24 outubro 2017

Angola, 1967 - Marinha no rio Cuando, Parte I


Fuzileiros e Reserva Naval no rio Cuando - Angola, 1967

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Setembro de 2009)


Em meados de 1967, pela agressividade crescente do terrorismo no leste de Angola, houve natural necessidade de reforçar o dispositivo naval naquele frente do território. Para tal, foram deslocados pelo Comando Naval de Angola para a Zona Militar Leste dois Destacamentos de Fuzileiros Especiais.

Ficou um sedeado no Chilombo, o DFE 2, na margem esquerda do rio Zambeze, com a LDP 208, armada, e outro, o DFE 11, na margem direita do rio Lungué-Bungo, junto à ponte da picada Lucusse-Luvuei, articulando-se um comando móvel e comunicações com a Zona Militar Leste, no Luzo.

Estacionada naquele teatro, a Companhia de Fuzileiros n.º 1 já tinha regressado a Luanda às INIC, deixando o rio Zaire, mantendo um pelotão destacado no rio Cuando, integrando o designado Destacmarcuando com a missão de patrulhar aquele rio e margens, disponibilizando pessoal para guarnecer a LDP 210 que, desde 29 de Junho, a Marinha manteve a navegar naquele rio.

Trajecto da LDP 210 de Luanda ao rio Cuando,
1800 Km por estrada - Maio de 1967



A LDP 210, foi uma das muitas lanchas que, num esforço hercúleo, a Marinha colocou no coração de África. Viajando a partir da costa ao longo de um percurso terrestre de 1800 km em cima de uma viatura-plataforma integrada numa coluna da Região Militar de Angola (RMA), saiu de Luanda e, passando por Salazar, Malanje, Nova Gaia, Quitapa, Xassegue, Cacolo, Lizo, Lutamba, Lucusse, Gago Coutinho, Ninda e Chiume, chegou ao rio Cuando.



Em cima o lançamento da LDP 210 e, em baixo, já a navegar.



Foi lançada em Chicove, a 9 km de Chiume, a montante de Neriquinha sofrendo o primeiro ataque logo no dia seguinte.

É da LDP 210 que se inclui o filme reportagem seguinte, provavelmente rodado em 1967 ou 1968. Apesar das dificuldades e ausência de informação é possível identificar o 2TEN RN Frederico da Luz Rebelo, oficial da Reserva Naval do 8.º CEORN e que comandava a força transportada na lancha.



O 2TEN FZ RN Frederico da Luz Rebelo

Aquele oficial foi para Angola integrado na Companhia de Fuzileiros n.º 11 (1966/1969), comandada pelo 1TEN Carlos José Saldanha Mota dos Santos, tendo como imediato o 2TEN José Alberto de Milharadas Pedro e o 2TEN Carlos Alberto Mano Simões Lopes.

Pertenceram ainda aquela unidade os 2TEN FZ RN Luis Domingos Costa Azevedo Vaquinhas, 2TEN FZ RN Manuel José Gomes dos Santos Pereira e o 2TEN MN RN João Carlos Cabral Nunes Correia todos do 8.º CEORN - Reserva Naval




Locução de Júlio Isidro.

(continua)



Fontes:
Cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, a partir de película rodada, ao tempo, com a colaboração da Marinha; Fuzileiros-Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Angola, Luis Sanches de Baêna, Comissão Cultural de Marinha, 2006; Texto e fotos de arquivo do autor;


mls

07 outubro 2017

Angola, anos 60/70 – Os Fuzileiros no rio Zaire, Parte II


Angola - Os Fuzileiros no rio Zaire

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Outubro de 2010)




Angola, rio Zaire - Duas imagens da LFP "Pollux" em fiscalização e patrulha




O pequeno trecho filmado do final desta publicação foi rodado em Angola. A LFP «Pollux» navega no rio Zaire, provavelmente no final dos anos '60 e documenta a importância que o dispositivo naval da Marinha - Unidades Navais e Fuzileiros – tinha na fiscalização e vigilância daquele curso de água.

Transportes de pessoal, abastecimentos e outras cargas faziam parte das rotinas das guarnições de Unidades Navais e Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros, garantindo a segurança de pessoas e bens transportados.

Com base em SAZAIRE – Comando de Defesa Marítima de Santo António do Zaire, onde existia uma Esquadrilha de Lanchas com unidades navais atribuídas, eram lançadas operações quer de simples fiscalização e patrulha quer actuando em conjunto com forças de Fuzileiros.

A partir de postos onde estavam sedeados ao longo do curso do Zaire, por exemplo a lendária “Pedra do Feitiço”, embarcados em LDM ou utilizando meios próprios, os botes, complementavam e apoiavam também a acção das unidades navais.

As “muilas” e os “bordoeiros” ainda hoje povoam as memórias históricas de militares que ali desempenharam missões ou populações que ali estiveram estabelecidas.

A unidade naval que participou no documento filmado, a LFP «Pollux» – P 368, foi uma Lancha de Fiscalização Pequena, cujo comando foi sempre efectuado por oficiais da Reserva Naval.






Fontes:
Texto e foto de arquivo do autor do blogue; cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, a partir de película rodada, ao tempo, com a colaboração da Marinha;


mls

04 outubro 2017

Guine 1970, DFE 21 (Parte II) - Destacamento de Fuzileiros Especiais Africanos e Reserva Naval


DFE 21 - O primeiro Destacamento de Fuzileiros Especiais da «Série 20»

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Maio de 2010)

Parte II

Operação "Mar Verde"




DFE 21 - Uma breve pausa na progressão é aproveitada para descanso





O recrutamento inicial de elementos para integrar o DFE 21 já tinha sido iniciado em Setembro de 1969. Depois de activado, em 21 de Abril de 1970, participou, até Maio, em diversas operações no sul da Guiné depois do que, conjuntamente com o DFE8, passou a estar sedeado em Vila Cacheu.

Naquelas zonas efectuou várias acções, tendo sofrido pesadas baixas entre mortos e feridos, entre os quais se incluíram alguns oficiais e sargentos. Em Agosto, depois de uma curta passagem por Buba, foi transferido para Brá, para se juntar aos preparativos que antecederam a organização da operação “Mar Verde”, já em curso na ilha de Soga e na qual viria a participar.




A sudoeste do canal do Geba, no arquipélago dos Bijagós,
a ilha de Soga, base de preparação da operação "Mar Verde".
Situada a oeste da ilha de Rubane, estão ambas encaixadas entre os canais Diogo Gomes e Bubaque


A ilha de Soga foi escolhida como local de preparação pelas condições especiais que detinha, a par de uma situação estrategicamente recatada que oferecia a possível segurança em termos do necessário secretismo. A operação, quer na planificação prévia quer na organização e execução finais, teve como estratega e Comandante o CTEN Alpoim Calvão (OTC).

O DFE 21, na estrutura inicial, teve como Comandante o 1TEN FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva que tinha ingressado nos Quadros Permanentes, na classe de Fuzileiros, depois de ter efectuado uma primeira comissão de serviço na Guiné, como terceiro oficial do DFE 4, de 1965 a 1967. Pertenceu originalmente à Reserva Naval onde integrou o 7.º CEORN.

Em 21 Junho de 1971 o comando do Destacamento de Fuzileiros Africanos, DFE 21, foi sendo parcial e progressivamente rendido, ainda que alguns dos elementos que o constituiam continuassem voluntariamente até 1 de Abril de 1973.

Foi nomeado Comandante do DFE 21 o 1TEN FZE José Manuel de Matos Moniz, também ele originário da Reserva Naval. Tinha pertencido ao 8.º CEORN e, no final do curso foi integrado no DFE 1, em Moçambique e de 1967 a 1969, depois do que concorreu aos Quadros Permanentes na classe de Fuzileiros.

Comandantes:

1TEN FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva, 7.º CEORN, ingressou nos QP;
1TEN FZE José Manuel de Matos Moniz, 8.º CEORN, ingressou nos QP;

Oficiais Imediatos:

1TEN José Maria da Silva Horta, QP;
2TEN Luis António Proença Maia, QP;
2TEN FZE RN António José Rodrigues da Hora, 11.º CFORN, ingressou nos QP;
2TEN FZE RN Manuel Maria Peralta de Castro Centeno, 19.º CFORN, ingressou nos QP;

Oficiais:

2TEN FZE José Carlos Freire Falcão Lucas, 13.º CFORN;
2TEN FZE RN Eduardo Madureira da Veiga Rica, 14.º CFORN*;
2TEN FZE Manuel José Fernandes Guerra, 15.º CFORN;
2TEN FZE RN Jaime Manuel Gamboa de Melo Cabral, 16.º CFORN;
2TEN FZE RN Francisco Luis Saraiva de Vasconcelos, 16.º CFORN;
2TEN FZE RN João Frederico Saldanha Carvalho e Meneses, 19.º CFORN;
2TEN FZE RN Cândido Alexandre Lucas, 20.º CFORN;
2TEN FZE RN José Joaquim Caldeira Marques Monteiro de Macedo, 21.º CFORN;

* Meses depois, já na Guiné, sofreu um acidente em serviço tendo de ser evacuado.




DFE 21 - A evacuação de um ferido

Consideradas as guarnições dos navios que a integraram, a força que partiu da ilha de Soga em 20 de Novembro de 1970, totalizou próximo de 600 elementos. Foram 80 homens do DFE 21 que, com mais cerca de 200 homens pertencentes à “Front Nacional de Liberation de la Guiné” (FNLG) e 150 elementos da Companhia de Comandos Africanos comandada pelo Capitão João Bacar, iniciaram a operação “Mar Verde”.

Com o reforço de aviões P2V5 da Força Aérea Portuguesa, foram transportados e apoiados por uma força naval constituída por seis unidades navais.

Delas se indicam os respectivos Comandantes e Oficiais Imediatos, a saber:

LFG «Orion» (OTC) - CTEN Alberto Augusto Faria dos Santos e 2TEN Mário Manuel da Fonseca Alvarenga Rua, QP; nela embarcou o CTEN Alpoim Calvão, Comandante da operação;

LFG «Cassiopeia» – 1TEN Fausto José do Lago Domingues e 2TEN RN Alfredo Manuel de Paiva Pacheco, 13.º CFORN;

LFG «Dragão» – 1TEN António Alexandre Welti Duque de Martinho e 2TEN RN João Manuel Nunes Vaz, 13.º CFORN;

LFG «Hidra» – 1TEN José Augusto Fialho Góis e 2TEN Duarte José Cruz de Castro Centeno, QP;

LDG «Montante» – 1TEN Luis Manuel Dias da Costa Correia e 2TEN Raul David Nunes Vieira Pita, QP;

LDG «Bombarda» – 1TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus e 2TEN RN Luis Manuel Ferreira Marques, 13.º CFORN;




Da esquerda para a direita, em Bissau: Alfredo Paiva Pacheco, Imediato da LFG «Hidra»;
João Manuel Nunes Vaz, Imediato da LFG «Sagitário», 1º TEN Arnaldo dos Santos Aguiar de Jesus, Comandante da LDG «Bombarda», José Guerreiro Banza, Comandante da LFP «Arcturus», Coutinho, Capelão Delmar Barreiros, CDMG e mais dois oficiais não identificados


Mais do que quaisquer outros considerandos estratégicos, militares, políticos e sociais que possam ter sido, ou vierem a ser invocados e memorizados em futuros considerandos filosóficos, ficou certamente para a História a libertação “concreta” de 25 militares, prisioneiros de guerra, e ainda um civil, resultado positivo inquestionável, justificativo de quaisquer decisões políticas e militares tomadas.

Nada mais valeroso e nobre do que uma missão cumprida, culminada pela libertação de reféns de guerra, devolvendo-lhes a dignidade de Homens e Combatentes ao serviço do país por que se bateram, restituindo-os à família e reconquistando-lhes a auto-estima, ambas perdidas no tempo de reclusão.

Com cunho meramente pessoal, aqui deixo exarado o meu apreço especial pela acção do DFE 21, cuja missão principal foi o ataque à prisão “La Montaigne” que levou a cabo com êxito total, não sem que deixe de ser importante tornar o apreço extensivo a todo o Comando da operação "Mar Verde", envolvendo todas as forças participantes, sem as quais não seria possível tal desfecho.

Noutra perspectiva social e política que rejeito, acompanhada de duvidosos e falaciosos argumentários, terá sido considerada como uma controversa e arriscada operação, também por nela terem sido envolvidos a quase plenitude dos meios da Marinha já empenhados num cenário guerra então mantido.

Para lá daquele assinalável resultado o grupo de assalto do 2TEN FZE RN Rebordão de Brito - grupo "Victor", com apenas 14 fuzileiros especiais e um guia, procedeu à neutralização da Marinha de Guerra do PAIGC (três vedetas e uma lancha de desembarque) e quatro lanchas torpedeiras da República da Guiné, todas acostadas no dique "La Prudence". Depois de eliminada a sentinela foram lançadas granadas para o interior das unidades navais, causando danos irreparáveis. Três delas afundaram-se de imediato e quatro incendiaram-se. Na breve escaramuça havida as nossas forças sofreram apenas um ferido ligeiro tendo provocado 24 baixas e retirado de seguida.

Melhor que quaisquer palavras, a foto abaixo ilustra um momento histórico pleno de significado. Um grupo de recém-libertados prisioneiros, depois do regresso à ilha de Soga, já em franca confraternização com a guarnição da LFG «Dragão» é fotografado na proa daquela lancha.



Desempenhava as funções de oficial Imediato da LFG «Dragão» o 2TEN RN João Manuel Vaz do 13.º CFORN. Sendo-o na realidade da LFG «Sagitário», uma imobilização prolongada desta lancha de fiscalização, muito sentido de responsabilidade assumida e camaradagem demonstradas, permitiram ao companheiro da LFG «Dragão» cumprir outros deveres na Metrópole.

De entre os prisioneiros libertados, o 2TEN João Manuel Vaz convidou um ex-prisioneiro, casualmente oficial, para com ele partilhar o jantar na LFG «Dragão». Algumas dificuldades na roupa que trazia vestida - uns parcos “slips” - criaram engulhos, rapidamente resolvidos pelo anfitrião que colocou a câmara de oficiais e alguma roupa pessoal à disposição do visitante.

A escolha incluiu uns calções e uma camisa, mas não permitiu ter em conta nem os efeitos do tempo de prisão visíveis no primeiro, nem a diferença de corpulência relativamente ao João Manuel Vaz, facto que acabou por se tornar chocantemente evidente depois de concretizada a improvisada adaptação de vestuário.

Nenhum número de roupagem resiste a regimes de clausura prolongadas com condições de privação tão humilhantes mas, quer a confrangente visão de uma camisa chegar aos joelhos quer um corpo inteiro caber numa pernas de uns calções, foram igualmente ultrapassadas sem constrangimentos.

Já à mesa, durante o jantar - um habitual peixe frito com arroz de tomate e salada - era evidente o nervosismo do convidado. Num expontâneo diálogo entabulado, quedaram também sem significado algumas dramáticas dificuldades do ex-prisioneiro na forma de lidar com garfo e faca, dando rapidamente lugar a outra forma prática de tomar uma refeição.

Opto pela dispensa de comentários ao que é por demais visível no nível de empenhamento e participação então exigido às guarnições de Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros e Unidades Navais, onde os oficiais da Reserva Naval ombrearam com os seus pares dos Quadros Permanentes ao longo de 12 anos de guerra.

DFE 21 e operação "Mar Verde", podem ser tidos apenas como mais dois tão demonstrativos quanto eloquentes exemplos. Alguns dos participantes naquela epopeia já não se encontram entre nós, mas aqui fica a evocação que os mantém presentes no nosso espírito e memória.



(final)



Fontes:
Texto compilado com a colaboração de 2TEN RN João Manuel Nunes Vaz do 13.º CFORN; Arquivo de Marinha; Operação "Mar Verde" de António Luis Marinho - Temas e Debates, 2006; Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África - Guiné de Luis Sanches Baêna, 2006; Texto e fotos de arquivo do autor;


mls

16 setembro 2017

1970 - A Marinha em Angola, Fuzileiros no Zaire, Parte I

Sentinelas do Rio – Fuzileiros no rio Zaire

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Setembro de 2009)





O rio Zaire, fronteira natural de Angola, com fortes correntes de 4 a 8 nós, foi sempre utilizado pelos terroristas para as infiltrações no território. Ao longo das 90 milhas de margem fronteiriça, cabia à Marinha, com um dispositivo naval de Lanchas e Fuzileiros a fiscalização de margens e múltiplos canais.

No pequeno trecho filmado que se apresenta, os fuzileiros embarcam na fragata «Vasco da Gama» que larga das Instalações Navais das Ilha do Cabo (INIC) em Luanda, com armas e bagagens, rumo ao norte, numa viagem que os levará aos diferentes postos de vigilância do rio Zaire.

Depois do transbordo para uma LDM – Lancha de Desembarque Média, esta unidade continuará para montante do rio, rendendo nos diferentes postos os camaradas que completaram as suas missões: Quissanga, Pedra do Feitiço, Puelo, Macala e Tridente.

Ao longo do percurso são visíveis os vestígios gravados no tempo pelas guarnições que ali passaram: “Cais construído pelo Destacamento n.º 11 FZE – os Rangers, Maio de 1965”.

Mais a montante “Homenagem dos que partem aos que ficam na defesa das fronteiras de Portugal eterno – Destacamento n.º 6 FZE”, num obelisco ali construído. No posto do Tridente também os sinais da passagem do DFE 13.

Foram dezenas os oficiais da Reserva Naval que ali cumpriram as suas missões em Unidades Navais, quer em Fragatas, LFG ou LFP, quer em Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros. A própria fragata «Vasco da Gama» é também disso um testemunho com a passagem do 2TEN RN Luis Lourenço Soares de Albergaria Ambar, 5.º CEORN que, desde 27.10.63 pertenceu à guarnição daquela unidade naval que, mais tarde, cumpriu uma comissão em Angola de Agosto de 1964 a Abril de 1966. O navio era comandado pelo então CFR Rui Ferreira Molarinho do Carmo.

O filme dirá respeito a uma outra comissão da fragata «Vasco da Gama» em Angola, de Maio de 1970 a Agosto de 1970, sob o comando do CFR António de J.B.B. de Carvalho. Haverá certamente testemunhos que o confirmem ou rectifiquem em caso de lapso.




Locução de Júlio Isidro.



Fontes:
Cópia de filme editado pelo autor ao blogue a partir de retalhos gentilmente cedidos pela Escola de Fuzileiros, a partir de película rodada, ao tempo, com a colaboração da Marinha; Fuzileiros-Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Angola, Luis Sanches de Baêna, Comissão Cultural de Marinha, 2006; fotos de arquivo do autor;


mls

02 setembro 2017

Guine 1970, DFE 21 (Parte I) - Destacamento de Fuzileiros Especiais Africanos e Reserva Naval

DFE 21 - O primeiro Destacamento de Fuzileiros Especiais da «Série 20»

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Maio de 2010)

Parte I





“….Enquadrando-se na política do Comando-Chefe das Forças Armadas na Guiné, em 21 de Abril a Marinha activou o primeiro destacamento de Fuzileiros Africanos na Guiné, o DFE 21.

Para ingressar nos quadros de Fuzileiros Especiais Africanos do Comando de Defesa Marítima da Guiné foram seleccionados 150 dos 900 voluntários que se apresentaram para servir nas forças especiais na Marinha.




Bolama - Centro de Preparação de Fuzileiros

A adesão maciça de pessoal é facilmente entendível já que era ronco ser Fuzileiro Especial e ganhava-se manga de patacão.

Na selecção de pessoal foi dada preferência aos assalariados do Comando de Defesa Marítima, dos Serviços de Marinha, guias das Unidades de Fuzileiros, impedidos das câmaras dos navios e das messes de oficiais, pessoal na generalidade familiarizado com a vida na Marinha.

Também foram admitidos estivadores e pessoal que já cumprira o serviço militar em companhias de milícias ou caçadores nativos.
Não pois preocupação de maior em seleccionar indivíduos em conformidade com o seu chão ou etnia, erro esse que foi logo detectado e corrigido posteriormente na formação do DFE 22.




Bolama - Caserna do Centro de Instrução

Foi ocupado um barracão em Bolama que, com umas apressadas adaptações passou a servir simultaneamente de coberta, sala de aula, refeitório, etc. Baseada nos planos de curso em vigor na Escola de Fuzileiros foi ministrada uma instrução acelerada e, de certo modo, improvisada.

Os oficiais e sargentos bem como alguns cabos e marinheiros eram metropolitanos, rendendo-se individualmente no final de cada comissão. A Escola de Formação de Fuzileiros então instalada passou a ser designada por “Centro de Instrução”. Para comandar a nova Unidade foi nomeado o 1TEN FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva…”


Este Destacamentos de Fuzileiros Especiais, o DFE 21, viria a tornar-se uma das Unidades de maior protagonismo na Guiné, entre 1970 e 1974. De especial relevo e importância para a estratégia de guerra então prosseguida, assumiu projecção histórica com a participação na Operação “Mar Verde”.




Um pormenor da preparação do DFE 21

O comando do DFE 21 integrou maioritariamente Oficiais da Reserva Naval sendo que, dos 14 oficiais que por lá passaram ao longo dos anos, 12 pertenceram àquela classe.

Ainda que dois daqueles oficiais, caso dos Comandantes do Destacamento, tenham ingressado nos Quadros Permanentes, também foram originários da Reserva Naval.




Fontes:
Filme editado pelo autor do blogue a partir de retalhos de filme cedidos gentilmente pela Escola de Fuzileiros, a partir de película rodada na época pelos Serviços Cartográficos do Exército em colaboração com a Marinha; extracto de texto de Fuzileiros – Factos e Feitos na Guerra de África, 1961/1974, Crónica dos feitos da Guiné, Luís Sanches de Baêna, Comissão Cultural de Marinha, 2006; fotos cedidas pelo Arquivo de Marinha.


mls

24 agosto 2017

Angola, 1973 - A corveta "Augusto Castilho"


Angola, 1973 - A corveta "Augusto Castilho" em fiscalização costeira

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Agosto de 2010)


No frame inicial, o filme apresenta como título “Angola Fiscalização F 480”, o que indicaria erradamente a fragata “Comandante João Belo” como sendo o navio participante nesta reportagem efectuada em Angola, no ido ano de 1973.




A corveta «Augusto Castilho»

Na realidade, a unidade naval focada na peça é a corveta «Augusto Castilho» – F 484, o que pode ser confirmado pelo nome, pelo número de costado e por diversas características do navio visíveis no decorrer do filme. As próprias fitas dos bonés dos elementos da guarnição são disso um testemunho.

Ao largar do cais das INIC – Instalações Navais da Ilha do Cabo podem ver-se atracadas, no mesmo cais, uma LFG – Lancha de Fiscalização Grande da classe «Argos» e um navio-patrulha da classe «Cacine».





Fontes:
Cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, a partir de película rodada, ao tempo, com a colaboração da Marinha; foto da Revista da Armada;


mls

12 agosto 2017

Memórias do 13.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval


Memórias do 13 º CFORN, 1968

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Maio de 2010)


Fazer uma caminhada pelo tempo que passou, sinto-o, é cada vez mais fácil; e, se acaso estivermos em grupo, é altamente compensador. Ao pedirem-me para procurar relatar um ou outro caso, simpático, em que estivessem envolvidos os jovens cadetes do 13º CFORN, não demorou muito a que as imagens aparecessem, depois os sons e, depois também, a saudade.

Mas, dentro do 13º CFORN, havia o 21º Curso de Fuzileiros (FZE), o qual se desenvolvia no chamado 2º ciclo do CFORN. Abordarei este em primeiro lugar.

O 21º Curso FZE era constituído por jovens oriundos de dois dos três vértices do arquipélago, grande parte dos quais já licenciados e, por isso, com experiências de vida bem diferenciadas.

A uni-los, o espírito de grupo e uma bem cuidada oposição aos instrutores, passando esta pela liderança dos mais velhos.

E, pelos instrutores passava, o terrível Xavier (o papá Xavi, nosso camarada já falecido, a quem aqui deixo expressa sentida homenagem). O então 2TEN Xavier, grande, desembaraçado, invariavelmente com uma ofensiva na mão, procurava em todas as suas deambulações pelo campo de batalha, deixar referência quanto aos especiais cuidados pelos quais se deveria reger a actuação dos Fuzileiros e quanto às tácticas a adoptar perante o Inimigo (o IN, todos se lembrarão da sigla).

1.º Mandamento:



...e, os alunos depressa entendiam a força do mandamento, pois caso não fosse praticado, chovia granada. As caminhadas pelas agrestes cotas da serra da Arrábida eram extremamente árduas e comum a distância a pique do mar.

Mesmo para a juventude de então, seria penoso procurar o meandro de estrada mais aconselhado para atravessar o alcatrão. Então que fazer? Cumprir o mandamento ou debandar com as granadas que cairiam sobre nós? Não, o melhor seria confiar numa alternativa de carácter técnico, talvez proveniente da tradicional criatividade que teimosamente nos vai acompanhando ao longo dos tempos...

Assim, o comandante do destacamento mandou cortar vários arbustos e dispô-los tipo brecha, perpendicularmente à estrada (recentemente vim a saber que a vegetação era do tipo paraclimático. Naquela altura parecia-me mais do tipo rasgante, tal o modo como se manifestava à nossa passagem. Feita a abertura, todo o destacamento atravessou em segurança!... Os instrutores não se manifestaram perante tamanha ousadia! O pior foram os minutos seguintes…

2.º Mandamento:



...os alunos entenderam; mas, o limite do seu pensamento ia mais longe e, à cautela, procuraram dar uma olhadela pela escala do oficial de serviço e saber quando é que estaria de serviço o tenente Xavier.

Vista a escala, constatámos não dispor de muito tempo para criar defesas…dois dias era muito pouco e, ainda não tínhamos completado o Manual de Minas e Armadilhas… Ninguém tinha dúvidas que o Xavier iria ao nosso alojamento (à tabanca,lembram-se?), sobressaltar o nosso tão merecido e querido descanso…

A imaginação circulou de mente em mente e, a umas quantas horas do anoitecer, já a braçadeira do oficial de serviço se procurava ajustar ao braço do Xavi, o grupo tinha encontrado as contramedidas: primeiro, dois baldes de lodo; depois, uma ligação por fio entre a porta de entrada na tabanca e o grande extintor que lhe ficava três metros à frente; por último, um grande quadro com letra bem desenhada expressando o seguinte: os Fuzileiros, frente a uma tabanca IN, (o nosso 2.º Mandamento)...

Os baldes de lodo ficariam por cima das portas de acesso aos cotes e o dito, ao ser colocado, vinha fresquinho; por sorte, um encontrava-se recheado com uma gaivota que havia praticado o seu último mergulho. Tudo preparado por altura do recolher. De momento, restar-nos-ia apenas aguardar que a noite avançasse e que o Xávi deixasse largar os seus impulsos…

O que aconteceu por volta das duas da manhã foi magnífico!... A porta abre-se, a luz acende-se e…um silvo diz-nos que a primeira armadilha havia sido accionada, acompanhado de um Oh! a confirmar os efeitos. Em paralelo, o grande quadro lembrava que um princípio táctico havia sido violado por um Fuzileiro Especial; porém, o momento não aconselhava dar cedências ao flanco…

"Sim senhor, pá, é mesmo assim pá, vejo que estão a aprender pá" – e lá cai o balde de lodo, quando a porta do cote é aberta, certamente para o Sr. Tenente felicitar a acção dos cadetes… Ao formarmos, foi a ordem recebida, qualquer coisa nos poderia acontecer.

Nada ultrapassaria a imagem multicolor do Sr. Tenente Xavier!...

A propósito da tabanca, não seria possível a sua recuperação à época, mostrando como dormíamos, como arrumávamos o nosso uniforme de licença e o nosso equipamento de combate?... Se nada se fizer, daqui a uns anos não haverá mostra de nenhum artigo, nem se poderão medir quaisquer imagens do passado... Talvez por terem uma história muito curta, os americanos preservam tudo o que tem significado e que pertenceu a ontem. Com este procedimento manterão, no futuro, imagens que os mais antigos normalmente perdem.

Quanto ao 13.º CFORN em geral, esse era constituído por jovens provenientes do então todo nacional. Para além da grande e longa formatura nocturna, na qual os Srs. oficiais Escolinhas pretendiam saber quem havia roubado o boné do Belfas (designação também carinhosa), a qual destroçou sem sucesso para o outro lado, recordo os momentos de angústia claramente sentidos pelo «cadetame» detido por motivos escolares, no fim de semana, ao verem partir de licença e, garbosamente fardados, os outros camaradas. De facto, o teste de Organização não tinha corrido bem para uns tantos.

As imagens do passado dizem-me que alguns ocupam hoje cargos importantes, mas eu prometo levar este saber para a tumba!

Para todos um grande abraço




Hernâni Vidal de Rezende
CMG FZE - 13º CFORN




Fontes:
Texto compilado e actualizado pelo autor do blogue a partir do publicado na Revista n.º 17 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Março 2004; Imagens do do autor do blogue;


mls

05 agosto 2017

Angola - Reserva Naval nos Dembos


2TEN FZE RN Manuel José de Almeida Corrêa de Barros, 5.º CEORN - Ferido em Combate nos Dembos

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 6 de Fevereiro de 2010)




O 2TEN FZE RN Manuel José de Almeida Corrêa de Barros pertenceu ao 5º CEORN e ingressou na Marinha de Guerra em 4 de Outubro de 1962.

Promovido a Aspirante RN em Maio de 1963, foi destacado para prestar serviço em Angola, no Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 6, tendo sido ferido em combate em complexa operação na região dos Dembos.

Mais tarde, veio a ingressar nos Quadros Permanentes da Marinha de Guerra - SEG.




Foi Comandante do DFE 6 o 1TEN AN João Fernandes Mendes Barata tendo como Oficial Imediato o 2TEN António Alexandre Welti Duque Martinho e 3.º Oficial o STEN FZE RN Manuel José de Almeida Corrêa de Barros.


Fontes:
Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África 1961/74 - Guiné, Luis Sanches de Baêna, 2006; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Ordem da Armada 1.ª Série n.º 26 de 3Jun1964; Arquivos do autor;


mls

30 julho 2017

STEN FZ RN António Piteira - Escola de Fuzileiros


Escola de Fuzileiros - Homenagem ao STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 21 de Dezembro de 2009)




Escola de Fuzileiros - Rua STEN FZ RN António Piteira.

No dia 18 de Dezembro de 2009 teve lugar, na Escola de Fuzileiros, em Vale de Zebro, uma singela mas significativa homenagem ao camarada da Reserva Naval António Bernardino Apolónio Piteira, pertencente ao 18.º CFORN, que morreu em combate em 3 de Junho de 1973, no Leste de Angola, Chilombo, vítima de uma emboscada inimiga, quando comandava uma coluna logística de viaturas no trajecto Chilombo – Lumbala.

A homenagem consistiu na atribuíção do nome do STEN FZ RN Apolónio Piteira à rua que liga a Parada da Escola de Fuzileiros - à qual foi recentemente atribuído o nome do Almirante Roboredo e Silva - à Messe de Oficiais.



Antigos elementos da Companhia de Fuzileiros n.º 1, junto à nova placa toponímica
na rua de acesso à Messe de Oficiais.


A homenagem, que estava integrada numa cerimónia de Juramento de Bandeira, foi presidida pelo 2.º Comandante do Corpo de Fuzileiros, CMG FZ Oliveira Monteiro, em representação do Comandante do Corpo de Fuzileiros, contando também com a presença do Comandante da Escola de Fuzileiros, CMG FZ Ferreira de Campos.




Em cima, o CMG FZ Ferreira de Campos, casal amigo de infância do STEN António Piteira, CMG FZ Oliveira Monteiro e, em baixo, a nova placa toponímica STEN FZ RN António Piteira.



A AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval fez-se representar pelo Presidente da Direcção, Joaquim Oliveira Moreira do 25.º CFORN e pelo vogal da Direcção José António Ruivo do 21.º CFORN. Participaram ainda alguns elementos da Companhia de Fuzileiros n.º 1, Unidade à qual o camarada Piteira pertencia, e um casal amigo de infância.




Em cima, o CMG FZ Oliveira Monteiro, José Ruivo, Joaquim Moreira e CMG FZ Ferreira de Campos e, em baixo, algumas das pessoas que participaram na cerimónia.



Antes de a Companhia de Fuzileiros n.º 1 – à qual pertencia o STEN FZ RN Apolónio Piteira – partir para a sua comissão em Angola, foi-lhe atribuída a missão de escoltar as ossadas de D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil), que seguiram de Lisboa para o Rio de Janeiro a bordo do paquete Funchal, especialmente fretado para o efeito.

A bordo do paquete Funchal, que foi escoltado por duas fragatas da Marinha seguiam também o Presidente da República, Almirante Américo Thomáz, e o Ministro da Marinha, Almirante Pereira Crespo.



A bordo do paquete "Funchal", com o Almirante Américo Thomáz, o Almirante Pereira Crespo e o Comando do navio, elementos da Companhia de Fuzileiros nº1;
o STEN FZ RN António Piteira é o primeiro elemento da fila de trás, à esquerda.


José A. Ruivo
CMG FZE RN - 21º CFORN


Fontes:
Texto e fotos da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval.


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28 julho 2017

Angola - Fuzileiros portugueses voltam à "Pedra do Feitiço"


5 de Dezembro de 2009 - Fuzileiros portugueses voltam à "Pedra do Feitiço"

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 23 de Janeiro de 2010)





Eh pá! Já fiz duas comissões na Pedra do Feitiço!

É com esta pilhéria ou outras de cariz semelhante que, ainda hoje, os fuzileiros mais antigos tentam impressionar os mais modernos acerca da sua pretensa antiguidade. Ficou-lhes o jeito das conversas repetidamente ouvidas durante as longas noites de serviço ou à roda das mesas de bar em que, os que andaram por terras de Santo António do Zaire, agora Soyo.

Nas décadas de 60 e 70, davam largas à sua imaginação e contavam as suas aventuras africanas em relatos naturalmente envolvidos em alguma fantasia mas, no essencial, próximos da dura realidade que a guerra impunha e, também, com o mesmo intuito de impressionar a atenta assistência.




Os fuzileiros de todos os tempos, habituaram-se a ouvir falar da Pedra do Feitiço como se de um local mítico se tratasse onde todas as incursões, mesmo que imaginárias, são permitidas e tão válidas como as mais perigosas operações reais. Quando o tema é a Pedra do Feitiço, tudo se aceita e tudo se tolera numa complacência e tolerância quase doutrinárias.

Memórias de outros cenários de África permanecem, também, bem vivas nas conversas entre fuzileiros. Basta dar uma vista de olhos pelos muitos “blogs” criados pela comunidade FZ espalhada pelo mundo para o constatar mas parece-nos que, uma das que mais pontua no imaginário FZ, é mesmo a Pedra. Por isso, foi com uma ponta de emoção que, no dia 5 de Dezembro de 2009, seis Fuzileiros Portugueses demandaram e desembarcaram na Pedra do Feitiço.




A oportunidade surgiu da necessidade de, no âmbito da Cooperação Técnico-Militar, verificar as condições de treino bilateral na área operacional onde o Batalhão FZ Angolano mantém o seu dispositivo com a missão de patrulhar e fiscalizar o rio Zaire, desde a Foz até Noqui, para conter a infiltração de estrangeiros ilegais vindos da Republica Democrática do Congo ou de outros países a norte. Mudaram os tempos, mudou o contexto mas a missão dos Fuzileiros, no essencial, mantém-se naquela zona de fronteira estratégica para Angola.

O dia 5 de Dezembro de 2009 nasceu cinzento, parecendo querer carregar, ainda mais, a emoção que de todos nós se apoderara. O comandante Loureiro Nunes (LN), uma espécie de patrocinador e cicerone, que, cumprindo missão na Pedra do Feitiço, ali passou dois anos da sua juventude, exteriorizava essa mesma emoção “ rapaziada se eu começar a falar demais, dêem-me um toque”. E vários toques….foram necessários tal a vontade de tudo dizer, de tudo mostrar, enfim, de tudo reviver.




Acompanhados pelo comandante Bamba, comandante do Corpo de Fuzileiros de Angola e outros oficiais angolanos, largámos da Base Naval do Soyo e aí vamos nós, rio acima, em duas lanchas cedidas pelo LN que, qual velho marujo, manobrava habilmente uma delas. Máxima velocidade! Temos pela frente 60 milhas e não podemos deixar de fazer uma rápida passagem pela Ilha da Kissanga para cumprimentar os Fuzos que guarnecem aquela posição. Jamais nos perdoariam tendo em conta o isolamento em que se encontram.

Vencendo a fortíssima corrente, somos envolvidos pela beleza do mangal que, numa paleta policromática, avança pela margem continuamente ponteada de pequenos povoados de pescadores. Casas, tipo palafita, assentes em estacas cravadas em chão de “mabanga” sobrepõem-se à água. Porquê? Será para aproveitar o fresco das águas? Questões de segurança? Talvez?




A paragem na ilha da Kissanga foi rápida mas valeu a pena. Cenário idílico que tivemos de deixar para trás. O objectivo principal estava ainda bastante longe. Uma chuva quente e forte deixou-nos encharcados até aos ossos mas nada de desânimos. O magnífico sol africano se encarregará de resolver o problema logo a seguir. A vista espraia-se pelo imenso estuário e, ao longe, começa a vislumbrar-se a Pedra do Feitiço num cenário magnífico de calmaria das águas, do verde da vegetação que nelas se reflecte e das construções em anfiteatro numa ponta de terra que termina em enormes rochedos. Espectacular!

Saltamos para terra, estamos na Pedra do Feitiço. Um nervoso miudinho invade-nos a todos. Passado o impacto inicial soltam-se as emoções e é um tropel de informações que o LN começa a debitar. Parecia que ainda lá estava em comissão tal o realismo dos seus relatos. Mas os vestígios da passagem dos fuzileiros portugueses por aquelas paragens são ainda bem evidentes e preservados e falam por si. Os fuzileiros angolanos respeitam o passado preservando as inscrições, os registos pessoais e, em suma, tudo o que se relaciona com a nossa passagem por aquele local.




Mais calmos, sentados debaixo do cajueiro grande, bebemos uma cuca (cerveja angolana de grandes tradições) em fraterno convívio com os fuzileiros angolanos, apreciando a tranquilidade do local, olhando o rio espelhado e vivendo aquele momento místico, provavelmente irrepetível para nós.

Rapazes! Temos de regressar! Era a voz do LN …. Apesar da corrente, agora a favor, temos as tais sessenta milhas para percorrer e o almoço com o Vice-Almirante Comandante da Região Naval Norte, no Soyo, não espera.




Deixamos a Pedra do Feitiço com a alma lavada, na plena consciência de que, ao fazer esta visita, homenageamos, muito justamente, tantos quantos por aqui passaram, estejam eles onde estiverem.


Agradecimentos:
À Marinha de Guerra Angolana que autorizou a missão e a apoiou através da preciosa colaboração do Comandante da Região Naval Norte, VALM Valentim Alberto António.
Ao comandante Loureiro Nunes, de forma emocionada, cujo apoio com meios, disponibilidade pessoal e saber, foi fundamental para o sucesso do empreendimento a que nos propusemos.


Participaram nesta expedição pela parte portuguesa:
CMG FZ RN Loureiro Nunes – 19.º CFORN, CFR FZ RN Benjamim Correia – 23.º CFORN, CTEN FZ Clemente Gil, 2TEN ST FZ Figueiredo Pereira, 1SAR FZ Basílio Perfeito e CAB FZ Correia Alvélos


Benjamim Correia
CFR FZ RN, 23º CFORN


Fontes:
Texto e fotos do CFR FZ RN Benjamim de Jesus Correia, 23.º CFORN, compilados a partir de colaboração na Cooperação Técnico-Militar com Angola, Projecto 8 – Marinha.


mls

22 julho 2017

Guiné - Acção dos Fuzileiros na Guerra do Ultramar


Os Fuzileiros na Guiné

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Fevereiro de 2010)





Em 6 de Junho de 1962 chega a Bissau o primeiro Destacamento de Fuzileiros Especiais, o DFE 2, comandado pelo 2TEN Pedro Manuel Vasconcelos Caeiro.

Numa acção, em Dezembro desse mesmo ano, aquele oficial foi o primeiro a sofrer ferimentos em combate durante a guerra do ultramar, obrigando à sua evacuação e rendição.

Até ao fim da guerra, passaram pela Guiné 24 Destacamentos de Fuzileiros Especiais aos quais devem ser acrescentados ainda três Destacamentos de Fuzileiros Africanos, os DFE 21, DFE 22 e DFE 23. Este último não chegou a ser activado.

Durante o mesmo período, integraram ainda o dispositivo militar naquele território, 11 Companhias de Fuzileiros e 3 Pelotões de Reforço.




O Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 2 de partida para a Guiné.

Do total de 74 fuzileiros mortos em combate, durante a guerra, 50 tombaram na Guiné. Assim se compreende bem o significado que este teatro teve e ainda tem para os fuzileiros.

Este pequeno filme, realizado na Guiné, pretende ser uma homenagem a todos os fuzileiros que combateram em África e, muito especialmente, aos que combateram naquele território.

Locução: Júlio Isidro


Fontes:
Filme editado e montado pelo autor do blogue a partir de original cedido pela Escola de Fuzileiros, originalmente filmado com a colaboração da Marinha; foto de "Fuzileiros - Guiné", factos e Feitos na Guerra de África, Luís Sanches de Baêna;


mls

13 julho 2017

Guine, Bissau - Exercício de Fuzileiros, anos '60


Um Exercício de Fuzileiros com início no INAB - Instalações Navais de Bissau, com locução adequada aos cenários.


Visível o transporte de um Destacamento de Fuzileiros para a ponte-cais e o embarque numa LFG-Lancha de Fiscalização Grande, a LFG "Cassiopeia", P 373.

Como mero pormenor, na largada de Bissau, pode observar-se o cumprimento do comandante da LFG, ao navio mais antigo, a fragata Nuno Tristão - F 332, atracada no exterior do cais.

Seguem-se de todas as tarefas de preparação para uma operação com transbordo para uma LDM - Lancha de Desembarque Média.

Depois, o respectivo desembarque no local agendado para a missão.

Na sequência do desembarque todas as acções que se seguiriam nessa missão imaginária com a participação de helicópteros da FAP.

Talvez alguma mediatização excessiva no armamento utilizado no exercício simulado. Qual a origem do matraquear da metralhadora pesada que se ouve?

Também a LFG "Cassiopeia", P 373, não era um «aviso» mas uma Lancha de Fiscalização Grande.






Fontes:

Filme editado e montado pelo autor do blogue a partir de cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, originalmente filmada com a colaboração da Marinha.

mls

07 julho 2017

Reserva Naval em Angola - DFE 6, 1973 / 75 (Parte II)


Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 6, «Os Tubarões»
Angola, 1973/75 – parte II


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Janeiro de 2010)

(final)



Distintivo do DFE-6, Angola 1973/75.


O 25 de Abril de 1974 apanha o DFE 6 em plena actividade operacional no Leste de Angola, Chilombo. Apenas dois dias depois o Destacamento toma conhecimento formal da Revolução, através de uma mensagem do Comando do Movimento das Forças Armadas.

Na sequência desse processo, a unidade é deslocada para Luanda entre Julho e Agosto, após o que, no dia 5 deste último mês, o aquartelamento do Chilombo é entregue a um pelotão do Exército.

A LDP 208 é deixada no Chilombo, tendo-lhe apenas sido retirada a peça anti-aérea Oerlinkon de 20 mm, o mesmo sucedendo às duas peças de protecção ao aquartelamento.




Em cima, a peça Oerlinkon de 20 mm no respectivo abrigo e, em baixo, a LDP 208 varada na margem do rio Zambeze



O deslocamento do DFE 6 para Luanda é efectuado em duas fases. Na primeira fase, ainda durante o mês de Julho, o comandante, 1TEN EMQ José Manuel Correia Graça e o 2TEN FZE RN Jorge Manuel de Pina Paiva e Pona Franco, do 21.º CFORN, com a maior parte do destacamento, seguem por via aérea, a partir da Lumbala, em aviões Nord Atlas da Força Aérea.

No início de Agosto, o imediato, 2TEN FZE RN Sérgio Tavares de Almeida, do 20.º CFORN, e o oficial do pelotão de apoio, 2TEN FZ RN Alberto José do Santos Marques Cavaco, do 20.º CFORN é integrado na CF 6, seguem em coluna de viaturas até Teixeira de Sousa (actual Luau), com o restante pessoal e todo o material pesado. Nesta cidade embarcam no comboio e seguem por via férrea até Nova Lisboa (actual Huambo), onde embarcam novamente nas viaturas, seguindo depois em coluna motorizada até Luanda.




Em cima, a estação dos caminhos de ferro de Teixeira de Sousa (Luau) e, em baixo, traçado do percurso Chilombo - Teixeira de Sousa (Luau) - Nova Lisboa (Huambo) - Luanda



Durante os cerca de oito meses em que o DFE 6 se manteve em Luanda, foi-lhe atribuída a missão de segurança e protecção do Palácio do Governo, quando era Alto Comissário o Almirante Rosa Coutinho. Esta missão surgiu na sequência de uma manifestação da população branca que terminou com uma tentativa de invasão do Palácio onde se encontrava o Almirante.




Em cima, a baía de Luanda nos anos '70 e, em baixo, igualmente em Luanda, a fortaleza de S. Miguel, onde foi arriada a última Bandeira Portuguesa



Alguns dos manifestantes conseguiram mesmo entrar numa das salas do rés-do-chão, tendo levado a que Rosa Coutinho subisse para cima de uma mesa e falasse aos manifestantes, conseguindo acalmá-los.

O Destacamento, que tinha sido incumbido de controlar a manifestação, acabou por expulsar os manifestantes e, a partir desse dia, permaneceu nas instalações de modo a evitar que novas situações deste tipo tivessem lugar.




Em cima, uma manifestação das forças políticas e, em baixo, uma individualidade de um dos movimentos de libertação



Durante este período Luanda foi palco de múltiplas manifestações levadas a cabo pelos três movimentos revolucionários, MPLA, UNITA e FNLA, que assim pretendiam mostrar a sua força nas ruas. Essas manifestações tinham invariavelmente o seu ponto alto em frente ao Palácio do Governo.




Em cima, tomada de posse do «Governo de Transição» com os três movimentos e, em baixo, Agostinho Neto no Palácio do Governo



A partir da altura em que Rosa Coutinho, como Alto Comissário em Angola, foi substituído por um oficial general da Força Aérea, Gonçalves Cardoso, a missão de segurança ao Palácio do Governo passou a estar atribuída aos Páraquedistas.

Passou então a estar-lhe atribuída a missão de segurança ao aeroporto de Luanda. No decorrer desta missão, surgiram por vezes situações complicadas devido ao permanente movimento de altas entidades dos três movimentos que chegavam ou partiam de Luanda e se faziam acompanhar dos respectivos elementos de segurança privados. Estas situações exigiam uma grande dose de bom senso e diplomacia, para evitar conflitos.




Em cima, a chegada de Agostinho Neto a Luanda, transportado desde o aeroporto num helicóptero da FAP e, em baixo, o aeroporto de Luanda



Num desses momentos, um elemento armado de uma espingarda automática Kalashnikov, colocou-se ostensivamente à entrada da sala VIP, por onde iria sair brevemente um dos dignatários do seu movimento. Apesar de lhe ser explicado que a segurança do aeroporto estava a cargo das forças portuguesas, não mostrava qualquer intenção de sair daquela posição, afirmando que estava a cumprir ordens. A forma encontrada de resolver o incidente foi chamar um fuzileiro com uma MG-42. Após comparar o tamanho das armas lá decidiu retirar-se para um local mais discreto.

O DFE 6 participou também em diversas acções de protecção da população que vivia nos muceques (os bairros da população nativa), na sequência de tumultos que ocorriam com alguma frequência, entre populares de diferentes movimentos. De referir que, nessa altura, os três movimentos se encontravam instalados na capital.

Em Novembro de 1974 o imediato, 2TEN FZE RN Sérgio de Almeida, regressa a Lisboa, tendo assumido essas funções o 2TEN FZE RN Paiva e Pona, tendo o 2TEN FZE RN José António Ruivo, do 21º CFORN, passado a desempenhar as funções de terceiro oficial. Para completar o quadro de oficiais com um quarto elemento é enviado o STEN FZE RN António Proença Martins, pertencente ao 24.º CFORN.

O Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 6 termina a sua comissão e regressa definitivamente a Portugal em Março de 1975.





Em cima, a vista actual da antiga localização do aquartelamento do Chilombo, junto ao rio Zambeze, podendo ainda identificarem-se algumas ruínas, o "kimbo" e o areal onde acostava a LDP 208 e, em baixo, uma perspectiva actual da Lumbala, cuja pista ainda se mantém operacional



José António Ruivo
CMG FZE - 21.º CFORN


Fontes:
Texto e imagens do CMG José António Ruivo - 21.º CFORN.


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