18 setembro 2019

Biblioteca Central da Marinha - Os 50 anos de aumento ao efectivo da LFG “Cassiopeia”


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 21 de Março de 2014)

Mostra bibliográfica e documental sob o título 50 Anos volvidos sobre o aumento ao efectivo da LFG «Cassiopeia»





Em 13 de Janeiro de 2014 foi inaugurada na Biblioteca Central da Marinha uma mostra bibliográfica e documental sob o título 50 Anos volvidos sobre o aumento ao efectivo da LFG «Cassiopeia», que esteve patente ao público até dia 22 de Março dacquele ano.

Estiveram presentes os então Director da Comissão Cultural de Marinha, Vice-Almirante Oliveira Viegas, o Director da Biblioteca Central da Marinha, Comandante Rocha de Freitas, o Director do Museu de Marinha, Comandante Costa Canas, além de outras personalidades e público não descriminado.



Na totalidade, o número de pessoas presentes pode ser entendido como excessivamente reduzido para um evento que constitui um registo importante da participação da Marinha na Guerra do Ultramar, na segunda metade do século passado, entre os anos de 1961 e 1975. Provavelmente, expressará apenas o resultado de uma divulgação antecipada pouco abrangente.

Esta parcela da memória histórica recente da Marinha de Guerra, passa inevitavelmente pelo envolvimento de meios navais da Armada com empenhada participação nos teatros de Angola, Moçambique e Guiné, onde as Lanchas de Fiscalização Grande da classe «Argos» constituiram o topo da pirâmide do dispositivo naval estacionado naqueles territórios.




Nos teatros de Angola e Moçambique, com outras características geográficas, hidrográficas e de navegação, a presença de navios de maior porte como avisos, fragatas, corvetas, navios hidrográficos e ainda os antigos destroyers, tiveram presença igualmente significativa.

Outro tanto não se não verificou na Guiné onde, devido à especificidade da hidrografia daquela antiga colónia, com grandes amplitudes de marés, enseadas, braços de mar, rios estreitos e sinuosos, assoreamentos e baixos frequentes, se vieram a revelar inadequados, pouco versáteis e com condições de navegabilidade especialmente difíceis ou mesmo impossíveis.

Representaram um indispensável apoio operacional e logístico, especialmente até 1964 e em águas costeiras safas, mas apenas a presença de meios navais de apoio e intervenção operacionais como as LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes, LDG - Lanchas de Desembarque Grandes, LFP - Lanchas de Fiscalização Pequenas, LDM - Lanchas de Desembarque Médias e LDP - Lanchas de Desembarque pequenas, construídas especificamente para aquele tipo de condições de conflito, reforçou significativamente a eficácia do dispositivo naval empenhado.

Constituído por um conjunto de unidades navais diversificadas, apelidado de “poeira naval”, ainda que não reunissem condições óptimas, foram considerados os meios suficientes para enfrentarem as difíceis condições de navegabilidade. Havia também que acrescentar manobrabilidade e versatilidade suficientes para poderem enfrentar e responderem, com eficácia, a ataques, emboscadas e flagelações movidos de locais imprevisíveis.





No conjunto do dispositivo naval, assumiram papel especialmente relevante as 10 LFG - Lanchas de Fiscalização Grandes da classe «Argos» de que a LFG «Cassiopeia» foi a quarta unidade naval a ser aumentada ao efectivo em 13 de Janeiro de 1964 e, no caso, a primeira a ser fabricada nos Estaleiros Navais do Alfeite.

Anteriormente, já a LFG «Argos», que deu o nome à classe, e as LFG «Dragão», LFG «Escorpião» e LFG «Pégaso», construídas nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, tinham sido aumentadas ao efectivo dos navios da Armada, respectivamente em 14Jun63, 17Jul63, 21Ago63 e 16Out63.

Como pode constatar-se, todas estas 4 LFG que antecederam nas datas de aumento ao efectivo a LFG «Cassiopeia», cumpriram no ano transacto os mesmos 50 anos sobre a data de aumento ao efectivo dos navios da Armada e, a seguir idêntico procedimento, seria normal que a escolha recaisse sobre a primeira unidade naval que deu o nome à classe, a LFG «Argos».




Ainda que se possa classificar esta mostra bibliográfica e documental como um primeiro e simples passo, sem lhe retirar o que de significativo tem, porque não foi levada a cabo esta acção de divulgação apenas no ano em que se comemoraram os 150 anos do Museu de Marinha e com a primeira unidade naval da classe, ou porquê a LFG «Cassiopeia» e naquela data?

Deixo a dúvida pela falta de entendimento que em mim suscitou o navio escolhido e a data.

Também nos Estaleiros Navais do Alfeite e com datas de aumento ao efectivo, respectivamente em 11Abr64, 19Jun64, 20Out64, 25Abr65 e 04Set65, foram posteriormente construídas as LFG «Hidra», LFG «Lira», LFG «Orion», LFG «Cassiopeia», LFG «Centauro» e LFG «Sagitário».

Nos diversos expositores patentes na entrada da Biblioteca Central da Marinha esteve exibida documentação diversa de que se destacam mensagens, diários náuticos, relatórios de comando, anuais ou de operações, notícia publicada sobre a Operação “Mar Verde”, relatórios de missão de fiscalização, fotos e desenhos, mapas, desenhos de construção naval, provas de mar, etc.




De forma sucinta, todos aqueles documentos representam parte de um significativo espólio à guarda do Arquivo de Marinha, que ilustra a importância daquela dezena de unidades navais na manutenção da então soberania e presença do dispositivo naval em Angola, Moçambique e Guiné, palcos da Guerra do Ultramar. Também S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde integram de forma alargado o conceito, ainda que sem conflito armado propriamente dito.

Será importante destacar especialmente a Guiné onde, entre 1969 e 1974, chegaram a estar em permanência sete das dez unidades da classe. Em 1969 e 1970 regressaram de Moçambique, as LFG «Argos» e LFG «Dragão», para onde tinham ido da Guiné em 1974, depois de ali terem sido as primeiras a estacionar, em 1973, juntamente com a LFG «Escorpião».

Verificadas a falta de condições de segurança, em situações de emboscadas sofridas, por inexistência de protecções balísticas, foram aqueles navios substituídos pelas LFG «Cassiopeia», LFG «Hidra» e LFG «Lira», já convenientemente apetrechadas à saída dos Estaleiros do Alfeite com blindagens na ponte alta, casa das máquinas, casa dos motores auxiliares e paiol de munições.

Sendo que as duas primeiras, as LFG «Argos» e LFG «Dragão» foram para Moçambique, ficando atribuídas àquele Comando Naval, a LFG «Escorpião» ficou atribuída ao Comando Naval de Angola onde permaneceu até ao final do tempo de vida operacional, alternando com algumas comissões de soberania em S. Tomé e Príncipe. Ali se lhe juntaram posteriormente as LFP «Pégaso» e «Centauro».




Uma questão também pertinente, prende-se com o facto de não ter verificado, na inauguração da mostra bibliográfica e documental, a presença de qualquer antigo comandante daqueles navios que, ao tempo, comandaram aquelas unidades, então no posto de 1.º Tenente, em vários das unidades navais e em qualquer um dos territórios mencionados.

Ainda que correndo o risco de errar, e se assim suceder aqui deixo exarado o meu pedido de desculpas pelo lapso, apenas estiveram presentes na inauguração da mostra dois oficiais imediatos, ambos da LFG «Orion», sendo que um dos Quadros Permanentes e outro da Reserva Naval, eu próprio. Participação escassa para uma mostra bibliográfica e documental sobre as LFG da classe «Argos».

Já por variadas vezes, em anteriores publicações o tema LFG da classe «Argos» foi abordado. Destacam-se, além de outros, os seguintes artigos onde são apontados algumas pistas com interesse ainda que possam ser consideradas, nos números apresentados, meras estimativas:


“...Em guarnições com 2 oficiais, 4 sargentos e 21 praças terão desfilado naquelas unidades navais próximo dos 1.800 a 2.000 homens, correspondendo a 140 oficiais, 280 sargentos e 1470 praças.....”
....
“...Desempenharam funções como Comandantes das LFG – Lanchas de Fiscalização Grandes, 67 oficiais dos Quadros Permanentes e como Oficiais Imediatos, 67 oficiais da Reserva Naval e mais outros 7 oficiais dos Quadros Permanentes. ...”

Ou ainda em:


Considero merecedora de mais cuidada e alargada abordagem institucional a temática Lanchas de Fiscalização Grandes da classe «Argos» com melhor divulgação e mais empenhada participação. De qualquer das formas, não sendo historiador ou sociólogo, mas fazendo parte de um público interessado, considero francamente positiva a mostra bibliográfica levada a cabo.

Aqui fica expresso o meu agradecimento público pelo amável convite pessoal que me foi feito então pela Exma. Sra. Dra. Isabel Beato, Chefe do Arquivo Histórico do Arquivo Central de Marinha.




Fontes:
Comissão Cultural de Marinha; Biblioteca Central da Marinha; Museu de Marinha; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG), 15º VOL, Comissão Cultural da Marinha, 2004; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP), 16º VOL, Comissão Cultural da Marinha, 2005; Setenta e Cinco Anos no Mar, Lanchas de Desembarque Grandes (LDG), Médias (LDM) e Pequenas (LDP, 16º VOL, Comissão Cultural da Marinha, 2006; Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Comandantes Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; arquivo do autor do blogue, Arquivo de Marinha e Revista da Armada


mls

11 setembro 2019

Moçambique, DFE4 - A captura de Fernando Assane

DFE 4 - Moçambique, 1967/1969

cultura&memória


Preâmbulo

O DFE4, sob o comando do signatário desta crónica, cumpriu uma Comissão de Serviço em Moçambique entre Novembro de 1967 e Dezembro de 1969.

Realizou 70 operações correspondentes a cerca de 300 dias no mato, percorrendo perto de 3.500 km (valor estimado) além das deslocações em viaturas, aviões, helicópteros, combóio, meios navais, etc.

Nesta narrativa vou recordar factos ocorridos na 8.ª Operação, baptizada com a designação de “Chave de Ouro II”, por julgar causar boa disposição a quem a quiser ler.

Por natureza, formação e para minha defesa pessoal, só recordo acontecimentos que deram satisfação e boa disposição. Apesar dos enormes esforços físicos que nos foram exigidos nunca senti que qualquer dos homens que serviram comigo manifestasse sintomas de “stress” ou outros sentimentos deprimentes. Toda a nossa actividade se desenvolvia com entusiasmo, aventureirismo e satisfação pelo dever cumprido.

O Lago Niassa, um dos maiores reservatórios de água doce do mundo, estava sob jurisdição do CDPLN - Comando da Defesa dos Portos do Lago Niassa. Considerava-se haver 3 portos com cais acostáveis: Metangula, Cobué e Meponda.

O Lago era patrulhado por lanchas, de fiscalização e de desembarque. Todos os meios navais foram transportados a partir do Oceano Índico, utilizando a linha de caminho-de-ferro e viaturas de grandes dimensões, numa epopeia que causa a maior perplexidade a quem tem curiosidade de saber como tudo se passou.


Pressupostos

Em Janeiro de 1968 dois comandantes de lanchas, em dias diferentes, comunicaram ao CDPLN terem sido flagelados com tiros de armas ligeiras, a partir duma vasta zona conhecida por Meluluca, tendo ripostado com peças de 20 mm. O controlo desta área era da responsabilidade do DFE4.

Consequentemente, o Estado-Maior do CDPLN gizou uma Ordem de Operações determinando que o DFE4 patrulhasse a referida zona para se inteirar das alterações havidas, já que era suposto estar limpa da presença de guerrilheiros.


Operação Chave de Ouro II

Iniciou-se no dia 14 de Janeiro de 1968. Saída de Metangula pelas 20:00. Dois grupos de combate, num total de cerca de 40 homens, cada um comandado pelo Comandante e Imediato, embarcados em duas lanchas de fiscalização, com todos os meios necessários e suficientes para que a operação decorresse com toda a segurança.

Navegando em total ocultação de luzes, já perto do local de desembarque, previamente determinado, cerca das 22:00, surgiu uma tempestade medonha, com ventos muito fortes, chuva grossa e intensa, raios e trovões. O desembarque, na foz do rio Lussefa, realizou-se debaixo deste temporal. Os primeiros homens, de joelhos e com as mãos abriam trilhos na areia para detectarem a presença de minas antipessoais. O distrito do Niassa era cognominado de “estado de minas gerais”!...

Já em terra, ficámos de pé, encostados às árvores existentes, procurando descansar. O solo estava com mais de 20 cm de água! Por outro lado seria muito arriscado movimentarmo-nos sem vermos nada. Os relâmpagos cegavam-nos. O temporal foi amainando e os primeiros alvores surgiram cerca das 05:00, já com o céu limpo. Imediatamente, iniciámos a deslocação em coluna de “pirilau” (fila indiana) com o grupo do Imediato à frente. Percorridos cerca de 800 metros o Comandante foi chamado à frente pois foram avistadas pegadas fresquíssimas, completas e muito bem definidas, em terra cultivada, o que indiciava terem andado por ali dois homens já depois das chuvas.

Os rastos, em passos normais, eram o testemunho de que não se tinham apercebido da nossa presença. As pegadas inflectiam para um trilho bastante batido, pelo que o grupo do Imediato se dispôs-se T, com duas MG42 nos extremos e um LGF a meio, junto a si. Enquanto o grupo do Imediato se preparava para o combate, o grupo do Comandante, sempre em linha, trepou um monte à direita por forma a flanquear uma possível base inimiga ali sediada haveria poucos dias.

Andados cerca de 200 metros, o grupo do Comandante via perfeitamente o aglomerado de palhotas novas. Houve que esperar que o grupo do Imediato se aproximasse até cerca de 30 a 40 metros. Naquela progressão foi avistado um posto de vigilância, em cima de uma árvore, desguarnecido. Em terra, o hipotético vigia “aliviava a tripa”!!! Em vez de limpar o traseiro levou a mão à espingarda, que tinha ao seu lado. Azar o seu. Gerou-se um tiroteio violentíssimo que durou aproximadamente 4 a 5 minutos. Uma eternidade para quem estava a ver o desenrolar do combate. E ao mesmo tempo, ia fazendo uns tiros certeiros. Tipo tiro ao alvo.

O acampamento era formado por 25 a 30 palhotas, estrategicamente camufladas debaixo das árvores. Após o combate, foi montada a segurança, contados os mortos, passada revista às palhotas, recolhidos armas e documentos, sendo o acampamento destruído pelo fogo. Não ficaram feridos no terreno. Presumimos que os sobreviventes os tenham levado.


A Captura

Terminada a rotina da apreensão dos materiais encontrados foi o Comandante alertado para o facto de haver um rasto de sangue na periferia, indicando um ferido em fuga precipitada, a corta mato, em direcção a sul. Os sobreviventes, levando os feridos, terão fugido por um trilho muito batido em direcção a leste.

Passados 10 a 15 minutos para descanso e para comermos, seriam perto das 07:00, encetámos a perseguição ao ferido. O sangue deixado no capim ia diminuindo, até que desapareceu. O capim partido denunciava a passagem do fugitivo. Cerca das 11:30, já com o sol a pique, chegámos à beira de uma ravina, inclinada a cerca de 60°, com o talude completamente desnudado. A 120 m, em linha recta havia uma baía, à beira do lago, onde estavam implantadas 5 a 6 palhotas.

Houve que ponderar a decisão a tomar para avançarmos num terreno sem qualquer protecção. Decidimos avançar, estendidos em linha curva, tipo meia-lua, convictos de que iríamos encontrar o ferido fugido do Lussefa. Lentamente, passo a passo, íamos avançando sempre com receio de sermos “mal recebidos”! Passada a revista às palhotas - ali havia um tufo de árvores que as encobriam - concluímos terem sido abandonadas precipitadamente, sem deixarem objectos palpáveis. Havia 9 casquinhas que eram embarcações manufacturadas a partir de troncos de árvores.




Marinheiro FZE Fernandes Cruz, Fernando Assane e Marinheiro FZE Fernando Caçador


O ferido? Sem rasto!

Foi então que entrou em acção o nosso guia intérprete que sempre nos acompanhava, o Domingos Aíde. A plenos pulmões gritou, ora em dialecto "ajaua" ora em "nianja", dizendo que sabíamos estar ali e que se não se apresentasse varríamos tudo com rajadas de metralhadora e granadas. Ao mesmo tempo garantíamos que nada de mal lhe aconteceria.

Passados cerca de 10 minutos, um dos muitos montes de pedregulhos ali existentes, parecia ter ganho vida. Afastando as pedras, surgiu um homem com cerca de 25 anos, bastante corpulento e bexigoso, tremendo como varadas verdes. As suas queixadas pareciam castanholas sevilhanas!

O Domingos Aíde, muito calmamente, apresentou o Comandante daquela tropa, garantindo que ninguém lhe faria mal. Teria que colaborar respondendo com verdade às perguntas que lhe íamos fazer. Aparentemente mais calmo, identificou-se como "Fernando Assane", nascido próximo de Nova Coimbra, que viera para ali destacado havia cerca de uma semana, com o objectivo de fazer fogo contra embarcações que passassem nas proximidades da “base do Lussefa”. Ficámos a saber que tínhamos atacado e destruído a “base do Lussefa”. Informou que falava português e que fora ferido na perna esquerda durante o tiroteio. O nosso enfermeiro desinfectou o ferimento. Não era profundo.

Ordenei que fosse buscar a sua arma. Logo uns fuzos se precipitaram com receio de que fizesse uso “indevido” da dita. Impus que seria ele a ir buscar a arma e a entregá-la. Lá foi ao amontoado de pedras e trouxe uma metralhadora com dispositivo para fogo contra aeronaves, com dimensões muito avantajadas, bastante pesada e diferente das que era suposto serem utilizadas pela Frelimo. Informou que para manusear aquele “brinquedo” tinha recebido instrução na Tanzânia.




José Cardoso Moniz (Comandante do DFE 4) e Fernando Assane

De imediato houve uma forte empatia entre o guerrilheiro e os fuzileiros. Depois das manifestações de pânico e à medida que ia acalmando, começou a aceitar alimentos consigo partilhados. Como ficou dito havia 9 casquinhas. Comunicámos com o CDPLN e pedimos para sermos reembarcados. Depois daquele tiroteio, todos os possíveis habitantes fugiram para longe. Solicitámos ainda que fosse disponibilizada uma LDP para transportar as 9 casquinhas que poderiam ser aproveitadas pelos pescadores de Metangula.


Apresentação do Prisioneiro ao CDPLN

Reembarcámos, regressámos a Metangula onde todos os oficiais, sargentos e muitas praças nos esperavam. Entre todos estava Orlando Cristina. Este, logo manifestou interesse em entrevistar o Fernando Assane. A conversa foi longa, em dialecto "nianja". O Domingos Aíde ia traduzindo.

Quando o Orlando ficou satisfeito e dispensou o Fernando este, com um sorriso matreiro, perguntou-lhe: “O senhor não se lembra de mim?”!!!

O Orlando, embasbacado e atento à fisionomia do Fernando, confessou não se lembrar. O Fernando, com uma grande lata, diz-lhe:

O senhor foi casado com a minha irmã. Sou filho do régulo…” (não me recordo do nome). O Domingos Aíde nem conseguia traduzir de tanto rir.

Depois foi a risota geral.

"Vai-te lá embora, vai-te lá embora”, disse o Orlando.

O Fernando foi entregue no Posto Administrativo de Metangula onde esteve sob prisão durante menos de uma semana. Foi-nos devolvido e integrado no DFE 4 como guia, com direito a usar a G3 sempre que saía connosco.

As casquinhas constituíram o embrião duma empresa de pesca organizada pelos Comandantes Conceição e Silva e Chuquere. Contrataram pescadores, compraram as artes necessárias e foram profícuos na pesca no Lago Niassa, onde pontificava um peixe de nome "Kapango" que chegava a pesar uns 8 kg. Uma espécie de perca do Nilo.

Esta foi uma das muitas peripécias vividas na guerra que travámos em África.

Que saudades daqueles tempos!!!




José Cardoso Moniz
Sócio Originário n.º 36 da AFZ
CMG


Fontes:
Texto e fotos já publicados na Revista "O Desembarque" n.º 21 da Associação de Fuzileiros, Junho 2015, autoria de José Cardoso Moniz (CMG FZE) comandante do DFE 4, Moçambique 1967/69;




Manuel Lema Santos
1TEN RN, 8.º CEORN, 1965/1972
1966/1968 - LFG "Orion" Guiné, Oficial Imediato
1968/1970 - CNC/BNL, Ajudante de Ordens do Comandante Naval
1970/1972 - Estado-Maior da Armada, Oficial Adjunto

07 setembro 2019

51.º CFORN na Escola Naval - Juramento de Bandeira


Juramento de Bandeira do 51.º CFORN - O Dia Esperado






A foto de família do 51.º CFORN na portaria da Escola Naval




Era chegado o dia tão ansiosamente esperado e para o qual nos tínhamos preparado durante a nossa estadia na Escola Naval.

Depois de várias semanas de treino de “ordinário, hop, marche”, de “hop, dois, esquerdo, direito” e do nosso preferido “destroça”, passámos à instrução com a arma pontiaguda, o sabre, ainda não baptizado pelo Sargento Fuzileiro Talhadas, veterano de várias guerras.

Esta implicava novos movimentos, “ombro arma”, “apresentar arma” e, a favorita de todos, “funeral armas”, que foi objecto de várias piadas e valeu a um camarada, com menos destreza manual, a alcunha de “engolidor de espadas”.

O próprio material não ajudava, assistindo-se à queda de baínhas, a talins que se soltavam ou a sabres que não saíam das baínhas.

O dia 4 de Julho de 1986 acordou ensolarado e nós despertámos, com a excitação, muito antes do toque de alvorada. Já esperando e temendo as tão esperadas praxes e a formalidade da cerimónia. Não ficámos desiludidos, o toque de alvorada em estilo jazz marcou o início do dia.

Depois das lavagens e da barba feita, chegou a hora de vestir a farda de gala, não esquecendo de subir para cima da arca para não sujar as calças com pó ou pôr, cautelosamente, a perna por vestir na boca. O dolman exigia outros cuidados, prender, com cuidado, as platinas para não caírem na parada e começar sempre pelo colarinho e ir descendo.

Brancos eram também os sapatos, as luvas e o boné. No fim, verificámos se havia giz no bolso para disfarçar as nódoas em tanto branco.

Depois do pequeno-almoço reforçado, para nos precavermos de tonturas e desmaios, abastecemo-nos de pacotes de açúcar, para o mesmo fim. Em seguida fomos buscar as armas, devidamente embebidas em vaselina para não falharem na hora da verdade.

O calor do Verão afligia-nos e receávamos desmaiar e cair “de redondo”, como acontecera com um camarada um ou dois dias antes. Estragando assim fácies e roupa. Por isso procurávamos recorrer a todos os truques que nos tinham sido ensinados e que tão úteis nos foram. A brisa do rio Tejo ajudou-nos e à cerimónia, entrando por entre os botões da farda.

Depois de assistirmos, de longe, à chegada do Vice-Almirante Superintendente dos Serviços de Material, com honras militares e música, preparámo-nos para formar na parada.

Durante a mesma distraímo-nos como pudemos conversando em surdina, vendo as meninas que assistiam e mexendo sempre os dedos dos pés, para evitarmos desmaios. Depois de terminar a música, os discursos, a entrega de espadas e os prémios, desfilámos frente à tribuna. Tão alinhadinhos, tão alinhadinhos que eu na última fila tive de olhar para trás, estragando tudo e provocando uma gargalhada sonora na multidão.

Depois do “destroça”, das fotos da ordem e das despedidas, alguns de nós foram almoçar as “lulas de caldeirada” com muito molho. Nova praxe?

Daí em diante começou a nossa carreira na “Briosa”.




Mário Castro Ferro
51º CFORN


Fontes:
Texto assinado pelo autor com foto pessoal, STEN RN Mário Castro Ferro, que integrou a Classe de Especialistas do 51.º CFORN-Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval; foto de arquivo do 51.º CFORN e listagem e listagem do Curso do Anuário da Reserva Naval 1976-1992 de Manuel Lema Santos, Edição AORN 2011;


mls

01 setembro 2019

USS "Bataan" - LHD 5


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Maio de 2014)

USS "Bataan" - LHD 5 em Lisboa







O USS BATAAN (LHD 5) da classe «Wasp», é um navio de assalto anfíbio da Marinha dos Estados Unidos, com cerca de 257 metros de comprimento, 41.000 toneladas de deslocamento, 32 metros de altura e atinge uma velocidade superior a 23 nós (milhas/hora).

A guarnição conta com mais de 1.000 elementos entre Oficiais, Sargentos e Praças, além de quase 2.000 Marines.

O USS «Bataan» iniciou a actividade operacional a 20 de Setembro de 1997 e o seu nome foi inspirado na Batalha de Bataan, nas Filipinas, durante a Segunda Guerra Mundial, em homenagem à resistência americana e filipina na península com o mesmo nome. Actualmente encontra-se preparado quer para missões de assistência humanitária quer de combate, em qualquer parte do mundo.

Entre as várias tarefas humanitárias, prestou apoio após o furacão “Katrina” em 2005, sendo o primeiro a chegar ao local e a prestar assistência. Há quatro anos auxíliou ainda as vítimas do Terramoto do Haiti. Serviu em operações de combate na Guerra do Iraque em 2003.






O gigante tem uma área reservada para os veículos militares bem como uma ala hospitalar, com uma equipa de cerca de meia centena de profissionais de saúde, entre os quais seis médicos, dois cirurgiões e um dentista.

Este “mini-hospital” tem quatro salas de cirurgia, três salas de observações, uma unidade de cuidados intensivos com 14 camas e uma enfermaria com 46 (com capacidade para aumentar até mais de 200).

No Haiti, esta ala hospitalar ficou responsável pelo tratamento médico de 96 cidadãos do país, tendo tido inclusivamente o primeiro parto a bordo.

No convés do navio, que pode parecer um porta-aviões mas não o é, por não dispor de pista para descolagem, alinham-se ainda cerca de 30 aeronaves e helicópteros de diversos tipos: «CH-53E Super Stallion», «AV-8B Harriers», «MH53E Super Stallions», «MH-60SSea Hawks», «AH-IW Cobra», entre outros. Todos podem efectuar descolagem na vertical.

No conjunto, estão preparados tanto para missões de combate como para missões de ajuda.






O «LHD 5» esteve em Liboa por 3 vezes. Em 6 de Junho de 2003, durante seis dias, em 20 de Janeiro de 2010, durante cinco dias, e em 27 de Fevereiro de 2014, durante três dias.

Nesta última visita, esteve atracado no cais do Jardim do Tabaco, e a Embaixada Americana organizou uma visita guiada no dia 28 de Fevereiro ao USS «Bataan» (LHD 5) para ex-bolseiros de programas de intercâmbio do governo americano e suas famílias.

Para além da informação que recolheram sobre o navio e a sua história, os "Alumni" e seus familiares estiveram no hangar, no convés de voo e viram um grande número de aeronaves.

Todas as fotos publicadas são de arquivo autor do blogue, efectuadas em Junho de 2003, quando esteve atracado igualmente atracado no cais do Jardim do Tabaco.










A Batalha de Bataan

A "Batalha de Bataan" foi uma das primeiras e mais duras batalhas acontecidas entre norte-americanos e japoneses durante a II Guerra Mundial, no início da Guerra do Pacífico, durante a invasão das Filipinas pelo Japão em Dezembro de 1941, poucos dias após o ataque japonês a Pearl Harbour.

A batalha teve lugar na Península de Bataan, na ilha de Luzon, principal ilha das Filipinas, de Janeiro a Abril de 1942, entre as forças invasoras japonesas comandadas pelo General Masaharu Homma e os defensores norte-americanos e filipinos comandados pelo General Douglas MacArthur.

Determinados na sua defesa em Bataan e na ilha de Corregidor, uma fortaleza naval situada no meio da Baía de Manila, após a tomada da capital e da quase totalidade do país pelo exército japonês, MacArthur e os seus soldados entrincheiraram-se na península, onde durante mais de três meses lutaram atacados por terra, mar e ar, aguardando reforços (tropas, munições e provisões) a serem trazidos pela Marinha dos Estados Unidos.






Entretanto, a falta de recursos dos americanos no começo da guerra, que tiveram quase toda a sua frota no Pacífico destruída em Pearl Harbor, impediu essa ajuda e em 9 de Abril de 1942, após a partida de MacArthur para a Austrália, quando proferiu sua famosa frase: "Eu voltarei!", mais de 70 000 soldados americanos e filipinos renderam-se aos japoneses.

A queda de Bataan arrastou a tomada de Corregidor um mês depois que culminou na rendição total dos norte-americanos nas Filipinas. Porém, o tempo em que as tropas de MacArthur conseguiram resistir a um inimigo superior em armas, munições e mantimentos, permitiu aos americanos ganharem tempo para se prepararem melhor contra os japoneses nas batalhas vindouras no Pacífico, em que começariam a inverter o sentido da guerra.

A península de Bataan voltaria a ser retomada por tropas americanas e filipinos em 8 de Fevereiro de 1945, com a reocupação aliada das Filipinas e da rendição japonesa.

O ponto mais alto da ilha de Bataan, é o Monte Natiba e a sul ergue-se o monte Samat, local histórico de partida da infame Marcha da Morte durante a II Guerra Mundial.









Fontes:
http://www.uscarriers.net/lhd5history.htm e também em http://pt.wikipedia.org/wiki/Bataan


mls

31 agosto 2019

Guiné 1967 - Da Ponte ao Convés


LFP «Bellatrix»


Nota do autor do blogue:

Esta publicação, respeita texto e data em que foi publicado na revista n.º 6 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval de Jan/Mar 1998. Apenas se acrescentou a foto do autor do artigo que ao tempo da publicação não ilustrava o texto.

Manuel Henrique Vieira de Sousa Torres, o "Manecas" foi um Camarada do 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, curso de que estiveram presentes em comissões de serviço na Guiné 15 Oficiais.

Mas o "Manecas" foi muito mais do que isso. Foi também um Companheiro de sempre do bairro de Campo de Ourique, Liceu Pedro Nunes e, depois de regressarmos daquele teatro de conflito, Camarada na Direcção da AORN, onde convivemos duas décadas.

Vestiu igualmente a capa de um inexcedível organizador de convívios mensais de Oficiais presentes na Guiné no Clube Militar Naval. O destino último privou-nos do seu convívio em Agosto de 2015.

Até sempre Manecas!




Manuel Torres
Manecas da «Bellatrix»
8º CFORN - 1965



Fontes:
Ficheiro coligido da revista n.º 6 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval de Jan/Mar 1997; fotos de arquivo do autor do blogue e Arquivo de Marinha;


mls

30 agosto 2019

Angola, anos '70 - rio Zambeze


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 8 de Agosto de 2013)


Leste de Angola, rio Zambeze - Cazombo, Chilombo e Lumbala




Uma ida ao dentista...




Fontes:
Foto de arquivo por gentil cedência da Escola de Fuzileiros


mls

23 agosto 2019

Chilombo, Leste de Angola 1974 - Rainha Nhakatolo


A visita da Rainha Nhakatolo


Nhakatolo Tchissengo, acompanhada pelo príncipe consorte Alberto Candembe, alfaiate de profissão, e por Kakengue, soba do quimbo (aldeia) do Chilombo, deslocava-se em di¬reção ao aquartelamento do Destacamento n.º 6 de Fuzileiros Especiais instalado no Chilombo, na margem do rio Zambeze, no designado saliente do Cazombo, Leste de Angola, com a altivez, a simplicidade e a segurança de uma rainha. Vinha em visita oficial, no âmbito da missão habitual de governo do seu povo.

Para organizar a visita ao Destacamento e acompanhar a Rainha, foi nomeado oficial do protocolo o STEN FZE Paiva e Pona. Era a meio da manhã, quando o calor já começava a apertar. Educada e simpaticamente terá oferecido à Rainha um chá e uns scones. Mas ela, pequenina e viva, sorrindo com um olhinho maroto, pediu: “Ténénté não pode ser antes uma cérveja?” Claro que rapidamente apareceram cervejas para toda a comitiva. De notar que este bem precioso àquela hora de sol e calor era ainda mais valioso, no nosso caso, porque dispunhamos de geladeira.




A Rainha Nhacatolo


O certo é que as relações diplomáticas entre o povo Português (aqui representado modestamente pelos fuzileiros do Chilombo) e o povo dos Luenas, na pessoa da sua Rainha, se estreitaram naquela manhã de calor africano e se fortaleceram à custa de uma boa quantidade de cervejas que, só à sua conta, a senhora bebeu. Descendia de uma velha linhagem de matriarcas – em África, o poder tribal assente numa liderança feminina e transmitido pela mesma via, por direito próprio e não por contingência sucessória, foi relativamente frequente e, por isso mesmo, diverso da norma vigente das sociedades ocidentais.

Nhakatolo era a rainha dos Luenas, povo também designado por Luvale, tribos residentes no Alto Zambeze, reino cujos contornos geográficos não coincidiam com as fronteiras oficiais do terri¬tório de Angola, estendia-se por uma vasta região que ia desde uma zona a sul do Congo (de onde provinham os seus antepas¬sados) até à zona da actual Zâmbia, para lá das margens do rio Zambeze.

Na sequência das disputas fronteiriças entre os colonizadores europeus, em finais do século XIX, a fronteira de Angola acabou por ser definida por arbitragem do rei de Itália em 1905, deixando os Luenas repartidos por Belgas, Ingleses e Portugueses, em três Colónias, hoje Estados diferentes. A força de união deste povo, mantido geograficamente disperso, mas culturalmente coeso, é o resultado de uma liderança no feminino, em que sobressai a figura da rainha Nhakatolo Ngambo (falecida em 1914 e cujo túmulo, no Lucusse, é hoje monumento nacional), da neta que lhe sucedeu, Nhakatola Kutemba (falecida em 1956) e sua filha Nhakatolo Tchissengo que nos visitou.

Nhakatola Tchissengo era uma rainha que visitava o seu povo – os Luenas – com a dedicação de uma soberana que tem o dever de acompanhar os problemas dos seus súbditos, manter a coesão no seu Reino e estabelecer parcerias com as autoridades civis ou militares que, exercendo outras formas de poder num mesmo espaço territorial, eram essenciais às boas relações, à paz e ao progresso do seu povo. A linhagem de rainhas Nhakatolo tinha por tradição prosseguir uma política de diplomacia inteligente, num equilíbrio que era um misto de aceitação interessada das autoridades dominantes e de defesa dos interesses próprios e dos valores fundamentais das suas gentes. A ligação à terra, o lugar fundamental da mulher que é quem dá de comer aos filhos, a preservação da paz e das boas relações com os poderes dominantes como elemento de protecção filial e de garantia de continuidade, tornaram esta cultura tribal diferente do que seria uma liderança masculina mais beligerante.

Talvez tenha sido esta a sua força. O respeito granjeado por estas mulheres educadas para reinar, trazer a paz e prosperidade ao seu povo ao longo dos tempos e em condições políticas inconstantes e adversas, faziam da rainha Nhakatolo que conheci, uma personalidade admirável e admirada. Tal como aconteceu com a sua mãe Nhakatolo Kutemba e a sua bisavó Nhakatolo Ngambo. Tal como hoje acontece com a neta que lhe sucedeu – a atual rainha Lurdes Tchilombo NhaKatolo, de 38 anos de idade, criada e educada pela sua avó, que tomou posse em 2004, e que é ouvida com respeito pelas autoridades oficiais.




Eduardo Ricou

Conta-se uma história que muito diz sobre a personalidade da Rainha Tchissengo, passada em finais dos anos 50 do século passado. O médico português especialista em lepra Eduardo Ricou (pai da Tereza Ricou), radicado em Angola, visitou a região habitada pelos Luenas numa campanha de vacinação.

Certo dia em que se deslocou a uma aldeia onde montou uma mesa debaixo de um frondoso embondeiro, com os seus instrumentos médicos e enfermeiros de apoio, só pode começar a tarefa depois de obtida a formal autorização da Rainha. Esta sentou-se majestosamente numa cadeira ao lado da mesa do médico, mandou içar a bandeira nacional e disse: “agora que já foi içada a bandeira portuguesa, Doutor, pode começar a consulta dos meus súbditos”.

Ou outra, em que interpelou o Governador Geral em visita ao distrito do Moxico e se queixou: “Governador, os teus elefantes causam muito prejuizo nas minhas colheitas, manda um caçador dar tiro neles”. E os ditos bichos terão sido abatidos. A este mesmo Governador terá pedido um automóvel estando disposta a pagá-lo em notas, e que, posteriormente, após obtida autorização de Lisboa, lhe terá sido mesmo oferecido.

Foi esta a “minha” rainha Nhakatolo, a que conheci em 1974, quando veio de visita a uma parte do seu povo, aquele que habitava a zona leste de Angola e que, por via disso, contactou as autoridades militares aí instaladas.

Consta que tinha visitado Portugal, durante a presidência de Craveiro Lopes, numa acção de sensibilização organizada pelo regime, com quem, interesseiramente ou não, pretendia mostrar boas relações.
Naquela época residia para lá da fronteira de Angola, território da Rodésia (actual Zâmbia) e deslocava-se entre as aldeias onde os Luenas se encontravam.

Tinha autorização especial para visitar os seus súbditos em território angolano ao abrigo de um tratado de protectorado celebrado com a Coroa Portuguesa em finais do séc. XIX e que sempre foi respeitado. Foi uma das rainhas Nhakatolo que mais marcas deixou, talvez por ter tido uma vida longa e por ter passado por períodos conturbados da história de Angola. Chefiou tribos e acompanhou várias aldeias luenas durante toda a sua juventude, exercendo uma aristocracia natural enquanto a mãe reinava – foi nomeada para assumir o sobado de duas localidades autónomas: Lupache e Luvua antes da morte da sua mãe, em 1956. Sucedeu-lhe formalmente, atravessou duas guerras – a guerra do ultramar e a guerra civil – e veio a falecer em Luanda em 22 de junho de 1992, estando sepultada em Cazombo, na província do Moxico. Em sua homenagem foi inaugurado, em 2012, um lar para a terceira idade que recebeu o nome “Rainha Nhakatolo Tchissengo”.

A minha estória da rainha Nhakatolo é um simples contributo para retratar uma rainha tradicional que era uma mulher poderosa, ciente das responsabilidades de governante da sua gente, que tinha a particularidade de ser um povo que não corresponde ao conceito linear de “Uma Pátria, uma Nação, um Território”. O território civil do quadrado do Leste de Angola, desenhado a régua e esquadro, não era a pátria dos Luenas, mas apenas um local onde uma parte deles se instalara, em resultado de um processo migratório de tribos de várias etnias, de acordos e protectorados estabelecidos ao longo de séculos com os países colonizadores e com outras tribos e etnias autóctones.




Eduardo Ricou dando consulta aos leprosos na presença da rainha Nhakatolo, em 1956

A visita à povoação e a receção à Rainha foi uma festa especial a que o nosso Comandante, 1TEN EMQ (FZE) Correia Graça e restantes oficiais assistiram, mais uma vez, num concílio que debaixo de uma grande árvore reuniu os mais velhos, os mais importantes representantes dos luenas e as autoridades existentes na zona. De pé, frente à assistência, a rainha discursou em português para o seu povo, dando bons conselhos, talvez cautelas para com o colonizador… mas acreditamos que fossem no espírito de manter o bom relacionamento, usufruindo dos bens possíveis (saúde e educação que, sendo escassas, sempre havia). Desse discurso retivemos três notas: “Os caçadores, quando encontrarem pessoas estranhas, nas suas caçadas, devem informar os fuzileiros. Os pescadores, quando também avistarem pessoas estranhas à povoação, devem informar os fuzileiros. E vós p... lembrem-se que os fuzileiros não têm aqui mãe, nem mulher, nem namorada e, por isso, devem tratá-los bem...”.

Depois, houve batuque pela noite fora… Este ritual tradicional, festa que une os Luvale (Luenas) e é um marco da preservação da sua cultura, realiza-se actualmente no dia do falecimento da rainha Chissengo.

Na era colonial, realizava-se em Chilombo ou em Lumbala, no período da guerra civil passou para a Zâmbia devido às disputas entre o MPLA e a UNITA e, actualmente, regressou ao leste de Angola, saliente do Cazombo, capital Luena.





José António Ruivo
Sócio Originário n.º 836
CMG FZE Ref.


Fontes:
Texto e fotos compilados da revista «O Desembarque» nº 24 da Associação de Fuzileiros, Junho 2016, página 35, sob o título «cultura&memória», com a devida vénia em http://www.associacaofuzileiros.pt;


mls

21 agosto 2019

Almoço de antigos Comandantes da LFP "Espiga" no Clube Militar Naval - 20130521


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Maio de 2013)


Foi no dia 21 de Maio de 2013, 3.ª feira, no Clube Militar Naval





A LFP «Espiga» foi uma das 5 LFP da classe «Bellatrix» que, durante a Guerra do Ultramar, permaneceu no teatro de Angola. O seu historial resumido já aqui foi publicado e pode ser consultado em:


Ao tempo, recebemos a seguinte comunicação do antigo Oficial da Reserva Naval, 2TEN RN José Luis Brandão, 17.º CFORN:



"...

Conforme estava combinado, na terça-feira, dia 21, realizou-se um encontro de veteranos Comandantes da LFP “Espiga”, que teve lugar no Clube Militar Naval e contou com a presença de 7 dos oficiais, todos segundos-tenentes da Reserva Naval, que comandaram aquela lancha de fiscalização entre 1961 e 1975, a saber:

2TEN RN José Manuel Carvalho Garcia e Costa, 4.º CEORN, 17Abr63 a 07Set65;
2TEN RN Carlos Manuel Lopes de Carvalho, 7.º CEORN, 07Set65 a 26Abr67;
2TEN RN Amadeu Nelson Contente Mota, 9.º CFORN, 26Abr67 a 09Mai69;
2TEN RN Júlio Domingues Pedrosa Luz de Jesus, 13.º CFORN, 09Mai69 a 01Jun71;
2TEN RN José Luís Cardoso de Meneses Brandão, 17.º CFORN, 01Jun71 a 27Mai72 e 03Jul72 a 15Mai73;
2TEN RN João José Galhardas Vermelho, 20.º CFORN, 15Mai73 a 10Nov74;
2TEN RN José Manuel Nogueira Soares, 23.º CFORN, 10Nov74 a 30Set75;

O primeiro oficial da Reserva Naval a comandar a LFP «Espiga», foi o 2TEN RN Rui Horácio Silva Pires, que serviu na Esquadrilha de Lanchas do Zaire entre 1961 e 1963 e, lamentavelmente, já não se encontra entre nós.

No final do almoço, tivemos o privilégio de contar com a presença do Almirante Isaías Gomes Teixeira, oficial dos Quadros Permanentes, à época também segundo-tenente. Recebeu a LFP «Espiga» em Luanda e comandou-a durante as duas primeiras semanas de estadia em Angola, ainda estacionada em Luanda e navegando apenas em patrulha no rio Quanza. Encontrava-se no Clube Militar Naval num almoço convívio semanal do curso pessoal, e juntou-se a nós antes do final do nosso repasto.

Além das muitas histórias e recordações evocadas durante este reencontro, maioritariamente contemplando os nossos tempos passados em Santo António do Zaire (Sazaire), fomos brindados com a excelente companhia do Almirante Gomes Teixeira que connosco partilhou também alguns episódios da sua vida de marinheiro, em particular desvendando-nos a forma como ocorreu a sua tomada de posse como Comandante da “Espiga”, tendo ficado acordado que, conforme seu pedido que será por nós atendido com o maior gosto, será convocado, como “membro de pleníssimo direito”, para se apresentar no próximo encontro que vier a juntar o grupo que hoje se reencontrou.




Do evento junto uma fotografia que, apesar das condições de fraca iluminação permite identificar, da esquerda para a direita: Almirante Gomes Teixeira; João Galhardas Vermelho; Júlio Pedrosa; Amadeu Contente Mota; José M. Garcia e Costa; Carlos Carvalho; José Luís Brandão e José M. Nogueira Soares.

José Luís Brandão
17.º CFORN
..."


Fontes:
Texto e foto do 2TEN RN José Luís Cardoso de Meneses Brandão, 17.º CFORN; foto da LFP «Espiga» arquivo do autor do blogue;



mls

19 agosto 2019

LFP «Bellatrix», bons velhos tempos


Bons velhos tempos na LFP «Bellatrix»



Nota do autor do blogue:

Esta publicação, respeita texto e data em que foi publicado na revista n.º 3 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval de Jan/Mar 1997. Apenas se acrescentaram algumas fotos que ao tempo da publicação não ilustravam o texto.

Manuel Henrique Vieira de Sousa Torres foi um Camarada do 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval, curso de que estiveram presentes em comissões de serviço na Guiné 15 Oficiais. Mas o "Manecas" foi muito mais do que isso. Foi também um Companheiro de sempre do bairro de Campo de Ourique, Liceu Pedro Nunes e, depois de regressarmos daquele teatro de conflito, Camarada na Direcção da AORN, onde convivemos duas décadas e também um inexcedível organizador de convívios mensais no Clube Militar Naval. O destino último privou-nos do seu convívio em Agosto de 2015.
Até sempre Manecas!





A falta de tempo ou a preguiça não permitiram que concretizasse, há mais tempo, o desejo de publicar a história que vos vou contar.

O falecimento do Almirante Bustorff Guerra, ocorrido no Natal passado, forneceu-me a motivação para não adiar por mais tempo tal desejo. É a homenagem simples mas amiga, à memória de um homem com quem tive o privilégio de conviver. Tive oportunidade de apreciar as suas extraordinárias qualidades e o seu inesquecível fino trato. A amizade entre o meu Pai e o Almirante Bustorff Guerra, trouxe-me à evidência que meu Pai sabia escolher os Amigos.

Estamos na Guiné, em Janeiro de 1967. O NH «Pedro Nunes» era comandado pelo então Capitão-Tenente Bustorff Guerra, fazendo parte da guarnição, entre outros, os Primeiros-tenentes Mário Jorge Baptista Coelho, Isaías Gomes Teixeira, José Lourenço e o Jorge Mendes.

A minha amizade com o tenente Baptista Coelho vinha de longa data, enquanto que o conhecimento com os restantes oficiais mencionados só se havia travado na Guiné, onde cheguei em Junho de 1966, nomeado para comandar a LFP «Bellatrix».




LFP «Bellatrix» navega no rio Cacine, Guiné


Aconteceu em certa altura, termos sido mandados dar apoio aos trabalhos de hidrografia que o NH «Pedro Nunes» realizava algures nas águas da Guiné.

Colocados os balões de sinalização brancos e pretos, lá fomos para o local indicado para fazermos de "estação", dele regressando ao fim da tarde para acostar ao navio. A gentileza do convite diário do Comandante Bustorff Guerra para jantar permitia-me apreciar as boas iguarias que o Rua (despenseiro) nos proporcionava.

Certa noite, ao jantar, o Comandante Bustorff falava da dificuldade sentida na observação da estação "Bellatrix", devido à bruma que pairava na zona, concluindo pela razão que assistia para antigamente se pintarem os navios hidrográficos de branco. Esta mesma conversa repetiu-se por mais uma ou duas ocasiões.

Na manhã do dia 30 de Janeiro, na altura do controlo rádio das oito horas, e quando já nos encontrávamos no "ponto estação", o telegrafista informou que havia uma série de mensagens que envolviam a LFP «Bellatrix».

Pensei que a guerra havia aquecido. Para melhor se entender a trama, reproduzem-se as oito mensagens que fazem parte de um pequeno dossier que me foi oferecido pelos amigos do Pedro Nunes e, constitui peça importante do meu álbum de recordações. Só quando a meio da tarde desse dia, a LFG «Hidra» sob o comando do 1º Tenente Eurico Marques Pinto, tomou o nosso lugar na estação e nos colocaram a bordo um garrafão de 5 litros de vinho tinto e outro com 3,5 litros de vinho branco, me dei conta da brincadeira daqueles "malandros".

Como vinha sendo hábito, perto da hora de jantar, acostei ao NH «Pedro Nunes», preparado para mais um saudável convívio, desta vez com pinturas à mistura. Foi na realidade uma noite memorável, como podem imaginar.

Regressando a Bissau no fim do meu cruzeiro, apresentei-me no "briefing" habitual do fim da tarde, constatando que a sala estava cheia de oficiais, o que me levou a pensar que se haviam desenrolado operações importantes. Acabada a minha exposição, fui interpelado pelo sub-chefe do Estado Maior, Capitão-Tenente Pedro Azevedo Coutinho, insistindo comigo se não tinha mais nada a dizer.

Sentado perto do local das exposições orais estava o Comandante Sousa Guimarães que puxando os meus calções me perguntava: "Então, não houve mais nada?". Nesta altura, o comodoro Ferrer Caeiro foi chamado ao telefone abandonando a sala do briefing, perante o ar desolado de alguns dos presentes. Percebi então que o cenário havia sido preparado para uma intervenção do comodoro Ferrer Caeiro que, por certo, seria acompanhada das habituais e amigas gargalhadas.

Mas, como é que em Bissau se havia conhecido a história? Ora era simples de adivinhar quem havia dado aos dentes, pois o então 2º Tenente Aires da Silva que com os seus fuzileiros fazia a segurança na zona onde se estavam a realizar os trabalhos de hidrografia que nos haviam envolvido, tinha regressado a Bissau antes de mim. Passados uns dias, durante uma recepção no «Pedro Nunes» os "malandros" ofereceram ao comodoro Ferrer Caeiro, cópia do dossier compremetedor e o resultado está mesmo a ver-se qual foi...



















Conjunto de mensagens trocadas entre os vários comandos...

Se a história por si só tem imensa graça, ela reflecte um saudável ambiente de camaradagem que na época se vivia na Guiné entre os oficiais da Marinha. Resta-me deixar uma palavra amiga de agradecimento aos "malandros" que permitiram que eu tivesse material para escrever este artigo.

É por estas e por outras que ainda hoje, volvidos que são trinta anos, mantenho o orgulho e a saudade de um dia ter pertencido à Armada.




Manuel Torres
Manecas da «Bellatrix»
8º CFORN - 1965


Fontes:
Texto coligido da revista n.º 3 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval de Jan/Mar 1997; fotos de arquivo do autor do blogue e Arquivo de Marinha;


mls

16 agosto 2019

Força Naval da Marinha Chinesa, visitou Lisboa de 15 a 19 de Abril de 2013


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 16 Abril de 2013)

Fragatas «Huangshan», «Hengyang» e o navio de abastecimento «Qinghaihu», da Marinha Chinesa, estacionaram em Lisboa de 15 a 19 de Abril de 2013


Numa breve visita efectuada ao cais do Jardim do Tabaco, junto à estação de Santa Apolónia, foi possível captar algumas interessantes imagens dos navios da Marinha Chinesa, que ali estiveram estacionados de 15 a 19 de Abril de 2013.

Não só receberam as visitas com grande cordialidade e atenção como permitiram fotografar, mesmo a bordo do navio visitado, desde que no exterior.

Nos uniformes dos oficiais não é utilizado o clássico óculo de Marinha.




Navio de Reabastecimento «Qinghaihu»











Fragata «Huangshan»











Fragata “Hengyang”









Fotos do autor do blogue efectuadas aquando da visita a Lisboa da Esquadra da Marinha Chinesa de 15 a 19 de Abril de 2013;

mls

15 agosto 2019

Esquadra Naval da Marinha Chinesa visita Lisboa


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 13 Abril de 2013)

Fragatas “Huangshan”, “Hengyang” e o navio de abastecimento “Qinghaihu”, da Marinha Chinesa, visitaram Lisboa de 15 a 19 de Abril de 2013


A pedido da Liga da Multissecular Amizade Portugal-China – confirmada por telefonema para o Primeiro Secretário da embaixada da República Popular da China - se divulga a seguinte notícia:






“Instruído pelo Senhor Embaixador Huang Songfu, tenho a honra de vos informar que uma esquadra naval da Marinha Chinesa, composta pelas fragatas “Huangshan”, “Hengyang” e o navio de abastecimento “Qinghaihu”, fará uma visita amistosa a Lisboa nos próximos dias 15 a 19 de Abril.

A chegada em Lisboa está prevista para as 09:00 do dia 15,segunda-feira, no cais do Jardim do Tabaco. Depois da chegada, os navios estarão abertos para visita do público nos dias 16 a 18 de Abril, das 09:00 às 12:00, e das 14:00 às 17:30. De acordo com costumes internacionais, não será permitida porte de malas de grande tamanho, nem se pode fotografar ou filmar a bordo dos navios.



O Embaixador Huang Songfu convida todos os amigos da Liga para visitar os navios nos dias e horários indicados, para testemunhar uma outra demonstração da amizade multi-secular entre a China e Portugal.

Agradeço se puderem ajudar a divulgar esta mensagem.

Com os melhores cumprimentos,


Li Bin
Primeiro Secretário
Embaixada da República Popular da China







Após quatro meses em missões de escolta a navios civis e mercantes no Golfo de Aden, a força-tarefa da Marinha do Exército de Libertação Popular da China aportou à Grande Baía de Malta, na cidade de Valleta.

A flotilha, composta pelas fragatas tipo 054A “Huangshan” e “Hengyang” apoiadas pelo navio de reabastecimento “Qinghaihu”, está previsto que visite ainda a Argélia, Marrocos, Portugal e França antes de voltar para casa.


Fontes:
http://www.naval.com.br/blog/2013/03/28/forca-tarefa-chinesa-visita-ilha-de-malta/#axzz2QKqjGltZ, 28 de março de 2013, em Noticiário Internacional, Pirataria, Relações Internacionais, Segurança da Navegação, por Nicholle Murmel;

mls