor do blogue com cedências de Museu de Marinha e Henrique Oliveira Pires, 11.º CFORN;


mls

16 junho 2018

Guiné, 1990 - Os degredados do forte do Cacheu


Guiné, 1990 - Os degredados do forte do Cacheu

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 2 de Abril de 2011)





No interior do forte do Cacheu, em Fevereiro de 1990, João Teixeira Pinto, Diogo Gomes, Nuno Tristão e Honório Barreto, quatro notáveis vultos da história da República da Guiné-Bissau, ainda que em deficientes condições e com participação histórica diferenciada no tempo, parecem uma estranha associação de degredados.

Na foto inferior, Diogo Gomes encostado a uma guarita do forte, parece prescrutar o horizonte na esperança de que melhores dias tragam os mares.







Fontes:
Texto do autor; fotos(1998) de Emídio Aragão Teixeira, 8.º CEORN;


mls

15 junho 2018

Cacheu, 1989 - Testemunho de uma passagem pelo Forte do Cacheu


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 30 de Março de 2011)






Fontes:
Foto cedida pelo Dr. Carlos Silva (antigo Furriel Miliciano, CCaç 2548.


mls

10 junho 2018

Cerimónia de Homenagem aos Combatentes


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 22 de Março de 2011)

A opinião de um Santo Aleixense, antigo oficial da Reserva Naval do 8.º CEORN




Concelho de Moura - Aldeia de Santo Aleixo da Restauração, encimada pela igreja


Nunca fui apoiante e nem sequer simpatizante de Cavaco Silva. Continuo a considerá-lo como um dos principais responsáveis pelo estado político-social a que chegou o País em que nasci, cresci e em que escolhi viver.

Não partilho os valores políticos, sociais e religiosos daquele antigo Presidente da República.

Que tenha dado conta, na minha já não muito curta travessia de vida, nunca me aproveitei de quaisquer benesses ao serviço de interesses estranhos aos que a minha educação e consciência me impuseram como conduta pessoal e profissional.

Dentro desse modelo pequeno-burguês, herdado familiarmente, encarei o serviço militar como "incontornável" e, como alternativa depois de me candidatar à Marinha, escolhi ou mais correctamente terei sido seleccionado por aquela Instituição para o fazer.

Já não consegui evitar democraticamente a minha nomeação para a Guiné como local ideal para o desempenho da minha parcela de cidadania a cumprir mas, mais uma vez, fui menino obediente e bem comportado.

A despeito de, por direito de classificação final de curso, me competir o desempenho de missões que me viriam a ser cometidas noutro qualquer território à minha escolha, e só nesse sentido refiro obediência ou bom comportamento, fui nomeado para o fazer naquele teatro.

Regressei incólume, tal como toda a guarnição da unidade naval onde prestei serviço a despeito de, no global dos três teatros da Guerra do Ultramar, mais de nove milhares de militares não terem tido a mesma sorte.

Não sei se lhes foi dada oportunidade de escolha mas cabe-me, como cidadão livre e vivendo em democracia, respeitar e honrar essa Memória, seja ela de África, da Índia, da 1.ª Guerra Mundial, de Aljubarrota ou de outro qualquer lado onde se combateu ao serviço de Portugal.

Fá-lo-ei sempre!

Nestas palavras, e em poucas coisas mais, estive de acordo com Cavaco Silva! Também, por esse mesmo motivo, publiquei, ao tempo, a alocução dele na homenagem efectuada junto do monumento aos Combatentes do Ultramar e que volto agora a republicar no "link" abaixo que inclui o vídeo da cerimónia:


Pecou por tardia a atitude, já que dispôs de um primeiro mandato completo para o fazer mas, calculísticas avaliações políticas mais do que sentir verdadeiro, terão atirado a iniciativa para um almejado segundo mandato porque o risco de não ser reeleito seria eventualmente acrescido.

Aqui, permito-me expressar uma outra opinião que considero sustentada quanto baste. Tenho um enorme respeito pelo saber e cultura do Prof. Adriano Moreira que oiço atentamente, sempre que tenho ocasião para tal.

Foi Ministro do Ultramar e não de África e, por palavras próprias, já explicou pormenorizadamente a diferença de conceitos e também onde acabou um e começou o outro. Na minha modesta opinião, fê-lo detalhadamente e com conhecimento de causa.

Uma coisa é certa! Está gravado no meu espírito que quando embarquei para a Guiné fui para o Ultramar (África) e, no final da minha comissão, regressei à Metrópole (Portugal). Era assim em linguagem corrente mas "tempo e conveniência política" deturpam verdades históricas. Colónias sempre tivemos e, a haver alguma espécie de «acordo ortográfico obrigatório» com alteração significativa da denominação, adoptaria a de Guerra Colonial.

Não quero pronunciar-me sobre o pouco que conheço para lá da Guiné. Tendo lido alguma coisa sobre outros teatros de conflito, mas bastam-me meia dúzia de nomes entre os quais incluo o do Lobo Antunes para me apetecer continuar calado e, indo mais além na minha imagem de marinheiro, ter que chamar pelo "gregório" como na navegação em mar cavado a grosso. Afinal, tantas vezes se propala a mentira que assume foros de verdade...

Quase simultaneamente, a minha mãe teve lá três filhos de quatro, dois na Guiné e uma filha em Angola com o marido, este como Oficial da FAP, ao tempo. Nenhum deles como militar de carreira.

A única pessoa que, durante o meu tempo de permanência na Guiné, mostrou proteger por duas vezes a minha vida, conhecia-me há meia dúzia de meses, era um negro de etnia mandinga e foi mais tarde fuzilado a mando de escumalha que se dedica ao narcotráfico, tudo em nome de um bom povo guineense que ainda não deixou de sofrer desde que de lá saímos.

Também aqui estou de acordo com Cavaco Silva. E serei apelidado de racista?

Depois, bem, depois vieram datas célebres, sessões de esclarecimento, tentativas várias de lavagens ao cérebro, pessoas classificadas como não devidamente esclarecidas, ameaças veladas, saneamentos, empresas saqueadas, plenários, comícios com toda a casta de apaniguados, modelos políticos e sociais a aplicar, a maioria sob a batuta filosófica de acólitos de Marx, Lenine, Engels e Trotsky, uns piores do que outros mas todos medíocres, maus os que se seguiram e, agora, ainda piores.

Para mim sobrou o epíteto de "recuperável" talvez depois de umas férias num qualquer arquipélago "Gulag". Parece nada terem aprendido e o País reflecte-o hoje pesadamente! Muito teria para continuar a debitar mas não consigo descortinar motivos válidos para apoiar quem quer que seja nem "antes" nem "depois".

A igreja de Santo Aleixo da Restauração, localidade de onde sou natural, foi destruída por três vezes na Independência e de outras tantas vezes foi reconstruída, sem apoios comunitários. Por lá se mantém, bem caiada. A localidade figura no Monumento dos Restauradores e, provavelmente, haverá por aqui alguma genética residual de rejeição à política e, mais ainda, à manipulação que a comunicação social hoje dela faz.



Lisboa - Praça dos Restauradores, monumento e um pormenor

Muito provavelmente, também o País irá continuar, mesmo sem a falta de qualidade e dignidade mínima exigíveis a políticos representativos de cidadãos que neles acreditam e votam.

Façam o favor de cumprir com dignidade, como sempre fizeram a maioria dos Combatentes, ainda que muitos deles emprestados temporariamente às Forças Armadas como Milicianos do Exército ou da Força Aérea e ainda da Reserva Naval, neste último caso da Marinha.

Evoco aqui as Mães que cederam o melhor de si próprias às fileiras e os Militares que honraram o conceito de cidadania ao serviço do Pátria por que lutaram ou até deram a vida.


Manuel Lema Santos, 8.º CEORN
1TEN RN 1965-1972, lic.
Guiné LFG «Orion», 1966/1968;
CNC 1968/1970;
EMA 1970/1972;


Fontes:
Texto e foto do autor; foto de Santo Aleixo da Restauração de António Melão, 2008 com a devida vénia em http://www.flickr.com/photos/metalcamera/2338221925/sizes/z/in/photostream/


mls

31 maio 2018

Lisboa > Sal > Bissau, 31 Maio 1966 - O início de uma comissão de 2 anos


Post reformulado a partir de outro já publicado em 2011.04.17






Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; texto da aeronave DC 6 em http://pt.wikipedia.org/wiki/Douglas_DC-6 com fotos gentilmente cedidas por Victor Barata, http://especialistasdaba12.blogspot.com/; Arquivo de Marinha; Abel de Melo Sousa, 20.º CFORN; Henrique Oliveira Pires, 11.º CFORN;

27 maio 2018

Entrega de Condecorações à Reserva Naval no dia 11 de Fevereiro de 2000


Nota prévia do autor do blogue:

Este "post" reproduz na íntegra o artigo publicado na Revista n.º 11 da "AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval" de Abril de 2000. Refere uma cerimónia simbólica, havida em 11 de Fevereiro de 2000 na Biblioteca do Estado-Maior da Armada, presidida pelo Superintendente do Serviço de Pessoal, à época o Vice-Almirante José Manuel Castanho Paes.

Agraciados com a Medalha de Mérito Militar de 3.ª Classe:

2TEN RN Luis Alberto Neves Cordeiro, 3.º CEORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Pedro Norton dos Reis, 3.º CEORN, Angola, LFP «Pollux»;
2TEN RN Rui Horácio da Silva Pires, 3.º CEORN, Angola, LFP «Espiga»;
STEN FZ RN António Luis Marinho de Castro, 8.º CEORN, Angola, CF 1;

Agraciados com a Medalha Comemorativa das Campanhas das Forças Armadas:

2TEN RN José Martins Figueira, 4.º CEORN, Guiné, CDMGuiné;
2TEN RN Rogério Bordalo da Rocha, 8.º CEORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN José Vieira de Sá, 11.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN MN RN Ricardo Migães de Campos, 11.º CFORN, Moçambique, CF 4;
2TEN RN José Rasquilha de Abreu, 15.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN António Gravata Filipe, 17.º CFORN, Angola, LFP «Pollux»;
2TEN RN Francisco Cascabulho Tomé, 17.º CFORN, Moçambique, LFP «Saturno»;
2TEN RN Herculano Marques Ferreira, 18.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Carlos Magalhâes Oliveira, 21.º CFORN, Angola, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN António José de Oliveira Brás, 23.º CFORN, Angola, LFP «Rigel»;




Entrega de Condecorações à Reserva Naval no dia 11 de Fevereiro de 2000




Em cima o grupo dos condecorados e, em baixo,
o Vice-Almirante José Manuel Castanho Paes proferindo a sua alocução





Na Biblioteca do Estado-Maior da Armada, presidida pelo Vice-Almirante José Manuel Castanho Paes, Superintendente do Serviço do Pessoal, teve lugar no passado dia 11 de Fevereiro, a cerimónia de entrega de condecorações a 14 Oficiais da Reserva Naval a quem as mesmas tinham sido concedidas em épocas remotas e cuja publicação em Ordens do Dia à Armada de então, oficializara.

Da relação constavam 4 Medalhas de Mérito Militar de 3ª Classe, atribuídas em 1964 aos 2º Tenentes Luís Alberto Neves Cordeiro, Pedro Norton dos Reis e Rui da Silva Pires, do 3º CEORN e, em 1968, a António Luís Marinho de Castro (8º), e 10 Medalhas das Campanhas das Forças Armadas, atribuídas em 1964 a José Martins Figueira (4º), em 1968 a Rogério Bordalo da Rocha (8º), em 1970 a José Vieira de Sá (11º) e a Ricardo Migães de Campos (11º), em 1972 a José Rasquilha de Abreu (15º), em 1974 a António Gravata Filipe (17º), Francisco Cascabulho Tomé (17º) e HerculanoMarques Ferreira (18º) e, em 1976, a Carlos Magalhães Oliveira (21º) e a António José de Oliveira Brás (23º).

Evocada pelo Vice Almirante Castanho Paes a memória de Francisco Cascabulho Tomé, entretanto falecido, foi guardado um minuto de silêncio, tendo a condecoração sido entregue a seu filho Francisco Tomé.




Entrega da condecoração a Francisco Tomé em representação de seu pai

As palavras de Alfredo Lemos Damião, pela AORN, realçaram o simbolismo da cerimónia e o significado da passagem dos RN pela Marinha, mesmo em circunstâncias difíceis, sem cuidar de recompensas. O facto de muitos dos agraciados se encontrarem na situação de licenciados quando a publicação em OA se verificou, originou o desconhecimento da concessão das respectivas medalhas.

Em nome dos condecorados, António José de Oliveira Brás, último Comandante do NRP «Rigel», uma das lanchas da classe Bellatrix em serviço em Angola, cumprindo por praxe o “direito ao mais moderno usar da palavra”, em sentido improviso agradeceu à Marinha a cerimónia e recordou a figura do Vice-Almirante Jaime Barata Botelho, Vice-CEMA, recentemente falecido, que fora o seu último Comandante em Angola e a quem o ligavam laços de muita amizade, nascida nessa época de comissão e continuada em Lisboa, ao longo de váriosanos.




António Oliveira Brás agradecendo, em nome dos condecorados

O Vice Almirante Jaime Barata Botelho, que a Marinha recorda com muita saudade, foi também para a Reserva Naval, desde sempre e mais recentemente para a AORN, quer como Director do ISNG, quer no Estado-Maior da Armada, um Amigo Grande.

Diversos oficiais de Marinha associaram-se à cerimónia, que contou ainda com familiares e amigos dos condecorados.

Na ocasião, o Vice-Almirante Castanho Paes dirigiu aos presentes as seguintes palavras: «É para mim uma grande honra e é também com muito prazer que o faço, presidir em nome do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, a esta cerimónia de entrega de condecorações a ex-oficiais da nossa saudosa Reserva Naval. E digo “saudosa Reserva Naval”, não só por referência ao passado, ao considerar a reconhecida utilidade e mérito que a sua existência trouxe à Marinha, designadamente numa época em que o País passou pelas conhecidas dificuldades políticas e sociais que caracterizaram a situação nacional durante as campanhas ultramarinas e período subsequente, mas também por referência ao próprio presente.




Herculano Marques Ferreira recebendo a sua medalha

E refiro o presente, porque no exercício das minhas funções de Superintendente dos Serviços do Pessoal, não raras vezes me tem ocorrido a ideia de quão vantajoso seria para o funcionamento da Marinha de hoje fazer ressuscitar a Reserva Naval. É que no actual quadro de funcionamento de recursos e vocações escassas com que a Marinha se defronta, face ao que crescentemente lhe tem vindo a ser exigido, dispôr-se com as facilidades de então de um válido corpo de oficiais, capaz de suprir as lacunas conjunturais dos seus quadros permanentes e, oferecendo-lhe ainda as mais valias resultantes de um alargado relacionamento com potenciais dirigentes, das mais diversas actividades e sectores da vida nacional, seria sem dúvida, como o foi no passado, um benefício de valor inestimável.

Contudo, as organizações com responsabilidades públicas não podem viver de sonhos mas sim da realidade e, nesta óptica, não estou aqui para falar das dificuldades da Marinha, mas antes de mais para saldar uma dívida dela para com um conjunto dos seus servidores que lhe dedicou um período significativo das suas próprias vidas. Um período que acarretou certamente sacrifícios pessoais para muitos mas que foi, em maior ou menor medida, compensado pela vivência de uma experiência humana, social e profissional certamente enriquecedora.




Neves Cordeiro, Silva Pires, Cmdte Rui Pires dos Santos e Pedro Norton Reis

É com certeza porque não consideraram o período do serviço prestado na Marinha como tempo perdido, que os Senhores Tenentes da Reserva Naval, que dentro de momentos vão ser condecorados, decidiram aqui comparecer. Por outro lado, gostaria de lembrar que, para além de nesta cerimónia me ter cabido a honra de representar o Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, me sinto também de certa forma como representante dos comandantes, directores ou chefes que, por razões que seria agora despropositado tentar justificar, vos não puderam impôr pessoal e oportunamente, as condecorações que merecidamente lhes foram concedidas. Porém, como mais vale tarde que nunca, bem hajam pelo vosso empenho em querer receber estas simbólicas recordações de um passado que de todo não quiseram esquecer.

Por fim, aproveito a oportunidade para pessoalmente felicitar a AORN por esta feliz iniciativa, a qual se insere no conjunto de acertados rumos que tem vindo a prosseguir na viagem que se propôs realizar. Bons ventos continuem a acompanhá-la, são os meus sinceros votos.Não queria terminar sem uma referência muito especial ao nosso camarada Dr. Francisco Cascabulho Tomé que, por fatalidade do destino já não pode estar aqui connosco senão em pensamento. A sua manifesta vontade de comparecer nesta cerimónia, apesar de já gravemente doente, não pode deixar de nos comover, pelo que revela em termos da sua estatura moral, mesmo para aqueles que, como eu, não tiveram a oportunidade de o conhecer.

À sua família, que teve a coragem de partilhar este momento connosco, apresento as sentidas condolências do Almirante Chefe do Estado Maior da Armada e as minhas condolências pessoais, pedindo a todos os presentes o favor de me acompanharem num minuto de silêncio em sua honrada memória.»




Comentários finais do autor do blogue:

Entre 1958 e 1975 tiveram lugar na Escola Naval 25 cursos de Oficiais da Reserva Naval, num total de 1.712 oficiais daquele Quadro de Complemento, distribuídos pelas várias classes de oficiais até então criadas.

No decorrer daquele período, especialmente depois de ter eclodido a Guerra do Ultramar, foram destacados para missões de serviço nos vários teatros de conflito entre LFG – Lanchas de Fiscalização Grandes, LDG – Lanchas de Desembarque Grandes, LFP – Lanchas de Fiscalização Pequenas, DFE – Destacamentos de Fuzileiros Especiais, CF – Companhias de Fuzileiros e Unidades e Serviços em terra:

Guiné: 254 oficiais;
Angola: 264 oficiais;
Moçambique: 217 oficiais;
Cabo Verde: 35 oficiais;
Macau: 1 oficial;
Timor: 2 oficiais;

A este total de 773 oficiais haverá ainda que adicionar as comissões efectuadas em unidades navais de maior porte, tais como navios-patrulhas, navios hidrográficos, fragatas, corvetas, destroyers, etc., de que não será muito fácil efectuar pesquisa ou controlo rigoroso e exaustivo. De forma proximada, quase um milhar de oficiais da Reserva Naval terão efectuado comissões de serviço no período da Guerra do Ultramar em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Macau e também Timor.

Naquela cerimónia, organizada pela AORN sob proposta do seu Secretário-Geral de então, José Augusto Paes Pires de Lima do 4.º CEORN, ele próprio tendo desempenhado as funções de comandante da LFP «Fomalhaut», qual o critério de selecção e escolha que permitiu concluir ser aquele conjunto representativo de quase um milhar de oficiais da Reserva Naval que, com toda a justiça, teriam direito a serem condecorados da mesma forma que 10 dos 14 galardoados com a Medalha Comemorativa das Campanhas das Forças Armadas?

Considerando indiscutível o elevado espírito que presidiu à organização da cerimónia ainda que reduzido a um mero simbolismo institucional - na impossibilidade de estarem presentes todos os oficiais com direito a condecoração por legislação própria - como se explica uma selecção em que, dos 14 oficiais da Reserva Naval presentes, 11 tenham desempenhado missões como Comandantes de LFP – Lanchas de Fiscalização Pequenas? Mais estreito ainda na selecção parece ser o critério de que, dos 11 oficiais acima referidos, 6 deles terem sido comandantes da LFP «Fomalhaut».

Não teria sido possível uma amostragem mais representativa e alargada entre quase um milhar de Oficiais da Reserva Naval distribuídos pelas diferentes classes e tendo desempenhado funções noutras unidades navais ou ainda em unidades e serviços em terra, seleccionados dos vários teatros em que decorreu a Guerra do Ultramar?

Como alguns que ali estiveram presentes ou representados por familiares, muitos outros já não se encontravam entre nós, impedidos pelo destino último de poderem partilhar aquele momento de elevação com a Instituição e Camaradas, o que também lhes ficou devido.




Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue, ao tempo já publicadas na Revista n.º 11 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Abril 2000, em artigo redigido por José Pires de Lima, 4.º CEORN, Secretário-Geral da AORN e também ele, antigo comandante da LFP «Fomalhaut»; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005;


mls

21 maio 2018

Moçambique, LFP «Urano» - P 1137


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Urano» - P 1137

(Post actualizado a partir de outro já publicado em 7 de Dezembro de 2016)




Dupla epopeia do transporte por terra da LFP «Urano» com a LFP «Saturno»


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Urano» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 12 de Agosto de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro e idênticas às da LFP «Júpiter»:




Depois de um período alargado de adestramento, exercícios e provas diversas, desempenhou diversas missões de apoio ao serviço de hidrografia e fiscalização da pesca durante todo o ano de 1966.

Em 9 de Junho de 1967 embarcou no NM «Beira», juntamente com a LFP «Saturno» com destino a Moçambique, tendo sido desembarcadas e postas a flutuar, junto da Ilha de Moçambique, em 14 de Julho, com o objectivo de seguirem para o Lago Niassa por via terrestre.

Atribuídas ao Comando Naval de Moçambique em 14 de Julho, ambas as lanchas foram integradas numa operação denominada de "Roaz", tendo sido aladas nos respectivos berços no Lumbo, colocadas em plataformas dos Caminhos de Ferro de Moçambique, seguindo por via ferroviária até ao Catur onde chegaram a 4 de Agosto. A viagem prosseguiu depois para Meponda por via rodoviária onde chegaram a 10 de Agosto.




Outra imagem do mesmo transporte da LFP «Urano»

Depois de algumas montagens e reabastecimentos deixaram Meponda, chegando a Metangula no mesmo dia. Passaram a estar integradas na Esquadrilhas de Lanchas do Lago Niassa com missões de fiscalização e patrulha, quer do canal Likoma - Chigoma, quer das águas entre Metangula e as fronteiras norte e sul do Lago.

Prestaram apoio a operações com os DFE e transporte de FTs, efectuando reabastecimentos e transporte de pessoal e material entre os vários pontos do Lago Niassa, com Base Naval em Metangula.

Durante quase 8 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.




Ainda uma terceira imagem do mesmo transporte da LFP «Urano»


Comandaram a LFP «Urano» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Fernando Augusto Pacheco da Costa, 7.º CEORN, 12Ago65/02Jul66;
2TEN RN João da Silva Boavida Canada, 7.º CEORN, 06Jul66/28Abr67;
2TEN RN Rogério Vieira de Sá, 9.º CFORN, 28Abr67/11Mai69;
2TEN RN António Carlos da Silva Carneiro, 17.º CFORN, 16Jun71/21Mai73;
2TEN RN José Manuel Proença Cameira, 20.º CFORN, 21Mai73/31Mar75;

Comandou a LFP «Urano» o seguinte oficial do QP:

2TEN José Maria da Silva Horta, 11Mai69/16Jun71;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «Marte», LFP «Mercúrio» e LFP «Saturno».


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue; cedência de imagens de Manuel Alves da Silva, CF 2 - Moçambique, 1962/65, em http://companhia2fz.blogspot.com/




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

18 maio 2018

Moçambique, LFP «Saturno» - P 1136


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Saturno» - P 1136

(Post actualizado a partir de outro já publicado em 7 de Dezembro de 2016)




A verdadeira epopeia do transporte por terra da LFP "Saturno"


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Saturno» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 29 de Junho de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro e idênticas às da LFP «Júpiter»:




Depois de um período alargado de adestramento, exercícios e provas diversas, desempenhou diversas missões de apoio ao serviço de hidrografia durante todo o ano de 1966.

Em 9 de Junho de 1967 embarcou no NM «Beira», juntamente com a LFP «Urano» com destino a Moçambique, tendo sido desembarcadas e postas a flutuar, junto da Ilha de Moçambique, em 14 de Julho, com o objectivo de seguirem para o Lago Niassa por via terrestre.

Atribuídas ao Comando Naval de Moçambique em 14 de Julho, ambas as lanchas foram integradas numa operação denominada de "Roaz", tendo sido aladas nos respectivos berços no Lumbo, colocadas em plataformas dos Caminhos de Ferro de Moçambique, seguindo por via ferroviária até ao Catur onde chegaram a 4 de Agosto. A viagem prosseguiu depois para Meponda por via rodoviária onde chegaram a 10 de Agosto.




Outra imagem do mesmo transporte da LFP «Saturno»

Depois de algumas montagens e reabastecimentos deixaram Meponda, chegando a Metangula no mesmo dia. Passaram a estar integradas na Esquadrilhas de Lanchas do Lago Niassa com missões de fiscalização e patrulha, quer do canal Likoma - Chigoma, quer das águas entre Metangula e as fronteiras norte e sul do Lago.

Prestaram apoio a operações com os DFE e transporte de FTs, efectuando reabastecimentos e transporte de pessoal e material entre os vários pontos do Lago Niassa, com Base Naval em Metangula.

Durante quase 8 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.

Comandaram a LFP «Saturno» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Francisco Parente Mendes Godinho, 7.º CEORN, 29Jul65/14Nov66;
2TEN RN António Roque de Andrade Afonso, 9.º CFORN, 02Jun67/04Jun69;
2TEN RN José Luis Correia Belo, 13.º CFORN, 04Jun69/17Mai71;
2TEN RN Francisco Cascabulho Tomé, 17.º CFORN, 17Mai71/15Mai73;
2TEN RN Joaquim José Tição Teixeira Sampaio, 20.º CFORN,15Mai73/14Out74;
2TEN RN Manuel Joaquim Couto Alves dos Reis, 21.º CFORN,14Out74/31Mar75;

Quadros Permanentes:

1TEN João Geraldes Freire, 14Nov66/03Dez66;
1TEN António Maria de Sá Alves Sameiro, 03Dez66/02Jun67;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «Marte», LFP «Mercúrio» e LFP «Urano».


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue; cedência de imagens de Manuel Alves da Silva, CF 2 - Moçambique, 1962/65, em http://companhia2fz.blogspot.com/




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

16 maio 2018

Moçambique, LFP «Mercúrio» - P 1135


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Mercúrio» - P 1135




A LFP "Mercúrio" a navegar


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Mercúrio» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 18 de Junho de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro:




Foi transportada para Moçambique juntamente com a LFP «Marte» a bordo do NM «Beira». Ambas foram desembarcadas e postas a flutuar junta Ilha de Moçambique em 4 de Setembro de 1965, tendo os respectivos berços sido desembarcados em Nacala, de onde foram transportados via terrestre para o Lumbo, o terminal ferroviário mais próximo.

Na noite de 17 para 18 de Setembro de 1965, no Lumbo, foi feita a primeira tentativa de encalhe dos navios nos respectivos berços que não teve êxito. Os navios voltaram ao mar e a entidade responsável pela operação - Caminhos de Ferro de Moçambique - desistiu do trabalho. De Lisboa vieram então ordens para que o Comando Naval de Moçambique assumisse a plena responsabilidade pela operação.

Em nova tentativa, de 11 para 12 de Outubro de 1965, a LFP «Mercúrio» "adormeceu" com êxito no respectivo berço e, 16 dias depois, também a LFP «Marte» foi colocada no seu berço. Acompanhadas pelos respectivos comandantes, os dois navios seguiram por via férrea, por Nampula até Catur e depois, por estrada, por Vila Cabral até Meponda, nas margens do Lago Niassa.

Após mais de 700 quilómetros de percurso a operação terminara com sucesso no dia 19 de Dezembro de 1965. Foram atribuídas ao Comando da Esquadrilha de Lanchas do Lago Niassa.

Durante mais de 9 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.

Comandaram a LFP «Mercúrio» os seguintes oficiais:

Quadros Permanentes:

2TEN José Deolindo Torres Sobral, 28Jul65/05Mai67;

Reserva Naval:

2TEN RN Manuel Alexandre de Sousa Pinto Agrelos, 9.º CEORN, 05Mai67/01Ago68;
2TEN RN João Carlos de Castro Fonseca, 9.º CFORN, 05Mai67/04Jun69;
2TEN RN Manuel Agostinho de Castro Freire de Menezes, 11.º CFORN, 01Ago68/06Mai70;
2TEN RN Jorge Manuel Canossa da Silva, 15.º CFORN, 06Mai70/16Mai72;
2TEN RN Luis Alexandre Lynce de Faria, 18.º CFORN, 16Mai72/16Out73;
2TEN RN Carlos Eduardo Campos Valgode, 21.º CFORN, 16Out73/31Mar75;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «"Marte», LFP «"Urano» e LFP «"Saturno".


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue;




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

12 maio 2018

Moçambique, LFP «Marte» - P 1134


Os Oficiais da Reserva Naval na LFP «Marte» - P 1134




A LFP "Marte" a navegar


A LFP - Lancha de Fiscalização Pequena «Marte» foi construída nos Estaleiros Navais do Mondego e aumentada ao efectivo dos navios da Armada no dia 18 de Junho de 1965.

Características, máquinas propulsoras, equipamento, armamento e lotação de acordo com o seguinte quadro:




Foi transportada para Moçambique juntamente com a LFP «Mercúrio» a bordo do NM «Beira». Ambas foram desembarcadas e postas a flutuar junta Ilha de Moçambique em 4 de Setembro de 1965, tendo os respectivos berços sido desembarcados em Ncala, de onde foram transportados via terrestre para o Lumbo, o terminal ferroviário mais próximo.

Na noite de 17 para 18 de Setembro de 1965, no Lumbo, foi feita a primeira tentativa de encalhe dos navios nos respectivos berços que não teve êxito. Os navios voltaram ao mar e a entidade responsável pela operação - Caminhos de Ferro de Moçambique - desistiu do trabalho. De Lisboa vieram então ordens para que o Comando Naval de Moçambique assumisse a plena responsabilidade pela operação.

Em nova tentativa, de 11 para 12 de Outubro de 1965, a LFP «Mercúrio» "adormeceu" com êxito no respectivo berço e, 16 dias depois, também a LFP «Marte» foi colocada no seu berço. Acompanhadas pelos respectivos comandantes, os dois navios seguiram por via férrea, por Nampula até Catur e depois, por estrada, por Vila Cabral até Meponda, nas margens do Lago Niassa.

Após mais de 700 quilómetros de percurso a operação terminara com sucesso no dia 19 de Dezembro de 1965. Foram atribuídas ao Comando da Esquadrilha de Lanchas do Lago Niassa.

Durante mais de 9 anos, a partir da Base Naval de Metangula, o navio desempenhou as mais diversas missões operacionais nas águas portuguesas do Lago Niassa.

Foi abatida ao efectivo dos navios da Armada no dia 31 de Março de 1975.

Comandaram a LFP «Marte» os seguintes oficiais:

Reserva Naval:

2TEN RN Manuel Mendes de Almeida Abecassis, 7.º CEORN, 08Jun65/05Mai67;
2TEN RN João Carlos de Castro Fonseca, 9.º CFORN, 05Mai67/04Jun69;
2TEN RN João Luis da Silva e Noronha Falcão, 13.º CFORN, 04Jun69/23Mai70;
2TEN RN José Luis Tocha Antunes dos Santos, 12.º CFORN, 23Mai70/26Out70;
2TEN RN Carlos Pedro Amorim Marques da Silva, 16.º CFORN, 26Out/16Jun71;
2TEN RN Joaquim João Ferreira Barrocas Dórdio, 17.º CFORN, 16Jun71/25Mai73;
2TEN RN Décio Mário Baganha Fernandes,20.º CFORN, 25Mai73/31Mar75;

Navios da mesma classe: LFP «Júpiter», LFP «Vénus», LFP «"Mercúrio», LFP «"Urano» e LFP «"Saturno".


Fontes:
Dicionário de Navios & Relação de Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, Edições Culturais da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas - LFP, 16º VOL, Comissão Cultural de Marinha, 2005; Texto e fotos de arquivo compilados pelo autor do blogue;




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

20 abril 2018

Guiné, Bafatá - Memória de João de Oliveira Muzanty


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Fevereiro de 2011)

João de Oliveira Muzanty - Governador da Guiné


Na Guiné, quem demandasse águas do sul, entre as barras dos rios Tombali e Cumbijã, navegaria no «Canal de Muzanty», balizado a bombordo por várias marcas radar, frente às ilhas de Como, Caiar e Catunco, ficando sensivelmente a meia distância da costa e da ilha João Vieira, a estibordo.




Canal de Muzanty num pormenor da carta do Instituto Hidrográfico CN 212, entre o Cabo Rôxo e o Cabo Verga

Com base em informação recolhida a partir do texto “Crónica Mensal da Colónia”, publicado no n.º 5, do Ano I, em Novembro de 1950, de “Ecos da Guiné”, Boletim de Informação e de Estatística, evocamos agora João de Oliveira Muzanty, uma outra figura política que merece destaque na consolidação do percurso histórico da Guiné na primeira metade do século XIX.



"Primeiro-Tenente da Armada foi provido no lugar de Governador da Guiné por Decreto de 8 de Junho de 1906, tomando posse do cargo em 13 de Agosto do mesmo ano.

Já como chefe da Missão Portuguesa de delimitação, havia permanecido na Colónia durante um período de 6 anos, conquistando então um grande prestígio, pelas suas superiores qualidades de carácter e íntegra personalidade, pelo que a sua nomeação foi alvo dos maiores aplausos e geral contentamento em toda a Colónia.

A notícia espalhou-se célere e entrou em todos os corações sedentos de justiça como um luminoso facho de esperança, naqueles tempos recuados em que a Guiné gemia ao peso de prepotências, ao grito constante de “salve-se quem puder”, o conhecido e peculiar salvo-conduto da anarquia e da desordem, o fruto das torvas ambições e da traição, as únicas benesses a esperar duma Colónia penal, como estigma maldito, o “vírus” danado desses tristes tempos, já tão distantes que se perdem nas poeiras do passado.

A sua notável acção na Colónia fez-se imediatamente sentir, regulamentando vários serviços, aumentando a cobrança do imposto indígena, fazendo uso de uma hábil política e jamais em período permanente rebeliões, e mal definida soberania no pandemónio em que a Guiné se debatia, pela sua diversidade rácica e étnica e estas separadas ainda por religiões, a manifestação humana mais séria, porque abre abismos insuperáveis e nas almas sulcos profundos.

E Oliveira Muzanty levou a grande massa indígena à compreensão das medidas adoptadas, trazendo à Colónia como que uma espécie de tréguas, um período de repouso na azáfama guerrreira tão tradicional, como endémica.

Oliveira Muzanty foi, na verdade, um grande Governador da Guiné, o homem da situação, o oficial destemido e prudente como o momento o aconselhava.

Marcou positivamente uma época e, apesar da efêmera governação, prestou à Colónia os mais relevantes serviços. Bem justa , pois, a homenagem que lhe foi prestada, erguendo-se-lhe monumento condigno, de linhas sóbrias mas elegantes.




Estátua erigida em Bafatá e evocativa do antigo Governador(1906-1909), 1.º Tenente Oliveira Muzanty.



A sua inauguração foi levada a efeito no dia 28 de Maio, na linda e progressiva Vila de Bafatá, revestindo-se o acto da maior solenidade.

Foi uma evocação histórica de 41 anos, sentida homenagem da Colónia um dos seus grandes obreiros e lídimo percursor. A iniciativa pertencente ao Exmº Senhor Comandante Sarmento Rodrigues, quando Governador da Guiné, Ilustre Ministro das Colónias e, como tantas outras, que traduz a sensibilidade do seu espírito sempre iluminado por ideias nobres e generosas, não se alheando nunca ao sentido patriótico que de todas as iniciativas se desprende, ficando a Colónia a dever a Sua Excelência mais esta magistral lição de civismo e amor pátrio, porque é a história em marcha em vénia respeitosa perante os grandes portugueses, merecedores do culto da Pátria, o abraço fraternal do passado com o presente, o render da guarda para o futuro.

Também o actual Governador da Colónia, Engenheiro Raimundo Serrão, dispensou à obra todo o calor do seu apoio, o impulso forte da sua acção e dinamismo, o que tornou possível que a obra figurasse no programa festivo da Revolução Nacional que, com tanto brilho, se solenizou neste ano.

É que a revolução continua firme nos seus propósitos e a sublimar-se sempre, e mais, nos seus próprios desígnios.

Foi obra do escultor António Duarte e do arquitecto Fernando Pessoa e o monumento, no seu conjunto, constitui uma concepção feliz de arte e beleza.




Após o final da guerra, a República da Guiné-Bissau sofreu das normais vicissitudes resultantes da alteração de regimes políticos por via dos conflitos armados, e foram vários, com adaptação da sociedade civil a transformações sociais profundas, marcadas pela necessidade de eliminar quaisquer vestígios físicos, históricos ou arquitectónicos, nascidos durante a vigência ou pela mão de outro regime anterior considerado hostil.




Em cima, no ano de 1995, a estátua já desmantelada e, em baixo, em 2008, a base do monumento. Por detrás, o tribunal vendo-se ainda à direita o mercado árabe



Lá, também como cá, ou em qualquer outro local de convulsões sociais, a memória histórica não é susceptível de ser apagada por mera vontade de momento, mesmo que compreensivelmente alicerçada em recentes feridas de guerra, abertas de ambos os lados e ainda por sarar.

Sobreviveram pessoas, relatos, documentação e registos que darão, em devido tempo, lugar a pesquisa e investigação, cabendo a sociólogos e historiadores a construção de uma História dinâmica, sem hermetismos autocráticos.




Fontes:
Texto e fotos compilados a partir da “Crónica Mensal da Colónia”, publicado no n.º 5, do Ano I, em Novembro de 1950, de “Ecos da Guiné”, Boletim de Informação e de Estatística, gentilmente cedidos pelo Dr. Carlos Silva (Furriel Mil, CCaç 2548); foto do Alferes Mil Fernando Gouveia, CAgr 2597, Bafatá 68/70; Carta Hidrográfica CN 212 do Instituto Hidrográfico (pormenor);


mls

19 abril 2018

Guiné, 1968 - Campanha de promoção da época...


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Janeiro de 2011)

Campanha de promoção na forma de postais do SPEME
(Serviços Postais do Estado-Maior do Exército)




Juntos?... e houve vencedores?



sem comentários... a própria imagem os sugere!



Fontes:
Texto e fotos de arquivo do autor do blogue com original cedido por Carlos Fernando Carlos Dias Souto (CMG);


mls